Preceitos de Vida
SABEDORIA
DO
DALAI LAMA
DUGPA RlMPOCHÉ
Prefácio e organização de Jean-Paul Bourre
SABEDORIA AMERÍNDIA
Pr...
Tradução
MIGUEL MASCARENHAS
SABEDORIA
DO
DALAI LAMA
Prefácio e organização
de Bernard Baudouin
Pergaminho
*- Jt^^Q^. Jr*
SABEDORIA DO DALAI LAMA
Bernard Baudouin
Traduzido do original
Préceptes de vie du Dalài'Lama
Presses du Châtelet
ISBN: 2-...
PREFÁCIO
uma «filosofia de vida» capaz de transcender o
quotidiano, em frases que se sucedem com uma
evidência impalpável,...
Introdução
POR QUE RAZÃO NOS DEVERÍAMOS INTERESSAR PELA
sabedoria de vida do Dalai Lama?
O título da presente obra suscita...
12 • INTRODUÇÃO
notoriedade de casta ou de classe. E se é certo
que, graças à sua evolução pessoal e à sua imensa
cultura,...
14 INTRODUÇÃO
Sem esquecer o próprio planeta, pilhado, devasta-
do, despojado das suas florestas e poluído sem
quaisquer e...
16 INTRODUÇÃO
Sua Santidade o Dalai Lama não fala, narra.
Sua Santidade o Dalai Lama não ensina,
mostra.
Mas, acima de tud...
OSER
ACTOS
OS DEZACTOS POSITIVOS SÃO OS SEGUINTES: PROTEGER
a vida, partilhar os seus bens, observar uma ética
sexual, diz...
20 O SER
atitude benevolente e adoptarpontos de vista jus-
tos. E os dez actos negativos são: matar,roubar,
praticar a inc...
22 O SER
UMA VEZ QUE PARTILHAMOS TODOS ESTE PEQUENO
planeta chamado Terra, temos de aprender a vi-
ver em harmonia, em paz...
24 • O SER
HOJE EM DIA PENSO QUE CERTOS MESTRES ORIENTAIS,
permanentemente rodeados por ferventes adep-
tos ocidentais, se...
26 O SER O SER 27
MORALIDADE
GRAÇAS À PRÁTICA DA MORALIDADE, QUE SIGNIFICA
não permitir que as três portas do nosso corpo,...
28 O SER O SER 29
Jovens, assumampois, por favor, a vossaresponsa-
bilidade, tornando-vos conscientes das vossas po-
tenci...
30 O SER O SER 31
mais importante que o de uma pessoa isolada, seja
qual for a sua importância como indivíduo. E é
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32 • OSER
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onde vivemosfor...
34 O SER
Antes, porém, devemos tomar consciência da
importância da vida presente, porque, senão com-
preendermos a utilida...
36 O AMOR E A FELICIDADE
cimentes, a nossa educação ou o nosso sucesso
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38 O AMOR E A FELICIDADE
dade e da pazde espírito, e não depende de facto-
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40 O AMOR E A FELICIDADE
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gum podemos deixar fugir uma tal ocasião.
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42 O ESPIRITO
ATITUDE MENTAL
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44 O ESPIRITO
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46 O ESPÍRITO
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tar analisar a situação, já que permitir que essa
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48 O ESPÍRITO O ESPIRITO 49
«Possa o meu sofrimento servir para aliviar os so-
frimentos que os outros seres sentem.»
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50 O ESPIRITO O ESPIRITO 51
mento, a nossa consciência está num certo nível
de actividade. Durante o estado de sonho, ela ...
52 O ESPÍRITO O ESPÍRITO 53
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prática espiritual progressiva, nós temos a pos...
54 O ESPIRITO O ESPIRITO 55
do o seu objectivo é cometer acções não virtuo-
sas, mas que deixa de ter a mesma força e a me...
56 O ESPIRITO
preguiça se esconde sob a aparência de activida-
de, que nos faz andar de um lado para o outro,
embrenhados ...
58 O ESPIRITO
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despertar e na iluminação do espírito, e mesmo
que estejamos impli...
60 O ESPÍRITO
males. Mas a verdadeira raiz do problema, a fonte
de todos os problemas e a origem de todos os im-
previstos...
62 OESPÍRITO
deixam no espírito depois de terem sido elimina-
das. Porém, e dado que a verdadeira natureza do
espírito é o...
64 O ESPÍRITO
QUANDO UMINDIVÍDUO CONTROLA PERFEITAMENTE o
seu espírito, todas as imperfeições interiores e
exteriores, ass...
66 O ESPÍRITO
Ihido, da nossa vontade, da nossa determinação e
da nossa sabedoria. Se dermos provas de determi-
nação e de...
O ESPÍRITO
espírito. Um estado de espírito disciplinado, um
estado de espírito espiritualmente transformado,
conduz à feli...
70 O ESPÍRITO
células nervosas que respondem a todos os aconteci-
mentos, a todas as experiências e a todos os pensa-
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72 O ESPIRITO
INTELIGÊNCIA
OS INSECTOS PODEM SER IMPOTENTES E FRACOS, MAS
eles não destroem o seu meio ambiente nem os
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74 A HUMANIDADE
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do fundo do coração, que eles o utilizem e sesir-
vam del...
76 A HUMANIDADE
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78 A HUMANIDADE
«BEM-ESTAR», NA ACEPÇÃO BUDISTA, SIGNIFICAAju-
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94 A HUMANIDADE
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96 A HUMANIDADE A HUMANIDADE 97
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A VIDA ESPIRITUAL
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NÃO NOS DEVEMOS ESQUECER DE QUE, MESMO NO SER
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100 A VIDAESPIRITUAL
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do sofrimento e conduz-nos até à cidade da paze
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102 A VIDA ESPIRITUAL
RELIGIÃO
O OBJECTIVO DA RELIGIÃO NÃO É O DE CONSTRUIR BE-
las igrejas ou templos soberbos, mas sim o...
104 A VIDA ESPIRITUAL
independente e permanente, e isso é algo que Os
budistas também não reconhecem. Contudo, 0
objectivo...
106 A VIDA ESPIRITUAL A VIDA ESPIRITUAL
NEM OS BUDISTAS CONSEGUEM QUE O CONJUNTO DA PQ-
pulação mundial se torne budista, ...
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  1. 1. Preceitos de Vida SABEDORIA DO DALAI LAMA DUGPA RlMPOCHÉ Prefácio e organização de Jean-Paul Bourre SABEDORIA AMERÍNDIA Prefácio e organização de Jean-Paul Bourre MAHATMA GANDHI Prefácio e organização de Henri Stern PENSAMENTOS E MEDITAÇÕES Kahlil Gibran SABEDORIA DO DALAI LAMA Prefácio e organização de Bernard Baudouin SABEDORIA JUDAICA Prefácio do Rabi Josy Eisenberg e organização de Pierre Lurçat SABEDORIA CHINESA* Tradução do Chinês e apresentação de Patrice Serres ' A publicar.
  2. 2. Tradução MIGUEL MASCARENHAS SABEDORIA DO DALAI LAMA Prefácio e organização de Bernard Baudouin Pergaminho *- Jt^^Q^. Jr*
  3. 3. SABEDORIA DO DALAI LAMA Bernard Baudouin Traduzido do original Préceptes de vie du Dalài'Lama Presses du Châtelet ISBN: 2-84592-025-3 copyright © 2001, Presses du Châtelet. Todos os direitos reservados. Este livro não pode serreproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ouprivado - além dousolegal como breve citação em artigos ecríticas - sem prévia autorização doeditor. copyright © 2002, da tradução: Editora Pergaminho .'••'• "V Direitos reservados para a língua portuguesa (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda. Cascais, Portugal 1a edição, 2002 1a, 2a reimpressões, 2002 ISBN 972-711-204-8 Prefácio TENTAR ADQUIRIR E MANTER UM ESTADO DE ESPÍRITO disponível, percorrer dia após dia o caminho de uma meditação pessoal, familiarizar-se com o maior número possível de pensamentos positivos, esquecer-se de si próprio a fim de melhor abrir-se aos outros, procurar ter tempo para ler, recitar, rezar... São estes os actos simples e verdadeiros a que nos convida permanentemente, através do seu lu- minoso exemplo, Gyalwa Tenzin Gyatso, o 142 Dalai Lama. Prémio Nobel da Paz, divulgador do pensa- mento tibetano e infatigável mensageiro da tole- rância, Sua Santidade o Dalai Lama fornece-nos nos seus escritos palavras simples que veiculam j
  4. 4. PREFÁCIO uma «filosofia de vida» capaz de transcender o quotidiano, em frases que se sucedem com uma evidência impalpável, mas sempre presente, àima- gem de uma corrente de serenidade que não só nos obriga ao questionamento de nós próprios, como revela a nossa própria inspiração. Já que, de facto, se trata de uma revelação, uma revelação que, por intermédio de um preceito, de uma imagem ou de uma metáfora, conduz cada um de nós até ao limiar do essencial. A intenção não é tanto a de dispensar a boapalavra,mas a de se infiltrar nos meandros da nossa consciência e eventualmente pôr em evidência a aberração de algumas das nossas impaciências. É por essa ra- zão que o pensamento do Dalai Lama se materia- liza em «palavras de luz», palavras essas que, para além das diferenças de origem ou de cultura, in- terpelam em cada um de nós uma idêntica huma- nidade, ajudando-nos a regressar à raiz comum de todo o ser humano, a encontrar o caminho da paz interior, a plantar as sementes da nossa pró- pria realização e a olhar os outros como nos olha- mos a nós próprios. Todos aqueles que, desejando entrar no sécu- lo XXIabrindo o seu coração e libertando a sua alma, procuram uma espiritualidade autêntica e não-agressiva encontrarão nestes preceitos uma PREFACIO força e uma verdade que, transcendendo o Budis- mo, dão acesso ao mais generoso ecumenismo. Para além das raças, das culturas e das religiões, e através das suas palavras simples e iluminadas, Sua Santidade o Dalai Lama conduz-nos à fonte de todos os apaziguamentos.
  5. 5. Introdução POR QUE RAZÃO NOS DEVERÍAMOS INTERESSAR PELA sabedoria de vida do Dalai Lama? O título da presente obra suscita este género de interrogação. Por que razão, com efeito, não privilegiar os valores preconizados por um qual- quer outro representante de uma das grandes reli- giões monoteístas? Ou por tal ou tal dirigente de uma organização humanitária internacional, ou mesmo por este ou aquele homem de Estado? Muito simplesmente porque aquilo a que se referem estas páginas não é da ordem do poder ou do lugar que o indivíduo ocupa socialmente, nada tendo a ver com a preeminência histórica ou hierárquica, e menos ainda com uma qualquer
  6. 6. 12 • INTRODUÇÃO notoriedade de casta ou de classe. E se é certo que, graças à sua evolução pessoal e à sua imensa cultura, aquele que aqui nos fala está com- pletamente impregnado de espiritualidade, tam- bém não deixa de ser verdade que não se trata do chefe espiritual de centenas de milhões de indi- víduos cujas afirmações evocam a sabedoria, mas sim de um homem que se dirige aos outros ho- mens, uma vez que os conhece e os compreende. Um homem no qual estão vivos todos osvalo- res de uma longínqua tradição e que, por outro lado, possui uma capacidade fenomenal de co- municar que o fazpercorrer o mundo inteiro com uma facilidade que nunca se altera. Se algum ho- mem marcou o último quartel do século XX pela sua omnipresença, o seu carisma, a sua teimosia em dar a conhecer o destino doseupovo - e,atra- vés dele, os sofrimentos de todos os homens -, esse homem é indubitavelmente Sua Santidade o Dalai Lama. Não se trata aqui da personagem oficial, des- cendente de uma longa linhagem de seres eleitos, tendo por missão revelar os valores do dharma, nem do exilado que fugiu do seu país há mais de quarenta anos. O ângulo sob o qual ele se nos apresenta, hoje, através desta Sabedoria, aproxi- ma-o de outros seres de excepção, tais como o INTRODUÇÃO • 13 Mahatma Ghandi ou Martin Luther King, com os quais ele partilha um pensamento rico e forte, aliado a uma poderosa espiritualidade, ou, numa única palavra,uma humanidade que o torna ime- diatamente acessível a todos aqueles que o escu- tam - e que aomesmo tempo aceitam ouvi-lo. Numa época em que o mundo parece enlou- quecer, em que os usos e costumes deixaram de desempenhar o seu papel aglutinador e em que os grupos e as comunidades se desmembram cada vez mais, empobrecendo as trocas; numa época em que os homens se tornam cada vez maissolitários e se sentem cada vez mais perdidos e repletos de interrogações, continuamente envolvidos em lu- tas e ameaçando-se uns aosoutros em permanência; numa época em que as referências empalidecem perigosamente... os homens procuram, escutam, olham e revelam a sua necessidade de saber, de compreender e de setranquilizar. O século XXfoi terrivelmente fascinante, pe- las descobertas que se fizeram, pelos avanços tec- nológicos que se concretizaram e pela modernida- de galopante e a incessante aceleração que o caracterizaram. Mas foi também um século ter- rivelmente devastador para muitos povos e para muitos homens, que viu gerações inteiras serem sacrificadas em nome do poder ou do progresso.
