Aula miguel arroyo

3.677 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
3.677
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
27
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Aula miguel arroyo

  1. 1. Módulo 01 - Aula Inaugural – Professor Miguel Arroyo1 Aula Inaugural 12 Que bom estarmos dialogando com educadoras e educadores da infância e daadolescência. E que bom falar sobre eles, e falar sobre nós, educadoras e educadoresda infância. Sempre que falamos da infância, falamos de nós, e sempre que falamosde nós, temos que falar da infância e da adolescência com que trabalhamos. O Estatuto da Criança e da Adolescência na Escola Vamos falar sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente na escola. Eugostaria de começar, colocando esta pergunta: Quando chega o ECA, em quemomento a escola estava? Em que momento nós, docentes, estávamos? Eu acho queestávamos num momento em que havia certa resistência ao reconhecimento dainfância e adolescência como sujeitos de direitos. Não porque os professoresresistissem a reconhecer a infância e adolescência como sujeitos de direitos. Aresistência estava na própria escola. Estava no currículo. A escola e o currículo estavam pensados para preparar a criança e oadolescente como se fosse uma mercadoria para o trabalho. Esta visão do aluno comomercadoria a ser preparada, qualificada para o trabalho, nos afastava, nos distanciavada idéia do aluno como sujeito de direitos. Por outro lado, nós pensávamos a criançanão como criança, mas como futuro adulto. Eu diria que nós tínhamos dificuldade dever em cada rosto de criança ou de adolescente, uma criança ou um adolescente.Víamos um adulto. Quando chegasse este adulto, teria direitos. Mas e enquantocriança? Essa era a realidade que nós vivenciávamos quando chega o ECA. Quando elechega, cria um certo impacto e em alguns professores, uma certa rejeição. “A criançater direitos? A criança tem que aprender deveres. Se nós deixamos a criança comosujeitos de direitos, vai nos complicar”.1 Miguel Arroyo é mestre em Ciência Política e doutor em Educação. Atualmente é professortitular emérito da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).2 Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o textoescrito. 1
  2. 2. Havia uma certa rejeição à idéia de reconhecer a infância e a adolescênciacomo sujeito de direitos. Mas pouco a pouco, eu diria, que fomos avançando, e aprópria infância e adolescência, que foram se afirmando como sujeitos de direitos,foram reeducando nossa visão. Eu acho que teríamos que, ao invés de ser contra oECA, agradecer ao Estatuto que nos diz: “educadora, educador, você não estápreparando mercadoria para o trabalho, para o mercado, para o emprego, você estátratando com seres humanos concretos, que têm uma história, que têm direitos”. Estereeducar nosso olhar sobre a própria infância e adolescência, eu acho que, em parte,devemos ao ECA. Mas naquela época, já havia uma coisa muito interessante dentro de nossasescolas. Nós já tínhamos décadas de movimento docente, em que os trabalhadores daeducação se afirmaram sujeito de direitos. Direito a salário, a condição de trabalho, acarreira, a formação, a dignidade, a ser tratados como gente. Essa consciência quenós tínhamos de sermos sujeitos de direitos ajudou muito para que nósreconhecêssemos que não somente nós, mas como falava o ECA, os alunos, oseducandos, as educandas, as crianças e adolescentes também são sujeitos dedireitos. Este foi um grande salto, me parece. Por que? Porque se foi muito importanteconsiderar-nos, reconhecer-nos sujeitos de direitos, como trabalhadores da educação,ao reconhecer os educandos como sujeito de direitos, completou-se este salto. Aescola, a relação pedagógica, passou a ser uma relação de sujeitos de direitos comsujeitos de direitos. Não a relação de alguém que qualifica uma mercadoria pra omercado. Isso era muito pouco. Eu acho que o ECA trouxe dignidade para a nossa condição docente.