A antropóloga Mirian Goldenberg, autora de Toda mulheré meio Lei/a Dinize A outra, está diante de um novodesafio: mostrar ...
A arte depesquisar
Mirian GoldenbergA arte depesquisarComo fazer pesquisaqualitativa emCiências Sociais8aEDIÇÃOE D I T O R A R E C O R DRIO D...
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.Goldenberg, MiríanG566a A arte de pesquisar:...
"Há uma idade em que se ensina o que se sabe;mas vem em seguida outra, em que se ensina oque não se sabe: isso se chama pe...
SumárioIntrodução 11(Re)Aprendendo a Olhar 13Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais 16A Escola de Chicago e a Pesquisa Q...
10 / Mirian GoldenbergFichamento da Teoria 81Entrevistas e Questionários 85Pensando como um Cientista 92Análise e Relatóri...
12 / Mirian Goldenbergde Janeiro. Após dois anos e meio defendiminha disser-tação sobre "O deficiente auditivo no mundo do...
r14 / Mirian Goldenbergpesquisa. Neste livro apresentarei um dos caminhospossíveis: o caminho que tenho buscado seguir. As...
PESQUISA QUALITATIVA EMCIÊNCIAS SOCIAISAo se pensar nas origens da pesquisa qualitativa emciências sociais, corre-se o ris...
18 / Mirian Goldenbergriam ser explicados por outros fatos sociais, e não porfatos psicológicos ou biológicos, como preten...
20 / Mirian Goldenbergmétodo mais adequado à pesquisa social. Em La Refor-me Sociale en France (1864), Lê Play expõe o mét...
22 / Mirian Goldenbergde pesquisa antropológica. Argonauta of the WesternPacific, publicado em 1922, é um verdadeiro trata...
24 / Mirian Goldenbergaspectos morais e epistemológicos. Esta antropologiaquestiona a autoridade do texto antropológico e ...
r26 / Mirian GoldenbergJá desde o final do século XIX, o interacionismosimbólico* exercia uma profunda influência sobre as...
28 / Mirian GoldenbergDevido à sua forte preocupação empírica, uma dascontribuições mais importantes da Escola de Chicagof...
30 / Mirian Goldenbergdo de crescente utilização de técnicas de pesquisa quan-titativa na sociologia americana. Stouffer, ...
32 / Mirian Goldenbergsoas negociam, cotídianamente, a sua inserção nos gru-pos A sociologiade Garfinkel repousa sobre o r...
34 / Mirian Goldenbergsituação e descrever a complexidade de um caso con-creto. Através de um mergulho profundo e exaustiv...
O MÉTODO BIOGRÁFICOEMCIÊNCIAS SOCIAISA utilização do método biográfico em ciências sociaisvem, necessariamente, acompanhad...
38 / Mirian GoldenbergA autora propõeque se supere a dicotomia determi-nismo e livre-arbítrio, como princípios conflitante...
40 / Mirian GoldenbergNorbert Elias chama a atenção para a curiosa con-tradição dos desejos dos outsiders: a tentativa de ...
42 / Mirian Goldenbergcadas para as mulheres de sua geração, particular-mente na cidade do Rio de Janeiro. Analiso, atravé...
OBJETIVIDADE, REPRESENTATIVIDADEE CONTROLE DEBiAS16NAPESQUISA QUALITATIVAMuitos cientistas sociais acusam a pesquisa quali...
46 / Mirian Goldenbergenvolvidos na escolha dos problemas estudados e, porisso, devemser permanentemente explicitados. E p...
48 / Mirian Goldenbergsobre o problema estudado, do que aqueles que estãonos níveis inferiores. Uma das maneiras de evitar...
50 / Mirian Goldenbergtivos enfatizam as particularidades de um fenómenoem termos de seu significado para o grupo pesquisa...
52 / Mirian Goldenbergsob enfoques diferentes, pode não só contribuir parareduzir o ôias da pesquisa como, também, propici...
54 / Mirian GoldenbergRuth Cardoso18apontou para a falta de uma críti-ca teórico-metodológica consistente no campo dasciên...
56 / Mirian GoldenbergO pesquisador deve estabelecer um difícil equilíbriopara não ir além do que pode perguntar mas,també...
58 / Mirian Goldenbergmente explicitada pelo pesquisador para que outrospesquisadores analisem as conclusões obtidas. A es...
60 / Mirian Goldenberggras claras, cada pesquisador deve ter bom senso ecriatividade para encaminhar as soluções para cada...
62 / Mirian Goldenbergquisador tem condições para produzir um conheci-mento completo da realidade, diferentes abordagensde...
64 / Mirian Goldenbergpante e survey é o estudo de NeumaAguiar26no" Cariri,uma região no sul do Ceará, sobre os modos de o...
r66 / Mirian GoldenbergBerquó levanta a hipótese de que no Brasil esteja exis-tindo uma poligamia disfarçada, já que as mu...
FAÇAA PERGUNTA CERTA!Agora, depois dessa discussão mais teórica, vamosco-locar a mãona massa e aprender a construir um prq...
70 / Mirian Goldenbergporque dependem da formação científica do pesquisa-dor. São elas: bom domínioda teoria, escrever bem...
72 / Mirian Goldenbergta que faz e deve saber colocar as questões necessáriaspara o sucesso de sua pesquisa.O pesquisador ...
CONSTRUINDO o PROJETODE PESQUISA"Uma aranha executa operações semelhantes àsdo tecelão,e a abelha supera mais de um arqui-...
76 / Mirian GoldenbergSUGESTÃO PARA UMPROJETO DEPESQUISACAPA1. INSTITUIÇÃO (localonde será desenvolvidaa pesquisa)2. TÍTUL...
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg

378 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
378
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
33
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A arte-de-pesquisar-mirian-goldenberg

  1. 1. A antropóloga Mirian Goldenberg, autora de Toda mulheré meio Lei/a Dinize A outra, está diante de um novodesafio: mostrar que a pesquisa científica não se reduza meia dúzia de regras preestabelecidas. Em A arte de_ ^_,^ pesquisar, ela ensina aos futurospesquisadores a importância doolhar científico. Curiosidade,criatividade, disciplina eespecialmente paixão são algumasexigências para o desenvolvimentode um trabalho criterioso, baseadono confronto permanente entre odesejo e a realidade possível.ISBN 85-01-04965-4Capa: Fábio CamposFotografia da autora: César Duarte 9 "788501"049650"
  2. 2. A arte depesquisar
  3. 3. Mirian GoldenbergA arte depesquisarComo fazer pesquisaqualitativa emCiências Sociais8aEDIÇÃOE D I T O R A R E C O R DRIO DE JANEIRO • SÃO PAULO2004
  4. 4. CIP-Brasil. Catalogação-na-fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.Goldenberg, MiríanG566a A arte de pesquisar: como fazer pesquisa8*ed. qualitativa em Ciências Sociais / MirianGoldenberg.- 8ed. - RiodeJaneiro: Record,2004.Inclui glossário1. Ciências sociais - Metodologia. 2.Pesquisa- Metodologia. 3. Pesquisa social. I. Título. II.Título: Como fazer pesquisa qualitativaem CiênciasSociais.97-0797CDD-300,18CDU-301:001.8Copyright © 1997 by Mirian GoldenbergTodos os direitos reservados, inclusive os de reprodução,no todo ou em pane, através de quaisquer meios.Direitos exclusivos desta edição reservados pelaDISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSAS.A.Rua Argentina 171 - RiodeJaneiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000Impresso no BrasilISBN 85-01-04965-4PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTALCaixa Postal 23.052Rio de Janeiro, RJ- 20922-970 EDITORA AFILIADADedico este livro a todos os meus alunos ealunas, que têm me ensinado a ser umapessoa cada vez melhor.