  7. 7. 14 INTRODUÇÃO Sem esquecer o próprio planeta, pilhado, devasta- do, despojado das suas florestas e poluído sem quaisquer escrúpulos. A tal ponto que muitos indivíduos, sentindo- -se confusos por terem deixado de perceber que lugar deviam ocupar neste mundo, decidiram, de uma forma progressiva ou repentina, alterar por completo as suas vidas. Em muitos casos, tais in- divíduos tornaram-se presas fáceis para as ideo- logias na moda - religiosas ou produtivistas -, as quais, em definitivo, pouco ou nada se preocupa- vam com o devir do homem. A queda acelerava-se e a perda de sentido am- plificava-se cada vez mais. A sociedade moderna, dita «avançada», desenvolvia uma economia agres- sivamente capitalista, mas ao mesmo tempo per- mitia que fossem massacradas ou que morressem de fome populações inteiras vivendo em locais que um avião pode atingir em algumas horas. As pes- soas gabavam-se da sua situação brilhante e do seu salário confortável, mas desviavam o olhar quan- do se cruzavam com o vizinho desempregado. Algumas dessas pessoas adaptaram-se per- feitamente a esta mutação dos valores humanos e sociais. Outras, porém, recusando passar sim- plesmente um traço sobre os valores éticos e mo- INTRODUÇÃO 15 rais dos seus antepassados, não quiseram seguir o mesmo caminho. Foi neste contexto que alguns indivíduos, de- sorientados por uma sociedade desumanizada e por instâncias religiosas incapazes de pôr em práti- ca as suas concepções dogmáticas, encontraram o Budismo - através de leituras, por ocasião de uma conferência ou durante uma viagem. Muito rapidamente, passados osprimeiros contactos, um mestre impôs-se: o Dalai Lama. Tudo pareceu diferente, então. Estava ali um homem que, a despeito de ser detentor do Prémio Nobel da Paz e um líder religioso merecedor da veneração de que era objecto no mundo inteiro, falava uma linguagem acessível a todos. Um ho- mem que não procurava aumentar o número dos seus adeptos, mas simplesmente convencer, em termos concretos, por intermédio da sua própria paz interior e graças à sua realidade pessoal. E foi assim que inúmeros homens e mulheres reencontraram uma fé, um «sentido» e uma força que deu origem a um novo sentimento de con- fiança, a uma renovada vontade de viver e a uma tranquila aceitação da morte, reflectindo um re- nascimento espiritual que era da sua exclusiva responsabilidade.
  8. 8. 16 INTRODUÇÃO Sua Santidade o Dalai Lama não fala, narra. Sua Santidade o Dalai Lama não ensina, mostra. Mas, acima de tudo, Sua Santidade o Dalai Lama não se encontra noutro lugar qualquer, numa qualquer esfera ou bola etérea: ele está pre- sente, surpreendentemente presente dia após dia no quotidiano maisimediato. Ele sabe sersimulta- neamente o Dalai Lama e dar uma conferência ou aparecer na televisão. O seuolhar cruza o nos- so e, muitas vezes, mostra-nos o caminho. É esta presença constante, nos livros e nos media, mas também no terreno, a fim de dar a conhecer o Budismo ou com o objectivo de de- fender o seu povo oprimido, que torna o Dalai Lama uma personagem de excepção. Uma excep- ção espirituale humanista de uma rara intensida- de, cuja força se origina no facto de não se impor a ninguém, de dar sem esperar receber seja o que for, desejando apenas que as sementes plantadas aqui e ali consigam germinar um dia, ou que pelo menos elas permitam que aqueles que as recebem encontrem a paz interior e a harmonia, apoian- do-se na sua própria identidade, em suma,encon- trando um estado de vida maissatisfatório. Os preceitos de sabedoria do Dalai Lama in- terpelam cada um de nós, porque balizam o nosso INTRODUÇÃO 17 percurso com verdades que, embora simples, têm o poder de questionar as nossas escolhas e os nos- sos actos, as nossas certezas e as nossas interroga- ções, já que nos reenviam incessantemente para a sua real autenticidade. O Dalai Lama oferece- -nos assim o mais belo dos presentes: a liberdade de conhecer e de escolher.
  9. 9. OSER ACTOS OS DEZACTOS POSITIVOS SÃO OS SEGUINTES: PROTEGER a vida, partilhar os seus bens, observar uma ética sexual, dizer a verdade, falar com benevolência, proferir palavras apaziguadoras, dispensar conse- lhos úteis, cultivar o contentamento, ter uma
  10. 10. 20 O SER atitude benevolente e adoptarpontos de vista jus- tos. E os dez actos negativos são: matar,roubar, praticar a incontinência sexual, mentir, semear a discórdia, falar com rudeza, maldizer, invejar, ter uma atitude maldosa e adoptar pontos de vista falsos. AUTORIDADE A AUTORIDADE ÚLTIMA DEVE REPOUSAR SEMPRE NA razão individual e na análise crítica. BEM-ESTAR DADO QUE o NOSSOBEM-ESTAR FUNDAMENTALDEPENDE dos outros, mais vale preocuparmo-nos com eles, ainda que muitas vezes tenhamos tendência para acreditar que fizemos tudo sozinhos. CORPO DlA APÓS DIA, ATÉ CHEGAR A HORA DA NOSSA MOR- TE, comemos e bebemos a fim de alimentar o nos- so corpo. Alguém como eu, com mais de sessenta O SER • anos, que peso de comida terei ingurgitado e que quantidade de carne terei consumido durante es- ses seis decénios? Teria porventura sido preferí- vel ter nascido animal, insecto por exemplo, pois dessa forma teria feito menos mal a outros seres vivos. EXISTÊNCIA «O GERME DA EXISTÊNCIA CÍCLICA É A CONSCIÊNCIA, E os objectos representam o seu domínio de activi- dade; assimsendo, quando nos apercebemos de que os objectos não possuem existência em simesmos, o germe da existência cíclica morre.» Aryaveda. HARMONIA QUANDO OLHO SIMPLESMENTE os INSECTOS, AS FOR- migas, as abelhas e todos esses animais inocentes, sinto muitas vezes uma certa forma de respeito por eles. Porquê? Porque apesar de não terem ne- nhuma religião, nenhuma constituição, nenhu- ma polícia, absolutamente nada, eles vivem em harmonia na lei da existência, a lei da Natureza. 21
  11. 11. 22 O SER UMA VEZ QUE PARTILHAMOS TODOS ESTE PEQUENO planeta chamado Terra, temos de aprender a vi- ver em harmonia, em paz uns com os outros e com a Natureza. Não se trata simplesmente de um sonho, trata-se, isso sim,de uma necessidade. Nós dependemos uns dos outros em tantos domí- nios que não podemos continuar a viver em comunidades isoladas e a ignorar o que se passa no exterior. Nós precisamos de ajudar os outros e de ser ajudados quando nos deparamos com difi- culdades, e devemos fazer com que os outros be- neficiem da nossa boa sorte. HUMILDADE O DESEJO DE SERMOS SUPERIORES AOS OUTROS OU DE conhecer a glória só pode ter um resultado: um renascimento inferior, na forma de um ser idiota, miserável e feio. Pelo contrário, se nos mostrar- mos humildes e considerarmos os outros mais importantes do que nós mesmos,seremosconduzi- dos a um renascimento nos reinos mais elevados. Da mesma forma, se forçarmos os outros a traba- lhar para nós e a servir-nos, renasceremos mais O SER tarde como seus criados ou criados dos seus criados. Em contrapartida, se consagrarmos a nossa vida a servir os outros, renasceremos como reis e líderes. CONSIDERARMO-NOS SUPERIORES AOS OUTROS EQUIVALE a sermos nós mesmos o nosso pior inimigo, e tal não pode senão conduzir à ruína. O mal,o medo e o sofrimento que reinam neste mundo têm uma única e mesma origem: o apego ao «Eu». ASSIM COMO FIZEMOS O VOTO DE NOS CONSAGRAR unicamente a ajudar os outros, deveríamos consi- derar que,doravante, o nosso corpo lhes perten- ce. Por conseguinte, não devemos nunca utilizar uma parte do nosso corpo para algo que não seja útil aos outros. Seja o que for que possamos ver de bom em nós, temos de o arrancar e de o colo- car ao serviço dos outros. AQUELE QUE ADOPTA UMA ATITUDE HUMILDE VÊ AS suas qualidades reforçarem-se,e aquele que é or- gulhoso torna-se ciumento em relação aos outros e zanga-se com eles, donde resulta a tristeza que assola a nossa sociedade. 23
  12. 12. 24 • O SER HOJE EM DIA PENSO QUE CERTOS MESTRES ORIENTAIS, permanentemente rodeados por ferventes adep- tos ocidentais, se tornam muito cheios de si mes- mos. E igualmente o caso dos homens de negó- cios e dos comerciantes que, quando os seus em- preendimentos correm bem, o fazem saber atra- vés dos anéis e dos luxuosos relógios que usam. No Tibete, colocariam nas orelhas brincos extre- mamente caros. Claro que, a longo termo, osbrin- cos nada mais fazem do que alongar as orelhas. O SER 25 MÉRITO GRAÇAS A UMA PEQUENA ACUMULAÇÃO DEMÉRITO, OB- tivemos já uma preciosa vida humana; e todo o mérito restante irá traduzir-se, nesta vida, por um certo graude prosperidade. Porconseguinte, e dado que o pequeno capital de que dispomos seesgotará fatalmente, devemos desde já começar a economi- zar, evitando cair no erro de gastar as nossas eco- nomias sem acumular outras que as possam subs- tituir. Não podemos permitir que o nosso capital de mérito seesgote, porque issosignificaria que mais cedo ou mais tarde seríamos arrastados para uma vida feita de sofrimento e de infelicidade. TEMER o SOFRIMENTO ÉA MELHOR MANEIRA DEPREVE- nir as causas da nossa própria queda, porque dessa forma podemos purificar as negatividades e cons- tituir grandes reservas de mérito. Ao aumentar o mérito que já possuímos, tornamo-nos capazes de manter a cólera à distância. E, graças a uma prá- tica adaptada, conseguiremos, dia após dia, confe- rir um sentido pleno à nossa condição humana. ESTA VIDA HUMANA, TÃO DIFÍCIL DE OBTER E TÃO FÁCIL de perder,é condicionada por certos factores, alguns dos quais provêm de acções virtuosas realizadas numa vida anterior - acções frequenteserepetidas, porém, não actos bondosos isolados e superficiais. Nós devemos começar desde já- e desde já nãosig- nifica amanhã, masagora - a desenvolver o nosso mérito. A mais ínfima manifestação de orgulho, de animosidade ou de egoísmo - sensações que todos nós conhecemos e que podem invadir-nos a qual- quer momento - destróiomérito acumulado. É pois muito pouco provável que o mérito do passado,gra- ças ao qual conseguimos aceder a esta vida, perma- neça intacto, o que significa que temos de o renovar e de odesenvolver sempensar no «capital» que pen- samos já ter adquirido.
  13. 13. 26 O SER O SER 27 MORALIDADE GRAÇAS À PRÁTICA DA MORALIDADE, QUE SIGNIFICA não permitir que as três portas do nosso corpo, da nossa palavra e do nosso espírito se envolvam em actividades malsãs, adquirimos a capacidade de estar atentos e de ser conscientes. O funda- mento da trajectória budista é, pois, a moralidade. POSITIVO QUANTO MAIS CULTIVARMOS UM ESPÍRITO DESEJOSO DE ser benéfico para os outros, maiores serão a nossa paz eanossa felicidade. O facto de estarmosinterior- mente em paz permite-nos contribuir com maior eficácia para a felicidade e para a paz dos outros. A transformação do espírito e o desenvolvimento de uma atitude positiva constituem a principalfon- te de felicidade para numerosas vidas futuras. REALIDADE PORQUE ÉQUE, MAUGRADO o NOSSO PROFUNDO DESEJO de ser felizes, estamos sempre a ser confrontados _ com o sofrimento e com a dor? Do ponto de vista budista, isso acontece em consequência de certas concepções «defeituosas» que temos quanto ao modo de apreender o mundo e de nos relacionar- mos com ele. Na raiz desta mentira, o Budismo identifica quatro pontos de vista erróneos. O pri- meiro consiste em considerar as coisas e os acontecimentos — que sãoimpermanentes e tran- sitórios — como eternos, permanentes e invariá- veis. O segundo, em se sentirem como agradáveis coisas e acontecimentos que são fonte de insatis- fação e de sofrimento. O terceiro ponto de vista errado é que nós temos frequentemente tendên- cia para considerar como puras e desejáveis coi- sas que de facto são impuras. E o quarto reside na nossa tendência para projectar uma noção de existência concreta sobre acontecimentos e coisas que, na realidade,não possuemuma tal autonomia. !~'--'-, '*-'*'•">.','-•:"' RESPONSABILIDADE A GERAÇÃO MAIS VELHA DOS 5,7 MILMILHÕES DE SERES humanos que povoam actualmente o nosso plane- ta, a geração à qual pertenço, prepara-se para di- zer adeus a este mundo, e é pois à juventude que compete carregar a responsabilidade do futuro.
