Brasil Rural - Na Virada do Milênio

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Texto Brasil Rural - Na Virada do Milênio da disciplina Educação do Campo, por Edna Moreira.

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Brasil Rural - Na Virada do Milênio

  1. 1. 2001
  2. 2. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO Raul Belens Jungmann Pinto Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário José Abrão Secretário-Executivo Francisco Orlando Costa Muniz Secretário Nacional de Reforma Agrária Gilson Alceu Bittencourt Secretário de Agricultura Familiar Sebastião Azevedo Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária José Eli da Veiga Secretário do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável Juarez Rubens Brandão Lopes Coordenador-Geral do Núcleo de Estudos Agrário e Desenvolvimento Rural Edson TeófiloCoordenador-Executivo do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural Ficha Catalográfica Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural Brasil Rural na Virada do Milênio - Encontro de Pesquisadores e Jornalis- tas, 2001, São Paulo : USP, Borin, Jair; Veiga, José Eli (org.), Almeida, Wellington (texto). Brasília : Ministério do Desenvolvimento Agrário / Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável / Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, 2001. 76 p. 1. Questão Agrícola. 2. Desenvolvimento Agrícola. 3. Questão Fundiária. I. Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural. II. Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável. III. Ministério do De- senvolvimento Agrário. IV. Wellington Almeida. V. Jair Borin. VI. José Eli da Veiga. VII. Título. CDU 631.0000 338.431 332.282 330.340
  3. 3. Brasil Rural – Na Virada do Milênio Encontro de Pesquisadores e Jornalistas Ministro Raul Jungmann O conceito, o ator e o imaginário da agricultura familiar fazem parte do planodas relações simbólicas que são construídas ou reforçadas pela mídia e, eviden-temente, por quem produz notícias. Nessa perspectiva, quando penso que, noBrasil, o rural sempre foi confundido com o agrícola, e o agrícola sempre foi con-fundido com agricultura, a primeira palavra que me vem à mente, na relação entrepesquisadores e jornalistas, é desencontro. A agricultura familiar não é percebida. Ela não tem um recorte, um limite, umacara. Geralmente, é associada à economia agrícola de subsistência, ao pequenoprodutor e ao pobre. O processo de revalorização da agricultura familiar vem na esteira de um conjuntode mudanças que está acontecendo na economia e na sociedade, além de estar for-temente atrelado a um processo de globalização – de rápidas mudanças tecnológicas.A rigor, o jornalismo não conhece e não entende de agricultura familiar. Não é estimu-lado a diferenciá-la e, ao que parece, não está interessado em fazê-lo. 5
  4. 4. Quando se diz a um jornalista que a agricultura familiar responde por 38% dovalor bruto da produção e que 77% da mão-de-obra ocupada no campo está nessesegmento, ele espanta-se e é difícil que acredite. Ele fará alguns minutos de refle-xão e, certamente, voltará ao tema da soja, do crédito, do leite, da carne e a outrasquestões, todas elas, em grande medida, relacionadas à agricultura patronal. Soma-se a isso a heterogeneidade da agricultura. Ela compreende desde oagricultor de subsistência, com menos de cinco hectares – são dois milhões ecem mil, no Nordeste, que vivem em condições dramaticamente difíceis –, até,na outra ponta, o cidadão que vive no Rio Grande do Sul, integrado, exportando,tomando crédito, com carro, mecanizado etc. Vê-se que essa heterogeneidadetambém não ajuda no entendimento do que é o universo da agricultura familiar. O campo aceito é o patronal, tecnológico, relacionado à exportação e àgrande escala. Só muito recentemente agricultores familiares sem-terra estãoingressando nesse espaço. Nesse contexto, o Brasil busca se afirmar, saindodo rural, das sesmarias, da colonização, do interior, do sertão, da oligarquia,do coronelato, da violência, da falta de direitos públicos, da falta da esferapública e do déficit do Estado. O que se precisa é estabelecer a relação verdadeira da agricultura familiar como,efetivamente, aquela que tem uma resposta para questões fundamentais da or-ganização social contemporânea: empregabilidade e sustentabilidade. Especialmente nos setores tradicionais e, neste caso, fortemente o industriale a agricultura patronal, a relação entre unidade de capital investida e geração deemprego, cada vez mais, desfavorece a geração do emprego. Isso quer dizer que acapacidade – mesmo quando há expansão do setor industrial – a tendência édeclinar-se o número relativo de trabalhadores por unidade de capital. Pelos números mais recentes, temos 50 milhões de pessoas, ou seja, aproxi-madamente 50% da população brasileira, vivendo no campo. Para esse contextoa agricultura familiar pode ser a grande geradora de emprego. A agricultura patro-nal tem a sua funcionalidade, mas, seguramente, ela não é empregadora tantoquanto o é a agricultura familiar. É fundamental que se leve em conta as vantagens relativas ao custo unitáriode geração de emprego. A globalização, em alguma medida, atualiza essa questão6 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  5. 5. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênioem favor da agricultura familiar. Esse poderia, em si, se constituir em um ponto deapoio para que se consiga melhorar a percepção da sociedade que é feita a partirdos formadores de opinião, que, até então, têm sido formadores de opinião daagricultura patronal. Se olharmos o jornalismo especializado, perceberemos que a quase totalidadeestá relacionada ao campo patronal. Há, é claro, um circuito alternativo de infor-mação. Nele vislumbram-se algumas possibilidades de ampliação da participa-ção da agricultura familiar. É preciso também perceber que no sentido jornalístico, dois projetos estão emdisputa. E aqui não me refiro, por exemplo, ao projeto do “governo” e ao projetoda “oposição” ou dos movimentos sociais. O que digo é que disputam no imagi-nário da sociedade duas soluções para o que seria a questão agrária ou o proble-ma fundiário. Evidentemente que outras devem existir. Uma, em queda, é a solu-ção da modernização que, tentada nos anos 70 e 80, gerou esse estado de coisasque aí está – empobrecimento do campo, aceleração do esvaziamento do cam-po, inchamento das nossas cidades. Para essa vertente, falar hoje em agronegóciosé falar de capital intensivo e redução de emprego. A outra é a distribuição de terras. A forma de se atacar a reforma agrária é dizerque ela é ineficiente, que não resulta em algo concreto, que as pessoas não sefixam, que vendem os lotes, que é uma forma de assistencialismo do Estado.Mas, ao mesmo tempo, há hoje uma outra maneira que começa a se estruturar, ouseja, de se contrapor ao que seria, por exemplo, a reforma agrária – aqui entra aquestão da disputa bem satisfeita por um programa como o Renda Mínima. Éevidente que é uma das saídas. É inequívoco que a reforma agrária tem uma funcionalidade sim, ainda hoje,dentro do espaço social e econômico brasileiro. Ocorre que aqui a separação sedá num outro campo. Como a reforma agrária está muito relacionada à produçãode conflitos e embates, a produção de conflitos e embates engole a reforma agrá-ria. Então, o problema é outro. A reforma agrária vai se transformando numa grande “fábrica” de conflitos. O pro-cesso de ressocialização de populações, que a reforma agrária traz, é executado commuita competência pelo movimento social. Seja pelas experiências exitosas que vão 7
  6. 6. ocorrendo, seja pelas diversas formas de se fazer reforma agrária nos países afora. A existência de projetos de assentamentos implica muitas vezes na ampliação eno dinamismo da região onde se encontra, pelo fato de que na reforma agrária, aindahoje, o latifúndio constitui um setor alijado do bloco dominante de poder, com umaparticipação na fímbria do poder, onde ele não tem mais a capacidade de veto. Sobre a reforma agrária, ao contrário da agricultura familiar, há um enorme vo-lume de informação. Entretanto, ela padece do problema de estar centrada noconflito, o que pode ser explicado e entendido jornalisticamente. Mas, na verda-de, o grande problema é, sem dúvida, a superação do fragmentário. De fato, a agricultura familiar é também cidadania. É também, como disse oprofessor José de Souza Martins, um modo de vida. E as pessoas querem a perpe-tuação do seu modo de vida. Nesse sentido, a agricultura familiar contém umconjunto muito grande de possibilidades que envolve também o retorno ao cam-po, e que pode propiciar que as atividades não-agrícolas ou consorciadas, emtermos de geração de emprego e renda, tenham um caminho aberto. Promover o encontro dos formadores de opinião com os pesquisadores quepensam o rural e o agrário é um desafio ainda muito presente e, por isso, é extre-mamente louvável, e mais que isso, necessária, a realização de eventos comoeste que reúne pesquisadores e jornalistas em torno do tema “Brasil Rural naVirada do Milênio”.8 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  7. 7. Sumário1. Introdução 112. O rural é maior do que a agricultura 133. A visão dos pesquisadores 164. A visão dos jornalistas 315. Necessidades e possibilidades de um diálogo 366. Conclusão 397. Fontes de consulta 418. A urgência de uma estragégia de desenvolvimento rural no Brasil Entrevista com José Eli da Veiga 429. Repensar o papel da mídia na cobertura do mundo rural Entrevista com Jair Borin 5110. Encruzilhada rural Artigo de Cláudio Emílio Cerri 6211. Brasil rural vai além da agropecuária Artigo de José Eli da Veiga 6712. Programação do Seminário Brasil Rural na Virada do Milênio 7013. Lista de participantes 71
  8. 8. 1. IntroduçãoE ste relato procura explorar as múltiplas tentativas de estabelecimento de um diálogo entre pesquisadores dedicados à tarefa de pensar a rea- lidade rural brasileira à luz do debate acadêmico-científico e jornalistastambém dedicados a esse tema, que pela primeira vez se encontraram para uma trocapreliminar de idéias, angústias e esperanças no Seminário “Brasil Rural na Virada doMilênio – Encontro de Pesquisadores e Jornalistas”. O evento foi promovido pelaFaculdade de Economia, Administração e Contabilidade – FEA, pela Escola de Co-municação e Artes – ECA, unidades da Universidade de São Paulo – USP e pelo Nú-cleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural – NEAD, órgão de pesquisa vincu-lado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, com o apoio do InstitutoInteramericano de Cooperação para a Agricultura – IICA. O objetivo do encontro foiconstruir uma ponte para o diálogo entre esses dois grupos-chave na desmistificaçãode alguns mitos sobre a decadência e o fim inexorável do mundo rural. Com base em um roteiro que privilegiou a apresentação aberta de um conjun-to de questões polêmicas, com objetivo de construir um mapa das idéias presen-tes na sociedade brasileira sobre o conceito de rural, a primeira mesa reuniu pes-quisadores que têm estudado o Brasil rural e se debruçado sobre estatísticas,para investigar aspectos particulares dessa realidade. Pesquisadores atentos àevolução dos variados processos de mudança e adaptação da economia rural,que provoca rápidas transformações sociais no campo, modifica as atividades 11
