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Gota d’água
Chico Buarque e Paulo Pontes Gota d’água      Inspirado em concepção de         Oduvaldo Viana Filho           Círculo do ...
CÍRCULO DO LIVRO S.A.                 Caixa postal 7413                 São Paulo, Brasil                  Edição integral...
Dedicamos esta peça à memória       de Oduvaldo Viana Filho.
A esta altura do nosso trabalho, já com os ensaios bastanteadiantados, seria impossível levantar o mundo de intenções queG...
necessária à implantação de um modelo de organização socialtão   radicalmente     antipopular.         A       autoridade ...
Ao longo dessa história correram, paralelas e quase sempreisoladas   uma       da    outra,      duas      culturas:      ...
Se é certo que não há (ou há muito pouca) tradiçãorevolucionária no Brasil, é nítido que havia uma tradição derebeldia nas...
aqui começa a dar sentido produtivo à atividade dos setoresintelectualizados da pequena burguesia: na tecnocracia, noplane...
inflexível, estreito, que a está dirigindo e ajudou a implantá-laem passado recente. O centro da crise política que as cla...
interesses, desaparecido da vida política, o povo brasileirodeixou de ser o centro da cultura brasileira. Ficou reduzido à...
tinha responsabilidades, aliados, tinha, enfim, sentido. A aliançaresultou numa das fases mais criativas da cultura brasil...
comédia de costumes, o esquete, a revista, com a dramaturgiamais ambiciosa, como se puder. O fundamental é que a vidabrasi...
sentidos, etc. — que tomaram conta do nosso melhor teatro emanos recentes — a partir de determinado momento deixaram deser...
caso; quem fracassou foi nossa racionalidade estreita. Agora épreciso     reinstrumentalizá-la.   A   linguagem,    instru...
Paulo Pontes — Chico Buarque
A montagem original de Gota d’água, em dezembro de1975, contou com o seguinte elenco:     JOANA — BIBI FERREIRA     CREONT...
A montagem de Gota d’água em São Paulo, abril de 1977,contou com o seguinte elenco:     JOANA — BIBI FERREIRA     JASÃO — ...
Gota d’água
PRIMEIRO ATOO palco vazio com seus vários sets à vista do público; música deorquestra; no set das vizinhas, quatro mulhere...
Mas desta vez... acho que não agüenta,         pois geme e treme e trinca a dentadura         E, descomposta, chora e se e...
co’o espanto dos vizinhos,          estão os dois anjinhos...          É ver um terremoto          que só deixa aprumado  ...
Chega, Nenê, pro bem de Joana, esqueça         Senão daqui a pouco o zum-zum-zunido         de boca em boca inda chega ao ...
beberam Old Eight com Coca-Cola,        cantaram, pularam e coisas tais        Falaram do casamento, os boçais        E co...
mímica de quem se diverte muito; no set de Egeu, a oficina,entra o vizinho Xulé; esta ação vai para primeiro plano.XULÉ — ...
EGEU — É verdadeXULÉ — Alguém tem que falar com seu Creonte        A gente vive nessa divisão        Se subtrai, se multip...
ZAÍRA — ...em homem nunca confieiCORINA — Não sei como vai ser...MARIA — Depois Exu        Caveira pega esse traste...CORI...
Nenê...MARIA — O que Joana passou pr’esse cara         era pro cara, nem sei...ZAÍRA — Era pr’esse        cara arrancar os...
XULÉ — Inveja do Cacetão...CACETÃO — Um brinde especial            ao único de nós, fodidos, sem escolha,            que, ...
Seguem mimicando; primeiro plano passa para a oficina, ondejá está o vizinho Amorim; Egeu fala sempre sem parar deconserta...
ele está certo, tem que aproveitar a onda        É bom menino, sabe o que é necessidade,        faz bem em se casar co’a f...
Aqui, ó...Primeiro plano para vizinhas.CORINA — Sem falar no olhar que já faleiNENÊ — Mas você acha que ela vai fazer best...
E no auge da revolta, faz o quê? Faz nada,            joga laranja na cabeça da geralOs dois grupos param um tempo e medit...
Foi ele quem comprou o leite dos pequenosESTELA — Então vai lá, diz que nós vamos ajudar          Assim quem sabe se ela d...
EGEU — Isso eu sei... Ninguém tem grana é pra prestaçãoBOCA — É, tem que se virar...EGEU — Pois é, Boca Pequena        Tá ...
de quem tem todas as razões pra não pagarBOCA — Que merda, mestre...EGEU — Merda sim ou merda não?Boca Pequena fica um tem...
mas de faxina ela não carecia,          nem de comida e roupa, nem de dó          E que de mim queria um favor só         ...
ESTELA — Não falta quem queira entregarCORINA — O jornal esgotou nem bem saiu...          Deviam ter pudor e nem olhar    ...
XULÉ — Oi, vá sentando       e vá bebendo que Cacetão tá pagandoBOCA — Esse mês a viúva já deu dividendo?GALEGO — Más um c...
(Mostra o jornal.)             Tá aqui a boa, olha o focinho do JasãoBoca olha o jornal com interesse, enquanto o primeiro...
ZAÍRA — Esse moleque Jasão nunca me enganou Se melhorou devida não era pra dar alguma boa vida pra Joana?...Primeiro plano...
Primeiro plano para as vizinhas.CORINA — Tá calada, Nenê?Primeiro plano para o botequim.GALEGO — Yo no me meto en briga   ...
Mas a falta mais violenta           Sujeita a pena cruenta           É largar quem te alimenta           Do jeito que fez ...
saem de cena; luz vai subindo em resistência apenas no setonde estão Jasão e Alma, sua noiva; no centro desse set, umacade...
JASÃO — É o mau-olhado, com certezaALMA — Porque seus olhos não têm nada de tristeza        nem de sofrimento. Aliás, sofr...
JASÃO — Que medo?...ALMA — De ser feliz          Viveu co’a desgraça, gostou, não está a fim          de melhorar. Essa mu...
surpresa que papai me aprontou. Adivinha        quando eu abri a porta, sabe o que é que        tinha?        Tudo que é e...
JASÃO — Não, foi bonito lembrarALMA — Então, Jasão, vê se desamarra esse rosto        uma vezinha só pra mim...JASÃO — Eu ...
Jasão em posição de se sentar no trono.)ALMA — (Ri.) Jasão...JASÃO — O que é?...ALMA — Escuta o que eulhe digo:         pr...
o povo acredita naquilo só            Acaba engolindo qualquer balela            Acaba comendo sabão em pó            Imag...
CREONTE — Mas o que eu quero falar           não é isso. É coisa muito importanteJASÃO — Sobre Alma?...CREONTE — Não sei c...
Tem cadeira pra tudo que é desgraça            Os réus têm seu banco e o próprio indigente,            que nada tem, tem n...
negócio          é mais samba, música popular...CREONTE — É boa? Macia?...JASÃO — Como?...CREONTE — É gostosa             ...
tem força no mercado. Então nós vamos         montar uma editora pra controlar         os sambas de escola... Depois pegam...
(A orquestra ataca a introdução com ritmo           bem marcado; enquanto canta, Creonte vai                         ajeit...
pra ser amigo e pra ser o poder            Não queira sair por aí afora            dizendo o que pensa. Diga o contrário  ...
Você vai conversar com ele, então          Você me conhece e pode explicar          que eu trabalhei suado, honestamente  ...
Não pensa mais não           Comadre Joana           Recolhe esses dentes           Bota panos quentes           No teu co...
Minha filha não é eu de mãe Joana            Não vai fazer como fez co’a outra, não            Comeu, gozou, depois, feito...
junto e que não paga a casa faz seis                meses... essa mulher... não sei... bem, eu                sei que ela ...
Pensava assim... um diplomata,               um gerente... um tecnocrata,               tenente, major, capitão,          ...
o grito, um coro começa a cantar o samba, na coxia.VOZES   OFF   — Deixa em paz meu coração                  Que ele é um ...
levantou...ZAÍRA — Tá mais aliviada?...NENÊ — Não tá vendo elaandando?CORINA — Comadre Joana devia estar repousando,      ...
sem pai, sem pão, a casa revirada,         se eles acordam, vão olhar pra mim         Vão olhar pro mundo sem entender    ...
Vocês tão de prova: eu não sou mulher         pra macho chegar e usar como quer,         depois dizer tchau, deixando poei...
MARIA — Joana...NENÊ — Mas o que é isso?ZAÍRA — Que é isso o quê? Deixa desabafar...JOANA — Tem troco...CORINA — Comadre.....
NENÊ — Vai dormir que passaJOANA — Não leva mesmo. Eu compro essa desgraçaCORINA — Comadre, não fala assim, que aflição!JO...
parecia estar mais moço,        enquanto eu me consumiaVIZINHAS — Comadre Joana          Guarda o teu rancorJOANA — Me iam...
Jasão esperou quietinho         dez anos pra retirada         Dou mais dez pra Jasãozinho         seguir pela mesma estrad...
Jasão vem caminhando do fundo para o set da oficina; asvizinhas desaparecem com Joana e Jasão entra na oficina demestre Eg...
EGEU — Vê se agora não descamba        pra auto-suficiência. Cuidado        co’a máscara...JASÃO — Que é isso.EGEU — Olha,...
EGEU — E precisa tanto lero-lero?        Fala, menino, que é que há?... (Entregando                         uma peça do rá...
Falar um troço desses de ti...          É mais é falta do que fazer          Que é que você acha?...EGEU — Eu?...JASÃO —Di...
na administração... (Levantando.)EGEU — (Com autoridade.) Presepada,        menino... Tira esse paletó        e senta aí. ...
(Fulminado, Jasão mais cai do que senta.)        Desculpa. Joana, é como se não        vivesse mais, não dorme, não come, ...
Vem cá, vê se você é capaz        de engatar o filamento... (Jasão apanha o            rádio e começa a engatar o filament...
a fim de ganhar um ordenadomirradinho, contado, pingado...Nisso aparece um cara sabidocom um plano meio complicadopra conf...
Muito bem. O tempo vai passandoe lá vêm as taxas, caralhadasde juros, correção monetáriae não sei mais lá quanto por cento...
descobre que então passa a dever        dezoito milhões e novecentos        O jumento diz: não pode ser!        Já fiz met...
É meu compadre, é um segundo        pai pra mim. Mas seu Creonte vai ser        meu sogro, pai da mulher que vai        se...
já pode começar resolvendo        o problema da tua mulher        e teus filhos que não tão podendo        pagar...JASÃO —...
ESTELA — Ele tá aí...CORINA — Quem?...ZAÍRA — Como quem? Jasão         O safado tá lá com mestre Egeu...JOANA — Safado por...
de não pagar as casas, aquilo         tudo, hein? Controla a rapaziada?         Fala, meu mestre... Posso ir tranqüilo?EGE...
como ninguém no mundo, meninoAgora você provou de vezque já tá marcado o teu destinoEletrônica das oito às seise em noites...
Mas, Jasão, a festa é traiçoeira,        e um alçapão. Todo mundo sabe        que não há mal que nunca se acabe        nem...
No set do botequim aparece Jasão vindo da coxia; assim que ovêem os vizinhos o saúdam com entusiasmo.GALEGO — Não!...TODOS...
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Chico buarque-e-paulo-pontes-gota-d´agua

  1. 1. http://groups.google.com/group/digitalsource
  2. 2. Gota d’água
  3. 3. Chico Buarque e Paulo Pontes Gota d’água Inspirado em concepção de Oduvaldo Viana Filho Círculo do Livro
  4. 4. CÍRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 São Paulo, Brasil Edição integralCopyright © 1975 by Chico Buarque e Paulo Pontes Capa: Alfredo Aquino Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização Brasileira S.A. É proibida a venda a não-sócios do Círculo Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado em oficinas próprias 4 6 8 10 9 7 5 3
  5. 5. Dedicamos esta peça à memória de Oduvaldo Viana Filho.
