Veja Especial Papa

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  1. 1. SAO FRANCISCO DE ASSIS A homenagem ao santo pobre constitui uma carta de intenções do papado Bergoglio mantinha hábitos espar- mensagem evangelizadora: "Não mais ponto não passou despercebido aos car-tanos. Sua rotina de trabalho começava esperar que o povo vá à Igreja, mas le- deais que o elegeram. Deram a vez aoàs 4 e meia da manhã e terminava às 9 var a Igreja até o povo". O primeiro homem que poderia ter sido papa há oi-horas da noite. Morava sozinho, em um amálgama entre o pastor e os fiéis é, to anos. VEJA apurou que, na primeira oapartamento no 2 andar do edifício da como se viu na noite de 13 de março, a das cinco votações, os votos se distribuí-arquidiocese, ao lado da Catedral de oração. Fazia tempo que não se rezava ram entre vários nomes. Na segunda,Buenos Aires, na Praça de Maio. Fazia um Pai-Nosso e uma Ave-Maria de for- três candidatos se destacaram: Bergo-sua própria comida. Andava de ônibus ma tão unida e fervorosa na Praça de glio, o italiano Angelo Scola, conside-e de metro. Ao ser nomeado cardeal, São Pedro. rado o favorito, e o canadense Marenão comprou batina nova — pediu que O cardeal Bergoglio desembarcou Ouellet, outra opção citada ao nomelhe fosse dada a de seu antecessor, An- em Roma duas semanas antes do início lançado pela Cúria, o do brasileiro Odi-tonio Quarracino, mono havia três do conclave. Não usou o carro do Vati- lo Scherer. A vantagem de Bergoglioanos. E propôs aos fiéis desejosos de cano à sua disposição. Ia a pé para a consolidou-se no terceiro escrutínio.vir à Itália, para acompanhar a entrega Santa Sé, onde se desenrolaram as con- No quinto, ele obteve um "grande con-do chapéu cardinalício, que doassem gregações-gerais—mas, convenhamos, senso". A Capela Sistina explodiu emaos pobres o dinheiro destinado à via- é um prazer andar em Roma. Aos 76 aplausos quando se atingiu o mínimo degem. Esteve no Brasil em 2007, para a anos, parecia velho demais para enfren- dois terços dos votos, 77 de 115. Um a5 Conferência do Episcopado Latino- tar o jogo pesado imposto por uma Cú- dos principais articuladores da candida-Americano e do Caribe, realizada em ria corrupta e pervertida. Em 2005, no tura vitoriosa foi Óscar Maradiaga, deAparecida, durante a visita de Bento entanto, ele foi o principal oponente de Honduras. "Caros irmãos, que DeusX V I . É um dos que assinam o docu- Ratzinger, nas quatro votações do con- lhes perdoe", disse o papa Francisco.mento final do encontro, com fone clave vencido pelo ex-alemão — e esse Que tenham feito a escolha certa. • veja | 20 DE MARÇO, 2013 | 69
  2. 2. »apa • AS IDEIASO MUNDO E A FESEGUNDO BERGOGLIOComo arcebispo de Buenos Aires, o novo pontífice CRENÇArefletiu com clareza — e simplicidade até exagerada— sobre questões fundamentais do cotidiano mA Igreja defende a autonomia das questões humanas. Uma autonomia saudável é uma laicidade saudável, em que se respeitam as ABORTO diferentes competências. A Igreja não vai dizer aos médicos como devem realizar uma operação. é é O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa. No O que não é bom é o laicismo militante, aquele momento da concepção está o código genético da pessoa. Ali que toma uma posição antitranscendental ou exige já existe um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer que o religioso não saia da sacristia. A Igreja dá os concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o valores, e os outros que façam o resto. 93 desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um sçr humano não é ético. Abortar é matar alguém que não pode se defender. f¥ DEUS 66 Ao homem de hoje lhe diria que faça a ATEÍSMO experiência de entrar na intimidade para conhecer a experiência, o rosto de Deus. Por ééQuando eu me encontro com pessoas ateias, compartilho com isso me agrada tanto o que disse Jó depois elas as questões humanas, mas não coloco logo de cara em discussão de sua dura experiência e de diálogos que a questão de Deus, exceto se elas me incitam a isso. Quando isso não lhe esclareceram nada: Antes eu te ocorre, eu explico a elas por que creio. (...) Não pretendo fazer conhecia só por ouvir falar, mas agora proselitismo — eu as respeito e me mostro como sou. (...) Não tenho eu te vejo com meus próprios olhos. nenhum tipo de reticências. Não diria que um ateu está condenado Ao homem, digo que não conheça porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar a Deus de ouvidos. O Deus vivo é sua honestidade — sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que aquele que se vê