  9. 9. produtivas e introduz novos valores culturais. O olhar dos pesquisadores sobreesses movimentos é fundamental para se compreender o sentido e os limites davisão dominante sobre o Brasil rural. O entendimento amplo dessa realidade ou das idéias hegemônicas sobre ela,passa, necessariamente, pela imprensa. Na sociedade midiática em que vive-mos não é possível construir novos consensos sobre determinado assunto, ouromper preconceitos a respeito de uma determinada realidade social, sem umainteração com os meios de comunicação. E os produtores de informação po-dem ajudar a descortinar melhor esse mundo rural em nosso país, cuja visãopredominante parece estar distante de sua real dinâmica e importância para odesenvolvimento da sociedade brasileira. Assim, uma outra mesa reuniu jorna-listas especializados nesse tema, que apresentaram relatos reveladores das opor-tunidades e condicionantes profissionais para uma relação mais articulada en-tre o trabalho da imprensa e a comunidade científica dedicada ao estudo darealidade rural no Brasil. O confronto dessas idéias foi o tema de uma mesa-síntese, com a participaçãodo professor Ignacy Sachs – que contribuiu diretamente para a formação de todauma geração de pesquisadores brasileiros –, a quem coube a apresentaçãoprovocativa de um diagnóstico sobre os principais elementos que poderiam aju-dar na construção de uma nova visão sobre o conceito de rural e, conseqüente-mente, novas oportunidades para uma estratégia de desenvolvimento desse se-tor. O objetivo do debate foi construir cenários a respeito das tendências emcurso nesse segmento, criando, assim, mapas cognitivos que possam direcionaro diálogo entre pesquisa e jornalismo. O encontro foi encerrado pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, RaulJungmann, pelo reitor da USP Jacques Marcovitch, e pelo coordenador-geral do ,NEAD, Juarez Brandão Lopes. Não foi um encerramento formal. Os três apresenta-ram depoimentos precisos sobre o tema do seminário, discutindo problemasvivenciados a partir da experiência profissional pertinente aos cargos que ocupam. Com o intuito de apresentar com mais detalhes as idéias que deram origem aessa iniciativa pioneira, publicamos, em anexo, entrevistas com os professores daUSP José Eli da Veiga e Jair Borin, que foram os idealizadores do encontro. Também12 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  10. 10. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênioconsta em anexo artigo do jornalista Cláudio Cerri. Foi o único artigo apresentadopelo grupo de jornalistas e julgada importante sua divulgação pelo fato de existir,ainda, carência na reflexão sobre o tema, a partir da visão dos jornalistas. Publica-mos o único artigo de José Eli da Veiga que apresenta as principais questões de-batidas no encontro. Optou-se por não publicar os demais (muitos já o foram emoutras ocasiões), pois a idéia deste breve relato não foi produzir anais, mas somen-te levar a um público maior, em forma de síntese, as preocupações com o mundorural que justificaram o encontro. 2. O rural é maior do que a agriculturaU ma divergência conceitual de grande magnitude sobre o que é o mundo rural, qual seu tamanho, espaço geográfico, econômico, político e social no Brasil de hoje, foi a motivação principal para convocar este seminá-rio. E a divergência se manifesta na metodologia censitária e critérios convencio-nais e legais para a divisão entre campo e cidade ou rural e urbano. De acordocom os pesquisadores que fazem essa crítica, os critérios utilizados no Brasil nãoseguem o padrão mais refinado que é utilizado na maioria dos países, especial-mente os mais desenvolvidos. A singularidade do padrão usado no Brasil ajuda a aumentar entre nós o en-tendimento de que agricultura e ruralidade são a mesma coisa. Muita gente pen-sa que rural se refere somente às atividades agrícolas desenvolvidas pela produ-ção familiar na roça ou pela grande empresa capitalista que está “modernizando”a agricultura por meio do agribusiness. O quê ou quem está fora desse espaço éconsiderado urbano, ou seja, atividade ou população urbana. É por isso que acada recenseamento é reforçada a falsa idéia de que o país está se tornandosuperurbanizado e o mundo rural em extinção. Falsa porque a leitura desse pro-cesso de deslocamento da população é apenas uma convenção. O Brasil utiliza o critério de divisão espacial. Até aí tudo bem. O problema éque esta divisão é feita dentro de um mesmo município. Assim, em umamunicipalidade onde, por exemplo, existe uma reserva florestal que ocupa quasetodo seu território, onde vive uma meia dúzia de pessoas, em um minúsculo nú- 13
  11. 11. cleo habitacional, essa divisão ocorre. Esse pequeno núcleo será a sede dessemunicípio e sua população contada como “urbana” para efeito do recenseamen-to, realizado a cada década pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –IBGE. É por isso que a população “urbana” cresce tanto no país a cada novocenso. Com esse olhar não é mesmo possível construir outra imagem, pois asestatísticas continuam mostrando que realmente há cada vez menos gente no“lugar” entendido como rural, ou seja, a roça, a pequena fazenda ou mesmo agrande empresa agrícola que utiliza também cada vez menos mão-de-obra. Esseé apenas um aspecto da migração que retrata o deslocamento de população paraoutras localidades onde existem melhores alternativas de renda ou serviços. Masesse novo espaço, necessariamente, não é uma cidade ou centro urbano. No Bra-sil é assim considerado devido ao critério de divisão meramente espacial dos mu-nicípios, critério utilizado em poucos países. Somente quatro países têm modeloigual ao nosso: El Salvador, Guatemala, Equador e República Dominicana. No resto do mundo, um dos critérios principais é o de densidade demográfica.Na opinião do professor José Eli da Veiga, por esse critério o Brasil teria no máxi-mo 200 cidades e aproximadamente 800 municípios que poderiam ser caracte-rizados como vilas. Os demais 5 mil municípios existentes no país são vilarejos –locais com menos de 30 habitantes por km2, que seriam considerados ruraistanto na Europa quanto nos Estados Unidos, seja qual for sua atividade econô-mica. O fato é que em municípios cuja densidade demográfica está abaixo de 100habitantes por km2 vive quase a metade da população brasileira. Um estudo rea-lizado pelo Ipea, Unicamp e IBGE, em 1996, revelou que 32 milhões de pessoasmoravam em 549 localidades com densidade entre 30 e 100 habitantes, repre-sentando 20% da população do país. Outros 40 milhões, ou 25%, viviam em 2.933municípios com densidade abaixo de 30. As informações parciais no censo 2000não mostram alterações significativas nesse quadro. Isto não quer dizer que 45% vivam em um espaço essencialmente rural, pois ocritério de densidade demográfica não resolve tudo e existem outras variáveispara se estudar a distribuição populacional. De qualquer maneira, utilizando-seoutros instrumentos estatísticos, a população rural do país é bem maior do queos 19% registrados no Censo Demográfico 2000, ou, no mínimo, vivem em espa-ço rural muito mais brasileiros do que se imagina.14 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  12. 12. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênio Para o sociólogo Ricardo Abramovay não existe uma definição universalmente con-sagrada de meio rural, e seria inútil eleger uma como a melhor entre as existentes.Mas uma literatura desenvolvida, principalmente na Europa e Estados Unidos, per-mite diversas comparações. Por outro lado, discutir os critérios adotados no Brasilpermite, pelo menos, a realização de dois objetivos estratégicos: a. Contribuir para desfazer a confusão entre agricultura e ruralidade. Nos Esta-dos Unidos, por exemplo, a definição de condados rurais e urbanos evidenciacom maior clareza essa distinção. Assim, somente 10% das pessoas ocupadas noespaço definido como meio rural vivem da agricultura. As demais (90%)desenvolvem outras atividades. O sociólogo Ricardo Abramovay coletou dadospara sua pesquisa sobre as tendências desse segmento nos Estados Unidos, querevelaram a existência, em 1991, de 1,6 milhão de domicílios agrícolas naquelepaís contra 23 milhões de domicílios rurais não-agrícolas. Ou seja, 93% dessesdomicílios rurais norte-americanos não têm nada a ver com agricultura. Lá, comonos demais países centrais do capitalismo, a agricultura tem percentualmenteuma importância cada vez menor na geração de emprego e renda, mas outrasatividades são dinâmicas no espaço rural. Portanto, o rural não é visto como sig-nificado de atraso ou resíduo em extinção. b. Uma nova tipologia capaz de retratar melhor a complexa relação entre ru-ral, urbano e as “zonas cinzentas”que indicam uma tênue e difícil divisão entreesses dois espaços – que alguns já caracterizam como “rurbano” – não é apenasuma questão de importar ou privilegiar conceitos que orientam os critériosadotados na maioria dos países. Essa nova tipologia tem também importânciapara uma melhor definição de políticas públicas para as novas regiões oumicrorregiões que seriam reconhecidas como espaços pertencentes ao rural. Etem um significado estratégico para se pensar a importância do desenvolvimentorural para o dinamismo econômico do país, especialmente pela reconhecida ten-dência à diminuição dessas oportunidades nos grandes aglomerados urbanos. 15
