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- Não estou interessado em te conhecer.  E você? 

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nanimonai 3 (cap. I e II)

  1. 1. nanimona¡ 3 EDIÇÃO LIMITADA DE COLECIONADOR Estou velho, me sinto velho. Meus ossos doem, e subir num palco já não é mais tão divertido. Não sinto mais apreensão e nem calafrios como antes. Antigamente, quando ficava parado no backstage esperando a minha deixa para entrar em cena, sempre me pergtmtava: "E se hoje eles me vaiaremT', o terror tomava conta de mim, mas nunca aconteceu. Alguns espectadores mais críticos comentam que minha performance foi mais fraca, ou mais intensa, neste ou naquele show, nunca nada além disso. Gritam por mim e dizem que me amam, isso é ridículo. Elas sabem o nome de todos os animais de estimação que tive na vida e minha cor favorita que leram numa entrevista de vinte anos atrás. O resto, preenchem com suas próprias fantasias de príncipe encantado. No final das contas, nem faço parte da história. Ainda assim, estão lá, berrando e chorando: algo que me fazia bem antes, hoje tanto faz. Sei que, qualquer dia desses, uma gravadora Vai investir em um novo cantor de um estilo parecido, e será por ele que elas vão chamar. Nem todas, algunlas já estarão casadas, outras arranjarão um emprego que ocupará o tempo que
  2. 2. nanimona¡ 3 gastam vindo nos verem tocar. Não as desencorajo. No lugar delas, já teria desistido na primeira carta não respondida. Percebi que parte do público envelheceu, são menos espalhafatosos, e mais agradáveis em sessões de autógrafos. Mas ainda surgem pessoas novas de tempos em tempos. Evito fansites e fóruns. Sou tratado como objeto, dono de um rosto bonito - maquiado e corrigido digitalmente. Olho aquelas fotos, nem se parece com o homem que vejo no espelho pela manhã. Garotas, vocês estão sendo enganadas. Dissecam minhas letras e tentam encontrar fatos na minha vida que as expliquem. "Essa escreveu quando se separou daquela atriz". Se referem a mim como o homem perfeito, o namorado dos sonhos, o futuro marido. No final das contas, quase sempre durmo sozinho. Em algum momento dessa trajetória deixei de ser humano para virar um desejo de consumo. Sem problemas, meu empresário dá o sangue por isso e, além do mais, me pagam muito bem. A banda da qual participo sente algo semelhante, mas eles parecem ter aprendido a lidar com a situação de uma forma melhor que eu. Outro dia, o baixista me disse que deve ser assim porque sou quem escreve e canta as músicas, o que mais se expõe de todos nós - por isso, me sinto o mais incompreendido. Nunca diminuí a qualidade do meu trabalho; ainda tento me superar a cada composição, por mais que eu saiba que o nível de exigência do meu público se resuma a calças coladas, olhares fatais e alguns "eu te amo". Uma vez, há alguns anos, bebi im¡ pouco antes de entrar no palco e fiquei bastante zangado com não-me-lembro-Inais-o-quê. Falei, entre uma
  3. 3. nanimona¡ 3 música e outra: "Vocês são loucas por amar um cara assim. Nem eu consigo gostar de mim. Por favor, se respeitem mais, vocês não dão a mínima pra quem eu sou, só querem uma imagem pra ficar excitadas enquanto tomam banho". Dei dor de cabeça para alguns dos chefes por ter dito isso, mas nosso público aumentou consideravelmente, e isso os acalmou. Também recebi uma pilha de cartas que falavam de paixão verdadeira. Ninguém prestou atenção no que eu disse, como sempre. Mas, por favor, não confundam isso com raiva. No início, até era. Depois, houve uma fase negra de desespero, pensei e fiz muitas coisas questionáveis nesses tempos. Hoje, encaro isso com mais cautela. Foi a vida que escolhi, não posso reclamar. Esse sou eu, o que me tornei, e não sei ser ou fazer qualquer outra coisa. Não é felicidade, é resignação. Sempre que entro nesses assuntos, vejo que decepciono as pessoas à minha volta: me tratam com pena ou desprezo. Ser chamado de mal agradecido, na minha idade, faz com que me sinta uma criança que não disse "obrigado" ao ganhar um presente de uma visita. Para evitar esse desconforto, não falo mais nisso. Às vezes, escrevo músicas, mas não chego a apresenta-las nas reuniões. Elas desencadeiam uma onda de comoção e de apostas sobre por que estou deprimido outra Vez. Alguém me disse uma vez que um sorriso disfarça tudo. De fato, funciona. O show daquela noite não foi diferente de nenhum anterior.