  6. 6. A esta altura do nosso trabalho, já com os ensaios bastanteadiantados, seria impossível levantar o mundo de intenções queGota d’água contém — nossas, do Ratto, do elenco, de Dory eLuciano. O que não nos impede de ir pro inferno — ao contrário,ajuda. Podemos, entretanto, esquematicamente, esboçar aspreocupações fundamentais que a nossa peça procura refletir. Aprimeira e mais importante de todas se refere a uma face dasociedade brasileira que ganhou relevo nos últimos anos: aexperiência capitalista que se vem implantando aqui — radical,violentamente predatória, impiedosamente seletiva — adquiriuum trágico dinamismo. O santo que produziu o milagre éconhecido por todas as pessoas de boa fé e bom nível deinformação: a brutal concentração da riqueza elevou, aoparoxismo, a capacidade de consumo de bens duráveis de umaparte da população, enquanto a maioria ficou no ora-veja. Forçara acumulação de capital através da drenagem de renda dasclasses subalternas não é novidade nenhuma. Novidade é ograu, nunca ousado antes, de transferência de renda, de baixopara cima. Alguns economistas identificados com a fase anteriorafirmam que a saída era previsível, mas, de tão radical,impensável, dado o grau de pauperismo em que já vivia amaioria da população. No futuro, quando se puder medir o nívelde desgaste a que foram submetidas as classes subalternas, nósvamos descobrir que a revolução industrial inglesa foi ummovimento filantrópico, comparado com o que se fez paraacumular o capital do milagre. O certo é que, à falta dealternativa melhor, a experiência foi posta em prática e se“consolidou”. É indiscutível que o autoritarismo foi condição
  7. 7. necessária à implantação de um modelo de organização socialtão radicalmente antipopular. A autoridade rigidamentecentralizada permitiu que se pusesse em prática o elenco demedidas (políticas salarial, monetária, tributária, etc.) quemodernizaram, à feição capitalista, uma parte da sociedadebrasileira, enquanto se intensificava o processo deempobrecimento da parte maior. Mas isso não explica tudo.Achar que o autoritarismo foi o único instrumento daimobilização imposta às classes subalternas, no Brasil, nosúltimos anos, equivale a dizer que as forças políticas no podercoagularam as relações entre as classes sociais, que todas asforças sociais ficaram paradas, contra a vontade, assistindo asclasses dominantes fazerem seu carnaval, sozinhas. E isso não éverdade. No movimento que redundou num avanço tão grandedos interesses das classes dominantes sobre os das classessubalternas, as camadas médias têm desempenhado um papelfundamental. Elas, ao lado do autoritarismo, e de forma maisprofunda, têm legitimado o milagre. Seria ingênuo, a partir daí,fazer qualquer julgamento moral da classe média brasileira. Se araiz desse problema fosse moral, viver não dava trabalhonenhum. A verdade é que o capitalismo caboclo atribuiu umafunção, no tecido produtivo, aos setores mais qualificados dascamadas médias. Não apenas como compradores, beneficiáriosdo desvario consumista, mas, sobretudo, como agentes daatividade econômica. Em outras palavras, o capitalismo caboclocomeçou a ser capaz de cooptar os melhores quadros que asociedade vai formando. E isso, de certa forma, é inédito noBrasil. Este sempre foi um país dependente. A nossa história temsido, também, a história dos conflitos entre as diversas matrizese os interesses legítimos, nacionais, que se foram criando aqui.
  8. 8. Ao longo dessa história correram, paralelas e quase sempreisoladas uma da outra, duas culturas: uma, elitista,colonizadora, transposta da matriz para cá; a outra, popular,abafada, nascida da existência social concreta das classessubalternas. A cultura da elite nunca foi capaz de penetrarprofundamente até as bases da sociedade, nem foi capaz deassimilar valores da cultura popular, fundamentalmente porquea economia brasileira, que se desenvolveu sempre num quadrode dependência, em nenhum momento foi capaz de incluir,ativamente, em seu processo, as amplas camadas inferiores dapopulação. Entre os dois pólos, as carradas médiasdesenvolveram, sempre, um movimento pendular. Muitas vezesdivididas, quase sempre tributárias dos interesses das classesdominantes, mas, em alguns momentos, próximas das classessubalternas, as camadas médias têm sido o fiel da balança, nacorrelação de forças políticas. Uma economia dependente, defeição pré-capitalista, que, além de excluir as camadasinferiores, relegava setores qualificados das populações urbanasa uma posição parasitária, estimulava essa oscilação no interiordas camadas médias. A partir da chamada política desubstituição de importações e, sensivelmente, com aimplantação do modelo atual, que acelera brutalmente amodernização do tecido produtivo, é que o capitalismo começaa atribuir uma função dinâmica às camadas médias dasociedade, numa escala que privilegia os melhores quadros quevão surgindo. A economia é cada vez mais dependente e, porisso, cada vez mais seletiva. Mas há algo de politicamentediabólico no processo de seleção posto em prática: em cem,assimila trinta; só que os trinta são os mais capazes. O queacabou foi a incapacidade, pré-capitalista,que essa economiatinha de cooptar os melhores.
  9. 9. Se é certo que não há (ou há muito pouca) tradiçãorevolucionária no Brasil, é nítido que havia uma tradição derebeldia nascida e alimentada nos setores intelectualizados dapequena burguesia brasileira (profissionais liberais, estudantes,escritores, artistas, políticos, etc.). Em épocas distintas, e commatizes diversos, os contornos dessa linha de tradição podemser traçados com nitidez: vem de Gregório de Matos a PlínioMarcos; está em Castro Alves, mas também está em Augustodos Anjos; ela está madura, consciente, em Graciliano, ecorrosiva, em Oswald de Andrade; está em Caetano Veloso, masjá esteve em Noel Rosa; esteve em 22, e também no Arena, noOficina, no Opinião e no Cinema Novo, para citar apenas nomese movimentos ligados à arte. A ironia, o deboche, a boêmia, aindagação desesperada, a anarquia, o fascínio pela utopia, umcerto orgulho da própria marginalidade, o apetite pelo novo sãoalgumas marcas dessa nossa tradição de rebeldia pequeno-burguesa. Hoje é possível perceber que essa rebeldia era frutoda incapacidade que os diversos projetos colonizadores sempretiveram em assimilar amplos setores das camadas médias e dar-lhes uma função dinâmica no processo social. O que estavareservado ao intelectual pequeno-burguês antes do período aque estamos nos referindo? O jornalismo mal pago, ofuncionalismo público, uma cadeira de professor de liceu, obotequim, a utopia, a rebeldia. Por falta de função ele era postoà margem. Até muito pouco tempo eram muito poucas asopções do estudante universitário — tudo era criado fora, ocarro, a geladeira e a ideologia. Assim, o sistema econômico nãotinha como assimilar a capacidade criadora dos melhoresquadros da pequena burguesia que ficavam colocados,perigosamente, no limite da rebeldia. O que acontece agora,inversamente, é que a radical experiência capitalista que se faz
  10. 10. aqui começa a dar sentido produtivo à atividade dos setoresintelectualizados da pequena burguesia: na tecnocracia, noplanejamento, nos meios de comunicação, na propaganda, nascarreiras técnicas qualificadas, na vida acadêmica orientadanum sentido cada vez mais pragmático, etc. O disco, o livro, ofilme, a dramaturgia, começam a ser produtos industriais. Osistema não coopta todos porque o capitalismo é, por natureza,seletivo. Mas atrai os mais capazes. Assim, ao contrário de imobilidade, houve um significativomovimento nas relações entre as classes sociais, cujo eixo foi aclasse média brasileira, assimilada por uma economia cujaforma de acumulação dominante é não apenas capitalista, mastambém se dá num quadro de dependência, o que a torna aindamais predatória, para os que ficam à margem, mas intensifica aparticipação dos que são incluídos em seu processo. Oinconformismo e a disponibilidade ideológica de setores dapequena burguesia foram, em muitos momentos de nossahistória, instrumentos de expressão das necessidades dasclasses subalternas. Amortecendo-os, as classes dominantesproduziram o corte que seccionou a base dos segmentossuperiores da hierarquia social. Isoladas, às classes subalternasrestou a marginalidade abafada, contida, sem saída. Indivi-dualmente, ou em grupo, um homem capaz, ou uma elite dascamadas inferiores pode ascender e entrar na ciranda. Comoclasse, estão reduzidas à indigência política. Procuremos, agora, fazer a distinção necessária entrecapitalismo e autoritarismo. Se o segundo foi condição para aconsolidação do primeiro, é indispensável perceber que estamosdiante de categorias distintas e, a esta altura, em certo grau,contraditórias. Há um conflito nítido, hoje, entre a complexidadee diversidade de interesses desta sociedade, e o Estado
  11. 11. inflexível, estreito, que a está dirigindo e ajudou a implantá-laem passado recente. O centro da crise política que as classesdominantes estão vivendo hoje, no Brasil, é este: como criarformas de convivência política entre interesses tão diversos e,em muitos casos, contraditórios, mantendo as classes subal-ternas em estado de relativa imobilidade. Enquanto a tãosolicitada imaginação criadora dos políticos não resolve odilema, a crise se aprofunda, com as cabeças mais lúcidas dosistema pedindo afrouxamento do cinto. O capitalismo, agora,precisa de um Estado mais aberto porque já foi capaz, naprática, de assimilar os focos de rebeldia. Ao mesmo tempo, sea abertura chegar ao pessoal lá de baixo... Se correr o bichopega, se ficar o bicho come. Gota d’água, a tragédia, é uma reflexão sobre essemovimento que se operou no interior da sociedade,encurralando as classes subalternas. É uma reflexão insufi-ciente, simplificadora, ainda perplexa, não tão substantivaquanto é necessário, pois o quadro é muito complexo e só agoraemerge das sombras do processo social para se constituir notraço dominante do perfil da vida brasileira atual. De tãosignificativo, o quadro está a exigir a atenção das melhoresenergias da cultura brasileira; necessita não de uma peça, masde uma dramaturgia inteira. Procuramos, pelo menos, diante detodas as limitações, olhar a tragédia de frente, enfrentar a suaconcretude, não escamotear a complexidade da situação com aadjetivação raivosa e vã. A segunda preocupação do nosso trabalho é com umproblema cultural, cuja formulação ajuda a compreender o quefoi dito acima: o povo sumiu da cultura produzida no Brasil —dos jornais, dos filmes, das peças, da TV, da literatura, etc.Isolado, seccionado, sem ter onde nem como exprimir seus
  12. 12. interesses, desaparecido da vida política, o povo brasileirodeixou de ser o centro da cultura brasileira. Ficou reduzido àsestatísticas e às manchetes dos jornais de crime. Povo, só comoexótico, pitoresco ou marginal. Chegou uma hora em que até apalavra povo saiu de circulação. Nossa produção cultural, claro,não ganhou com o sumiço. A partir da década de 50 um contingente cada vez maiorda intelectualidade foi percebendo que a classe média de umpaís como o nosso — colonizado, desviado do controle sobre seupróprio destino — vive dilacerada, sem identidade, não sereconhece no que produz, no que faz e no que diz. Ela só temchance de sair da perplexidade quando se descobre ligada àvida concreta do povo, quando faz das aspirações do povo umprojeto que dê sentido à sua vida. Isso porque o povo, mesmoexpropriado de seus instrumentos de afirmação, ocupa o centroda realidade — tem aspirações, passado, tem história, temexperiência, concretude, tem sentido. É, por conseguinte, aúnica fonte de identidade nacional. Qualquer projeto nacionallegítimo tem que sair dele. Pouco mais de quinze anos dedemocracia foram capazes de gerar o processo deintercomunicação entre as classes sociais não comprometidascom a expropriação da riqueza nacional e um setor cada vezmais amplo da classe média se unia às camadas populares paraformar um perfil do povo brasileiro ideologicamente maiscomplexo. Povo deixava de ser, assim, o rebanho demarginalizados; politicamente, povo brasileiro era todoindivíduo, grupo ou classe social naturalmente identificados comos interesses nacionais. Em contato direto com as classessubalternas, a intelectualidade, raquítica e litorânea, iapercebendo que era, também, povo, isto é, que tinha umahistória a fazer, uma realidade para transformar à sua feição,