  13. 13. 3. A visão dos pesquisadoresO s pesquisadores presentes no Seminário acreditam que no senso co- mum existe a visão de que o Brasil está se tornando um país com alta taxa de urbanização, cuja contrapartida será a progressiva extinçãoda população rural, que seria levada à inexorável condição de relíquia e sinônimode atraso e subdesenvolvimento. Com distintos enfoques, todos criticaram essaimagem do Brasil rural, apontando tanto desinformação e preconceitos comoproblemas de ordem metodológica na maneira de classificar e contar a popula-ção brasileira, conforme assinalado no ponto anterior.Ficção O professor da Universidade de São Paulo José Eli da Veiga sustenta que esseequívoco é fruto de uma ficção estatística e histórica. A ficção estatística, na suavisão, tem como principal problema o fato de os censos demográficos classifica-rem os domicílios de acordo com a zona municipal em que se localizam. Como noBrasil todos os municípios são obrigados a indicar sua zona rural e urbana, ocorrea contagem como urbana de toda a população de pequenos municípios combaixa densidade populacional, valores e cultura essencialmente rurais. Porém, uma outra abordagem nos números não criaria um diagnóstico segurosomente pelo critério de densidade ou tamanho de sua população. A localizaçãodo município é importante para decidir se ele é rural ou urbano. O fenômeno ruralpoderia ser estudado, ainda, a partir de definição de um padrão de rarefaçãopopulacional. A OCDE, por exemplo, já utiliza esse critério, classificando as regi-ões como essencialmente rurais quando mais de 50% de sua população se en-contra em localidades com densidade abaixo de 150 habitantes por km2. As rela-tivamente rurais quando entre 15% e 50% vivem em locais com a mesma densi-dade demográfica. Apenas quando 85% da população se encontram em localida-des com densidade demográfica acima de 150 habitantes por km2, uma regiãoserá considerada urbana pela OCDE. O professor José Eli não acha possível adotar plenamente esse padrão no Bra-sil, pois existem diferenças substanciais entre a superfície dos municípios brasi-16 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  14. 14. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênioleiros e as unidades político-administrativas dos países da OCDE, além das difi-culdades de trabalhar uma classificação tríplice, em face da atual divisão entrelugares urbanos ou rurais em todos os municípios do país. Ainda com dadospreliminares do Censo Demográfico de 2000 e utilizando os critérios de localizaçãodos municípios, densidade demográfica e tamanho de sua população, ele propõe umoutro tipo de estratificação para se entender algumas características do aumento dapopulação brasileira – um corte diferenciado que indica, com base nesses critérios,um total de 4.490 municípios que deveriam ser classificados como rurais. Neles vi-vem atualmente 52,6 milhões de pessoas, além de outros 421 que deveriam ser clas-sificados como rurbanos, onde se encontram 18,5 milhões. Ver tabela 1. Tabela 1 Os cinco anéis de rarefação populacional, Brasil 1996-2000 ANÉIS MUNICÍPIOS POPULAÇÃO AUMENTO (milhões) 1996-2000 Número 1996 2000 (milhões) % Regiões metropolitanas (23) 403 62.9 68.9 6.0 10 Aglomerações urbanas (26) 116 12.3 13.5 1.2 10 Centros urbanos 77 14.6 16.0 1.4 10 Centros "rurbanos” 421 17.2 18.5 1.3 7 BRASIL RURAL 4.490 50.1 52.6 2.5 5 TOTAIS 5.507 157.1 169.5 12.5 8Fonte dos dados: Resultados preliminares do Censo Demográfico de 2000. In: José Eli da Veiga, 2.001, mimeo Assim, 58% da população brasileira vivem em um complexo urbano forma-do por 23 regiões metropolitanas que conta com áreas de expansão, 26 aglo-merações urbanas e 77 centros urbanos. Nas 23 regiões metropolitanas vivem41% da população brasileira. Nessas regiões existem municípios pequenosde baixa densidade populacional, mas que deveriam ser contados como ur-banos pelo critério de localização. Esse tipo de município também pode serencontrado nas 26 aglomerações urbanas, onde vivem 8% da população bra-sileira. Somando-se os outros 9% que se encontram nos 77 centros urbanos,a população essencialmente urbana, pelos critérios de José Eli, seria de 58%ou 98,4 milhões de habitantes. 17
  15. 15. Nesses três blocos urbanos, o crescimento da população, entre 1996 e 2000,teve uma taxa idêntica: 10%. Nos 421 municípios que José Eli chama de rurbanos,a população cresceu 7% nesse mesmo período. São municípios que têm popula-ção relativamente elevada (entre 50 e 100 mil) ou com população menor, mascom alta densidade demográfica. Formam uma “zona cinzenta” onde se encon-tram, ao mesmo tempo, traços rurais e urbanos. Nos demais 4.490 municípios, o que pela estratificação de José Eli seria o Bra-sil rural, a população aumentou somente 5% – a metade do crescimento urbano.Uma diferença de 50% que para o pesquisador, apenas de maneira aparente, con-firma a badalado êxodo rural. Para ele é necessário olhar o que está ocorrendodentro do próprio universo rural para se compreender melhor esses números eoutras tendências de mobilidade populacional. Essa nova estratificação permi-te, por exemplo, verificar que em pelo menos um terço desses municípios rurais ocrescimento foi de 16%, superior, portanto, à taxa verificada nas regiões urbanas.Nesse grupo, o padrão de mobilidade segue uma mesma tendência de crescimen-to em todas as unidades da Federação, mostrando que eles crescem em um ritmosuperior à sua respectiva unidade federativa. Um outro grupo também mostravariação positiva, porém abaixo da taxa média da respectiva Unidade da Federa-ção. E, no terceiro grupo, confirma-se a queda da população e a existência doêxodo rural. José Eli utiliza três categorias para separar esses três conjuntos demunicípios: enérgico, letárgico e esvaente, como se vê na tabela a seguir: Tabela 2 Os três ritmos do Brasil rural, Brasil 1996-2000 ANÉIS MUNICÍPIOS POPULAÇÃO AUMENTO (milhões) 1996-2000 Número 1996 2000 (milhões) % Enérgico 1.496 17.1 19.8 2.7 16 Letárgico 1.497 18.4 19.1 0.7 4 Esvaente 1.497 14.6 13.7 -0.9 -6 TOTAIS 4.490 50.1 52.6 2.5 5Fonte dos dados: Resultados preliminares do Censo Demográfico de 2000. In: José Eli da Veiga, 2.001, mimeo Seus números mostram que nas cinco regiões do país, em todas as 27 unida-des federativas, está ocorrendo um significativo processo de adensamento18 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  16. 16. BRASIL RURAL – Na Virada do Milêniopopulacional em parcelas desses municípios rurais, com raras discrepâncias en-tre algumas microrregiões geográficas. Dessa forma, os municípios com menos de20 mil habitantes constituem 80% nos dois primeiros grupos (onde a populaçãoaumenta) e 90% no terceiro grupo (onde a população diminui). A média de habi-tantes nos dois primeiros é de 10 mil habitantes e no terceiro, 6,5 mil. SegundoJosé Eli, isso caracteriza um processo de coagulação, que comprova um dinamis-mo dentro do Brasil rural. Existe o êxodo, mas ele se revela nos casos em queexiste queda populacional ou crescimento inferior ao ritmo urbano. Mas pelomenos em um terço desse bloco rural o aumento da população, ao contrário, ésuperior (60% a mais) do que as taxas verificadas no Brasil urbano. A ficção histórica na opinião do professor está relacionada, entre outros as-pectos, com a crença de que o desenvolvimento das regiões rurais ainda dependemexclusivamente do desempenho da agricultura. Nos países do capitalismo avan-çado já não é assim há muito tempo. No século XX, a queda na proporção dasatividades primárias nessas economias caiu da metade para um vigésimo, en-quanto as terciárias (os serviços) subiram de um quarto para mais de três quintos.As atividades econômicas secundárias mantiveram-se em torno de um terço. JoséEli ressalta, porém, que embora as atividades primárias estejam muito mais pre-sentes nas zonas rurais, isso não implica que os outros dois segmentos sejamuma exclusividade das zonas urbanas. Nos países nórdicos, Noruega e Suécia, por exemplo, o emprego industrial estámais presente nas regiões relativamente rurais e os serviços têm praticamente amesma distribuição entre as áreas essencialmente urbanas e as relativamenterurais. Na Bélgica, essa tendência é ainda mais forte, com a presença do setor deserviços, em larga escala, nas regiões essencialmente rurais. Está, portanto, superada aquela idéia de que o desenvolvimento econômico deuma determinada região rural, necessariamente, dependa da agropecuária ou deter-minado tipo de agricultura de ponta. A experiência dos países mais desenvolvidosmostra, ao contrário, que esse domínio não favorece o dinamismo local ou regional,mesmo quando consegue alcançar uma alta renda per capita. “Esses locais fazem lem-brar aqueles emirados árabes do Oriente Médio, incapazes de diversificar suas eco-nomias apesar das imensas rendas fundiárias proporcionadas pela exploração petro-lífera. São paisagens monótonas, com solos e águas tão contaminados por 19
  17. 17. agroquímicos, que já não podem aproveitar as vantagens comparativas das zonasrurais no século XXI, que exige alta qualidade do meio ambiente”, observa José Eli. José Eli não propõe uma comparação direta com o processo de desenvolvi-mento brasileiro, pois sabe das diferenças, até mesmo pelo fato de a agropecuáriacontinuar exercendo o papel principal na economia rural do país, tanto na ocu-pação quanto na geração de riquezas. Mas ele chama a atenção para a necessida-de de se fazer essa comparação histórica para que se possa pensar um projeto dedesenvolvimento rural, especialmente por dois motivos: a. a tendência histórica estrutural ao declínio relativo do setor agropecuárioteve repercussões espaciais que contrariam frontalmente a crença brasileira emsua completa urbanização; b. no futuro, uma região será mais dinâmica se tiver capacidade de diversificarsua economia local, a partir das características de sua agricultura.Mitos O professor de economia agrícola da Unicamp José Graziano da Silva, coorde-nador do Projeto Rurbano, que desde 1981realiza pesquisas com o intuito deanalisar as transformações que vêm ocorrendo no meio rural do país, em 10 estadose no Distrito Federal, sintetiza os equívocos sobre o mundo rural brasileiro emvelhos e novos mitos. Na sua opinião, entre os velhos mitos está a visão de que o rural é sinônimo deatraso. Os dados do Projeto Rurbano evidenciam a presença histórica dessestraços que caracterizam a trama do nosso processo de colonização, cuja base foia grande propriedade e o trabalho escravo. Há, porém, um outro mundo ruraldinâmico em emergência. E essa nova face do rural não se expressa somentepelo agribusiness, mas também por outras modalidades agrícolas como, por exem-plo, a criação de escargot, plantas e animais exóticos. O campo também é habita-do por moradores de condomínios rurais de alto padrão em loteamentos clandes-tinos, aposentados que não conseguem sobreviver na cidade com os rendimen-tos pensionais e, ainda, um contingente mais excluído que nada tem: nem terra,nem saúde, nem educação ou organização política.20 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  18. 18. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênio O mito de que no rural predomina a agricultura foi desfeito pelo Projeto Rurbano.Com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar – PNAD,de 1999, a pesquisa aponta o crescimento do número de pessoas que residemem áreas rurais e que se ocupam de outras atividades econômicas, com exceçãoda região Norte. As ocupações não-agrícolas cresceram na década de 90 a umataxa de 3,7% ao ano, superando a taxa de crescimento da população, enquantovem caindo a taxa do emprego agrícola em média 1,7% ao ano. Pelas projeções deGraziano, mantido esse ritmo, em 2014 a maioria das pessoas que moram emáreas rurais estarão ocupadas em atividades não-agrícolas, sendo que no Estadode São Paulo provavelmente isso já está ocorrendo. O êxodo rural também não é inevitável. Esse é um outro grande mitopropagandeado sempre como resultado inevitável da urbanização do país. Apopulação rural está crescendo, embora ainda não se tenha políticas paraevitar o êxodo em algumas regiões, o que é provocado mais pelo êxodo agrí-cola do que rural propriamente dito. E, em São Paulo, os dados mostram umcrescimento da população rural de 3% ao ano, contra 1,5% do crescimentototal do Estado, ou seja, o dobro. Outros dois mitos, segundo Graziano, são a ilusão de que o desenvolvimentoagrícola produz o desenvolvimento rural e de que as pequenas e médias proprie-dades rurais têm uma gestão essencialmente familiar. O primeiro é desmentidopela renda: o número de famílias agrícolas está diminuindo, pois elas não conse-guem mais sobreviver somente de rendas agrícolas. Assim, desfaz-se também osegundo, pois o centro das atividades da família deixou de ser a agricultura por-que essa família já não é mais agrícola: tornou-se pluriativa ou não-agrícola, mascontinua residindo no campo. Além disso, boa parte dos estabelecimentos ondeantes as atividades agropecuárias eram realizadas no interior das propriedadesagora estão sendo terceirizadas, cabendo a coordenação a um único membro dafamília ou alguns, mas não mais envolvendo todos seus membros. Para Graziano, porém, não adianta superar os velhos mitos e criar novos. Umdeles seria acreditar que essas atividades ou ocupações rurais não-agrícolas sãoa solução para o desemprego. O Projeto Rurbano tem mostrado que as ativida-des agrícolas continuam sendo de grande importância ou até mesmo a única 21
