Solidão a Mil                              Capítulo 1                        Edson Marques        Este livro é para ser li...
objeto, da pessoa, ou da ideia que se ama. E se o amor é o desejo da posseda coisa e não da coisa em si, então o amor, no ...
do latim, reconstruo mentalmente um ranchinho de sapé, imagino cúpulasgeodésicas no quintal da nossa casa, visualizo Marlo...
nova numa língua diferente, e então sento-me aqui para te contar os meussonhos.        Mais tarde, vou ver o mar azul do G...
nada menos! É um convite à transformação pessoal. A busca por algofundamental à dignidade humana. O que proponho vai no se...
Só o que está morto não muda.        Eu sempre troco um grande entusiasmo por outro, maior ainda.        Amores, vou tê-lo...
(Dos dois lados.)       E casamento indissolúvel, então, é pior do que prisão perpétua!       Acontece que temos sempre mu...
Até comecei a escrever um livro, cujo título é Solidão a mil          com oduplo e louco sentido que esses termos sugerem....
Porém, ao contrário do que faz Schopenhauer no texto acima, eu nãogeneralizo. Acho as relações sociais extremamente import...
nervoso central chamada encéfalo, que abrange o cérebro, o cerebelo,pedúnculos e outras coisas que nem sei. Essa máquina s...
ter três instâncias básicas: verificação, avaliação e julgamento. E só depois    conforme o caso      condenar ou absolver...
E com a certeza de que volta para mim      outra vez.        Falo de mim como falasse de você.        (E fico pensando.)  ...
Como vão tuas misérias e delícias?        Ah, você só quer saber das minhas, é? Deveríamos fazer uma troca,não delas, prop...
O único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida.        Não fosse por isso eu não estaria aqui, agora, todo coração,...
percebe ali, por perto, netinhos alvoroçados olhando a porteira por onde oavô sumiu; se você não ouvir claramente os casco...
Voltemos: quem já leu teus outros livros, já ouviu o galope, viu ocavalo negro, sentiu o cheiro da crina, ouviu os pedregu...
avesso da Pandora ao avesso da caixa, e o avesso de si a si mesmo. Que nãose contenha em mostrar só Continente, mostre tam...
Nada tenho contra o casamento.        Dos outros.        Como eu já disse acima, há muitas razões para se casar.        Um...
Acontece que.        Um relacionamento amoroso só dá certo         e duuuuuura bastantequando os dois amantes amam também ...
Santo Edson!        (E eu agora o respeito como se ele já soubesse quem sou.)        Lembro-me do olhar bondoso que me deu...
pouco a pele bronzeada       quando for este preciso momento, vou lhe dizer,com poesia, com cuidado:           Senhor, fui...
Respiro cuidadoso, como Bergman em noite de verão me dirigindo.Crepitam gravetos e coivaras no meu peito. O pulmão direito...
Olho para meu corpo como se olhasse a própria Natureza. Umpedaço dela      o mais importante, concluo. Quando passo as mão...
Eu me espanto ao ver que essas coisas que se transformaram emmim já existiam      separadas     e só se uniram para formar...
surpresas. Imaginava que fosse bege. (Essa é uma das vantagens dosamores passageiros: a gente nunca sabe a cor da calcinha...
quando preciso delas quentes para falar de amor, e vêm geladas se precisocontar tristezas. As palavras, todas, se oferecem...
Acho que o meu além nunca vai além de mim.        Por isso ainda não decidi a quem vou deixar o meu além.        No Upanis...
Duas coisas são básicas na formação do ser humano: pensar rápido eenganar autoridades. Como eu era pequeno por fora, fisic...
noite, meu quarto na pensão parecia uma Sibéria, e eu só tinha um corta-febre me cobrindo de frio e de agosto.        Ou s...
Eu prefiro o cume, o pico, porque aqui não tem fila nem pressa, nãotem ajuntamento, empurra-empurra, confusão. Prefiro o c...
interesse; e outras nos oprimem simplesmente por "amor"           ou por umabsurdo desejo de nos salvar à força. Mas todas...
creme de barba. Vestir-me, tomar café, abrir a porta, fechar, sair           tudocorrendo. Terei hoje uma missão extraordi...
Não dá pra se enforcar com laço de cordinhas vocais. Nem todo nóna garganta pode ser desatado. Talvez seja melhor engoli-l...
amor, no escurinho de um rancho de sapé, no sul do Maranhão               e eufingia dormir na caminha fofa de taquara ver...
transborda de amor e prazer. Quem sorve esse néctar é a escancarada bocagulosa da liberdade absoluta. Para compor esse qua...
mais contido, mas sempre ao terminar beija a orelha delas. Já Picasso écuidadoso: as mais feias ele apaga e diz apenas:   ...
Bebia, sim, mas não era um pau-foi ter permitido que outros tomassem decisões em seu nome.        Enlouqueceu do lado erra...
A resposta veio rápida, minha mão direita saltou os milímetros que aseparavam do peitinho-coração de Joyce Ann. É a segund...
demorada contemplação. O tempo foi passando, veloz, e quando meupróprio sono começou de madrugada a derrubar-me sobre ela,...
Por que não desatamos logo a relação, e livramos os coitados paraque possam viver suas vidas? Tua mulher         achar um ...
Fico filosofando.       Se uma pessoa ama realmente a liberdade, e além disso tem charmee gostosura, ela não precisa de ma...
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Solidão a Mil - Edson Marques - cap. 1 - Baby Blue

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Primeiro capitulo do livro Solidao a Mil.
O original pode ser lido em www.EdsonMarques.com

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Solidão a Mil - Edson Marques - cap. 1 - Baby Blue

  1. 1. Solidão a Mil Capítulo 1 Edson Marques Este livro é para ser lido rabiscando. Aqui eu crio conceitos, mearrisco e confesso alguns pecados de amor que podem até me levar àprisão. Defendo idéias libertárias, exponho meus avessos lógicos, e abromeu coração, inteiramente. Claro que o contraditório é bem vindo, pois soudemocrata, e a priori concedo a palavra aos que pensam diferente de mim.Não só concedo a palavra: eu a respeito profundamente. Aos que pensamda mesma forma, só dou um abraço e um buquê de rosas vermelhas. E lhesdaria também um orgasmo, se estivessem mais perto. Acontecimentos, situações e amores que aqui não estão, é porque jáforam contados no volume 1 ou livro Teoria do Acaso. Viver as aventuras para só depois escrever sobre elas, é mais fácil e muito mais gostoso do que apenas inventá-las só para fazer ficção.A vida de um escritor original tem que ser baseada em fatos reais. É porisso que estou aqui, hoje, nesta madrugada impressionante, escandalosa,dançando feito louco no enluarado coração da zona sul do meu Amor. Porque o Amor, o verdadeiro Amor, nem sempre é bemcompreendido. Escrevi alguns breves ensaios poéticos sobre o tema, e quepodem ser lidos no meu polêmico livro, lançado em 1998, Manual daSeparação. Aliás, muita gente escreve sobre o Amor. Platão, no Banquete,há mais de dois mil anos, por meio de Sócrates, nos apresenta umainteressante definição de amor. Vale a pena ler. Em certa passagem, o amoré definido como um desejo do ser amado: o amor é o desejo da posse do
  2. 2. objeto, da pessoa, ou da ideia que se ama. E se o amor é o desejo da posseda coisa e não da coisa em si, então o amor, no fundo, é a falta daquilo quese ama, pois, quando se possui tal coisa, não mais se a deseja. Então,segundo Platão nesse citado livro, o Amor é o sentimento de vazio causadopela ausência, pela falta da coisa amada. Devo dizer que não concordo comtal visão platônica do Amor. Eu defendo o amor livre, mas não sou inflexível. Se algum diaalguém me convencer de que o amor preso é muito mais gostoso,interessante, e principalmente muito mais prazeroso do que o amor livremudarei de ideia, imediatamente. Se alguém me convencer de que o ciúmeé uma delícia, tomarei todas as providências cabíveis para me tornar umciumento. Capítulo 1 Baby Blue Toda noite, quando abro meus olhos para dormir e acomodo meucérebro num travesseiro de flores, concedo a Deus alguns momentos deatenção. Ele então, agradecido, acende seus belos refletores de vertigemsobre mim, para que eu veja encantado no verso das pálpebras a imagemgloriosa do dia que acabei de viver. Minhas noites começam sempre assim. Principalmente agora, que da vida só temos o resto. sussurra-me Deus. Comigo ele fala em latim. É fatal. Olho então na engrenagem do espelho profundo que trago no peito,e fico fazendo reflexões. E quase sempre me pergunto: Será que existe outro modo bom de se viver? Fico pensando, e acabo sonhando. Eu sonho tão alto que o próprio barulho me acorda. Já me acordo com Deus perto. E me desperto dançando e perguntando se há no mundo melhorcoisa que ser feliz. Vejo estrelas no meu teto, repito a oração como se reza,e me espreguiço felino, gaiarsa, gostoso sorrindo. Mas me levanto sódepois que gargalho. Se não acho motivos para gargalhar também, não osacharei para levantar. Enquanto isso, faço contas complicadas de cabeça,abraço a Vênus de Milo, calculo logaritmos a olho, traduzo algumas frasesEdson Marques Página 2
  3. 3. do latim, reconstruo mentalmente um ranchinho de sapé, imagino cúpulasgeodésicas no quintal da nossa casa, visualizo Marlon Brando sem destino.Acordo já fazendo ginástica com meu cérebro, pois não quero teias dearanha nos meus neurônios. Quero distância do AD. E sinapses, só asbrilhantes me excitam. Potencializo-as, a cada instante, com lógica e amor. (Toda emoção, você sabe, é produto do raciocínio.) Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando, já cheio de luziluminado, portanto, de novo, de Deus e de mim. Meus dias começam assim. Hoje de manhã sentei-me em frente ao espelho do mundo que tragono peito, e fiquei fazendo reflexões: Vi que vocês... vocês têm nas mãos umproduto chamado Vida, um verdadeiro tesouro e não sabem bem o quefazer com ele. Então saem feito doidos querendo vendê-lo a todo custo, porqualquer preço, nesse mercado em que se expõem. Desgraçam-se. Viramcomerciantes de si mesmos. Exploram-se. Bêbados de uma espécie triste deálcool, dilaceram seu próprio presente com voracidade absurda de piranhafaminta. Despedaçam-se. Consomem-se. E acabam desperdiçando, um aum, todos os instantes mais gloriosos que a Vida tem. Até quando? A rotina nos mata, eu sei. Mas pode também nos salvar, dependendo das circunstâncias. Apesar de viver como louco, tenho certas rotinas. Todos os dias, acordo naturalmente. Abro a janela da madrugada.Sempre de bom humor. De ótimo, de excelente humor! Quem dorme comDeus acorda sorrindo. Então eu sorrio, gargalho, saúdo-me, estico-me,alongo-me, beijo-me. Amo-me, loucamente. Celebro-me. Dou umaespreguiçada doce, orgástica, demorada, leio alguma coisa leve, Lorca,Neruda, excito meus neurônios, faço alguns planos, desfaço muitos outros e então me levanto, em todos os sentidos. Arrumo minha cama zen.Quinze minutos de pilates, mil socos poéticos no ar, e me torno Bruce Lee. Nem me lembro da palavra pressa. Vejo se sobrou na pia alguma louça ou copo da noite anterior, elavo-os, delicadamente. Arrumo as flores, rego as plantas, falo sozinho,canto, grito e danço. Viro uma festa. Depois, com ajuda de Beethoven,jogo o lixo, meditando, como fosse um jogo. Faço café com amor e águabenta, fervida na chaleira que ganhei de minha mãe. Aprendo uma palavraSolidão a Mil Página 3