com seus olhos, engrandecem as pessoas. De toda forma, conheço mais gente dentro de seu coração, f f agnóstica do que ateia. O agnóstico duvida; o ateu está convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bíblia: todo homem é a imagem de Deus, seja ele crente ou não. Por essa DIVÓRCIO única razão, tem uma série de virtudes, qualidades, grandezas. Caso tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos 66A discussão em torno do compartilhá-las para nos ajudarmos mutuamente a superá-las. 99 divórcio é diferente daquela do matrimónio de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre CIÊNCIA repudiou a lei do divórcio, mas há antecedentes antropológicos 66A ciência tem sua autonomia, que deve ser respeitada e distintos neste caso. (...) É um valor Ni encorajada. Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. muito forte no catolicismo o casamento até Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem que a morte os separe. Hoje, contudo, na doutrina com o transcendente. A ciência é fundamentalmente instrumento católica, lembra-se a seus fiéis divorciados e do mandato de Deus, que disse: Tenham muitos e muitos filhos, recasados que eles não estão excomungados — espalhem-se por toda a terra e a dominem. Dentro de sua autonomia, ainda que vivam em uma situação à margem do a ciência transforma a incultura em cultura. Mas cuidado: quando a que exigem a indissolubilidade matrimonial e o autonomia da ciência não põe limites a si mesma e vai além. ela pode sacramento do matrimónio — e é pedido a eles sair das mãos de sua própria criação. É o mito de Frankenstein. 99 que participem da vida paroquial, f f70 | 20 DE MARÇO. 2013 | veja
  3. 3. IGREJA66 Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos EstadosPontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilómetroquadrado. Mas, quando o papa era rei temporal e rei espiritual, aí semisturavam as intrigas de corte e tudo isso. Agora não se misturam? Sim,ainda existe isso, porque existe ambição em homens da Igreja, existe— lamentavelmente — pecado de carreirismo. Somos humanos e nostentamos, temos de estar muito atentos para cuidar da unção que recebemos,porque ela é um presente de Deus. As disputas pelo poder, que existirame existem na Igreja, se devem a nossa condição humana. Mas, nessemomento, a pessoa deixa de ser eleita para o serviço e se converte em umapessoa que escolhe viver como quer e se mistura com o lixo interior.?^66 Um líder religioso pode ser muito fone, muito firme, mas issosem exercer a agressão. Jesus disse que aquele que manda deve sercomo aquele que serve. Para mim, essa ideia é válida para a pessoareligiosa de qualquer credo. O verdadeiro poder de uma liderança religiosavem de seu serviço. Quando deixa de servir, o religioso se transformaem um mero gestor, em um agente de ONG. O líder religioso compartilha,sofre, serve a seus irmãos.**PEDOFILIASé Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Maisde 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre. Agora, quando isso ocone, jamais se deve fazer vista grossa. Não se pode estar em uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. (...) Não creio em posições que pleiteiam sustentar ceno espírito corporativo para evitar danos à imagem da instituição. Esta solução creio que foi proposta certa vez nos Estados Unidos: mudar os padres de paróquia. Isso e uma estupidez porque, dessa forma, o padre leva o problema na bagagem. A reação corporativa leva a tal consequência, por isso não concordo com essas medidas. Recentemente, na Irlanda, foram revelados casos após vinte anos, e o papa disse claramente: Tolerância zero com este crime. Admiro a valentia e a retidão de Bento X V I sobre esse assunto.ff é é A vida crista também é uma espécie de atletismo, de disputa, de corrida, em que é preciso se desvencilhar das coisas que nos separam de Deus. Além disso, quero salientar que uma questão &o demónio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem está sob tentação constante, mas não é por isso que temos de demonizá-lo.ffUNIÃO HOMOSSEXUALé é N ã o sejamos ingénuos: não se trata de uma simples luta política.Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do paida mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.ff veja | 20 DE MARÇO, 2013 | 71