  19. 19. alternativa para uma parcela significativa da população rural, especialmente ospobres. Além disso, essas ocupações, mesmo gerando uma renda superior àsatividades agrícolas, caracterizam igualmente trabalhos precários e de baixa qua-lificação. Acreditar nessa solução, segundo o professor Graziano, acaba levandoao erro de que essas atividades não-agrícolas podem funcionar como motor dodesenvolvimento rural nas regiões atrasadas. Ao contrário, elas são mais dinâmi-cas nas áreas rurais que têm agricultura melhor desenvolvida ou em regiões pró-ximas de grandes concentrações urbanas. Nas áreas mais atrasadas está o piordos mundos: “não existe nem emprego agrícola e muito menos ocupações não-agrícolas”, constata Graziano. Outro novo mito a ser desfeito na avaliação de Graziano é o discurso de que édesnecessária a reforma agrária no Brasil. Ele concorda que a agricultura não émais a melhor alternativa para a reinserção produtiva das famílias agrícolas devi-do ao baixo nível de renda das atividades tradicionais do setor. Mas essas ativida-des não são as únicas disponíveis. A reforma agrária, que continua necessária,deve estar voltada para as novas atividades agrícolas que emergem ou nas ativi-dades não-agrícolas como agroindústrias domésticas, capazes de agregar valor àprodução agropecuária. Por fim, Graziano critica o mito de que o novo rural é melhor do que o velho eque não necessita de regulação pública. O Projeto Rurbano mostrou que nem tudosão flores com o surgimento de novas funções no meio rural como as moradias e asatividades de lazer e turismo. Outros problemas persistem e se reproduzem. Alémda precariedade da maioria dos empregos criados pelas atividades não-agrícolas,até o momento, ainda existe a alta taxa de desemprego no meio rural, que deacordo com a pesquisa, no período de 1992 a 1999, superou os 10% ao ano. Eessas novas funções se desenvolvem em um ambiente que evidencia o esvazia-mento do Estado, que tem se mostrado incapaz de intervir diante de inúmerosproblemas que proliferam em diversas esferas, como os loteamentos clandestinose os empreendimentos econômicos de lazer e turismo que precisam ser fiscalizadospor instituições públicas como o Incra e o Ibama. Hoje, a legislação que trata dissoé contraditória. Na opinião de Graziano, esse novo rural está exigindo uma novainstitucionalidade e se isso não acontecer ele vai envelhecer prematuramente.22 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  20. 20. BRASIL RURAL – Na Virada do MilênioTerra e território O antropólogo Alfredo Wagner, que trabalha há quase 30 anos no Norte e Nor-deste do país, enfatizou a importância de outras clivagens para que se possacompreender determinadas realidades localizadas, que fazem parte do chamadomundo rural no Brasil. Esses novos enfoques também exigem atenção para osnovos conceitos e categorias que estão sendo reconstituídos e que geram difi-culdades tanto de natureza teórica quanto operacional. Para Wagner, são enormes as dificuldades de rompimento com esquemasinterpretativos cristalizados em torno de temas como êxodo, migração,industrialização, entre outros. E esses esquemas rígidos se manifestam nos maisdistintos espaços, da academia à disciplina militante, passando pela burocraciaoficial, e já é presente no discurso dos especialistas envolvidos com a coopera-ção internacional e nas agência multilaterais. A primeira crítica de Wagner foi quanto à insuficiência das categorias censitáriaspara se compreender as estruturas agrária e fundiária do país. Para ele, o problemaagrário transcende a uma noção estrita de terra. A discussão sobre a terra incor-pora tanto um fator étnico quanto ecológico. Incorpora, também, novos padrõesde relações políticas, que problematizam a expressão dos movimentos sociais.Ao mesmo tempo, a discussão põe em questionamento o mito do zoneamentoecológico e econômico como solução perfeita de realização no quadro natural. O caminho proposto por Wagner para se romper com a predominância do quadronatural – que se expressa em termos mais diretos pela noção da terra e seus recursosbásicos – é justamente fazer a distinção entre terra e território. O território é social-mente construído e a chave para se entender a nova clivagem entre rural e urbano. “Oterritório não cabe dentro da divisão político-administrativa”, sentencia Wagner. Esse seria na sua opinião um primeiro passo, também, para se compreender oadvento dos chamados novos sujeitos sociais, já que a categoria “trabalhadorrural”, como expressão de toda essa população, há muito tempo, não dá contada diversidade das formas de existência coletiva de dezenas de movimentos so-ciais que emergiram nos últimos anos como os movimentos dos sem-terra, dosseringueiros, dos atingidos por barragem, dos ribeirinhos, dos pescadores, dosquilombolas, das quebradeiras de coco babaçu, entre outros. 23
  21. 21. Para Wagner é importante compreender que esses movimentos políticostêm como traço forte suas formas de existência que, necessariamente, nãodependem de uma relação perfeita com o quadro natural. Ao contrário, têm amarca da dissociação com esse quadro e se expressa politicamente em outrosespaços, sem necessidade da via sindical de representação. Passa a existir,até mesmo para o mercado. Alfredo Wagner vem acompanhando de perto a experiência do movimentodas quebradeiras de coco nos estados do Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí. Apartir de janeiro de 1999, as cooperativas foram beneficiadas pela desvalorizaçãocambial. Apenas uma delas conseguiu em um ano mais de 150 mil dólares, ven-cendo a concorrência internacional com os asiáticos. São cooperativas que já sesustentam com as próprias pernas e não dependem de financiamento de ONGs afundo perdido, um dado que Wagner considera de grande importância para seranalisado. “Podemos perceber também que pelo mercado há um esforço de cons-trução de identidade. Às vezes imaginamos que as identidades só se reforçamcom o isolamento”, lembra o antropólogo. Para ele, nesses novos territóriosconstruídos por essas formas de existência, não se percebe o quadro de declínioque caracteriza algumas regiões dominadas pelos grandes proprietários. Ocorreexatamente o contrário. É visível a ascensão dos movimentos que buscam novasformas de produzir e existir socialmente. Esse movimento desencadeia processos políticos em face da expressão des-ses novos sujeitos sociais. Segundo Wagner, “não é o campo que está invadindo acidade, mas a legislação que está sofrendo um deslocamento que a obriga a reco-nhecer grupos que nunca foram reconhecidos na sociedade brasileira”. Existe umprocesso de movimentação desses grupos para ser reconhecidos, o que obriga aprópria sociedade a repensar sua formação. Esse processo, na visão de Wagner, não passa desapercebido para os aparatosde Estado que incorporam, na aplicação de suas políticas, esse dado da realidade.O mesmo ocorre com as agências multilaterais. Dessa maneira, explica-se o porquêdo mito da base que contamina tais instituições. Hoje, o Banco Mundial vincula aliberação de recursos à organização de associações. O Banco do Nordeste exige aexistência de cooperativas em seus projetos. Para ele, não é tão simples tributar aoEstado e a essas agências um papel de agentes que promovem uma destruição24 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  22. 22. BRASIL RURAL – Na Virada do Milêniometódica do coletivo ao impor essas novas maneiras de organização. Em algunscasos é a situcionalidade que impulsiona esse espaço comunitário. Não há exclusi-vidade da família ou economia familiar, pois outras formas de organização, ao mes-mo tempo, as sobrepõem em conjunto com o próprio indivíduo. Por essas razões Wagner acredita que os instrumentos de análise precisam seraprimorados. Hoje, eles não permitem ou pelo menos são insuficientes para seinterpretar e entender essas manifestações que estão ocorrendo na sociedadebrasileira. Segundo ele, isso explica por que às vezes acabamos nos tornandoescravos das estatísticas oficiais da maneira como elas são passadas.Dimensões do rural O professor Ricardo Abramovay, da Universidade de São Paulo, explica o qua-dro complexo em que está inserido o rural a partir de três características: (a)relação com a natureza, (b) relação com as regiões urbanas e (c) sua situaçãodemográfica. Concordando com Alfredo Wagner, ele chama a atenção para a im-portância de se discutir as novas identidades emergentes, rompendo, assim, coma imagem convencional que se construiu sobre as pessoas que vivem fora doque convencionamos chamar de cidade. Os diversos movimentos de afirmaçãode identidade existentes hoje mostram que a relação com a natureza nem sempreé mediada pela agricultura. A dimensão demográfica é outro aspecto importante para se discutir o rural,opina Abramovay. As áreas não-densamente povoadas podem ser um caminhopara se pensar esse problema. O destino dessas áreas é uma questão relevantepara a sociedade contemporânea. De acordo com o professor, a discussão sobreos assentamentos humanos na Conferência Global das Nações Unidas, em Is-tambul (Habitat II, 1996), concentrou-se basicamente em uma avaliação dessesassentamentos como uma questão restrita às cidades, como se as áreas não-densamente povoadas estivessem condenadas ao desaparecimento, pois seriaminevitavelmente incorporadas às regiões metropolitanas. Ricardo Abramovay não desconhece a importância de se discutir a relação dorural com as regiões urbanas. Ao contrário, essa dimensão também é fundamen-tal para se entender o problema, pois o dinamismo econômico do rural depende 25