  5. 5. "Há uma idade em que se ensina o que se sabe;mas vem em seguida outra, em que se ensina oque não se sabe: isso se chama pesquisar. Vemtalvez agora a idade de uma outra experiência,a de desaprender, dedeixar trabalharoremane-jamento imprevisível que o esquecimento im-põe à sedimentação dos saberes, das culturas,das crenças que atravessamos. Essa experiên-cia tem, creio eu, um nome ilustre e fora demoda, que ousarei tomar aqui sem complexo,na própria encruzilhada de sua etimologia:sapientia- nenhum poder, um pouco de saber,um pouco de sabedoria, e o máximo de saborpossível."ROLAND BARTHES
  6. 6. SumárioIntrodução 11(Re)Aprendendo a Olhar 13Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais 16A Escola de Chicago e a Pesquisa Qualitativa 25Estudos de Caso 33 ,O Método Biográfico em Ciências Sociais 36Objetividade, Representatividade e Controlede Bias na Pesquisa Qualitativa 44Pesquisa Qualitativa: ProblemasTeórico-Metodológicos 53Integração entre Análise Quantitativae Qualitativa 61Faça a Pergunta Certa! 68Formulando o Problema de Pesquisa 71Construindo o Projeto de Pesquisa 74Os Passos da Pesquisa 78
  7. 7. 10 / Mirian GoldenbergFichamento da Teoria 81Entrevistas e Questionários 85Pensando como um Cientista 92Análise e Relatório Final 94Algumas Palavras Finais 100Glossário 103 IntroduçãoQuando inicio um curso de Metodologia de Pesquisanoto, no semblante de meus alunos, uma profunda mávontade. Costumo perguntar sobre suas experiênciasanteriores com esta disciplina e, com raríssimas exce-ções, são unânimes em afirmar que a matéria foi muitodesinteressante na faculdade.Comesta recepção, não éfácil iniciar um curso de dezenas de horas ou semanas.Ao final do curso, no entanto, sempre encontro alu-nos entusiasmados, empolgados comseus projetos, e nãoraro commanifestações de carinho e agradecimentos.Quero, comeste livro, passar um poucodesta expe-riência prazerosa em sala de aula e também mostrarque a postura científica não é algo de apenas algunseleitos, podendo ser exercida em qualquer campo deestudo. Metodologia Científica é muito mais do que al-gumas regras de como fazer uma pesquisa. Ela auxiliaa refletir e propicia um "novo" olhar sobre o mundo:um olhar científico, curioso, indagador e criativo.Minha primeira experiência com pesquisa científicafoi em 1978, aos 21 anos, quandoingressei no Mestradode Educação da Pontifícia Universidade Católica doRio
  8. 8. 12 / Mirian Goldenbergde Janeiro. Após dois anos e meio defendiminha disser-tação sobre "O deficiente auditivo no mundo do traba-lho: um estudo sobre a satisfação profissional". Comorientação da professora Nícia Bessa, que cobrava rela-tórios semanais, fui a primeira da turma a defender adissertação. É preciso registrar a importância dos nos-sos primeiros orientadores, que nos ensinam a pensar,ter disciplina e escrever corretamente.A minha verdadeira formação como pesquisadora,no entanto, se iniciou dez anos depois, em 1988, quandoingressei no Programa de Pós-Graduação emAntropo-logia Social, do Museu Nacional, Universidade Federaldo Riode Janeiro, para fazer meu doutoramento. Nesseambiente de intensas e calorosas discussões, de profes-sores e alunos brilhantes, encontrei solo fértil para co-meçar a fazer pesquisa na área das assim chamadasCiências Humanas ouCiências Sociais.Desdeentão,con-tagiada pelo vírus do "olhar científico", não conseguiparar de pesquisar.(REAPRENDENDO A OLHAR"A ciência não corresponde a um inundo a des-crever.Ela corresponde a um mundo aconstruir."BachelardO objetivoprincipal deste livro é ensinar o "olhar cien-tífico" e mostrar que a pesquisa não se reduz a certosprocedimentos metodológicos. Apesquisa científica exi-ge criatividade, disciplina, organização e modéstia, ba-seando-se no confronto permanente entre o possível eo impossível, entre o conhecimento e a ignorância.Nenhuma pesquisa é totalmente controlável, cominício, meio e fim previsíveis. A pesquisa é um proces-so em que é impossível prever todas as etapas. O pes-quisador está sempre em estado de tensão porque sabeque seu conhecimento é parcial e limitado — o "possí-vel" para ele.No meu entender, não existe um único modelo de
  9. 9. r14 / Mirian Goldenbergpesquisa. Neste livro apresentarei um dos caminhospossíveis: o caminho que tenho buscado seguir. Assim,quando falo de Metodologia estou falando de um cami-nho possível para a pesquisa científica. O que determi-na como trabalhar é o problema que se quer trabalhar:só se escolhe o caminho quando se sabe aonde se querchegar.Anteriormente as ciências se pautavam em um mo-delo quantitativo de pesquisa, em que a veracidade deum estudo era verificada pela quantidade de entrevista-dos. Muitos pesquisadores, no entanto, questionam arepresentatividade e o caráter de objetividade de que apesquisa quantitativa se revestia. E preciso encarar ofato de que, mesmo nas pesquisas quantitativas, a sub-jetividade do pesquisador está presente. Na escolha dotema, dos entrevistados, no roteiro de perguntas, na bi-bliografia consultada e na análise do material coletado,existe um autor, um sujeito que decide os passos a se-rem dados. Na pesquisa qualitativa a preocupação dopesquisador não é com a representatividade numéricadogrupopesquisado, mas comoaprofundamentodacom-preensão de um grupo social, de uma organização, deuma instituição, de uma trajetória etc. Neste livro ireime deter na pesquisa qualitativa, na qual venho traba-lhando desde 1988.É bom lembrar que nós, estudiosos brasileiros,estamos pouco acostumados ao verdadeiro debate deideias. Entendemos como ataques pessoais muitas crí-ticas que podem contribuir para o amadurecimento denosso trabalho. A socialização dopesquisador exige umexercício permanente de crítica e autocrítica. Esperoencontrar leitores-alunos dispostos a viver intensa-mente esta experiência decisiva: a de expor seus traba-lhos a uma crítica permanente.A Arte de Pesquisar / 15Este livro é, na verdade, um difícil (e espero praze-rosp) desafio: um exercício para aprender a pensar cien-tificamente, com criatividade, organização, clareza e,acima de tudo, sabor.
  10. 10. PESQUISA QUALITATIVA EMCIÊNCIAS SOCIAISAo se pensar nas origens da pesquisa qualitativa emciências sociais, corre-se o risco de se perder num ca-minho longo demais, que procurando as origens dasorigens não chegajamais ao fim. Poderia chegar a He-ródoto, que, descrevendo a guerra entre a Pérsia e aGrécia, se dedicou a esboçar os costumes, as vesti-mentas, as armas, osbarcos, os tabus alimentares e ascerimónias religiosas dos persas e povos circunvi-zinhos.Nãopretendo fazer um caminhotão longomas, parasituar a questão da utilização de técnicas e métodosqualitativos de pesquisa nas ciências sociais dentro deuma discussão filosófica mais ampla, acredito ser im-portante elucidar odebate entre a sociologiapositivistae a sociologia compreensiva.Os pesquisadores que adotam a abordagem quali-tativa em pesquisa se opõem ao pressuposto que defen-de um modelo único de pesquisa para todas as ciên-cias, baseado no modelo de estudo das ciências da na-A Arte de Pesquisar / 17tureza.Estes pesquisadoresserecusam alegitimar seusconhecimentos por processos quantificáveis que ve-nham a se transformar em leis e explicações gerais.Afirmam que as ciências sociaistêm sua especificidade,que pressupõe uma metodologia própria.Os pesquisadores qualitativistas recusam o mode-lo positivista aplicado ao estudo da vida social. O fun-dador do positivismo, Augusto Comte (1798-1857), de-fendia a unidade de todas as ciências e a aplicação daabordagem científica na realidade social humana.Combase em critérios de abstração, complexidade e rele-vância prática, Comte estabeleceu uma hierarquia dasciências, em que a matemática ocupava o primeiro lu-gar, e a sociologia ou "física social", o último, precedi-da, em ordem decrescente, da astronomia, física, quí-mica e biologia. Para Comte, cada ciência dependia dodesenvolvimento da que a precedeu. Portanto, a socio-logia não poderia existir sem a biologia,que não pode-ria existir sem a química, e assim por diante.Nesta perspectiva, na qual o objeto das ciênciassociais deve ser estudado tal qual o das ciências físi-cas, a pesquisa é uma atividade neutra e objetiva, quebusca descobrir regularidades ou leis, em que o pes-quisador não pode fazer julgamentos nem permitir queseus preconceitos e crenças contaminem a pesquisa.Émile Durkheim (1858-1917), preocupado, comoComte, coma ordem na sociedadee coma primazia dasociedade sobre o indivíduo, também se posicionou afavor da unidade das ciências. Tomando "os fatos so-ciais como coisas", Durkheim defendia que o social éreal e externo ao indivíduo, ou seja, o fenómeno social,como o fenómeno físico, é independente da consciênciahumana e verificável através da experiência dos senti-dos e da observação.Durkheim acreditava que os fatos sociais só pode-
  11. 11. 18 / Mirian Goldenbergriam ser explicados por outros fatos sociais, e não porfatos psicológicos ou biológicos, como pretendiam al-guns pensadores de seu tempo. Defendendo a visão daciência social como neutra e objetiva, na qual sujeito eobjeto do conhecimento estão radicalmente separados,Durkheim teve uma influência decisiva para que asciências sociais tenham adotado o método científicodas ciências naturais.Na segunda metade do século passado, alguns pen-sadores, influenciados pelo idealismo de Kant, reagi-ram criticamente aomodelo positivista de conhecimen-to aplicado às ciências sociais, acreditando que o estu-do da realidade social através de métodos de outrasciências poderia destruir a própria essência desta rea-lidade, já que esquecia a dimensão de liberdade e indi-vidualidade do ser humano.A sociologia compreensiva, que tem suas raízes nohistoricismo alemão, distinguindo "natureza" de "cul-tura", considera necessário, para estudar os fenóme-nos sociais, um procedimento metodológicodiferentedaquele utilizado nas ciências físicas e matemáticas.O filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833-1911) foi umdos primeiros a criticar o uso da metodologiadas ciên-cias naturais pelas ciências sociais, em função da dife-rença fundamental entre osobjetos de estudos das mes-mas. Nas primeiras, os cientistas lidam com objetosexternos passíveis de serem conhecidos de forma obje-tiva, enquanto nas ciências sociais lidam com emoções,valores, subjetividades. Esta diferença se traduz emdiferenças nos objetivos enos métodosdepesquisa. ParaDilthey, os fatos sociais não são suscetíveis dequantificação, já que cada um deles tem um sentidopróprio, diferente dos demais, e isso torna necessárioque cada caso concreto seja compreendidoem sua sin-gularidade. Portanto, as ciências sociais devemsepreo-A Arte de Pesquisar/ 19cupar com a compreensão de casos particulares e nãocom a formulação de leis generalizantes, como fazemas ciências naturais.Por meio de dois conceitos, Dilthey diferenciou ométodo das ciências naturais —erklaren —, que buscageneralizações e a descoberta de regularidades, do dasciências sociais — verstehen —, que visa à compreen-são interpretativa das experiências dosindivíduos den-tro do contexto em que foram vivenciadas.O maior representante da chamadasociologiacom-preensiva é Max Weber (1864-1920), que se apropriouda ideia de verstehen proposta por Dilthey. Para Weber,o principal interesse da ciência social é o comporta-mento significativo dos indivíduos engajados na açãosocial, ou seja, o comportamento ao qual os indivíduosagregam significado considerando o comportamentodeoutros indivíduos. Os cientistas sociais, que pesquisamos significados das ações sociais de outros indivíduose deles próprios, são sujeito e objeto de suas pesquisas.Nesta perspectiva, que se opõe à visão positivista deobjetividade e de separação radical entre sujeito e obje-to da pesquisa, é natural que cientistas sociais se inte-ressem por pesquisar aquilo que valorizam. Estes ci-entistas buscam compreender os valores, crenças, mo-tivações e sentimentos humanos, compreensão que sópode ocorrer se a ação é colocada dentro de um contex-to de significado.Esta discussão filosófica mais geral, que diferen-cia as ciências sociais das demais ciências, contex-tualiza o surgimento e o desenvolvimento das técnicase métodos qualitativos de pesquisa social.Frédéric Lê Play, contemporâneo de Comte, foi umdos primeiros a estudar a realidade social dentro deuma perspectiva científica que considerava a observa-ção direta, controlável e objetiva da sociedade como o
  12. 12. 20 / Mirian Goldenbergmétodo mais adequado à pesquisa social. Em La Refor-me Sociale en France (1864), Lê Play expõe o métododas monografias, que se caracteriza por ser uma técni-ca, ordenada e metódica, de observação direta da soci-edade. Trouxe de sua experiência de mineralogista, naqual estava habituado a colher amostras dejazidas paraserem analisadas, a preocupação de observar direta-mente e analisar sistematicamente as famílias operá-rias localizadas nos diferentes países da Europa ondepesquisou. De seus registros minuciosos e ordenadosresultou um conjuntode monografiasreunidas em Lêsouvriers européens (1855).No final do século XIX e início do século XX, osestudos dos antropólogos nas sociedades "primitivas"foram determinantes para o desenvolvimento das téc-nicas de pesquisa que permitem recolher diretamenteobservações e informações sobre a cultura nativa. Associedades estudadas diretamente por esses antropó-logos são sociedades sem escrita, longínquas, isoladas,de pequenas dimensões, com reduzida especializaçãodas atividades sociais, sendo classificadas como "sim-ples" ou "primitivas" em contraste coma organização"complexa" das sociedades dos pesquisadores.O primeiro antropólogo a conviver com os nativosfoi o americano Lewis Henry Morgan, um dos maisexpressivos representantes do pensamento evolucio-nista. Jurista de formação,em 1851 publicou TheLea-gue of Ho-dé-no-sau-nee, or Iroquois, considerado oprimeiro tratado científico de etnografia. Mas foramos trabalhos de campo de Franz Boas, entre 1883 e1902, e, particularmente, a expedição de BronislawMalinowski às ilhas Trobriand, que consagraram aideia de que os antropólogos deveriam passar um lon-go período de tempo na sociedade que estão estudandopara encontrar e interpretar seus próprios dados, emA Arte de Pesquisar / 21vez de depender dos relatos dos viajantes, como faziamos "antropólogos de gabinete".Nos primeiros trinta anos do século XX,o trabalhode campo passou a orientar as pesquisas antropológi-cas. Boas, um geógrafo de formação, crítico radical dosantropólogos evolucionistas, ensinou que no campotudo deveria ser anotado meticulosamente e que umcostume só tem significado se estiver relacionado aoseu contexto particular. Ensinou também o "relati-vismo cultural": o pesquisador deveria estudar as cul-turas com um mínimo de preconceitos etnocêntricos.Para Boas, o que constitui o "génio próprio" de umpovo repousa sobre as experiências individuais e, por-tanto, o objetivo do pesquisador é compreender a vidado indivíduo dentro da própria sociedadeem que vive.Boas foi o grande mestre da antropologia americanana primeira metade do século XX.Formou toda umageração de antropólogos, como Ralph Linton, RuthBenedict e Margaret Mead, considerados representan-tes da antropologia cultural americana,que utilizammétodos e técnicas de pesquisa qualitativa somados amodelos conceituais próximos da psicologia e da psi-canálise1.A primeira experiênciade campo de Malinowskifoiem 1914, entre os mailu na Melanésia. Impedido devoltar à Inglaterra, no início da Primeira Guerra Mun-dial, ele começou sua pesquisa nas ilhas Trobriand, de1915 a 1916, retornando em 1917 para uma estada demais um ano. Esta longa convivência com os nativosteve uma influência decisiva na inovação do métodoA expressão "culturalismo" ou "teoria culturalista da personalidade" foiempregada pela primeira vez nos anos 50 para se referir às pesquisasamericanas sobre as relações entre cultura e personalidade.
