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O manifesto do partido politico

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O manifesto do partido politico

  1. 1. O Manifesto do Partido Comunista e a Educação, ou como formar orevolucionárioMarcos Roberto PirateliFaculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí, Av. Gabriel Esperidião, s/n, 87703-000, Paranavaí, Paraná,Brasil. E-mail: marcospirateli@hotmail.com RESUMO. Neste artigo, pretendeu-se explanar o processo prático-teórico do método marxiano, apontando para o seu comprometimento com a transformação social, ou para o seu conceito de crise, crítica e práxis; para tanto, privilegiou-se a investigação do caráter educativo do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, identificando nele alguns pontos que levariam à formação do revolucionário, mediante movimento de classe, destruidora do modo de produção capitalista. Na prática, a revolução deveria ser proletária, consciente e comunista: em suma, o programa proletário constituiu na desarticulação das relações sociais do capitalismo, que não podia ser outra coisa que a destituição do princípio da propriedade privada e da exploração de uma classe sobre a outra. Daí a educação no Manifesto, ou a educação marxiana, não ser outra coisa senão formar o homem possuidor da (cons)ciência, do ser histórico ao ser da História, isto é, da práxis: em 1848 o revolucionário. Palavras-chave: Marxismo, Manifesto do Partido Comunista, revolução, História, Educação. ABSTRACT. The Manifesto of the Communist Party and education, or how to train a revolutionary. The practical and theoretical process of the Marxist method, as well as its commitment to social transformation and its concept of crisis, critique and praxis are provided in this article. The educational features of Karl Marx and Friedrich Engels’s Manifesto of the Communist Party were emphasized in our research, with special emphasis on features regarding the training of the revolutionary person through the class movement and the destruction of the capitalist mode of production. Revolution should be proletarian, communist and conscientious; in short, the proletarian program comprises the disruption of capitalist social relationships, mainly through the destruction of the principles of private property and exploitation of one class by another. The Marxist and the Manifesto educations train the conscientious person and the historical person to belong to History, or to praxis, that is, the 1848 revolutionary. Key words: Marxism, Manifesto of the Communist Party, revolution, History, Education.Introdução [o panfleto na porta da fábrica] Ao identificar que as formas de uma sociedade estão fundamentadas na unidade do antagonismo Tendo em vista as transformações sociais entre as classes, o que implicou na necessidade damarcadas pela crise da sociedade capitalista e o classe dominante no campo político criar condiçõesdesenvolvimento do proletariado na primeirametade do século XIX, papel de destaque nos novos para garantir a opressão, qual seja, dar continuidade àescritos da filosofia e economia política1, tiveram existência da classe oprimida, identificaram a criseKarl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820- posta de sua época: a grande indústria e seu1895). progresso pareciam não dar continuidade a esta dinâmica. Em rigor, o modo de produção capitalista era incapaz de garantir a existência de seus1 Naquela época: (1º) a filosofia política (espiritualismo abstrato), cujo métodoera pautado na especulação fenomenológica, tinha no mercado o guia e a vida submissos, ou seja, a burguesia como classehumana como troca simpática (conforme A. Smith), o que resultou em uma dominante era incompatível com a existência dapedagogia moral segundo a qual, era a vontade que dirigia para esta crença; (2º)já na economia política (materialismo abstrato), em que a apreensão das formas sociedade, conforme ficou registrado n’O Manifestoera o método, sustentou-se a crença em que o ouro e o dinheiro constituía ariqueza, culminando em uma pedagogia articuladora da defesa da diferença do Partido Comunista:como natural (segundo D. Ricardo). Essas reflexões foram apresentadas nocurso Tópicos especiais em Educação: a construção do método em Karl Marx, O trabalhador moderno, pelo contrário, em vez deministrado pela prof. Dra. Guaraciaba A. Tullio, em 2005, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá; este artigo é crescer com o progresso da indústria, enterrou-sefruto das discussões deste curso e foi apresentado como requisito para aconclusão do mesmo. sempre mais fundo, abaixo das condições deActa Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  2. 2. 196 Pirateli existência de sua própria classe. Tornou-se pobre e a movimentos decadentes, como que “curandeiros” pobreza cresce mais rápido do que população e sociais que não queriam de forma alguma tocar no riqueza. E aqui torna-se evidente que a burguesia é capital e no lucro para acabar com a miséria. Assim, inapta para ser a classe governante da sociedade e o comunismo apresentou-se como o contraponto, para impor suas condições de existência à sociedade pois propunha a transformação fundamental da como uma lei primordial. É inapta para governar sociedade, uma revolução, e para tal, a emancipação porque é incompetente para assegurar uma operária tinha de ser feita pela própria classe operária existência para os seus escravos dentro da (Engels, 19--b, p. 19). escravatura; porque não consegue evitar de deixá-lo Daí, o ponto de partida do Manifesto ser a posição afundar em tal estado, pois ela tem de alimentá-lo, e o movimento do “outro do capital”, o proletariado, em vez de ser alimentada por ele. A sociedade não aquele que deveria ser o agente desarticulador da pode mais viver sob esta burguesia, em outras última forma histórica de luta de classes (Del Roio, palavras, a sua existência não é compatível com a 1998, p. 5). sociedade (Marx e Engels, 1998, p. 27-28). É válido lembrar que, após a morte de Marx, Engels atribuiu ao seu camarada a primazia da teoria No final de 1847, a Liga dos Comunistas2 – uma exposta no Manifesto. Isto ficou relatado no Prefácio àliga secreta e conspiratória formada por operários edição alemã de 1883: “[...] este pensamento[“Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do fundamental pertence única e exclusivamente acomunismo”] – foi transformada em suas estruturas, Marx” (Engels, 19--b, p. 17).tornando-se uma organização propagandista No mesmo ano, no Discurso diante da sepultura decomunista. Isto