  4. 4. nova numa língua diferente, e então sento-me aqui para te contar os meussonhos. Mais tarde, vou ver o mar azul do Guarujá e caio no mundo... É a vida. Depois, ali pela hora do almoço, eu viro um construtor de pirâmides.Vou cuidar das obras e fazer de conta que sou arquiteto. Conversar compedreiros, subir em andaimes, atender meus clientes. Ganhar o pão queDeus amassou. Mas o que eu gosto mesmo é de escrever. E de pensar navida e na liberdade dos meus amores. Fico filosofando. eu adoro fazer comparações. Nascipara o Verbo. As palavras já nascem deliciosas na minha língua portuguesa.No meu pensamento e no meu coração. Crio analogias. Invento coisas. Econtinuo não sabendo o que dói mais. Se o eventual castigo pelo desejorealizado, puro, livre, satisfeito ou se esse mesmo desejo sufocado nopeito, contido, esmagando a minha alma.. Não sei o que dói mais! É o dilema entre exercer a liberdade ou viver na escravidão. Daqui apouco eu volto a falar desse assunto. Deu uma vontade enorme de escrever a como se eu estivesse denovo em Dublin, na casa daquele louco que escreveu Ulisses. Na verdade, eu sei, sim, o que dói mais. Até porque, aos treze anos, menino ainda, sentado no cinema dointerior, acabei misturando Pitágoras, Pasolini, Antonio Visconti, SamuelBarbosa e Sônia Maria, só hasrelações de amor serão triangulares: eu, o outro A relação de amor é um tripé, e desaba se um deles faltar. Mas já notou que entre você e a liberdade sempre existe um muro,baixo, feito de tijolos e ciumentos? Salte logo essa barreira: a vida está lá do outro lado! É impossível ser feliz sem liberdade. Pensei que esse assunto só viria mais tarde, mas tem que ser agora.Afinal, você pode sofrer um colapso na página dez e morrer sem saber oque eu digo. Ser transformado em cinzas por um ataque suicida, ou levartiro de um ciumento, quem sabe. O que eu digo não é uma provocação: é um desafio emocionante: é apossibilidade aberta de escolher o próprio caminho na vida. Nada maisEdson Marques Página 4
  5. 5. nada menos! É um convite à transformação pessoal. A busca por algofundamental à dignidade humana. O que proponho vai no sentido deromper com esse marasmo em que tua vida acabou se transformando. Umaradical e consciente ruptura com essas normas morais injustas, e com tudoo que de alguma forma te oprime e faz sofrer. Você hoje mais tosse do que ri... Só quando assumes ter um dono é que ficas dispensado de lutar. Até peço ajuda a uma segunda pessoa do singular, só para te chamarà Razão. Ser escravo é muito fácil: qualquer idiota consegue. Reaja! O que eu digo é mais ou menos isso. Até o fim do livro vai ser esseo tema principal. Até o fim dos meus dias vou ficar falando dessas coisas. Ese a você não interessam tais assuntos, feche este livro agora mesmo, e meabandone. Portanto, se não puder me dar atenção me dê sossego! Mas, outro dia, adolescente ainda, quando eu estava começando aentender a vida, escrevi minha melhor definição de amor. Amar é permitir sempre, amar é deixar que o outro vá ou quefique, se assim o desejar. Amar é ter respeito absoluto pela próprialiberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E issonão significa só entendimento racional, vai além, muito além: Amar éreconhecer, afetuosamente, o direito que o outro tem de fazer suasescolhas. Mesmo que as escolhas eventualmente me excluam... Quem não concorda com tal idéia de amor não merece o meu. Aliás,eu recuso o amor de quem não ama a própria liberdade antes mesmo de meamar. Porque o amor tem que ser livre em todos os sentidos. E toda mudança, você sabe, requer um plano. À vezes, plano esboçado em folha de papel, outras vezes, um planointuído no cérebro do homem. Mas a mudança mais gostosa é aquela que sórequer plano inclinado, por onde vamos escorregando em óleo de amêndoascomo se fosse no corpo de um grande amor, deslizamos até a borda eentão saltamos no vazio do belo escuro profundo da vida. Quando as coisas resistem às idéias e o mundo resiste aos sonhosnão devemos mudar de sonhos nem mudar de idéias: temos é que mudar decoisas e mudar de mundo. - Eu gosto de mudar. Descendo de Heráclito!Solidão a Mil Página 5
  6. 6. Só o que está morto não muda. Eu sempre troco um grande entusiasmo por outro, maior ainda. Amores, vou tê-los muitos para que os tenha sempre. Esta, a melhorfilosofia. Ousei amar diferente, tive coragem de continuar puro nos meusrelacionamentos amorosos. Alguns querem punir-me por tanto, mas eusobrevivo, sobre todos. E o que mais indigna meus detratores é que hálirismo na minha obscenidade. São poéticas as minhas transgressões.Quando enfio a cabeça pela janela da parede da vida, já não sei se estouolhando para fora de mim ou para dentro. Então mergulho nessa alegrecorrenteza interna onde eu rio fluente de mim mesmo líquido, cristalino,vibrante. Nunca deixarei de ser jovem. Apesar disso, eu sei que preciso acelerar as circunstâncias, tenhoque aumentar o tamanho, a freqüência e a delicadeza dos fatos que mecircundam, trazer Deus em pessoa para jantar comigo, às vezes, tomar umvinho com Ele, e depois inundá-lo de carinho e gratidão. À luz de velas! Deus sempre foi generoso comigo. Tenho que resistir aos ataques da mediocridade cotidiana e meafastar da jacarezada. Quero encher de glória os buraquinhos que os ratospensam fazer no pão da minha vida. Preciso reagir, tornar-me umsubversivo mais radical, abandonar as hienas, jogar fora tudo o que nãopresta, refinar as relações, multiplicar o que me eleva. Sei que o principal sobrenome do amor é ilusão. E sei também que ser livre é fundamental. Portanto, se eu tiver que um dia me desfazer de todos os meus bens,a liberdade será o último deles. Quanto ao que penso sobre meus amores, disse quase tudo a EdmaLux, no seu Onde deixoclaro que valorizo uma mulher não só pelos prazeres que posso ter ao seulado, mas, principalmente, por aqueles que deixo de ter por causa dela. Já me casei quatro ou cinco vezes, informalmente, com seis ou setemulheres maravilhosas, mas continuo achando que o casamento é o túmulodo amor. O cemitério das paixões... Por isso continuo solteiro! O casamento é uma velha escola em ruínas que só tem duasmatérias: sadismo e masoquismo.Edson Marques Página 6
  7. 7. (Dos dois lados.) E casamento indissolúvel, então, é pior do que prisão perpétua! Acontece que temos sempre muitas razões para casar. A sociedadeem que vivemos nos leva a seguir esse caminho. Quase todos sucumbem. Sou observador. Tem dias que vejo uma procissão de formigas em direção a um sacode lixo e me lembro de vocês: trabalhando, cumprindo horários,correndo muito, seguindo regras tolas, mansos, ordeiros, pacatos,oprimidos em grupo, submetidos, uniformizados. U-ni-for-mi-za-dos! Passam a impressão de que põem uma dose de fúria nessa buscacotidiana do nada. Agitam-se como em vias de alcançar o céu. No fundo, seesperneiam, mas não olham sequer para cima. Por isso não sei mais se oque sinto por vocês é pena ou desprezo. Só não creio que possam mudar de verdade de verdade. Parecem moscas sobrevoando um monte daquela coisa... De vez em quando se mexem, coitados, mas se mexem pouco,timidamente. Nessa agitação aparente não querem turbulências nem riscos:meros movimentos de acomodação. Parece que estão por demais atoladosnessa meleca gosmenta que chamam de vida, e de tal forma envolvidos comcoisas tão rasteiras, tão vãs, tão minúsculas, que só me resta dar-lhes umdigno e definitivo adeus. Doentes! Não devo mesmo ter dó de vocês, porque só me daria pena o doenteque não tem o remédio diante de si. É compreensível, como diz Montaigne. E eu digo, sinceramente: jamais experimente a Liberdade se vocênão for capaz de suportar a Solidão. Mas diferencio claramente solidão de solitude: esta é voluntária ecorajosa; aquela nos é imposta pelo Medo. Solidão é carência. Solitude ésuficiência. A solitude tem beleza e esplendor: por isso, positiva. Asolidão é humilhante, escura e melancólica: portanto, negativa. A primeira ésaudável; a outra, uma doença. Solitude é coisa do indivíduo. Inteiro.Único. Indivisível. Porém, a solidão vive sempre em busca de carasmetades. Sempre pede companhia, implora companhia. Mas só companhiacertamente não resolve. Tanto, que existe solidão a dois e solidão a mais.Solidão a Mil Página 7
  8. 8. Até comecei a escrever um livro, cujo título é Solidão a mil com oduplo e louco sentido que esses termos sugerem. O tema é complexo, e eu fico pensando. Será que você, você quenão entende como posso ter feito ontem um jantar só pra mim com luzde vela e tudo será que você nunca passou uma noite inteira lendo umlivro, sublinhando palavras ao acaso, cotovelos apoiados na mesa, as mãose um belo copo de vinho suportando a cabeça dançante? Será que vocênunca passou uma noite inteira sozinho, deliciando-se com você mesmo,solto e alegre sem saber nem como amanhecer? Pois então é preciso que eu te pergunte: Você é livre para vivenciargostosamente a própria Solidão se quiser ou tem sempre que reparti-la com alguém? O direito à solidão e a capacidade de exercê-lo plenamente são, paramim, mais importantes do que a solidão em si. Entretanto, como já disse,quando falo em solidão eu me refiro, mais apropriadamente, à solitudeque é algo muito além do que apenas estar sozinho. Aliás, eu adorocompanhia! Mas tem que ser companhia inteligente, libertária, excitante,criativa e, preferencialmente, sensual. Quem não tem sensualidadetransbordante não inspira um segundo sequer do meu tempo. Schopenhauersolidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla:primeiro, a de estar só consigo mesmo; segundo, a de não estar com osoutros. Esta última será altamente apreciada se pensarmos em quantacoerção, quantos estragos e até mesmo quanto perigo toda a convivênciasocial traz consigo. "Todo o nosso mal provém de não podermos estar asós", diz La Bruyère. A sociabilidade é uma das inclinações mais perigosase perversas, pois põe-nos em contacto com seres cuja maioria é moralmenteruim e intelectualmente obtusa ou invertida. O insociável é alguém que nãoprecisa deles. Desse modo, ter em si mesmo o bastante para não precisar dasociedade já é uma grande felicidade, porque quase todo o sofrimentoprovém justamente da sociedade, e a tranquilidade espiritual, que, depoisda saúde, constitui o elemento mais essencial da nossa felicidade, éameaçada por ela e, portanto, não pode subsistir sem uma dose significativade solidão. Os filósofos cínicos renunciavam a toda a posse para usufruir afelicidade conferida pela tranquilidade intelectual. Quem renunciar àsociedade com a mesma intenção terá escolhido o mais sábio doscaminhos.Edson Marques Página 8