  13. 13. 22 / Mirian Goldenbergde pesquisa antropológica. Argonauta of the WesternPacific, publicado em 1922, é um verdadeiro tratadosobre o trabalho de campo. A convivência íntima comos nativos passou a ser considerada o melhor instru-mento de que o antropólogo dispõe para compreender"de dentro" o significado das lógicas particulares ca-racterísticas de cada cultura. Malinowski demonstrouque o comportamento nativo não é irracional, mas seexplica por uma lógica própria que precisa ser desco-berta pelo pesquisador. Colocou em prática a obser-vação participante, criando um modelo do que deveser otrabalho decampo:opesquisador, através de umaestada de longa duração, deve mergulhar profunda-mente na cultura nativa, impregnando-se da mentali-dade nativa. Deve viver, falar, pensar e sentir como osnativos.Malinowski, considerado o pai do funcionalismo,acreditava que cada cultura tem como função a satis-fação das necessidades básicas dos indivíduos que acompõem, criando instituições capazes de responder aestas necessidades. A análise funcional consiste emanalisar todo fato social do ponto de vista das relaçõesde interdependência que ele mantém, sincronicamente,com outros fatos sociais no interior de uma totalida-de. A conduta de observação etnográfica, assim como aapresentação dos resultados sob a forma monográfica,obedecem aos pressupostos do método funcional.Grande parte da renovação das ciências sociais sedeve às influências (diretas ou indiretas) dos métodosde pesquisa de Malinowski. Argonauta of the WesternPacific provocouuma verdadeira ruptura metodológicana antropologia priorizando a observação direta e aexperiência pessoal do pesquisador no campo.Malinowski sugeriu três questões para o trabalho decampo: o que os nativos dizemsobre o que fazem? O queA Arte de Pesquisar/ 23realmente fazem? Oquepensama respeito doque fazem?Por meiodocontato íntimo coma vida nativa, exaustiva-mente registrado no diário de campo,Malinowski bus-cou as respostas destas questõespreocupando-se em com-preender o ponto de vista nativo.Para Malinowski, a antropologia era o estudo se-gundo o qual compreendendoo "primitivo" poderíamoschegar a compreendermelhor a nós mesmos.Aricaex-periência de campo de Malinowski, assim como suaspropostas metodológicas, influenciaram decisivamentea aplicação de técnicas e métodosde pesquisa qualitati-va em ciências sociais.Na décadade 1970, surgenosEUA, inspirada na ideiaweberiana de que a observaçãodos fatos sociais deve le-var à compreensão(enão a um conjunto de leis), a antro-pologia interpretativa. Um dos principais representantesda abordageminterpretativa é Clifford Geertz, que pro-põe um modelo de análise cultural hermenêutico: o an-tropólogo deve fazer uma descrição em profundidade("descrição densa") das culturas como "textos" vividos,como "teias de significados" que devem ser interpreta-dos. De acordo com Geertz, os "textos" antropológicossãointerpretações sobre as interpretações nativas,já queos nativos produzeminterpretações de sua própria expe-riência. Tais textos são "ficções", no sentido de que são"construídos" (não falsos ou inventados). Esta perspec-tiva se traduz em um permanente questionamento doantropólogo a respeito dos limites de sua capacidadedeconhecer o grupo que estuda e na necessidade de expor,em seu texto, suas dúvidas,perplexidades e oscaminhosque levarama sua interpretação, percebidasempre comoparcial e provisória.Geertz inspirou a tendência atual da chamadaantro-pologia reflexiva ou pós-interpretativa, que propõe umaauto-reflexão a respeito do trabalho de campo nos seus
  14. 14. 24 / Mirian Goldenbergaspectos morais e epistemológicos. Esta antropologiaquestiona a autoridade do texto antropológico e propõeque o resultado da pesquisa não seja fruto da observaçãopura e simples, mas de um diálogoe de uma negociaçãode pontos de vista, do pesquisador e pesquisados.A ESCOLA DECHICAGO EAPESQUISA QUALITATIVAA Universidade de Chicagosurgiu em 1892 e em 1910 oseu departamento de sociologiae antropologia tornou-seo principal centro de estudos e de pesquisas sociológicasdos EUA.Em 1930, o termo Escola de Chicagofoi utili-zado pela primeira vez por Luther Bernard, em "Schoolsof sociology". Por este termo, designa-se um conjuntodepesquisas realizadas, a partir da perspectiva intera-cionista, particularmente depois de 19152na cidade deChicago. Um de seus traços marcantes é a orientaçãomultidisciplinar, envolvendo, principalmente, a sociolo-gia, a antropologia, a ciência política, a psicologia e afilosofia. O departamento de sociologia e antropologiada Universidade de Chicagoesteve unido até 1929, o quesugere que as pesquisas etnográficas contribuíram paradar legitimidade às técnicas e métodos qualitativos napesquisa sociológicaem grandes centros urbanos.2Após 1935, acentuou-se o conflito entre uma sociologia quantitativista,que viria a se tornar dominantenos EUA, e a sociologiaqualitativa que seproduzia na Escola deChicago.
  15. 15. r26 / Mirian GoldenbergJá desde o final do século XIX, o interacionismosimbólico* exercia uma profunda influência sobre asociologia de Chicago, através da presença de GeorgeHerbert Mead e do filósofo americano John Dewey.Dewey, que lecionou em Chicago de 1894 até 1904, trou-xe para o interacionismo o pragmatismo, uma filoso-fia de intervenção social que postula que o pesquisa-dor deve estar envolvido com a vida de sua cidade e seinteressar por sua transformação social.Mead, considerado o arquiteto da perspectivainteracionista, lecionou na Universidade de Chica-go até 1931. Sua perspectiva teórica, fortementemarcada pela influência da psicologia social e deGeorg Simmel, que trouxe para a sociologia afiloso-fia de Kant, é apresentada em Mind, Self andSociety*.Para Mead, a associação humana surge apenasquando cada indivíduo percebe a intenção dos atos dosoutros e, então, constrói sua própria resposta em fun-ção desta intenção. Tais intenções são transmitidas pormeio de gestos que se tornam simbólicos, ou seja, pas-síveis de serem interpretados. A sociedade humana sefunda em sentidos compartilhados sob a forma de com-preensões e expectativas comuns. O componente sig-nificativo de um ato acontece através do role-taking: oindivíduo deve se colocar no lugar de outro. Ao afir-mar que o indivíduo possui um self, Mead enfatiza que,da mesma forma que interage socialmente com outrosindivíduos, ele interage consigo mesmo. O self repre-3Em 1937, Blumer criou o termo interacionismo simbólico e sistemati-zou seus pressupostos básicos em Symbolic Interactionism, Perspectiveand Method, onde discute os mais importantes aspectos da interaçãosimbólica tentando ser fiel ao pensamento de Mead.4Mead não publicou, em vida, uma obra sobre a sua teoria. Seus quatrolivros foram organizados, após a sua morte em 1931, a partir de palestras,aulas, notas e manuscritos.A Arte de Pesquisar/ 27senta ooutro incorporadoaoindivíduo.É formado atra-vés das definições feitas por outros que servirão dereferencial para que o indivíduopossa ver a simesmo.Enfatizando a natureza simbólica da vida social,Mead postula que são as atividades interativas dos in-divíduos que produzem as significações sociais. Umaconsequência importante deste postulado é que o pes-quisador sópode ter acesso a esses fenómenos particu-lares, que são as produções sociais significantes dosindivíduos, quando participa do mundo que se propõeestudar. O interacionismo simbólico, ao contrário daconcepção durkheimiana que defende que as manifes-tações subjetivas não pertencem ao domínio da socio-logia, afirma que é a concepçãoque os indivíduos têmdo mundo social que constitui o objeto essencial dapesquisa sociológica.O interacionismo simbólicodestaca a importânciado indivíduo como intérprete do mundoque o cerca e,consequentemente,desenvolvemétodos depesquisa quepriorizam os pontos de vista dos indivíduos. Ò propó-sito destes métodosé compreenderas significaçõesqueos próprios indivíduos põem em prática para construirseu mundo social. Como a realidade social só aparecesob a forma de como os indivíduos vêem este mundo,omeio mais adequado para captar a realidade é aqueleque propicia ao pesquisador ver o mundoatravés "dosolhos dos pesquisados".A pesquisa da Escola de Chicago tem a marca dodesejo de produzir conhecimentosúteis para a soluçãode problemas sociais concretos que enfrentava a cida-de de Chicago. Grande parte de seus estudos refere-seaos problemas da imigração e da integração dos imi-grantes à sociedade americana, delinquência, crimi-nalidade, desemprego, pobreza, minorias e relaçõesraciais.