posto, coube a dois de seus Marx, Engels já havia ressaltado a importância dopartidários, Marx, com 30 anos, e Engels, com 28, a método de Marx para a análise histórica daredação do seu novo programa, chamado de humanidade:Manifesto do Partido Comunista, cujo conteúdo teóricoe prático apresentou as bases para a convocação Assim como Darwin descobriu a lei dorevolucionária dos proletários. Isto ficou relatado desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da históriapelos próprios autores no Prefácio à edição alemã de humana: o fato tão simples, mas que até ele se1872: mantinha oculto pelo ervaçal ideológico, de que o A Liga dos Comunistas, união operária internacional homem precisa, em primeiro lugar, comer, beber, que, evidentemente, não podia deixar de ser secreta, ter um teto e vestir-se antes de poder fazer política, devido às condições do momento, encarregou os ciência, arte, religião, etc; que, portanto, a produção abaixo assinados [Marx e Engels], no Congresso de dos meios de subsistência imediatos, materiais e, por Londres, em novembro de 1847, de redigir e conseguinte, a correspondente fase econômica de publicar um programa pormenorizado do partido, ao desenvolvimento de um povo ou de uma época é a mesmo tempo teórico e prático (Marx e Engels, 19--, base a partir da qual se desenvolveram as instituições p. 13). políticas, as concepções jurídicas, as idéias artísticas e inclusive as idéias religiosas dos homens e de acordo Engels, no seu Prefácio à edição alemã de 1890 do com a qual devem, portanto, explicar-se; e não aoManifesto, esclareceu a diferença entre comunismo e contrário, como se vinha fazendo até então (Engels,socialismo em 1847. Para ele [e também para Marx], 19--c, p. 351).o socialismo não passava de um movimento A partir disto, pretendeu-se com este artigoburguês, enquanto que o comunismo era um elucidar o processo prático/teórico do métodomovimento operário. O primeiro, de teor utópico, marxiano (da história) apontando para o seuera dividido entre socialistas como os owenistas comprometimento com a transformação social, ouingleses e os fourieristas franceses, que, eram para o seu conceito de crise, crítica e práxis3; e, para tanto, centrou-se em investigar o caráter educativo2 Marx e Engels, em 1847, pertenciam ao grupo chamado Liga dos Justos (Bund do texto do Manifesto do Partido Comunista, isto é,der Gerechten), originada da antiga Liga dos Fora-da-Lei (Bund der Geächten) –uma sociedade secreta de pretensões revolucionárias – que fora funda em Paris identificar alguns pontos que levariam à formação dona década de 1830 por artífices alemães (sobretudo alfaiates e carpinteiros) soba influência de revolucionários franceses (que em sua maioria eram artesãos revolucionário.expatriados); a partir daí, essa sociedade, levada por seu “comunismo crítico”, Além do Manifesto – nossa principal fonte –empenhou-se no desenvolvimento de sua organização no verão de 1847 sob ainfluência de Marx e Engels, mudando seu nome para Liga dos Comunistas utilizaram-se também dois Prefácios escritos por(Bund der Kommunisten). No seu primeiro congresso, em Londres, lançou seusobjetivos, dentre os mais expressivos pode-se destacar: (1) a derrubada daburguesia; (2) a realização de um governo proletário; (3) a eliminação da velhasociedade, de classes; (4) uma nova sociedade, sem a propriedade privada. 3Posteriormente, no seu segundo congresso, também ocorrido em Londres, entre Em virtude disso, apesar do subitem “Crítica, crise, práxis [começando osnovembro e dezembro de 1847, além de reafirmar os seus objetivos, a Liga esboços de uma conclusão]” deste artigo ter-se apontado para uma tentativa deconvidou Marx e Engels para a elaboração de um manifesto que englobasse as conclusão, as categorias crítica, crise e práxis perpassam todo o texto –metas políticas da Liga (Cf. Hobsbawm, 2004, p. 293). implicitamente – conforme foram se revelando a partir do Manifesto.Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  3. 3. O Manifesto do Partido Comunista e a Educação 197Marx e Engels (da edição alemã de 1872 e da edição obstinado dos bárbaros contra os estrangeiros arussa de 1882) e os Prefácios escritos somente por capitular. Compele todas as nações, sob pena deEngels (das edições alemãs de 1883 e de 1890), assim extinção, a adotar o modo de produção burguês. Compele-as a introduzirem o que chama decomo o seu Discurso diante da sepultura de Marx de civilização no seu meio, ou seja, a se tornarem1883. burguesas. Resumindo, cria um mundo à sua imagem (Marx e Engels, 1998, p. 15).A época da burguesia e a classe operária [a unidadedos contrários] A burguesia durante o seu domínio de quase cem anos, criou mais forças produtivas mais maciças e Quando a corporação medieval não respondia mais colossais do que todas as gerações precedentesmais às necessidades de seu tempo, a burguesia, juntas. Sujeição das forças da natureza pelo homem,oriunda deste período, surgia como força maquinarias, aplicação da química na indústria e narevolucionária. Com o crescimento do mercado, os agricultura, navegação a vapor, estradas de ferro,descobrimentos marítimos, o mercantilismo, a telégrafo, remoção do cultivo de continentes inteiros, canalização de rios, populações inteirasprodução industrial e o desenvolvimento da conjuradas fora de suas áreas – que século anteriorburguesia, decorreu-se a constituição de um novo teve mesmo que fosse um pressentimento de quemodo de produção. tais forças produtivas ficariam inativas no colo do Com este lastro, a burguesia findou com as labor social? (Marx e Engels, 1998, p. 15).relações feudais (troca simples) ao converter tudoem valor de troca, tudo passou à sujeição de uma A história, que segundo Marx foi definida comoexploração aberta, em que o homem é o próprio um antagonismo (desde a Antigüidade até a redaçãovalor de troca, ou a mais-valia: trabalho operado e do Manifesto), não deixou de ser diferente com anão pago; toda “profissão” passou a ser assalariada, sociedade burguesa, que a partir de uma nova formaem síntese, toda relação foi “varrida”. Dessa forma, de exploração, colocou na ordem do dia novasMarx pretendeu apreender as tendências – crise e classes em luta. A sua especificidade foi bipolarizarexpansão monopolista – do capitalismo e sua esse antagonismo em burguesia e proletariado:essência4, desvendando, assim, a sociedade capitalista Nossa época – a época da burguesia – distingue-se,e como ela se desmancha [“Tudo o que é sólido se contudo, por ter simplificado os antagonismos dedesfaz no ar”, sentenciaram, laconicamente, Marx