  13. 13. tinha responsabilidades, aliados, tinha, enfim, sentido. A aliançaresultou numa das fases mais criativas da cultura brasileira,neste século. Foi daí que saiu a nossa melhor dramaturgia, quevai de Jorge Andrade a Plínio Marcos, passando por Vianinha,Guarnieri, Dias, Callado, Millôr, Boal, etc.; dessa aliança saíram oArena, o Oficina, o Opinião; saiu o Cinema Novo; saiu a melhormúsica popular brasileira; o pensamento econômicoamadureceu; nasceu uma sociologia interessada em descobrirsaídas para o impasse do terceiro mundo e não apenaspreocupada em catalogar aspectos pitorescos e idiossincrasiasdo povo. A partir de 64, a pressão de duas forças convergentesinterrompeu o processo: o autoritarismo, impedindo o diálogoaberto da intelectualidade com as camadas populares; e aacelerada modernização do processo produtivo, assimilando edando um caráter industrial, imediato, à produção de cultura. Ainterrupção deixou a cultura brasileira no ora-veja. Artistas,escritores, estudantes, intelectuais, arrancados do povo, a fontede concretude de seu trabalho criador, caíram na perplexidade,na indecisão, no vazio, mazelas conhecidas da classe média,quando fica reduzida à sua impotência. O desespero, oesteticismo, a omissão, o povo folclorizado, a importação devanguardismo, o deboche, o autodeboche foram algunssintomas nascidos da falta de substância social (de povo) nacultura brasileira. Agora que a experiência de todos esses anosjá nos permite uma avaliação, fica cada vez mais claro que nóstemos que tentar, de todas as maneiras, a reaproximação comnossa única fonte de concretude, de substância e até deoriginalidade: o povo brasileiro. Esta deve ser uma luta, demodo particular, do teatro brasileiro. É preciso, de todas asmaneiras, tentar fazer voltar o nosso povo ao nosso palco. Dojeito que estiver ao alcance de cada criador: com o show, a
  14. 14. comédia de costumes, o esquete, a revista, com a dramaturgiamais ambiciosa, como se puder. O fundamental é que a vidabrasileira possa, novamente, ser devolvida, nos palcos, aopúblico brasileiro. Esta é a segunda preocupação de Gotad’água. Nossa tragédia é uma tragédia da vida brasileira. A nossa terceira e última grande preocupação estárefletida na forma da peça. No auge da crise expressiva que oteatro brasileiro tem atravessado, a palavra deixou de ser ocentro do acontecimento dramático. O corpo do ator, acenografia, adereços, luz, ganharam proeminência, e o diretorassumiu o primeiríssimo plano na hierarquia da criação teatral.As mais indagativas e generosas realizações desse período têmcomo característica principal a ascendência de estímulossonoros e visuais sobre a palavra. As causas do fenômeno sãoconhecidas, mas gostaríamos de chamar a atenção para umadelas, apenas pressentida: ao lado de todas as pressõesamesquinhadoras, que tornaram impossível a encenação dodiscurso dramático claro sobre a realidade brasileira, uma fobiapela razão ia tomando conta de nossa criação teatral. Eraimprovável que se tratasse de uma crise da razão, num paíscomo este, com tudo por ser feito, e estruturado de forma tãoirracional que a lógica mais estreitamente cartesiana temeficácia como instrumento de percepção. O que aconteceu, naverdade, é que as transformações foram se acumulando nointerior da sociedade sem que a cultura, posta à margem, sedesse conta. Até um ponto em que o processo social ficou muitomais complexo do que a cultura era capaz de entender eformular. E este passou a ser o centro da crise da culturabrasileira: criou-se um abismo entre a complexidade da vidabrasileira e a capacidade de sua elite política e intelectual depensá-la. O desespero, o deboche, a supervalorização dos
  15. 15. sentidos, etc. — que tomaram conta do nosso melhor teatro emanos recentes — a partir de determinado momento deixaram deser substitutivos conscientes do realismo policiado e passaram aser, no plano teatral, a expressão da incapacidade de nossacultura de perceber e formular, em toda a sua complexidade, asociedade brasileira atual. Claro que a estreiteza dos limitesimpostos à criação cultural, no Brasil, é a grande responsávelpela crise, mas nós nos iludimos se não reconhecemos que, apartir de determinado momento, houve incapacidade real depensar nossa realidade. Agora o quadro vai se modificando.Principalmente a partir dos últimos dois anos. A economia, asociologia, a ciência política, setores da produção culturalvoltados para a reflexão, começam a se pronunciar. CelsoFurtado, Fernando Henrique Cardoso, Luciano Martins, AntônioCândido e tantos outros começam a publicar livros e ensaiosestimulantes. O jornalismo político tem dado uma colaboraçãovaliosa. Os ciclos do Casa Grande deflagraram o apetite pelodebate. E surge uma forma insuspeitada de análise dasociedade: a tese de doutoramento. Podemos citar, apenas paradar um exemplo da variedade e da eficácia do novoinstrumento, as teses Ideologia da cultura brasileira, de CarlosGuilherme Mota, Os bóia-frias, de Maria da Conceição,Capitalismo e marginalidade na América Latina, de LúcioKowarick, A expressão dramática do homem político emShakespeare, de Bárbara Heliodora, etc. Aos poucos asociedade, que estava em sombras, vai ganhando contornosmais nítidos e a cultura brasileira começa a aprofundar asondagem. Podemos, agora, pelo menos, tentar avaliar. A forma que nós encontramos para refletir esse ânimo foievidenciar a necessidade da palavra voltar a ser o centro dofenômeno dramático. Não foi a razão que fracassou no nosso
  16. 16. caso; quem fracassou foi nossa racionalidade estreita. Agora épreciso reinstrumentalizá-la. A linguagem, instrumento dopensamento organizado, tem que ser enriquecida, desdobrada,aprofundada, alçada ao nível que lhe permita captar e revelar acomplexidade de nossa situação atual. A palavra, portanto, temque ser trazida de volta, tem que voltar a ser nossa aliada. Nósescrevemos a peça em versos, intensificando poeticamente umdiálogo que podia ser realista, um pouco porque a poesiaexprime melhor a densidade de sentimentos que move ospersonagens, mas quisemos, sobretudo, com os versos, tentarrevalorizar a palavra. Porque um teatro que ambicionareadquirir sua capacidade de compreender, tem que entregar,novamente, à múltipla eloqüência da palavra, o centro dofenômeno dramático. Eram essas as nossas preocupações quando começamos atrabalhar em Gota d’água. Sabemos que nem esteempreendimento, nem nenhum outro, isoladamente, tempossibilidade de dar uma resposta definitiva a todas estasquestões. Sejam quais forem os resultados artísticos dessetrabalho — e temos consciência das suas limitações —,gostaríamos que ele fosse entendido, apenas, como mais umatentativa, entre tantas que começam a surgir, de reaproximaçãodo teatro brasileiro com o povo brasileiro. Gostaríamos de finalizar agradecendo a tantos amigos quenos ajudaram: Bibi, Ratto, Zuenir Ventura, Ziraldo, LucianoLuciani, Dory Caymmi, Darwin Brandão, a todo o nosso elenco, eespecialmente a Oduvaldo Viana Filho que, ao adaptar Medéiapara a TV, nos forneceu a indicação de que na densa trama deEurípedes estavam contidos os elementos da tragédia quequeríamos revelar. Rio, 8 de dezembro de 1975
  17. 17. Paulo Pontes — Chico Buarque
  18. 18. A montagem original de Gota d’água, em dezembro de1975, contou com o seguinte elenco: JOANA — BIBI FERREIRA CREONTE — OSWALDO LOUREIRO EGEU — LUIZ LINHARES JASÃO — ROBERTO BOMFIM ALMA — BETE MENDES CORINA — SONIA OITICICA CACETÃO — CARLOS LEITE NENÊ — ISOLDA CRESTA ESTELA — NORMA SUELI ZAÍRA — SELMA LOPES MARIA — MARIA ALVES BOCA PEQUENA — OBERTO RÔNEI AMORIM — ISAAC BARDAVI XULÉ — GERALDO ROSAS GALEGO — ANGELITO MELO Coreografia: Luciano Luciani Cenários e figurinos: Walter Bacci Direção musical: Dory Caymmi Produção: Casa Grande Direção geral: Gianni Ratto
  19. 19. A montagem de Gota d’água em São Paulo, abril de 1977,contou com o seguinte elenco: JOANA — BIBI FERREIRA JASÃO — FRANCISCO MILANI CREONTE — RENATO CONSORTE EGEU — XANDÓ BATISTA ALMA — BETHY CARUSO CORINA — LIANA DUVAL ZAÍRA — SONIA GUEDES CACETÃO — ALDO BUENO ESTELA — DIRCE MILITELLO MARIA — MARIA HELENA STAINER NENÊ — ZELIA SILVA GALEGO — CUBEROS NETO XULÉ — GERALDO ROSAS BOCA PEQUENA — SERGIO ROPPERTO AMORIM — CILAS GREGÓRIO Grupo de Dança: Alna — Cyra — Cremilda — Cristina — Deca — Lysa — Anselmo — Aron — Augusto — Clean — Ibañez — Sérgio Orquestra: Cláudio — Davilson — Duda — Homero — Paulo — Sizão Cenário e figurinos: Walter Bacci Direção musical: Paulo Herculano Coreografia: Fernando Azevedo Administração: Zeno Wilde Produção: Casa Grande Direção geral: Gianni Ratto
  20. 20. Gota d’água
  21. 21. PRIMEIRO ATOO palco vazio com seus vários sets à vista do público; música deorquestra; no set das vizinhas, quatro mulheres começam aestender peças de roupa lavada, lençóis, camisas, camisolas,etc.; tempo; Corina chega apressada, sendo recebida comansiedade pelas vizinhas.CORINA — Não é certo...ZAÍRA — Como é que foi?...ESTELA — Foi lá?CORINA — Não é certo...MARIA — Ela não melhorou, não?CORINA — É de cortar coração...NENÊ — Mas e então?CORINA — Não sei, não dá, certo é que não está E olhe bem que aquilo é muito mulherZAÍRA — Ela é bem mais mulher que muito machoESTELA — Joana é fogo...MARIA — É fogo...NENÊ — Joana é o diachoCORINA — Pois ela está como o diabo quer Comadre Joana já saiu ilesa De muito inferno, muita tempestade Precisa mais que uma calamidade pra derrubar aquela fortaleza
  22. 22. Mas desta vez... acho que não agüenta, pois geme e treme e trinca a dentadura E, descomposta, chora e se esconjura E num soluço desses se arrebenta Não dorme, não come, não fala certo, só tem de esperto o olhar que encara a gente e pelo jeito dela olhar de frente, quando explodir, não quero estar por pertoESTELA — Culpa daquele muquiranaZAÍRA — Tudo por causa dum JasãoCORINA — E além da pobre da Joana tem as crianças...MARIA — Onde estão?CORINA — Minha filha, só vendo Tem resto de comida nas paredes fedendo a bosta, tem bebida com talco, vaselina, barata, escova, pente sem dente. E ali, menina, brincando calmamente co’os cacos dos espelhos, estão os dois fedelhos... É ver sobra de feira, ramo de arruda, espada de São Jorge, bandeira do Flamengo, rasgada por cima da cadeira E ali, se lambuzando, não entendendo nada, um pouco se espantando
  23. 23. co’o espanto dos vizinhos, estão os dois anjinhos... É ver um terremoto que só deixa aprumado no lugar certo a foto daquele desgraçado posando pro futuro e pra posteridade E ali, num canto escuro, na foto da verdade, brincando nos esgotos, estão os dois garotos... Os dois abortos...Entra o Galego no set do botequim, assobiando, limpando copoe garrafa, à espera de fregueses; seguem as vizinhas.ESTELA — Conta pra CorinaNENÊ — Deixa eu guardar a boca pro feijãoZAÍRA — Fala, Nenê...CORINA — Que foi?...NENÊ — É nada nãoMARIA — Conta, Nenê...CORINA — O que é que foi, menina?NENÊ — Foi com Jasão... mas foi num outro diaESTELA — Ontem. Jasão na maior alegriaNENÊ — O caso é que...CORINA — Se vem com mais besteira daquele homem, nem quero escutar Já chega de nhenhenhém, blablablá, disse-me-disse, diz-que-diz, zoeira.