  16. 16. 28 / Mirian GoldenbergDevido à sua forte preocupação empírica, uma dascontribuições mais importantes da Escola de Chicagofoi o desenvolvimento de métodos originais de pesqui-sa qualitativa: a utilização científica de documentospessoais, como cartas e diários íntimos, a exploraçãode diversas fontes documentais e o desenvolvimentodo trabalho de campo sistemático na cidade.O estudo de W.I. Thomas e F. ZnaniecM, sobre avida social dos camponeses poloneses nos EUA, é umótimo exemplo da sociologia praticada pela Escola deChicago. The Polish Peasant in Europe and America(1918-1920) é um estudo da emigração de camponesespoloneses e dos seus problemas de assimilação nosEUA. Os dois pesquisadores reuniram dados coletadosna Polónia e nos Estados Unidos: artigos de jornaisdiários, arquivos de tribunais e de associações ameri-cano-polonesas, fichários de associações de assistên-cia social, cartas trocadas entre famílias que viviamnos Estados Unidos e na Polónia, além do longo relatoautobiográfico de um imigrante polonês.Thomas e Znaniecki dedicaram todo um volumedeThe Polish Peasant5a uma autobiografia escrita porum imigrante polonês em Chicago. Essa autobiografiafoi cotejada com outras fontes, como cartas familia-res, jornais diários e arquivos. Aplicandoum dos prin-cípios do interacionismo simbólico, os dois pesquisa-dores acreditavam que através do registro da vida deum imigrante poderiam penetrar e compreender "pordentro" o seu mundo.Grande parte da produção da Escola de Chicagofoiorientada por Robert Park, que, antes de se tornar pro-fessor de sociologia em Chicago de 1914 a 1933, foi,*The Polish Peasant in Europe and America tem mais de 2.200 páginas,distribuídas em cinco volumes.A Arte de Pesquisar/ 29durante vários anos, jornalista, atividade que influen-ciou seus métodosdepesquisa ede seus discípulos. Parkconsiderava a cidade como o laboratório de pesquisassociológicas por excelência.Muitas pesquisas de Chicagovoltaram-se para umproblema candente nos EUA:os conflitos étnicos e astensões raciais. Pesquisas sobre as comunidades deimigrantes, sobre os conflitos raciais entre brancos enegros, sobre criminalidade, desvio e delinquência ju-venil, tornaram a sociologiade Chicagofamosa emtodoo mundo.Frederic Thrasher publicou, em 1923, sua tese dedoutorado sobre as gangues de Chicago.John Landescopublicou, em 1929, uma obra comuma vasta pesquisasobre a criminalidade de Chicago, a partir de históriasde vida de gângsteres. Uma das obras mais famosas daEscola de Chicago, The Jack-Roller: A delinquent boysown story, publicada em 1930, é baseada na história devida deumjovem delinquente dedezesseis anos, Stanley,que Clifford Shaw acompanhou durante seis anos, den-tro e fora da prisão. Logo depois, em 1931, Shaw publi-cou The natural history of a delinquent career, sobreum adolescente acusado de estupro. Em 1937, EdwinSutherland publicou um estudo, baseado no relato au-tobiográfico de um ladrão profissional, sobre sua vidacotidiana e suas diferentes práticas (roubo, estelionato,fraude, extorsão etc.). Estes estudos demonstram a pre-ocupação dos pesquisadores de Chicago em analisar osgraves problemas enfrentados pela cidade a partir doponto de vista dos indivíduos que são vistos socialmen-te como os principais responsáveis.The Polish Peasant, em 1918-1920, inaugurou operíodo mais expressivo da sociologia qualitativa deChicago, que, em 1949, coma publicaçãode The ameri-can soldier,de Samuel Stouffer, deu lugar a um perío-
  17. 17. 30 / Mirian Goldenbergdo de crescente utilização de técnicas de pesquisa quan-titativa na sociologia americana. Stouffer, desde 1930,defendia a estatística ccomo um método de pesquisamais eficaz e mais científico do que a história de vidaou o estudo de caso.Apesar da importância e originalidade das pesqui-sas qualitativas da Escola de Chicago,não se pode dei-xar de lado suas pesquisas quantitativas. Em 1929,Shaw e outros pesquisadores publicaram uma obrasobre a delinquência urbana em que recensearam cer-ca de 60 mil domicílios de "vagabundos, criminosos edelinquentes" de Chicago, para demonstrar as taxasde criminalidade em diferentes bairros.E. Burgess, um dos nomes mais representativos daEscola de Chicago,apontava, em 1927, que osmétodosda estatística e dos estudos de caso não são conílitivosmas mutuamente complementares e que a interaçãodos dois métodospoderia ser muito fecunda. Afirmavaque as comparações estatísticas poderiam sugerir pis-tas para a pesquisa feita com estudos de caso, e queestes poderiam, trazendo à luz os processos sociais,conduzir a indicadores estatísticos mais adequados.É preciso destacar que a sociologia da Escola deChicago abriu caminhos para a sociologia como umtodo, principalmente no que diz respeito à utilizaçãode métodos e técnicas de pesquisa qualitativa. O tra-balho de campo tornou-se uma prática de pesquisa cor-rente também na sociologia e não apenas na antropo-logia. Também proporcionouvários temas de pesquisaà sociologia contemporânea e desenvolveu novas cor-rentes teóricas, como as teorias do rótulo e do desvio.Dentre os estudos mais representativos desta correnteestão os de Howard Becker e Erving Goffman. Outsi-ders: studies in the sociology of deviance (1963), deHoward Becker, sobre músicos profissionais fumantesA Arte de Pesquisar/ 31de maconha, discute os processos pelos quais osdesviantes são definidos como tais pela sociedade queos cerca, mais do que pela natureza do ato que prati-cam. The Presentation ofSelfin Everyday Life (1959),de Goffman, analisa os "desempenhos teatrais" dosatores sociais em suas açóes do dia-a-dia.A Escola de Chicago abriu caminho para correntesteóricas que, mesmonão podendo ser diretamente asso-ciadas a ela, não deixam de apresentar certa influênciade sua abordagemmetodológica,como a fenomenologiasociológica e a etnometodologia. A primeira busca suafundamentação na filosofia de Husserl, que faz uma crí-tica radical ao objetivismo da ciência. O argumento deHusserl é o mesmo de W Dilthey e Max Weber: os atossociaisenvolvem uma propriedade—o significado — quenão está presente em outros setores douniverso abarca-dos pelas ciências naturais. Proceder a uma análisefenomenológica é substituir as construções explicativaspela descrição do que se passa efetivamente do ponto devista daquele que vive a situação concreta. A fenomeno-logia quer atingir a essência dos fenómenos, ultrapas-sando suas aparências imediatas. O pensamentofenomenológico traz para o campo de estudo da socieda-de o mundo da vida cotidiana, onde o homem se situacom suas angústias e preocupações.Aetnometodologiaapóia-se nos métodos fenomenológicos e hermenêuticoscom o objetivo de compreendero dia-a-diado homem co-mum na sociedadecomplexa.Harold Garfínkel estabele-ceu as bases metodológicas e o quadro conceituai daetnometodologia em Studies in Ethnomethodology, pu-blicado em 1967 nos EUA.Garfínkel define sua teoriacomo uma forma de compreendera prática artesanal davida cotidiana, interpretada já numa primeira instânciapelos atores sociais. A etnometodologiaprocura desco-brir as práticas e representações segundoas quais as pés-
  18. 18. 32 / Mirian Goldenbergsoas negociam, cotídianamente, a sua inserção nos gru-pos A sociologiade Garfinkel repousa sobre o reconhe-cimento da capacidadereflexiva e interpretativa de todoator social. Estas duas escolas, a fenomenologia e aetnometodologia, inserem-se na tradição metodológicaqualitativa ao tentar ver o mundoatravés dos olhos dosatores sociais e dos sentidos que eles atribuem aos obje-tos e às ações sociais quedesenvolvem. ESTUDOS DE CASOO termo estudo de caso vem de uma tradição de pes-quisa médica e psicológica, na qual se refere a umaanálise detalhada de um caso individual que explica adinâmica e a patologia de uma doença dada. Este mé-todo supõe que se pode adquirir conhecimentodo fenó-meno estudado a partir da exploração intensa de umúnico caso. Adaptado da tradição médica, o estudo decaso tornou-se uma das principais modalidadesde pes-quisa qualitativa em ciências sociais. O estudo de casonão éuma técnica específica, masuma análise holística,a mais completa possível, que considera a unidade so-cial estudada como um todo, seja um indivíduo, umafamília, uma instituição ou uma comunidade, com oobjetivo de compreendê-los em seus próprios termos6.O estudo de caso reúne o maior número de informa-ções detalhadas, por meiode diferentes técnicas de pes-quisa, como objetivo de apreender a totalidade de uma6Uma das dificuldades do estudo de caso decorre do fato de a totalidadepesquisada ser uma abstração científica construída em função de umproblema a ser investigado. Torna-se difícil traçar os limites do que deveou não ser pesquisado já que não existe limite inerente ou intrínseco aoobjeto.