e classe. A sociedade se divide cada vez mais em doisEngels]. grandes campos inimigos, em duas classes que se opõem frontalmente: burguesia e proletariado (Marx [a burguesia] Converteu mérito pessoal em valor de e Engels, 1998, p. 10). troca. [...] desnudou de sua auréola toda ocupação até agora honrada e admirada com respeito O Manifesto começa apresentando a burguesia reverente. Converteu o médico, o advogado, o como a condutora do processo produtivo, mas sem padre, o poeta e o cientista em seus operários dar conta de que estaria gerando o seu algoz. Diante assalariados (Marx e Engels, 1998, p. 12-13). desta situação, o texto de Marx e Engels apresentou Nesse processo, transformou a sociedade feudal dois pontos interligados entre si: a consolidação dotida como desigual e hierárquica, portanto, poder político burguês e o proletariado como sujeitoincompatível com o mercado do capital que estava se autônomo e dotado de interesses próprios (Deldesenvolvendo. Para assegurar sua consolidação, Roio, 1998, p. 5-6).civilizou o mundo ao seu modo de produção, criou A existência e o domínio da burguesia estavammais forças produtivas: sustentados nas relações de propriedade. Propriedade que era assegurada pelo Estado5, A burguesia, pelo aperfeiçoamento rápido de todos instituição mantenedora da ordem e o poder os instrumentos de produção, pelos meios de burguês: “O poder executivo do Estado moderno comunicação imensamente facilitados, arrasta todas não passa de um comitê para gerenciar os assuntos as nações, até a mais bárbara, para a civilização. Os preços baratos de suas mercadorias são artilharia comuns de toda a burguesia” (Marx e Engels, 1998, pesada com a qual derrubam até mesmo a muralha p. 12). da China, com que forçam o ódio intenso e No entanto, com o desenvolvimento do capital,4 5 No Prefácio da primeira edição de O Capital, Marx expôs que a produção da Marx, ao definir este seu conceito de Estado, se opôs veementemente a Hegel,pobreza está na essência do capital, isto é, não aponta como certo ou errado, pois este, em seu livro Princípios da filosofia do direito, apresentou o Estadomas apenas como sua forma de ser: “Intrinsecamente, a questão que se debate como a materialização do interesse geral da sociedade; Marx, ao contrário,aqui não é o maior ou menor grau de desenvolvimento dos antagonismos sociais rejeitou tudo isto em seu livro Crítica da filosofia do direito de Hegel,oriundos das leis naturais da produção capitalista, mas estas leis naturais, estas argumentando que o Estado, além de não representar o interesse geral, era atendências que operam e se impõem com férrea necessidade. O país mais instituição que visava assegurar e conservar a dominação e exploração dedesenvolvido não faz mais do que representar a imagem futura do menos classe, isto é, instrumento da classe dominante para a conservação dadesenvolvido” (Marx, 2001, p. 16). propriedade (Cf. Miliband, 2001, p. 134).Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  4. 4. 198 Piratelise desenvolvia, lado a lado, o proletariado, o que Longo processo que parte da rebelião individual,poderia lhe significar a própria morte: “Mas a passa pelas lutas econômicas locais e setoriais, deburguesia não só forjou as armas que trazem a morte início informais, depois cada vez mais bem organizados por associações operárias, até chegar apara si própria, como também criou os homens que ‘uma luta nacional, [...] uma luta de classe’, que deveirão empunhar estas armas: a classe trabalhadora ser também luta política pelo poder (Hobsbawm,moderna, o proletariado” (Marx e Engels, 1998, p. 1987, p. 314).19). Pelo Manifesto, percebe-se que com o triunfo da O desenvolvimento do proletariado estava ligadoburguesia viera o anúncio de seu declínio (Vilar, ao desenvolvimento da indústria, isto porque o seu1987, p. 115) cuja base era o excesso de riqueza. A crescimento e concentração lhe garantiram oderrocada desta sociedade seria determinada pelas crescimento de sua força, e, como se registrou nocontradições internas do desenvolvimento capitalista Manifesto: o proletariado sentia mais essa força. Como foi o caso de combinações entre ose pela geração do agente revolucionário, o trabalhadores na forma de sindicatos e associações.proletariado. E, quando o trabalhador se viu substituído pela À mercê do mercado, o trabalhador se tornara maquinaria, levando à redução dos salários, a colisãouma mercadoria. Não só isso, por causa do uso da entre ambas as classes se tornou iminente:maquinaria e à divisão do trabalho, passou a ser,também, um apêndice da máquina. Dessa forma, As melhorias incessantes da maquinaria, semprecom a indústria moderna, os trabalhadores são desenvolvendo-se mais rápido, torna o seu meio de vida mais e mais precário. As colisões entrearticulados como tropas e postos como “escravos” do indivíduos trabalhadores e indivíduos burguesessistema produtivo. toma cada vez mais o caráter de colisão entre duas Não são somente escravos da classe burguesa e do classes (Marx e Engels, 1998, p. 23). Estado burguês, mas são, a todo dia e a toda hora Como luta de classe, o embate entre burguesia e escravizados pela máquina, pelo supervisor e, acima de todos, pelo próprio indivíduo fabricante burguês. proletariado foi uma luta política. Daí o proletariado Quanto mais abertamente este despotismo proclama ao ter-se organizado constituiu-se em partido que o ganho é o seu fim e a sua meta, tanto mais político, tendo em vista o seu reconhecimento mesquinho, tanto mais odioso e tanto mais amargo legislativo. Além disso, a burguesia, que em sua ele se torna (Marx e Engels, 1998, p. 20). constante batalha contra a velha sociedade e porções No campo da competição do capital e com a da própria burguesia, ao trazer o proletariado paraindústria moderna dos grandes capitalistas, todas as apoiá-la, muniu-o de educação política que, emclasses da população foram inseridas no proletariado, suma, significava armar o próprio algoz.fossem da classe média baixa, pequenos Ao perceberem isto, Marx e Engels (nos anos 40) identificaram o fim derradeiro para a luta de classes;comerciantes, lojistas, artífices, entre outros. Em face seria a hora decisiva em que o proletariado, frutodisso, nascido o proletariado, simultaneamente, mais fidedigno da indústria moderna, aparecerianascia a luta contra a burguesia, conforme como a verdadeira e única classe revolucionária:apontaram Marx e Engels: “O proletariado passa porvários estágios de desenvolvimento. Com seu De todas as classes que se põem frente a frente hojenascimento, começa a sua