COUSCOUS – O espetáculo da pós-democraciai                        Baseado na obra de Kechicheii                           ...
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APRESENTADOR(R.S.: expressão de pouco caso).Os outros Autóctones busquem assento onde possam… ainda sobram algumas vagas.M...
Desculpem-me, estou um pouco confuso… (R.S.: riso nervoso). Os fios são para que ospaíses de acolhida possam garantir toda...
(R.O.: entrada de Slimane, pelo centro. Surge a sombra de um homem, mas não épossível vê-lo.)APRESENTADOR(R.S.: o apresent...
A França esteve em meu lar durante muitos anos e fez dele o que quis. Nossa gana deliberdade foi mal vista e considerada c...
cidadãos que não estão previstos e apoiados por suas leis; pode ser que comerrecomponha a comuna – sua coesão, sua força, ...
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Couscous - o espetáculo da pos-democracia

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Couscous - o espetáculo da pos-democracia

  1. 1. COUSCOUS – O espetáculo da pós-democraciai Baseado na obra de Kechicheii Dina Maria Rosário Mara LeitePERSONAGENSApresentadorSlimane BeijiOs DonosOs Autóctones Ricos e/ou PolíticosOs Outros AutóctonesOs migrantesATO ÚNICORubrica geral (RG) – Cenário de circo. Apresentador em traje de gala estampado com omapa mundial – o traje do apresentador deve ter fios suspensos de maneira que o façaparecer uma marionete. Todos os outros atores devem estar usando trajes estampadoscom partes das bandeiras de todas as nações. As entradas são pela direita, pela esquerdae pelo centro.Cena IPersonagem – ApresentadorRubrica objetiva (R.O.: entra o apresentador e dirige-se ao centro do palco. Todas asluzes o enfocam e o palco deve estar escuro.Rubrica subjetiva (R.S.: sorrir, fazer salamaleques e gesticular de maneira exageradacomo os apresentadores de espetáculo circense).APRESENTADORSenhoras e senhores o espetáculo da pós-democracia já começou. Estamos em cenadesde os fins do século XIX. Estamos trabalhando há muito tempo nesta obra e, comopodem ver, está consideravelmente melhor.As cenas de guerra e as pantomimas de paz têm nos ensinado muitíssimo sobre asmelhores tecnologias de atualização do controle oligárquico dos governos e amanutenção do disfarce democrático. Os sketches de reunião de chefes de estado e osfóruns internacionais têm sido estupendos para experimentar discursos, testar o seupoder de sedução e disseminar seu conteúdo. Os organismos mundiais são nossa melhorestratégia – seus mapas de domínios evidenciam a hegemonia das nossas normas eordens. Todavia, não esqueçam a publicidade e suas excelentes técnicas paraescamotear os fatos, manipular a opinião pública e garantir a alienação e o consumodesmedido.Nossa intervenção educativa – silenciosa, constante e eficiente – tem a colaboraçãoativa dos sistemas de educação básica, das universidades e institutos de investigação(Geritage Foundetion, American Enterprise Institute, Cato Institut, etc.), editoriais etodas as grandes agências de comunicação de massa (CNN, The Financial Times, TheWall Street Journal e The Economist, etc. e todos os periodistas alienados). A agenda dacomunicação dos nossos mediadores coletivos da realidade tem garantido ocondicionamento da percepção do mundo. Agradecemos a eles termos alcançamos a