  4. 4. Papa 1 A ORDEM RELIGIOSAA TROPA DECHOQUE DAIGREJAFundada no século X V I por Inácio de Loyola, umex-militar espanhol, a Companhia de Jesus tem umadedicação histórica à propagação da fé. Foi nessadisciplina missionária que se formou o papa Francisco í J E R Ô N I M O TEIXEIRA China à África, do Canadá ao Paraguai,B os jesuítas — como são chamados os astaram alguns cartazes espalha- membros da Companhia — levaram a dos pôr Paris, em outubro de cruz a todos os recantos do planeta. Se o 1534, para lançar a cidade em um espírito orientador da ordem serve como frenesi de violência religiosa. No pista para a atuação do novo papa. pode-espírito provocador da Reforma, os pan- se esperar o compromisso missionário defletos denunciavam a falsidade da missa propagar e defender a fé católica — e, sepapal, atacando uma das bases doutriná- o esforço no século X V I era fazer frenterias do catolicismo: a transubstanciação, aos reformadores Lutero e Calvino, ago-na Eucaristia, do pão e do vinho em carne ra o desafio é conter a sangria que as igre-e sangue de Jesus. Em resposta, o rei jas neopentecostais têm promovido noFrancisco I conduziu procissões solenes. rebanho católico. Também se poderá pre-Protestantes foram perseguidos, espanca- ver uma inabalável ortodoxia doutrinária:dos, mortos. Alguns foram queimados em fundada por um ex-soldado. a Compa-frente à Catedral de Notre Dame. Pode-se nhia de Jesus exige disciplina férrea esupor que a tensão que eclodiu nesses obediência absoluta de seus membros.episódios tenebrosos já estivesse latente Dois dos participantes do encontrodois meses antes, quando sete compa- em Paris foram consagrados como san-nheiros de devoção, com idade entre 19 e tos da igreja (Pierre Favre foi apenas43 anos, se reuniram para uma cerimónia beatificado): os espanhóis Francisco Xa-simples em uma capela do bairro de vier, um dos possíveis inspiradores doMontmartre. Mas a reunião se deu na nome do novo papa — ao lado do óbviomais disciplinada serenidade: o grupo fez Francisco de Assis —, e Inácio de Loyo-votos de obediência à Igreja Católica, e la. Missionário por excelência, XavierPierre Favre, o único que já havia sido levou sua pregação a Goa, possessãoordenado padre, oficiou uma missa. Lan- portuguesa na índia, à China e ao Japão.çava-se ali a semente de um empreendi- Mais do que a do companheiro Loyola,mento monumental, que se desenvolveu sua biografia mistura-se a histórias denos cinco continentes e atravessou cinco milagres e portentos: um caranguejo le-séculos até alcançar, na semana passada, ria certa vez lhe devolvido um crucifixoa consagração superlativa do papado. A que caíra no mar, e consta que o cadáver «Companhia de Jesus, ordem à qual per- do santo — ele morreu na China, em 1tence o papa Francisco, dedicou-se sobre- 1552 — não se decompôs ao longo dos Etudo ao ensino e à propagação da fé. Da quinze meses entre o falecimento e a I 72 | 20 DE MARÇO. 2013 | Veja
  5. 5. OBEDIENTE COMO UM CADÁVERLoyola (em vestes douradas)em quadro de Rubens: pomade lança da Comrarreforrnachegada a Goa. Mas Inácio de Loyola éo fundador e o grande teórico da Com-panhia de Jesus. Nascido em 1491, najuventude ele se dedicou à carreira mili-tar, abreviada em um combate contra osfranceses, em 1521, em Pamplona,quando uma bala de canhão dilacerousuas pernas. Na lenta e dolorosa conva-lescença, lendo obras devocionais sobrea vida de Cristo, Loyola decidiu consa-grar sua vida à fé. Seu empreendimentocaiu nas boas graças do papa Paulo I I I ,que deu a aprovação canónica à novaordem, em 1540. Loyola foi o primeirosuperior-geral dos jesuítas, e nesse pos-to morreu, em Roma, em 1556. Legou àordem os Exercícios Espirituais — umasérie de orações e meditações a ser se-guidas, com rigor, ao longo de um mês— e um código de disciplina estrito: ojesuíta deveria ser obediente "como umcadáver" (perinde ac cadáver; na fórmu-la latina). Outra citação célebre do santorecomenda que. se a Igreja disser queaquilo que vemos como branco é na ver-dade preto, se aceite o que a Igreja diz,por dever de obediência. O combate ao protestantismo nas-cente nao estava na ordem imediata deprioridades de Inácio de Loyola. Os je- suítas, porém, logo ocuparam a linha de frente da Contrarreforma. "Nao há hojenenhum instrumento erguido por Deuscontra os hereges maior do que sua or-dem sagrada", dizia Gregório X I I I , papade 1572 a 1585. A Companhia também foi a ponta de lança do catolicismo nacolonização da América. Com ímpeto aventureiro, embrenhou-se nas matas, fundou colégios e povoações e conver- teu povos indígenas reunidos nas suasReduções. "Esta terra é nossa empresa", disse Manuel da Nóbrega, chefe da pri- meira missão jesuíta no Brasil. Nóbregae o companheiro de ordem José de An- chieta fundaram, em 1554, o colégio doPlanalto de Piratininga, embrião da ci- dade de São Paulo. Os objetivos religio- sos dos jesuítas nem sempre coincidiam com as ambições terrenas dos europeus que se aventuravam na América selva- gem. Por se oporem à escravização dos índios, jesuítas como Nóbrega, Anchieta veja 120 D E MARÇO, 2013 | 73