  19. 19. 34 / Mirian Goldenbergsituação e descrever a complexidade de um caso con-creto. Através de um mergulho profundo e exaustivoem um objeto delimitado, o estudo de caso possibilita apenetração na realidade social, não conseguida pelaanálise estatística.Diferente da "neutra" sociologia das médias esta-tísticas, em que as particularidades são removidaspara que se mostre apenas as tendências do grupo, noestudo de caso as diferenças internas e os comporta-mentos desviantes da "média" são revelados, e nãoescondidos atrás de uma suposta homogeneidade.Moacir Palmeira7mostra que a pesquisa quantitati-va pressupõe uma padronização e se ilude com a ideiade que questões formalmente idênticas tenham omes-mo significado para indivíduos diferentes. A observa-ção direta, diz o autor, apresenta a vantagemmetodológica de permitir um acompanhamento maisprolongado e minucioso das situações. Essa técnica,complementada pelas técnicas de entrevista em pro-fundidade, revela o significado daquelas situaçõespara os indivíduos, que sempre é mais amplo do queaquilo que aparece em um questionário padronizado.O tipo de dados e de procedimentos de pesquisa quenormalmente se relacionam com o método de estudode caso, como a observação participante e as entrevis-tas em profundidade, têm suas origens em uma tradi-ção de pesquisa antropológica nas sociedades "pri-mitivas".Não é possível formular regras precisas sobre astécnicas utilizadas em um estudo de caso porque cadaentrevista ou observação é única: depende do tema,do pesquisador e de seus pesquisados. Como os dadosMoacir Palmeira. "Emprego e mudança sócio-econômica no Nordeste"em Anuário antropológico 76. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977.A Arte de Pesquisar / 35não são padronizados e não existe nenhuma regra ob-jetiva que estabeleça o tempo adequado de pesquisa,um estudo de caso pode durar algumas semanas oumuitos anos. Opesquisador deve estar preparado paralidar com uma grande variedade de problemas teóri-cos e com descobertas inesperadas, e, também, parareorientar seu estudo. E muito frequente que surjamnovos problemas que não foram previstos no inícioda pesquisa e que se tornam mais relevantes do queas questões iniciais.Uma proposta de Pierre Bourdieu é "boa para pen-sar" a utilização do estudo de caso em ciências sociais.Bourdieu, em Introdução a uma sociologia reflexiva,explica a importância da "interrogação sistemática deum caso particular" para retirar dele as propriedadesgerais ou invariantes, ocultas "debaixo das aparênciasde singularidade"."É ele [o raciocínio analógico] que permite mer-gulharmos completamente na particularidade docaso estudado sem que nela nos afoguemos, como faza idiografia empirista, e realizarmos a intenção degeneralização, que é a própria ciência, não pela apli-cação de grandes construções formais e vazias, maspor essa maneira particular de pensar o caso par-ticular que consiste em pensá-lo verdadeiramentecomo tal. Este modo de pensamento realiza-se demaneira perfeitamente lógica pelo recurso ao méto-do comparativo, que permite pensar relacionalmenteum caso particular constituído em caso particulardo possível."88Pierre Bourdieu. "Introdução a uma sociologia reflexiva" em O podersimbólico. Lisboa: Difel, 1989. pp. 32-33 (grifos do autor).
  20. 20. O MÉTODO BIOGRÁFICOEMCIÊNCIAS SOCIAISA utilização do método biográfico em ciências sociaisvem, necessariamente, acompanhada de uma discussãomais ampla sobre a questão da singularidade de um in-divíduo versus o contexto social e histórico em que estáinserido. Para Franco Ferrarotti9, por exemplo, cada vidapode ser vista como sendo, ao mesmo tempo, singular euniversal, expressão da história pessoal e social, repre-sentativa de seu tempo, seu lugar, seu grupo, síntese datensão entre a liberdade individual e o condicionamen-to dos contextos estruturais. Portanto, cada indivíduo éuma síntese individualizada e ativa de uma sociedade,uma reapropriação singular do universo social e histó-rico que o envolve. Se cada indivíduo singulariza emseus atos a universalidade de uma estrutura social, épossível "ler uma sociedade através de uma biogra-9Franco Ferrarotti. Histoire et Histoires de Vie: lê méthode biographiquedans lês sciences sociales. Paris: Librairie dês Méridiens, 1983.A Arte de Pesquisar / 37fia", conhecer o social partindo-se da especificidadeirredutível de uma vida individual. Ou, como afirmaNorman Denzin10, inspirado em Sartre, o homem é"um singular universal".Aspásia Camargo, ao defender a utilização do "méto-do biográfico"para estudar a elite política brasileira, lem-bra que osganhos iniciais dosestudos deHistória deVidapodem ser identificados em pesquisas sobre o comporta-mento desviante desenvolvidas pela Escola de Chicago.A autora, ao adotar a abordagem de História de Vida,concentrou-se em estudar o que chamou de inner circle,um pequeno número de pessoas que formulam e im-plementam políticas estratégicas. Para ela, reconstituirsuas Histórias de Vida é o melhor caminho para conhe-cer estesindivíduosquetomamdecisõesestratégicas, suasorigens, seus instrumentos para controlar e manter opoder, seus valores e interesses. Uma das dificuldadesdesta abordagem, apontada pela autora, é que se limitaàquelas pessoas que "querem falar". Para muitos mem-bros da elite, o silêncio e a discrição são a regra pois"quanto mais destacados e politicamente ativos forem osatores, mais conscientes são também do risco de conce-der informações verdadeiras sobre seu próprio desem-penho ou de seus pares"11. A autora aponta como seusmelhores informantes os políticos aposentados, os exclu-ídos, os exilados, os perdedores: aqueles que, ao contrá-rio de temer o interesse do pesquisador, procuram de-nunciar injustiças, traições, corrupção e os interesses dogrupo.10Norman K.Denzin."Interpretando as vidas das pessoas comuns: Sartre,Heidegger e Faulkner" em Dados-Revista de Ciências Sociais, vol. 27,nfil, 1984. p. 30."Aspásia Camargo. "Os usos da História Oral e da História de Vida: Traba-lhando com elites políticas" em Dados-Revista de Ciências Sociais, vol. 27,nfil, 1984. p. 14.
  21. 21. 38 / Mirian GoldenbergA autora propõeque se supere a dicotomia determi-nismo e livre-arbítrio, como princípios conflitantes queobjetivam explicar o desempenho individual e a açãosocial, para enxergar nas trajetórias singulares o re-flexo das condições históricas e culturais em que seinserem. A abordagem de História de Vida cria "umtipo especial de documento no qual a experiência pes-soal entrelaça-se à ação histórica, diluindo os antago-nismos entre subjetividade e objetividade"12. O objeti-vo é estabelecer uma clara articulação entre biografiaindividual e seu contexto histórico e social. Ao tomarcomo exemplo algumas das trajetórias mais significa-tivas da elite política dos anos 30, a autora afirma quevê, em cada uma delas, "o reflexo perfeito das condi-ções históricas e culturais do período, sem no entantoperder seu caráter singular e típico"13.Um estudo exemplar para discutir a relação indiví-duo e sociedade a partir de uma análise debiografia é ode Norbert Elias, Mozart: sociologia de um génio1*.Esta análise é uma importante referência teórica paracompreender o que uma determinada trajetória diz so-bre o momento histórico, cultural e político em queocorreu, sobre comportamentos e valores que refleteou antecipa e as condições sociais existentes para oaparecimento de um artista singular.Norbert Elias estuda não apenas Mozart, mas aposição que o compositor ocupou na sociedade de suaépoca, as determinações que pesaram sobre seu desti-no pessoal e os constrangimentos que sofreu no exer-cício de sua criação. O autor pensa a liberdade de cadaindivíduo inscrita numa cadeia de interdependências12Idem, p. 16 (grifos da autora)."Norbèrt Elias. Mozart: sociologia de um génio. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.A Arte de Pesquisar/ 39que o liga aos outros homens, limitando o que é possí-vel decidir ou fazer. Elias busca compreender como ohomem que se tornou o "símbolo do maior prazer mu-sical que o mundo conhece" encontrou uma morte pre-matura. Analisa os dois elementos que considera fun-damentais para explicar o curso trágico da vida deMozart: a relação como pai e os conflitos coma aristo-cracia de corte.Elias revela que as razões pelas quais Mozart sesentiu um fracasso só podem ser entendidas conside-rando-se o conflito existente na Áustria, e em quasetoda a Europa da segunda metade do século XVIII, en-tre os padrões de uma classe mais antiga, a aristocra-cia de corte, e os de outra, a burguesia em ascensão.Na geração de Mozart, um compositor que quisesse tersua música reconhecida e garantir a subsistência de-pendia de um cargo numa corte. Elias lembra que osmúsicos eram tão indispensáveis nos palácios dos prín-cipes quanto pasteleiros, cozinheiros e criados: tinhamo mesmo status na hierarquia da corte.Ao apresentar o modelo das estruturas sociais emque vivia um músico no século XVIII — e a posiçãodominante dos padrões cortesãos de comportamento,sentimento, gosto musical e vestuário —, Elias de-monstra o que Mozart era capaz de fazer como indiví-duo, e o que não era capaz de fazer, apesar de sua gran-deza e singularidade. Mozart viveu o drama de um ar-tista burguês na sociedade de corte: a identificação como gosto cortesão e a vontade de ter sua música reco-nhecida pela nobreza; e o ressentimento pela humilha-ção de ser tratado como serviçal pelos aristocratas dacorte. Ao contrário do pai, nunca aceitou esta posiçãoe, consciente do valor de sua música, queria ser reco-nhecido como igual (ou superior) por quem o tratavacomo inferior.