  2. 2. interiorização do neocolonialismo como única forma de organização econômica e fontede felicidade universal, garantindo a cumplicidade geral ao despotismo.Encontramos o perfeito equilíbrio para perpetuar a exploração e garantir a escravidão.(R.S.: Gesticulação exagerada para chamar o público).Aproximem-se do nosso picadeiro mundial, necessitamos apresentar os lugares ondepodem estar os cidadãos, seus papéis, seus espaços de ação, suas funções. Está claro (?!)que podem estar no lugar onde prefiram já que todo homem e toda mulher têm direito air e vir, podem viver onde queiram… Todavia, é necessário dizer que as vagas/cadeirasestão organizadas a partir dos estados-nação.Cena IIPersonagens – Apresentador e Os DonosAPRESENTADOR(R.S.: com os braços abertos).Que comece a distribuição das vagas!(R.O.: rufar de tambores).Que rufem os tambores!(R.S.: fazer salamaleques).Os donos das indústrias de porte mundial; os presidentes das instituições financeirasinternacionais; FMI, OMC, Banco Mundial, Conselho de Segurança das Nações Unidas,ONU, OECD, BIRD; os chefes de estados e de governos, os reis, os califas, o papa, osprimeiros ministros e ministros de finanças dos países do G4, G7, G8, G15, G22, G23,G33, G20, G10… por favor, tomem assento em seus tronos transnacionais. Estão noponto mais alto e no centro do nosso picadeiro, daí poderão manobrar os fios para amanipulação dos “consumatores” e cenários do títere atual.(R.O.: entrada de Os Donos pela direita. Os Donos fazem um pequeno tumulto perto dassuas cadeiras. A ação deve representar uma disputa pelas melhores cadeiras).APRESENTADOR(R.S.: em tom irônico).Por favor, senhores, organizem-se segundo o Panteón do Poder. Há três níveis deassentos e os senhores sabem onde devem estar. Recordem seus interesses pessoais,estratégicos e econômicos.Cena IIIPersonagens – Apresentador e Os Autóctones Ricos e/ou Políticos.APRESENTADOROs autóctones Ricos e/ou Políticos dos partidos que estão no poder devem buscar osconfortáveis assentos de espaldar alto que estão na primeira fileira, próximas ao centro,do seu Estado-nação. Mantenham-se atados aos seus fios e saibam que serão“convidados” a atuar.(R.O: Os Autóctones Ricos e/ou Políticos entram pela direita, organizados em filas. Aação deve indicar um aparelhamento militar).Cena IVPersonagens – Apresentador e Os Outros Autóctones.
  3. 3. APRESENTADOR(R.S.: expressão de pouco caso).Os outros Autóctones busquem assento onde possam… ainda sobram algumas vagas.Mantenham-se em seu estado-nação.(R.S.: tom de enfado). Não estamos aqui para perder tempo com vocês.(R.O: Os Outros Autóctones entram pela esquerda. Os atores devem formar una única elonga fila na qual todos devem caminhar rapidamente, demonstrando submissão eresignação.)APRESENTADORQue? O que quer saber, não te escuto…(R.O.: todos os atores devem paralisar ação como se estivessem chocados).(R.S.: Todos levam a mão à boca e arregalam os olhos).APRESENTADORPergunta pelo seu fio? Não se preocupe você já nasceu com ele preso à sua cabeça. Nãosabia?(R.O.: todos os atores retomam suas ações e expressam tédio).APRESENTADOR(R.S.: em tom mais baixo e jocoso). Os pobres não percebem o mundo… sempre comuma venda nos olhos… Que sigam sempre assim para que tudo siga como está.(R.S.: em tom normal). O show tem que continuar!Cena VPersonagens – Apresentador e Os Imigrantes.APRESENTADORSenhoras e Senhores tenho a honra de apresentar-lhes… O que está havendo?(R.O.: entrada de Os migrantes por todos os lados). Os migrantes devem entrar comosaltimbancos.APRESENTADORQuem são esses? Quase esqueci… são os migrantes… Os outros dos outros dosoutros…Há algum autóctone que esteja sem lugar? Creio que todos já estão cômodos econfortáveis.(R.S.: em tom mais baixo). Que fazer?