  6. 6. INIMIGOS NO PODER O marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal(no quadro abaixo, eles são recebidos com fogos na Itália): a Independência da e, j á no século X V I I , Antônio Vieira an-Companhia era vista como ameaça petas monarquias europeias daram às tunas com os colonos portu- gueses. Os jesuítas não tinham pruridos em reconer às armas quando necessário — na Guena dos Trinta Anos, houve inacianos que apontaram canhões para tropas protestantes — , mas, no geral, acreditavam na propagação da fé antes pela persuasão do que pela espada. Tam- bém se dedicavam a entender minima- mente a cultura dos povos que preten- diam catequizar: Anchieta aprendeu tu- pi, e o jesuíta italiano Matteo Ricci, missionário na China nofimdo século X V I , foi o primeiro tradutor ocidental de Confúcio. Houve quem idealizasse essa propensão intelectual dos inacianos, vendo aí uma espécie de multiculturalis- mo avant la leme. Mas o fim último sempre foi o crescimento da Igreja: Ric- ci só se dedicou ao pensamento de Con- fúcio porque viu nele compatibilidades com o cristianismo; Anchieta e outros missionários na América só aprenderam línguas nativas porque isso era necessá- rio à catequese dos índios. Poderosos, numerosos, cultos, os jesuítas eram alvo de muito rancor, dentro e fora da Igreja, e não estranha que só agora um jesuíta74 | 20 D E MARÇO. 201.Í | veja
  7. 7. Papa m A ORDEM RELIGIOSAHERÓI CIVILIZADORJosé de Anchieia, umdos fundadores de São MULTICULTURAISPaulo: o jesuíta Jesuítas (de preto)estudou tupi para na corte de Akbar,catequizar os índios índia, no século XVI: ímpeto aventureirotenha chegado ao papado. Foram cos- determinação papal, e a Companhia de trema direita do entreguerras, o francêstumeiramente associados a fantasiosas Jesus seguiu forte e atuante no império Louis Billot, um jesuíta, foi o único car-conspirações para assassinar monarcas. russo. A reabilitação efetiva dos jesuí- deal do século X X a ser forçado pelaNo século XV11I, os inimigos da ordem tas viiiasó em 1814. Igreja à renúncia. Na 11 Guerra, porém,teriam seu momento de triunfo. Gover- ^QIoje?)sob o comando do superior- houve jesuítas que protegeram judeus enante de fato no reinado do débil José geraTSríolfo Nicolas, um espanhol, a foram mortos em campos de concentra-I . Sebastião José de Carvalho e Melo, Companhia de Jesus é a maior ordem da ção. O credo marxista da Teologia dafuturo marquês de Pombal, considerava Igreja Católica, com cerca de 19000 Libertação teve sua penetração na ordem,a ordem uma ameaça ao poder central membros em mais de 130 países. No que, no entanto, também abriga conser-da coroa — e a expulsou de Portugal e mundo todo. administra 180 colégios e vadores como Jorge Mário Bergoglio,de suas colónias em 1759. Seguiu-se 200 universidades e faculdades (seis no agora papa Francisco. Sob essa aparenteum decreto do mesmo teor na França, Brasil). Em face das forças agressiva- variedade, porém, estão as diretrizes queem 1764. Em 1773, finalmente, o papa mente temporais dos séculos XTX e XX. o ex-soldado Inácio de Loyola deitou noClemente XIV, sob pressão das monar- a Companhia teria reações variadas. Em século X V I : disciplina, educação, ímpe-quias europeias, extinguiu a ordem. consequência de sua adesão à Action to missionário — prováveis linhas deCatarina, a Grande, optou por ignorar a Française, malogrado movimento de ex- força do novo papado. •76 | ao DE MARÇO. 2013 | veja
  8. 8. Papa 1 A IGREJA NA POLÍTICAmarcfiB Jel orgu INIMIGOS CORDIAIS Criftimi cm oÉ s aay - trxv**0 -.í i.. r •:m-OúS. A í"-(t>) R r , i r : _ ^ou-dd. do u ; x ; " ; ! : ; i Í J V : ; em fíliclIOy .-//Y> E AGORA, CRISTINA? Nestor considerava-o seu único verdadeiro opositor. Cristina herdou o crítico severo. Bergoglio se tomou papa, sabe muito bem quem são os Kirchner e não vai esquecer NATHALIA WATKINS E porém, ele se revelava ainda mais incó- Congresso uma lei do Partido Socialis- 0 A N D R É ELER, DE BUENOS AIRES modo. Em um país onde a política é ta para regulamentar o casamento entre disputada nas trincheiras, reunia-se fre- homossexuais. De alguns expoentes da verdadeiro representante da quentemente com os principais líderes oposição, ouvia-se que a iniciativa não oposição." Foi assim que o ex- da oposição e setores marginalizados passava de uma investida pessoal de presidente argentino Nestor pelo governo. "O novo papa é o religio- Nestor