  24. 24. Chega, Nenê, pro bem de Joana, esqueça Senão daqui a pouco o zum-zum-zunido de boca em boca inda chega ao ouvido da comadre e dali vai pra cabeça, onde fermenta e vira uma amargura que se despeja no seu coraçãoESTELA — Então deixa, Nenê...NENÊ — Quem? Eu? Jasão? Se vi Jasão? Nem conheço a figuraTempo; entra no set do botequim um vizinho chamado Cacetão;jornal debaixo do braço, senta e pede:CACETÃO — Galego! Casco escuro, bem gelada Grande, loura e solteira: sem empadaO Galego vai servi-lo; simultaneamente, no set da oficinaaparece o velho Egeu, enxugando as mãos nas calças, se-gurando uma válvula de rádio; apanha o rádio e começa aconsertá-lo, encaixando a válvula, em silêncio, sozinho; no setdo botequim, Cacetão abre o jornal e lê; tudo isso é feito comagilidade, para apanhar o tempo em que houve pausa naconversa das vizinhas que agora seguem em seu set.CORINA — Pensando bem, Nenê, me conta...NENÊ — O quê?CORINA — Melhor eu saber, que é pra amaciar essa pedrada antes dela pegar a comadre de mau jeito...NENÊ — Você pediu, lá vai: Jasão co’a outra, mais o pai, ontem, lá na quadra da escola
  25. 25. beberam Old Eight com Coca-Cola, cantaram, pularam e coisas tais Falaram do casamento, os boçais E convidaram toda a curriola dos “Unidos” pro festaço. A vitrola tocou bem alto as marchas nupciais para antecipar como vai ser a gala Ou então só para pintar a caveira de Joana. Jasão dançou noite inteira o seu samba co’a sua noiva. A ala dos puxa-saco e dos puxa-sacana varou a noite numa evolução que parecia mais um pelotão sapateando em cima de Joana Então...Nenê segue falando baixo, quase em mímica, em segundoplano; o botequim assume o primeiro plano; Cacetão pára umpouco de ler o jornal e exclama:CACETÃO — Essa não! Jóia! Filigrana! Galego, essa é a manchete da semana: fulana, mulher de João de tal, tinha um ciúme que não é normal Vai daí cortou o pau do infeliz Ferido, o marido foi pro hospital Ficou cotó... Vem e lasca o jornal: ciumenta corta o mal pela raizRi uma risada alta e gostosa; o Galego vai para junto dele e,juntos, os dois passam a ler a matéria em voz baixa; fazem
  26. 26. mímica de quem se diverte muito; no set de Egeu, a oficina,entra o vizinho Xulé; esta ação vai para primeiro plano.XULÉ — Boa, Egeu...EGEU — Boa, amigo...XULÉ — Como é que é? Vai tudo bem?...EGEU — Tudo na mesma...XULÉ — E eu?EGEU — Você? Que é que há? Brigou co’a mulher?XULÉ — Antes fosse. É o dinheiro, mestre Egeu Não deu de novo...EGEU — Grande novidadeXULÉ — Falhei de novo a prestação da casa... Mas, pela minha contabilidade, pagando ou não, a gente sempre atrasa Veja: o preço do cafofo era três Três milhas já paguei, quer que comprove? Olha os recibos: cem contos por mês E agora inda me faltam pagar nove Com nove fora, juros, dividendo, mais correção, taxa e ziriguidum, se eu pago os nove que inda estou devendo, vou acabar devendo oitenta e um... Que matemática filha da putaEGEU — Todo mundo está igual a vocêXULÉ — Não dá. É todo mês a mesma luta Tem que falar pro homem resolver baixar um pouco essa mensalidade, senão vou morar debaixo da ponte Não é fácil, mestre Egeu...
  27. 27. EGEU — É verdadeXULÉ — Alguém tem que falar com seu Creonte A gente vive nessa divisão Se subtrai, se multiplica, soma, no fim, ou come ou paga a prestação O que posso fazer, mestre Egeu?...EGEU — ComaXULÉ — Como...Seguem mimicando a fala; em primeiro plano, agora, obotequim.CACETÃO — Ih, Galego, olha só o Jasão... (Lê:) “Jasão de Oliveira, novo valor da emepebê, promissor autor do êxito Gota d’água, vai casar co’a jovem Alma Vasconcelos, filha do grande comerciante benfeitor Creonte Vasconcelos...”GALEGO — Si seniorCACETÃO — Vivo, eh...GALEGO — Ese conseguio si arumáCACETÃO — Retrato no jornal...GALEGO — Qui maravilhaCACETÃO — Sabe por quê?...GALEGO — É o sucesso do sambaCACETÃO — Ou a grana dela?...GALEGO — Não sei, carambaCACETÃO — “AS bodas...Segue lendo; primeiro plano vai para as vizinhas.
  28. 28. ZAÍRA — ...em homem nunca confieiCORINA — Não sei como vai ser...MARIA — Depois Exu Caveira pega esse traste...CORINA — Eu não seiESTELA — Comigo eu dava-lhe um tiro no cuNENÊ — Eu nunca fui de meter o bedelho, mas mulher como Joana não tem que juntar com homem mais novo. O velho marido dela, manso, homem de bem, com salário fixo e um Simca Chambord dava a ela do bom e do melhor e ela foi largar o velho. Por quê? Por esse frango. Também, quem mandou?CORINA — Não fale assim da comadre, Nenê Ela fez o que o coração ditou Deu a Jasão dois filhos, cama e mesa, a coxa retesada, o peito erguido Deu aquilo que tinha de beleza mais aquilo que tinha de sabido, de safado, de gostoso e tesudo de mulher. Se deu dez anos de vida e o homem, satisfeito, deixa tudo como quem deixa um prato sem comida Agora isso é o que você vem dizer?NENÊ — Eu não falo por falta de amizade É a lei da natureza...ESTELA — Pode crer, quando homem dá pra ruim, não tem idade,
  29. 29. Nenê...MARIA — O que Joana passou pr’esse cara era pro cara, nem sei...ZAÍRA — Era pr’esse cara arrancar os dois olhos da cara e dar a ela se ela carecesse um dia de visão...ESTELA — Pois o Jasão não tinha nenhuma ambição. Vivia a vida inteirinha entre o violão e o rabo da saia dela. Até o dia que o rádio tocou seu samba maldito, feito de parceria co’o diabo Foi a mosca azul. Já disse e repito: comigo eu dava-lhe um tiro no raboAs vizinhas seguem falando, em mímica; Xulé sai da oficina evai para o botequim, que agora assume o primeiro plano.CACETÃO — Xulé! Galego, outro copo...XULÉ — Oi, Cacetão, já?CACETÃO — É claro, tem que comemorar...XULÉ — Que é que há?CACETÃO — Você não lê jornal? Jasão virou notícia junto com loteria, futebol, sevícia, leno e latrocínio, desastre da Central... Xulé, eu sou gigolô desde que me chamo Cacetão. Já vi de tudo cá no meu ramo Mas um baú como esse, nunca vi igualXULÉ — Que é isso? Jasão é bom menino...CACETÃO — Pessoal
  30. 30. XULÉ — Inveja do Cacetão...CACETÃO — Um brinde especial ao único de nós, fodidos, sem escolha, que, num ato de impetuosidade e bravura, penetrou firme no reinado da fartura graças ao vigor e à retidão de sua trolhaSoltam gargalhadas, bebem, enquanto o primeiro plano passapara o set das vizinhas.ESTELA — É destino...ZAÍRA — A pessoa já nasce avisada! Vai sofrer. Olha que vai sofrer. E o que faz? A pessoa vai e sofre...MARIA — É carta marcadaNENÊ — Não há beleza nem esperteza capaz de resistir à natureza...CORINA — Isso é que não Não, não e não. Repare a cor dos meus cabelos A boca amarga com seis dentes amarelos A bunda que caiu e a falta de tesão O peito que bichou e a pomba que é um bagaço As varizes da perna e as pelancas do braço Foi só a natureza, foi fatalidade? Pois sim, Nenê. Que idade hoje você me dá? Sessenta? Errou. Quarenta e três por completar As damas das novelas e da sociedade aos cinqüentinha fazem pose no jornal e mostram a barriga no Municipal Você, Nenê, quanto é que tem?...
  31. 31. Seguem mimicando; primeiro plano passa para a oficina, ondejá está o vizinho Amorim; Egeu fala sempre sem parar deconsertar um rádio.AMORIM — Xulé, meu tio Dé, Zazueira, Pipa, Amaro, Cacetão, Esmeraldino, Getúlio, Cazuza, Fio, ninguém mais paga. Nem São Cosme e Damião Por que é que eu vou pagar sem ter? Não pago nãoEGEU — É fogo...AMORIM — Mas será que eu vou ter que perder os dois anos que já paguei de prestação? O corno velho do Creonte vai saber que não pago e me bota na rua...EGEU — Então me escuta...AMORIM — Mestre Egeu, você pode dizer o que pensa, já que é dono de teto e chão Dono do seu nariz, não tem nada a perder Tem a oficina e tudo o que está dentro dela Então fala correto, justo, dá conselhos Mas eu devo tijolo, cal, porta e janela Acho que não sou dono nem dos meus pentelhosEGEU — Você tem razão... (Um tempo.)AMORIM — Mestre Egeu, por caridade me responda...Primeiro plano para botequim.XULÉ — Se você quer que eu lhe responda o que é que eu penso, co’a maior honestidade,
  32. 32. ele está certo, tem que aproveitar a onda É bom menino, sabe o que é necessidade, faz bem em se casar co’a filha do Creonte E assim que estiver sentado bem à vontade à direita de Deus Pai, talvez nos desconte um pouco de dívida e da mensalidadePrimeiro plano para vizinhas.CORINA — Pois eu digo a vocês...Primeiro plano para botequim.CACETÃO — Você acha? Que nadaPrimeiro plano para vizinhas.CORINA — Eu tenho medo. Estou lembrando de suas mãosPrimeiro plano para botequim.CACETÃO — Hein, Xulé?...Primeiro plano para vizinhas.CORINA — Aquelas mãos... cada garra afia pro bote.Primeiro plano para botequim.CACETÃO — E o dote? Reparte aqui co’os irmão
  33. 33. Aqui, ó...Primeiro plano para vizinhas.CORINA — Sem falar no olhar que já faleiNENÊ — Mas você acha que ela vai fazer besteira?Primeiro plano para botequim.CACETÃO — Tu acha que ele vai nos ajudar?...Primeiro plano para vizinhas.CORINA — Não seiPrimeiro plano para botequim.XULÉ — Não sei...CACETÃO — Acha, Galego?...GALEGO — No se...CACETÃO — BrincadeiraXULÉ — Também não é crime, Jasão mudar de classe É mudar de time... Ele é dono do seu passe Garanto que você, Cacetão, se passasse pro lado de lá, lembrava aqui do pessoalCACETÃO — Aqui, ó! Fodido, quando dá uma cagada, progride, vai ao futebol de arquibancada, já senta, se bem que co’a bunda quadrada e fica ao lado da tribuna especial e fica olhando pra cadeira almofadada Fica odiando aquela gente bem sentada
  34. 34. E no auge da revolta, faz o quê? Faz nada, joga laranja na cabeça da geralOs dois grupos param um tempo e meditam; depois retomamsuas atividades, enquanto o primeiro plano passa para a oficina.EGEU — Pois eu vou te dizer: se só você não paga você é um marginal, definitivamente Mas imagine só se, um dia, de repente ninguém pagar a casa, o apartamento, a vaga Como é que fica a coisa? Fica diferente Fica provado que é demais a prestação Então o seu Creonte não tem solução Ou fica quieto ou manda embora toda a gente Cachorro, papagaio, velho, viúva, filha... Creonte vai dizer que é tudo vagabundo? E vai escorraçar, sozinho, todo mundo? Pra isso precisava ter outra virilha Não é?...AMORIM — Tem boa lógica...EGEU — Falei?...AMORIM — Sei nãoAmorim sai do set da oficina; mestre Egeu volta ao seu rádio;primeiro plano passa para o set das vizinhas.ESTELA — Então pode deixar que eu lavo a roupa delaZAÍRA — Também pode deixar que eu faço a arrumaçãoNENÊ — Eu frito um ovo, inda tenho arroz na panelaMARIA — Falo com Xulé pr’ele falar com Jasão?CORINA — Não, isso eu falo com Egeu. Pode deixar
  35. 35. Foi ele quem comprou o leite dos pequenosESTELA — Então vai lá, diz que nós vamos ajudar Assim quem sabe se ela desespera menosCORINA — Eu vou...Corina sai; as vizinhas seguem trabalhando; no set da oficina,Egeu levanta a cabeça e vê passar, ao largo, um vizinhochamado Boca Pequena.EGEU — Oi, Boca...BOCA — Mestre Egeu...EGEU — Boca, vem cáBOCA — Faz uns dezoito anos que eu passo na sua porta e mestre Egeu está sempre trabalhandoEGEU — Eu não nasci feito você, co’o cu pra luaBOCA — (Ri.) Então vamos tomar um trago, estou pagandoEGEU — Não, hoje não dá...BOCA — Que é isso, vamos...EGEU — Dá nãoBOCA — Dá sim. Vamos beber à sorte de Jasão Aquele sim, nasceu co’o cu pra lua. Está pra se casar co’a filha do rei. Vamos láEGEU — Não dá...BOCA — Tá bem... (Faz menção de sair.)EGEU — Boca Pequena, eu te chamei porque o pessoal passou aqui... bem... eu não sei... Como é que tá a grana este mês?...BOCA — Tou levandoEGEU — Sabe o que é? Todo mundo aqui ta reclamando...BOCA — Mas eu já dei o dinheiro da Associação
  36. 36. EGEU — Isso eu sei... Ninguém tem grana é pra prestaçãoBOCA — É, tem que se virar...EGEU — Pois é, Boca Pequena Tá todo mundo pendurado. Uma centena de famílias sem poder pagar. Mas você é um dos poucos que se arranja, não sei por quê...BOCA — Eu sou esparro de boate de turista, carregador de uísque de contrabandista, vice-camelô, testemunha de punguista, sou informante de polícia, chantagista, mas vigarista nenhum diz que eu não presto desde que, como todo cidadão honesto, no fim do mês pago as minhas contas à vistaEGEU — Já pagou a casa esta vez?...BOCA — Já separei porque é sagrado. Como santo em procissão Não precisa pedir pra fazer o que sei que é meu dever...EGEU — Pelo contrário: pague nãoBOCA — Que que é isso, mestre, eu sou madeira de leiEGEU — Pois ouça, Boca, não pague nem um tostão Se ninguém paga, é que não tem de onde tirar Se você paga, vai tirar toda a razão
  37. 37. de quem tem todas as razões pra não pagarBOCA — Que merda, mestre...EGEU — Merda sim ou merda não?Boca Pequena fica um tempo coçando a cabeça; depois dehesitar um pouco, aperta a mão de Egeu e parte para o set dobotequim; mestre Egeu retoma seu trabalho, consertando orádio; primeiro plano para o set das vizinhas, onde Corina estáchegando.CORINA — Não é certo... não pode...ESTELA — Que é que deu?CORINA — Ela nem quer ajuda... ensandeceuZAÍRA — Quê?...MARIA — Pirou...NENÊ — Como?...CORINA — Aquele boato Foi num desembalo, a cavalo, a jato O fato é que Joana já recebeu notícia da tal comemoração Sabe cada detalhe mais do que eu O talhe do terno azul de Jasão, o samba, a noiva, as risadas que deu, que nem visse pela televisão Daí, ah, meu Deus...ZAÍRA — Que é que aconteceu?CORINA — A comadre... é de cortar coração...MARIA — Fala, mulher...CORINA — Disse que agradecia,
  38. 38. mas de faxina ela não carecia, nem de comida e roupa, nem de dó E que de mim queria um favor só Botou aquele olho em cima de mim, tragou o cuspe e perguntou assim: Corina, se eu morrer, você e Egeu olham meus filhos?NENÊ — Você respondeu que sim? ela ficasse descansada?CORINA — Mas como, Nenê, eu dizer: “Querida comadre, morra em paz, não pense em nada Tome tranqüilamente o formicida, calmamente meta a faca no umbigo e dê simplesmente um basta na vida que as crianças vão ficar bem comigo”?ESTELA — Se eu pego quem contou a safadeza pra Joana... comigo era um cara morto Enfiava-lhe a fuça no meio-fio, abria-lhe as pernas com chave inglesa, afundava-lhe uma vela no lordo, depois tocava fogo no pavioCORINA — Tem mais: agora vieram me mostrar Jasão saiu co’a cara no jornal dizendo: ficou noivo e vai casarZAÍRA — Hoje?...CORINA — Hoje nas bancas, o maioralMARIA — Melhor ela não ver...NENÊ — Se já não viuCORINA — Viu não...