É muito mais digno sermos profissionais da garantia de direitos, de sujeitos de direitosconcretos: Crianças, adolescentes, jovens ou adultos, do que sermos qualificadores demercadoria para o trabalho. Nesse sentido eu diria que o ECA, com todo estemovimento da afirmação da infância como sujeito de direitos, é um dos marcosfundamentais não só na sociedade, não só para reconhecer a infância e aadolescência como sujeitos de direitos, mas é um marco fundamental na escola. Aescola passa a ter que se pensar como tempo e espaço de direitos, e nós,profissionais, tivemos que nos pensar como profissionais de direitos. Eu acho que agora, quando vamos ter um curso para repensar um pouco estahistória, esta rica história do ECA em nossa sociedade, é muito importante que comoeducadoras e educadores, nós pensemos o quanto temos que agradecer ao fato de,em nossas lutas, termos avançado na consciência de nossos direitos e termos tido umEstatuto que nos chamou a atenção: “Não é suficiente você como educador, comoeducadora, se ver como sujeito de direitos. Fica incompleta esta sua imagem. É 2
  3. 3. necessário completá-la. Como? Reconhecendo que você é um profissional quegarante os direitos de crianças e de adolescentes”. O ECA afirmou, reconheceu e está ai para nos alertar até onde estamosrealmente respeitando estes direitos. Reconhecendo que cada infância, cada criança,cada aluno, na minha sala de aula, na sua sala de aula, são portadores de direitos.Esta seria uma forma muito interessante de nos aproximarmos do ECA na Escola. Já escutei falar que o que o ECA trouxe foram problemas. Que as criançasprecisam é saber dos seus direitos. Eu diria para vocês educadoras e educadores quese alguma coisa a infância, sobretudo a infância popular, teve que aprender, em nossalonga história, é que só é sujeito de deveres. Nosso povo só tinha o dever detrabalhar, de ser ordeiro, de obedecer, de agradecer. Agora o povo não quer só isso.O povo diz: “Somos sujeitos de direitos”. Se o povo se afirma sujeito de direitos, ainfância popular que chega a cada dia a nossas escolas exige também serreconhecida como sujeito de direitos. Este seria o sentido desse curso que vamos participar. Um curso em que todosnós vamos, sem duvida nenhuma, ganhar. Não só a criança vai ganhar. Insisto nesseponto. Não pense: “a criança vai ganhar porque vai ser reconhecida como sujeito dedireitos”. Não é só isso. A infância vai ganhar, e quando a infância ganha, nós,educadores, ganhamos, e quando a infância perde, nós perdemos. Nossa vida está atrelada à infância. A própria palavra “pedagogia” significa“condutores da infância”. Nossas imagens estão tão atreladas às imagens da infância,que nós somos obrigados a nos ver no espelho da infância. E se o rosto dessainfância é um rosto positivo, digno, de sujeito de direitos, podem ter certeza que anossa imagem, que vai ser refletida numa criança, num adolescente, reconhecidossujeitos de direitos, vai ser ainda mais nítida, enquanto profissionais de direitos,profissionais que podemos reivindicar e lutar por nossos direitos. Insisto nesse ponto, não tenha medo de estudar o ECA, não tenha medo de lersobre o ECA, não tenha medo de reconhecer a infância como sujeitos dignos de todosos direitos humanos. Aula Inaugural 2 Escola e Direitos Humanos: Desafios da Atualidade Vamos avançar um pouco em nosso olhar sobre o ECA, e nos perguntar sobrequais os desafios da escola, e da docência, em relação aos Direitos Humanos dainfância e adolescência que, com tanta ênfase, o ECA defende. Quais são os desafiosna atualidade? O ECA entra na escola em um momento em que havia resistências, mas emum momento em que nós já estávamos avançando, reconhecendo-nos como sujeitos 3
  4. 4. de direitos e reconhecendo a educação como direito de todo cidadão. Na luta pelaescola para todos, pela democratização da escola. Eu diria que o ECA não chegacomo um estranho, mas chega em uma escola que já tinha consciência que deveria seconstituir em um espaço e um tempo de direitos. Eu acho que a década de 90 trouxeum avanço nesta direção. Mas a pergunta que agora venho colocar é esta: na atualidade, como é queestá tudo isso? Estamos avançando? A melhor maneira de olhar se o ECA estáavançando é olhar para a infância. A questão que tem que nos preocupar está ligada adefesa da infância e da adolescência como sujeitos de direitos, à consciência sobre oavanço dos direitos nos