luta com a burguesia” com a burguesia, somente o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As outras classes(Marx e Engels, 1998, p. 21). declinam e, finalmente, desaparecem frente à Todavia, no início das revoltas das forças indústria moderna. O proletariado é o seu produtoprodutivas, o que ocorreram foram lutas não contra mais autêntico (Marx e Engels, 1998, p. 25).a burguesia, mas contra os inimigos da burguesia(descendente da Monarquia Absoluta), ou seja, os Cabia, assim, ao proletariado, classe com otrabalhadores eram uma massa incoerente, pois sua “futuro nas mãos”, dar cabo ao modo de produçãovitória significava vitória para a burguesia. capitalista. Mesmo gerado junto à burguesia, o proletariado consciência] Revolução e Educação [a aurora da consciência]ainda não podia emergir como o agenterevolucionário, tendo em vista o seu A história entendida como luta de classes possuídesenvolvimento não ter chegado ao termo, e isto uma importância significativa para os ideaissomente ocorreria – segundo o Manifesto – após um revolucionários comunistas. O dominador, detentorlongo processo, conforme argüiu o historiador Eric do progresso histórico, constituiu-se em umaJ. Hobsbawm: minoria, enquanto que o dominado, a grandeActa Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  5. 5. O Manifesto do Partido Comunista e a Educação 199maioria, estava condenada a trabalhar para aumentar homens produzirem sua existência. No entanto, asa riqueza de seu opressor. Dessa forma, ao tomar relações sociais burguesas estão assentadas sobre aconsciência desta exploração, cabia ao operariado dar propriedade privada dos meios de produção, razão pela qual a universalidade do ser social não podefim a esta dinâmica histórica, antagônica. alcançar a sua plenitude. Enquanto a força produtiva Conforme expôs Engels, décadas após a redação é socializada, apropriação da riqueza faz-se por duasdo Manifesto (em junho de 1877) no almanaque formas, salário e lucro, o que impossibilita aVolkskalender, ao escrever o pequeno texto intitulado igualdade entre todos os homens. O salário é aKarl Marx: manutenção da classe proletária e o lucro, da classe burguesa; a manutenção desta dicotomia conduz o A direção histórica passou para as mãos do ser social a uma situação de degeneração. O modo de proletariado, uma classe que, por tôda a sua situação produção que explicita os elementos do ser social, ao dentro da sociedade, só pode emancipar-se pondo continuar reproduzindo-se, na atualidade, degenera- fim por completo a tôda dominação de classe, todo o e conduz os homens a um estado de barbárie, pois, avassalamento e tôda exploração; e de que as forças ao desvincular os homens do capital, impede-os de produtivas da sociedade, que crescem até escapar das voltar ao que eram, sem, ainda, saber o que serão mãos da burguesia, só está esperando que o (Aued , 1999, p. 111). proletariado associado tome-as sob seu poder para que se crie um estado de coisas que permita a cada Dessa forma, com o desenvolvimento membro da sociedade participar não só na produção, continental do capitalismo, a revolução não dependia mas também na distribuição e na administração das somente dos revolucionários, tinha de ser européia. riquezas sociais (Engels, 19--d, p. 346). Não obstante, o internacionalismo do comunismo Com isso, o Manifesto apresentou a meta era a razão de ser do próprio movimentoimediata do comunismo: “A meta imediata dos revolucionário: “Sendo o apelo no Manifesto paracomunistas é a mesma de todos os outros partidos que todos os trabalhadores se unissem eproletários: a formação do proletariado em uma expressassem uma independência de classe, umaclasse, a derrubada da supremacia burguesa, a unidade da diversidade, uma condição necessáriaconquista do poder político pelo proletariado” para a revolução mundial” (Ferreira, 1998, p. 20).(Marx e Engels, 1998, p. 30). Segundo Engels, a Liga dos Comunistas foi a E como os seus objetivos eram imediatos, primeira a pôr em prática o caráter internacional docolocou na ordem do dia deveres ao proletariado: movimento operário – pois nela encontravam-seprimeiro, conquistar a supremacia política; ingleses, belgas, húngaros, poloneses, entre outros –posteriormente, erguer-se como classe líder da e que chegou até a formar assembléias internacionaisnação; e por fim, constituir ele próprio uma nação (Engels, 19--d, p. 340).(Marx e Engels, 1998, p. 39). Como na prática entre os partidos operários, o Segundo o Manifesto, o espaço propício à partido comunista era tido como o mais avançado,revolução somente se daria onde o capital se impôs e cabia-lhe a ação revolucionária. É significativose consolidou, isto porque o proletariado – agente ressaltar as duas especificidades destacadas norevolucionário – foi gerado no processo produtivo Manifesto, e que diferenciavam o partido comunistaburguês e, portanto, se encontraria onde estava a dos demais:grande indústria, ou onde esta estava em vias de se 1. Nas lutas nacionais de proletários de paísesfinalizar. Daí, em 1848, a zona revolucionária diferentes, eles ressaltam e apresentam os interessesconvocada pelo Manifesto [“proletários de todos os comuns de todo o proletariado, independente depaíses, uni-vos”] ser, sobretudo, a Inglaterra, França, nacionalidade. 2. Nos vários estágios deBélgica, Alemanha, Itália e Boêmia (Hobsbawm, desenvolvimento que a classe trabalhadora atravessa1996, p. 6). em sua luta contra a burguesia, eles representam Para tanto, é preciso compreender que o homem sempre o interesse do movimento como um todo (Marx e Engels, 1998, p. 29).é ser social quando sua forma é universal (comoforma única), naquele caso, na forma capitalista. Essa Para que o proletariado pudesse se constituir emforma universal, para Marx, na condição de seu classe e partido político, Marx e Engels apontarampleno desenvolvimento, e diante da crise, levou o no Manifesto que, necessariamente, o proletariadoproletariado a um impasse que, em vias de fato, o deveria estar associado e dotado de uma aspiraçãolevaria a dois caminhos: comunismo ou barbárie. coletiva fundamentado num programa político. Com a produção social, os homens engendram Seguindo esse lastro, a tarefa de Marx, Engels e a também as relações sociais. O modo de produção Liga dos Comunistas, seria fazer do proletariado: o capitalista é, portanto, a primeira forma social de os revolucionário; isto mediante a um movimento deActa Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  6. 6. 