  39. 39. ESTELA — Não falta quem queira entregarCORINA — O jornal esgotou nem bem saiu... Deviam ter pudor e nem olhar a cara do descarado estampada deste tamanho, assim, mandando brasa, enquanto ela... não é certo, coitadaMARIA —Eu não quero ver. E na minha casa esse jornal não entra...ZAÍRA — Eu digo mais: uma amiga de Joana, na batata, que puser as mãos num desses jornais, eu quero que lhe dê uma catarata, gota serena nos olhos...NENÊ — Mulher não tem amiga...CORINA — Eu trouxe um. Quem quer ver?ESTELA — Hein?...ZAÍRA — Quê?...MARIA — Mostra...NENÊ — O que diz...CORINA — (Tira um jornal de baixo da saia.) Praquem quiser Achei mesmo que alguém ia quererAs vizinhas abrem e disputam o jornal avidamente; quandocomeçam a ler, entra Boca Pequena no set do botequim, quepassa para primeiro plano.CACETÃO — Sarava, Boca.BOCA — Pessoal...
  40. 40. XULÉ — Oi, vá sentando e vá bebendo que Cacetão tá pagandoBOCA — Esse mês a viúva já deu dividendo?GALEGO — Más um copo?...XULÉ — Fala, Boca...CACETÃO — Já tá sabendo?BOCA — De quê?...CACETÃO — Do jornal...BOCA — Que jornal?...CACETÃO — Essa não.Ele não sabe da maior fofoca da cidade! Logo o Boca Pequena, rei da novidade, por fora dessa? Boca não é mais aquele...BOCA — Espera aí, tenho uma boa: mestre Egeu, quando estive na oficina, me perguntou: a prestação da casa, Boca, já pagou? Eu disse: é claro. E sabe o que ele rebateu? Que a prestação é uma cobrança exagerada...CACETÃO — Que nova...BOCA — E quem paga a casa é um bom calhorda!XULÉ — A gente já discutiu o caso e concorda — menos Galego, que o gringo não é de nada — que mestre Egeu está por dentro da questãoGALEGO — Quien quere uma empanada?...CACETÃO — Empada não,meu saco... Você, Boca, de fofoca anda muito fraco
  41. 41. (Mostra o jornal.) Tá aqui a boa, olha o focinho do JasãoBoca olha o jornal com interesse, enquanto o primeiro planopassa para as vizinhas.ESTELA — Mas quem diria! A boneca... a pinta dodivo... Levou dez anos para fazer uma canção, de repente é o compositor-revelação... Antes de Joana ele era a merda em negativoPrimeiro plano para o botequim.BOCA — Eu sempre disse: esse menino é positivo Tem simpatia,bossa e comunicaçãoAMORIM — Ele nunca foi de muita escola e lição, mas é autodidata,um cara intuitivo, lê livro, jornal grosso, é inteligente, vivo... Támais pra Rui Barbosa que pra CacetãoPrimeiro plano para as vizinhas.ZAÍRA — Não fosse um dia Joana lhe dar uma mão e ele seria umpobre-diabo inofensivoPrimeiro plano para o botequim.XULÉ — O samba de Jasão é coisa muito séria, Cacetão, não é prababar de inveja, não Mas um sambista com tamanha inspiraçãomerece tirar a barriga da misériaPrimeiro plano para as vizinhas.
  42. 42. ZAÍRA — Esse moleque Jasão nunca me enganou Se melhorou devida não era pra dar alguma boa vida pra Joana?...Primeiro plano para o botequim.XULÉ — Tirar os pés da lama, ele está certo, já tirou É moço, tem que aproveitar a ocasião Senão, fica afundando aqui o resto da vida Quem nasce nesta vila não tem mais saída, tá condenado a só sair no rabecão ou no camburão...Primeiro plano para as vizinhas.CORINA — Parte, Jasão, pro banquete da meia dúzia. Vai, come e bebe e vomita e come e bebe e esquece e cospe na marmita dos que eram teus...Primeiro plano para o botequim.CACETÃO — E os filhos? E a mulher,cacete!AMORIM — Trepado nas ancas de mãe Joana ele ia ser o quê? Outro mestre Egeu? Aqui, garanto: qualquer um, para sair desta merda, vendia a mãe, a mulher, pai, filho e Espírito Santo
  43. 43. Primeiro plano para as vizinhas.CORINA — Tá calada, Nenê?Primeiro plano para o botequim.GALEGO — Yo no me meto en briga entre mulher y hombre...Primeiro plano para as vizinhas.CORINA — Vamos, Nenê, diga!NENÊ — Não sei não... Não sei tirar uma conclusão Só sei de uma coisa: homem novo, não sei não...Primeiro plano para o botequim, onde já se ouvem os primeirosacordes e o ritmo de uma embolada.CACETÃO — (Cantando:) Depois de tanto confete Um reparo me compete Pois Jasão faltou à ética Da nossa profissão Gigolô se compromete Pelo código de ética A manter a forma atlética A saber dar mais de sete A nunca virar gilete A não rir enquanto mete Nem jamais mascar chiclete Durante sua função
  44. 44. Mas a falta mais violenta Sujeita a pena cruenta É largar quem te alimenta Do jeito que fez Jasão Veja a minha ficha isenta Tenho alguém que me sustenta Que já passou dos sessenta Que mais de uma não agüenta Que desmonta quando senta Que é careca quando venta E este amigo se apresenta Domingo sim, outro não Não é virtude nem vício É um pequeno sacrifício É um músculo do ofício Em constante prontidão Fecho os olhos e, viril, Tomo ar, conto até mil Penso na Miss Brasil E cumpro co’a obrigaçãoGargalhadas gerais no final da embolada; a orquestra emendanovo ritmo e nova melodia para vizinhos e vizinhas cantarem edançarem confrontando-se entre si; número musical encerracom orquestra diminuindo; os protagonistas desse número
  45. 45. saem de cena; luz vai subindo em resistência apenas no setonde estão Jasão e Alma, sua noiva; no centro desse set, umacadeira imponente, muito trabalhada, quase um trono; o tronoestá vazio, Alma sentada no chão e Jasão deitado com a cabeçano colo dela.ALMA — Você já sofreu muito, a gente vê no rosto Debaixo dos olhos tem muito sobressalto Aqui na testa, quando franze, bem no alto, aparece uma linha feita de desgosto A boca, que já é muito desajeitada, entorta quando ri, como se uma metade fosse feliz e a outra tivesse vontade de chorar, igual a uma criança enjeitada que quer tudo...JASÃO — E sempre quis um dentedourado O que mais?...ALMA — Depois tem o queixo...JASÃO — O que é quetem?ALMA — O queixo não é lá muito feliz também Acho que ele não está muito bem centrado Tem uma marca, não chega a ser cicatriz, que faz o rosto ficar mais desamparadoJASÃO — Nariz deixa comigo, está sempre gripadoALMA — Parece feito a régua, o traço do nariz, apontando pros olhos que eu deixei pro fim Sabe por quê?...
  46. 46. JASÃO — É o mau-olhado, com certezaALMA — Porque seus olhos não têm nada de tristeza nem de sofrimento. Aliás, sofrimento sim, sofrimento bom, que vem de não suportar tanta ansiedade incendiando o coração, tanto desejo represado. Olha, Jasão a gota d’água do seu samba é o seu olhar fervendo, borbulhando, contagiando a gente Quando a água dos seus olhos transbordar um tanto vai ser mais uma gargalhada do que um pranto e em vez de lágrimas, vai correr aguardenteJASÃO — Meus olhos são assim?...ALMA — Eu cuido de você Eu trato de fazer você chorar...JASÃO — O quê?ALMA — Você tem que chorar e rir e se entregar Você não tem o direito de se esconder da felicidade, que ela não aparece todo dia, nem pra qualquer um. Vou cuidar de você, tá?...JASÃO — Tá, Alma, o que você quiserALMA — Então, pra começar, vê se você esquece tudo o que é passado, esquece aquela mulherJASÃO — Não fala assim...ALMA — Você está com medo...JASÃO — Não diz “aquela mulher”, ela foi boa pra mimALMA — Você tem medo...
  47. 47. JASÃO — Que medo?...ALMA — De ser feliz Viveu co’a desgraça, gostou, não está a fim de melhorar. Essa mulher é uma raiz pregada nos seus pés...JASÃO — Alma, não fala assimALMA — Tá bom. Então diz que não gosta dela, sim? E que gosta de mim...JASÃO — Eu gosto de vocêALMA — Sabe, hoje estive lá no nosso apartamento Você precisa ver, já estão no acabamento Já colocaram todos os vidros fumê nas esquadrias de alumínio. E a fachada do prédio ficou bem moderna, liberty, colonial e clássica. Puseram lambri de madeira com mármore no hall de entrada O elevador todo forrado de veludo Ficou uma graça, apesar de esquentar um pouco Mas entrando em casa é que você fica louco co’o espaço das peças, a claridade, tudo O chão está brilhando de sinteco, amor Você está me ouvindo?...JASÃO — Sei...ALMA — Sala dejantar, living e a nossa suíte dão vista pro mar Dos outros quartos dá pra ver o Redentor Mas Jasão, você inda não sabe da maior
  48. 48. surpresa que papai me aprontou. Adivinha quando eu abri a porta, sabe o que é que tinha? Tudo que é eletrodoméstico: gravador e aspirador, enceradeira, e geladeira, televisão a cores, ar-condicionado, você precisa ver, tudo isso já comprado, tudo isso já instalado pela casa inteira... Desta vez papai deu uma boa caprichadaJASÃO — E precisa disso tudo só pra nós dois?ALMA — Por enquanto é só eu e você, mas depois vem o bebê, vem a babá, vem a empregada e vêm nossos convidados... Estou errada?JASÃO — Não... não é isso...ALMA — Você fica tão calado, como se estivesse se sentindo culpado Parece até que nossa casa foi roubada... Então papai não pode me dar um presente?JASÃO — Que é isso, Alma, não falei nada...ALMA — E é prafalar senão não sei...JASÃO — É lá que você quer morar? Então tá muito bom pra mim. Fico contente de ver você contente, não quero mais nadaALMA — Estou olhando tudo com tanto carinho Olha, eu já comecei a arrumar um caminho só pra você tocar violão de madrugada Acha que fiz mal?...