coletivos populares, nos movimentos sociais. Esta consciênciatão rica. Talvez um dos pontos mais ricos de nossa história recente, tenha sidopensar-nos como sujeitos de direitos humanos. Se esta é uma grande vitória, uma grande conquista, o problema que nossurpreende na atualidade é que quanto mais falamos em direitos humanos, mais osdireitos humanos são negados. Nunca tivemos tanta consciência de que o ser humanoé sujeito de direitos humanos plenos, mas nunca tivemos tantos seres humanosnegados em seus direitos mais básicos. Esta realidade que é brutal em nossa sociedade tem características maisdramáticas quando pensamos na adolescência. De 1990 até agora, quase vinte anosdo ECA, avançamos na consciência de que cada criança, cada adolescente é sujeitode direitos, é um ser humano. Mas nunca tivemos tantas infâncias famintas, vitimadas,abandonadas, desprotegidas. Tantos adolescentes mortos a cada fim de semana. Aquestão que se coloca para nós, educadoras e educadores, é a ambiguidade com aqual temos que lidar. Que significa, volto a colocar a pergunta, termos avançado na consciência deque a infância e a adolescência são sujeitos de direitos e, ao mesmo tempo, oseducadores, as educadoras, perceberem a cada dia, em sua sala de aula, em suaescola, crianças famintas, filhas de pais desempregados, adolescentes que saemcorrendo do seu trabalho, ou de sua forma de sobrevivência para ir à escola? Quesignifica o professor ter que transmitir seus conhecimentos enquanto a criança ficacom o olhar perdido, como me falava uma professora, olhando de lado, esperando ahora da merenda, porque não tomou nem café, e às vezes nem jantou no dia anterior? Esta é a realidade vivida hoje pela escola. A escola hoje se defronta com umatentativa de ser espaço e tempo de direitos. A docência se defronta com a consciênciade que é profissional de garantia de direitos e, ao mesmo tempo, a infância popularque chega sobretudo à escola pública popular, chega cada vez mais quebrada emseus direitos humanos mais básicos. Como fica esta situação? O que fazer diantedestes impasses? 4
  5. 5. Eu acho que hoje, se tivéssemos que proclamar o ECA, teríamos que ser maisradicais, porque a infância e a adolescência do final dos anos 80, quando foiinaugurado este Estatuto, não tinha vidas tão depravadas, tão precarizadas, formastão violentas de viver a infância como temos hoje. Eu acho que se alguém sente demaneira bem concreta quão precarizadas são as vivências da infância e daadolescência hoje, são os educadores e educadoras da infância popular. Diante dessa realidade, qual é a nossa postura? A nossa postura, tem que ser,no meu entender, perguntar-nos quem vitimiza esta infância e adolescência? Quemnega os direitos mais elementares da infância e da adolescência? Hoje nós nãopodemos ter mais um olhar romântico sobre a infância, temos que ter um olharrealista. Não podemos ver o aluno apenas como aluno, mas vê-lo como um serhumano e perguntar-nos: e seus direitos humanos mais elementares, estãogarantidos? Não podemos olhar só os seus percursos escolares, temos que olhá-loem seus percursos humanos. Não podemos apenas nos preocupar se o direito àeducação, ao conhecimento, à herança cultural, à escola estão sendo garantidos.Temos que nos preocupar com o conjunto dos direitos humanos. Uma coisa estamos aprendendo: o direito a educação não avança sozinho,isolado do conjunto dos direitos humanos. Criança que chega a escola com fome doconhecimento, se estiver faminta de alimentos, não aprende. Hoje entendemos que odireito a educação é fundamental entre os direitos humanos, mas ele está tão atreladoa garantia do conjunto dos direitos humanos, que se nós não nos preocupamos com aquestão dos direitos humanos na escola, não damos conta do direito a educação.Este é um ponto que me parece fundamental. Este curso, estas aulas, ou estes debates que vocês vão ter, não vão falarapenas do direito à educação. Vão falar dos direitos humanos básicos. Mas vamosesquecer do direito às educação? Não é está a nossa função? Não é esta a função daescola? Sim! Mas o que vamos ter que aprender, insisto, e isto nos fala o ECA é quecada criança que chega à escola nos diz: “Professor, professora, venho