  9. 9. Porém, ao contrário do que faz Schopenhauer no texto acima, eu nãogeneralizo. Acho as relações sociais extremamente importantes. Relaçõessociais ao vivo, e não apenas na internet. Aliás, como já disse várias vezes,eu adoro companhia humana! Mas tem que ser companhia inteligente,libertária, excitante, criativa e, preferencialmente, sensual. Em se tratandode relações amorosas, quem não tem sensualidade transbordante não inspiraum segundo sequer do meu tempo. Claro que nas relações de amizade sou muito mais condescendente.Tenho amigos conservadores e até ciumentos e não será por isso que meafastarei deles. Assim como nas relações profissionais ou comerciais: nãoseria possível exigir todas essas qualidades de um funcionário ou de umcliente. Mas procuro intensificar e aprofundar as relações que mantenho.Não gosto de relações superficiais, nem mesmo com garçons ou porteirosque me servem. Trato a todos com delicadeza e respeito. Este é apenas um breve comentário do que pretendo dizer nestelivro, e ainda sendo refinado. Não tem pretensões de ser base para uma teseacadêmica. Embora eu pense realmente dessa forma, são devaneios, só. E o contraditório sempre será bem vindo. (...) Sei que vocês discordarão de muitas coisas que aqui vão ler. Muitas.Afinal, cada um de nós tem seu próprio tempo, seu sistema de valores, suaprópria maneira de julgar um fato, de analisar fenômenos, de encontrarsaídas. Cada um de nós tem sua particular visão do mundo, intransferível,única, exclusiva. Cada um tem suas idéias de verdade, de justiça, de amor,de religião. Cada um de nós tem seu próprio modo de se salvar. Ou de se foder. Cada um de nós é um ser único. Mas interagimos, em nome de alguma filosofia, de um negócio, deum deus, um projeto, uma causa. E existem atributos que nos elevam àcategoria de humanos: inteligência, amor, criatividade, compreensão,espontaneidade. Tudo isso deixa a vida mais fascinante ainda. E o que émelhor: a vida que merecemos viver só depende de nós. (...) Não pretendo te salvar, mas quero que você abandone as verdadesrecebidas por herança ou por contágio, e passe a pensar comindependência. Se chegou até aqui (não só neste livro, mas na vida), éporque você deve ter aí na cavidade do crânio uma parte do sistemaSolidão a Mil Página 9
  10. 10. nervoso central chamada encéfalo, que abrange o cérebro, o cerebelo,pedúnculos e outras coisas que nem sei. Essa máquina sensível requercuidadosa manutenção, precisa de carinho, tempo, leitura, dedicação, eliberdade. Não permita, portanto, que joguem lixo nesse aparelho. Nada de verdadeiramente grandioso foi criado até hoje na históriado mundo sem paixão, ousadia, inteligência, loucura e liberdade. E eu só entendo a liberdade como liberdade de mudar de vida. Qualquer outra que não essa será pouca. Por isso, reaja! Mude. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante quea velocidade. Lá no capítulo final vou te apresentar esse meu poema Mude.Vou dizer para você experimentar a gostosura da surpresa, do inesperado. Eque procure fazer uma viagem longa, de preferência sem destino... Desperteo aventureiro que dorme no teu peito. E se não encontrar razões para serlivre, invente-as. Seja criativo. Mude. Você vai acabar conhecendo coisasmelhores e coisas piores, mas não é isso o que importa. O importante é a mudança, o movimento, a energia. Só o que está morto não muda. Até o poema Mude eu mudo sempre. Por isso é que fiz váriasversões dele. Para dizer que, mesmo que você já tenha encontrado seusuposto melhor lugar na vida, procure outro. Se ainda não achou o melhorcaminho, continue procurando-o. E após ter certeza absoluta de tê-loencontrado, ainda assim procure outro. A pior coisa da vida é a estagnação não pare nem mesmo quando estiver no pico que você suponha ser omais alto. Porque sempre será possível ir além. A vida tem milhares de caminhos possíveis. Reaja: mude! Qualquer futuro é melhor do que qualquer passado. Fico pensando. E me lembro do filho de Clarice, que roubou-me esse poema. Brigar comigo e vencer são coisas contraditórias, mutuamenteexcludentes. Há que se escolher uma delas. Sou Deus quando me armo de fúria e perdoo quem me ofende.Porque Deus está dentro de mim, e fúria é o nome de um silogismo.Quando se trata de uma história de amor, e não apenas, todo processo deveEdson Marques Página 10
  11. 11. ter três instâncias básicas: verificação, avaliação e julgamento. E só depois conforme o caso condenar ou absolver. Mas alguns não passam pelos estágios racionais fundamentais, econdenam logo de cara, sem considerar a presunção da inocência. Alguns não se preocupam com a própria reputação intelectual. É a vida, você sabe. Mas a morte é um cavalo que trota encilhado ao lado da gente, e nosolha por baixo do tapa, convidando. Sempre recusei. Aliás, morrer é a última coisa que eu quero fazer na Vida! (...) O Cadáver de um Palhaço. Se o que digo é fundamental, por que então considerá-lo de outromodo? Ainda que você não goste do que escrevo, acredite em mim. Masisso não tem hoje a mínima importância, pois não escrevo pra ser famoso,nem falo para ser lido. Eu falo é por ser amado, e escrevo porque gostoso. Minha literaturaé feita de excessos eu sei mas é sincera, tem cadência, suavidade,juventude, pulsação. Mas até mesmo a sinceridade tem limites. Não se pode ser sincero além de um ponto. Como eu ia dizendo. A vida é um milagre e não vou agora desperdiçar o meu! Já fiz uma promessa: Vou sobreviver a todos os meus amores. Naufragar por causa deles jamais! Posso até me afundar um dia,quem sabe, mas ao voltar à tona trago nos dentes o punhal do pirata.Afundo-me em nome da liberdade, mas trago depois enrolada na pontalíngua a pérola pura, pois fui capaz de morder com doçura a ostra hesitante. O aventureiro que habita o meu corpo pode até simular umnaufrágio em teu nome, meu amor. Mas nunca quererei te salvar. Lembro de coisas antigas como se em silêncio as vivesse outra vez.Do que não presta, me esqueço. Sempre. E se minha memória, que sabe dascoisas, guarda um fato por que iria eu jogá-lo fora? Amo só o queacontece e sempre me apaixono pelo ato em si. Sou cúmplice da realidade.Depois de quatro dias falando comigo perco a razão, e a perco de formaprofunda, como se fosse perder a vida só para buscá-la outra vez comamor não sei onde.Solidão a Mil Página 11
  12. 12. E com a certeza de que volta para mim outra vez. Falo de mim como falasse de você. (E fico pensando.) Minha vida parece a tua, não porque sejam elas iguais, mas pelo fatoinegável de que você pensa que vive no espelho. Nem todo espelho refletea imagem que lhe damos: alguns a engolem, não para consumi-la em fogo,selvagem, voraz, mas sim para poder amá-la escondido, no fundo maisfundo do fundo de si. O certo é que não sabemos ao certo o que pensa um espelho a teupróprio respeito. Talvez não se enxergue. Você não se acha cego. Pois é. Sabe aqueles dias em que teu peito parece uma Sibéria? Você olha no espelho da vida, olha fundo, e não vê um ser humano: vê um palhaço. Nesses dias você tem que reagir. Porque, se não reagirimediatamente, logo, logo, vai olhar no espelho da vida outra vez e teráuma nova surpresa: Verá o cadáver de um palhaço! Não falo isso pra te assustar quem sou eu pra me ter medo? Soubom, amável, e não teria coragem de meter medo nem mesmo a mim. Meumaior defeito é talvez ser bom demais. Quem sou eu? você pode se perguntar. Sou um poeta, um escritor de idéias, bem-sucedido mas não famoso.Escritor de idéias libertárias, eis o que sou. Um apaixonado trapezista loucodando um salto vital no escuro de um circo chamado vida, sem redes deproteção. Porque sempre que ouço a voz de Deus dizendo-eu salto. Começo a ouvi-la de novo, insistente. A voz de Deus que ouço vem de Mim. Meu coração é que se abrecomo fosse uma boca e me conta coisas, segredos, me conta tudo. A voz de Deus me conta histórias, me acalenta, faz ninar. E grita comigo, às vezes, que nem agora que grita salte! Insisto. Só quem salta inteiro no belo escuro profundo da vida é quepode viver de verdade. E você tem saltado muito? Como vão teus delírios voadores? Como estão os teus amores? E osteus brilhos, tuas dores?Edson Marques Página 12
  13. 13. Como vão tuas misérias e delícias? Ah, você só quer saber das minhas, é? Deveríamos fazer uma troca,não delas, propriamente as delícias e as misérias mas do seu relatoapenas. Sei que é difícil pra você abrir o peito assim, à faca, e mostrar-setodo é muito difícil. Dói, eu sei. Mas o gostoso nesse tipo de dor poéticaé exatamente isso: Doer em êxtase. Você nem imagina... E se você entende é melhor saltar. Eu me escrevo, e você se lê. Por que não invertemos os papéis? Eume mudo em leitor e você fala que escreve. Ah, você só quer me ler? Quersaber o que tenho pra dizer? Saber dos amores que já tive e gozar comminha boca e minha história, é isso? Você não vai ficar satisfeito... Ou você, no fundo, só quer saber das maldades que eu já fiz? Vocêé leitor do meu romance, ou fiscal do meu prazer? Leitor? Ah, bom. Maspretende que eu só fale dos pecados que cometo em nome de Deus? Quersaber as razões pelas quais matei a ciumenta? Parece que você só quer ver-meencontrar um cadáver fresco, coberto com jornal de ontem, na próximalinha? Será que o safado vai confessar um crime na próxima pági Acho que você não vai ficar satisfeito. Se foi só por isso que veio me ler, é melhor parar. Não fui transformado em abismo em vão. Nem sou só um poetinhade meia-tigela não! Sou safado no sentido de travesso, não de cafajeste.Na piscina, ao lado de musas, sempre me orgulho pelado: a pele é a minhamaior proteção. Minha nudez me descobre das vergonhas mais humanas,aquelas profundas, e me cobre de amor e tesão por ela. E por mim. Não sou criminoso: sou rebelde. Fui, sou e sempre serei contra os conservadores. Sou revolucionário,amo a vida, a liberdade, o amor, e a loucura. Isso já vem de família. Não égenético, mas é hereditário. Meu bisavô Luiz Marques já era um rebelde:trocou o futuro garantido e certo por um presente gostoso e mais certoainda. Um belo dia jogou fora o velho baú das verdades antigas, e tomouaquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: Montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Abandonou tudo para não ter que abandonar sua própria almanaqueles caminhos já percorridos. Ele também já sabia queSolidão a Mil Página 13