  49. 49. JASÃO — Não, foi bonito lembrarALMA — Então, Jasão, vê se desamarra esse rosto uma vezinha só pra mim...JASÃO — Eu só não gosto de deixar este fim de mundo sem levar tudo o que sempre foi pra mim a vida inteira Uma alegria ou outra, um pouco de saudade, meus filhos, minha carteira de identidade, cada bagulho, meu calção, minha chuteira, a mesa do boteco, o time de botão, tanto amigo, tanto fumo, tanta birita que dava pra botar na sala de visita mas ia atrapalhar toda a decoração... (Vai nascendo uma introdução musical em ritmo de samba; Jasão segue.) Sabe, Alma, um samba como Gota d’água é feito dos carnavais e das quartas-feiras, das tralhas, das xepas, dos pileques, todas as migalhas que fazem um chocalho dentro do meu peito (Canta, movimentando-se em torno do trono.) Deixa em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa E qualquer desatenção — faça não Pode ser a gota d’água (Repete o refrão e a música encerra com
  50. 50. Jasão em posição de se sentar no trono.)ALMA — (Ri.) Jasão...JASÃO — O que é?...ALMA — Escuta o que eulhe digo: precisa definir seu repertório Ou bem você dança a valsa comigo, ou pula o carnaval no purgatórioEntrada súbita de Creonte quando Jasão está quase sentado notrono.CREONTE — Ei... Alma mia, dá um beijo! (Beija Alma.) Noel Rosa, senta lá que eu quero a minha cadeira (Jasão afasta-se do trono para dar lugar a Creonte.) Alma, faça o favor, seja bondosa, me deixa só com Jasão. Tem poeira nos olhos dele e eu preciso tirarALMA — Beijo, pai... Beijo, amor... (Sai.)CREONTE — Já reparou que o rádio não pára mais de tocar seu sambinha?...JASÃO — É, parece que pegouCREONTE — Parece que pegou? Tem que pegar! Só tem que pegar. Aprende, meu filho, dessa lição você vai precisar Se você repete um só estribilho no coco do povo, e bate, e martela,
  51. 51. o povo acredita naquilo só Acaba engolindo qualquer balela Acaba comendo sabão em pó Imagine um samba...JASÃO — Sim, mas parece que o samba é bom...CREONTE — Bom? Espetacular Eu pago pra tocar porque merece E continuo fazendo rodar em tudo que é horário...JASÃO — Eu não pedi, seu Creonte, eu nunca.CREONTE — Ora, eu sei que não, Noel Rosa, eu pago porque logo vi que era um samba de boa inspiração e, por que não?, um bom investimento Você sabe que eu gosto de ajudar quem não tem recursos e tem talento Não é porque você vai se casar com minha filha, que eu não vou dar bola a genro, nem Alma precisa...JASÃO — Eu seiCREONTE — Te ajudo como ajudo o time, a escola e essas famílias que eu sempre ajudei Dou fantasias para o carnaval, dou uniformes para o campeonato e água pro conjunto habitacional desta Vila do Meio-Dia, exato?JASÃO — Exato...
  52. 52. CREONTE — Mas o que eu quero falar não é isso. É coisa muito importanteJASÃO — Sobre Alma?...CREONTE — Não sei como começar (Tempo.) Essa cadeira... repare um instante... Já viu?...JASÃO — Que é que tem?...CREONTE — Escute, rapaz, você já parou pra pensar direito o que é uma cadeira? A cadeira faz o homem. A cadeira molda o sujeito pela bunda, desde o banco escolar até a cátedra do magistério Existe algum mistério no sentar que o homem, mesmo rindo, fica sério Você já viu um palhaço sentado? Pois o banqueiro senta a vida inteira, o congressista senta no Senado e a autoridade fala de cadeira O bêbado sentado não tropeça, a cadeira balança mas não cai É sentando ao lado que se começa um namoro. Sentado está Deus Pai, o presidente da nação, o dono do mundo e o chefe da repartição O imperador só senta no seu trono, que é uma cadeira co’imaginação Tem cadeira de rodas pra doente
  53. 53. Tem cadeira pra tudo que é desgraça Os réus têm seu banco e o próprio indigente, que nada tem, tem no banco da praça um lugar para sentar. Mesmo as meninas do ofício que se diz o mais antigo têm escritório em todas as esquinas e carregam as cadeiras consigo E quando o homem atinge seu momento mais só, mais pungente de toda a estrada, mais uma vez encontra amparo e assento numa cadeira chamada privada (Tempo.) Pois bem, esta cadeira é a minha vida Veio do meu pai, foi por mim honrada e eu só passo pra bunda merecida Que é que você acha?...JASÃO — Eu não acho nada, quer dizer, nunca pensei... realmente... Pra mim... cadeira era só pra sentar...CREONTE — Então senta...JASÃO — Eu? O senhor quer que eusente?CREONTE — Senta! (Jasão senta.) Muito bem. Eu vou lhecontar Se fosse outro homem eu não deixaria sentar aí, mas você é quase um sócio, vai casar com Alma e algum dia iria sentar mesmo... Gostou?...JASÃO — Bom, meu
  54. 54. negócio é mais samba, música popular...CREONTE — É boa? Macia?...JASÃO — Como?...CREONTE — É gostosa de sentar?...JASÃO — Ah, é! Dá pra relaxar o corpo todo...CREONTE — Muito bem, Noel Rosa Um dia vai ser sua essa cadeira Quero ver você nela bem sentado, como quem senta na cabeceira do mundo. Sendo sempre respeitado, criando progresso, extirpando as pragas, traçando o destino de quem não tem, fazendo até samba, nas horas vagas Porém... existe um pequeno porém Não vai ser assim, pega, senta e basta Primeiro você vai me convencer que tem condições de assumir a pastaJASÃO — Eu sou compositor...CREONTE — Dá pra viver de samba?...JASÃO — É o que eu ia dizer...CREONTE — Pois nãoJASÃO — Sabendo fazer, o negócio é bom Tem problemas com arrecadação, mas já tá provado que o nosso som
  55. 55. tem força no mercado. Então nós vamos montar uma editora pra controlar os sambas de escola... Depois pegamos...CREONTE — Isso. É por aí. Mas só que fuçar em direito autoral dá confusão Então por que você não faz como eu e não emprega essa imaginação trabalhando só no que vai ser teu?JASÃO — Eu só...CREONTE — Não é melhor? Fala, rapazJASÃO — É melhor...CREONTE — E então?...JASÃO — Mas o senhor disse...CREONTE — Disse o quê?...JASÃO — Isso de ser capaz, ter condições... talvez eu não servisse...CREONTE — Não! Você tem muita capacidade, que é isso? Só quero estar bem seguro que, no caso de uma necessidade, posso confiar em você. É o futuro da minha obra que vou lhe passar com todos os seus segredos. Enfim, preciso saber se posso confiar em você, meu rapaz. Posso?...JASÃO — Por mim acho que pode, já que Alma é sua filhaCREONTE — Então posso confiar?...JASÃO — Pode confiarCREONTE — Está bem, vou lhe ensinar a cartilha da filosofia do bem sentar
  56. 56. (A orquestra ataca a introdução com ritmo bem marcado; enquanto canta, Creonte vai ajeitando Jasão na cadeira.) Ergue a cabeça, estufa o peito Fica olhando a linha de fundo, Como que a olhar nenhum lugar Seguramente é o melhor jeito Que há de se olhar pra todo mundo Sem ninguém olhar teu olhar Mostra total descontração Deixa os braços soltos no ar E o lombo sempre recostado Assim é fácil dizer “não”Pois ninguém vai imaginar Que foi um “não” premeditado Cruza as pernas, que o teu parceiro Vai se sentir mais impotente Vendo a sola do teu sapato E se ele ousar falar primeiro Descruza as pernas de repente Que ele vai entender no ato (A orquestra interrompe seu fundo musical e rítmico.) Por hoje era o que eu tinha a dizer Mas preste atenção que a partir de agora todo mundo um pouco vai depender de você. Cuidado que existe hora
  57. 57. pra ser amigo e pra ser o poder Não queira sair por aí afora dizendo o que pensa. Diga o contrário Esqueça o nome do seu companheiro e cumprimente o pior salafrário, que ninguém é inútil por inteiro Esteja quase sempre sem horário e sempre de partida pro estrangeiro... Por falar nisso, sai, vai namorar, Noel Rosa, porque eu tenho o que fazerJASÃO — (Levantando-se e saindo.) Poxa, nunca imaginei que sentar fosse tão difícil. Bom, aprender... Adeus, seu Creonte, vou me mandarCREONTE — Aliás, não, espere... Vou lhe fazer uma pergunta. Aquele mestre Egeu... Já que vamos dividir este assento, um trabalhinho já apareceu pra você demonstrar o seu talento Aquele Egeu, parece até que é seu compadre...JASÃO — Mestre Egeu? É cem por centoCREONTE — Você gosta muito desse sujeito?JASÃO — Mas claro...CREONTE — E ele lhe dá toda atenção?JASÃO — Mestre Egeu é meu amigo do peito Me ensinou a primeira profissão e batizou meu filho...CREONTE — Bem, perfeito
  58. 58. Você vai conversar com ele, então Você me conhece e pode explicar que eu trabalhei suado, honestamente e fiz essas casas pra melhorar as condições de vida dessa gente Agora, quem compra tem que pagar, senão não há santo que me sustente Diga que pra haver desenvolvimento cada um tem que pagar seu preçoJASÃO — Sim, mas mestre Egeu...CREONTE — Escute um momento Egeu, faz muito tempo que eu conheço e está fazendo muito movimento contra mim. Você acha que eu mereço? Está mandando o povo sonegar as prestações da casa. E eu fico quieto? Acha que é certo esse povo ficar me enganando debaixo do meu teto? Acha certo morar e não pagar? Diga, rapaz, acha que está correto?Simultaneamente, num plano do palco que corresponde ao setde Joana, entram as vizinhas entoando o refrão (em BG).VIZINHAS — Comadre Joana Recolhe essa dor Guarda o teu rancor Pra outra ocasião Comadre Joana Abafa essa brasa Recolhe pra casa
  59. 59. Não pensa mais não Comadre Joana Recolhe esses dentes Bota panos quentes No teu coraçãoJASÃO — Acho que não...CREONTE — Então vai como amigo Fala manso pra evitar confusãoJASÃO — Mas por que mestre Egeu? Ouça o que eudigo: o problema está nessa correção Todo mundo na vila está a perigo e todo mundo reclama...CREONTE — Isso eu não discuto. Fale co’Egeu. O serviço está entregue em tuas mãos. Vocês têm tanta intimidade...JASÃO — Justo por isso é que eu ir lá não pega bemCREONTE — Ah, não? E deixa ele fazer ouriço pra não pagar as casas que também são meio tuas e de minha filha? Se quer fazer papel de otário, faz Mas não envolve Alma nessa armadilhaJASÃO — Não me leve a mal, seu Creonte, mas eu tenho outra solução, outra trilha pra contornar o problema...CREONTE — Rapaz, eu gosto muito de Alma. Ouviu, Jasão?