aqui buscandoa garantia de meu direito à educação, mas não esqueça que venho de uma famíliapopular, meu pai desempregado, minha mãe fora de casa para buscar comida, meusirmãos, as vezes entrando nas drogas, na violência, mortos no fim de semana. Não seiqual vai ser meu futuro, meus direitos humanos não estão garantidos, professora,professor”. Como que vou garantir o direito a educação, se os direitos maiselementares: o direito à vida, à comida, à sobrevivência, à proteção, a ter um futurocom um mínino de luminosidade... Se tudo isso negaram. Sabem por que os nossos alunos não querem saber de nossas lições? Nãoporque não querem aprender. Não porque os professores não são bons. Não porque alição não é maravilhosa. Sabem por quê? Porque quando se negam os direitoshumanos mais elementares, o conhecimento perde o sentido. Não adianta falar: 5
  6. 6. ‘estuda e terás futuro’, se ele sabe que seu pai não tem futuro, sua família não temfuturo, seu irmão estudou e não tem futuro. Hoje temos que colocar a relação entre o direito a educação, ao conhecimento,à herança cultural, que é nossa função, que é função da escola, numa relação estreita,como se fosse uma espécie de novelo, de fios, onde não é possível separar um dooutro. Não é possível separar o direito a educação, da discussão da garantia doconjunto dos direitos humanos. Aula Inaugural 3 Por uma escola Educadora de Direitos Humanos Vamos passar agora a perguntas que todos nós nos fazemos, cotidianamente:Como a escola pode ser educadora de direitos humanos? Como a escola poderespeitar a infância e a adolescência como sujeitos de direitos humanos? Como adocência pode avançar para se reconhecer como profissional de direitos humanos? Euvou colocar alguns pontos que podem servir para cada um de nós, em grupo, ou comoescola, tentarmos pensar sobre esta questão tão séria: A escola pode ser um espaçode garantia, de aprendizado dos direitos humanos? 1 - A escola tem que entrar na disputa por um imaginário da infância.Escutamos a cada dia, na mídia, nos jornais, notícias que colocam a infância e aadolescência, populares é claro, nos morros, nas favelas, na rua, ‘lá embaixo’, comose fossem a escória da sociedade. Nós estamos num momento em que se paramos ocarro no sinal, fechamos o vidro. Se vamos pela rua e vemos uns garotos, negros éclaro, de chinelos, seguramos a bolsa. Estamos num momento em que o imaginário dainfância popular está ‘quebrado’. Nunca tivemos um imaginário tão negativo sobre ainfância e a adolescência populares. Eu diria que ‘ai teríamos que entrar’. Se alguémtem que ser advogado, não do diabo, mas advogado mesmo dessa infância eadolescência popular, temos que ser nós. Tem que ser a própria escola popular e adocência popular. Nós temos que mostrar que essa infância e adolescência não têm umprotagonismo tão negativo como a mídia e a sociedade proclamam. Nós temos quedefender, porque convivemos com esta infância que tem valores; que sobrevive; quese vê obrigada a trabalhar, para colaborar em casa; que cuida de seus irmãozinhos,que tem dignidade. Temos que mostrar o rosto de uma infância digna, de sujeitos de direitos, eeste é o primeiro direito: ter uma imagem digna de um ser humano. Este é um pontofundamental. Muitas vezes a escola se deixa enganar e contaminar por esseimaginário tão negativo sobre a infância popular. Às vezes dentro da própria escola,falamos mal dos alunos. Estamos chegando a um momento em que os próprios 6
  7. 7. professores e a própria escola pública (vamos falar isso baixinho), tem medo de nossaprópria infância. Isso é muito sério. Eu acho que temos que reagir. Temos que se colocar esta pergunta: O queestá acontecendo com a gente para que nos deixemos contaminar por este vírus, porestas febres que vêm da mídia, que vem, sobretudo, de um conservadorismo terrívelque há em nossa sociedade, contra todo um povo, inclusive infância, popular. Este éum ponto fundamental, que deveríamos trabalhar. 