  14. 14. O único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Não fosse por isso eu não estaria aqui, agora, todo coração, tomandoessa taça de vinho vermelho e contando minhas histórias de amor pra você. Sou portanto bisneto da rebeldia. Bisneto da rebeldia, neto daemoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo daliberdade e amante de todos os meus amores. E existo, por incrível que pareça: No céu da minha boca não há fogos de artifício: Só estrelas. Digo isso e Paritosh me questiona. Por que você repete esta página em todos os teus livros? Em quase todos. Repito-a para sentir como pulsa o coração domeu leitor. Ela é o portão principal da minha literatura. O leitor tem queabri-lo para entrar nos meus jardins. Mas ele pode não gostar de ver r E daí? Quero outros leitores. Sei que minha posição é delicada:defendo a mudança, mas me coloco, me distribuo, me espalho por todos osmeus livros, falando sobre as mesmas coisas transformadas... Parececontraditório, mas tem que ser assim. Eu sou assim... E se o leitor se cansar? Busco apenas o leitor incansável. Não quero acomodadostocando com seus olhos as palavras que escrevo. Leitor acomodado também compra livro... Às vezes. Mas não quero que o leitor comum leia os meus livros.Seria como se me prostituísse, falando de amor e liberdade a quem nãoposso amar de forma alguma. Não sei aonde vamos chegar com essa conversa. Por dentro, noâmago de mim, sorrio duvidando, mas concordo: até certo ponto, fazsentido. E Paritosh, um representante da Associação Mundial dos Críticosde Arte, me ataca numa parte sensível: Isso repele leitores... Você acha que já os tem muitos? Não: são poucos, mas quero tê-los ainda menos. Só os quero se inteligentes.não conseguir ver a velha senhora pensando na vida, abandonada numacadeira solitária de balanço à espera do marido que não volta; se você nãoEdson Marques Página 14
  15. 15. percebe ali, por perto, netinhos alvoroçados olhando a porteira por onde oavô sumiu; se você não ouvir claramente os cascos do cavalo negro doousado Luiz Marques chutando pedregulhos numa estradinha de terraabandone esta leitura agora. Se você não consegue cavalgar a própriaimaginação desista de mim: não escrevo pra você. Se você não conseguenem isso, vá ler Marimbondos de Fogo. Vá ler Paulo Coelho... ou Sidney Submeto-me à arbitrariedade do meu bom gosto e escrevo. Nãopara que você concorde comigo, mas para transmitir emoções, e para quevocê pense um pouco sobre a vida que hoje leva. Para que você veja omundo de outra forma. Escrevo para excitar teu intelecto e abrir teucoração. Nada mais. E se um dia teus neurônios e teu sangue me negarem,nunca mais virei aqui. Nenhum escritor pode ser condutor de almasdesgarradas. No máximo, o escritor indica um caminho que pode nos levarao paraíso da estética. Porém, o escritor só mostra o caminho: não conduz,jamais. Aliás, no fundo, nem mesmo mostra; apenas diz que existe umcaminho talvez. Escrevo, sim, mas para falar de amor e liberdade, poesiae loucuras. A propósito, o título do meu novo livro, que já tem cerca decem páginas, vai ser s OK: vejo uma velha senhora, gorda, como se acorrentada à suacadeira de balanço... Paritosh começa dizendo. Não disse "gorda" retruco. Mas já reparou que os maridos abandonam mais facilmente asmulheres gordas? aproveita para defender uma tese. Nunca pensei nisso respondo. Ele agora está olhando pra minha barriga, e diz: Pois pense, meu querido. As gordinhas são abandonadas não porcausa da banha: a gordura é só uma conseqüência. De excesso de comida opino. Sim, lógico, porém mais do que isso: a gordura demonstra o nívelde desleixo que tem por si. Há uma atitude que o gordo assume por issoengorda. Essa atitude depreciativa perante a vida o torna menor, e agordura em demasia é um reflexo. Claro que é um processo inconsciente.Talvez, proveniente de alguma somatização. Estamos nos afastando do tema tento voltar.Solidão a Mil Página 15
  16. 16. Voltemos: quem já leu teus outros livros, já ouviu o galope, viu ocavalo negro, sentiu o cheiro da crina, ouviu os pedregulhos. Por que entãorepeti-los? O barulho dos cascalhos nunca é o mesmo. São sempre outras aspedrinhas que o cavalo chuta, você tem de senti-las diferentes. Temos quegalopar a imaginação. Se não?! Paritosh continua contestando. Se não, desista de me ler! Nesse caso, minha literatura não foifeita pra você eu digo, convicto. Mesmo assim, também me questiono. Porque sempre me questiono,especialmente quando pareço ter certeza de que estou certo. Quanto maisinformação você tiver sobre um determinado assunto, mais dúvidas deveráter a respeito dele. Quanto mais culto você for, mais questionante será! A certeza absoluta inquestionável é um recurso do imbecil. Acho que um desgraçado nunca vai ler o que escrevo e se ler nãovai gostar. Infelizes detestam quem fala de prazer, de alegria. Para umescravo emocional, tal assunto é tabu. Para um escravo a liberdade éfrescura. Portanto, só falo para espíritos livres. Só gostará do que escrevo quem já vive de amor. Só esses vãogostar do que eu digo. Acontece que um livro jamais será melhor que abiografia do escritor. Nenhuma obra supera a vivência do próprio autor.Literatura sem observação é vazia. Sem experiência a arte é oca. Nada substitui a vida. É uma questão de bom senso. Para Voltaire a coisa mais bem distribuída no mundo é o bom senso:ninguém acha que tem pouco. Nem eu. Nem você, é claro. Mas, antes dos fatos, não me importa o que se diga deles. Sou atécomedido ao contar as aventuras são muitas, teria de contá-las devagar.Quando chego a mil, perco a conta, começo tudo outra vez. Isso, quando asconto. Mas não conto todas: não sou louco! Eu gosto mesmo é de viver as aventuras, não de contá-las. E só asconto por precisão, por ofício, por ócio, por amor. Para mostrar a você queé possível viver fundo, viver tanto. (Tudo de uma vez.) Morrer é a última coisa que eu quero fazer na vida. , disse Aristóteles. Eu esperoque você perca o medo antes de perder a esperança. Que você mostre oEdson Marques Página 16
  17. 17. avesso da Pandora ao avesso da caixa, e o avesso de si a si mesmo. Que nãose contenha em mostrar só Continente, mostre também o Conteúdo. Oceânico. Faça como eu, que me abro todo, que mostro meus avessos, minhasentranhas coloridas e inteiras, exponho-me como doces invertidos numbalcão de sacrifícios inocentes. Então, meu interior se agita, cria coragem eresolve mostrar seus próprios avessos. As conhecidas entranhas se revirame se abrem para dentro de si. Descubro que a parte mais profunda de mim éo contrário dos meus avessos, e que o lado de dentro do meu lado de dentroé a fantasia que de amor me veste. Minha grande inspiração é Henry Miller. Deus e Zorba, em segundoplano. Paritosh, um pouco antes. Pairando agora sobre minha cabeça umadoce ameaça de vida. Sinto-me Dâmocles, a espada suspensa por um fiode seda brilha seu fio nesta tarde de sol sobre mim. O vento a balança,eu olho pra cima, começo a sorrir. Tudo por um fio... É neste momento quando confio é neste exato momento agoraque a Vida chega. A vida só chega no exato e justo momento em que temosconsciência de que ela está por um fio... Só neste momento! Cabos de aço não conseguem segurar a vida, porque ela não seprende a brutalidades. A linha tem que ser fina, delicada. Há que ser finopara se viver de verdade. A vida não se liga a coisas grossas, densas, brutas.Vista-se de véu para viver de luz. Ou você acha que será possível viversempre de mortalha? Só falta mesmo ter tesão por escritório! Fico pensando: será que você sabe quem foi Dâmocles? Vou abrir oWebster na página certa da memória: "Damocles: a courtier forced by Dio-nysius the Elder, tyrant of Syracuse, to sit under a sword suspensed by a Se não entendeu stop! Melhor parar. Mas não desista agora, é cedo, você ainda terá tempo. Os saudáveisenlouquecem, os outros ficam por aí parecendo normais. Pense nisso. Os normais aceitam o mundo com o é, e os loucos querem mudá-lo.Por isso o mundo muda só por causa dos loucos. Se todos fossem normaisnão haveria progresso. Por falar em normais, vou logo dizer algo sobre ocasamento, algo que está atravessado na minha garganta.Solidão a Mil Página 17
  18. 18. Nada tenho contra o casamento. Dos outros. Como eu já disse acima, há muitas razões para se casar. Um casamento jamais será opressivo ou torturante se os casaisabdicarem da sua liberdade pessoal. Suprimida esta, preferencialmente deforma consensual, a harmonia se instala. O sentimento de opressão sóadvirá se pelo menos um dos parceiros continuar amante daliberdade. Afinal, ninguém se casa para ficar mais livre. Seria umacontradição. Nesse sentido, requer-se apenas uma verificação docusto/benefício: quanto perco da minha liberdade pessoal e quantoganho em outros campos. Quanto prazer me dá uma possível reclusão.Quanta segurança. Quanta garantia. Quanto sossego. São essas algumas dasquestões que se podem levantar para entender uma relação de amor. Toda relação é restritiva por definição. O que varia é o grau derestrição e os propósitos mútuos dos que se relacionam. Mesmo as relaçõescomerciais são restritivas, posto que fundadas em mútuas concessões. Eu tedou um desconto e você só compra de mim. No casamento ocorre a mesmacoisa. Eu tolero a tua cerveja e o futebol, e você não reclama por me verdescabelada. Eu só transo com você, e você não sai com mais ninguém.Você me dá um desconto, que eu te pago à vista. E por aí vai. É uma troca, simplesmente. Também influem os objetivos imediatos ou remotos de cada um,além da sua (i) maturidade emocional. Emprego está difícil, vou me casar.Quero ter um filho, e preciso de alguém que o produza, eduque, ousustente. Quero sair da casa dos meus pais. Quero morar com meu atualnamorado, ou namorada. Quero alguém para ser a projeção da minha mãe.Quero ajudar alguém. Quero que alguém me ajude. Quero ter a chance deexercer minhas ganas autoritárias. Quero constituir uma família. Quero serrespeitável. Quero voltar a ser santa. Quero uma empregada doméstica.Quero seguir a tradição. Enjoei do meu estado civil original. Queroreproduzir a relação dos meus pais, exatamente igual ou corrigindo-a.Quero mudar de vida. Quero deixar de ser puta. Quero melhorar a vida. Toapaixonada. Quero desperdiçar minha vida. Cansei de ser livre. Quero fazeruma grande besteira. Quero fazer uma besteira monumental. Nossocasamento será bem diferente. Quero fazer amor todo dia. Quero ser feliz.Quero engordar. Etc. Como se vê, razões para casar é o que não falta.Edson Marques Página 18