  4. 4. nanimona¡ 3 II No camarim, estava tentando encontrar uma garrafa de isotônico perdida no freezer, quando o empresário entrou acompanhado de uma mulher elegante demais para um lugar como aquele. Não era feia, mas não fazia meu tipo. advogada e quer falar com vo cê". "Droga, aí vem alguma bomba", pensei. Advogados nunca me procuram para dar boas notícias. Cumprimentou-me, exibindo um cartão de visitas azul com letras douradas. Tirou da pasta umas folhas e me perguntou sobre uma pessoa. - Me desculpe - respondi. - Pois bem, ela faleceu há duas semanas. - Meus pêsames. O que tenho a ver com isso? - Bom, ela possuía um pequeno restaurante no Centro, que está sendo vendido para pagar dívidas, e a família está brigando pelo restante do dinheiro. - De fato, é muito triste, em que posso ajudar? - Além do restaurante, ela deixou um filho, Stefan, de dezesseis anos. Os parentes estão lutando pela guarda dele, justamente para ficarem com a herança. Porém, o conselho tutelar fez uma avaliação prévia e chegou à conclusão que não há nenhuma afinidade entre o jovem e os familiares - fez uma pausa antes de continuar - e, segundo alguns diários e documentos, tudo leva a crer que o senhor é o pai dele, logo, tem o direito à sua guarda, se assim o desejar.
  5. 5. nanimona¡ 3 - Se a mãe dele não me procurou nesses dezesseis anos, talvez eu não seja o pai, ou ela não queria que eu fosse. - Sim, essa opção por parte dela é compreensível - ajeitou os óculos enquanto educadamente me insultava. - A situação é a seguinte: o rapaz vai para uma instituição até que a situação se resolva, caso não encontremos um tutor adequado. E confesso que não fará mal algum para a minha carreira processar uma estrela do rock por abandonar o filho em um orfanato. - Não ha' provas que ele é meu filho. - Posso pedir um DNA - ameaçou. - Estou sendo chantageado? - Não, apenas avisado do que pode acontecer - o sorriso cruel fez ela parecer bonita. Logo passou. - O que você quer? - Que o senhor assuma a guarda provisória dele enquanto terminamos o processo. Não estava interessado naquela discussão. Ter mais um filho era algo fora dos meus planos; achei que já tinha passado dessa fase. Aos cinquenta e três anos, não imaginei que isso ainda pudesse acontecer. E minhas ex-mulheres dariam um rim para me manter afastado das meninas. - Vou falar com meu advogado, ele entrará em contato. Ela parecia decepcionada comigo. Sentiu que tinha perdido o jogo e desabafo u:
  6. 6. nanimona¡ 3 - Olha. Pelas informações que tenho, os dois eram muito próximos e sem contato com resto da fan1ília: um só tinha ao outro. Ele acabou de perder a mãe, de Ver a casa onde vivia ser vendida a um preço irrisório, e querem que eu o jogue em um abrigo. Acho que esse menino está passando por uma fase ruim, e eu gostaria muito de ajudar. - Leva ele pra sua casa. - Se meus chefes soubessem, seria demitida na mesma hora. Por isso, verifiquei a possibilidade de você, como provável pai, ao menos cuidar dele. Estão caindo em cima de mim e 11ão sei mais o que fazer. - E cadê ele? - No corredor, perto da saída. Fui conhecer o rapaz. Quem sabe o peso na consciência me obrigaria a participar desse drama familiar? Algo dentro de mim não estava levando completamente a sério essa história. Havia várias pessoas circulando no corredor. Ao fundo, somente uma fmica, parada e sozinha. Devia ser ele. O garoto estava sentado sobre o encosto do banco, com as pernas dobradas em cima do assento, os pés batendo como se estivesse ouvindo uma música, talvez fosse nervo sismo. Olhando de longe, não era possível identificar sua idade. Vestia calça jeans, tênis e uma camisa social preta; tinha alguns anéis nos dedos que eram difíceis de reconhecer os símbolos. As roupas estavam alinhadas demais para alguém tão jovem. O cabelo, extrema-mente liso, longo e pintado de vermelho camiim cobria as laterais do rosto, ombros e costas. Só quando estava muito próximo, virou-se para me olhar. Os passos devem ter alertado ele.