2 - Temos que reafirmar o ECA, para que não fique distante, como um ecodistante. ‘O ECA não é um eco distante’. Que se reconheça a infância e aadolescência como sujeitos de direitos. Temos que voltar a colocar o ECA com toda aforça e com mais urgência hoje do que em 1990, porque se a infância é tratada destamaneira tão negativa, nós temos que dizer: “Não senhor! Esta infância é sujeito dedireitos, e precisa ser tratada como sujeitos de direitos”. Mas para isso teríamos também que rever a quantidade de rituais que aindaexistem dentro da escola, que não respeitam esta infância e esta adolescência comosujeitos de direitos. Uma das coisas que me parece mais importante no ECA, não éque ele nos diz: a infância tem direito a comer, a saúde, à proteção, mas que ainfância tem direito a ser infância! A adolescência tem direito a viver com plenitude otempo da adolescência! Esta é uma questão muito séria para a nossa escola. Quandoentro numa escola e vejo crianças de seis, sete, oito anos, nas primeiras filas, nasegunda, terceira, quarta, quinta filas, já com oito, nove, dez anos, e lá no fundo dasala, às vezes, onze, doze, treze, quatorze anos. Este é um crime que se cometecontra o direito da adolescência a ser adolescente. A escola com seus rituais de reprovação, retenção, repetência emultirepetência, está negando o direito primeiro da adolescência: a ser adolescência.Porque não pensar em acabar com estes rituais? Porque não colocarmos assim, comtoda a seriedade: a infância não tem direito a ser respeitada como infância? “Mas nãosabe ler!” (dirão alguns). Mas é adolescente. Tem direito a ser respeitado comoadolescente, e não conviver como criança, aprender como criança, porque sua mentenão é mais de criança, é de adolescente. Sua cultura é de adolescente. Este é um dosrituais mais perversos na escola, que mais nega direitos da infância e da adolescência.O direito a uma vivência digna, respeitosa, de cada tempo humano. O direito a umpercurso digno, justo, de formação humana em cada tempo humano. Este é um dospontos, insisto, que teríamos que mexer com toda a seriedade. 3 - Teríamos que rever os conteúdos e o material didático, mas não apenaspara colocar nestes conteúdos pesados, cientificistas, pragmatistas ou utilitaristas, eagora se fala em currículos por competência, não basta colocar ai uma pitadinha deluminosidade sobre os direitos humanos. Isso não funciona. Podemos ter uma aula 7
  8. 8. semanal sobre direitos humanos e depois termos conteúdos diários que não tem umavisão de reconhecimento de direitos humanos. A questão que se coloca é como o currículo tem que estar pensado,reorganizado na lógica do respeito aos direitos humanos, e não na lógica de prepararpara o mercado com saberes pragmáticos, utilitaristas, positivistas, que servem para ovestibular, agora para o Enem, ou pode ser para a provinha Brasil, com sete anos, oupara o Provão com 14 ou com 18... Estamos no momento, insisto em que se fala muitoem respeitar os direitos da infância, mas ao mesmo tempo colocamos esta infância eesta adolescência no crivo de provas, provinhas e provões, para dizer depois: “Estavendo? A infância popular, a adolescência popular, se saiu pior do que a infância dascamadas médias, que esta na escola privada”. Estamos em um momento em que estes mecanismos de avaliação terminamsendo uma forma de pichação da infância e adolescência popular como menoscapazes, menos dedicados, perseverantes ou inteligentes. É o que sempre tivemos: avisão de que o povo é inferior e nem sequer oferecendo a ele a escola ele consegue‘sair deste atoleiro’. Estas são questões muito sérias. Hoje o que mais colabora para diferenciarinfâncias e adolescências são as políticas de avaliação. O dia em que sai o resultado,logo a mídia diz “a escola do centro saiu melhor do que a da favela, a escola dacidade, melhor do que a do campo, a escola da classe média, melhor do que a escolapopular”. Em definitivo, mais uma vez a infância e a adolescência popular, colocadaslá embaixo, classificadas sempre, no lugar “onde sempre teria que ter ficado e eu nãosei para que veio à escola”. Esta é uma questão muito séria. Insisto, quem tem que“tomar juízo” são estas políticas de avaliação que entregam dados que deveriam ficarsó para mudar a realidade, nas mãos de uma imprensa que parece que estáesperando para dizer: “está vendo? Os jovens, os adolescentes, das favelas,populares são isso mesmo. Não sei pra que vão às escola. Estamos perdendodinheiro e tempo, porque não têm solução”. Esta é uma questão muito séria. Sealguém tem que ser contra isso somos nós educadoras e educadores que convivemosdiariamente com esta infância e adolescência populares. 