  19. 19. Acontece que. Um relacionamento amoroso só dá certo e duuuuuura bastantequando os dois amantes amam também a liberdade. Ou quando ambos asacrificam, simultaneamente. Tem que haver um pacto. Pois, se apenas umdeles amar realmente a liberdade, a coisa desanda e a separação é fatal. Não sei se já disse antes, ou se vou dizer mais tarde: O casamento é o túmulo do Amor. Entretanto, e independentemente disso, é ainda o melhor lugar parase criarem os filhos. Se você pretende ter filhos, recomendo o casamentotradicional, porém com altas doses de liberdade, amor e respeito. Sobre filhos, inclusive aqueles que eu não tive, falarei depois. Acontece que negar meu potencial é matar-me como ser humano. Se por acaso eu vivo um dia de rotina, espremo à noite o meucérebro como quem torce roupa, e não sai nada nem uma palavra, nemuma gota, nem um pingo, nenhuma emoção. E meu corpo só consegue adormecer. Mas quando vivo um dia de aventuras, vivo também uma noite deamor. E meu cérebro, só, sem esforço, produz e me oferece um milhão depalavras, tempestade de desejos e de mel, um livro inteiro se quisesse. Emeu corpo um milhão de orgasmos de uma vez. Só aventuras acumulamas energias de que meu corpo precisa, e minha alma merece. Então me lembro de Silene, de novo. A virgem. Hoje fui à casa dela e encontrei seu pai, um homem simples,simpático, me tratou carinhosamente. Tem uma barbearia. Conversoucomigo, sorriu pra mim, parecendo agradecido. Mas se soubesse as coisasque fazemos eu e sua filhinha , ele provavelmente me expulsaria de lá.Mas, se soubesse, mesmo, o que eu e Silene estamos fazendo há mais deuma semana; se pudesse saber, mesmo, o tamanho do amor puro que sintopor ela; se soubesse, mesmo, o quanto sua filha é respeitada por mim, emtodos os sentidos me agradeceria mil vezes por segundo. Se o pobrehomem soubesse, por exemplo, que a vida sexual da sua filha era uminóspito deserto antes de mim; que ela ainda não havia sido amada deforma alguma por ninguém; que eu a transformo de mulher em musa,diariamente; se ele soubesse quem sou realmente esse homem simples,religioso, me recomendaria a Deus, e talvez até colocasse uma pequenaestátua minha no oratório do seu quarto, para venerar-me todo dia.Solidão a Mil Página 19
  20. 20. Santo Edson! (E eu agora o respeito como se ele já soubesse quem sou.) Lembro-me do olhar bondoso que me deu quando fui vê-la, e elanão estava. Simulei que fora entregar um envelope, duas ou três folhasdentro, poemas que escrevi. Para ele, importantes documentos, talvez daescola da filha. Dirigi-me àquele homem com meu olhar ressabiado,confuso, e ele devolveu-me um olhar terno, fraterno, quase angelical. Fiquei pensando. Que é com o dinheirinho ganho ali, honestamente, manuseandopentes, escovas e tesouras, que foi comprada aquela camiseta branca demalha que ela ontem usava e que molhei com saliva na altura dos seiospara que os mamilos saltassem. Foi com o esforço de pai que sua mãecomprou aquela calcinha de algodão, macia, fofinha, azul, que ontem tireipuxando-a com meus dentes de amante. Silene senta-se talvez ali naquelacadeira, ao lado da mesa que vejo através da janela, para tomar café comleite toda manhã, pão com manteiga passada por suave mão de mãe. Foicom o amor desse homem que se fez essa musa há mais ou menos dezesseteanos. Por isso, só posso mesmo amá-la tanto. É para mim uma honra, Silene, poder te amar da forma como te amohoje. Tanto, que você não sabe e jamais venha a saber. Nem saberá essehomem tão puro, teu pai, de quem não sei ainda sequer o seu nome. Então,numa tarde de sol, vou me sentar na velha cadeira azul do salão, e pedir-lhe, "por favor", que me raspe a barba rala e cinza de dois dias, essaamanhecida e poética barba de cafajeste. Vou olhar-me bem de frente naquele espelho oxidado, cheio demanchas nos cantos, e que tem moldura de madeira comida por anos ecupins. Vou olhar-me firme no espelho, e supor-me um deus arrependido. (Arrependido mas sincero.) Enquanto ele afia a navalha na tira de couro pendurada no braço deferro da cadeira Ferrante, vou esboçar um sorriso ao canalha que pareçoque sou, lá no espelho e respirar fundo. (Sinto-me Sófocles com dor debarrosto cheio de creme, branco como palhaço húngaro em corda bamba;quando ele levantar a navalha com sua mão direita, naquele gesto delicadoe profissional de um homem honrado que sabe o que faz; quando elecolocar o indicador de sua mão esquerda no meu queixo para esticar umEdson Marques Página 20
  21. 21. pouco a pele bronzeada quando for este preciso momento, vou lhe dizer,com poesia, com cuidado: Senhor, fui eu que tirei a virgindade da sua filha... Sei que vai parar seu gesto ao meio. Ficarei imóvel também, aguardando a decisão da suprema corte quelhe habita o coração. (Que lhe agita o coração.) Mil dragões e anjos em luta no labirinto em que sua cabeça setransforma. Verei no espelho o movimento da sua garganta engolindo emseco alguma coisa. Vou ver tudo o que for possível ser visto no instante quepode ser último. Tentarei ver o brilho suspenso da velha navalha refletidono espelho, como farol de uma ilha perdida orientando náufragos de umamor que sobe à tona. Sabemos que não fui eu que lhe tirei a virgindade,Silene, mas é como se fosse. Hoje eu preciso deflorar uma história. E continuo: Foi ontem, Senhor, no luar prateado de ontem à noite, as estrelaspor testemunhas foi ontem que amei sua filha... (Esse, o momento!) Esse é o absoluto momento que eu quero viver. O fio da navalha! Um momento em que minha vida estará pulsando nas mãosindecisas de outra pessoa, nas mãos desse homem que é o pai da inocentefutura mulher que eu hoje mais amo no mundo. E que talvez nãocompreenda essa minha atitude. Por que você diz isso agora? perguntará. Para se fazer justiça, meu senhor. E ele ali, meio perplexo, a navalha meio cega suspensa por meusolhos, seu indicador apontando um lugar imaginário no meu queixo brancode espuma, a jugular clamando gumes. Um mosquito pousa na minha testa. O vento balança um bilhetinho pregado com durex na moldura dovelho espelho oxidado, com a tinta descascando. Um cachorro late lá na esquina. Uma criança passa correndo atrás de um gato. Vejo que a navalha não tem fio: tem uma linha de raciocínio.Solidão a Mil Página 21
  22. 22. Respiro cuidadoso, como Bergman em noite de verão me dirigindo.Crepitam gravetos e coivaras no meu peito. O pulmão direito agora mudade lugar e o esquerdo se transforma em suspirante coração. Continuo dizendo, calmo: Ontem à noite Silene não foi à escola: fomos à minha casa. Elaaceitou meu convite pra jantar. Tomamos vinho, olhamos a lua, ouvimosmúsica, dançamos... Em voz baixa, vou lhe dando mais detalhes. (Conto tudo.) É um duelo informal de cavalheiros: eu entro com a história ele,com o silêncio. Eu entro com a garganta e as emoções ele, com a faca eo risco. Eu entro com a dor, ele, com a filha. Sinto que me olha sem piscar. Mudo. Minhas mãos pousadas no descanso da cadeira. Esse é o momento. (Vai ser assim!) Porque o Paraíso não pode ser lugar de gente morta. Há que ter risco. Risco, navalha, tempo, garganta, mulher, emoção. Tudo por um fio... Mas agora uma garrafa de vinho pela metade, rosa vermelha ansiosapor mim, três ou quatro velas azuis em castiçais de prata espalhados pelasala, uma penumbra gostosa onde sombras delicadas dançam por simesmas, o Bolero de Ravel crescendo em todos os sentidos no meu peitoapaixonado, uma brisa noturna e encantada entrando pelas portas e janelas.Mistérios no ar, desejos, também. Às vezes, silêncio: e Ravel retorna. Espero uma das outras minhas amadas. Se ela chega, agradeço a Deus por ter chegado, e nos amamos daforma mais gostosa. E se não chega, agradeço a Deus por não ter vindo, econtinuo a me amar da mesma forma. Não faz diferença se danço comvocê, ou se sozinho: amo as duas coisas, e a dança sempre aconteceprimeiro dentro de mim. No fundo, sempre agradeço a Deus por você vir, eagradeço mais ainda se você some por uns tempos. Quando vocêdesaparece, meu amor, o espaço que você deixa é enorme: e então procuroocupá-lo de modo diferente, pois cabem dez outras dentro dele...Edson Marques Página 22
  23. 23. Olho para meu corpo como se olhasse a própria Natureza. Umpedaço dela o mais importante, concluo. Quando passo as mãos emmim, é como estivesse refinando uma escultura, cobrindo-a de amor eternura. Eu, meu alimento! Quando me toco ouço música. Vibrante. Não tenho uma vida só: tenho muitas. Todo dia, ao me levantar,escolho uma delas pra viver e são todas perfeitas, todas livres. À noite,quando venho dormir após extensa jornada de amor, guardo em mim essavida que hoje vivi, e vivo-a de novo. Sou garimpeiro de sonhos remexendo cascalhos de amor. Se vou mudar, nem Deus sabe. Eu acho que sim. Se você não acredita, é melhor parar.Solidão a Mil Página 23
  24. 24. Eu me espanto ao ver que essas coisas que se transformaram emmim já existiam separadas e só se uniram para formar-me. E queoutras continuam vindo, para tornarem-se-me. Que inteligência as conduzaté mim? Por que será que me escolhem? Ou por que é talvez que aceitam oconvite para que venham a constituir-me dessa forma tão gloriosa? Continuo perguntando como se fosse alpinista: Posso ver tua pequenina montanha, meu amor? Sim ela responde. "Eu sempre digo sim, quando você me fala de amor". Então levanto delicado o azul de sua saia, clarinho, passo as mãospor suas coxas, sinto a penugem que lhe cobre a pele lisinha, firme, e vousubindo, subindo, subindo. A calcinha é branca: surpresa para mim. AdoroEdson Marques Página 24
  25. 25. surpresas. Imaginava que fosse bege. (Essa é uma das vantagens dosamores passageiros: a gente nunca sabe a cor da calcinha que elas vestem.)E vou subindo mais ainda minhas mãos nessa escultura de carne, sangue,tesão, surpresa e arrepios. Sussurro: Que maravilha... E ela, como penteasse delicada os meus cabelos com os própriosdedos abertos, sorrindo, sentada na cadeira branca: Você é o amor. Disse: Você é o amor e frisa (demoradamente) o artigo definido,masculino, singular. Mas não será agora que vou lhe ver a deliciosa colina. Vou deixar para depois, outro dia, quem sabe. Talvez nunca. A mimme interessa mais a permissão que ela deu. Basta. Eu sei que amanhãtalvez, na cama, numa posição mais confortável, vou lhe tirar a calcinhapuxando-a com meus lábios evidentes. E vou então poder observar-lhe oclitóris, sua cor, textura, tamanho, volume, gostosura, freqüência, pulsaçõespor segundo, essas coisas. Amanhã... talvez. Pois eu nunca tenho pressa. Hoje só quero tocar o clitóris da própria vida. Não penduro na parede da sala as fotos dos meus amores comofossem troféus de caça. Porque são elas as feras que me caçam, meconquistam, me dominam, mordem, lambem, acariciam, me amam. Só nãopermito que se acasalem comigo. Assim como pintores precisam demodelos, também escrevo melhor quando as tenho à vista, nuas, puras,belas todas. Às vezes, acho que já não mais escreverei coisas tão novas,mas logo em seguida outras idéias fervilham na minha cabeça flamejante;no coração, sentidos pululam como rãs embriagadas de amor; nos olhos,imagens dançam coreografias revolucionárias criadas por Martha Graham;de minhas línguas surgem novas palavras grávidas de encantos que se dão àluz. Então escrevo, escrevo de novo. E de novo de novo. Meu único princípio é não ter fim. E as palavras se oferecem prostitutas para mim. Caem no meu colo, lúbricas, doces, inocentes. Caem na minha boca,na minha língua portuguesa e em todas as outras. Se derretem por mimSolidão a Mil Página 25