  22. 22. 40 / Mirian GoldenbergNorbert Elias chama a atenção para a curiosa con-tradição dos desejos dos outsiders: a tentativa de rom-per comoestablishment e, ao mesmo tempo, a luta peloreconhecimento e aceitação deste establishment.Paraser um músico da corte, além de qualificações musicais,era necessário assimilar o padrão de comportamentocortesão. Mas Mozart não tinha as habilidades necessá-rias para conquistar os nobres: odiava bajulações, erafranco, direto e até rude comas pessoas de quem depen-dia. Compouco mais de 20 anos, desistiu de seu postorelativamente seguro de regente da orquestra e orga-nista da corte de Salzburgo e foi ganhar a vida comoartista autónomo, dando aulas de música e concertospara o público vienense, vendendo seu talento e suasobras em um mercado incipiente, predominantementecomposto de aristocratas da corte.Elias mostra que o conceito de génio é aplicado aMozart com os olhos do presente, já que esta noção sur-giu muito depois de sua morte, com o romantismo. Nasua época, era muito difícil se estabelecer comoartistaautónomo e conseguir "dar rédea livre às suas fantasi-as", como Mozart desejava. Elias, analisando a mudan-ça na posição social do artista — do patronato ao mer-cado livre —, lembra que Beethoven, nascido em 1770,quase 15 anos depois de Mozart, conseguiu com muitomenos problemas libertar-se da dependência dopatronato da corte, impor seu gosto a um públicopagante e alcançar sucesso coma venda de suas compo-sições para oseditores. Mozartantecipou atitudes e sen-timentos deum tipo posterior de artista: oartista livre,que confia acima de tudo em seu talento, numa épocaem que a estrutura social não ofereciatal lugar para osmúsicos. Mozart nasceu numa sociedade que não per-mitia a existência de um artista individualizado e inde-pendente, "foi um génio antes da época dos génios".A Arte de Pesquisar/ 41Para Norbert Elias, o caso individual de Mozart temuma importância paradigmática: interessa a todos com-preender como surge um talento criativo singular. Nor-bert Elias lembra que a "sociologia de um génio" não éfeita para reduzir ou destruir sua fama, maspara melhorcompreender sua dimensão humana. O autor, ao forne-cer instrumentos para compreender como um indivíduose transforma, após sua morte, em "génio", permite pen-sar como indivíduos se transformam em modelospara asdemais pessoas de suas sociedades e de suas épocas. Eliasdemonstra que somente condiçõesmuito particulares deexistência (sociais, históricas, familiares e psicológicas)permitiram o reconhecimentoãagenialidade de Mozart.Sua análise contribui para questionar a visão essencia-lista que percebe oindivíduocomo encarnação de um gé-nio, comoalgoqueestácontidoemsipróprio, inexplicável,hereditário, que vem do berço. Elias demonstra que o in-divíduo se faz por suas atividades e pelas condições quedispõe para realizá-las no contexto histórico e social emque existiu. Norbert Elias ajuda a compreender a vidanão só de Mozart, mas a trajetória de outros indivíduosconsiderados génios, revolucionários, heróis ou loucos.Elias, um estudioso que combina sólida formaçãoem filosofia, psicologia e sociologia, mostra que o casode Mozart é "bom para pensar" a relação deum indiví-duo como mundo em que vive e contribui para trans-formar.Foi a partir desta perspectiva que desenvolvi mi-nha tese dedoutorado sobre a trajetória deLeila Diniz,buscando entender comoela setornou um modeloparaas pessoas de sua época. Aotomar emprestado o títu-lo da minha tese de uma música de Rita Lee, Todamulher é meio Leila Diniz, tento demonstrar que aoanalisar a vida de Leila Diniz estou analisando, tam-bém, o "campo de possibilidades" e as questões colo-
  23. 23. 42 / Mirian Goldenbergcadas para as mulheres de sua geração, particular-mente na cidade do Rio de Janeiro. Analiso, atravésde uma trajetória singular, as transformações dospapéis femininos ocorridos na década de 60, princi-palmente no que diz respeito à sexualidade, conju-galidade e maternidade. Inicio com a desconstruçãodo mito Leila Diniz, através de uma análise minucio-sa de cinco materiais biográficos (dois livros, doisvídeos e um filme feito sobre a vida da atriz). Inspira-da em Michael Pollak, realizei entrevistas em profun-didade com os familiares de Leila Diniz, buscandoapreender o "não-dito" no material biográfico. To-mando como referência os estudos de Pierre Bourdieu,comparei a trajetória artística de Leila Diniz com atrajetória de Cacilda Becker.Através destas duas atri-zes, discuto o campo do teatro, cinema e televisão noBrasil, do início do século até a década de 70.Howard Becker15tem algumas reflexões interessan-tes sobre a utilização do método biográfico nas ciên-cias sociais. Este autor considera que a principal dife-rença entre o método biográfico nas ciências sociais eas biografiase autobiografiastradicionais está na pers-pectiva a partir da qual o trabalho é realizado e nosmétodos utilizados. O pesquisador, alerta Becker,deveestar consciente do fato de que as biografias, autobio-grafias e Histórias de Vida não revelam a totalidadeda vida de um indivíduo, mas apenas uma versão sele-cionada de modo a apresentá-lo como o retrato de sique prefere mostrar aos outros, ignorando o que podeser trivial ou desagradável para ele, embora de grandeinteresse para a pesquisa.Howard Beckerenfatiza ovalor das biografias, atri-16Howard Becker. Métodos de pesquisa em ciências sociais. São Paulo:Hucitec, 1994.A Arte de Pesquisar/ 43buindo grande importância às interpretações que aspessoas fazem de sua própria experiência como expli-cação para o comportamento social. Defendendo a uti-lização de outras fontes, para serem cotejadas às His-tórias de Vida, Becker utiliza a imagem do mosaicopara pensar sobre este tipo de método. Para ele, cadapeça acrescentada num mosaico contribui para a com-preensão do quadro como um todo. O métodobiográfi-co pode acrescentar a visão do lado subjetivo dos pro-cessos institucionais estudados, como as pessoas con-cretas experimentam estes processos e levantar ques-tões sobre esta experiência mais ampla.A utilização do métodobiográfico em ciências sociaiséuma maneira derevelar como as pessoasuniversalizam,através de suas vidas e de suas ações, a época históricaem que vivem.
  24. 24. OBJETIVIDADE, REPRESENTATIVIDADEE CONTROLE DEBiAS16NAPESQUISA QUALITATIVAMuitos cientistas sociais acusam a pesquisa qualitati-va de não apresentar padrões de objetividade, rigor econtrole científico, já que não possui testes adequadosde validade e fidedignidade, assim como não produzgeneralizações que visem à construção de um conjuntode leis do comportamento humano. Outra crítica dizrespeito à falta de regras de procedimento rigorosaspara guiar as atividades de coleta de dados, o que podedar margem para que o bias do pesquisador venha amodelar os dados que coleta, que, portanto, nãopodemser usados como evidência científica.Cientistas sociais como Max Weber, Pierre Bour-dieu e Howard Becker acreditam ser fundamental aexplicitação de todos os passos da pesquisa para evi-16A utilização do termo em inglês é comumentre oscientistas sociais. Podeser traduzido como viés, parcialidade, preconceito.A Arte de Pesquisar / 45tar o bias do pesquisador. Recusam a suposta neutra-lidade do pesquisador quantitativista e propõem queo pesquisador tenha consciência da interferência deseus valores na seleção e no encaminhamento do pro-blema estudado. A tarefa do pesquisador é reconhe-cer o bias para poder prevenir sua interferência nasconclusões. Para os autores citados, não existe outraforma para excluir o bias nas ciências sociais do queenfrentar as valorações introduzindo as premissasvalorativas de forma explícita nos resultados da pes-quisa.Não podendo ser realizada a objetividade nas pes-quisas sociais, e o conhecimento objetivo e fidedignopermanecendo como o ideal da ciência, o pesquisadordeve buscar o que Pierre Bourdieu chama de objeti-vação: o esforço controlado de conter a subjetividade.Trata-se de um esforço porque não é possível realizá-lo plenamente, mas é essencial conservar-se esta meta,para não fazer do objeto construído um objeto inventa-do. A simples escolha de um objeto já significa um jul-gamento de valor na medida em que ele é privilegiadocomo mais significativo entre tantos outros sujeitos àpesquisa. O contexto da pesquisa, a orientação teóri-ca, o momento sócio-histórico, a personalidade do pes-quisador, o ethos do pesquisado, influenciam o resul-tado da pesquisa. Quanto mais opesquisador tem cons-ciência de suas preferências pessoais mais é capaz deevitar o bias, muito mais do que aquele que trabalhacom a ilusão de ser orientado apenas por considera-ções científicas.Wright Mills, emA imaginaçãosociológica17, pro-põe que o cientista social seja autoconsciente, reco-nhecendo que, necessariamente, seus valores estão"C. Wright Mills. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