  14. 14. 28 O SER O SER 29 Jovens, assumampois, por favor, a vossaresponsa- bilidade, tornando-vos conscientes das vossas po- tencialidades, adquirindo confiança em vós mes- mos e dando provas de abertura de espírito, de compaixão e de solidariedade. A frescura e afor- ça da juventude não deveriam diminuir, e é vossa obrigação cultivar esse entusiasmo. NÓS SABEMOS QUE INICIAR UMA GUERRA NUCLEAR actualmente, por exemplo, seria uma forma desui- cídio; ou que poluir o ar ou os oceanos a fim de obter vantagens imediatas conduziria à destrui- ção dos fundamentos da nossa sobrevivência. À medida que os indivíduos e as nações se tornam cada vez mais interdependentes, não temos outra alternativa senão a de desenvolver o que eu desig- no por um sentido de «responsabilidadeuniversal». A FIMDE ENFRENTARO DESAFIO DO NOVO SÉCULOQUE agora se inicia, todos os homens deverão desen- volver um sentido mais lato da responsabilidade universal. Cada um de nós terá de aprender a não trabalhar apenas para si próprio, para a sua família ou para a sua nação, mas também em proveito de toda a espécie humana. Raciocinar em termos de nação ou de país deixou de estar na moda, e a responsabilidade universal tornou-se a chave da sobrevivência humana. Ora, como os grandes movimentos humanos nascem graças a iniciativas individuais, o que realmente faza diferença é o tra- balho individual a pensar no bem-estar comum. SER COMPASSIVO NÃOÉSUFICIENTE, NÓSTEMOS o DEVER de agir. A acção comporta dois aspectos, um dos quais consiste em vencer as distorções e as an- gústias do nosso próprio espírito, o que tem como consequência inevitável o afastamento da cóle- ra. Esta acção nada tem a ver com a compaixão. Já o outro aspecto reveste um carácter mais so- cial, mais público, e consiste - seestivermos real- mente preocupados em serúteis para osoutros - em nos empenharmos, em nos implicarmos num combate contra osmales que assolam o mundo. MUITAS DASCOISAS QUENÓS DESEJAMOSNÃO PODERIAM existir sem a participação directa ou indirecta de muitas outras pessoas. Assim sendo, e uma vez que todos nós temos o mesmo direito de ser feli- zes e estamos todos interligados, o interesse dos biliões de seres humanos que povoam a Terra é
  15. 15. 30 O SER O SER 31 mais importante que o de uma pessoa isolada, seja qual for a sua importância como indivíduo. E é reflectindo sobre este facto que podemos desen- volver um sentido da responsabilidade global. FUNDAMENTALMENTE, CADA INDIVÍDUO É RESPONSÁVEL pelo bem-estar da Humanidade e da Terra, já que esta é a nossa única morada e não temos qualquer outro refúgio. Assim sendo, todos nós nos devemos preocupar não apenas com osnossos companheiros humanos, mas também com os insectos, as plantas e osanimais, assimcomo com o planeta no seu todo. De qualquer modo, a iniciativa tem de partir dos indivíduos. Emcontrapartida, sómobilizando o con- junto das forças individuais à escala do mundo se conseguirá obter um impacte efectivo. AGORA QUEo MUNDO SETORNOU UMLUGARBEMMAIS pequeno do que antigamente, muitas coisas de- pendem de cada um de nós. Para se conseguir avançar de uma forma positiva, o factor principal é o espírito humano, a consciência humana, já que apenas ela fornece o sentido de empenhamen- to indispensável para se construir um mundo melhor. NÓS NÃO PRECISAMOS NEM DE NOS TORNAR RELIGIOSOS, nem de aderir a uma ideologia. O essencial é culti- varmos boas qualidades humanas, pois dessa for- ma seremos capazes de desenvolver o nosso sentido da responsabilidade universal, o qual se relacio- na com todos os aspectos da vida moderna. CRENTES ou NÃO, NÓSSOMOS ANTES DE TUDO o MAIS seres humanos. E, na nossa condição de seres humanos, temos a sorte de poder observar as con- sequências positivas ou negativas dos nossos ac- tos, a curto e a longo prazo.De um ponto de vista moral, nós temos a grande responsabilidade de nos ocuparmos não apenas dos nossos semelhantes, mas também das outras espécies animais e dos outros seres sensíveis, bem como do nosso meio ambiente. Devemos, pois, esforçarmo-nos por ter uma vida digna e por sermos pessoas afectuosas, o que beneficiará não só a nossa vida individual, mas igualmentea nossafamília e toda a comunidade. s E INDISPENSÁVELDESENVOLVERUM SENTIDO DE COM- paixão, de interesse comum e de pertença à comu-
  16. 16. 32 • OSER nidade. Temos de tomar consciência de que se o nosso vizinho, alguém que nos é próximo ou olugar onde vivemosforem ameaçados, quem é ameaçado somos nós e, portanto, devemos imperativamente adoptar uma visão mais global e considerar a Hu- s manidade como uma família. E certo que existem raças diferentes, costumes diferentes,religiões dife- rentes - e sequisermos encontrar diferençaspode- remos sempreencontrá-las, defacto -, mastambém não deixa de ser verdade que partilhamos todos o mesmo planeta, o que significa que, se os outros so- frem, nós também sofremos e que, se eles forem feli- s zes, nós também o seremos. E neste espírito que necessitamos de um sentido de responsabilidade glo- bal, de uma responsabilidade universal. SIMPLICIDADE TER UMA VIDA SIMPLESÉ A MELHOR FORMA DE NOS SEN- tirmos felizes. A simplicidadeé extremamenteimpor- tante para a felicidade e, nesse sentido, reduzir ao máximo os nossos desejos e satisfazermo-nos com aquilo que temos (roupas, comida, abrigo) é vital. Da mesma forma, sentimos uma alegria intensa quando abandonamos os estados de espírito negati- vos e quando ajudamos os outros na meditação. O SER 33 TOLERÂNCIA A VERDADEIRATOLERÂNCIA É A POSIÇÃO ABERTAQUE um indivíduo adopta perante um incidente parti- cular ou uma outra pessoa, quando de facto teria a possibilidade de agir de uma outra forma. To- mando em consideração certos factores, ele deci- de não reagir de uma forma negativa: eis averda- deira tolerância. O QUE É QUE A TOLERÂNCIA NOSENSINA? Os NOSSOS filhos podem ensinar-nos a sermos pacientes, mas apenas o nosso inimigo nos pode ensinar a tole- rância. Ou seja, o nosso inimigo é como que o nosso professor e, se sentirmos respeito por ele em vez de cólera, a nossa compaixão desenvolve- -se. Este tipo de compaixão é a verdadeira com- paixão, aquela que assenta sobre crenças sólidas. VONTADE SE DESEJARMOS ATINGIR O NIRVANA, TEMOS SEMDÚVI- da de aspirar a uma melhor existência futura.
  17. 17. 34 O SER Antes, porém, devemos tomar consciência da importância da vida presente, porque, senão com- preendermos a utilidade da nossa vida actual e se não procurarmos ter uma existência sensata, esfor' çando-nos por desenvolver a compaixão e a aten- ção aos outros, é absolutamente inútil pensar em melhores vidas futuras. Uma vez que a libertação do ciclo das existências é possível, temos impera- tivamente de treinar o espírito na procura do«es- tado de buda», uma motivação que podemos desenvolver pensando que todos os seres sensí- veis são iguais a nós no seu desejo de felicidade e de rejeição do sofrimento. Cada um de nós pode, pois, fazer o voto de conduzir um número infinito de seres sensíveis até ao «estado de buda», supre- mo e inultrapassável. Nesta óptica, temos de desenvolver duas qualidades indissociáveis: o mé- todo e a sabedoria. O AMOR E A FELICIDADE AMOR SE HOUVER AMOR, HÁ TAMBÉM A ESPERANÇA DE EXIS- tirem verdadeiras famílias, assim como uma fra- ternidade, uma serenidade e uma paz autênticas. Mas se o amor abandonar o nosso espírito e se continuarmos a ver os outros homens como inimi- gos, então, sejam quais forem os nossos conhe-
  18. 18. 36 O AMOR E A FELICIDADE cimentes, a nossa educação ou o nosso sucesso material, tudo o que conseguiremos obter será sofrimento e confusão, e os seres humanos con- tinuarão a enganar-se uns aos outros e a lutar en- tre si. Basicamente, todos os homens partilham o mesmo estado de sofrimento; procurar enganar o outro ou destruí-lo é, pois, algo de inútil e des- provido de qualquer sentido. O fundamento de toda a prática espiritual é o amor. O QUEEUENTENDO POR «AMOR» REVELA-SE NO RECO- nhecimento claro da existência da outra pessoa e graças a um autêntico respeito pelo bem-estar e pelos direitos dos outros. No entanto, o amor que se baseia num forte apego em relação àqueles de quem somos próximos, tal como ele aparece na prática religiosa, necessita ainda de ser purifica- do, sendo fundamentaldesenvolver um certo grau de indiferença. SERÁ QUE NÓS ACEITAMOS O FACTO DE QUE O AMOR desempenha um papel importante na vidahumana? Que ele tem o poder de nos consolar quando nos tornamos impotentes e cheios de preocupações, O AMOR E A FELICIDADE 37 velhos e solitários?Trata-se de uma força que de- veríamos desenvolver e utilizar, mas que muitas vezes temos tendência para negligenciar, nomea- damente quando somos muito novos e sentimos um falso sentimento de segurança. A forma mais razoável de amar os outros assenta no reconheci- mento do simples facto de que cada ser vivo tem o mesmo direito e o mesmo desejoque nós de ace- der à felicidade e de não sofrer. Cada indivíduo é uma unidade de vida comparável a todas as ou- tras na sua procura constante da felicidade. FELICIDADE A FELICIDADE É UM ESTADO DE ESPÍRITO. DlSPOR DE conforto físico, mas ter o espírito num estado de confusão e de agitação, não é a felicidade. Felici- dade significa tranquilidade de espírito. A FELICIDADEÉ ALGO QUE RELEVA DO MENTAL, E NEM as máquinas a podem oferecer nem a podemos comprar. O dinheiro e a riqueza são fontes parciais de felicidade, não são a felicidade em si mesma. A felicidade deve desenvolver-se em nós, e é algo que ninguém nos pode dar. Ela nasce da tranquili-
  19. 19. 38 O AMOR E A FELICIDADE dade e da pazde espírito, e não depende de facto- res exteriores tais como o conforto material, uma boa educação ou uma vida bem-sucedida. A fon- te principal da felicidade é a confiança interior. Estar atento aos outros e desenvolver a afeição em relação aos nossos irmãos humanos - eisos factores dos quais depende a nossa felicidade. O AMOR E A FELICIDADE • 39 SE QUISERMOS TER UMA VIDA FELIZ E REPLETA DE SENTI- do devemos utilizar de uma forma construtiva a nossa inteligência humana, bem como a nossa ca- pacidade de ser altruístas e de estar atentos aos outros. O amor, a compaixão e o perdão são ine- rentes à natureza humana. A fé vem mais tarde. Graças à fé, podemos ter uma vida feliz e próspe- ra, mas tal é impossível se não nos preocuparmos com os outros, se recusarmos comprometer-nos ou assumir as nossas responsabilidades. EMBORA A POSSAMOS ATINGIR, A FELICIDADENÃO É uma coisa simples. E para chegarmos a ela temos de passar por muitos patamares. O Budismo faz assim referência aos quatro factores de realização pessoal: a riqueza, a satisfação, a espiritualidade e a iluminação. Reunidos, estes factores incluem tudo aquilo que constitui a procura da felicidade por um indivíduo. O PRIMEIRO PASSO QUE TEMOS DE DAR NA PROCURA da felicidade é o estudo. Nós devemos antes de mais tomar consciência do quão nefastas são as emoções e os comportamentos negativos e do quão benéficas são as emoções positivas; e, de- pois, que tais emoções negativas não são apenas prejudiciais para nós, mas também o são para a sociedade no seuconjunto e para o futuro do nos- so planeta, o que reforça a nossa determinação de enfrentá-las e vencê-las. A partir do momento em que o aspecto salutar das emoções e dos comportamentos positivos se torna claro, nós de- cidimos firmemente cuidar dessas emoções posi- tivas, desenvolvendo-as e fazendo-as crescer, se- jam quais forem as dificuldades que tivermos de enfrentar. Existe assim uma espécie de boa vonta- de espontânea emanando do interior. Através deste processo de aprendizagem, deste processo de análise que visa identificar os pensamentos e as emoções salutares distinguindo-as das maléfi- cas, conseguimos desenvolver pouco a pouco uma firme vontade de mudar, compreendendo que a chave da nossa felicidade e do nosso desenvolvi-
  20. 20. 40 O AMOR E A FELICIDADE mento está nas nossas mãos, e que de modo al- gum podemos deixar fugir uma tal ocasião. ATINGIR A VERDADEIRA FELICIDADE PODE PROVOCAR uma transformação na nossa atitude e na nossa maneira de pensar, e esse facto nem sempre é evi- dente, pois nele estão implicados numerosos fac- tores, em diferentes domínios. Seria vão, por exemplo, pensar que existe apenas uma chave e que aquele que a possui nada mais tem a fazer do que deixar a vida correr. Para o nosso corpo funcionar bem, temos de lhe fornecer vários tipos de vitaminas e de ele- mentos nutritivos. Pois bem! O mesmo se passa no que se refere à luta contra um estado de espí- rito negativo a fim de se aceder à felicidade: ela exige a utilização de diferentes métodos. Adoptar um pensamento particular ou praticar uma qual- quer técnica uma ou duas vezes não é suficiente. A transformação exige tempo. O ESPÍRITO ATENÇÃO UMA CONDUTA CONFORME A UMA CERTA ÉTICA EXIGE que estejamos sempre atentos e conscientes daqui- lo que fazemos. Esta atenção e esta consciência, que uma prática baseada na ética permite desen- volver, facilitarão por outro lado a meditação.