  26. 26. quando preciso delas quentes para falar de amor, e vêm geladas se precisocontar tristezas. As palavras, todas, se oferecem para mim, obscenas esantíssimas ao mesmo tempo. Divinas e profanas como um falo. Então as escrevo, profundas, belas, insensatas, radicais. Por isso há tanto lirismo na minha obscenidade. Tanta realidade na minha ficção. E tanto amor nos meus amores. A história que vou contar é a mais pura das minhas verdades. Vourelatar o que vi com meus olhos do amor, descrever como tudo aconteceu.Se algo fugir do real, será mais por falta de lembrança do que de caráter.Sou um anarquista lúdico. Anarxista. Alguns dias por semana, algumashoras por dia, represento um papel: me transformo em operário, chegomanso ao escritório, cabisbaixo, feito um idiota. E represento tão bem essepapel no palco da hipocrisia cotidiana, que as pessoas pensam que soumesmo responsável. Mas, por dentro, continuo rindo de tudo e de todos. Portanto, não me peçam para sofrer: não tenho complexo de mártir.Sou só um santo louco, gozador, inconseqüente, com enorme vocação paraser um Deus-palhaço nada mais. Na verdade, até que sou bastante responsável. (Só que não levo a responsabilidade muito a sério.) Deus adora o porra-louca, por isso lhe dá tanta alegria, tanta energia.E Deus não pode amar os que são sérios e por isso os faz tão tristes.Deus gosta muito de brincar. O próprio Mundo é seu maior brinquedo. Lembre-se: quanto mais sério, mais longe de Deus! Fico pensando: Se eu tivesse aprendido uma palavra nova por dia, desde que nasci,não saberia hoje nem 20.000 palavras diferentes. Como vemos, não bastaaprender apenas uma palavra por dia. Um escritor deve saber pelo menos50.000 palavras na ponta da língua em que escreve. Para um idiota, bastammil. Chefe de escritório se vira com trezentas. Mas um pedreiro deve sabercerca de 3.000 incluindo-se "tijolo, pedra, areia, cascalho, marmita eCorinthians". Shakespeare sabia apenas 5.000 palavras diferentes maseram todas as que existiam no inglês daquela época. E você, está pensando em ir além?Edson Marques Página 26
  27. 27. Acho que o meu além nunca vai além de mim. Por isso ainda não decidi a quem vou deixar o meu além. No Upanishad, escrito talvez no século VII a.C., lemos que Além é"aquilo que as palavras e os pensamentos não alcançam". O que não foi, denenhuma forma, nomeado o transcendente. Quero sempre o novo absoluto. Enquanto vocês engessam seus braços fechados, procuro abrir maisainda meus braços abertos de amor. Só me dão prazer amizades eróticas,por isso tenho tantas amigas. Amizades masculinas, machas, não sensuais com elas só desperdiço meu tempo. Tenho pouco interesse em ser amigode alguém que não posso amar. É só disso que trato nos meus livros. Da Gramática do Amor. Le livre de la Liberté! Se você não gosta dessas coisas não será nunca meu leitor. Minha literatura propõe uma prática de Liberdade. Eu só falo de amor. De amor livre! E se você não gosta disso é melhor começar a gostar. (...) O amor tem que ser livre em todos os sentidos. Mas para você éimpossível; você é contra o amor livre. De novo te pergunto: Se o amor não pode ser livre, como deve ser então: amor preso?Amor acorrentado, encarcerado, sufocado? (Seria contraditório.) Quando eu era pequeno brincávamos de ver nuvens no céu deSrinagar. Meus amiguinhos só viam bois, cavalos, elefantes, mangueiras,copos de leite. Mas eu, nas mesmas nuvens, via elefantes enfeitados comsafiras dançando em tamboretes de ouro em picadeiro de circo; viaBonaparte empunhando sabres num cavalo branco; via uma mulherdescalça, vestidinho de chita, carregando um pote de água pura na cabeça;via um miura com quatro banderillas espetadas no lombo ensanguentado;via a Vênus de Milo de ponta-cabeça... Eu via coisas que os outros nãoviam. Até hoje ainda olho para o céu e vejo coisas que nem posso contar,de tão lindas, encantadas maravilhas. Vocês não iriam mesmo acreditar. (...)Solidão a Mil Página 27
  28. 28. Duas coisas são básicas na formação do ser humano: pensar rápido eenganar autoridades. Como eu era pequeno por fora, fisicamente fraco,economicamente dependente, e tinha pai autoritário, fui obrigado a pôr asasno meu cérebro e aprender a jogar. Já vem daquela época esse meusíndico do meu prédio até a polícia rodoviária, passando pelo padre e pelazelosa mãe de uma lolita. Engano todos. Engano até mesmo essa ciumenta possessiva que dorme hoje ao meulado e que pensa que é minha dona. E se eu tivesse patrão, chefe, professor enganaria os três. Mas hoje não tenho nada a esconder. Até teria, se fosse medroso. Exceto uma vida livre em todos os sentidos, nada que me obrigue areceios. Uma adolescente aqui, outra acolá; um bacanal de vez em quando,vinho, flores. E literatura. E fazer amor com duas mulheres ao mesmotempo, também de vez em quando. Só isso. Nada a esconder, tudodeclarado: não sou gay, não sou ladrão, não uso drogas, não sou judeu, nãosou nazista, não sou pobre, não sou rico, não sou muito velho, não soumuito feio, não tenho muitas dívidas, não sou muito preto, não como muitascriancinhas não sou muito burro. Nem muito comunista sou mais. E vivoextremamente bem na praia. No sol, descoberto, nada a esconder. Vivo como rei, mas nem sempre foi assim. Quando cheguei a São Paulo eu era pobre muito. E pobre vive fazendo conta só pra ver se o dinheiro estica. Eumantinha um rigoroso diário financeiro, com letras minúsculas, um personalcashflow. Tenho vontade de rever uma daquelas fichinhas coloridas,caprichadas, cuidadosamente guardadas na carteira, onde eu descrevia oque gastei e de que forma: guaraná Antarctica, pipoca com queijo naFilosofia, duas passagens de ônibus, um jornal, duas entradas no BelasArtes, um chocolate, pizza brotinho na madrugada Xangai do Parque D.Pedro, um sabonete Lux, O Grau Zero da Escritura no sebo... Era uma pobreza tão rica!porque o dinheiro não deu. Fiquei com o livro na mão quase uma hora,esperando acontecer um milagre na Avenida São João. Depois fui dormircom Dostoievski, imaginando o seu romance nos meus braços. NaquelaEdson Marques Página 28
  29. 29. noite, meu quarto na pensão parecia uma Sibéria, e eu só tinha um corta-febre me cobrindo de frio e de agosto. Ou seja: nada a esconder. Claro que essa pobreza, expressa na falta de dinheiro e cobertores,era relativa, e se deveu ao meu orgulho. Os seis primeiros meses em SãoPaulo foram uma festa. Restaurantes, teatros, cinemas e passeios. Aconteceque em julho o dinheiro que eu havia trazido acabou. E você acha que euiria me humilhar, pedindo mais ao meu pai? Jamais. Passei fome, cheguei aroubar sabão em pó para lavar minha roupa, nos fundos de uma pensãojaponesa. Claro que às vezes senti saudades do restaurante do meu pai,onde eu comia picanhas no almoço e na janta. De noite, em agosto,tremendo de frio, eu me lembrava dos cinqüenta cobertores que tínhamosem casa. Mas eu sabia que precisava, e iria, vencer sozinho. E a vida foi o meu Mestre. A vida e o Oswaldo Porchat, que era então meu professor de Lógicana USP. Um dia ele nos disse que sem Lógica não haveria computação, eesta já era a ciência do futuro. Na mesma noite, vindo mais cedo, passei nalivraria do Manuel, na Avenida São João, onde roubei um livro deprogramação e análise de sistemas. Em duas madrugadas, aprendi aquiloque eu supunha ser tudo a respeito. Mas que foi a base para um curso quefiz em seguida, no qual fui aclamado como o melhor. Seis meses depois,meu salário foi às nuvens. E a pobreza nunca mais chegou perto de mim. Todas essas coisas eu contei no livro Teoria do Acaso. Portanto, se você quer mesmo me criticar, vai ter que esperar. Sempre que não estou construindo pirâmides, eu faço amor. Das 24horas do dia, reservo algumas. Não são muitas mas são tantas, tão intensas!Nessas horas só faço amor, com toda a delicadeza que a expressãocomporta. E de uma forma pura, inocente, quase religiosa. Nessas horas euamo. Só isso: amo. Depois tomo um vinho, rouge, sossegado, o leão quetrago no peito repousa, ronrona, resfolga. E me sinto bem. Se você não amatodo dia, como amo, nem toma o vinho que eu tomo, o problema não émeu. Só quero que você viva a vida se é que podemos chamar de vidaessa tua indecente ausência de amor. E deixe que eu viva a minha só! (Cada um na sua.) Se você não concorda, é melhor fazer outra coisa.Solidão a Mil Página 29
  30. 30. Eu prefiro o cume, o pico, porque aqui não tem fila nem pressa, nãotem ajuntamento, empurra-empurra, confusão. Prefiro o cume porque aquininguém me aporrinha, ninguém me pressiona, nem me pede autógrafo,nem me enche o saco. Prefiro o cume, o píncaro, porque é só aqui que eusei viver. Nasci para o pináculo. Nasci para o auge. Portanto, cada um na sua sempre. Se você não concorda, etc. Aliás, será que você me entende?que pensa que é para baixo! Ora, eu me refiro a um salto para cima. O saltomais profundo é o que damos para cima! Por falar em salto, Fernanda hoje beijou-me os pés. Mil beijoscândidos, lúbricos, a língua dançante, cobra vermelha entre os meus dedos,todos explodindo de alegria. Agora sei o que sentia Jesus quando chegava aprometer até o céu às mulheres que Lhe beijavam os pés. Agora eu sei!Jesus, por que você demorou tanto tempo para mostrar-me essa menina eSuas coisas? Mas Deus agora me veio de ouro em fernanda pessoa. Assim como Zorba, o grego, eu vivo no paraíso. Se o paraíso for só para depois da minha morte, não me interessa.Como disse Zorba, o Buda, cada um procura (ou constrói) seu próprioparaíso: alguns o transformam num monte de garrafas de cerveja; outros,em igreja evangélica; outros ainda, em saldo bancário. Nem me refiro aparaíso fiscal. Eu, como poeta que sou, tenho assim meu paraíso: uma belatarde ensolarada, brisa delicada me tocando as faces, gostosuraspreenchendo meus olhares, e ao meu lado o amor que eu agora estejaamando. E mais duas ou três mulheres meninas me beijando os pés. Só isso... É assim meu paraíso. Por isso estou lançando hoje uma campanha. Será a Nunca mais forçarei a Minha Própria Natureza! Nesta sociedade em que vivemos, quase todos forçam sua próprianatureza. Aqui, são cinco as instâncias principais que nos oprimem.Algumas nos oprimem por ignorância ou tradição; outras, por sadismo ouEdson Marques Página 30