4 - Temos que pensar em outras funções sociais e educativas da escola.A função da escola não é apenas ensinar conhecimentos que supostamente vão servirpara a próxima série, que vão servir para o vestibular, para o Enem, ou para o futuro.A função da escola é garantir um presente mais humano, mais digno para a infância ea adolescência sujeitos de direitos. Esta infância e adolescência não serão sujeitos dedireitos no futuro, se estudarem, se passarem, se aprenderem, se não foremreprovados. Esta infância é sujeito de direitos no presente. A escola vai ter que serepensar para dar conta de uma infância desprotegida, de uma infância faminta, de 8
  9. 9. uma adolescência insegura, de uma juventude sem futuro. Como fazer isso? Temos que repensar radicalmente a escola e a nossadocência. Porque a escola e a nossa docência não foram pensadas para dar conta dedireitos humanos, foram pensadas para dar conta do mercado. Ou fazemos estaguinada, ou continuaremos fazendo o jogo da negação dos direitos da infância e daadolescência. A escola tem que ser mais humana. A escola é muito dura com a nossainfância e adolescência populares. Vocês sabem quem são os reprovados? Vinte,trinta, quarenta por cento. Quem são os defasados? Sessenta, setenta, oitenta porcento... São as crianças e adolescentes que com muito custo, roubando tempo desobrevivência, conseguem chegar à escola. Crianças e adolescente cujos direitos sãonegados pela sociedade. E a escola lhes nega o direito mais elementar: seremrespeitados e reconhecidos como humanos. A escola tem que ser mais humana,menos segregadora, mais digna de uma infância e adolescência humanas. 5 - Finalmente, a escola sozinha não poderá fazer isso tudo. A empreitadade dar conta dos direitos humanos da infância e adolescência, sobretudo aspopulares, que são as que não têm direito a ter direitos, não pode ser só da escola.Esta empreitada tem que ser da sociedade como um todo. Estamos num momento emque a sociedade diz: “olhe esta infância e adolescência: mata, rouba, drogada, seprostitui, o que a escola faz?” A pergunta nossa é “o que a sociedade faz com estainfância e adolescência quebrada?” Que nos entrega os cacos para nós colarmos.Colar cacos humanos não é fácil. Eu tenho uma profunda admiração e respeito portantas educadoras e educadores que tentam colar cacos humanos de infâncias eadolescências quebradas. Temos que apelar para o Estado. O Estado tem que dar mais condições paraque estes educadores e educadoras garantam os direitos humanos plenos dessainfância e adolescência. Antes era mais fácil ser professor. Podia haver 30 ou 40alunos na sala de aula que se dava conta. Hoje não damos conta nem de dez, nem dequinze, porque estão tão quebrados pela sociedade... O Estado tem que reconhecerque hoje ser professor é muito mais complicado do que antes. Mas o que estamos vendo? Estados, governadores, secretários de educação esecretárias que estão apelando contra o professor. “porque não dá conta”, porque osalunos saíram mal, com baixo desempenho, consequentemente castigam o professor,porque não deu conta dos bons desempenhos dos seus alunos. Estamos num momento em que todos os direitos dos trabalhadores daeducação estão indo por água abaixo. Temos políticas, hoje, que vem de cima, dosgovernantes, querendo destruir os trabalhadores da educação. Dizendo que nãoensinam, que fingem ensinar, que não tem compromisso, que não tem seriedade, 9
  10. 10. que tem que ser punidos, que tem que ser avaliados, e que tem que ser jogados fora,como se fossem lixo. Estamos num momento muito sério.Se quando o ECA chegou havia já consciência dos direitos dos trabalhadoresda educação, e isso contribuiu para reconhecer os alunos como sujeitos dedireitos da educação, na medida em que se quebram o reconhecimento dostrabalhadores da educação como sujeitos de direitos, estamos quebrando apossibilidade de reconhecer a infância e a adolescência como sujeito dedireitos. 10

×