  25. 25. 46 / Mirian Goldenbergenvolvidos na escolha dos problemas estudados e, porisso, devemser permanentemente explicitados. E pre-cisamente quando se pretende uma objetividade ab-soluta, quando se crê ter recolhido fatos objetivos,quando se eliminam dos resultados da pesquisa to-dos os traços da implicação pessoal no objeto de es-tudo, que se corre mais o risco de se afastar da obje-tividade possível.Howard Becker é um doscientistas sociais que maistem se preocupadoem refletir sobre a questão da obje-tividade nas ciências sociais. Para refutar a pretensaneutralidade dos surveys, Becker levanta o problema,bastante frequente, dos entrevistadores que induzemou falsificam seus dados com respostas imagináriaspara entrevistas que nunca foram realizadas. Mas se obias do pesquisador pode afetar os dados coletados empesquisas mais controladas, não afetará muito maisem pesquisas qualitativas, onde o pesquisador tem umnúmero maior de oportunidades de escolher apenas asevidências que lhe são convenientes? Os pesquisado-res qualitativos têm muito mais liberdade do que osentrevistadores de surveys e podem ter vários tipos deatitudes que vão desde sorrisos até intervenções maisdiretas. Como, então, podem ser consideradas objeti-vas as conclusões baseadas em dados que podem tersido assim coletados?Becker lembra que o entrevistado de um survey éabordado por alguém quenunca viuantes e espera nun-ca mais ver de novo.Uma vez que ele não é constrangi-do por nada além das pressões que surgem na situaçãoimediata da entrevista, estas pressões têm grande pro-babilidade de exercer um efeito de bias sobre o que elediz. Já as pessoas que um pesquisador qualitativo es-tuda, em geral, são observadas de diferentes maneirasA Arte de Pesquisar/ 47durante um longo período de tempo, o que torna maisdifícil que elas fabriquem oseu comportamento durantetoda a duração da pesquisa. A pesquisa qualitativa,através da observação participante e entrevistas emprofundidade, combate o perigo de bias, porque tornadifícil para o pesquisado a produção de dados que fun-damentem de modo uniforme uma conclusão equivo-cada, e torna difícil para o pesquisador restringir suasobservações de maneira a ver apenas o que sustentaseus preconceitos e expectativas.Para Becker, as técnicas de pesquisa qualitativapermitem um maior controle do bias do pesquisadordo que as da pesquisa quantitativa. Por meio, porexemplo, da observação participante, por um longoperíodo de tempo, o pesquisador coleta os dados atra-vés da sua participação na vida cotidiana do grupo ouda organização que estuda, observa as pessoas paraver como se comportam, conversa para descobrir asinterpretações que têm sobre as situações que obser-vou, podendo comparar e interpretar as respostasdadas em diferentes situações. Ele terá dificuldade deignorar as informações que contrariam suas hipó-teses, do mesmo modo que as pessoas que estuda te-riam dificuldade de manipular, o tempo todo, impres-sões que podem afetar sua avaliação da situação. Ob-servações numerosas feitas durante um longo perío-do de tempo ajudam o pesquisador a se proteger con-tra seu bias, consciente ou inconsciente, contra "verapenas o que quer ver".Becker também discute a questão do bias do pes-quisador ao tratar da hierarquia de credibilidade dosinformantes da pesquisa qualitativa. Em geral, sãoentrevistados aqueles que estão nos níveis superio-res de uma organização, que parecem "saber mais"
  26. 26. 48 / Mirian Goldenbergsobre o problema estudado, do que aqueles que estãonos níveis inferiores. Uma das maneiras de evitar estebias é entrevistar todos os envolvidos, comparandoas versões dos superiores com as dos subordinados,evitando, conscientemente, ficar a favor de um ladoou de outro. Outra maneira de evitar o bias é assu-mir, também conscientemente, "de que lado o pesqui-sador está", explicitando esta escolha nas conclusõesda pesquisa.Outro possível bias decorre do fato da pesquisaficar restrita aos indivíduos e organizações que per-mitam ser pesquisados, deixando de lado aqueles quese recusam a ser estudados. Este fato pode ter sériasimplicações nos resultados das pesquisas, já que aque-les que resolvem falar devem ter motivações e inte-resses bastante diversos daqueles que se recusam afalar. Mais uma vez, a única forma de tentar minimi-zar este problema é explicitando detalhadamente oslimites das escolhas feitas. Além disso, Becker enfa-tiza a necessidade de tornar explícitos os resultadosnegativos dos estudos, de mostrar as dificuldades eos (dês)caminhos percorridos pelo pesquisador atéchegar aos resultados de sua pesquisa. Em geral, ospesquisadores "escondem" as suas dificuldades emseus relatórios de pesquisa, preferindo mostrar ape-nas "o que deu certo".Diferentemente dos dados estatísticos, que podemser resumidos em tabelas, os dados da pesquisa quali-tativa não se prestam a tal resumo. Um dosproblemasda pesquisa qualitativa é que os pesquisadores geral-mente não apresentam os processos através dos quaissuas conclusões foram alcançadas. O pesquisador devetornar essas operaçõesclaras para aqueles quenão par-ticiparam da pesquisa, através de uma descrição explí-A Arte de Pesquisar / 49cita e sistemática de todos os passos do processo,des-de a seleção e definição dos problemasaté os resulta-dos finais pelos quais as conclusõesforam alcançadase fundamentadas. Becker chama esta solução para oproblema da apresentação dos resultados da pesquisaqualitativa de "história natural" das conclusões. Seeste método for empregado, outros estudiosos serãocapazes de acompanhar os detalhes da análise e vercomo e em que bases opesquisadorchegouàs suas con-clusões. Isso daria, então, a oportunidadedeoutrospes-quisadores fazerem seus própriosjulgamentos quantoà adequação da prova e ao grau de confiança a seratribuído à conclusão.Na discussão sobre a representatividade dosdadoscoletados através de uma pesquisa qualitativa estáembutida a questão da possibilidade (ou não) de suageneralização, a partir do modelo das ciências natu-rais que se impõe como paradigma. Nas abordagensque privilegiam a compreensãodo significado dos fa-tos sociais, a questão da representatividade dosdadosé vista de forma diferente do positivismo.Partindo do princípio de que o ato decompreenderestá ligado ao universo existencial humano, as abor-dagens qualitativas não sepreocupam em fixar leis parase produzir generalizações. Os dados da pesquisa qua-litativa objetivam uma compreensão profunda de cer-tos fenómenos sociaisapoiados no pressupostodamaiorrelevância do aspecto subjetivo da ação social. Contra-põem-se, assim, à incapacidade da estatística de darconta dos fenómenos complexos e da singularidade dosfenómenos que não podem ser identificadosatravés dequestionários padronizados.Enquanto os métodos quantitativos supõem umapopulação de objetos comparáveis,os métodosqualita-
  27. 27. 50 / Mirian Goldenbergtivos enfatizam as particularidades de um fenómenoem termos de seu significado para o grupo pesquisado.É como um mergulho em profundidade dentro de umgrupo "bom para pensar" questões relevantes para otema estudado.O reconhecimento da especificidade das ciênciassociais conduz à elaboração de um métodoque permi-ta o tratamento da subjetividade e da singularidadedos fenómenos sociais. Com estes pressupostos bási-cos, a representatividade dos dados na pesquisa qua-litativa em ciências sociais está relacionada à suacapacidade de possibilitar a compreensão do signi-ficado e a "descrição densa" dos fenómenos estuda-dos em seus contextos e não à sua expressividade nu-mérica.A quantidade é, então, substituída pela intensida-de, pela imersão profunda—através da observaçãopar-ticipante por um período longode tempo, das entrevis-tas em profundidade, da análise de diferentes fontesque possam ser cruzadas — que atinge níveis de com-preensão que não podemser alcançadosatravés de umapesquisa quantitativa. O pesquisador qualitativo bus-cará casos exemplares que possam ser reveladores dacultura em que estão inseridos. O número de pessoas émenos importante do que a teimosia em enxergar aquestão sob várias perspectivas.Um motivo pelo qual as pessoas se preocupamcoma possibilidade de as conclusões das pesquisas qualita-tivas não serem objetivas é que os pesquisadores àsvezes surgem comconclusõesbastante diferentes a res-peito de organizações ou comunidades supostamentesemelhantes. Se os métodos são objetivos, pergunta-seBecker, dois estudos do mesmo grupo não deveriamproduzir resultados semelhantes? Não, ele mesmo res-A Arte de Pesquisar/ 51ponde, já que os pesquisadores podemter se preocupa-do com questões e enfoques diferentes. A diferença deresultados indica não a falta de objetividade dos pes-quisadores mas que estavam observando coisas dife-rentes a partir de enfoques, teóricos e metodológicos,diferentes. Não se deve esperar resultados semelhan-tes e sim que estes resultados sejam compatíveis, queas conclusões de um estudo não contradigam, implíci-ta ou explicitamente, as de outro.Seja qual for o método, qualitativo ou quantitati-vo, ele sempre dirige sua atenção apenas para certosaspectos dos fenómenos, os que parecem importantespara o pesquisador em função de suas pressuposições.A totalidade de qualquer objeto de estudo é uma cons-trução do pesquisador, definida em termos do que lheparece mais útil para responder ao seu problema depesquisa. É irreal supor que se pode ver, descrever edescobrir a relevância teórica de tudo. Na verdade, opesquisador acaba se concentrando em alguns pro-blemas específicos que lhe parecem de maior impor-tância.Por fim, cabe assinalar as possíveis consequênci-as de uma interação de longo prazo com o objeto deestudo, em que é difícil evitar sentimentos de amiza-de, lealdade e obrigação, que podem provocar censu-ras nos resultados da pesquisa. Opesquisador, em suasconclusões, corre o risco de censurar dados conside-rados "negativos" pelo grupo, vistos como compro-metedores de sua imagem pública ou sua auto-ima-gem. Este bias pode ser evitado reproduzindo cuida-dosamente um relato completo de todos os eventosobservados, em momentos diferentes do dia ou ano,procurando membros de grupos diferentes da comu-nidade ou organização. Observar aspectos diferentes,
  28. 28. 52 / Mirian Goldenbergsob enfoques diferentes, pode não só contribuir parareduzir o ôias da pesquisa como, também, propiciaruma compreensão mais profunda do problema es-tudado.PESQUISA QUALITATIVA:PROBLEMASTEÓRICO-METODOLÓGICOSGrande parte dos problemas teórico-metodológicos dapesquisa qualitativa é decorrente da tentativa de se tercomo referência, para as ciências sociais, o modelopositivista das ciências naturais, não selevando emcon-ta a especificidade dos objetos de estudo das ciênciassociais. Os dados qualitativos consistem em descriçõesdetalhadas de situações com o objetivo de compreenderos indivíduos em seus próprios termos. Estes dados nãosão padronizáveis como os dados quantitativos, obri-gando o pesquisador a ter flexibilidade e criatividade nomomento de coletá-los e analisá-los. Não existindo re-gras precisas e passos a serem seguidos, o bomresulta-do da pesquisa depende da sensibilidade, intuição e ex-periência do pesquisador. Mesmo os pesquisadores queusam métodos de pesquisa qualitativa criticam a faltade regras de procedimento rigorosas para guiar as ati-vidades de coleta dedadose a ausência dereflexão teóri-ca, o que podedar margem para que obias do pesquisa-dor venha a modelar os dados que coleta.