… Há que se manter a ilusão da democracia,estado de direitos, liberdade, equidade e todo esse bla bla bla…Então… que todos os outros que não formam parte das categorias anteriores encontremlugar debaixo das cadeiras dos seus países/lugares de acolhida. Insisto, todos os outros –miseráveis, analfabetos, deficientes, idosos, desempregados, ex-presidiários, os semqualquer coisa (teto, terra, trabalho, saúde…), diferentes de qualquer espécie etranseuntes contemporâneos. Cuidem para que não ocupem muito espaço, não façambarulho. Ajam de forma tal que possamos esquecer a sua incômoda presença.(R.O.: Os migrantes fazem acrobacias e se acomodam debaixo da arquibancada. Osatores devem se posicionar de maneira que sejam visíveis de qualquer ponto do palco.APRESENTADORPeguem os fios que saem do solo. São para que possam estar sob o control…
  4. 4. Desculpem-me, estou um pouco confuso… (R.S.: riso nervoso). Os fios são para que ospaíses de acolhida possam garantir toda ajuda humanitária que necessitam.Que? Sinto muito, não te escuto…(R.O.: todos os atores devem paralisar ação como se estivessem chocados).(R.S.: Todos levam a mão à boca e arregalam os olhos).APRESENTADOR(R.S.: em voz baixa e debochada). Crêem que podem perguntar… Crêem ter direito avoz neste assunto… Estupidez…(R.S.: em tom normal). Diga-me, meu bem… Então você nasceu neste país e crê que éautóctone e cidadão? E você? Seus antepassados vivem nessas terras há 2.000 anos evocê acredita que também é cidadão deste estado-nação…Trabalha aqui há 50 anos… Tem um comércio e paga todos os impostos…Pertence a quarta geração de um casal de imigrantes e se crê cidadão com todos osdireitos…Estão todos equivocados. Desde X anos, com a Lei XXX/XX, decidimos que somenteos pertencentes ao grupo XxXxX são autóctones verdadeiros e, portanto, cidadãos. Osdireitos promulgados nas constituições dos países estão dirigidos aos cidadãos. Só aoscidadãos. Para todos os outros fazemos concessões.Compreendam que estamos de boa maré… Já estão aqui… Têm um lugarzinho… Quequerem? Saibam que têm o irrevogável direito de serem inferiores a nós; em situaçõesmuito excepcionais de extraordinária identidade econômica podem ser quase iguais.Superiores jamais. Calem-se!(R.O.: Todos os atores sorriem e assentem com a cabeça).(R.S.: os atores expressam aprovação à fala do apresentador de maneiras variadas)Cena VIPersonagem – Apresentador.APRESENTADORSenhoras e senhores, tenho a honra de apresentar… (R.S.: olha para os lados e paracima como que averiguando se não haverá uma nova interrupção). …a Pós-Democracia.Esta maravilha contemporânea é um sistema de governança no qual a democracia érepresentativa, exclusivamente, para as elites totalitárias, onde todos os grupos políticos,ideológicos e econômicos, ainda que pareçam divergir, estão em acordo tácito econjuntural. Até pouco tempo, ainda utilizávamos os estados-nação para concretizaraquela tal democracia – arenga interessante para dissimular nossos objetivos: a ditadurado mercado, a supremacia do setor privado, o culto ao lucro. Já não a necessitamos,temos um governo mundial composto por nós – as elites transnacionais. William Paffnos definiu de maneira magistral: “… Império universal, um império espontâneo cujosmembros submetem-se voluntariamente à sua vontade.”Vocês não precisam pensar em nada, nós já decidimos tudo. No espetáculo da pós-democracia todos têm seu papel e sua função. É per-fei-to!Cena VIIPersonagens – Apresentador e Slimane Beiji.APRESENTADOR(R.S.: expressão de fúria). Deus dos miseráveis, que dia!