  21. 21. 42 O ESPIRITO ATITUDE MENTAL O NOSSO ESTADO DEESPÍRITO DEVERIA SERPACÍFICO E calmo, mesmo perante as situações inquietantes que tão frequentemente ocorrem na vida. À ima- gem de uma onda, que nasce no mar edesaparece no mar, essas inquietações desaparecem pouco depois desurgirem- e portanto nãodeveriamter um efeito negativo na nossa atitude mental. E verdade que não podemos eliminar todas as emoções negativas. Não obstante, se a nossa atitu- de mental inicial for saudável e calma, elas serão incapazes de a afectar. Além disso, se permanecer- mos calmos, a nossa tensão arterial não se altera, o que só pode ser benéfico para a nossa saúde. E EVIDENTE QUE A TRANQUILIDADE MENTAL É UM FAC- tor determinante para se ter uma boa saúde. E se quiser permanecer saudável,em vez de consultar um médico olhe para o que está dentro de si e tente utilizar o seu próprio potencial. Além de todas as outras vantagens, sair-lhe-á bastante mais barato!... O ESPÍRITO 43 A NOSSA ATITUDE MENTAL REVELA-SE ABSOLUTAMEN- te essencial nas relações que mantemos com os outros, dado que é nela que reside a verdadeira fonte da felicidade, até para um não-crente. E mesmo que estejamos de boa saúde, beneficiemos de algum conforto e tenhamos inúmeros amigos, a causa primeira de uma vida feliz encontra-se dentro de nós. NAS NOSSAS RELAÇÕES COM AS PESSOAS, QUANTO MAIS o nosso espírito estiver fechado, maiores serão as possibilidades de sentirmos medo e uma sensação de desconforto. Ao invés, se dermos provas de abertura de espírito, sentir-nos-emos completa- mente à vontade. Tal é a minha experiência. To- das aspessoas que encontro, seja um homem céle- bre, um mendigo ou uma pessoacomum, são iguais para mim, e a coisa mais importante é sorrir e ar- vorar um rosto humano autêntico. Já asdiferenças entre as religiões, as culturas e as línguas, assim como o facto de a pessoa ser instruída ou semedu- cação, rica ou pobre, são totalmente irrelevantes. O facto de abrir o meu coração e o meu espírito faz com que considere simplesmente as pessoas
  22. 22. 44 O ESPIRITO como amigos, o que se revela de grande utilidade. E se posteriormente a situação se alterar, tenho sempre a possibilidade de adaptar a minha atitu- de às circunstâncias. Penso, pois, que é essencial começar por criar um terreno propício para a tro- ca, já que isso gera normalmente uma resposta positiva ao nível humano. É por essa razão, aliás, que o medo é, quanto a mim, algo de que nos te- mos de livrar a todo o custo. SE, NA NOSSA VIDA QUOTIDIANA, DERMOS PROVAS DE que possuímos qualidades tais como a compaixão ou a capacidade de perdoar, então o nosso espíri- to permanecerá sempre em paz,imune àsinfluên- cias exteriores, por mais hostis que sejam as cir- cunstâncias. Isto significaque a compaixão é uma fonte de felicidade. Por outro lado, e dado que quando sentimos ressentimento ou ódio não con- seguimos ser felizes, temos de concluir que a ati- tude mental é o factor que determina afelicidade ou a tristeza. O ESPIRITO 45 UMA BOA SAÚDE E UM ESPÍRITO ESTÁVEL GARANTEM- -nos uma vida sã e um futuro feliz. Podemos até estar rodeados pelos melhores amigos e dispor das maiores vantagens materiais, mas a verdade é que sem estabilidade interior e uma atitude mental positiva nunca poderemos ser felizes. DESDE A CONCEPÇÃO ATÉ À MORTE, A NOSSA VIDA depende dos outros, e é importante compreender a que ponto os outros seres sensíveis nos são pre- ciosos e úteis. A partir do momento em que to- mamos consciência disso, a nossa atitude negati- va em relação a eles começa a modificar-se. A NOSSA ATITUDE EM RELAÇÃO ÀS OUTRAS PESSOAS deveria ser sempre positiva e nós deveríamos es- tar interessados nelas por uma questão de princí- pio, sem sequer ser necessário sentir por elas pie- dade ou condescendência. Deveríamos acima de tudo tratá-las com o máximo respeito, dado que elas são preciosas, e mesmo considerá-las como sagradas e superiores a nós. A HUMILDADE E A HONESTIDADE ATRAEM MUITAS VE- zes pessoas que gostam de se aproveitar dos ou- tros. Porém, mesmo quando somos confrontados com esse género de pessoa, devemos banir qual-
  23. 23. 46 O ESPÍRITO quer sentimento negativo. O melhor ainda é ten- tar analisar a situação, já que permitir que essa pessoa faça o que pretende révelar-se-á no fim de contas nefasto para ela. E é por isso que nós deve- mos adoptar «contra-medidas», não porque essa pessoa nos fez mal, mas porque queremos o seu bem a longo termo. O BUDISMO INSITENA FORMAÇÃO ENA TRANSFORMA- ção do espírito, porque todos os acontecimentos resultam das nossas acções. Nós designamos isto por karma, lei do karma ou lei da causalidade, segundo a qual o nosso futuro depende das ac- ções que praticamos hoje. De todas as acções ver- bais, mentais e físicas, a acção mental é a que se situa no nível mais elevado. A motivação mental é inquestionavelmente o factor-chave. As mesmas acções verbais ou físicas podem ser positivas em certos momentos e negativas nou- tros, dependendo das motivações mentais. A ac- ção mental é assim superior às outras, já que em definitivo todos os acontecimentos dependem do nosso próprio espírito. O objectivo último é a li- bertação ou «moksha», um estado mental do qual toda a emoção negativa foi expurgada. Moksha, ou nirvana, é uma qualidade mental. O ESPÍRITO 47 A MINHA EXPERIÊNCIA MOSTROU-ME QUEQUANTO MAIS calmos estamos, mais pensamos em boas acções (ser altruísta, por exemplo) e mais as colocamos em prática, e que, consequentemente, maiores são os benefícios. Esse estado mental, essas qualida- des são extremamente úteis para se ter uma vida feliz e próspera. Uma atitude compassiva e um sentido apurado do interesse de outrem não são benéficos apenas para a paz de espírito, são-no igualmente para a saúde. SE PROCURARMOS MANTER SEMPREVIVO UM SENTIMEN- to de compaixão, de afeição e de gentileza, abrir- -se-á automaticamente uma porta no nosso inte- rior através da qual podemos comunicar muito mais facilmente com as outras pessoas. Descobri- mos então que os outros seres humanos sãoiguais a nós e sentimo-nos mais capazes de estabelecer relações com eles, o que torna o nosso espírito amistoso. A partir desse momento, deixamos de nos sentir obrigados a dissimular e libertarão-nos das sensações de medo, de dúvida e de inseguran- ça. Em retorno, essa atitude cria nas outras pes- soas uma sensação de confiança em relação a nós.
  24. 24. 48 O ESPÍRITO O ESPIRITO 49 «Possa o meu sofrimento servir para aliviar os so- frimentos que os outros seres sentem.» CONSCIÊNCIA EXISTEM TRÊS NÍVEISDE CONSCIÊNCIA: A CONSCIÊNCIA do estado iluminado, ou nível grosseiro (bruto) de consciência; a consciência do estado de sonho, mais subtil do que a anterior; e a consciência du- rante o sono sem sonhos, a mais subtil de todas. Da mesma forma, ostrês estados - o nascimento, a morte e o estado intermédio - sãoigualmente definidos em função da subtileza do seu nível de consciência. O renascimento e a reencarnação fundamentam-se igualmente nesses diferentes estados de consciência. TANTO NOS BONS COMO NOS MAUS PERÍODOS, QUER sejamos pobres ou ricos e felizes ou infelizes, quer permaneçamos em casa ou viajemospara o estran- geiro a fim de conhecer uma aldeia, uma cidade, um mosteiro ou um qualquer lugar retirado, quer estejamos acompanhados ou sozinhos e sejam quais forem os sofrimentos que tivermos de su- portar, devemos sempre pensar que nesse mesmo momento inumeráveis seres sensíveis sentem os mesmos sofrimentos, e dizer para nós mesmos: O PRIMEIRO INSTANTE DECONSCIÊNCIA NESTA VIDA NÃO se produz sem causa e não provém de algo que se caracterize por ser permanente ou inanimado. Trata-se de um momento de discernimento e de iluminação, que não pode deixar de ser precedi- do por um outro momento de discernimento e de iluminação. E impossível que esse primeiro ins- tante de consciência possa provir de qualquer outra coisa que não de uma vida anterior. NA INTERPRETAÇÃO BUDISTA, CONSIDERA-SE QUE A consciência não pertence ao domínio físico, sen- do por isso incapaz de criar o menor obstáculo. E a partir das acções desta consciência que nascem todas as emoções, todas as ilusões e todos os erros humanos. Contudo, a natureza inerente a esta consciência permite também eliminar todos es- ses erros e instaurar uma paz duradoura e uma felicidade verdadeira. EXISTEM DIFERENTES NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA MENTAL, desde o mais grosseiro ao mais subtil. Neste mo-
  25. 25. 50 O ESPIRITO O ESPIRITO 51 mento, a nossa consciência está num certo nível de actividade. Durante o estado de sonho, ela atin- ge um outro nível, mais subtil; ela atingirá ainda um outro estádio por ocasião do declínio da nos- sa vida e passará por outras etapas antes de atin- gir a mais alta e a mais subtil de todas, no mo- mento da morte, quando atingimos um estado de consciência global. Nos nossos derradeiros ins- tantes, a consciência grosseira desaparece, en- quanto, exteriormente, deixamos de respirar. O fim da respiração parece anunciar a nossa morte, mas na realidade a vida continua no estado de consciência mais subtil. A verdadeira natureza do espírito corresponde a este nível de consciência subtil, livre de toda a ilusão (já que as ilusões são próprias das etapas intermédias da consciência). AS ESCOLAS BUDISTAS AFIRMAM GERALMENTE QUE NÃO é possível determinar um início para a consciên- cia, dado que nesse caso teríamos de aceitar a ideia de um primeiro instante de consciência sem cau- sa e proveniente de parte alguma, o que estaria em contradição com um dos princípiosfundamen- tais do Budismo,a leida causa e efeito. O Budismo aceita a natureza de dependência da realidade, segundo a qual tudo acontece em consequência Ha interacção de certas causas e condições. Os budistas consideram, por conseguinte, que a mais ínfima parte de consciência deve ser produzida por causas e condições, sejam elas quais forem. A principal e a mais substancial destas causas de- verá ser uma forma qualquer de experiência, já que a matéria é incapaz de produzir consciência sozinha. A consciência deve, pois,forçosamente, provir de um exemplo anterior de consciência. QUANDO FALAMOS DA CONTINUIDADE DA CONSCIÊN- cia, que não tem início, não deveríamos limitar a nossa compreensão dela apenas ao nível mais grosseiro da existência. Os budistas referem-sea um nível mais subtil de consciência, nomeada- mente «anaturezaluminosa do espírito»,que eles consideram como contínua e sem fim, e é basea- dos nisto que os budistas afirmam que o eu não tem qualquer início nem qualquer fim. O POTENCIAL PARA SEATINGIR A PERFEIÇÃO, O POTEN- cial para se aceder à plena iluminação, existe em cada um de nós. Na realidade, este potencial não é nada mais do que a natureza essencial do espíri- to, que é considerada como sendo a verdadeira
  26. 26. 52 O ESPÍRITO O ESPÍRITO 53 natureza da luze do conhecimento. Graças a uma prática espiritual progressiva, nós temos a possibi- lidade de eliminar os obstáculos que nos impe- dem de desenvolver até à perfeição essa semente dedicada à iluminação. E, à medida que ultra- passamos os obstáculos, a qualidade inerente à nossa consciência manifesta-se cada vezmais, até atingir o mais alto nível de perfeição, que é muito simplesmente o espírito iluminado de Buda. NÓS PODEMOS TRANSFORMAR EM PROFUNDIDADE O nosso espírito, uma vez que está na sua natureza adaptar-se àquilo que lhe é familiar. Dado que não tem consistência física e material, a consciência não resiste àquilo que selhe opõe, antes segue aqui- lo que lhe é habitual. As dores emocionais, por seu lado, também não se materializam, mas revelam- -se extremamente poderosas porque nos habi- tuámos a elas há muito tempo. E se continuamos a suportá-las, apesar desta familiaridade, é simples- mente por uma questão de hábito. Se nos familia- rizarmos constantemente com a prática, é inegável que podemos conseguir modificar o nosso espírito. A NATUREZA DO NÍVEL DE CONSCIÊNCIA MAIS SUBTIL, que é pura e imaculada, é algo que todos os seres ensíveis partilham. Em relação a ela, não só todos Os seres vivos são iguais, como se encontram todos na mesma situação: quando as condições ade- quadas estiverem reunidas, a nossa natureza de Bu- da evoluirá para o «estado de buda» omnisciente. ,-/> í., ESPERANÇA A NOSSA VIDA QUOTIDIANA, SOBRETUDO NO FUTURO, A longo prazo, depende em grande parte da espe- rança. Não há qualquer garantia em relação ao futuro, salvo aquela que repousa na esperança. Esperar significa qualquer coisa de bom, uma vez que ninguém espera algo de mau. O verdadeiro objectivo da nossa vida é, pois, a felicidade: nós queremos viver dias, semanas e anos mais felizes, ter uma família mais feliz, viver no seio de uma comunidade humana mais feliz. E na medida em que a atitude mental é um factor da maior impor- tância, penso que deveríamos manifestar mais inte- resse em relação ao nosso desenvolvimento interior. ESTAMOS NUMA ÉPOCA EM QUE, DE UMA MANEIRA geral, os seres humanos possuem uma natureza muito inteligente, viva, maligna e criativa quan-
  27. 27. 54 O ESPIRITO O ESPIRITO 55 do o seu objectivo é cometer acções não virtuo- sas, mas que deixa de ter a mesma força e a mes- ma qualidade quando têm de se concentrar no dharma. Seja qual for o grau de consciência da nossa sociedade, não há dúvida de que, de um ponto de vista individual, cada um de nós pode avaliar a sua própria capacidade para ultrapassar os sofrimentos,considerando a pobre natureza que y é a sua. E pois importante ter esperança e, por outro lado, recorrer a um método novo, com o qual nunca nos familiarizámos nas nossas vidas passadas, capaz de nos fornecer meios para nos libertarmos, a nós e aos outros seres sensíveis, do ciclo das existências. ESPIRITO OS DIFERENTES ESTADOS DE ESPÍRITO «SUJOS», TAIS como as ilusões e os estados emotivos e cogniti- vos, não só são acidentais e ocasionais como não perduram, uma vez que surgem num dado mo- mento e desaparecem logo a seguir. TREINAR o NOSSO ESPÍRITO É UMAARTE. A PRÓPRIA vida é uma arte. O aspecto físico desta arte não me interessa, todavia. Medito, simplesmente, e treino o meu espírito. E, do ponto de vista da apa- rência exterior, a natureza na sua forma primitiva é igualmente uma arte. SERÁ QUEO ESPÍRITO PODE PERCEPCIONAR O ESPÍRITO? É impossível responder, posto que o espírito não pode ser sujeito e objecto ao mesmo tempo. O es- pírito perturba,quer o queira quer não, tudo aqui- lo que observa e, afortiori, se o objecto da observa- ção for ele mesmo. O espírito é incapaz de se ver completamente a simesmo. E, no entanto, o prin- cipal instrumento de purificação do espírito é o próprio espírito. O espírito é o seu próprio cria- dor a cada instante que passa. Donde a sua res- ponsabilidade essencial. O ESPÍRITO É CAPAZ DE SE DESEMBARAÇAR DAS IMPU- rezas que o sujam e de se elevar até ao mais alto nível e, portanto, pode e deve transformar- se a si mesmo. Nós, seres humanos, começamos todos com as mesmas capacidades, mas depois apenas alguns procuram desenvolvê-las. Por outro lado, abandonarão-nos à preguiçado espírito com gran- de facilidade, tanto mais facilmente quanto essa
  28. 28. 56 O ESPIRITO preguiça se esconde sob a aparência de activida- de, que nos faz andar de um lado para o outro, embrenhados em cálculos de todo o tipo e emmil telefonemas. Trata-se, contudo, de actividades que apenas mobilizamosníveis mais elementares egros- seiros do espírito e que nos escondem o essencial. O BUDISMO É ATEU NO SENTIDO EM QUE NÃO RECO- nhece um deus criador. O Budismo fundamenta- -se na autocriação, já que considera que as nos- sas acções modelam cada acção da nossa vida. Deste ponto de vista, o Budismo não é uma reli- gião, mas sim uma ciência do espírito. TODA A QUESTÃO ESTÁ EM SABER SE NÓS TEMOS VERDA- deiramente a capacidade demodificar onossoespírito, ou se podemos desenvolver um espírito positivo, ate- nuando o nosso espírito negativo. A resposta é sem qualquer dúvida afirmativa, e tal deve-se a uma ra- zão simples:o espíritonão possuinenhuma forma, ne- nhum estado. Deste ponto devista,oespíritoécomo o corpo físico, muito difícil de controlar, demasiado fle- xível... Não obstante, quando persistimos num esforço continuado, depois de algumtempo podemos consta- tar a mudança. O ESPÍRITO 57 A PAZ MENTAL DEVE PROVIR DO ESPÍRITO. NÃO HÁ ninguém que não deseje sentir felicidade eprazer. Islo entanto, basta comparar o prazer físico e a dor física com o prazermental e a dor mental para compreender que o espírito domina, que ele é su- perior, mais eficaz. Por conseguinte, se o nosso objectivo for o de atingir a paz mental, révela-se de grande utilidade recorrer a certos métodos es- pecíficos, graças aos quais poderemos aprofundar s o nosso conhecimento sobre o espírito. E nisto que, quanto a mim, reside o essencial. O OBJECTIVO DETODAS AS RELIGIÕESÉ AJUDAROS SERES humanos a tornarem-se melhores, mais sensíveis e mais criativos. Mas enquanto que, para algumas, tal objectivo passa pela oração ou pela penitência, o Budismo visa acima de tudo a transformaçãoe o aperfeiçoamento do espírito. Comparando-a às actividades físicas e verbais, a actividade mental é mais subtil e mais difícil de controlar. As activida- des do corpo e da palavra são mais evidentes, mais fáceis de aprender e de praticar, e é por isso que as investigações relativas ao espírito são mais delica- das e difíceis de concretizar.