  60. 60. Minha filha não é eu de mãe Joana Não vai fazer como fez co’a outra, não Comeu, gozou, depois, feito banana, jogou fora a casca. Presta atenção: a minha filha é filha de bacana Eu dei-lhe de tudo. E co’esse violão você não vai dar conta do recadoJASÃO — Seu Creonte, não fala assim não Eu sou homem e sou capacitadoCREONTE — Então assume a nova situação e cumpre co’o dever que lhe foi dado (Um longo tempo; Jasão em silêncio.) Entenda, meu rapaz, o que eu não quero é insubordinação e hipocrisia Mas eu tenho sido humano. Tolero que atrasem. Quase ninguém paga em dia, geralmente por motivo sincero Mas dizer “pago não” por rebeldia, acha que é certo? Acha que eu vou deixar? (Jasão se levanta em silêncio e vai saindo.) Espera, onde é que você vai?...JASÃO —Eu vou falar com mestre Egeu, vou explicar...CREONTE — Isso, vai, rapaz... e escute, eu não sou de vingança, mas quero aproveitar o assunto... Já que a gente cutucou a ferida, deixa sangrar de vez Tua... essa mulher que você viveu
  61. 61. junto e que não paga a casa faz seis meses... essa mulher... não sei... bem, eu sei que ela é mãe dos teus filhos... Talvez seja até mesmo um exagero meu Mas tem coisas que não é bom brincar Ela é dada a macumba, estou sabendo, tem gênio de cobra, pode criar problema, eu estou só me precavendo... Não é tua esposa... tem que aceitar... Não sei... Você sabe o que estou dizendo...JASÃO — Ela tá só nervosa, meio tonta...CREONTE — Minha filha não vai casar tranqüila co’essa mulher tomando ela de ponta Enfim... Vou mandá-la embora da vilaJASÃO — Seu Creonte, deixe por minha conta, Joana sossega, eu vou adverti-laNo set da oficina vê-se Egeu que finalmente acaba de ajustar aválvula; em conseqüência explode no rádio a voz do locutor.LOCUTOR — “... que está na boca da cidade inteira:VOZ OFF — Gota d’água, de Jasão de Oliveira”Entra a melodia do samba; orquestra suave em BG; Jasão vaisaindo lentamente do set de Creonte, que fica sozinho e começaa recitar em tom impessoal:CREONTE — Sou franco — pra minha menina contava com coisa mais fina
  62. 62. Pensava assim... um diplomata, um gerente... um tecnocrata, tenente, major, capitão, político da situação... Quem me dera um capitalista ou quem sabe um psicanalista Por que não ginecologista? Talvez até mesmo um dentista, qualquer coisa menos sambista, porque Alma não é masoquista e, ora porra, eu não sou leão Que ela arranjasse um burocrata de óculos, terno e gravata Bancário, mesário, escrivão, político da oposição! Um simples assalariado, um mero psicanalisado, Cadete, cabo, reservista, guarda de trânsito paulista, qualquer coisa menos sambista Pois foi ao último da lista que a minha filha deu a mão.Orquestra sobe com Gota d’água; ouve-se uma voz na coxia:VOZ OFF — Escuta! É o samba do Jasão!Luz no set das vizinhas; uma lava roupa que entrega pra outraque estende e que entrega pra outra que passa, etc... Seguindo
  63. 63. o grito, um coro começa a cantar o samba, na coxia.VOZES OFF — Deixa em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa E qualquer desatenção — faça não Pode ser a gota d’águaNENÊ — O sujeito é um grande safado mas fez um sambinha arretadoNenê começa a cantar; em seguida, uma a uma, todas cantam osamba; vão cantando e realizando seu trabalho num esboçocoreográfico; estão no centro do palco, dominando toda a zonaneutra não ocupada pelos sets; no fundo do palco vaiaparecendo Joana, vestida de negro, em silêncio, lentamente, osombros caídos, deprimida, mas com o rosto altivo e os olhosfaiscando; Nenê percebe primeiro a entrada de Joana e cutuca avizinha ao lado pra parar de cantar; uma vai advertindo a outraaté que aos poucos ficam todas em silêncio, permanecendoapenas a orquestra desenhando no fundo.CORINA — Desliga esse rádio!... (Um longo tempo de silêncio; Joana se aproxima das vizinhas.) Comadre...ESTELA — Melhorou, Joana?...MARIA — Assim que eu gosto de ver, já
  64. 64. levantou...ZAÍRA — Tá mais aliviada?...NENÊ — Não tá vendo elaandando?CORINA — Comadre Joana devia estar repousando, isso sim...JOANA — Comadre... Eu preciso de vocêsZAÍRA — Deixa que amanhã te arrumo a casa outra vezESTELA — Lavo a roupa...MARIA — Os pratos...NENÊ — Cozinho pravocêCORINA — Diga, comadre, precisa de nós pra quê?JOANA — (Uma melodia sublinha a fala de Joana.) Só agora há pouco, depois de tanto tempo acordados, finalmente os dois conseguiram adormecer. Depois de tanto susto, como por encanto, o rostinho deles voltou a ter não sei não... Parece que de repente, no sono, eles encontram novamente a inocência que estavam pra perder Olhando eles assim, sem sofrimento, imóveis, sorrindo até, flutuando, olhando eles assim, fiquei pensando: podem acordar a qualquer momento Se eles acordam, minha vida assim do jeito que ela está destrambelhada,
  65. 65. sem pai, sem pão, a casa revirada, se eles acordam, vão olhar pra mim Vão olhar pro mundo sem entender Vão perder a infância, o sonho e o sorriso pro resto da vida... Ouçam, eu preciso de vocês e vocês vão compreender: duas crianças cresceram pra nada, pra levar bofetada pelo mundo, melhor é ficar num sono profundo com a inocência assim cristalizada (Orquestra encerra.)CORINA — Não pensa nisso nem por brincadeira, comadre...ESTELA — Que que é isso? Deu bobeira, mulher?...ZAÍRA — Vamos, esquece, deixa estar, Joana...MARIA — Tranqüila, isso vai passar...JOANA — Corina, você é minha testemunha Vocês todas vão ser...NENÊ — Nós somos unha e carne, faça o que você fizer Mas não pensa mais besteira...JOANA — Se eu vier a fazer uma desgraça...CORINA — Comadre!JOANA — Vocês já sabem...ZAÍRA — Isola!...ESTELA — Deus Padre!JOANA — Ninguém vai sambar na minha caveira
  66. 66. Vocês tão de prova: eu não sou mulher pra macho chegar e usar como quer, depois dizer tchau, deixando poeira e meleira na cama desmanchada Mulher de malandro? Comigo, não Não sou das que gozam co’a submissão Eu sou de arrancar a força guardada cá dentro, toda a força do meu peito, pra fazer forte o homem que me ama Assim, quando ele me levar pra cama, eu sei que quem me leva é um homem feito e foi assim que eu fiz Jasão um dia Agora, não sei... Quero a vaidade de volta, minha tesão, minha vontade de viver, meu sono, minha alegria, quero tudo contado bem direito... Ah, putinha, ah, lambisgóia, ah, Creonte Vocês não levaram meu homem fronte a fronte, coxa a coxa, peito a peito Vocês me roubaram Jasão co’o brilho da estrela que cega e perturba a vida de quem vive na banda apodrecida do mundo... Mas tem volta, velho filho da mãe! Assim é que não vai ficar Tá me ouvindo? Velho filho da puta! Você também, Jasão, vê se me escuta Eu descubro um jeito de me vingar...ESTELA — Pára, Joana...
  67. 67. MARIA — Joana...NENÊ — Mas o que é isso?ZAÍRA — Que é isso o quê? Deixa desabafar...JOANA — Tem troco...CORINA — Comadre...ESTELA — Deixa eu falar, Joana...JOANA — Me paga...ESTELA — Olha, tem compromisso pra você no mundo. Você tem filho...JOANA — Filho...ESTELA — Lembra, teus filhos tão aíJOANA — Canalha...ESTELA — E precisam muito de tiJOANA — Vão me pagar.NENÊ — Escuta, eu compartilho da sua dor...JOANA — Mas não dói em vocêCORINA — Comadre Joana...JOANA — Eu fiz ele pra mim Não esperei ele passar assim já pronto, na bandeja, qual o quê. Levei dez anos forjando meu macho Botei nele toda a minha ambição Nas formas dele tem a minha mão... E quando tá formado, já no tacho, vem uma fresca levar, leva não...CORINA — Comadre, escuta...
  68. 68. NENÊ — Vai dormir que passaJOANA — Não leva mesmo. Eu compro essa desgraçaCORINA — Comadre, não fala assim, que aflição!JOANA — Leva não...ESTELA — Joana, precisa lembrar, você tem dois filhos...JOANA — Que filhos? Filhos... Eles também vão virar dois gatilhos apontando pra mim. Quer apostar?Entra percussão; ritmo frenético; as cinco vizinhas, em coro,começam a entoar o refrão.VIZINHAS — Comadre Joana Recolhe essa dorJOANA — (Falando com ritmo no fundo.) Ah, os falsos inocentes! Ajudaram a traição São dois brotos das sementes traiçoeiras de Jasão E me encheram, e me incharam, e me abriram, me mamaram, me torceram, me estragaram, me partiram, me secaram, me deixaram pele e osso Jasão não, a cada dia
  69. 69. parecia estar mais moço, enquanto eu me consumiaVIZINHAS — Comadre Joana Guarda o teu rancorJOANA — Me iam, vinham, me cansavam, me pediam, me exigiam, me corriam, me paravam Caíam e amoleciam, ardiam co’a minha lava, ganhavam vida co’a minha, enquanto o pai se guardava com toda a vida que tinhaVIZINHAS — Comadre Joana Abafa essa brasaJOANA — Vão me murchar, me doer, me esticar e me espremer, me torturar, me perder, me curvar, me envelhecer E quando o tempo chegar, vão fazer como Jasão A primeira que passar, eles me deixam na mãoVIZINHAS — Comadre Joana Recolhe pra casaJOANA — E me chutam, e me esfolam, e me escondem, e me esquecem, e me jogam, e me isolam, me matam, desaparecem
  70. 70. Jasão esperou quietinho dez anos pra retirada Dou mais dez pra Jasãozinho seguir pela mesma estradaVIZINHAS — Comadre Joana Recolhe esses dentesJOANA — Pra não ser trapo nem lixo, nem sombra, objeto, nada, eu prefiro ser um bicho, ser esta besta danada Me arrasto, berro, me xingo, me mordo, babo, me bato, me mato, mato e me vingo, me vingo, me mato e matoVIZINHAS — (Com força.) Comadre Joana Bota panos quentesCORINA — Comadre, fala mais nada! (Breque na percussão.)JOANA — Me mato, mato e me vingo, me vingo, me mato e mato (Joana está caída no chão.)CORINA — Me ajuda aqui co’a coitadaQuatro vizinhas carregam Joana pro fundo, enquanto Corina vaidando um passe de umbanda e cantando; enquanto esse grupo caminha do proscênio para o fundo do palco,
  71. 71. Jasão vem caminhando do fundo para o set da oficina; asvizinhas desaparecem com Joana e Jasão entra na oficina demestre Egeu.JASÃO — Mestre...EGEU — Oi, menino, como é, sumiu? (Enquanto conversa, Egeu não pára de consertar um rádio.)JASÃO — Tou trabalhando...EGEU — Senta...JASÃO —Tou só de passagem...EGEU — Poxa, essa explodiu...JASÃO — O quê?...EGEU — Gota d’água, que toró...JASÃO — (Ri.) Que nada...EGEU — É sucesso nacional Caiu no gosto da multidão e ainda vai pegar no carnaval (Cantarola Gota d’água.)JASÃO — Levei sorte...EGEU — É fogo... é mole nãoJASÃO — E você, mestre, tudo perfeito? Como vai o pessoal aqui?EGEU — Sempre falei que você tem jeito pra samba, não falei? Olha aí...JASÃO — Pois é... (Um tempo.)
  72. 72. EGEU — Vê se agora não descamba pra auto-suficiência. Cuidado co’a máscara...JASÃO — Que é isso.EGEU — Olha, samba é só uma espécie de feriado que a gente deixa pra alma da gente Mas você não se iluda porque a vida se ganha é no batenteJASÃO — Pois é... (Um Tempo.)EGEU — E então?...JASÃO — O quê?...EGEU — Ué, você deve ter novidade que é mato agora que é uma celebridade...JASÃO — Eu vim pra falar dum troço chato e sério, mestre...EGEU — Fala à vontadeJASÃO — É que...EGEU — Espera aí... (Redobra sua atenção na peça que está colocando no rádio.) Pode falarJASÃO — Eu acho que amizade é amizade a qualquer hora e em qualquer lugar Mas tem uma hora da verdade e a gente precisa ser sincero e franco quando a verdade é dura...
  73. 73. EGEU — E precisa tanto lero-lero? Fala, menino, que é que há?... (Entregando uma peça do rádio a Jasão.) Segura pra mim...JASÃO — O caso é que tão falando por aí que um bocado de gente de uns tempos pra cá tá se juntando e combinando pra de repente ninguém mais pagar a prestação da casa própria... Não por aperto, de caso pensado: pago não!...EGEU — É?... Assim é fogo...JASÃO — Acha que é certo tomar dos outros e não pagar?EGEU — É... não é mole não...JASÃO — Você vê? Tem mais, mestre Egeu, foram contar pro seu Creonte que era você quem botava farofa no prato da turma...EGEU — Eu o quê?...JASÃO — Tava mandando não pagar...EGEU — Não pode ser...JASÃO — ExatoEGEU — Disseram isso?...JASÃO — Tão comentando...EGEU — Que filhos da puta...JASÃO — Pr’ocê ver...