  23. 23. dessa relação. O próprio crescimento das regiões metropolitanas gera necessida-des e desejos que as áreas rurais podem satisfazer, exatamente por suas peculia-ridades demográficas e sua relação com a natureza. Uma questão central para os formuladores de políticas são as estratégias decombate à pobreza. Abramovay lembra que alguns estudos mostram que ascondições existentes nas áreas rurais são propícias para o êxito de políticassociais que visam combater a pobreza e aumentar o índice de desenvolvimentohumano. Nessas áreas, os efeitos de tais políticas são mais rápidos emultiplicadores, como demonstra o papel exercido, por exemplo, pela aposen-tadoria pública brasileira nos municípios com características rurais. Hoje, noBrasil rural as unidades familiares de produção têm grande importância na ofertaagropecuária e no potencial para gerar renda. Mas esse potencial precisa ser reforçado, também, pela reforma agrária, não ne-cessariamente vista em termos econômicos como uma reforma que visa aumentar aprodução de certos alimentos: arroz, feijão, milho ou mandioca, como erroneamentese diz – mas voltada para outros tipos de alimentos, bens ou mesmo serviços.Entretanto, é fundamental que se reafirme a proposta de reforma agrária como umprocesso de transferência de ativos para uma unidade familiar de produção, que per-mita a reprodução social desse núcleo, opondo-se, portanto, à idéia de que as pesso-as, necessariamente, devem se sujeitar ao trabalho assalariado. Um contexto político e associativo dinâmico é outro fator que favorece umaampla estratégia de desenvolvimento do mundo rural no Brasil de hoje. Abramovayressalta o impressionante dinamismo da sociedade civil brasileira nessas áreas,nas quais proliferam espaços de participação política e construção da cidadania.Segundo ele, a imprensa dá um grande espaço para as ações do MST – um movi-mento com representatividade – mas essa cobertura é desproporcional ao pesodesse ator no conjunto do movimento social no campo, que conta com inúmerosatores emergentes e também com uma rede de sindicatos rurais que possui altacapilaridade no país. A imprensa peca, ainda, pela superficialidade quando discute temas relacio-nados ao desenvolvimento rural em seu conjunto, fixando-se apenas no debatesobre protecionismo. Ela está perdendo a oportunidade de ir fundo na aborda-26 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  24. 24. BRASIL RURAL – Na Virada do Milêniogem da crise por que passa o modelo de desenvolvimento tecnológico produtivista,que traz conseqüências diversas para a qualidade sanitária dos alimentos e meioambiente. O que acontece com o medo da “vaca louca” na Europa é somenteum exemplo dos problemas relativos à base técnica de produção alimentar, queserá cada vez mais objeto de preocupação da sociedade. A abordagem estritamente agrícola do meio rural na visão de Abramovay –reforçada pela mídia – produz um perigoso silêncio sobre os riscos ambientaisem certas áreas do país. Ele se diz preocupado com o cerrado que está sendoutilizado como fronteira agrícola de maneira inconseqüente. Pesquisas daEmbrapa mostram que o Brasil poderia decretar uma moratória em relação àocupação de novos territórios do cerrado, ocupando racionalmente as áreasjá devastadas por meio de uma rotação da agricultura e pecuária. Essa é umamedida que consta da Agenda 21 brasileira, mas que está sendo ignoradapelo governo federal e outros atores econômicos, provocando prejuízosirreparáveis à biodiversidade dessas áreas.Um mundo diverso Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Zander Navarro, res-ponder à pergunta sobre o que é o mundo rural hoje no Brasil exige um esforço analíticoque busque explicar as diversas realidades desse segmento no país. É preciso, pelomenos, discutir as raízes históricas mais recentes, avaliando o impacto das transforma-ções ocorridas nos últimos 30 anos, no processo de mudança do padrão tecnológico.A partir da década de 70, mudanças de grande escala modificaram o padrão produtivode maneira significativa em algumas regiões do país, especialmente na região Sul e noEstado de São Paulo. Os agricultores dessas áreas passaram a depender de financia-mentos e aportes tecnológicos que tornaram suas atividades cada vez mais arriscadas. O contexto rural é influenciado também pelas mudanças políticas que ocorre-ram no Brasil, a partir da resistência e mobilização popular pelo fim do regimemilitar e o início da transição para a democracia. A sociedade está maisparticipativa e o campo não fica imune a esse processo. Na década de 90, novasmudanças ocorreram na busca pela cidadania. Uma questão importante nesseperíodo foi a extensão dos direitos previdenciários e aposentadoria garantidos 27
  25. 25. pela Constituição de 1998. Zander ressalta a importância que teve para a econo-mia rural o acesso das famílias pobres a esses direitos, que asseguraram a canali-zação de uma massa considerável de recursos para tais áreas. As mudanças políticas também se expressam na cristalização do conceito deagricultura familiar, que segundo ele leva, inclusive, à institucionalização das açõesgovernamentais, com a nítida divisão dessas políticas para o campo em dois mi-nistérios: o Ministério da Agricultura, que seria a agência dos fazendeiros e o Minis-tério do Desenvolvimento Agrário, que é o espaço da agricultura familiar. ParaZander, os pobres do campo estiveram sempre à margem das decisões e essas mu-danças estão ligadas ao reconhecimento da importância da agricultura familiar. A diversidade no campo também se acentuou. “Nas áreas rurais aheterogeneidade estrutural do país ficou ainda mais forte”, diz Zander. As dis-tâncias na visão de mundo, sonhos e expectativas não é uma marca apenas dascidades e das classes sociais que nelas vivem. Também no campo, milhares defamílias têm expectativas diferentes e isso cria dificuldades para os arranjos polí-ticos e a definição de agendas de intervenção. Para Zander, não se pode desconsiderar os limites que essa realidade complexatraz para as políticas públicas. São limites que obrigam a uma reflexão sobre a natu-reza do Estado e de suas ações, especialmente porque existe a necessidade dereconstituição da capacidade de regulação pública no espaço rural que foi perdida.E à diversidade de expectativas das distintas populações rurais soma-se a disputapelos recursos públicos das políticas governamentais, em um ambiente altamentepolitizado. Zander completa seu argumento levantando uma polêmica sobre a re-forma agrária, que dividiu opiniões no Seminário. Na sua opinião, na condição deuma estratégia para o desenvolvimento rural no Brasil, a reforma agrária não pode-ria ser pensada como uma questão nacional, mas inserida nesse contexto diverso,que exige respostas diferentes nas diversas regiões do país. A polêmica colocada por Zander propiciou um rico debate, tendo ele próprioreformulado sua afirmativa, inserindo-a num contexto mais amplo na definiçãodemocrática de aplicação dos recursos públicos para o rural. E teve este seu ar-gumento apoiado. Ricardo Abramovay diz que Zander tem razão nesse aspecto.Existe mesmo uma grande diferença na capacidade de mobilização entre os ato-28 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  26. 26. BRASIL RURAL – Na Virada do Milêniores rurais e não é justo em uma sociedade democrática que uma determinadapolítica pública se estabeleça porque alguns setores têm mais força e capacidadede mobilização para impô-la por vias de fato. De acordo com Abramovay, um dosmaiores dilemas das políticas públicas é justamente o fato de seus maiores ne-cessitados terem sempre menor visibilidade política. De qualquer maneira, a concordância com a necessidade de se pensar es-tratégias diferenciadas para as distintas realidades do mundo rural ou as di-versas reformas agrárias possíveis, como salientou Ignacy Sachs, não criouconsenso sobre a reafirmação do tema como sendo uma questão nacional. Areforma agrária foi defendida com esse caráter por inúmeros representantesde entidades e pesquisadores presentes no plenário. O sociólogo José de SousaMartins concorda que a reforma agrária no Brasil perdeu seu tempo histórico.Para ele, o tempo certo teria sido nos anos 50, quando se deu o máximo decompetência industrial para absorver os excedentes populacionais do cam-po, começando a declinar nos anos 60. “A reforma agrária de fato começa aser feita agora no governo Fernando Henrique”, diz Martins. Esta reforma agrá-ria para ele pode ser discutível, mas assumiu aí sua institucionalidade, inclu-sive criando-se, finalmente, um ministério perene para a pasta. Mas paraMartins, mesmo fora de seu tempo ela precisa ser feita, resolvendo-se o quehá de residual, já que o problema persiste. Na medida em que a indústria eoutros setores da economia urbana não mostraram vitalidade para desruralizara sociedade brasileira e criar ocupação para os migrantes rurais, como o fezaté metade dos anos 50, ela ainda se impõe. Martins salienta que a questão agrária é uma necessidade nacional e estrutu-ral, que envolve um aparato institucional, leis e políticas amplas. “Pode ser queela não tenha as mesmas características no Rio Grande do Sul ou no interior noMaranhão, mas isso não modifica o caráter da solução do problema, tanto de umlado quanto de outro”, reafirma. ”Pode ser que não haja uma relevância de umareforma agrária no Rio Grande do Sul. Mas temos que levar em conta que umnúmero enorme de pequenos agricultores gaúchos acharam a solução para esteproblema migrando para Mato Grosso, Maranhão e Tocantins. Na verdade, o RioGrande do Sul não começa e termina lá, mas no Maranhão”, completa. 29