  29. 29. 58 O ESPIRITO A PARTIR DO MOMENTOEMQUENOS EMPENHAMOS NO despertar e na iluminação do espírito, e mesmo que estejamos implicados no sofrimento do ciclo da existência, tornamo-nos dignos de respeito para osbudas, que também são iluminados. O me- nor fragmento de diamante é uma jóia notável que ultrapassatodos os outros ornamentos. O es- pírito iluminado, que se assemelha ao diamante mesmo quando é ínfimo, eclipsa todas as quali- dades daqueles que procuram a libertação pessoal. O ESPÍRITOQUE SE ILUMINA É UMA SEMENTE CAPAZ DE nos conduzir ao «estado de buda»; é um campo no qual se podem cultivar todas as qualidades positivas e o solo sobre o qual tudo se apoia; é o deus da riquezaque elimina a pobreza,um pai que protege todos os bodhisattvas e uma jóia que res- ponde a todos os desejos; é um vaso miraculoso que satisfaz todos os nossos desejos, uma arma- dura que nos protege dosmaus pensamentos, uma espada que decapita as emoções impuras e um escudo que detém todos os ataques; é um gancho que nos retira das águas do ciclo das existências e um turbilhão que dispersa todos os obstáculos O ESPÍRITO 59 entais; é a aprendizagemconcentrada engloban- do todas as orações e todas as actividades dos bodhisattvas; é um lugar sagrado diante do qual cada um de nós pode fazer oferendas. A PRIMEIRA ETAPANO DESENVOLVIMENTO DO DESPER- tar e da iluminação do espírito, que tem a ver com o interesse que manifestamos pelos outros, con- siste em tomarmos consciência dos graves erros relacionados com o egoísmo assim como das vantagens do altruísmo. Uma prática essencial para desenvolver essa iluminação consiste em tro- car o nosso lugar com os outros. E indispensável, desde o início, considerar os seres sensíveis com afeição. Deveríamos pensar neles como se fossem agradáveis e atraentes e tentar sentir por eles um verdadeiro interesse, e isto é algo que exige uma serenidade constante. TODOS os NOSSOS PROBLEMAS PROVÊM DONOSSO ESPÍ- rito indisciplinado, e esta indisciplina nasce do egoísmo. Nós estamos divididos entre a esperan- ça e a inquietação, somos confrontados com o medo do insucesso e, de um modo geral, aponta- mos o dedo aos outros, acusando-os de todos os
  30. 30. 60 O ESPÍRITO males. Mas a verdadeira raiz do problema, a fonte de todos os problemas e a origem de todos os im- previstos, reside na atitude egocêntrica que per- siste no nosso coração. A NATUREZA DO ESPÍRITO É O SIMPLESDISCERNIMENTO e a consciência. A experiência passadanão émais do que um objecto da memória e os nossos pro- jectos futuros não passam de especulações. No fim de contas, os acontecimentos do passado e do fu- turo não são mais do que criações do espírito. Por conseguinte, todas as nossas experiências, sejam elas positivas ou negativas, agradáveis ou doloro- sas, são criações do espírito. O ESPÍRITO 61 As EXPERIÊNCIASMAIS DIVERSAS SÃO MANIFESTAÇÕES do espírito. As acções variam consoante o nosso espírito é ou não disciplinado, consoante ele é po- sitivo ou negativo. O meio ambiente interno - o corpo físico doindivíduo - e o externo - o lugar onde ele se exprime - condicionam a força da acção, e a qualidade desta acção depende do carácter do nosso espírito, que pode ser disciplina- do ou não. Assim sendo, os inumeráveis níveis de felicidade e de sofrimento, assim como a própria L trutura do meio ambiente, dependem da natu- íeza do nosso espírito, e é por isso que a reco- mendação para que o disciplinemos é de tal modo importante. MUITO EMBORA SEJA BENÉFICO MEDITAR SOBRE A PRÁ- tica do despertar e da iluminação do espírito, pro- vocando dessa forma uma transformação mental, nós não temos necessidade de nos comportar ou de falar de um modo inabitual para mostrar que passámos a ser uma outra pessoa. Todas as nossas práticas que visam o treino do espírito devem ser invisíveis do exterior e conduzir interiormente a grandes progressos. SE O NOSSO ESTADO DE ESPÍRITO É POBRE E A NOSSA capacidade limitada, como poderemos satisfazer as expectativas dos outros?Ter vontade de osaju- dar não é suficiente. Em primeiro lugar, temos de nos treinar a fim de perceber melhor as suas as- pirações, o que implica eliminar todos os defeitos que nos impedem de ver as coisas como elas real- mente são. Os obstáculos à omnisciência são as ilusões, tais como o desejo, a cólera, o orgulho e a ignorância, mas igualmente as marcas que elas
  31. 31. 62 OESPÍRITO deixam no espírito depois de terem sido elimina- das. Porém, e dado que a verdadeira natureza do espírito é o discernimento, a pureza e o conheci- mento, temos a possibilidade de o purificar em profundidade, atingido dessa forma essediscerni- mento de consciência que nós designamospor om- nisciência. O CORPO FÍSICO AGE COMO UMA CAUSA SECUNDÁRIA nas modificações subtis do espírito, não como uma causa fundamental. A matéria não pode nunca tornar-se espírito e reciprocamente, o que signi- fica que o espírito tem de ter a sua origem no es- pírito. O espírito desta vida vem do espírito da vida anterior e serve de causa ao espírito da próxi- ma vida. Quando reflectimos na morte e a man- temos permanentemente no nosso espírito, a nos- sa vida enche-se de sentido. O ESPÍRITO ÉMUITO MAIS IMPORTANTEQUE O CORPO. As- sim sendo, e na medida em que é o estado do nosso espírito que, desde o nível mais baixo ao mais alto, nos permite suportar,ou apenas sentir, o sofrimento, nós deveríamos conceder uma muito maior impor- tância à nossa forma de pensar.A preparaçãodonos- so espírito é, pois, extremamente importante. O ESPÍRITO 63 O NOSSO ESPÍRITO DEVE SER NOBRE, BENEVOLENTEE aberto, nem agitado nem combativo e capaz de nos fazer avançar mais rapidamente quando as circunstâncias exteriores são favoráveis. Comece a exercitá-lo já esta noite, não espere mais. As NOSSAS ACÇÕES FÍSICAS E A NOSSA PALAVRA DE- pendem do poder do espírito. E ele é capaz de transformar as más acções, mesmo no caso de al- guém com uma existência puramente mundana. Por mais que o espírito de uma dada pessoaesteja mergulhado na ignorância, basta um vestígio, ain- da que ínfimo, de vontade para transformar os actos negativos em boas acções. O KARMA DEPENDE DO CONTROLO, OU DA FALTA DE controlo, do nosso espírito. O controlo mental baseia-se na presença de ilusões, que resultam da ignorância. Assim sendo, o espírito entrega-se à ignorância. Todas as imperfeiçõesinteriores e ex- teriores derivam deste processo: um espírito in- disciplinado por causa das ilusões, a crença numa existência individual independente...
  32. 32. 64 O ESPÍRITO QUANDO UMINDIVÍDUO CONTROLA PERFEITAMENTE o seu espírito, todas as imperfeições interiores e exteriores, assimcomo as suasconsequências, são eliminadas. EM CONSEQUÊNCIA DA ILUSÃO, OS ERROS DO ESPÍRITO parecem numa primeira abordagem inultrapas- sáveis. Mas, dado que a sua origem é ilusória, eles são apenas temporários. As falsas concepções não suportam as qualidades positivas e virtuosas do espírito, o que faz com que nós tenhamos dois estados de espírito, cada um deles excluindo o outro, um com um fundamento sólido e o outro não. A consequência disto é que, quando desen- volvemos as qualidades positivas, as negativas desagregam-se pouco a pouco até desaparecerem completamente. Quando o calor e a luz aumen- tam, o frio e a obscuridade diminuem. EXISTEM NUMEROSAS ETAPAS NA TRANSFORMAÇÃO DO espírito e, a certos níveis, a análise racional não é necessária, já que a fé e a devoção se desenvol- vem através de uma prática centrada na con- O ESPIRITO 65 I gntração. Sozinha, porém, a concentração não Uesenvolve uma grande energia. E se o nosso ob- lectivo for o de acumular ao infinito as boas qua- lidades do espírito, não basta familiarizarmo-nos com o objecto da nossa meditação, é necessário apelar igualmente à reflexão e à razão, pois elas fornecem um fundamento sólido e coerência àex- periência meditativa do praticante. Para osreligio- sos que atingiram o nível mais elevado, o conheci- mento é indispensável. No entanto, setivéssemos de optar entre um espírito cheio de conhecimen- tos adquiridos e um espírito nobre, escolheríamos este último, sem dúvida o mais importante, dado que um espírito nobre é em si mesmo um verda- deiro benefício. O TREINO DO ESPÍRITO É IMPERATIVO E NÃO DEVERIA ser considerado como dependente da religião. A prática de uma determinada técnica ou de um determinado método de formaçãodo espírito de- veriam, isso sim, fazer parte da vida quotidiana de cada um de nós. Embora o espírito não tenha cor nem forma e seja difícil de identificar, o seu poder é imenso. E se por vezes ele parece difícil de apreender, de modificar e de controlar é por- que depende em grande parte do momento esco-
  33. 33. 66 O ESPÍRITO Ihido, da nossa vontade, da nossa determinação e da nossa sabedoria. Se dermos provas de determi- nação e de sabedoria - a sabedoria implicando o conhecimento -, treinar o espírito torna-se aqui- lo que de mais importante há a fazer. A CONSCIÊNCIA MAIS SUBTIL DO ESPÍRITO NÃO TEM NEM princípio nem fim,já que ela é a sua natureza últi- ma. Não me refiro à natureza absoluta. A natureza última é qualquer coisa de puro, e mesmo o espírito mais grosseiro tem a sua própria natureza última, podendo ser influenciado pelas emoções negativas, mas também pelos pensamentos positivos. Todasas emoções negativas assentam na ignorância, e aig- norância não possui qualquer base sólida. O ESPIRITO 67 A CONSCIÊNCIA, OU O ESPÍRITO, É UMA ENERGIASUBTIL na qual todas as coisas se reflectem e cuja nature- za profunda é luminosa. A palavra tibetana shepa quer dizer «estar consciente de qualquer coisa». Assim, exceptuando o cérebro humano, existem condições e causas mais profundas e mais subtis da consciência humana sem as quais o espírito humano não se pode desenvolver. Designa-se isto por «clara luz», o espírito subtil mais profundo. n HOSSO ESPÍRITO É UMAENTIDADE SÓLIDA, OU PELO hienos aparece como tal, mas na realidade exis- ftem diferentes géneros de espíritos. O espírito humano é particularmente sofisticado, e a técni- ca do budista para atingir a paz de espírito é elimi- nar a perturbação mental, o que automaticamente aumenta a felicidade e a paz. Existem muitos ca- minhos para se atingir a paz e combater a ansie- dade, e o conhecimento das Duas Verdades é um deles. Em geral, a prática espiritual actua como estabilizador. E o mesmo se pode dizer da paz. ASSIM COMO SE DIZ QUE O ESPÍRITO NÃO TEM UM INÍ- CIO, diz-se igualmente que não tem um fim, dado que nada existe que possa destruir a nossa apti- dão fundamental para o conhecimento e para a experiência. No entanto, certos estados de espí- rito, tais como as experiências sensoriais, as quais dependem do nosso corpo físico, podem cessar quando o seu suporte físico deixa de existir, ou seja, no momento da morte. O FACTO DE SERMOS FELIZES OU DE SOFRERMOS DE- pende da eficácia com que disciplinamos o nosso