200 Pirateliclasse destruidora do modo de produção burguês. É teórica, que, por extensão, levava à práxisaqui que identificamos a educação no Manifesto do revolucionária. “Marx antecipa no Manifesto estaPartido Comunista: formar o revolucionário. preocupação que lhe acompanhará por toda a vida e que pode ser sintetizada na expressão de Lênin, Nos tempos de Marx a tarefa essencial – tal como previsto por ele e por Engels – consistia em segundo a qual, sem teoria revolucionária não pode generalizar o movimento operário, até transformá-lo haver revolução” (Freitas , 1998, p. 14). em movimento de classe, fazendo emergir o objetivo No final da primeira seção do Manifesto, Marx e implícito em sua própria existência, ou seja a Engels apresentam alguns pontos – dos quais substituição do capitalismo pelo comunismo, como organizamos em três itens – fundamentais na partido operário distinto de qualquer outro partido tomada de consciência para a formação do das classes possuidoras e voltado para a conquista do revolucionário. poder político (Hobsbawm, 1987, p. 325). (1) O proletariado tinha de ter conta de que a Mas para que a revolução ocorresse era propriedade privada estava sob posse de apenas 10%necessário que o proletariado tomasse consciência de da população, ou seja, ele não a possuía, daí aque era explorado, de que o trabalho assalariado não necessidade de extinção da propriedade privada:resultava em propriedade para o trabalhador; não só Vocês estão horrorizados com a nossa intenção deisso, tinha de estar ciente que o seu trabalho garantia acabar com a propriedade privada. Mas na suaa propriedade que explorava seu trabalho, e que caso sociedade, a propriedade privada já acabou para novegerasse alguma coisa seria um outro trabalho décimos da população. A sua existência para osassalariado para nova exploração (Marx e Engels, poucos deve-se simplesmente à sua não existência1998, p. 31). Esse papel de educação/formação do para estes nove décimos. Vocês nos condenam, portanto, pela intenção de acabar com uma forma detrabalhador, segundo Marx (ao discutir com o propriedade, a condição necessária para aqueles cujasindicato dos trabalhadores na Alemanha), não devia existência é a não existência de qualquer propriedadeocorrer por meio da escola, mas no partido[!], haja para a maioria imensa da sociedade. Em resumo, vocêvista a educação estatal ser burguesa. condena nossa intenção de acabar com a sua propriedade. Daí a educação no Manifesto passar pela formação Precisamente isso. É essa, exatamente, a nossa intençãoda consciência dos trabalhadores: (Marx e Engels, 1998, p. 34). Mas não cessa, nem mesmo por um instante, sua No Prefácio à edição russa de 1882 do Manifesto, tarefa de formar nos trabalhadores uma consciência, Marx e Engels confirmaram esta audaciosa proposta: tão clara quanto possível, do antagonismo hostil “O Manifesto Comunista propôs-se como tarefa entre burguesia e proletariado, a fim de que os proclamar a desaparição próxima e inevitável da trabalhadores [...] possam voltar sua armas contra a burguesia – armas estas que são as condições moderna propriedade burguesa” (Marx e Engels, 19- políticas e sociais das quais a burguesia necessita para -, p. 16). manter o seu domínio – e que assim tenha início Além disso, o proletariado não deveria ser patrão imediatamente [...] a luta contra a própria burguesia das forças produtivas ao destituir a propriedade (Marx e Engels, 1998, p. 62). individual, pois no comunismo o trabalhador não Nesse sentido, o Manifesto trazia em seu conteúdo deveria subjulgar o outro, entretanto promover auma dimensão política que deveria desenvolver-se no existência do trabalhador.interior da Liga dos Comunistas e que passava por Os proletários não podem se tornar patrões dasuma consciência crítica das classes sociais formadas na forças produtivas da sociedade, exceto abolindo seusdivisão do trabalho: fundamentado na propriedade próprios meios de apropriação anteriores e, de tal(Ferreira, 1998, p. 20). modo, também todos e quaisquer outros modos de O Prefácio à edição alemã de 1890 do Manifesto, apropriação anteriores. Eles nada têm para assegurarescrito por Engels – Marx já havia falecido –, fez e fortificar. A missão deles é destruir todas asmenção à importância que Marx atribuiu ao garantias e seguranças da propriedade individual (Marx e Engels, 19--, p. 26).desenvolvimento intelectual da classe operária para arealização da revolução: “Marx confiava a vitória Na sociedade burguesa, trabalho para viver não passa dedefinitiva das proposições insertas no Manifesto um meio de aumentar o trabalho acumulado. Naunicamente ao desenvolvimento intelectual da classe sociedade comunista, trabalho acumulado não passa deoperária, o qual devia resultar da comunidade, da um meio de ampliar, enriquecer, promover a existência do trabalhador (Marx e Engels, 19--, p. 33).ação e de discussão” (Engels, 19--b, p. 18). Portanto, para fazer do proletariado um Deste modo, era preciso a abolição darevolucionário, era necessária uma consciência individualidade, independência e liberdade burguesa,Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  7. 7. O Manifesto do Partido Comunista e a Educação 201que, em síntese, eram conceitos elaborados pela própria (materializada em associações de trabalhadores), oburguesia tendo em vista seus costumes. Manifesto não previa, num primeiro momento, o fim (2) O proletariado como revolucionário deveria dar da competição no interior da classe social, pois ouma guinada nos movimentos históricos que, em vias sistema capitalista ainda estaria se reproduzindo;de fato, eram os interesses da minoria; para isso a classe mas, teria o início do processo que destituiria a vidadominante tinha de ser destronada do poder: política burguesa pela gestão da economia pelos trabalhadores. Com o fim do Estado burguês e a Todos os movimentos históricos anteriores foram movimentos de minorias, ou no interesse de sociedade sem classes acabar-se-ia a exploração do minorias. O movimento proletário é o movimento homem pelo homem. Para isso, era necessária uma autoconsciente, independente da imensa maioria, no revolução permanente. “Trata-se, portanto, de uma interesse da imensa maioria. O proletariado, a revolução permanente nas práticas sociais que são camada mais baixa da nossa sociedade atual, não modeladoras de sociabilidade de homens novos e pode sublevar-se, não pode se revoltar, sem que toda que submetem o passado reiteradamente na a camada dominante da sociedade oficial seja construção do seu presente” (Ferreira, 1998, p. 21). arremessada no ar (Marx e Engels, 19--, p. 26-27). Na prática, a revolução tinha de ser