para atingir seu rival de batina. Kirchner definiu o arcebispo so mais politizado que poderíamos ter", O confronto entre o cardeal e o kirch- de Buenos Aires, Jorge Mário Bergoglio diz Julio Burdman, cientista político da nerismo renasce agora com a nomea- — o agora papa Francisco. Em suas ho- Universidade de Belgrano, em Buenos ção de Bergoglio, apenas protocolar- milias dominicais na Catedral Metro- Aires. "Ele é metade teólogo, metade mente comemorada por Cristina e j á politana, Bergoglio mandava mensa- político." As rusgas com o governo muito explicitamente politizada pela gens ásperas para os governantes na atingiram o ápice entre 2009 e 2010, presidente. Casa Rosada. Distante das colunas que quando a presidente Cristina Kirchner Como arcebispo da capital, Bergo- sustentam o frontispício da catedral. e o marido, Nestor, impulsionaram no glio liderou uma campanha nacional 78120 on MARÇO, 20131 veja
  9. 9. contra a lei pelo matrimónio homosse- uma carta. Cristina rebateu dizendo 25 de maio para celebrar a independên-xual, convocando os fiéis a protestar às que "o discurso dos líderes da Igreja cia do país. "Nosso Deus é de todos,portas do Congresso. Em uma cidade parece do tempo das Cruzadas". mas cuidado que o diabo também chegaconhecida pelo liberalismo de seus A relação com o casal presidencial a todos, aos que usam calças e aos quecostumes e por ser um dos principais já havia se transformado numa guerra usam batina", disse o presidente, emdestinos turísticos da comunidade gay. surda em 2004. Um ano depois da posse uma mais do que explícita referência aoo cardeal ousou defender princípios de Nestor Kirchner, Bergoglio alertou, adversário. Três anos depois, quando osque a Igreja considera imutáveis. "Aqui em uma homilia, para os riscos dos agricultores paralisaram as estradastambém está a inveja do Demónio, pe- "anúncios estridentes" e do "exibicio- contra uma lei que aumentava os im-la qual entrou o pecado no mundo, que nismo", definindo, ainda bem cedo, o postos sobre as exportações, Bergoglioarteiramente pretende destruir a ima- que viria a ser a essência do governo ar- sentou-se com os trabalhadores para,gem de Deus: homem e mulher que gentino. Em 2005, Nestor, pouco afeito em seguida, pedir a Cristina que tivesserecebem a ordem de crescer, se multi- à religião, cancelou sua presença na "um gesto de grandeza" que resolvesseplicar e dominar a terra", escreveu, em missa que ocorre na catedral todo dia o conflito. Não foi atendido. veja | 20 DE MARÇO, 2013 | 79
  10. 10. EMOÇÃO NA PARÓQUIA ja. A iniciativa, mais o fato de ela ser, seguiu na direção oposta. Há dois me-Fiéis na Catedral de Buenos Aires, como o novo papa, contrária ao aborto, ses, supostamente com o propósito dena qual Bergoglio rezava missas, prenunciava uma trégua com o cardeal. encontrar os responsáveis pelo atenta-celebram a escolha do papa argentino Mas a votação sobre o casamento gay do, ela formalizou com o Irã um acordo de novo os separou, e um velho assunto cujas condições favorecem muito mais O episódio marcou a radicalização entrou em pauta para reforçar a discór- o escamoteamento do que o esclareci-do kirchnerismo e deu início à perse- dia: a relação do governo com a comu- mento dos fatos e a punição dos culpa-guição ao grupo de comunicações Cla- nidade judaica na Argentina, a maior da dos. Até agora, as investigações apon-rín, crítico do governo. Em uma nação América Latina. Favorável ao diálogo tam para a autoria do grupo radical liba-onde a oposição política foi reduzida a entre as crenças, Bergoglio aproximou- nês xiita Hezbollah, financiado pelospó, o arcebispo foi uma das poucas vo- se dos rabinos depois do atentado con- iranianos. "Estes últimos dias têm sidozes que insistiram em incomodar os ou- tra a Associação Mutual Israelita Ar- difíceis para Cristina", diz o cientistavidos dos Kirchner. Após a morte de gentina (Amia), em 1994, que deixou político argentino Orlando DAdamo,Nestor, em 2010. Cristina, católica pra- 85 mortos e mais de 300 feridos no cen- do Centro de Opinião Pública da Uni-ticante, retomou os contatos com a Igre- tro de Buenos Aires. Cristina Kirchner versidade de Belgrano. "Há duas sema-80 120 DE MARÇO. 2013 | veja