  31. 31. interesse; e outras nos oprimem simplesmente por "amor" ou por umabsurdo desejo de nos salvar à força. Mas todas só querem é conservar omundo do jeito que está. Porque padecem de normalidade, e pretendemmatar esses belos sonhos de liberdade que trazemos no peito. Só queremmanter-nos a ferros e veludos e com as devidas coleiras e algemas. Emportuguês, essas "coisas" começam com a letra P: os pais, o pastor, osprofessores, a polícia e o patrão. Se você não se livrar logo de todos essespês, e de sua influência perniciosa e opressora, vai provavelmente segui-losde cabeça baixa pelo resto da vida e ficar igualzinho a eles. (...) Sou amigo até das feias, mas das belas, sou mais. Quando olho umabela mulher com olhos de amigo, sinto por cima dos ombros o amante àespera de uma chance. À primeira vacilada, o amante que mora em mimataca. Com delicadeza, mas ataca. Por isso, menina, não ligue quandopouso minhas mãos em tuas coxas: não quero mais nada. Mas o amante emmim te observa, te foca. O amante em mim te lambe com a língua do sonho,e te vê com os olhos da alma. E aguarda o momento, o mágico momentoem que, felino, vai tocar o teu sexo com poesia e tesão. Respeitosamente! Porque o instante de uma coisa não a precede. O momento de umfato não chega antes dele mesmo. Antes do caos, tem que haver umadesordem. Meus amores são todos turbulentos. Parecem calmos por fora,mas por dentro estão fervendo. Mesmo quando tudo parece que repousa, apele ainda não: seu arrepio não se cansa. A coisa mais profunda no corpo humano é tesão à flor da pele. Eu troco alegria por entusiasmo e vice-versa. Fora disso, não conte comigo. Escravo por um dia. Um dia desses vou fingir que sou normal. Vou comprar um despertadorzinho de plástico, regulá-lo para quetoque às sete e quinze da manhã, e acordarei sobressaltado. Meu coraçãovai bater com força nos meus desejos. Vou virar-me de lado, fazer de contaque reclamo da vida, mostrar-me sonolento mas pularei da cama comose fosse um autômato desesperado. Vou tirar até a remela dos olhos, que épra dar um tom. Fazer tudo com pressa: escova, pasta, banho, pente, sabão,Solidão a Mil Página 31
  32. 32. creme de barba. Vestir-me, tomar café, abrir a porta, fechar, sair tudocorrendo. Terei hoje uma missão extraordinária: Foder-me. Desperdiçar minha vida. Prostituir-me em troca de um salário ridículo. (Todo salário se não for fantástico é ridículo). Vou trocar um pouco de vida por um pouco de morte. E à noite, quando chegar em casa, vou ligar a tv pra ver o que perdi.Vou aguardar o jantarzinho que não vem. Vou até esquecer-me de beijaressa esposa que nem tenho. Dizer que não posso brincar com o filhoimaginário, porque meu jornal é "indispensável". Vou sentir-me umescravo. Escravo e estúpido. Porque, antes de ser normal, antes de batercartão de ponto, antes de escolher um chefe, antes de se casar, antes deassassinar a tua própria liberdade você tem que ser essas duas coisas,simultaneamente: Estúpido e escravo. Felizmente, minha missão extraordinária vai durar um dia. Só umdia! Porque, fosse para sempre, aí é que eu tava fodido mesmo! (...) O filósofo, o poeta, o artista nossa função é saltar barreiras, subirà tona, transpor obstáculos, desbravar caminhos, quebrar ícones da moral,fulminar a hipocrisia da sociedade, melhorar a vida, mudar o mundo. Opoeta, o artista, o filósofo, o cientista, o escritor somos a vanguarda daHistória. Somos líderes porque não podemos ser outra coisa. Em nós, razãoe loucura disputam corrida. A razão ganha todas, mas num lindo gesto degrandeza cede sempre o troféu à loucura. Pois é. Qualquer coisa que digo pode estar na primeira página, porque tudotem verdade que lhe sustenta. Até aquilo que nego pode às vezes serverdade. E quando nego, também o faço porque creio. Assim como afirmopor amor e doçura, não nego com segundas intenções. Mesmo quando falode mim penso no outro, no que representa para si e para aquele quepensa ser. Quando digo "representa" não penso só em significância, mastambém em teatro, jogo, simulação. Nem tudo o que significa diz algumacoisa nos iludimos às vezes com aquilo que é real. Fala não se confundecom voz, aquela é mais profunda, tem mais cor, mais peso, mais volume. Tudo neste livro merece ficar na página um.Edson Marques Página 32
  33. 33. Não dá pra se enforcar com laço de cordinhas vocais. Nem todo nóna garganta pode ser desatado. Talvez seja melhor engoli-lo do jeito queestá, pois é melhor digerir o que nos sufoca e é mais forte que nós. Entãopsão interpretações sobre a realidade, determinadas pelo ponto de vista epela capacidade intelectual do jacaré que as propõe. (...) E o sítio lá no sul do Paraná me volta sempre ao coração. O vinho é feito de agulhas, meu copo é um dedal. Costuro à mãopedaços da infância, com eles faço um lençol. Peço à Lorenna que me cantecantigas de natal da Idade Média, e ouço a Singer rangendo seus pedais nomeu CD. Minha mãe também costurava, pregava remendos, colava botõesnos buracos, lavava roupas de amor. Vejo até sabão de cinzas no fogo quetanto me arde agora no peito, espumas de lembranças incendiadas. Edson?!... Ahn? Nada. Edson?!... Ahn? Nada.da terceira pergunta, fiquei esperto. E aí veio a quarta vez: Edson?!... (Silêncio profundo.) Edson?! Tá dormindo?... (Silêncio mais profundo ainda.) Segurei a respiração, não respondi, abri as orelhas como duasenormes antenas parabólicas, e fiquei aguardando o desenrolar dosacontecimentos. Meu coração barulhento fazia "tum tum, tum tum tum, tumtum tum, tum tum tum". De novo, como certificassem que eu estava mesmodormindo: Edson?!?!... (Silêncio lunar.) Então começaram. Eu tinha um misto de curiosidade e de ciúmes.Com sete anos, o sexo era incômoda, enorme incógnita para mim edesesperada curiosidade. Nem me mexi, para que as palhas do colchão nãofizessem barulho. Meus pais supunham fazer aquilo que chamavam deSolidão a Mil Página 33
  34. 34. amor, no escurinho de um rancho de sapé, no sul do Maranhão e eufingia dormir na caminha fofa de taquara verde. Naquela noite, sonhei muito. Tanto, que nem me lembro. (Omistério do sexo era maior que o meu próprio. Para mim, o sexo era ummistério absoluto. Para mim e para Freud.) Na madrugada caí da cama, aúnica vez que devo ter caído da cama em toda minha vida, exceto aquelaem Lhasa, como já disse. Caí no chão duro de terra batida, envergonhado,ainda que ninguém tenha visto a cena da queda. Trepei na cama de novo,em silêncio. E dormi, um pouco angustiado, sentindo-me traído naquelamadrugada perdida no meio do mato, no sul de um estado que nem maisexiste. Já dormi em colchãozinho de palha, com um pau de lenha por baixo,fazendo as vezes de travesseiro. Experiência poética que você não terájamais. Porque, antes de ser trágica, era poética aquela experiência. Não meincomodavam as palhas nem o barulho que faziam quando se roçavam entresi, como se loucas por mim, como se me aplaudissem. Eu era tão pequeno,tão pequeno, que aquilo não era uma cama: era o meu berço. (Esplêndido!) Primeiro, Luiz e Vitalina, depois, Luiz e Maria. Afinal, Luiz e Iracy.Agora, Eu e Mim. Pouco a pouco, muito a muito, fui chegando. Numasucessão gloriosa de luz, vida, pureza e açúcar cheguei. Portanto, aproveite-me, tente-me, prove-me. Sou filho do que há de melhor. De manhã, não fico ruminando o luar que já se foi. Antes doprimeiro gole de café, limpo o gostinho madrugante que minha boca possaainda estar sentindo. Não me atenho a coisas que passaram, não me ligo acadáveres de nada, o que morre não me encanta, eu me ocupo só do agora. Eu amo o agora. Só. E se você não ainda sabe a diferença entre Minalba e Perrier, vai terque ler este livro umas três vezes. Mas esta frase eu só vou escrevê-la daquia uns dez anos, quando estiver em Bilbao, tomando um Vino Crianza queme custou a bagatela de oito euros. Portanto, "dá-me mais um tempo, Demônio: ainda não caiu o últimogrão do meu relógio de areia". Busque-me mais tarde, volte depois, porqueagora estou amando como Deus, ainda conquistando minha amada imortal.Não me interrompa esse último ato, a taça de cristal da minha vidaEdson Marques Página 34
  35. 35. transborda de amor e prazer. Quem sorve esse néctar é a escancarada bocagulosa da liberdade absoluta. Para compor esse quadro com harmonia,cadência e sorriso, você tem que dançar comigo a dança livre da alegriapura. A vida é uma festa em todos os sentidos. Portanto, chega de médio, de pouco, de medo, de escuro. Viva a cor, viva a coragem viva! Paritosh, ironicamente, um dia sugeriu-me um absurdo: Se gosta tanto de coisas novas, Edson, case-se, tenha um ou doisfilhos e você viverá uma experiência nova. Ao que respondi, lamentando esse conselho : Eu amo o novo, mas só o novo que não suprime a possibilidadedo novo novo. Se um novo por acaso traz consigo o germe que tenta torná-lo perpétuo, e de algum modo impõe certas exclusividades não naturais,ainda que delicadas e ainda que passageiras, fujo dele, como Deus foge dacruz. Não posso, jamais, amar o novo que vai me impedir novos amores.Por que razão fecharia uma situação de futuro? Como poderia eu amar umacoisa que logo logo vai acabar atrapalhando meu amor por todas as outras?Nesse caso, trocar o todo pela parte é uma demonstração de burrice! Minha descendência não está assegurada. Ao contrário: acabo-meem mim para sempre. Não continuo, não me prolongo, não me estico,nem me desdobro: quando me for, irei inteiro todo. Não deixarei umagota sequer do meu sangue perdida por aí. De mim nada ficará, exceto aspalavras que falei, os livros que escrevi, e todos os amigos e amores queamei a minha historia e as minhas histórias: só isso. Filhos, netos,bisnetos: nunca os terei. Nunca. Jamais serei proletário! Felizmente. (Fico sonhando.) E são sempre coloridos os meus sonhos. Mesmo quando sonho empreto-e-branco, vem Van Gogh e os transforma. Às vezes, vem Cézane,outras vezes, correndo desde Papeete, desde a Patagônia, vem aqui o PaulGauguin me socorrer. Pinta as mulheres minhas como se suas, leva algumascom ele, embora. E me lança olhares perguntantes ao sair. Respondo sempre: Pourquoi pas?! Dali também costuma vir aqui. É o mais irreverente: às vezes, asama antes mesmo de pintá-las, outras vezes, nem lhes deixa secar direito, ese lambuza em tinta fresca. Gauguin é deles o mais louco. Só Van Gogh éSolidão a Mil Página 35