  5. 5. (R.O.: entrada de Slimane, pelo centro. Surge a sombra de um homem, mas não épossível vê-lo.)APRESENTADOR(R.S.: o apresentador põe as mãos sobre as sobrancelhas como se estivesse tentandoenxergar melhor. Depois faz uma expressão de reconhecimento.). Diga Sr. SlimaneBeiji… (R.S.: entonação de enfado. Suspira e bate com as mãos na coxa para ressaltar otédio).Farei melhor que escutá-lo… como já ouvi a sua lengalenga muitas e muitas vezes, eumesmo a conto…(R.S.: tom de desprezo). Bla bla bla… um sexagenário de ascendência magrebi…sempre trabalhou em um cais do sul da França…. agora está desempregado… Blo bloblo… gosta da França e quer ser dono de um restaurante de comida magrebi quefuncionaria no casco de um barco reformado… Ble ble ble… terá como prato principal“Cuscuz com peixe”… deseja uma vaga no Atracadouro da República”- ponto dosmelhores restaurantes da cidade.(R.S.: tom entre ameaça e conselho). Slimane essas coisas não são simples… Saiba quenecessitará de dinheiro…(R.S.: enumerar as exigências de forma enfática e monótona para gerar cansaço aoouvinte). …deverá apresentar um estudo de mercado, um projeto do restaurante complanilha de custo detalhada, projeto da reforma do barco, um parecer do SEBRAE,parecer do Banco de Pequenas Empresas, certificados de formação para gerenciamentode restaurantes, certificado de formação para gestão de negócios, certificado deformação para manipulação e conservação de alimentos frescos, as autorizações parafuncionamento (Prefeitura, Vigilância Sanitária, Junta Comercial, Capitania dos Portos,Secretaria de Importação e Comercio, da Secretaria de Turismo, da Secretaria dotrabalho, Sindicatos, etc.).(R.S.: tom entre ameaça e conselho). Não seria mais fácil buscar o seguro desempregoou o plano de aposentadoria por invalidez?(R.S.: em voz baixa). Será que ele ainda não entendeu que não se permite mobilidadesocial? Ele já está no lugar onde deve estar. Nada deve mudar nada.Cena VIIIPersonagens – Apresentador e Slimane Beiji.(R.O: Slimane Beiji entra em cena, saindo da sombra, e se posiciona no centro do palco.Slimane caminha lentamente com a cabeça baixa. Todas as luzes o enfocam e todo opalco fica escuro)(R.S: O personagem é um homem cansado. A voz de Slimane deve, em principio, soarcomo um sussurro e durante o monólogo irá ganhando força. Sr. Beiji deve começar afalar com a cabeça baixa e corpo curvado e, à medida que o discurso avance, deveráempertigar-se. Seus gestos devem ser lentos e comedidos. Slimane não sente raiva oudesprezo. Ele tem a serenidade de um homem consciente. Seu discurso não deve parecerameaçador.)SLIMANE BEIJISenhor… desculpe-me, Senhor. Necessito falar um pouco… Não sou um homem depalavras, sou um homem trabalhador e costumo falar através das minhas atitudes, dasminhas ações, da minha ética e das minhas crenças. Sou um homem simples, marcadopela cultura e pelas tradições e sei que os senhores não entendem porque saí do meupaís paro o dos senhores.
  6. 6. A França esteve em meu lar durante muitos anos e fez dele o que quis. Nossa gana deliberdade foi mal vista e considerada como ameaça; nossa oposição à dominação e aoaniquilamento foi combatida com as trombetas do despotismo: a economia, a ideologiae o aparato militar. Estivemos mergulhados em um negado conflito por vida, identidade,respeito e emancipação desde 1830 até 1962.Sou um Argelino que imigrou do Magreb para Sete faz 43 anos. Saí do meu país quandocompletei 18 anos e casei com a mãe dos meus filhos. Sou um homem honrado e cri quena França poderia fugir das armas, do chamado da morte, da miséria, da guerra. Sonheipara meus filhos, para minha família um futuro digno e uma vida longe de um paísconsumido pela exploração e pela beligerância – o petróleo e o gás da minha terra nãogeram saciedade aos seus filhos; só ganância, dor e sofrimento. Paradoxalmenteprofessei que nossos antigos opressores poderiam, sob a luz da democracia e da pós-modernidade, acolher aos antigos oprimidos de maneira nobre.Abandonar a minha terra natal não foi uma decisão fácil. No entanto, ao fazê-lo julgueiestar fazendo o mais correto, opinei estar a caminho do êxito – confesso.Hoje, cansado de trabalhar, trabalhar e trabalhar… lutar, lutar e lutar para manter aminha família unida, feliz e próspera percebo que fracassei.Minha esposa, a mãe dos meus filhos, já não fala comigo. Meus filhos vivem no fio danavalha – fazem das tripas coração para criar os meus netos. Meu sangue e meu suor,meus sonhos e minha força somaram à construção e desenvolvimento deste país namesma proporção que o dos senhores. Contribuí, com minhas roupas de feira, tantoquanto os senhores, com suas roupas de luxo, seus escritórios suntuosos e seus ardispolíticos. Todavia, nenhum dos meus conseguiu estudar nas suas universidades, nenhumdeles conseguiu um bom trabalho, nenhum tem uma morada decente.No entanto, estou seguro de que os senhores não conhecem, nem reconhecem os apurosque passamos e o esforço que fazemos para que sejamos aceitos e possamos nosincorporar à metrópole.Creio que seguimos invisíveis… Minha dor cala as minhas palavras e falar me pareceuma atividade inútil… meu grito tem estado mudo… minha voz não ecoa… minhaagonia se confundiu com a urbana paisagem da normal opacidade do velho, do pobre,do outro, do diferente, da indiferença.Muito mais que um restaurante, este projeto representa meu último suspiro. Reconheçoque a mim já não importa onde tombará meu fatigado corpo, o ânima se perdeu daminha alma. Desejo que aos meus isto não ocorra ainda que não possa ver, desde agora,rios de leite e mel no futuro dos meus herdeiros. Desejo, com esse gesto, construir umaherança de trabalho, de prosperidade, de esperança e de dignidade. Desejo reunir meusfamiliares e ensinar-lhes que é possível Ser, que é possível alcançar sonhos, que somoscapazes, que existimos.Todavia, estou consciente de que os senhores não têm a intenção de permitir quefuncione.Convido-os a um jantar, convido-os a comer em comuna. Minhas raízes me ensinaramque comer juntos é comungar em um ato de construção dos laços de convivência e decooperação. Convido os senhores a uma celebração da dignidade, da força frente aosobstáculos, da possibilidade de reconciliação de culturas e pessoas negada, da superaçãodo rechaço diuturno.Bebam, comam, desfrutem e não esqueçam que tenho consciência de que os senhorestramam para que eu não alcance o meu intento.Pode ser que o meu pequeno sucesso tropece em um dos muitos interesses que ossenhores têm; pode ser que o meu restaurante lembre a miscigenação sobre a qual seassenta esta nação; pode ser que um barco desperte a consciência da nau perdida para os
  7. 7. cidadãos que não estão previstos e apoiados por suas leis; pode ser que comerrecomponha a comuna – sua coesão, sua força, seus direitos; pode ser que sejam apenaspessoas mesquinhas. Esta comida é a representação da nossa dignidade e do quantopoderíamos Ser acaso este país fosse, de fato, uma democracia – liberté, fraternité,egalité.No entanto, como os senhores já nos informaram, vivemos o espetáculo da pós-democracia… já não há diretos, declarações, fóruns… Os Senhores, os novos deuses,crêem que nos condenaram, a todos, a não Ser e a não Ter.Nós existimos… não esqueçam. A existência dos senhores inter-depende da nossa aindaque neguem, ainda que nos façam parecer dependentes dos seus favores, da caridade, daboa vontade. Há um constante movimento de emancipação que os senhoresreconhecem, negam, temem e combatem. Posso ver nos seus olhos a incerteza frente aoque está por vir; o temor pelas mudanças, o medo de que seus discursos já não nosseduzam, já não nos hipnotizem.Comam senhores, comam! Comamos todos, o banquete do mundo está servido.(R.O: As luzes retornam e o Sr. Beiji desaparece. O Apresentador segue discursando emvoz muda, assim como todos os atores. As luzes vão sendo apagadas pouco a pouco, aúltima deve ser a que foca o Apresentador).i Texto produzido no ano de 2009 para a disciplina Educação e cidadania, ministrada por Rafael JiménezGámez, do mestrado em Orientação e Avaliação Socioeducativas na Universidad de Cádiz – UCA/Es.ii Kechiche, A. (2007). Cuscús [Película]. Titulo original La Graine et le Mulet. Francia: Pathè.151mim.Color.

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