  11. 11. ELE LAVOU AS MÃOS? A acusação de que o cardeal Bergo- glio entregou à ditadura militar argentina dois padres acusados de nalista Sergio Rubin conta que durante o regime militar Bergoglio protegeu alu- nos e deu os próprios documentos de subversão tem poucos elementos que identidade a um estudante parecido a sustentam, muitos que a enfraque- com ele para que escapasse pela Trí- cem e pelo menos um que ajuda a plice Fronteira. Bergoglio nuncafoiacu- fazer com que a sua discussão seja sado de colaborar com o regime em obscurecida pela paixão. Em 1976, os nenhum dos inquéritos oficiais. 0 pró- jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics prio cardeal, em um relato nunca con- foram presos e levados para a Escola testado, contou ter persuadido o padre Superior de Mecânica da Armada, que que rezava missas para o ditador Jorge de superior mesmo tinha apenas o em- Videla a dizer que estava doente, para prego detécnicasde tortura. Yorio e Jalics substituí-lo na função e interceder ficaram seis meses presos, foram tortu- pessoalmente pela libertação dos je- rados mas escaparam da morte, destino suítas - o que de fato ocorreu. As cir- de 150 outros religiosos assassinados cunstâncias em que esses fatos se pelo regime entre 1976 e 1983. passaram ficou conhecida como "a Jalics, que hoje vive na Alemanha, guerra suja" - e em uma guerra a pri- relata em um livro que, pouco antes de meira vítima é a verdade. Não é sur- sua prisão, pediu a "um homem" que presa que essas acusações tenham fizesse saber aos militares que ele e sido ressuscitadas pouco antes de Yorio não eram terroristas. Esse homem, Bergoglio ser escolhido papa e tenham cujo nome ele não revela, teria descum- ganhado corpo depois de sua eleição. prido a promessa e feito "uma falsa Ele é critico da presidente Cristina Kirch- denúncia" sobre eles aos militares. A ner, o que para seus fanáticos segui- conclusão de que esse homem seria dores constitui um pecado mortal. Bergoglio é de Horácio Verbistky, um jornalista que trabalhava ao mesmotempopara os esquerdistas e para os militares. Horácio diz ter tido acesso a uma carta que Yorio man- dara a um amigo antes de morrer em que ele acusa Bergoglio. Alice Oliveira, mi- litante de direitos hu-nas. ela perdeu seu maior aliado, Hugo manos e ex-juíza, éChavez. Agora viu seu opositor tomar- uma das testemunhasse papa." isentas que absolvem Em Roma, a intromissão do novo Bergoglio da acusa-papa em temas mundanos deve arrefe- ção. Na biografia quecer — como arrefeceu o poder temporal escreveu sobre o car-desde a Reforma Protestante, que redu- deal, O Jesuíta, o jor-ziu os limites do papado na Europa, e osurgimento de movimentos como o Re- PEDIDO AO GENERALnascimento e o Iluminismo, que favore- Bergoglio diz terceram a razão e enfraqueceram os pila- intercedido juntores do poder divino. Mesmo assim, são a Videla (na foto,diversos os exemplos de representantes numa missa em 1975)da Igreja que se imiscuíram no jogo do pelos jesuítas presospoder nas últimas décadas.
  12. 12. Papa B A IGREJA NA POLÍTICA Pio XTJ, que comandou a Igreja du- e do mundo pós-guerra. Pio X I I soube PODER O futuro papa Pio XIIrante a I I Guerra, foi o exemplo mais que o líder soviético havia se referido a (em 1920, em Berlim), sobre quemcontroverso. Por um lado. conseguiu ele com ironia. Ao tomar conhecimento Stalin perguntou: "Quantasmanter-se neutro o suficiente para poupar de que o papa pedira o fim da opressão divisões ele tem?"Roma de um ataque destruidor. Usando aos católicos, Stalin perguntou: "O papa?de sua habilidade diplomática, evitou que Quantas divisões (exércitos) ele tem?" que, por baixo da cortina, a Polónia era ohospitais, escolas e templos católicos fos- Resposta de Pio X I I : "Ele encontrará mais católico dos países sob o domíniosem destruídos por tropas nazistas e fas- nossas divisões no céu". dos governos comunistas ateus. A viagemcistas ao redor da Europa. Contudo, não Os regimes totalitários que Stalin im- abalou o regime e fortaleceu seus oposi-se furtou a costurar acordos com os regi- plantou à força no Leste Europeu ruiriam tores, como o sindicato Solidariedade.mes da Alemanha e Itália em torno de nas mãos de outro papa, o polonês João Nascida clandestina, a entidade foi reco-disputas entre Igreja e estado. O fato de Paulo U. Logo após sua nomeação, ele nhecida meses depois, em negociaçõester resolvido questões administrativas afirmou sua intenção de visitar a Polónia, com o governo. Em um gesto simbólico,importantes para a instituição nesses paí- até então isolada atrás da Cortina de Fer- o líder do movimento, o operário Lechses não o livrou de ser lembrado como o ro. Na ocasião, o presidente soviético Walesa, sacou do bolso uma caneta compapa que, em nome da defesa dos interes- Leonid Brejnev orientou o Partido Co- o retrato do papa na hora de assinar o do-ses da Igreja, cruzou os braços diante da munista daquele país a não receber o pa- cumento do sindicato. A relação enne omorte