  36. 36. mais contido, mas sempre ao terminar beija a orelha delas. Já Picasso écuidadoso: as mais feias ele apaga e diz apenas: Essas não têm conserto, Edson. Algumas das "pintadas" se misturam às coloridas de verdade, edepois ficam rondando pela casa quando me acordo. Mas todas sãooriginais, e amo-as até que mais não possa. Ou até que a casca caia. Eu também só escrevo a cores vocês não veem? Se não as veem desistam. Em terra de rei quem tem um olho só é cego! Minha mãe, meu pai, minha história e meus amores me deram aquiloque eu tenho de mais valioso: ou seja, a Vida. A forma de geri-la, contudo,capi ndo. Sou meu próprio diretor! O autor exclusivo dos caminhos que percorro. Não sou como Joaquim, meu avô paterno, que era carroceiro porprofissão. Não o conheci porque ficou louco bem antes de mim. Todos osdias ele ia à estação ferroviária com a esperança de fazer carreto, umservicinho qualquer para salvar o leite das crianças. E todo dia, isso erasagrado, trazia alguma coisa para casa, embrulhada geralmente numpaninho branco de saco de açúcar. O coitado era tão humilde que não possome lembrar dele sem que chore. Era assim: toda segunda-feira ele trazia uma latinha de massa detomate Elefante; na terça, um pacotinho de macarrão; na quarta, cemgramas de queijo ralado; na quinta, quilo e meio de tomates bem maduros;na sexta, lembrancinha para os filhos, um doce, umas balas; no sábado, agarrafa de vinho tinto, daqueles de barril e estava então completa aquerida macarronada do domingo, ao lado dos filhos e da mulher que eleamava, Maria. Era a sua maior alegria... Depois, anos mais tarde, doente, chorando, tremendo de frio, ele foiabandonado pelos próprios irmãos na porta de um hospício em ruínas, nacidade de Franco da Rocha, SP. O nome dele era Joaquim dos Santos.Edson Marques Página 36
  37. 37. Bebia, sim, mas não era um pau-foi ter permitido que outros tomassem decisões em seu nome. Enlouqueceu do lado errado. (...) Se você estiver doente, carente, ou à beira da morte, nem venha mever. Nesta casa não tenho remédios. Aqui se troca entusiasmo por alegria,ou vice-versa. Eu não tenho aspirina, novalgina, dipirona ou anadores. Aqui só tenho abraços, estrelas e flores, vinho, música e amores! Fico pensando em inglês, because My Joyce Will Go Ann. Outono, sábado, 22 horas, 51 minutos, 17 de abril, a pressãoatmosférica ao nível do Mar Azul do Guarujá é de 759 mmHg. Ao meulado, uma prova de que a Natureza pode às vezes ser perfeita. Peso: 49,9kg;altura: 161 cm; pressão arterial máxima sistólica: 118 mmHg; mínimadiastólica: 68 mmHg. Pulso: 92 por minuto. Idade: treze. Nome: JoyceAnn. Saudável, assustada, inocente, e lolita naturalmente. Um pouco mais tarde, olhos fechados, a Musa torna o começo damadrugada mais brilhante que aurora trazida por Lúcifer. Sua mãe, cansadade tanto nos cuidar, vai dormir, deixando a incumbência para Simone, irmãmais velha que meia hora depois dormiu de roupa e tudo no sofá. Ouseja, Deus, em sua magnífica bondade, foi preparando o mundo para que sónós dois ficássemos acordados esta noite. Deitada com a cabeça em minhaspernas, mãos infinitamente dadas, após nelas ter passado creme suíçoCollagen Elastin, ouvíamos o disco que ela trouxera: Celine Dion. Amúsica era My Heart Will Go On repetindo por mais de vinte vezes. Luzes apagadas, o controle remoto nas mãos, para que a música sigaos desejos de Deus. Um pé esquerdo de sandália preta na cabeça da estátuaargentina que tenho na sala. O fascículo com a biografia de Delacroix, quehavia antes lido para ela, aberto na página em que a Liberdade conduz opovo. Detalhes que hoje moram no meu peito. Momentos que ainda meparecem o resumo dos últimos cinco mil anos de história. Quem nuncaviveu o amor com tal intensidade não sabe o que está perdendo. Acionoentão o controle remoto para Celine cantar Immortality para nós, e aciono ocontrole imediato para tocar minha vida: Posso tocar teu coração, Joyce Ann? Sim...Solidão a Mil Página 37
  38. 38. A resposta veio rápida, minha mão direita saltou os milímetros que aseparavam do peitinho-coração de Joyce Ann. É a segunda vez em minhavida que toco seu corpo dessa forma, e meus gestos, delicados, serãoinesquecíveis para mim. Sei que não devo avançar demais, porém algo maisforte que a razão agora me impele, firme, e determinado. Então lhe digo: Meus dedos querem atravessar o tecido da blusae tocar tua pele ao vivo, Joyce Ann. Posso!? Ela sorri, esconde o rosto com uma inocência excitante nunca antesvista por mim, e diz, sussurrando: Tenho vergonha... Não era um sim, nem era não, mas a manifestação de um pequenotemor, e grande desejo, ao mesmo tempo. Joyce Ann apertou-me o pulso efez com que eu sentisse um mamilo pronunciado, espetando a palma daminha mão. Então larga meu pulso, suspira, sinto tesão e dúvidassimultâneas. Devo enfiar meus dedos ousados pelo decote inocente, ouprocurar outro caminho mais discreto? Devo orientar as circunstâncias, oujogar-me de cabeça dentro delas? Devo jogar-me como se eu fosse umjogo, ou como se fosse um brinquedo? Enquanto me decido, me questiono.Minha mão, delicada e cuidadosa, em minúsculos movimentos circulares,dançando sobre o mamilo durinho, como um prato de porcelana chinesagirando na pontinha da vareta de um malabarista apaixonado. Não era um sim, nem era um não... Há duas horas que meu sexo deliciosamente excitado me aponta umcaminho como se fosse uma seta, mas resolvo não segui-lo. O caminhodeve ser longo para que eu possa percorrê-lo passo a passo. Step by step.Decido-me deixar minha mão onde está: no máximo, em todos os sentidos. Não será hoje! Celine Dion continua "talking about love", e Joyce Ann começa adeixar de responder, sua cabeça pende ainda mais, e uma coisa chamadaternura se apossa de mim. Ajeitei sobre ela o acolchoado que já nosprotegia, e fiquei mais duas ou três horas velando seu sono, ouvindo a faixanove: "Mi e tentandoacalmar meus instintos, enquanto vasculhava a memória em busca de outrosmomentos iguais a este. (Não encontrei nenhum parecido). Ela dormia criança bem solta, entregue a si mesma, pura, acabeça repousando no meu colo inocente, confiante. Como um quadro deKlimt, especialmente o Retrato de Mada Primavesi Joyce Ann requerEdson Marques Página 38
  39. 39. demorada contemplação. O tempo foi passando, veloz, e quando meupróprio sono começou de madrugada a derrubar-me sobre ela, me lembreide Kundera. Tento acordá-la, em vão, e há cabelos prisioneiros no meuzíper, indicando-me sonhos que imagino agora ter tido. Levo-a para suacama, cuidadosamente, carregando-a em meus braços de amor, comocarregasse a mais sustentável das levezas de um ser perfeito 49,9 kg degostosura absoluta, sem um grama de gordura. (Não é preciso sentir mais nada.) Agora, três anos depois, toda noite acordo cedo, madrugando.Almeu caso é diferente: são os Deuses que me acordam toda noite para que eupense em nome Deles. Então, antes de fechar este capítulo, a divina voz mediz: E se você não gosta de Nietzsche é melhor parar de dançar. (...) Fico pensando. Meu pai morreu de ataque cardíaco. Meu avô, bisavô, tataravô, seu pai e o pai do pai dele, todos os meusantepassados morreram de ataque cardíaco. Meus tios e primos daprimeira, segunda e terceira geração, também. Meu irmão, ameaçado. Atécunhado meu anda morrendo de ataque cardíaco. Tenho, portanto, que romper com a tradição. (Mais uma vez!) (...) Acontece que todo dia preciso começar um romance. Romance é que nem romance, você sabe. Vira tédio, cansaço àsvezes rancor. Assim como certos dias você nem quer relar o sexo na tuaesposa, eu também me recuso a tocar num dos meus romances antigos.Cansei-me deles, de quase todos. Assim como você deixa tua mulhermofando na cama, enquanto finge assistir a tv, também deixo algunsromances mofando na gaveta, enquanto finjo escrever outros. Somos iguais, nesse aspecto. Como você vê, somos uns putos.Solidão a Mil Página 39
  40. 40. Por que não desatamos logo a relação, e livramos os coitados paraque possam viver suas vidas? Tua mulher achar um amante de verdade;e meus romances um editor que creia neles. Por isso é que eu começo um romance novo todo dia, das duasformas pra não virar tédio. Por que você não faz o mesmo? Se você não entendeu, é melhor parar. Mas isso vale também para as esposas com dores de cabeça. Eu escrevo só para aqueles que entendem, e escrevo só para quemsabe ler de modo profundo. Não vou gastar sabão em cabeça de burro. O"meio-louco" é sempre "meio-burro". Não dá pra ser meio-louco sem ser,ao mesmo tempo, meio-burro. Você tem que ser total. Para um lado ou para o outro. Mas você quer recomeçar só a partir da metade. Retroceder só um pouquinho, um instante, um minuto... Não dá! Todo recomeço tem que ser do zero. Absoluto! Se você não me entende, não posso fazer mais nada: Porque eu dispenso a compreensão daqueles que não conseguem mecompreender. Só busco a compreensão de quem é sensível, e mesmo a faltadesta não me fará mudar de idéia no que diz respeito à liberdade e à minhaconcepção de amor. Facínoras, ditadores e ciumentos podem me crucificarpelo que eu penso. É natural que os brutos não me compreendam. Se aindavivêssemos na Idade Média eu já teria virado churrasco. Já teria sidoprovavelmente queimado vivo numa das fogueiras da Inquisição. Se até que diz me amar me critica, imagem a Igreja Castrólica... É a vida! Aliás, é a morte. Mas antes que o meu barco singre os mares encho-o de coragem ede remos, iço as velas, desfaço planos, jogo a bússola, rasgo todos osmapas e me afundo no desejo de amar. Vou criar uma tempestade no coração de vocês! Sou que nem a formiga, que às vezes não consegue saltar uma gota,mas cai de um arranha-céu sem se ferir! (...)Edson Marques Página 40
  41. 41. Fico filosofando. Se uma pessoa ama realmente a liberdade, e além disso tem charmee gostosura, ela não precisa de mais nada para manter-me preso,espontaneamente preso aos seus pés. Não preciso de alianças no dedoanular nem de cordinhas no pescoço. Não preciso de promessas nem degarantias em papel. Nas questões do amor, eu sou um verdadeiro vira-latazen: vivo abanando o rabo pra todo mundo que me excita. Mas quem nãopreenche delicadamente essas três condições fundamentais charme,gostosura e liberdade nem adianta mostrar-me um osso: quero distância! Nunca terei dono. (...) Foi assim que tudo aconteceu. Empanturrado de ternuras mas sôfrego por glórias ainda merestava o encanto das sereias. Ainda me restava convidar os meus amorespara a dança das estrelas. Foi então que peguei o copo de vinho e tomei oúltimo gole. E saí, decidido a criar condições para as aventuras que hojevivo. Qualquer outra coisa que eu fizesse aquele dia, qualquer outrocaminho que escolhesse seria uma traição ao meu espírito livre. (...) Antes de continuar o livro, quero te dizer uma coisa: Não devemosficar muito impressionados com uma hipótese, só porque ela é nossa. Todahipótese não passa de um passo no caminho do verdadeiro conhecimento.Temos que perguntar, sempre, por que uma determinada ideia nos agradatanto. Temos obrigação intelectual de compará-la, imparcialmente, com asalternativas. É fundamental verificarmos se é possível encontrar razões quea invalidem. Se não fizermos isso, outros o farão e nós seremos passadospara trás, vergonhosamente. O que nos deve interessar, antes de tudo, é averdade, e não o nosso apego a certas conclusões que adoramos. www.EdsonMarques.comSolidão a Mil Página 41

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