  27. 27. O que não é possível na visão de Martins é discutir a reforma agrária do pontode vista da racionalidade de uma empresa capitalista. Mas esse não é o raciocíniodo pequeno agricultor. Ele valoriza outras coisas como um lugar seguro para ficare manter sua família junta. “Ele não quer ver o mundo desagregando. E não hánenhum motivo para que o mundo dele se desagregue”, diz Martins. Sua crítica éradical em relação às teorias de transição para a cidade, que começam a ganharforça em estudos antropológicos dos anos 40. Segundo Martins, uma ficção queacabou não se concretizando em lugar nenhum do mundo, a não ser em algumasáreas dos Estados Unidos. Não há nenhum motivo, na sua visão, para se acelerara transição para a cidade já que ela não vai levar as pessoas do campo a “lugarnenhum”. “Qual é a promessa da transição?”, indaga Martins. Ele crê que parauma pessoa desqualificada do ponto de vista da educação, sem chances de seintegrar no mercado urbano, o destino é a favela. É o nada, o limbo. Então, se opaís tem condições de fazer uma reforma agrária, mesmo que seja de cunho refor-mista, ela abre uma alternativa importante para uma massa da população. Defineuma transição para a modernidade que aqui ainda é viável, pois temos espaço. OBrasil pode viabilizar uma transição à modernidade para este contingente semdestroçar suas vidas nem causar uma catástrofe social, insiste Martins. Ao lado deste tema, outra polêmica central do seminário foi a discussão sobrequais políticas são possíveis para os pobres rurais ou com vínculos rurais que seencontram em um estágio maior de exclusão. Um contingente que sequer tem or-ganização política. A polêmica foi levantada por José Graziano. Para ele não é pos-sível ignorar a existência desta população excedente que não tem renda, empregonem organização política. “Não vejo condições de se incluir esta população exce-dente produtivamente seja na agricultura, nas atividades não-agrícolas, turismorural ou qualquer outra”, disse Graziano. Mas é preciso fazer algo urgente para essapopulação e Graziano sugeriu que uma possível saída seria a oferta de terra paraatividade de subsistência, completada por aposentadoria e serviços públicos quepossam garantir dignidade a este grupo que ele batizou de “sem-sem”. Esta leitura foi bastante criticada no seminário. Ignacy Sachs, por exemplo,disse que admitir esta hipótese seria concordar um certo tipo de apartheid civili-zado, quando o desafio é encontrar alternativas para incorporar os “sem-sem” nosistema. Para o secretário-executivo do NEAD, Edson Teófilo, este contingente,30 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  28. 28. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênioao contrário, forma o perfil da reforma agrária em curso no país, com mais de 700mil famílias beneficiadas nos últimos 30 anos, inclusive nos projetos de coloniza-ção, com positivas reações no empreededorismo desta clientela. Na sua opiniãoseria um equívoco dizer que todas essas pessoas são fracassadas e incapazes dese inserirem no processo produtivo. Mas Graziano não está totalmente sozinho em sua análise. José de SousaMartins também acredita que pelo menos uma parte do problema não vai serresolvido com a reforma agrária. Segundo ele, se tomarmos como exemplo umaterceira geração de filhos de favelados migrantes rurais a chance deles voltaremcom sucesso ao campo é muito pequena. Dependeria de um programa educacio-nal, reeducação e uma alternativa econômica no campo. Para ele, isto é muitocomplicado, embora não seja impossível. E mesmo assim, ainda haveria um resí-duo. “Eu tendo a concordar com o Graziano, pois no mínimo cabe uma reformaagrária, que dê um pedaço de terra para a subsistência de uma família,complementada por políticas publicas de saúde, de educação, serviços básicose uma aposentadoria que garanta a estas pessoas uma vida digna que não seja ade um pensionista do Estado”, sentencia Martins. 4. A visão dos jornalistasO conjunto de indagações surgido entre os pesquisadores levantou ou- tras perguntas em busca de respostas por parte dos jornalistas. Trata- se, em primeiro lugar, de uma busca de reposicionamento do ruraldiante do mundo e vice-versa, como destaca o jornalista Cláudio Cerri, que le-vanta dúvidas sobre a percepção desse dilema por parte da imprensa. “Vivemosuma transição crítica do objeto e de seu cronista e isso explica em grande parte aperda de tônus do jornalismo rural nos últimos anos”, observa. Cerri diz que a imprensa especializada hesita diante de uma fronteira cada vezmais difusa e se acomoda diante disso. Esse tipo de jornalismo é poucoquestionador em seu conjunto e se contenta com um espaço cada vez maisdesprestigiado dentro das empresas e no mercado editorial. Não por outro moti-vo, segundo ele, a principal empresa do país na área editorial, a Abril, tenha se 31
  29. 29. retirado desse segmento desafiador em meados dos anos 90, além da queda natiragem de outras publicações. A cobertura jornalística feita nesse setor, com raras exceções, vê o cam-po como um mero entroncamento de safras e insumos. Essa crítica de Cerrifoi reforçada por Ulisses Capozoli. Ambos lembraram que o jornalismo ruralé uma variante do jornalismo econômico, que se expandiu no país a partirdo “milagre econômico” durante o regime militar. A tônica desse jornalismo,historicamente, se caracteriza por uma linguagem e abordagem elitistas eeconomicistas, portanto, bastante voltadas para os grandes interesses dosgrupos econômicos dominantes. Isso explica na visão dos dois expositorese, também, de Rogério Furtado o fato de a reforma agrária ocupar um espa-ço esporádico nas páginas que tratam das notícias sobre agricultura. Assim,esse jornalismo é por extensão pouco crítico e legitimador de uma certaótica sobre o processo social brasileiro. Mas positivamente, na visão de Cerri,essa lógica vive uma crise provocada por inquietações na opinião pública,que vai quebrar essa blindagem economicista, forçando alterações no seuformato, obrigando-a a ver o mundo rural de uma maneira mais ampla comojá faz parte da academia. Humberto Pereira, que dirige o Globo Rural, afirmaque seu programa tem conseguido romper essa lógica, combinando repor-tagens plurais sobre o rural, com abordagem dos conflitos políticos em tor-no da reforma agrária. Humberto é ainda otimista em outros aspectos. Ele diz que a mídia em certamedida ajuda a desfazer alguns preconceitos, com reportagens que mostram sero rural mais universal do que o urbano. Mas esse trabalho só terá maior repercus-são se as redações de um modo geral destacarem bons profissionais para a cober-tura do mundo rural, o que na maioria das vezes não acontece. Mudar o enfoque desse jornalismo, privilegiando uma cobertura mais ampla, comodesejam os pesquisadores, não é tarefa fácil. Os problemas começam pelo lado dasustentação financeira dos veículos. Cláudio Cerri diz que é necessário encontrarrespostas para isso, no momento em que se discutem propostas de renovação paraas publicações sobre o mundo rural. “A quem vamos vender anúncios?”, indaga. Mas o próprio Cerri pensa que as dificuldades existentes não sãointransponíveis. Ele acredita que a hegemonia do agribusiness já não é absoluta e32 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  30. 30. BRASIL RURAL – Na Virada do Milêniovai se tornando vulnerável aos olhos da opinião pública. O produtivismo a qual-quer custo já não é mais aceito sem questionamento. Esse modelo barateou ocusto dos alimentos, mas ao mesmo tempo foi responsável por situações de ca-lamidade como o pânico sanitário com exemplos recentes de disseminação dafebre aftosa e da encefalopatia espongiforme ( conhecida como a doença da "vacalouca"), Por isso, cresce, na sua avaliação, o interesse pela qualidade dos alimen-tos que podem ser produzidos de diversas maneiras. A produção orgânica é cadavez mais valorizada e as próprias empresas jornalísticas já começam a perceberque precisam mudar sua postura, rompendo com a visão reducionista que aindapredomina. O campo também vive uma transição impulsionada por esses acon-tecimentos, além da questão ambiental. Se insistir em ser apenas um jornalismoagrícola e um subproduto do econômico, a reportagem rural perderá seu sentido,pois terá demonstrado total incapacidade de refletir sobre o seu próprio objetode trabalho. Diversos colegas já se queixaram a ele, mostrando disposição demudar de área, pois acreditam no fim do rural. Ulisses Capozoli afirma que a ligação com o jornalismo econômico, marcadamenteideologizado, seria apenas parte do problema. O jornalismo em geral é poucoquestionador e não exerce sua função interpretativa, limitando-se ao trabalho in-formativo, que é necessário, mas insuficiente. Seria preciso, segundo seu raciocí-nio, uma nova relação de poder nas redações. Hoje, a maior preocupação de umrepórter é convencer seu editor, por meio de matérias amenas e pouco analíticas deque ele não é ideológico, quando seu editor, essencialmente, tem uma posturaaltamente ideológica. Capozoli diz que as redações de jornais atualmente estãocheias de jornalistas amargurados, que não conseguem exercer plenamente seupapel social. Ele enxerga raízes mais profundas nessa postura. São marcas históri-cas de mentalidade escravista, de pouca participação e de pouca polêmica demo-crática, “uma cidadania a ser conquistada”, completa. Para ele, o jornalismo agríco-la que segue as linhas do jornalismo econômico não traz nenhum desassossegopara o status quo. Outras dificuldades de natureza histórica, na opinião de Jair Borin,dizem respeito à própria evolução da mídia. Ele lembra que a imprensa é essencial-mente uma atividade urbana e não rural. Ela nasce nos primórdios do capitalismoe se expande até seu formato atual, sempre segundo essa tendência, com rarosmomentos de análise de qualidade sobre o mundo rural. 33
  31. 31. O programa Globo Rural é reconhecido com um dos poucos que parcialmentecumpre o papel de mostrar os acontecimentos na área rural sem se concentrarnas notícias sobre safras agrícolas ou informações profissionais. SegundoHumberto Pereira, desde seus primeiros anos o Globo Rural teve preocupação demostrar o universo rural de uma maneira mais ampla, discutindo questõesambientais, culturais e rurais, e informando também os acontecimentos políti-cos. O programa, inclusive, ganhou duas vezes o prêmio Vladimir Herzog de direi-tos humanos por reportagens sobre os sem-terra e trabalhadores bóias-frias. Eleacredita que é real a possibilidade de volta ao campo e que nesse sentido o Mo-vimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e demais movimentos sociais nocampo cumprem um papel político relevante na sociedade brasileira. O coordenador-geral do NEAD, Juarez Brandão, concordou com os jornalistas arespeito dos limites impostos à profissão, o que nem sempre permite uma aborda-gem que incorpora todas as preocupações dos pesquisadores, no sentido de darum tratamento mais compreensível da diversidade do rural e do urbano e das mu-danças recentes na realidade do país, que necessariamente, adiciona novoselementos para esta análise. Avaliando as origens do jornalismo rural, como umbraço do jornalismo econômico que surge no regime militar, o professor Juarezlembrou que os sociólogos, economistas e cientistas sociais de um modo geraltambém carregam, no Brasil, uma forte marca em seu modo de análise, igualmentemarcada por esse período histórico. Cláudio Cerri tem uma opinião semelhante.Assim, as visões sobre os temas rurais dentro de uma redação são interpretados apartir de diversas óticas. O importante, ressalva, é que se cobre dos jornalistas umcomportamento responsável e pluralista, garantindo informações de qualidade quepelo menos seja capaz de veicular as diversas opiniões sobre o tema no Brasil. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, deu um depoimentorevelador quanto às dificuldades de abordagem comum entre os jornalistas, pes-quisadores e autoridades envolvidas com a temática rural. Jungmann diz que aconfusão é ainda mais intensa porque no Brasil, historicamente, o rural semprefoi confundido com agricultura e a agricultura reduzida à produção patronal. Já aagricultura familiar, que emprega 77% da mão-de-obra ocupada no campo, noimaginário da mídia está associada apenas à subsistência. Só recentemente, naopinião do ministro, percebe-se uma revalorização da agricultura familiar como34 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  32. 32. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênioresultado de mudanças no âmbito da economia e das relações sociopolíticas,atreladas ao processo de globalização e à rápida mudança tecnológica. O rural que é aceito na opinião de Jungmann é o que foi fecundado pelo urba-no, pelas relações de mercado voltadas para fora. Assim, a agricultura familiartem que se afirmar em uma contracorrente. É preciso esforço para mostrar à soci-edade brasileira sua importância, mas isto não implica um manifesto antipatronal,pois há espaço para os dois grupos. O que é ruim, diz Jungmann, é o preconceitoque ainda impera sobre a primeira. Para romper com o desencontro que existeentre a mídia e os outros grupos ligados ao rural, Jungmann acredita ser precisoidentificar alguns pontos que podem facilitar essa tarefa. Entre eles, o emprego.Falta em sua opinião estabelecer um vínculo mais forte entre as vantagens daagricultura familiar na geração de empregos, que é um desafio candente nasociedade contemporânea. A reforma agrária na avaliação do ministro também é fonte de confusão. A seuver dois projetos do ponto de vista jornalístico disputam as preferências. E nãose trata do projeto do governo ou das teses da oposição. Trata-se de soluçõesque habitam o imaginário da sociedade como solução agrária e fundiária para opaís. O primeiro é o da “modernização” tentada nos 70 e 80, que acabou geran-do o empobrecimento do campo. O agribusiness cumpre uma função da economiabrasileira, mas é baseado no capital intensivo e na redução do emprego, portan-to, uma solução precária como alternativa para a economia rural. Ele aposta emnovas estratégias para essa economia, a partir da reforma agrária em conjuntocom outras políticas públicas. A reforma agrária para ele mantém uma funciona-lidade no Brasil de hoje, mas tem também no imaginário uma relação muito fortecom a geração de conflitos e embates políticos. E esse processo, opina o minis-tro, está engolindo a reforma agrária. 35
  33. 33. 5. Necessidade e possibilidades de um diálogoO seminário foi um primeiro movimento de aproximação entre os pesqui- sadores e jornalistas. Teve, portanto, limitações naturais. Mas houve consenso quanto à necessidade de se prosseguir nesse diálogo, in-centivando outras iniciativas semelhantes, se possível, regionalizadas. O estilo eo ritmo de trabalho de cada um dos ofícios devem ser mais bem compreendidos,assim como suas limitações. Ricardo Abramovay ressaltou a importância de umambiente que possibilite criar uma simetria entre os dois grupos, que podem sealimentar mutuamente, a partir de leituras parciais e segmentadas que fazem darealidade. Alfredo Wagner reforça a importância desse diálogo, reconhecendo queos jornalistas têm uma velocidade maior para veicular certas situações, que ospesquisadores, pela morosidade que o trabalho científico exige, não têm. E essassituações às vezes são cruciais para se aprofundar ou completar uma investiga-ção em curso. Zander Navarro acredita que esse diálogo pode ajudar a discutir ospossíveis desencontros não apenas entre os dois grupos, mas também entre ospróprios pesquisadores. José de Sousa Martins diz que é importante compreender as categorias ru-ral e urbano como resultado de uma certa divisão do trabalho em uma certaépoca. A hipótese de que o mundo rural está acabando não se comprova apartir de experiência do Brasil, América Latina e África. Na mesma linha, osdemais pesquisadores ressaltaram que não se pode fazer uma afirmação tãocategórica sobre o fim do rural, especialmente como uma cultura, um modode vida. De fato há uma invasão do mundo rural por signos urbanos. O mun-do da mercadoria não tem essa distinção. Está acontecendo uma urbaniza-ção do rural de certa maneira anômala. Ao mesmo tempo, está havendo umaruralização da cidade. E não é por folclore. As pessoas com origem rurais,que vivem nas periferias dos grandes centros, não suportam a casa como pri-são. Assim, a rua virou o terreiro e é palco de inúmeras manifestações e ativi-dades que lembram a vida rural. Essa ruralização aconteceu nos últimos 30anos. Isso reflete o fato de que estamos tendo um desenvolvimento econô-mico que não é o dos modelos teóricos – aliás nem se pode dizer que estes36 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  34. 34. BRASIL RURAL – Na Virada do Milêniomodelos se confirmaram em qualquer lugar na totalidade, relembra Martins.É tudo muito mesclado e não há uma clara demarcação de divisas. Para que esse diálogo avance, Martins sugere um acerto de contas com avisão que vem predominando entre os cientistas sociais. Em geral eles têmtrabalhado, desde os anos 30, procurando explicar o rural a partir da teoriade transição. Uma transição que seria para o bem dessa população, a partir daidéia de que todo mundo abandonaria o campo, inclusive culturalmente. Omundo urbano seria tão mais superior do ponto de vista humano, tãoirresistível que as pessoas inevitavelmente iriam para a cidade e perderiamseus laços com o rural. A América Latina foi varrida por esse tipo de interpre-tação, com trabalhos que dizem ser o mundo rural sinônimo de passado. Issoacabou não se concretizando e não foi somente pelo tipo de modelo econô-mico adotado, mas também porque há elementos altamente positivos eemancipadores do ser humano no mundo rural. Se alguns benefícios dessedesenvolvimento fossem colocados à disposição dessa população rural, aocontrário, ela iria exacerbar seus fortes laços culturais se tornando ainda maisrural. Esses valores têm como positivo o confronto não apenas com a agri-cultura química, mas também com a desfiguração das condições de vida noscentros urbanos. O que é a cidade hoje senão o lugar do medo, do desempre-go e outras mazelas. “Pelo menos no campo é possível preservar a família euma certa sociabilidade comunitária”, afirma Martins. A crítica central, portanto, foi à idéia de que o rural vai desaparecer. Osnúmeros mostram o contrário e também há uma questão cultural e de valoresque está pouco compreendida pela mídia. Isso também vale para o urbanoque deve ser visto como um conjunto de valores e uma certa visão de mun-do. Nossa definição de urbano é muito estatística e com pouco alcance soci-ológico e antropológico e isso leva a equívocos enormes. As conseqüências desses equívocos para as políticas públicas são inevi-táveis. Martins cita como exemplo a educação. De acordo com ele, nos po-voados com 5 mil habitantes que hoje são tratados como urbano, às vezesexiste uma professora proveniente da cidade que não consegue interagircom a realidade local. Geralmente ela leva uma ideologia racional, total-mente urbana, que impossibilita o diálogo com a cultura local. Passa algum 37
  35. 35. tempo para descobrir que aquela é uma realidade totalmente distinta, oscódigos são outros. O governo não considera isto quando discute educa-ção. Ele atua a partir dos dados de que dispõe e esses dados sãoinvoluntariamente enganosos pela maneira como são construídos. O Minis-tério da Educação no Brasil não tem nenhuma disponibilidade – e isto éhistórico, critica Martins – para uma iniciativa que pense uma educaçãoespecífica para as populações rurais ou em transição. E o argumento sem-pre é o de que 80% da população é urbana. Ignacy Sachs ressaltou a importância do seminário. “Foi uma idéia feliz pro-mover este encontro”, disse. Ele se diz um fanático do jornalismo e vê suafunção como importante e complementar à pesquisa, principalmente em umpaís grande, heterogêneo e socialmente complexo como o Brasil. Sachs apontaos dois maiores inimigos das ciências sociais – a média aritmética e a linha deregressão. A ciência para ele avança a partir dos casos aberrantes negativos epositivos. “Em um país como o nosso”, diz Sachs, “são necessárias muitaslanternas para identificar esses casos e seria uma imprudência dos pesquisa-dores dispensar o trabalho dos jornalistas”. Para o professor, que há anos estuda o Brasil e orienta acadêmicos brasi-leiros na Universidade de Sorbonne, existe uma sinergia entre os dois gru-pos que precisa ser organizada – o sinal que emerge da reportagem e ospesquisadores o verificam e aprofundam na investigação. Às vezes ocorre oproblema da produção de informações em tempo útil. Ignacy criticou a de-mora dos pesquisadores em aproveitar essas oportunidades, pois poderiamtrabalhar com diversas fontes, sem prejuízo de suas pesquisas sólidas. Oque é preciso, segundo ele, é uma melhor discussão metodológica a respei-to das potencialidades entre a pesquisa social e o jornalismo, que necessitano Brasil de um espaço permanente de cooperação, além dessa primeirainiciativa de diálogo. Para Sérgio Gomes da Silva, existem muitas maneiras de se aproveitar adisposição dos pesquisadores em trabalhar mais próximos dos profissionaisda comunicação. Sérgio trabalha na empresa Oboré, que tem uma reconheci-da competência na elaboração de projetos de comunicação para organiza-ções sociais e populares. Um desafio importante a ser superado, na sua opi-38 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  36. 36. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênionião, é estabelecer uma dinâmica informativa, aproveitando as especificidadesentre “os que aprofundam e os que espalham”. Ele acredita ser possível trans-formar a informação que já existe para a população do campo, explorandopreferencialmente o rádio. José Eli da Veiga acredita que o problema não é tanto em relação ao jorna-lismo especializado. Para ele é mais importante pensar caminhos que ajudemos meios de comunicação a passar para a sociedade em geral uma visãomenos distorcida da realidade rural. Ele reconhece que existem muitas diver-gências entre os pesquisadores, mas que eles são unânimes quanto a neces-sidade de se buscar reverter algumas idéias erradas sobre essa realidade, queprejudicam a formulação de políticas para o desenvolvimento rural. O diálogoentre os dois grupos profissionais, na opinião de Eli, é fundamental para sereverter esses erros e propiciar às áreas rurais uma merecida prioridade den-tro do contexto de discussão sobre estratégias de desenvolvimento humanoe sustentável para o Brasil. Cláudio Cerri reconheceu, por outro lado, que noinício estava cético quando ao resultados do seminário, mas o debate aca-bou mostrando o quanto a discussão é rica e necessária. 6. ConclusãoO seminário “Brasil Rural na Virada do Milênio – Encontro de Pesquisado- res e Jornalistas”, certamente, repetiu discussões presentes em outros fóruns. Mas teve o grande mérito de realimentá-las à luz de novas ques-tões e levantar pela primeira vez no país a proposta de um diálogo que se mostrouimprescindível entre os especialistas e a mídia ou pelo menos parte dela, preocupadaem compreender bem esta complexa realidade para informar melhor à sociedade. Seus organizadores o avaliaram como bastante positivo e lançaram a idéia e odesafio de novos eventos, se possível, regionalizados. Para que essa proposta seconcretize, contudo, são necessárias novas parcerias e atores interessados emlevar adiante a tarefa de entender melhor o que se passa no mundo rural, que estámais vivo do que nunca, é portador de valores, costumes e potencial para sepensar alternativas econômicas e sociais sustentáveis para o Brasil. 39