de milhões de judeus. Saiu-se um pa — sem sucesso. No que se tornou a papa e Walesa, mais tarde eleito presi-pouco melhor no confronto verbal com viagem mais importante do pontificado dente da República, foi fundamental nãoJosef Stalin. Por meio do primeiro-minis- de João Paulo I I , mais de 10 milhões de só para a abertura da Polónia, mas paratro inglês Winston Churchill, com quem pessoas, quase um terço da população, todo o Leste Europeu. As pregações dese encontrou após a Conferência de lalta, saíram às ruas para recebê-lo. O compa- João Paulo I I contra o totalitarismo apro-a qual redefiniu os contornos da Europa recimento das multidões deixou claro ximaram o pontífice dos Estados Unidos 82 | 20 D E MARÇO, 2013 | veja
  13. 13. Papa • A IGREJA NA POLÍTICA GUERRA FRIA João Paulo II com o presidente Ronald Reagan, em 1987: contra o comunismo e o integraram ao tabuleiro da Guerra Fria. Mais tarde, ajudaram no desmonte dos países sob a esfera soviética e na ins- tauração de vários governos democráti- cos em toda a região. É cedo para saber quais bandeiras o papa Francisco vai tomar para si, mas o mais provável é que os assuntos internos da Argentina sejam reduzidos à sua de- vida dimensão. O país vive a euforia de ser o berço do primeiro papa latíno-ame- ricano. Na quinta-feira, um jornal porte- nho anunciou a escolha de Bergoglio com a manchete "La mano de Dios", uma referência ao gol irregular feito na Copa do México, em 1986, por Marado- na (que agora terá de conviver com mais alguém lhe fazendo sombra, além de Lionel Messi). No dia anterior, o anúncio do papa argentino havia levado milhares de por- tenhos a se aglomerar em frente à Cate- dral de Buenos Aires. A algazarra que se formou lá podia ser ouvida até da Casa Rosada. Mesmo assim, só duas horas depois que as notícias do Vaticano j á ti- nham corrido o mundo a presidente Cristina Kirchner divulgou uma carta parabenizando seu conterrâneo. Do cumprimento frio—que não men- cionava nem o nome do cardeal nem o fato de ele ser argentino —, a presidente seguiu sem escalas para a provocação. Disse desejar que, "em sua missão pasto- ral, ele (o novo papa) carregue uma men- sagem para que as grandes potências mun- diais dialoguem. Que as grandes potências do mundo, que têm armas e poder finan- ceiro, possam ser finalmente convencidas de que devem dar atenção aos países emer- gentes e que elas se comprometam com um diálogo de civilizações, em que as coi- sas são resolvidas pela via diplomática e não pela força". Mais do que uma referên- cia disfarçada à derrota argentina na dis- puta com a Inglaterra pelas Ilhas Malvi- nas, os "cumprimentos" da presidente soaram como uma tentativa de colocar o adversário no ringue, e bem perto das cor- das. Para desgosto de Cristina, porém, o papa Francisco não deve ceder ao seu cha- mado. Sua pátria agora é o mundo. A Ar- gentina terá de esperar. m COM REPORTAGEM DE T Â M A R A FISCH
  14. 14. A visão evolutiva do aprendizado A té Freud, que só pensava... naquilo, reco- nheceu a descoberta mental como uma im- portante fonte de prazer para o homem em "A civilização e seus descontentes". De fa- to, há poucas atividades mais estimulantes do que aprender coisas novas, conseguir perceber a luz onde antes só havia trevas. O aprendizado ocorre no cérebro. Durante muitos séculos, o cérebro foi tratado como uma * cãixa-preta, à qual não podíamos ter acesso di- í reto, e cujas maquinações só poderiam ser de- preendidas por meio da observação cuidadosa e perspicaz do comportamento de pessoas. A maioria dos profissionais de educação ainda subscreve a esse paradigma. Sua visão sobre o funcionamento cerebral é, portanto, formada pe- las hipóteses não científicas de pensadores da virada do século X I X para o X X , especialmente Jean Piaget (1896-1980), Lev Vygotsky (1896- 1934) e Henri Wallon (1879-1962). Desde essa é p o c a porém, a compreensão que vas sinapses (as estruturas neuronais que permi- temos do cérebro fez grandes avanços, e a neuro- tem a passagem de um sinal químico ou elétrico ciência está conseguindo ligar habilidades e entre neurónios vizinhos). É tão impossível en- comportamentos humanos a áreas e processostender como seres humanos aprendem sem com- m cerebrais específicos, abandonando o modelopreender o funcionamento do cérebro quanto / J W "caixa-preta" por outro em que o cérebro é per- querer chegar de um lugar a outro sem saber o | cebido como um órgão material, que tem umaque são ruas, estradas, rios e pontes. E a maneira I fisiologia, no qual agem células, neurotransmis- responsável de buscar esse conhecimento é