proletária, E, para tal, a revolução comunista deveria ser social, consciente e comunista, em um processoradical: “A revolução comunista é a ruptura mais nacional, reflexivo, pois, para Marx e Engels, oradical com as relações de propriedade tradicionais. motor da luta não era a fome, isto é, mais comida ouNão surpreende que seu desenvolvimento envolva a um capitalismo mais distributivo, “mais humano”; oruptura mais radical com as idéias tradicionais” objetivo era uma república, e não qualquer uma, mas(Marx e Engels, 19--, p. 41). social e de liderança socialista e comunista O esfacelamento dos monopólios que se (Hobsbawm, 1996, p. 37).formavam se daria, para Marx e Engels, pela unidade Esse novo Estado Comunista, que em suma era odos trabalhadores. Isto ficou claro no final do proletariado organizado, deveria deter todos osManifesto, quando da convocação dos proletários para instrumentos de produção, conforme posto noque fizessem a revolução: Manifesto: Os comunistas desdenham ocultar suas opiniões e O proletariado usará a sua supremacia política para metas. Abertamente, declaram que seus fins só arrebatar, gradativamente, todo o capital da podem ser atingidos pela derrubada violenta de todas burguesia, para centralizar todos os instrumentos de as condições sociais existentes. Que a classe produção nas mãos do Estado, ou seja, do governante trema frente à revolução comunista. Os proletariado organizado como classe governante e proletários nada têm a perder fora suas correntes. para aumentar o total de forças produtivas tão rápido Têm o mundo a ganhar. Proletários de todos os quanto possível (Marx e Engels, 1998, p. 42). países, uni-vos! (Marx e Engels, 19--, p. 63). Com isto: (3) Para que isto ocorresse, o primeiro passo do O objetivo histórico imediato do proletariado assimproletariado era lutar contra a burguesia nacional constituído é a tomada do poder político, a(local), e posteriormente ao seu desenvolvimento instauração da democracia e a destituição dafinal, fazer uma revolução aberta: burguesia como classe dominante. Para que isso efetivamente ocorra é necessária a expropriação dos Apesar de não em substância, mas em forma, a luta grandes meios de produção que se tornam do proletariado contra a burguesia é antes de tudo propriedade social. Evidente que isso exige uma uma luta nacional. O proletariado de cada país atitude ditatorial e uma violação do ‘direito de precisa, claro, primeiro de tudo acertar seus assuntos propriedade’ (Del Roio, 1998, p. 6). com sua própria burguesia. Ao retratar as etapas mais gerais do desenvolvimento Todavia, as medidas que levariam à mudança no do proletariado, podemos acompanhar a guerra civil modo de produção não seriam as mesmas em todos (ora mais, ora menos velada) dentro da sociedade até o ponto em que ela irrompe em uma revolução os países, no entanto, para os países mais avançados, aberta (Marx e Engels, 19--, p. 27). o Manifesto apresentou um conjunto de 10 medidas: Isto posto, Marx e Engels não tinham dúvida de 1. Abolição da propriedade em terra e aplicação de todos os aluguéis de terra para fins públicos.que à medida que se chegasse ao término da 2. Um imposto de renda pesado progressivo ou gradual.exploração de um indivíduo pelo outro, 3. Abolição de todo direito de herança.posteriormente se chegaria ao término da exploração 4. Confisco das propriedades de todos os emigrantes ede uma nação por outra (Marx e Engels, 19--, p. 39). rebeldes. Mesmo com a conscientização da classe operária 5. Centralização do crédito nas mãos do Estado,Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  8. 8. 202 Pirateli através de um banco nacional com capital do Estado como fonte para a riqueza na grande indústria e um monopólio exclusivo. capitalista – era elemento para se chegar à nova 6. Centralização dos meios de comunicação e sociedade, comunista, desarticuladora das condições transporte nas mãos do Estado. de existência e de idéias “antigas”. De tal modo, a 7. Extensão de fábricas e de instrumentos de “idéia nova” não era um sonho, mas uma produção possuídos pelo Estado; levar o cultivo à terra inculta e a melhoria do solo em geral de acordo necessidade significativa, e, para tal, era preciso com um plano comum. exterminar o que até então existiu: a sociedade de 8. Responsabilidades iguais para todo trabalho. classes. A ontologia pleiteada traduzia-se como Estabelecer exércitos industriais, em especial para a “humanidade”. agricultura. Quando as pessoas falam de idéias que revolucionam 9. Combinar as indústrias de agricultura com a de a sociedade, não expressam o fato de, dentro da manufatura; abolição gradual das distinções entre antiga sociedade, os elementos de uma nova cidade e campo, através de uma distribuição mais sociedade terem sido criados e que a dissolução das igual da população no país. idéias antigas acompanhou a dissolução das 10. Educação gratuita para todas as crianças em escolas condições de existência antigas (Marx e Engels, públicas. Abolição do trabalho infantil em fábricas do 1998, p. 40). modo atual. Combinação de educação com produção industrial etc. (Marx e Engels, 1998, p. 42-43). A crítica, para Marx, era o instrumento que levava Em suma, o programa proletário constituía na ao conceito de crise, isto é, quanto mais o homemdesarticulação das relações sociais do modo de [proletariado] entendesse as necessidadesprodução capitalista, que não podia ser outra coisa [dever/ordem no capitalismo] atentaria para a práxis.que a destituição do princípio da propriedade A produção intelectual se metamorfoseia com aprivada e da exploração de uma classe sobre a outra. produção material: é uma. Assim, o concreto O poder proletário visa então a diluição de todo pensado tem de ser expressão do concreto (ou forma de poder político e de Estado político, o fim realidade), isto é: (cons)ciência. Simplificando, da exploração, o fim da dominação política e a consciência tem que ser ciência, e ciência da história. emergência de um Estado efetivamente público no Isto posto, o caminho de Marx foi ir do qual a liberdade humana possa se manifestar em simples/abstrato (o conhecimento só do dado) ao condições de igualdade (Del Roio, 1998, p. 7). complexo/concreto (o conhecimento respaldado por E isto, obrigatoriamente, passava pela destruição categorias históricas; por exemplo: totalidade, crise,do poder político – sinônimo de poder organizado práxis, negação da negação, acumulação, contradiçãode uma classe sobre a outra – que significava, por etc.). Daí entender que a totalidade é a unidade dosextensão, a destruição das condições de oposição de contrários:uma classe sobre a outra. Dessa forma, “no lugar dasociedade burguesa antiga, com suas classes e A história de todas as sociedades que já existiram é a história de luta de classes.antagonismos de classe, teremos uma associação, na Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor equal o desenvolvimento livre de cada um é a servo, chefe de corporação e assalariado; resumindo,condição para o desenvolvimento livre de todos” opressor e oprimido estiveram em constante(Marx e Engels, 1998, p. 44). oposição um ao outro, mantiveram sem interrupção Basicamente, a rigor, dois pontos levaram Marx a uma luta por vezes, por vezes aberta – uma luta que“idealizar” o comunismo: (1) o trabalho passado (o todas as vezes terminou com uma transformaçãoproblema da máquina), ou seja, a negação do homem revolucionária ou com a ruína das classes emcom trabalho, e, (2) a universalização do ser social, isto disputa.