  34. 34. O ESPÍRITO espírito. Um estado de espírito disciplinado, um estado de espírito espiritualmente transformado, conduz à felicidade, ao passo que um estado de espírito indisciplinado, subjugadopela dor e pela angústia, conduz ao sofrimento. A REFLEXÃO PESSOAL PERMITE-NOS COMPREENDER que o espírito de base, ou a natureza da cons- ciência, é neutro, que ele não é nem negativo nem positivo, e por outro lado permite-nos des- cobrir que muitos dos nossos pensamentos ne- gativos e das nossas emoções têm origem na nossa forma fundamentalmente imperfeita de com- preender a realidade do mundo e a nossa pró- pria realidade, uma falsa impressão que é ali- mentada pela percepção do vazio. Além disso, nós apercebemo-nos de que as emoções negati- vas, de um lado, e a perspicácia, do outro, se opõem directamente. Esta última, porém,baseia- -se na experiência e na reflexão, ao passo que aquelas não possuem qualquer fundamento real, quer na razão quer na experiência. Examinando todos estes pontos em conjunto e cultivando a nossa percepção do vazio, torna-se possível eli- minar todas as nossas angústias mentais. O ESPIRITO 69 QUANTO MAIS ELEVADO FORo NÍVEL DETRANQUILIDA- de do nosso espírito, maior será a nossa paz de espírito e a nossa capacidade de apreciar uma vida feliz e alegre. É no entanto importante não confun- dir esse estado de espírito calmo e tranquilo com um estado de espírito insensível ou mesmo apáti- co. Possuir um estado de espírito calmo e tranqui- lo não significa que se atingiu o desprendimento absoluto. Essa paz provém da afeição e da compai- xão, o que significa que tem origem num altíssimo nível de sensibilidade e de sentimento. O TREINO SISTEMÁTICO DO ESPÍRITO - QUETORNA A felicidade constante e provoca a verdadeira trans- formação interior, através da selecção e da con- centração nos estados mentais positivos e do com- bate aos estados mentais negativos - é possível graças à estrutura e ao funcionamento do cére- bro. Nós nascemos com um cérebro geneticamen- te ligado a comportamentos instintivos e estamos programados, mental, emocional e fisicamente, para responder ao nosso meio ambiente de uma rorma que nos permita sobreviver. Estes dados de base são codificados num número incalculável de
  35. 35. 70 O ESPÍRITO células nervosas que respondem a todos os aconteci- mentos, a todas as experiências e a todos os pensa- mentos. O nosso cérebro não é estático, no entanto, nem determinado de uma forma irrevogável, massim totalmente adaptável. E é este traçofisiológiconotá- vel que toma possívela transformaçãodo nosso espí- rito. Mobilizando os nossos pensamentos e pratican- do novos modos de reflexão, temos a possibilidadede reorganizar as nossas células nervosas e modificar a forma de trabalhardo nossocérebro.Assim,a transfor- mação interior começa pela aprendizageme implica uma disciplina que consiste em substituir o condicio- namento negativo por um condicionamento positi- vo. Treinar o espírito para se ser feliz é, pois, perfeita- mente possível. s E EXTREMAMENTEIMPORTANTE MANTER O ESPÍRITO AC- tivo e sempre desperto. Se a energia mental dimi- nuir, a elevação do espírito torna-se impossível. O ESPÍRITO ESTÁ EM PERPÉTUO DEVIR. ASSIM SENDO, na medida em que existe sempre um meio de mudar e que a transformação é sempre possível, pouco importa a intensidade da emoção perturba- dora. Fazer um esforço, eis o que vale realmente a pena. O ESPÍRITO • 71 PURIFICAR o ESPÍRITO SIGNIFICA CONTRARIAR EARRAN- car todas as raízes das perturbações emocionais e da ignorância - sejam elas inatas ou formadas conceptualmente -, assim como todas as tendên- cias kármicas que temos vindo a acumular desde sempre. O ESPÍRITO HUMANO É ÚNICO E PRECIOSO. DOTADO de uma maleabilidade e de uma capacidade de sa- bedoria inabituais, ele é capaz de evoluir a uma velocidade que não tem equivalente em nenhu- ma outra forma de vida. O homem tanto pode cair na mais profunda obscuridade espiritual, como atingir o estado supremo da perfeita ilumi- nação, e isso depende apenas dele. Se cultivar- mos o nosso espírito com métodos espirituais e fizermos escolhas de vida positivas e criativas, re- colheremos sem sombra de dúvida osbenefícios de uma tal atitude. Em contrapartida, se nos con- tentarmos em perseguir objectivos superficiais e não prestarmos atenção àsnecessidades mais pro- fundas do espírito, espera-nos inevitavelmente a frustração e a confusão.
  36. 36. 72 O ESPIRITO INTELIGÊNCIA OS INSECTOS PODEM SER IMPOTENTES E FRACOS, MAS eles não destroem o seu meio ambiente nem os seus semelhantes. Nós qualificamo-nos como se- res humanos e pensamos ser muito inteligentes, mas com que objectivo utilizamos a nossa inteli- gência? Para enganar os outros, para os prejudi- car e abusar da sua boa fé. Quando nos compara- mos aos outros seres sensíveis, devemos tentar apreciar as suas qualidades positivas. E quando nos observamos a nós próprios, devemos procu- rar reconhecer os nossos erros e corrigi-los. A HUMANIDADE É PRECISO FAZER DE MODO A QUE CADA DIA DA NOSSA vida tenha um sentido. É ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO DESENVOLVER A NOSSA vontade de darumsentido a cada diaquepassa - porque esta preciosa forma humana só tem senti- do relativamente ao potencial que contém. ABNEGAÇÃO SE OUTROS SERES SENSÍVEIS O CALUNIAREM OU DES- prezarem, troçarem de si ou o ignorarem, tenta- rem tirar-lhe a vida ou o brutalizarem, ofereça- -Ihes o seu corpo para eles fazerem com ele o que quiserem. Em seguida,reflicta: «Jáque eu dei este
  37. 37. 74 A HUMANIDADE corpo a todos os seres sensíveis num gesto vindo do fundo do coração, que eles o utilizem e sesir- vam dele como entenderem. Eu não sinto necessi- dade de o proteger, e eles que façam o que bem desejarem, desde que isso não prejudique nin- guém. Que nunca aconteça que quem quer que se volte para mim tenha de recuar sem ter atingin- do o seu objectivo. Se alguém sentir ódio ou aver- são em relação a mim, que isso seja a causa da realização do seu desígnio. E se alguém se mos- trar sarcástico comigo ou tentar prejudicar-me, que essa pessoa possa atingir o "estado de buda".» A HUMANIDADE 75 ALTRUÍSMO A ESTRUTURA DE BASE DA SOCIEDADE HUMANA EXIGE um sentido da responsabilidadebaseado no altruís- mo e na compaixão. A fonte última da felicidade é o altruísmo. O sucesso da vida depende da de- terminação, da vontade e da coragem. E a fonte desta coragem e desta determinação é o altruísmo. SE QUISERMOS ATINGIR O «ESTADO DE BL7DA», TEMOS de desenvolver um profundo altruísmo e realizar boas acções. Nós dependemos amplamente dos feres sensíveis que nos rodeiam, porque sem eles g0 teríamos a possibilidade de desenvolver o al- L-uísmo infinito a fimde atingir o «estadode buda». rNós devemos a nossa reputação, a nossa riqueza e os nossos amigos aos outros seres sensíveis. GERALMENTE, DESCREVO A ESSÊNCIA DO DHARMA EM duas frases: se puder, ajude os outros e sirva-os; e se não o puder fazer, evite ao menos prejudicá-los. O tema de base dos ensinamentos Theravada é a possibilidade de atingirmos a nossa própria libertação. Claro que a compaixão (karuna) de- sempenha um papel nesse processo, ainda que tal não seja obrigatório. O objectivo é atingir a nossa própria libertação, mas sem deixar de servir os outros. O princípio fundamental reside na injun- ção de que não devemos prejudicar os outros. No MAHAYANA, O ACENTO É COLOCADO NO ALTRUÍS- mo ou bodhicitta (que é o desejode realizaro«esta- do de buda» tendo em vista servir ou ajudar outros seres sensíveis). Este estado de espírito budista é simultaneamente amensagem fundamental eo trei- no mais importante, sendo pois obrigatória a mai- or compaixão (mahakaruna) possível. Com efeito,
  38. 38. 76 A HUMANIDADE é nela que o altruísmo encontra a sua origem. Pou- co importa o que nos acontece, uma vezque o nos- so objectivo é ajudar e servir os outros. DADO QUE TODAS AS COISAS SÃO INTERDEPENDENTES, a nossa própria satisfaçãoe a nossa felicidade de- pendem em grande parte dos outros. Se estes, ani- mais incluídos, estiverem satisfeitos e exterio- rizarem a sua felicidade ou derem qualquer outra resposta positiva, então nós poderemos estar satis- feitos. A HUMANIDADE 77 O ALTRUÍSMO TEMDOIS ASPECTOS. O PRIMEIRO REFE- re-se às condições que têm de existir para que ele se possa manifestar, e que são a existência de compaixão e a aspiraçãoque cada um de nós deve cultivarde de- sejar sempre o bem-estar de todos os seres sensíveis. Isto conduz ao segundo aspecto, que é o desejo de se atingir a iluminação. Eé com o objectivo debeneficiar todos ossereshumanos que estedesejodeveriadesper- tar pouco a pouco em nós. Treinar-se no altruísmo significa reagruparo es- sencial de todos os outros treinos espirituais. Assim lendo, ele pode substituir um grande número de [técnicas, já que, em definitivo, todos os outros mé- todos se resumem a uma mesma abordagem. QUANDO A INTENÇÃO ALTRUÍSTA REPOUSA NACOM- preensão do vazio, atingimos as duas dimensões da bodhicitta, a «bodhidtta convencional» e a «bodhi- citta última». Estes dois treinos, que conduzem à compaixão e à sabedoria, fornecem ao praticante um método completo, graças ao qual ele poderá atingir o mais elevado objectivo espiritual. A MAIS ELEVADA FORMA DE PRÁTICA ESPIRITUAL RESIDE no desenvolvimento da intenção altruísta a fim de se atingir a iluminação em benefício de todos os seres sensíveis. Trata-se do estado de espírito mais precioso de todos, da fonte suprema de bene- fícios e de bondade, que satisfaz simultaneamen- te a nossa expectativa imediata e a nossa expecta- tiva última e que está na base mesma de toda a actividade altruísta. O estado de bodhidttasó pode no entanto ser realizadose existir um esforçoregu- lar, se se cultivar a disciplina indispensável para o nosso espírito se formar e se transformar. l
  39. 39. 78 A HUMANIDADE «BEM-ESTAR», NA ACEPÇÃO BUDISTA, SIGNIFICAAju- dar os outros a líbertarem-se totalmente do so- frimento, e «seres sensíveis» faz referência ao número infinito de existências no Universo. Esta aspiração é fundada numa compaixão autêntica e equânime em relação a todos os seres sensí- veis. A compaixão traduz-se no desejo - que se encontra na raiz de toda a intenção altruísta - de ver todos os seres sensíveis libertos do sofri- mento. PARA SE SABERCOMO AMAR os OUTROS É NECESSÁ- rio em primeiro lugar compreender o que signi- fica amar-se a si mesmo. O altruísmo não significa simplesmente esquecermo-nos de nós próprios. Trata-se acima de tudo de refrear os sentimen- tos egoístas que nos conduzem à exploração dos outros, ou que fazem com que os tratemos mal. De um modo geral, o facto de não gostarmos de nós mesmos, de nos detestarmos, é absolutamen- te negativo. Uma tal disposição parece-me ex- tremamente lamentável e não pode conduzir a nada de bom. A HUMANIDADE 79 COMPAIXÃO L VERDADEIRA COMPAIXÃO NÃO É APENAS UMA RES- bosta emotiva, mas sim um empenho firme fun- dado na razão. Por conseguinte, uma atitude ver- dadeiramente compassiva em relação aos outros nunca se altera, mesmo quando eles se compor- tam de uma forma negativa. Graças a este altruís- mo universal, temos a possibilidade de desenvol- ver um sentimento de responsabilidade em relação aos outros, sentimento esse que se traduz no de- sejo de os ajudar concretamente a ultrapassar os seus problemas. O MAIS ELEVADO GRAU DE TRANQUILIDADE INTERIOR provém do desenvolvimento do amor e da compaixão. Quanto mais nos preocuparmos com a felicidade dos outros, mais o nosso pró- prio sentido de bem-estar crescerá e se afir- mará. Cultivar um sentimento caloroso em relação aos outros abre o espírito e faz cair as barreiras, e nisso reside a fonte última do su- cesso na vida.