  7. 7. nanimona¡ 3 Foi como se alguém tivesse jogado um balde de água gelada nas minhas costas, perdi a respiração e um arrepio subiu pela minha espinha até a nuca. Já tinha visto traços parecidos com aqueles milhares de vezes: o rosto magro, os olhos claros, os lábios grossos, a mesma pinta sobre a sobrancelha direita - eram iguais aos meus. Mas minhas características pareciam fic ar melhores nele do que em mim. Ele desceu do encosto, deslizando suavemente. Cruzou as pernas e os braços e desviou o olhar para a saída de incêndio. - Stefan? Fui encarado pelos olhos frios de um psicopata, o rosto não expressava sentimentos. Creio que deve ter sentido a mesma coisa que eu - que estávamos diante de um espelho distorcido e com falha temporal. - Soube o que aconteceu com você, sinto muito. Como antes, a resposta não veio. - Vejo que já se conheceram - sugeriu a advogada, surgindo ao meu lado. - Esse é o Stefan e esse é o. .. - Você ao menos sabe quem é minha mãe? - interrompeu. - Não faço a menor ideia. Falei por impulso. Ótimo, meu filho adolescente já me odeia. Ago ra sim, me sinto um pai de verdade. - Ê claro. .. Não esperava muito mais do que isso. - Você não deve falar assim - disse ela, com um sorriso menos interessante que o primeiro. - Vamos, é a primeira vez que vocês se veem. O garoto se levantou, não era muito alto. Se aproximou de mim com as mãos nos bolsos e disse:
  8. 8. nanimona¡ 3 - Não estou interessado em te conhecer. E você? - Alguém desesperado deveria ser mais humilde. - Porque não vai pegar umas groupies? - Melhor não, alguma pode engravidar. - Seria legal, eu poderia montar um clube. Vou ser o veterano? - Desculpa. - O que você faz? Se masturba ao vento e seus espermatozoides se espalham por aí? já ouviu falar em camisinha? - Estava pensando a mesma coisa enquanto ouvia você falar. E em nenhum momento alterou o tom de voz, quem não prestasse atenção diria que estávamos tendo uma conversa agradável e pacífica. - Senhores, por favor. .. - nossa espectadora perdeu a paciência. - Se incomoda em hospedar o Stefan com você? - Pago um hotel. - Tudo bem - ela suspirou, não sei se por alívio ou por ter cansado de nós. - Então, que seja assim. Amanhã farei contato com seu advogado, e entraremos com os recursos para você ser o tutor provisório do Stefan. Apenas conc ordei com a cabeça. A batalha estava perdida. III O Stefan entrou no carro em silêncio. Como era menor de idade, imaginei que seria difícil jogar ele em um hotel no meio da noite. E ser visto por aí andando com um menino desconhecido daria assunto para 10

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