por meio da ciência. Por mais A maneira responsável de buscar conhecimento é por meio da brilhante que seja um obser- ciência. Por mais brilhante que seja um observador da fase vador da fase avanço da ci- ignorar todo o pré-científica, pré-científica, ignorar todo o avanço da ciência nas últimas ência nas últimas décadas se- décadas seria não apenas anacrónico como irresponsável ria não apenas anacrónico como irresponsável. Um dos insights mais sores etc. Uma das descobertas que essa ciência importantes desse período de pesquisa é que o já conseguiu fazer é que, ao aprendermos, mudamos cérebro é, assim como um olho ou braço, fruto a própria arquitetura física do órgão. Como bem de um processo evolutivo, moldado ao longo de descreve, no fascinante In Search of Memory, centenas de milhares de anos para aumentar Eric Kandel — um dos líderes da pesquisa nesse nossas possibilidades de reprodução e sobrevi- campo, vencedor do Nobel de Medicina por suas vência. Como bem mostra Steven Pinker em contribuições —. a formação de uma memória de livros como How the Mind Works e The Blank longo prazo altera nossa rede neuronal em pelo Slate, a ideia de que nosso cérebro é uma tabu- menos duas maneiras: não só aumenta a força do la rasa cujos conteúdos são preenchidos exclu- sinal da sinapse na área relevante como cria no- sivamente por processos culturais é equivoca-94 | 20 DE MARÇO. 2013 | veja
  15. 15. HA 2500 ANOS Escola de Atenas, pintura do renascentista italiano Rafael: a Academia de Platão ainda não tem substituto no ensino demais e o aprendiz já sabe a resposta antes de pensar, não há pensamento nem, portanto, dopamina. Se ele é difícil demais e a pessoa já pressente que não conse- guirá encontrar a solução, o cérebro "desliga-se": não havendo a possibilidade de dopamina, não vale a pena gastar o maquinário neural. Mas o que é, em termos neurológicos, pensar? Pen- sar é combinar informações de maneira diferente. Essas informações podem vir do ambiente externo e/ou da memória de longo prazo. A memória de longo prazo é aquela que armazena infor- mações e processos que es- tão fora da nossa consciên- cia imediata. A tabuada, porda. Entre os muitos achados dessa visão evolu- exemplo: ela não estava na sua mente antes de eutiva está a descoberta de que o cérebro evita o mencioná-la e desaparecerá de novo em algunspensar. Pensar é uma atividade dispendiosa, minutos, mas, sempre que você precisar fazertanto em termos de tempo como de energia, e uma multiplicação, ela virá, facilmente, à mente.sempre que possível o cérebro substitui o pen- O local do cérebro em que esse novo processa-samento por um procedimento automático gra- mento de informações se dá é a memória opera-vado na memória. (Já imaginou como seria im- cional (ou "de trabalho", do inglês working me-possível, por exemplo, dirigir um carro, se a mory). A memória operacional tem capacidadecada esquina precisássemos pensar em como limitada — e, quanto mais perto ela estiver de seufazer uma curva, como indicar aos outros mo- limite, mais difícil vai ficando o pensar. Sua ca-toristas que estamos dobrando, calcular o ân- pacidade é determinada geneticamente. Pensargulo certo da virada do volante, pensar onde bem, portanto, envolve quatro variáveis: infor-está a alavanca do pisca-alerta etc?) mações externas, do ambiente; fatos na memória Como mostra o psicólogo cognitivo Daniel de longo prazo; procedimentos na memória deWillingham em Why Don 7 Siudenrs Like School?, longo prazo; e o tamanho do espaço disponívelo cérebro pensa em duas situações: quando é es- na memória operacional.tritamente necessário (não há procedimento na A primeira implicação dessa descoberta émemória que nos ajude) e quando nós acredita- que o domínio de fatos não apenas ajuda no atomos que seremos recompensados por resolver de pensar: ele é indispensável. Como mostradeterminado problema. A recompensa? Peque- Willingham, décadas de pesquisa em ciêncianas doses de dopamina, um poderoso neurotrans- cognitiva revelam que, se você não domina as in-missor associado aos circuitos de prazer do cére- formações básicas de determinado assunto, nãobro, liberado quando se resolve uma questão (e conseguirá ter um raciocínio analítico/crítico atambém durante o consumo de cocaína). Para seu respeito. Até a leitura se torna mais fácil se oque a dopamina seja liberada, o fundamental é cérebro j á conhece o assunto em questão: a pes-calibrar a dificuldade do problema. Se ele é fácil quisa mostra que uma pessoa com ótima habili- veja | 20 DE MARÇO. 2013 | 95

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