  40. 40. A HUMANIDADE A HUMANIDADE • 81 A COMPAIXÃO PODE SERDEFINIDACOMO UM ESTADO DE espírito não-violento, que não agride nem magoa os outros. É por essa razão que não a podemos con- fundir nem com o apego nem com a intimidade. UM DOS PRINCIPAIS ASPECTOS DA COMPAIXÃO RESIDE no facto de que ela respeita os direitos e as opi- niões dos outros, o que fazcom que esteja na base da reconciliação. O espírito de reconciliação fun- dado na compaixão trabalha em profundidade, tenha a pessoa consciência disso ou não. A natu- reza humana é boa na sua essência, o que significa que, mesmo quando somos confrontados com a violência ou outras coisas negativas, a melhor solução'consiste em retornar à afeição, ou seja, ao sentimento humano autêntico. Assim sendo, a afeição ou a compaixão não se podem reduzira uma questão de religião e revelam-se indispensá- veis na nossa vida quotidiana. A PROFUNDA COMPAIXÃO EA SABEDORIA SÃO AS QUALI- dades principais de Buda. Mesmo nos termos mais quotidianos, quanto mais uma pessoa for inteli- nte e merecedora de ser conhecida, maior será respeito que inspira. Da mesma forma, quanto mais uma pessoa se mostra compassiva, doce e amável, mais deveria ser respeitada. Isto quer di- zer que, se formos capazes de desenvolver esta inteligência e este altruísmo ao mais alto nível, seremos realmente admiráveis e merecedores de respeito. SÓ UMA SENSAÇÃO ESPONTÂNEA DE COMPAIXÃO EM relação aos outros nos pode levar a agir em seu favor. A compaixão, no entanto, não surge«meca- nicamente,». Um tal sentimento, se for sincero, deve crescer pouco a pouco dentro de nós, desen- volver-se graças aos nossos cuidados e assentar na convicção do seu próprio valor. Adoptar uma atitude amável é pois uma questão de escolha pes- soal, O comportamento de cada um de nós na vida de todos os dias é, em definitivo, a verdadei- ra prova a que a nossa compaixão tem de se sujeitar. :-^''>_, A COMPAIXÃO ORDINÁRIA E O AMOR ENGENDRAM SEN- sações muito próximas, que, no essencial, se re- sumem a um apego ao seu objecto. Enquanto o outro nos parece belo ou bom, o nosso amor per-
  41. 41. 82 A HUMANIDADE siste; mas, a partir do momento em que ele ou ela nos parece menos belo ou menos bom, o nosso amor modifica'se por completo. Mesmo que o nosso maior amigo continue a ser a pessoa que sempre foi, temos a impressão de que se trata de um inimigo e, em vez de amor, passamos a sentir hostilidade por ele. Em contrapartida, se setratar de um amor e de uma compaixão autênticos, o comportamento e a aparência de uma outra pes- soa não têm qualquer efeito na nossa atitude. A verdadeira compaixão deriva da percepção que temos do sofrimento do outro, e é ela que nosfaz sentir responsáveis por ele e desejar fazer qual- quer coisa em seu benefício. OS BUDISTAS CONSIDERAM QUE O DESENVOLVIMENTO de uma autêntica compaixão exige, em primeiro lugar, que pratiquemos a «meditação de igua- lização e de serenidade», afastando-nos das pes- soas que nos são muito próximas, e em seguida que eliminemos os pensamentos negativos em relação aos nossos inimigos. O essencial é consi- derar todos os seres sensíveis como iguais;depois, nesta base, podemos desenvolverprogressivamen- te uma verdadeira compaixão em relação a todos eles. É claro que a compaixão autêntica não é nem A HUMANIDADE 83 iriedade nem uma espécie de sentimentalismo que, Um última análise, significa passar aos outros a mensagem de que eles são inferiores a nós. Pelo 'contrário, uma compaixão autêntica conduz-nos a considerar que os outros são mais importantes do que nós próprios. SE PENSARMOS APENAS EM NÓS MESMOS, SE NOS ESQUE- cermos dos direitos e do bem-estar dos outros ou, pior ainda, se os explorarmos, seremos forçosa- mente prejudicados porque ficaremos sem ami- gos e sem ninguém que se preocupe com o nosso bem-estar. Se por acaso um qualquer drama nos atingir, não haverá uma sópessoapara nos confor- tar - e, pelo contrário, haverá eventualmente al- guém que se alegrará com o acontecimento. Em contrapartida, se formos compassivos e altruís- tas, se nos preocuparmos com o interesse dos ou- tros, não só faremos amigos muito rapidamente, seja qual foro lugaronde estivermos, como encon- traremos apoio e reconforto nos momentos de infelicidade. A COMPAIXÃO HUMANA, QUE POR VEZES EU DESIGNO por «afeição humana», é o factor-chave em rela-
  42. 42. G-! A HUMANIDADE A HUMANIDADE 85 cão a tudo aquilo que diz respeito ao homem. Quando consideramos a palma da nossa mão, admitimos que os nossos cinco dedos são úteis; tal não aconteceria, porém, se os dedos não es- tivessem ligados a ela. Do mesmo modo, as ac- ções que não procedem de um sentimento são perigosas. Se forem determinadas pelo sentido do humano e por uma boa apreciação dos valo- res humanos, todas as actividades do homem se tornam construtivas. QUANTO MAIS FORTE FOR A NOSSA COMPAIXÃO, MAIOR será a nossa resistência para enfrentar as prova- ções e as fazer evoluir em direcção a condições mais positivas. A COMPAIXÃO É TAMBÉM UMA FORÇA INTERIOR. FA- zendo com que a nossa força interior aumente, nós podemos desenvolver uma determinação fir- me que nos será útil na nossa luta para sermos bem-sucedidos, sejam quais forem os obstáculos. CONSOANTE o NOSSO NÍVEL DE SABEDORIA, EXISTEM diferentes graus de compaixão, tais como a C0inpaixão motivada por uma perspicácia autên- tica em relação à natureza última da realidade, ou a compaixão que emana da apreciação da na- tureza impermanente da existência, ou ainda a compaixão resultante da tomada de consciência do sofrimento dos outros seres sensíveis. O nível da nossa sabedoria, da nossa percepção da natu- reza da realidade, determina assimo grau de com- paixão que seremos capazes de desenvolver. ,-'-••.">.., À MEDIDA QUE O INDIVÍDUO ACEDE A UMAVISÃO MAIS profunda da verdadeira natureza da realidade, o poder da sua compaixão e do seu altruísmo desen- volvem-se cada vez mais, porquanto ele com- preende que a evolução dos seres sensíveis no ci- clo das existências se deve de facto à ignorância da natureza da realidade. NÓS PODERÍAMOS ACREDITAR, PENSANDO NO SOFRI- mento dos outros e meditando sobre a compai- xão, que o único efeito desta última seria o de aumentar a dor intensa na qual já nos encontra- mos mergulhados. Isso deveria, no entanto, unicamente à estreiteza do nosso espírito. A ver- dade é que, se não quisermos ajudar esses seres, o
  43. 43. A HUMANIDADE seu sofrimento nunca terá fim, mas se mostrar- mos um pouco de compaixão e se fizermos um esforço nesse sentido, mais cedo ou mais tarde ele cessará. Isto significa que todas as dificuldades por que passamos valem a pena. NÃO PENSE NUNCA: «SE AJUDAR OS OUTROS, AÇU- mularei acções positivas e serei uma pessoa vir' tuosa, o que me permitirá ser feliz no futuro», pois esse não é o objectivo. Realize acções positivas com compaixão, do fundo do seu coração, sem se deixar conduzir pela mais ínfima noção de recorri' pensa pessoal. HABITUALMENTE, o CONCEITO DECOMPAIXÃOou DE amor evoca uma aproximação ou uma sensação que nos conduz emdirecção aosamigos - e tarri' bem, por vezes e erradamente, a um sentimento de piedade. Porém, a afeição por outrem que se tinge de condescendência não é a verdadeira com' paixão, já que esta se deve basear no respeito e na convicção de que osoutros têm, tal como nós mês' mós, o direito de ser felizes e de procurar atenuar os seus sofrimentos. Por conseguinte, e dado que o sofrimento permanece omnipresente, nós deve' A HUMANIDADE LOS sentir-nos sempre implicados nos problemas outros, dando provas de uma autêntica com- paixão por eles. FACE AO DESAFIO REPRESENTADO PELA NECESSIDADE de se estabelecer uma verdadeira paz mundial e de preservar a Terra, que podemos nós fazer? As belas frases já não chegam, e na realidade nós deveríamos procurar desenvolver o amor e a compaixão no nosso interior. A compaixão é por essência calma e doce, mas é igualmente muito poderosa. E embora haja quem considere que é difícil pô-la em prática e que ela é irrealista, a ver- dade é que a sua prática conduz ao sucesso, visto ela ser o sinal de uma verdadeira força interior. Acresce que não temos de nos tornar religiosos ou de aderir a uma ideologia para a desenvolver. Tudo o que temos a fazer é, muito simplesmente, concentrarmo-nos nas nossas qualidades huma- nas fundamentais. SE CONSIDERARMOS O MUNDO NO SEUCONJUNTO, PEN- SO que a compaixão é mais importante do que a «religião». 87
  44. 44. A HUMANIDADE A HUMANIDADE A VERDADEIRA COMPAIXÃO BASEIA-SE NO RECONHE- cimento do facto de que os outros têm, exacta- mente como nós, o direito de procurar diminuir os seus sofrimentos. E mesmo os nossos inimigos o têm! Depois de termos reconhecido esse facto, podemos interessar-nos pelos outros, desenvolver o nosso interesse por eles e permitir que a nossa inquietação se manifestenuma atitude que sedesi- gna por compaixão. A compaixão é imparcial, mesmo em relação aos nossos inimigos. A PRÁTICA DA COMPAIXÃO NADA TEM DE IDEALISTA. Trata-se, isso sim, do caminho que nos permite assumir da melhor forma possível não só os inte- resses dos outros, mas também os nossos. E quan- to mais nos implicarmos nesta interdependência, maior será o nosso interesse em assumir o bem- -estar dos outros. O MEDO SURGE QUANDO OLHAMOS O OUTRO COM SUS- peita, e é a compaixão que cria a confiança que nos permite abrirmo-nos aos outros e revelar os nossos problemas, as nossas dúvidas e as nossas . ,celtezas. Podemos ser crentes ou não, mas en- auanto formos seres humanos, enquanto fizermos narte da família humana, necessitamos de compai- xão. Do mesmo modo, quando sentimos o calor da compaixão no nosso interior, o sentido da res- ponsabilidade e do compromisso torna-se não ape- nas evidente, mas igualmente automático, o que nos ajuda a atingir a iluminação e nos ensina a autodisciplina. A afeição humana, ou compaixão, é pois um dos meios mais eficazes de que dispomos para desenvolver todas as nossas boas qualidades. NÓS TEMOS UMA CAPACIDADE NATURAL PARA A COM- paixão e é por isso que reagimos espontaneamen- te quando vemos alguém atormentado pela dor. Todos nós possuímos o germe da bondade, e tudo o que temos a fazer é desenvolver essa nossa facul- dade. Porém, para o conseguir,precisamos de ven- cer e de ultrapassar a cólera e o ódio, que nada rnais são do que produtos de uma atitude de en- cerramento em nós mesmos. Ao TRABALHAR A COMPAIXÃO, DEVERÍAMOS PENSAR no sofrimento dos outros seres sensíveis e recor- dar a dificuldade que sentimos quando somos nós
  45. 45. 90 A HUMANIDADE a sofrer, mesmo que ligeiramente. Embora não quei- ram sofrer, os seres sensíveis não sabem de que for- ma poderão vencer o sofrimentoque os atormenta. E a única maneira de os ajudar consiste em assu- mir, no nosso âmago, a responsabilidade de con- tribuir para lhes aligeirar o fardo. A HUMANIDADE 91 A COMPAIXÃO É UM FACTOR CRUCIAL. O FACTO DE possuirmos um espírito compassivo entreabre au- tomaticamente uma porta interior que facilita a comunicação com os nossos companheiros, os seres humanos, os animais e os insectos. Quando optamos por uma atitude de abertura, e por ou- tro lado nada temos a esconder, criamos imedia- tamente um terreno propício à amizade. Em con- trapartida, toda a emoção negativa, tal como o medo, fecha essa porta. Se não efectuarmos essa preparação, é extremamente difícil conquistar ver- dadeiros amigos. Quer os outros respondam ou não, não deixa de ser verdade que se sorrirmos sem desconfiança nem dúvida teremos mais hi- póteses de obter um sorriso de volta. A PARTIR DO MOMENTO EM QUE NOS TORNAMOS PES- soas mais compassivas, a nossa confiança afirma- se cada vez mais. Graças a isso, tornamo-nos mais calmos e mais felizes, com menos medo. O nosso espírito abre-se e é com grande facilidade que fa- zemos amigos e recolhemos sorrisos. PRECISAMOS DE DESENVOLVER UMA COMPAIXÃO FOR- te, tão forte que o facto de dar felicidade aos ou- tros se torna indispensável, e é por isso que temos de assumir desde já a responsabilidade de que tal se possa concretizar. No Budismo, a essa compai- xão dá-se o nome de «grande compaixão». SE CONSIDERARMOS MAIS ATENTAMENTE A COMPAIXÃO, descobrimos que ela comporta dois níveis e que, num primeiro nível, ela pode existir sob a forma de um simples desejo — ver o outro livrar-se do seu sofrimento. Todavia, a compaixão pode tam- bém concretizar-se num plano mais elevado, quando a emoção vai para além do simplesdesejo e inclui a vontade de agir concretamente no sen- tido de fazer diminuir o sofrimento dos outros. Neste caso, a um forte pensamento altruísta alia- -se o sentido da responsabilidade e do empenho pessoal.
  46. 46. 92 A HUMANIDADE A HUMANIDADE 93 NÓS SABEMOS POR EXPERIÊNCIA QUE A NOSSA CAPACI- dade de nos identificarmos com uma pessoa ou um animal é tanto maior quanto mais próximos nos sentimos desse ser. Por consequência, um elemento importante da prática espiritualda com- paixão reside na nossa capacidade de nos sentir- mos «ligados» aos outros e de cultivar a aproxi- mação a eles, algo que o Budismo descreve como o «sentido da intimidade» com o objecto da com- paixão. Quanto mais próximos nos sentimos de um outro ser, mais compreendemos a que ponto o seu sofrimento é insuportável. A COMPAIXÃO FAZPARTE DO NOSSO ESPÍRITO. MAS A cólera também faz.Ambas fazem parte da nossa natureza e ambas se situam mais ou menos aomes- mo nível. Contudo, a natureza humana é essen- cialmente doce e compassiva. A cólera, a violên- cia e a agressividade podem surgir, mas apenas a um nível secundário, mais superficial; de algum modo, surgemquando nos sentimos frustrados nos nossos movimentos em direcção ao amor e à afei- ção. Na realidade, essas emoções negativas não fazem parte da nossa natureza fundamental. DOM SE ESTIVERMOSEMPENHADOS NA PRÁTICA DO DOM, UMA grande felicidadee um fulgor deverão ler-se no nos- so rosto. Só é possível praticar o dom com rectidão mental e um sorriso nos lábios. QUANTO MAIS PENSAMOS NUMA COISA, MAIS ELA SE torna familiar ao nosso espírito, que não tardará a orientar-se automaticamente nessa direcção. E mesmo que ainda não tenhamos adquirido a capacidade de ajudar os outros, devemos prepa- rar o nosso espírito para essa tarefa, já que quem tiver um tal pensamento conseguirá mais cedo ou mais tarde concretizá-lo. O facto de repetirmos mentalmente estas práticas virtuais e de nos ale- grarmos com elas conduz-nos, pouco a pouco, na direcção da prática real do dom. O SIMPLES ACTO DE DARNÃO CONSTITUI UMA PRÁTICA de generosidade, e certos critérios devem ser res- peitados. Nunca se deve depreciar a pessoa que solicita a nossa ajuda. Convém, pelo contrário, ver nela um professor que nos oferece a possibili- dade de desenvolver a nossa generosidade.