é, todos têm a mesma forma humana (burgueses e Nos primeiros tempos da História, por quase toda parte, encontramos uma disposição complexa daproletários). Em síntese, a ciência burguesa, ciência sociedade, em várias classes, uma variada gradação depassada para a máquina é o “ponta-pé” para o início do níveis sociais. Na Roma antiga, temos patrícios,comunismo: a máquina era a solução para Marx, pois cavaleiros, plebeus, escravos. Na Idade Média,possibilitava o tempo para os homens organizarem os senhores feudais, vassalos, chefes de corporação,rumos da sociedade sem a propriedade privada. assalariados, aprendizes, servos. Em quase todas estas classes, mais uma vez, gradações secundárias.Crítica, crise, práxis [começando os esboços de uma A sociedade burguesa moderna, que brotou dasconclusão] ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos das classes. Estabeleceu novas classes, Dessa forma, a idéia revolucionária – decorrente novas condições de opressão, novas formas de lutade sua existência material que era a do trabalho no lugar das antigas (Marx e Engels, 1998, p. 9).Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  9. 9. O Manifesto do Partido Comunista e a Educação 203 Com isso, Marx pretendeu demonstrar que as da classe burguesa é a formação e o crescimento decircunstâncias não são naturais, porém expressões capital. A condição para o capital é o trabalhohistóricas de uma totalidade, o que entendeu como assalariado. O trabalho assalariado fundamenta-se exclusivamente na competição entre osum desenvolvimento que em seu pensamento foi a trabalhadores. O avanço da indústria, cujo promotorcompreensão de um movimento que apontava para a involuntário é a burguesia, substitui o isolamentocrise. dos trabalhadores, devido à competição, pela Em face disto, a práxis, neste caso, fazer combinação revolucionária, devido à associação. Orevolução, não estava separada da consciência de desenvolvimento da indústria moderna, portanto,classe operária – que segundo Hobsbawm (1996, p. tira de sob seus pés a própria fundação sobre a qual a45), em 1848, o proletariado já havia começado a burguesia produz e apropria-se de produtos. O que atomar essa consciência – conforme testemunho de burguesia, portanto, produz, acima de tudo, é seusEngels no seu Discurso diante da sepultura de Marx: próprios coveiros. A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis (Marx e Pois Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Engels, 1998, p. 28). Cooperar, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições políticas por Isto posto, a práxis para Marx – diferente do ela criadas, contribuir para a emancipação do projeto de socialismo utópico destituído de proletariado moderno, a quem ele havia infundido pela consciência da essência do capital, o caso de primeira vez a consciência de sua própria situação e de Proudhon, por exemplo6 – teve início em sua crítica, suas necessidades, a consciência das condições de sua o que levou à ultrapassagem da filosofia especulativa emancipação: tal era a verdadeira missão de sua vida na medida em que caminhou para uma teoria social (Engels, 19--c, p. 352). (Netto, 2004, p. 14-15), respaldada pelo movimento Importa considerar que o capitalismo, para Marx, histórico da crise. Em suma, a teoria nasce da práticavai até o século XVIII, na sua forma “perfeita”: a e tem uma finalidade prática.mais-valia absoluta. Fora disso, é a crise (século O importante para Marx é você saber a diferença deXIX), em que os homens são substituídos pela uma sociedade para outra. O índio era caçador emáquina, isto é, a mais-valia relativa. Mas isto estava pescador porque na sua forma de vida caçava enas entranhas do capital, pois este procurava superar pescava para a sobrevivência. Esta era a produção social: a caça e a pesca como valor de uso. A flechaos seus limites tendo em vista a maximização do correspondia a esta forma produtiva. A vida na tribolucro, o que no âmbito da mais-valia era a superação não era uma forma atrasada nem adiantada de vida.na forma de trabalho morto: a morte do trabalho Era produtivamente diferente. Só quando sabemos avivo já estava implícito. diferença da produção social de uma sociedade para a outra é que podemos, como homem político, como teórico que quer É exatamente isso que Marx demonstra na “Lei entender para mexer na sociedade, agir para transformar. Geral da Acumulação Capitalista”: o movimento de Fora desta compreensão podemos até agir, mas acumulação do capital, na medida em que implica agimos movidos pela filosofia da especulação, agimos elevação contínua da produtividade do trabalho e em nome da justiça (Tullio, 2005, p. 2). elevação contínua da composição técnica e orgânica do capital; na medida em que se funda numa base Em síntese o Manifesto apresentou à classe técnica em que a “arte produtiva” está concentrada trabalhadora que a base da história política e intelectual no capital e plasmada nas máquinas, o que determina decorria da produção econômica e da estrutura social a desqualificação e o entorpecimento do trabalho de cada época histórica, e que, “a história de todas as vivo; na medida em que avança progressivamente, sociedades que já existiram é a história de luta de destruindo formas pretéritas de produção e tornando “livre” os produtos diretos – o movimento de classes”, entre opressor e oprimido. No entanto, o acumulação, por sua própria dinâmica interna, cria antagonismo entre as classes havia chegado num não só a demanda como também a oferta de estágio em que o oprimido, o proletariado, somente trabalho, regulando ao mesmo tempo os salários, poderia se libertar do opressor, a burguesia, na medida sem passar por formas de coerção extra-econômicas em que libertasse toda a sociedade da exploração, (Mazzucchelli , 1985, p. 19). opressão e lutas: a crise (do capitalismo) era o momento histórico que dava condições do novo que A possibilidade de revolucionar estava garantida ao nasce das entranhas do velho transformá-lo.proletariado na medida em que foi agrupado pelagrande indústria, levado à combinação revolucionária. 