  37. 37. A agenda de desenvolvimento rural nas perspectivas discutidas pelos pesquisado-res, jornalistas e público que dele participaram, passam, necessariamente, pelareafirmação de alguns pontos básicos. O primeiro seria uma revisão dos critérios adotadosno país para definir as fronteiras entre o urbano e o rural. Explicar melhor tais critériosajuda a romper preconceitos e mitos presentes na imagem distorcida que relaciona orural ao atraso e a um passado que deveria ser extinto. A reforma agrária é um outro objetivo a ser reafirmado. Sua importância comouma questão nacional ainda não resolvida não implica desconsiderar, também,sua pluralidade no contexto diverso que caracteriza as distintas regiões do país.Ela não se limita à distribuição de ativos de terra. A clientela por ela beneficiadanecessita de apoio complementar, por meio de crédito maciço, acesso à educa-ção, saúde, tecnologia e estratégia de integração ao mercado. Por fim, foi consenso a visão de que essa agenda deve priorizar a agriculturafamiliar. Assim, é imprescindível discutir o futuro da pequena produção no Bra-sil, avaliando as estruturas sociais que lhe dão sustentação e as melhores polí-ticas públicas necessárias para dinamizá-la. Não se trata de pensar o Brasil ruraldissociado do urbano. O desafio é explicar os dois e articulá-los social e eco-nomicamente, por meio de uma nova relação do Estado com os demais atoresdo processo de desenvolvimento, aproveitando potencialidades que hoje es-tão subaproveitadas por preconceito e desinformação.40 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  38. 38. BRASIL RURAL – Na virada do Milênio 7. Fontes de consulta a) Artigos: Cláudio Cerri: · Encruzilhada rural, mimeo, 2001 José Eli da Veiga: · A encruzilhada estratégica do Brasil rural, mimeo, 2001 Artigos quinzenais do Jornal Estado de S. Paulo: · Hibridismo no campo – 18.11.2000 · Vilão do desenvolvimento rural – 16.12.2000 · Ilusão de um país urbano – 30.12.2000 · O campo e o censo – 28.2.2001 · Desenvolvimento e empregos – 10.3.2001 · Agricultores urbanos – 24.3.2001 José Graziano da Silva: · Velhos e novos mitos do rural brasileiro, mimeo, 2001 Ricardo Abramovay: · Do setor ao território: funções e medidas da ruralidade no desenvolvimento con-temporâneo. Ipea, texto para discussão n° 702, 2000 Artigos no Jornal Gazeta Mercantil: · Protecionismo e desenvolvimento agrícola – 20.3.2000 · Entre a intenção e o gesto – 25.4.2000 · Preservar para lucrar com os cerrados – 22.5.2000 · Custos de uma política social necessária – 31.7.2000 · Desafios impostos pela volta do homem ao campo – 02.10.2000 · Agricultura familiar e novas oportunidades de acesso à terra – 30.11.2000 · A agricultura brasileira na contramão – 10.1.2001 · Instituições para o desenvolvimento econômico – 07.2.2001 Zander Navarro: · Políticas públicas, agricultura familiar e os processos de democratização em áreasbrasileiras (com ênfase para o caso do Sul do Brasil). Artigo apresentado no XX EncontroAnual da Associação Nacional de Pós-Graduação – Anpocs, Caxambu-MG, 1996. · Pequena História sobre o MST e seus impasses. Mimeo, 2000 · Mobilização sem emancipação – as lutas sociais dos sem-terra no Brasil. A sair em:Santos, Boaventura de Sousa (org). Reinventando a emancipação social. Lisboa, 2001 b) Entrevistas: · Jair Borin · José Eli da Veiga c) Notas taquigráficas do seminário 41
  39. 39. 8. A urgência de uma estratégia de desenvolvimento rural no BrasilEntrevista com José Eli da VeigaO professor José Eli da Veiga é um crítico da idéia predominante no Brasil sobre o mundo rural. Ele tem uma vasta produção intelectual nessa área, com artigos científicos, livros e uma coluna quinzenal no jornal OEstado de S. Paulo. Ele prega uma urgente estratégia de desenvolvimento ruralno Brasil. Seus textos mais recentes procuram desmistificar a visão de que omundo rural está em extinção e que representa o passado e o atraso. Na suaopinião, ao contrário, retrógrada é a confusão entre agricultura e economia rural.Citando dados e metodologia utilizados em outros países, José Eli critica as prin-cipais teses existentes sobre o assunto no Brasil, no que se incluem os dados docenso demográfico elaborado pelo IBGE. Professor titular da Faculdade de Eco-nomia e Administração da USP, ele é atual coordenador do doutorado em ciênciaambiental daquela universidade. José Eli doutorou-se em economia pela Univer-sidade de Paris I e teve diversas passagens pela administração pública, entre elas,como técnico do Ministério da Agricultura de Portugal e superintendente regio-nal do Incra em São Paulo, quando foi lançado o Plano Nacional de Reforma Agrá-ria no início do governo Sarney. É o atual secretário do Conselho Nacional deDesenvolvimento Rural – CNDRS. NEAD – Qual o melhor conceito para mundo rural? José Eli – Uma confusão comum, que não era muito grave antigamente, e hojenão pode mais continuar ocorrendo, é entre o que é rural e agricultura. No Brasil,não se faz essa distinção. Fala-se em rural e imediatamente pensa-se em agricultu-ra. Mas o rural hoje no Brasil representa pelo menos o dobro da agricultura sejamquais forem os critérios utilizados. No Brasil se utiliza o critério espacial, uma vez42 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas
  40. 40. BRASIL RURAL – Na Virada do Milênioque se separa o urbano do rural. No rural, também se encontram os três setores dourbano: primário, secundário e social. Em termos comparativos, dependendo dopaís que se pegar como exemplo, perceberemos que a indústria é mais importanteno setor rural do que no urbano. E as pessoas não imaginam que isso pode aconte-cer. Essa confusão não mais é feita pela maioria dos pesquisadores embora já te-nha ocorrido no passado. Um dos motivos é a própria maneira como o IBGE separaos dois setores. No Brasil, separa-se o urbano do rural, inclusive dentro de um mes-mo município, a partir da idéia de que existe sempre uma zona urbana onde selocaliza um domicílio. Tomemos uma determinada localidade onde quase todo oespaço é ocupado por uma reserva florestal, sem praticamente nenhuma atividade,apenas um núcleo domiciliar onde moram poucos habitantes. Pelo critério atual,esse núcleo será considerado como urbano tanto quanto um dúplex situado naavenida Paulista. Não tem nada a ver. Pouquíssimos países do mundo usam essecritério: El Salvador, Guatemala, Equador e República Dominicana. NEAD – Quais as conseqüências disso em termos de políticas públicas? José Eli – Não sei avaliar todas. Mas em princípio, criou-se a idéia de queo Brasil é ultra-urbano, e só 18% da população seria rural, o que é um absur-do. Pelos nossos cálculos, hoje em dia, estariam no rural umas 50 milhões depessoas ou mais. Mas, entre o rural e o que de fato se pode considerar redeurbana ainda existe uma zona cinzenta que chamamos de ‘rurbano’. Então,na verdade, urbano mesmo no Brasil não chega a 60% da população. E o res-to, dependendo do critério que se vai usar, será mais rural ou mais urbano.‘Rurbano’ é um termo criado pelo Gilberto Freire. Por exemplo, qualquer crité-rio que se utilize na Zona da Mata Pernambucana é urbana, mas lá não seencontram características tipicamente rurais nem urbanas. NEAD – Quais os indicadores específicos daquela região? José Eli – É provável que esse fenômeno ocorra em função da característicacanavieira naquela zona. Há uma grande coincidência quando se observam osdados da Zona da Mata. Lá os municípios têm uma pequena população, mascom altíssima densidade demográfica, o que normalmente não ocorre. Há umacerta correlação entre município pequeno em número de habitantes e baixadensidade demográfica. 43
  41. 41. NEAD – No Sul também seria a mesma coisa? José Eli – Não. Nem um pouco. É uma característica muito típica dessa re-gião de Pernambuco, que chega a atingir também a Paraíba e Alagoas. Algunsjornalistas já perceberam esses aspectos porque acompanham as pesquisas maisde perto. Outros não têm interesse pelo rural que os leve a entrar nesse tipo dediscussão. Por isso a importância deste seminário. NEAD – Então já existe grande consenso entre os pesquisadores? José Eli – Ainda existe confusão, mas é menor. Ainda há um problemamuito sério em relação às fontes. A única estatística do rural disponível é aPesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar – Pnad, que utiliza um concei-to equivocado sobre o rural. Além disso, pela Pnad não é possível desagregaros dados por município ou microrregião. Somente por Estado. Então, pormais consciência que possa haver por parte do pesquisador é impossíveltrabalhar com os dados do IBGE e produzir resultados sem algum nível dedistorção. Temos que resolver este problema, mas também trabalhar osequívocos de linguagem que reforçam essa visão. No Brasil, tudo virou cidade.Não se faz mais nenhuma distinção entre vila, vilarejo, povoado e aldeia. Ci-dade mesmo começa com uma plataforma de uns 100 mil habitantes. NEAD – Por esse seu critério, quantas cidades aproximadamente o Brasil tem? José Eli – No Brasil, existem no máximo 200 cidades e uns 800 municípiosque por critérios internacionais poderiam ser considerados como vilas. Os outros4.500 são vilarejos. São localidades que pelo critério de densidade demográficanão chegam sequer a 30 habitantes por quilômetro quadrado. Ora, essa é umadensidade da era neolítica, quando nem existiam cidades. NEAD – De que maneira o jornalismo pode ajudar a desfazer este mal-entendido? José Eli – Acho que há trabalhos extremamente valiosos de jornalistas paraos pesquisadores embora estes muitas vezes não percebam. Há uma dificuldademuito grande no Brasil, pelas próprias características do país, que limita em mui-to os trabalhos de campo. Mesmo os que fazem excelentes trabalhos rurais ofazem baseados em dados estatísticos secundários. E quando chega na fase dechecar no campo, se coincidem ou não, é uma coisa muito cara. Imagine a reação44 Encontro de Pesquisadores e Jornalistas

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