  47. 47. 94 A HUMANIDADE DAR É UMA VIRTUDE BENÉFICA TANTO PARA AQUELE que dá como para aquele que recebe, pois quem dá amealha mérito, garantindo felicidade e for- tuna no futuro, e quem recebe vê as angústiasda necessidade e da pobreza tornarem-se menos pe- sadas. É ESSENCIAL COMEÇAR POR DESENVOLVERA VONTADE de dar, a qual se baseia em pensamentos positi- vos. Há que dar tudo aquilo que podemos, mas também é importante reiterar sem tréguaso empe- nho mental de praticar a generosidade, pois édes- sa forma que reforçamosa determinação e a von- tade de o fazer. A HUMANIDADE 95 TEMOS DE NOS DAR AOS OUTROS SERES E AMÁ-LOS tanto quanto a nós mesmos. Temos de pensar que pertencemos aos outros e devemos, além disso, assegurar-nos de que o nosso espírito compreen- de esse novo estádio. Se nós nos damos aos ou- tros, a nossa única tarefa é satisfazer as suas neces- sidades. E dado que lhes oferecemos os nossos olhos, o nosso corpo e as nossas palavras, não bodemos continuar a utilizar tudo isso apenas no L0sso interesse. E preciso dar sempre prioridade aos outros. GENEROSIDADE A GENEROSIDADE É UMA ATITUDE QUE SETRADUZ PELA vontade de dar, sem qualquer hesitação, os nossos próprios bens, os nossos corpos, as nossas virtu- des, etc. Não é no facto de banir a pobreza de to- dos os seres vivos que reside a perfeição da gene- rosidade. Ela é perfeita por constituir o de- senvolvimento último de uma atitude generosa. O FACTO DE DARMOS AOS OUTROS O QUE POSSUÍMOS serve um objectivo concreto e ao mesmo tempo aumenta a nossa prática da generosidade. E no que se refere às virtudes que acumulamos quan- do damos algo, elas devem igualmente ser consa- gradas ao benefício dos outros. DEPOIS DE TERMOS TOMADO CONSCIÊNCIA DA FUTILI- dade de se ser possessivo, deveríamos tentar au- mentar o nosso sentido da generosidade graças à
  48. 48. 96 A HUMANIDADE A HUMANIDADE 97 prática, ou seja, dando os nossos bens aos ou- tros. Uma pessoa que toma consciência da futili- dade de se ser possessivo e que dispersa as suas coisas à sua volta, sem sentir sequer o desejo de ajudar os necessitados, é designado por bo~ dhisatwa. Idade partilhada por todos, à qual se acrescenta a aspiração, igualmente comum a todos os seres hu- manos, de atingirem a felicidade e de eliminarem o sofrimento - assim como o direito fundamental de terem tal aspiração - sãode uma importância capital. UMA FIRME ASPIRAÇÃO EM SE ATINGIR A ILUMINAÇÃO - eis a única motivação que deveria existir na prática da generosidade. Seja qual for a nossa dádiva, ela tem de ser benéfica para os outros. Deveríamospra- ticar a generosidade em benefício dos outros e com habilidade, isto é, compreendendo que não existe, em definitivo, qualquer parcela do que darmos ou recebermos que possamos designar por nossa. HUMANIDADE INDEPENDENTEMENTE DA RAÇA, DA CRENÇA, DA IDEO- logia, da pertença a um bloco político (Leste ou Oeste) ou a uma região económica (Norte ou Sul), o aspecto essencial e que maior importância as- sume em todos os povos do mundo reside na sua humanidade partilhada — ou seja, no facto de cada indivíduo ser um ser humano. Esta humani'
  49. 49. A VIDA ESPIRITUAL FE NÃO NOS DEVEMOS ESQUECER DE QUE, MESMO NO SER humano mais pervertido e cruel, subsiste uma ín- fima parcela de amor e de compaixão, a qual um dia fará dele um Buda.
  50. 50. 100 A VIDAESPIRITUAL A FÉ DISSIPA A DÚVIDA E A HESITAÇÃO, LIBERTA-NOS do sofrimento e conduz-nos até à cidade da paze da felicidade. E a fé que fazdesaparecer aperturba- ção mental e que clarifica o nosso espírito, redu- zindo o nosso orgulho e afirmando-se como a raiz da veneração. A fé assemelha-se à nossa mão, capaz de reunir todas as qualidades virtuosas. EXISTEM TRÊS TIPOS DE FÉ: A FÉ NA ADMIRAÇÃO QUE sentimos em relação a uma pessoa particular ou a um estado de existência particular; a aspiração à fé, que repousa numa espécie de emulação, pois aspiramos atingir esse estado de existência; e o terceiro tipo, enfim, que é a fé da convicção. EXISTEM DIFERENTES TIPOS DE FÉ: UMA DELAS ÉCLARAE pura, permitindo apreciar as qualidades do Buda, do dharma e da comunidade espiritual; outra con- siste numa certa forma de confiança; vem depois a fé de aspiração, sem dúvida a mais importante, por- que, nesse caso, não nos contentamos simplesmen- te em venerar as qualidades do Buda, do dharma e da sangha,mas esforçamo-nos por atingir nós pró' A VIDA ESPIRITUAL jos o estado de Buda e as qualidades do dharma, por nos tornarmos membros da comunidade es- niritual. Se formos capazes de realizarum tal esfor- podemos ter a certeza de que estamos a prepa- Irar um melhor nascimento numa vida futura. PAZ A PAZ POUCO SIGNIFICA E VALE PARA QUEM ESTÁ A morrer de fome ou de frio e é incapaz de atenuar a dor da tortura infligida a um prisioneiro políti- co ou de consolar aqueles que perderam os seres que amavam nas inundações provocadas por uma desflorestação selvagem. A paz só pode perdurar se os direitos do homem forem respeitados, se as pessoas se alimentarem convenientemente e se os indivíduos e as nações forem livres. A verdadeira paz, quer em relação a nós próprios, quer em re- lação ao mundo que nos rodeia, sópode ser concre- tizada através do desenvolvimento da paz mental 101 NÓS TENTAMOS OBTER A PAZ OU A FELICIDADE PRÓ- porcionada pelo dinheiro, pelo poder, por tudo aquilo que é exterior. Porém, a verdadeira paz, a serenidade, deveria provir do interior.
  51. 51. 102 A VIDA ESPIRITUAL RELIGIÃO O OBJECTIVO DA RELIGIÃO NÃO É O DE CONSTRUIR BE- las igrejas ou templos soberbos, mas sim o de culti- var qualidades humanas tais como a tolerância, a generosidade e o amor. A VIDA ESPIRITUAL 103 TODAS AS RELIGIÕES, COM A FÉ QUE LHES É PRÓPRIAE mau grado as diferenças filosóficas que as sepa- ram, têm um mesmo objectivo e todas elasinsis- tem na evolução do homem, no amor, no respeito pelos outros e na partilha do sofrimento. No que se refere a estes diferentes pontos, todas as religiões têm mais ou menos a mesma abordagem e omes- mo objectivo. O VERDADEIRO OBJECTIVO DA RELIGIÃO É CONDUZIR cada um de nós ao controlo de si próprio e não a criticar os outros. Mais vale, com efeito, criti- carmo-nos a nós mesmos. O que é que eu faço para temperar a minha cólera, o meu ódio, o meu orgulho e o meu ciúme?Eis a pergunta que deve- ria estar permanentemente nos nossos lábios. £E PRATICARMOS UMA RELIGIÃO DE UMA FORMA [correcta e sincera, ela acabará por penetrar no anterior dos nossos corações. E, de facto, é num fcom coração que reside a essência de todas as re- ligiões. Eu digo por vezes que o amor e a compai- fcão constituem uma religião universal e que a minha religião é exactamente essa. Uma filosofia complicada gera ainda mais preocupações e pro- blemas. Se as filosofias sofisticadas forem úteis para o seu coração, então muito bem: utilize-as plenamente. Mas se, em contrapartida, elas se tor- narem um obstáculo no seu esforço para possuir um bom coração, então o melhor que tem a fazer é abandoná-las. EXISTEM MUITAS FILOSOFIAS DIFERENTES. O BUDISMO e o jainismo, por exemplo, não reconhecem um Deus criador, ao passo que a crença em Deus é Para muitas outras religiões a filosofia fundamen- tal. São sem dúvida duas posições absolutamente distintas. Entre essas «religiões sem Deus», duas há cujas filosofias se fundamentam na teoria da existência de um eu independente, de uma alma
  52. 52. 104 A VIDA ESPIRITUAL independente e permanente, e isso é algo que Os budistas também não reconhecem. Contudo, 0 objectivo inicial desses diferentes ensinamentos é servir e ajudar os homens, procurando fazer com que tomem consciência da importância da paz interior e, dessa forma, contribuindo para esta- belecer a paz no seio da comunidade humana. TODAS AS RELIGIÕES, SEJAM QUAIS FOREM OS SEUS PON- tos de vista filosóficos, ensinam-nos antes de tudo o mais a lutar contra o nosso egoísmo e a servir os outros. Acontece infelizmente que, por vezes, em nome da religião, as pessoas lutam entre si emvez de resolverem os problemas que as dividem. To- dos os praticantes deveriam compreender que cada tradição religiosa tem um imenso valor in- trínseco, pois, graças a ela, podemos obter saúde mental e espiritual. TODAS AS RELIGIÕES DO MUNDO TÊM OS MESMOS IDEAIS de amor e o mesmo desejo de atingir uma grande humanidade através de uma prática espiritual. A aspiração de todas elas é ver os seus adeptos torna- rem-se melhores seres humanos. O objectivo co- mum de todos os preceitos morais revelados pelos A VIDA ESPIRITUAL Landes mestres da humanidade é a generosidade, não existe religião que não esteja de acordo so- bre a necessidade de se controlar o espírito indis- iplinado, por trás do qual se esconde o egoísmo, foem corno as raízes de todos os problemas. E cada bma delas, à sua maneira, mostra um caminho que conduz a um estado espiritual calmo, disciplinado, ético e sábio, ajudando assim os seres vivos a evi- tar a miséria e a viver felizes. E é por isso que pen- sei sempre que todas as religiões têm, fundamen- talmente, a mesma mensagem. CADA UM DENÓS, À SUA MANEIRA, PODE PROPAGAR A compaixão no coração das pessoas. As civiliza- ções ocidentais concedem actualmente grande im- portância ao facto de se «encher» o cérebro huma- no com conhecimento, mas ninguém parece preocupar-se em encher o coração humano com compaixão. Ora essa é a verdadeira função da reli- gião. DEVERIA HAVER UM EQUILÍBRIOENTRE o PROGRESSO material e o progresso espiritual, obtido graças aos Princípios do amor e da compaixão. O amor e a compaixão são a essência da religião. 105
  53. 53. 106 A VIDA ESPIRITUAL A VIDA ESPIRITUAL NEM OS BUDISTAS CONSEGUEM QUE O CONJUNTO DA PQ- pulação mundial se torne budista, nem os cristãos são capazes de converter toda a humanidade ao Cristianismo, nem os hindus têm a possibilidade de governar toda a espécie humana. No decursodos séculos, as diversas fés e os diversos grandes ensina- mentos prestaram muitos «serviços» à espécie hu- mana. Porisso, em vez de passarmoso tempo acriti- car e a discutir, o melhor que temos a fazer é cultivar amizades, compreendermo-nos uns aos outros e esforçarmo-nos por servir a humanidade. CADA RELIGIÃO, COM A SUA PRÓPRIA FILOSOFIA E AS suas próprias tradições, tem como objectivo pro- curar diminuir os sofrimentos do espírito huma- no. Especular sobre se tal religião é superior a tal outra revela-se um exercício inteiramente vão. O que de facto conta é saber qual é a que melhor se adapta às expectativas de cada um de nós. ASSIM COMO A DIVERSIDADE DOS HÁBITOS GASTRO- nómicos corresponde à diversidade dos povos, a variedade das religiões corresponde à variedade discípulos. No Tibete, a liberdade religiosade que beneficia cada indivíduo está de tal modo ancorada na tradição que deu origem a um dita- do: «Cada lama é a sua própria escola.» A diversi- dade é, em todos os domínios, simultaneamente bela e necessária. SABEDORIA EXISTE UM PODER CAPAZ DE LUTAR CONTRA AS EMO- ções descontroladas e parasitas, e esse poder é a sabedoria. Esta sabedoria, que se torna mais clara e decisiva à medida que nos implicamos na análi- se e no exame de todas as coisas, caracteriza-se por ser forte e duradoura. EXISTEM TRÊS TIPOS DE SABEDORIA, ou TRÊS ETA- pas, na compreensão que as pessoas têm da realidade. A etapa inicial é a escuta e a aprendi- zagem, quando lemos ou aprendemos algo. O segundo estádio é atingido quando, após a aprendizagem, pensamos no tema constante- mente e a nossa compreensão se torna mais clara graças a essa familiaridade. É então que come- çamos a sentir certas sensações ou experiências,

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