6Como a própria burguesia havia produzido seu Marx em sua carta a Paul V. Annenkov, [Bruxelas] 28 de dezembro de 1846, escreveu que: “O sr. Proudhon não nos oferece uma crítica falsa da economia política,coveiro, cabia a este tomar o seu papel histórico: pelo fato de basear-se em uma filosofia ridícula; oferece-nos, isso sim, uma filosofia ridícula porque não compreendeu a situação social de nossa época em sua engrenagem (engrènement), se quisermos empregar essa palavra que, como A condição essencial para a existência e para o poder inúmeras coisas, o sr. Proudhon foi buscar em Fourier” (Marx, 19--, p. 244).Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007
  10. 10. 204 Pirateli proletáriaConsiderações finais [a revolução proletária sem In: AUED, I.M. (Ed.). Educação para o (des) emprego: (ousaída;saída; a revolução como única saída] quando estar liberto da necessidade de emprego é um tormento). Petrópolis: Vozes, 1999. p. 109-131. Após a revolução de fevereiro de 1848, entre as DEL ROIO, M. Três momentos de atualidade dohipóteses que se apresentavam no Manifesto, pode-se Manifesto Comunista. πάντα ρέι. Revista da ADUEL,dizer que ele acertou ao dizer que a crise dos velhos Londrina, v. 3, n. 1, p. 5-10, jan.-jul., 1998.regimes levaria a uma revolução social, contudo, ENGELS, F. Cartas: Engels a Mehring. In: MARX, K.;errou ao dizer que o desenvolvimento do ENGELS, F. (Ed.). Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega,capitalismo resultaria numa revolução vitoriosa do 19--a. v. 3, p. 292-296.proletariado (Hobsbawm, 1987, p. 319). ENGELS, F. Prefácios (Manifesto do Partido Comunista). Com a derrota do proletariado, o destino do In: MARX, K.; ENGELS, F. (Ed.). Obras escolhidas. SãoManifesto não foi outro senão o seu desaparecimento Paulo: Alfa-Omega, 19--b. v. 1.do cenário político, conforme relatou Engels no ENGELS, F. Discurso diante da sepultura de Marx. In:Prefácio à edição alemã de 1890: MARX, K.; ENGELS, F. (Ed.). Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, 19--c. v. 2. O Manifesto tem a sua própria história. Saudado ENGELS, F. Karl Marx. In: ENGELS, F. (Ed.). Obras com entusiasmo, quando apareceu, pela vanguarda escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, 19--d. v. 2. então pouco numerosa do socialismo científico FERREIRA, P.R. O manifesto comunista e a transformação (como o provam as traduções mencionadas no social. πάντα ρέι. Revista da ADUEL, Londrina, v. 3, n. 1, primeiro prefácio), foi logo posto em segundo plano p. 19-23, 1998. pela reação que se seguiu à derrota dos operários parisienses de 1848 e enfim proscrito “pela lei”, com FREITAS, P.J. De volta para o futuro. πάντα ρέι. Revista da a condenação dos comunistas de Colônia em ADUEL, Londrina, v. 3, n. 1, p. 13-16, 1998. novembro de 1852. Com o desaparecimento, do HOBSBAWM, E.J. Aspectos políticos da transição do cenário público, do movimento operário que data da capitalismo ao socialismo. In: HOBSBAWM, E.J. (Org.). Revolução de Fevereiro, o Manifesto desapareceu História do marxismo: o marxismo no tempo de Marx. 3. ed. 7 também da cena política (Engels, 19--b, p. 18) . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. v. 1. p. 301-346. HOBSBAWM, E.J. A era do capital: 1848-1875. 5ª ed. Rio A rigor, na circunferência da pedagogia [para de Janeiro: Paz e Terra, 1996.Marx], a educação tinha de derrubar e/ou HOBSBAWM, E.J. Sobre história. São Paulo: Companhiadesmistificar a lei de natureza (ou tudo o que é tido das Letras, 2004.como natural) e as ideologias (projeto político: luta MARX, K. Cartas: Marx a P. V. Annenkov. In: MARX, K.;de classes), conforme asseverou Engels em carta ENGELS, F. (Ed.). Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-endereçada a Mehring, [(Longres) 14 de julho de Omega, 19-. v. 3.1893]: “A ideologia é um processo que o chamado MARX, K.; ENGELS, F. Prefácios (Manifesto do Partidopensador realiza conscientemente, é verdade, mas Comunista). In: Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, 19--.levado por uma consciência falsa. As verdadeiras v. 1.forças propulsoras que o põem em movimento MARX, K.; ENGELS, F. O Manifesto Comunista. 5ª ed. Riopermanecem ocultas para êle. Se não fôsse assim, de Janeiro: Paz e Terra, 1998. (Coleção leitura).não se tratava de um processo ideológico” (Engels, MARX, K. O Capital: crítica da economia política. Livro19--a, p. 293). Para além disso, era preciso expurgar primeiro: O processo de produção do capital. Rio detoda adjetivação dada ao homem (escravo, servo, Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. v. 1.livre, entre outros) para se chegar à definição de MAZZUCCHELLI, F. A contradição em processo: o capitalismo e suas crises. São Paulo: Brasiliense, 1985.homem: era preciso despir-se disso para o homemser entendido como “humanidade”. MILIBAND, R. Estado. In: BOTTOMORE, T. (Ed.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Daí, a educação no Manifesto, ou a educação Zahar, 2001. p. 133-136.marxista, não ser outra coisa senão formar o homem NETTO, J.P. Marxismo impenitente: contribuição à históriapossuidor da (cons)ciência, do ser histórico ao ser da das idéias marxistas. São Paulo: Cortez, 2004.História, isto é, da práxis: em 1848, o revolucionário. TULLIO, G.A. Marx: o problema da crise, o problema da verdade. Maringá: [s.n.], 2005. mimeo.Referências VILAR, P. Marx e a história. In: HOBSBAWM, E.J. (Org.).AUED, I.M. Capital e emancipação humana: o ser social. História do marxismo: o marxismo no tempo de Marx. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. v. 1. p. 91-126.7 Todavia, a revolução feita pelo operariado obteve influências globais. Seusreflexos foram marcantes até mesmo no Brasil, conforme expôs o historiador EricHobsbawm: “Além disso, 1848 foi a primeira revolução potencialmente global, Received on July 19, 2007.cuja influência direta pode ser detectada na insurreição de 1848 em Pernambuco(Brasil) [...]” (Hobsbawm, 1996, p. 28). Accepted on May 05, 2007.Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 29, n. 2, p. 195-204, 2007

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