  74. 74. Falar um troço desses de ti... É mais é falta do que fazer Que é que você acha?...EGEU — Eu?...JASÃO —Discuti com seu Creonte: por mestre Egeu ponho a mão no fogo... É homem sério... Meu compadre...EGEU — Quer saber o que eu acho? Sem rodeio e sem mistério? Esse emprego não serve pr’ocêJASÃO — Qual emprego?...EGEU — Virou inocente?JASÃO — Tá aporrinhado, mestre? Por quê? Eu tava falando simplesmente...EGEU — Esquece. Vem aqui, dá uma olhada Me ajuda aqui co’esse filamento que a essa hora eu não vejo mais nadaJASÃO — Puxa, mestre, o senhor é cismento Eu já lhe falei pra levantar grana num banco. Aí moderniza a oficina, põe pra trabalhar uns empregados e nem precisa forçar a vista. Fica ali só
  75. 75. na administração... (Levantando.)EGEU — (Com autoridade.) Presepada, menino... Tira esse paletó e senta aí. Que banco que nada! Senta duma vez, eu tou mandando Pega o alicate e a chave de fenda e vai matutando, matutando, até que você um dia aprenda a ser dono da sua consciênciaJASÃO — Que é que foi, mestre Egeu, eu não sei a razão de tanta impaciência Eu só vim aqui e perguntei sobre o problema da prestação O senhor já disse que não tem nada a ver co’essa situação, então tá acabado, tudo bemEGEU — Ouça, rapaz, você vai sentar e consertar o rádio, entendeu? E já. Pelo menos pra pagar o leite dos seus filhos, que se eu não tou dando, eles morrem de fome
  76. 76. (Fulminado, Jasão mais cai do que senta.) Desculpa. Joana, é como se não vivesse mais, não dorme, não come, não sai, parece uma assombração Desde o dia em que esse casamento foi marcado, ela não quer falar de mais nada. E nesse desalento não pode trabalhar, nem olhar pelos seus filhos...JASÃO — Eu não sabia... Ela botou boca na janela pra gritar que já não carecia de mim pra nada. E mais. Que pra ela os filhos não tinham pai mais não Todo mundo ouviu a xaropada, você ouviu, mestre...EGEU — Ora, Jasão, conversa de dona abandonada...JASÃO — E como é que eu posso adivinhar? Se você agora não dissesse, eu nem sabia... Mas vou cuidar do problema, você me conhece, eu tenho responsabilidade...EGEU — Eu sei que você é um bom rapaz (Tempo.) Poxa, é fogo (Impaciente com o rádio.) É a idade, é a idade
  77. 77. Vem cá, vê se você é capaz de engatar o filamento... (Jasão apanha o rádio e começa a engatar o filamento.)JASÃO — Chato, não é, mestre?...EGEU — O quê?...JASÃO — Me passar na cara só porque deu um prato pra meu filho comer...EGEU — Vai ficar zangado?...JASÃO — Não é qualquer um. Eu, sou eu, sou eu, Jasão de Oliveira, sou eu. Não te ofendi, mestre Egeu Eu só vim evitar barulheira por causa das prestações... É certo levar um coice?...EGEU — Então, tá, me dá... (Pede o rádio, mas Jasão não entrega.)JASÃO — Pode deixar comigo, eu conserto... (Segue tentando engatar o filamento; tempo.) É você, não é, mestre? Que tá mandando essa gente não pagar... Te conheço...EGEU — Conhece, pois é, conhece todos neste lugar Zazueira, Cazuza, Xulé, Amorim e Dé. Toda essa gente, você mesmo, ainda tá lembrado? Todos dando duro no batente
  78. 78. a fim de ganhar um ordenadomirradinho, contado, pingado...Nisso aparece um cara sabidocom um plano meio complicadopra confundir o pobre fodido:casa própria pela bagatelade dez milhões, certo? Dez milhõesaos poucos, parcela por parcela,umas cento e tantas prestaçõesBem, o trouxa fica fascinado...Passa a contar tostão por tostão,se vira pra tudo quanto é lado,que ter casa própria é uma ambiçãodecente. Então ele pega, sua,deixa até de comer... Livra cem,e, vamos dizer, dorme na rua,larga a cachaça e não vê mais nemfutebol. No fim do mês tá dandopra juntar as cem pratas sagradas
  79. 79. Muito bem. O tempo vai passandoe lá vêm as taxas, caralhadasde juros, correção monetáriae não sei mais lá quanto por cento...Tudo aumenta, menos a diária...Um ano depois, quando o jumentojuntou cem contos pra prestaçãovai ver que, com todos os aumentos,os cem cruzeirinhos já não dão:a prestação subiu pra trezentos...Passam seis meses e vai além,sobe pra quatrocentos e tanto...Mas como, se o cara ficou semcomer pra sobrar cem? E no entantoo jumento é teimoso, ele bateco’a cabeça pra ver se a titicado salário aumenta, faz biscate,come vidro, se aperta, se estica,se contorce, morde o pé, se esfola,se mata, põe a mulher na vida,rouba, dá a bunda, pede esmolae vai pagando a cota exigida...Quando ele vê, conseguiu somarcinco milhões redondos, portantometade do total a pagarMas aí, pra seu tremendo espanto,
  80. 80. descobre que então passa a dever dezoito milhões e novecentos O jumento diz: não pode ser! Já fiz metade dos pagamentos Paguei cinco, devo cinco. Vê aí, faz as contas, vê se pode, inventa outra lógica, você... Pois pode, amigo, o cara se fode morrendo um bocadinho por mês... Quem ia ficar pagando até mil novecentos e oitenta e seis só pára no ano dois mil, isto é, se parar. Enfim, o desgraçado, depois de tanta batalha inglória, o corpo já cheio de pecado, inda leva nota promissória pro juízo final.JASÃO — Muito bem, mestre Egeu... Por que comprou então?EGEU — Aliás eu não precisava nem fazer tanta conta, né, Jasão? Você sabe. Já lhe faltou grana pro apartamento onde você mora... morava... com teus filhos e Joana...JASÃO — (Gritando:) Muito bem! Por que comprou?... (Tempo; pára de mexer no rádio.) Agora, mestre, você tem que me entender...
  81. 81. É meu compadre, é um segundo pai pra mim. Mas seu Creonte vai ser meu sogro, pai da mulher que vai ser minha... Ele também vai virar uma espécie de pai. Todo mundo aqui é amigo. É como estar em família... Olha, mestre, no fundo, eu sou mais útil daquele lado Lá dentro eu posso representar quem estiver mais encalacrado, posso interceder, facilitar... Todo mundo só tem a perder co’essa briga de foice no escuro (Jasão recomeça a mexer no rádio.)EGEU — Ah, Jasão, você não vai poder se equilibrar no alto desse muro...JASÃO — Seu Creonte admite um atraso ou outro... Se a turma se der mal, eu falo: olha aí, sogrão, o caso é o seguinte, Xulé é legal, Dé também — e ele não chia, nãoEGEU — Ah, Jasão, o amor lhe deu cegueira ou mudou seu campo de visãoJASÃO — É compromisso pra vida inteira que assumo contigo. A turma conte comigo. Se alguém não tá em dia, eu levo o problema ao seu Creonte com toda amizade e simpatiaEGEU — Então, Jasão, se você quiser,
  82. 82. já pode começar resolvendo o problema da tua mulher e teus filhos que não tão podendo pagar...JASÃO — Esse problema é só meu (Solta o rádio e levanta.) e não vim falar sobre ele agora...EGEU — Pois é. Esse problema é só seu... Bem, quando quiser pode ir embora...Um tempo; Jasão, vencido, senta; fica um longo tempo parado,pensando; Egeu toma o rádio e recomeça o conserto; derepente, Jasão tira novamente o rádio de “Egeu e volta aconsertar; enquanto se desenrola esta cena em mímica, luz noset das vizinhas, onde Joana está deitada, recebendo o confortode Corina.CORINA — Melhor, comadre?...JOANA — Depois do que eu dei e fiz, cê acha que Jasão pode ser tão ruim, tão disfarçado e tão frio, para ser feliz junto co’a outra, sem nunca pensar em mim? Será que ele é capaz? Ah, vejo ele mentir pra ela que, por mim, nunca teve amizade Vejo ele rindo muito e fazendo ela rir, falando do meu corpo, nossa intimidade...Entram Estela e Zaíra.
  83. 83. ESTELA — Ele tá aí...CORINA — Quem?...ZAÍRA — Como quem? Jasão O safado tá lá com mestre Egeu...JOANA — Safado por quê? Não é homem seu...ZAÍRA — Desculpa, foi só força de expressão...JOANA — Eu sim, posso dizer que ele é um safado Não tem direito de andar se exibindo... Daqui a pouco toda a vila tá rindo de mim, ele feliz e eu nesse estado...ESTELA — (Para Zaíra:) Ela só fala nisso: vão gozar da cara dela...ZAÍRA — (Para Estela:) Precisa dizer qualquer coisa... (Alto:) Ele vai se arrependerESTELA — (Alto:) Tá na cara que Jasão vai voltarSeguem mimicando o que falam; a cena volta para o set deEgeu, onde Jasão, depois de longo silêncio consertando o rádio,solta o rádio e volta a falar:JASÃO — Você, mestre Egeu, é meu amigo Por isso eu peço, de coração, me ajude, colabore comigo...EGEU — Vai visitar teus filhos, Jasão...JASÃO — Promete que não fala mais nada
  84. 84. de não pagar as casas, aquilo tudo, hein? Controla a rapaziada? Fala, meu mestre... Posso ir tranqüilo?EGEU — Por que fizeram isso contigo? Creonte te desse um bofetão na cara, desse o pior castigo, mas não te entregasse essa missão...JASÃO — Por favor, mestre Egeu, dá um jeito Diz que me ajuda... Basta falar co’a turma... Você impõe respeito.EGEU — Vai falar você, vai, se tem peitoAbre luz no botequim, quando explode uma gargalhada daturma dos vizinhos; depois da gargalhada eles seguem fazendomímica de porrinha e o primeiro plano continua no set de Egeu.JASÃO — Meu mestre...EGEU — Eu preciso trabalhar...Jasão está indeciso e decepcionado; Egeu apanha o rádio ecomeça a mexer; girando o botão, explode uma música no rádioque Jasão, enquanto falava, consertava; a orquestra executauma variação do tema que sublinhou a fala de Joana sobre osfilhos; Egeu dá um salto, percebendo que Jasão consertou orádio.EGEU — Tá tocando!... Foi você, Jasão... Nessa horinha, como pode ser? Eu tou mexendo nele há um tempão... Taí o que você sabe fazer
  85. 85. como ninguém no mundo, meninoAgora você provou de vezque já tá marcado o teu destinoEletrônica das oito às seise em noites de lua, violão(Jasão sai, evitando a euforia de Egeu.)Volta aqui, Jasão... Nem agradecea quem lhe deu uma profissão...Vê teus filhos, Jasão, não esquece...(Jasão desaparece enquanto a orquestra segueem BG para sublinhar o monólogo de Egeu.)Os homens são mesmo competentes...Quem chama Jasão, não chama à toaÉ o cara certo: boa pessoa,real valor, bons antecedentes,saúde de ferro, ótimos dentes,jovem, capaz, figura de proa,talentoso, enfim, madeira boapra arder na lareira dos contentes...Sempre que um cara menos bichadosurge aqui, pagam seu peso em ouropra levá-lo embora. Resultado:mais negro fica este sumidouromais brilhante fica o outro ladoe o seu carnaval, mais duradouro(Tempo; mestre Egeu apanha o rádio quecontinua tocando — orquestra em BG — evai lentamente diminuindo o volume; a luz,em resistência, vai diminuindo de acordo como volume do rádio.)
  86. 86. Mas, Jasão, a festa é traiçoeira, e um alçapão. Todo mundo sabe que não há mal que nunca se acabe nem festa que dure a vida inteiraDesliga o rádio, ao mesmo tempo que se apaga a luz em seuset; o primeiro plano vai para o set das vizinhas e o set dobotequim.ESTELA — Eu te digo que esse volta pra casa... Homem, conheço, tive dezesseis e garanto uma coisa pra vocês Jasão sem Joana é pinto sem a asa da galinha pra amparar. Fica triste e chocho e zonzo e passa o dia inteiro zanzando, dando volta no poleiro...ZAÍRA — Eu também acho que ele não resiste Que é que ele viu na franga do Creonte? Pra mim ele vai lá, bica um tiquinho, molha o bico e vem de volta pro ninhoJOANA — Que venha e volte, entre e saia, que monte e desmonte, que faça e que desfaça... Mulher é embrulho feito pra esperar, sempre esperar... Que ele venha jantar ou não, que feche a cara ou faça graça, que te ache bonita ou te ache feia, mãe, criança, puta, santa madona A mulher é uma espécie de poltrona que assume a forma da vontade alheia
  87. 87. No set do botequim aparece Jasão vindo da coxia; assim que ovêem os vizinhos o saúdam com entusiasmo.GALEGO — Não!...TODOS — Jasão!...JASÃO — Oi, gente...XULÉ — Acaba de entrar neste recinto Jasão de Oliveira, autor de Gota d’água, verdadeira jóia do cancioneiro popular... (Abraça Jasão.)GALEGO — Já desço uma loura bem caprichada... (Aperta-lhe a mão.)BOCA — Atenção... (Abraça Jasão.) O ataque entra em campo assim: Jasão, Xulé, CacetÀ

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