  29. 29. 54 / Mirian GoldenbergRuth Cardoso18apontou para a falta de uma críti-ca teórico-metodológica consistente no campo dasciências sociais e para algumas das armadilhas e li-mitações das pesquisas qualitativas. A autora descre-ve um "indisfarçado pragmatismo (muitas vezes con-fundido com politização)" que dominou as ciênciassociais contemporâneas e desqualificou o debate so-bre os compromissos teóricos que cada método exige.Eunice Durham19concorda com esta crítica ao afir-mar que ocorreu uma politização crescente dos estu-dos em ciências sociais, com a preocupação dos pes-quisadores em descobrirem uma aplicação imediata edireta dos resultados de sua pesquisa que beneficie apopulação estudada. Sem deixar de ver como necessá-ria a identificação do pesquisador comseu objeto, por-que sem ela é impossível a compreensão "de dentro",Durham adverte para o risco de se explicar a socieda-de através das categorias "nativas", sem uma análisecientífica sobre as mesmas e sem uma reflexão teóri-ca e metodológica sobre a postura militante do cien-tista social.Aaron Cicourel20já havia advertido para o perigode o pesquisador ficar tão envolvido com o grupo estu-dado que poderia se tornar um "nativo", sem compre-ender as consequências desta "conversão" para os ob-jetivos da pesquisa, como,por exemplo, "tornar-secegopara muitas questões importantes cientificamente".Cicourel aponta para as faltas de regras processuais18Ruth C. L. Cardoso. "Aventuras de antropólogos em campo ou comoescapar das armadilhas do método" em A aventura antropológica. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1986.19Eunice R. Durham. "A pesquisa antropológica com populações urba-nas" em A aventura antropológica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.20Aaron Cicourel. "Teoria e método em pesquisa de campo" em Desven-dando máscaras sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.A Arte de Pesquisar / 55claras que definam o papel do pesquisador no campodesde o momento de sua inserção.Mariza Peirano, em A favor da etnografia21, afir-ma que nossa tradição etnográfica se baseia no prin-cípio de que a criatividade pode superar a falta dedisciplina e a carência de um ethos científico. Não sepode, diz a autora, ensinar a fazer pesquisa de cam-po como se ensinam os métodos estatísticos, técni-cas de surveys, aplicação de questionário. A pesqui-sa qualitativa depende da biografia do pesquisador,das opções teóricas, do contexto mais amplo e dasimprevisíveis situações que ocorrem no dia-a-dia dapesquisa.Um dos principais problemas a ser enfrentado napesquisa qualitativa diz respeito à possível conta-minação dos seus resultados em função da persona-lidade do pesquisador e de seus valores. O pesquisa-dor interfere nas respostas do grupo ou indivíduoque pesquisa. A melhor maneira de controlar estainterferência é tendo consciência de como sua pre-sença afeta o grupo e até que ponto este fato podeser minimizado ou, inclusive, analisado como dadoda pesquisa.Maria Isaura Pereira de Queiroz enfatiza que aomissão de fatos, de ocorrências, de detalhes pode sertão significativa quanto sua inclusão nos depoimen-tos. Para a autora, o importante não é verificar se oentrevistado conhece ou não o fato, "mas sim buscarsaber por que razão ele o havia esquecido, ou o haviaocultado, ou simplesmente dele não tivera registro"22.21Mariza Peirano.A favor da etnografia. Riode Janeiro: Relume-Dumará, 1995.22Maria Isaura Pereira de Queiroz. Variações sobre a técnica de gravadorno registro da informação viva. (Col. Textos, 4). São Paulo: CERU eFFLCH/USR 1983. p. 76.
  30. 30. 56 / Mirian GoldenbergO pesquisador deve estabelecer um difícil equilíbriopara não ir além do que pode perguntar mas,também,não ficar aquém do possível. Além disso, a memória éseletiva, a lembrança diz respeito ao passado mas seatualiza sempre a partir de um ponto do presente. Aslembranças não são falsas ou verdadeiras, simplesmen-te contam o passado através dos olhos de quem ovivenciou. Um trabalho de negociaçãoecompromisso,como afirma Pollak, que consiste em interpretar, orde-nar ou rechaçar (temporária ou definitivamente) todaexperiência vividade maneira a torná-la coerentecomuma identidade construída: "U sagit, en un mot,dintégrer lê présent dans lê passe"23,Ainda sobre as entrevistas emprofundidade, é pre-ciso apontar algumas de suas inúmeras limitações edificuldades, como, por exemplo, o constrangimentoque pode causar ao pesquisado o fato de ter suas in-formações gravadas ou anotadas pelo pesquisador.Esta éuma "negociação"que deveser feita desdelogo,para minimizar o problema. O pesquisador deve ela-borar um roteiro de questões claras, simples e dire-tas, para não se perder em temas que não interessamao seu objetivo. Um problema frequente é o da con-servação do material coletado. Muitos pesquisadoresqualitativos não se preocupam com o registro minu-cioso e a conservação dos documentos ou gravações,impossibilitando que outros pesquisadores tenhamacesso aos seus dadosou que ele próprio possa retomá-los no futuro.Existem algumas qualidades essenciais que o pes-quisador deve possuir para ter sucesso em suas en-^Michael Pollak. "Lê Témoignage" em Actes de Ia Recherche en SciencesSociales (62-63).A Arte de Pesquisar/ 57trevistas: interesse real e respeito pelos seus pesqui-sados, flexibilidade e criatividade para explorar no-vosproblemas emsua pesquisa, capacidade dedemons-trar compreensão e simpatia por eles, sensibilidadepara saber o momentode encerrar uma entrevista ou"sair de cena" e, como lembra Paul Thompson24, prin-cipalmente, disposição para ficar calado e ouvir.Thompson, ao analisar a situação de entrevista, afir-ma que quem não consegue parar de falar nem resis-tir à tentação de discordar do informante e de imporsuas próprias ideias, irá obter informações que sãoinúteis ou enganosas.Howard Becker admite que, no lugar de procedi-mentos uniformes, prefere um modelo artesanal deciência, no qual cada pesquisador produz as teorias etécnicas necessárias para o trabalho que está sendofeito. Segundo Becker, os cientistas sociais podem edevem improvisar soluções para os seus problemasde pesquisa, sentindo-se livres para inventar os mé-todos capazes de responder às suas questões. Beckeralerta que a escolha das teorias que orientam a pes-quisa também está contaminada pelas preferências edificuldades do pesquisador, já que uma organizaçãoou grupo pode ser visto de muitas maneiras diferen-tes, nenhuma delas certa ou errada, visto que são al-ternativas possíveis e talvez complementares. Não épossível formular regras precisas sobre as técnicasde pesquisa qualitativa porque cada entrevista ouobservação é única: depende do tema, do pesquisadore de seus pesquisados.A delimitação do objeto de estudo deve ser clara-24Paul Thompson. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz eTerra, 1992.
  31. 31. 58 / Mirian Goldenbergmente explicitada pelo pesquisador para que outrospesquisadores analisem as conclusões obtidas. A es-colha do objeto está relacionada a um problema cen-tral deste tipo de abordagem: a questão da repre-sentatividade do caso escolhido. Ao contrário daspesquisas quantitativas, emque a representatividadese estabelece através de procedimentos claros, nãoexistem regras precisas para a escolha de um caso aser estudado de forma aprofundada pelo cientista so-cial. A exemplaridade de um indivíduo ou grupo, apossibilidade de explorar um problema em profundi-dade em uma instituição ou família, são alguns dosmotivos que levam à escolha do objeto de estudo.Esta escolha depende, fortemente, da sensibilidade eexperiência do pesquisador e não apenas de caracte-rísticas objetivas do grupo estudado. O pesquisadordeve, então, apresentar claramente as característi-cas do indivíduo, organização ou grupo, que foramdeterminantes para sua escolha, de tal forma que oleitor possa tirar suas próprias conclusões sobre osresultados e a sua possível aplicação em outros gru-pos ou indivíduos em situações similares. O pesqui-sador deve precisar as dificuldades e os limites dapesquisa, as pessoas que lhe ajudaram em sua entra-da no campo (que são determinantes para a constru-ção da identidade do pesquisador pelo grupo estuda-do), as pessoas que se recusaram a dar entrevistas,as perguntas que não foram respondidas pelospesquisados, as contradições apresentadas, a (in)con-sistência das respostas, possibilitando uma visãoampla do estudo, e não apenas dos aspectos que "de-ram certo".Um dos principais problemas da pesquisa qualita-tiva está relacionado à certeza do próprio pesquisadorA Arte de Pesquisar/ 59com relação aos seus dados. A sensação de dominarprofundamente o seu objeto de estudo o faz esquecerque somenteuma parte bemreduzidadatotalidade estárepresentada nos dados. A consequência é a possibili-dade de tentar generalizar dados que se baseiam emanálises de determinados casos particulares. Opesqui-sador corre o risco de usar mais suas intuições do queum quadro de referência teórico apropriado para ana-lisar seus dados.O fato de ter uma convivênciaprofunda com o gru-po estudadopode contribuir para que opesquisador "na-turalize" determinadas práticas e comportamentosquedeveria "estranhar" para compreender.Malinowski cha-ma atenção para a "explosão de significados" no mo-mento de entrada no campo, em que cadafato observadona cultura nativa é significativo para o pesquisador. Oolhar que "estranha", emum primeiro momento, passaa "naturalizar" em seguida e torna-se "cego" para da-dos valiosos.E comum que pesquisadores se vejam em situaçõesdelicadas com o indivíduo ou grupo pesquisado queextrapolam os limites da pesquisa, como pedido de di-nheiro ou de favores, convites inapropriados, telefone-mas após o término da pesquisa etc. Todos estes pro-blemas, decorrentes do envolvimentointenso com oob-jeto de estudo, precisam ser administrados pelo pes-quisador de tal forma que sua pesquisa não fique com-prometida. Quanto mais intensa a relação, maior a ne-cessidade de um "distanciamento" do pesquisador, quetorne possível que elereflita sobrecadadificuldade que,com certeza, terá de enfrentar. A questão do relaciona-mento entre pesquisador e objeto, da possível depen-dência ou disputa de poder, é um dos maiores proble-mas que devem ser enfrentados. Como não existem ré-
  32. 32. 60 / Mirian Goldenberggras claras, cada pesquisador deve ter bom senso ecriatividade para encaminhar as soluções para cadasituação. Áexperiência e a maturidade dopesquisadorsãofatoresdeterminantes paraqueapesquisa seja bem-sucedida.INTEGRAÇÃO ENTRE ANÁLISEQUANTITATIVA E QUALITATIVAMuitos pesquisadores que utilizam métodos de pes-quisa qualitativos consideram que os surveys ser-vem apenas para dar legitimidade ao senso comum,visto que não contribuem para a compreensão dosfenómenos sociais. Para estes cientistas sociais, osmétodos quantitativos simplificam a vida social li-mitando-a aos fenómenos que podem ser enumera-dos. Afirmam que as abordagens quantitativas sa-crificam a compreensão do significado em troca dorigor matemático.Max Weber acreditava que se podia tirar provei-to da quantificação na sociologia, desde que estemétodo se mostrasse fértil para a compreensão deum determinado problema,e não obscurecesse a sin-gularidade dos fenómenos que não poderia ser cap-tada através da generalização. Como nenhum pés-
  33. 33. 62 / Mirian Goldenbergquisador tem condições para produzir um conheci-mento completo da realidade, diferentes abordagensde pesquisa podemprojetar luz sobre diferentes ques-tões. É o conjunto de diferentes pontos de vista, ediferentes maneiras de coletar e analisar os dados(qualitativa e quantitativamente), que permite umaideia mais ampla e inteligível da complexidadede umproblema.A integração da pesquisa quantitativa e qualita-tiva permite que o pesquisador faça um cruzamentode suas conclusões de modo a ter maior confiançaqueseus dados não são produto de um procedimento es-pecífico ou de alguma situação particular. Ele não selimita ao que pode ser coletado em uma entrevista:pode entrevistar repetidamente, pode aplicar questio-nários, pode investigar diferentes questões em dife-rentes ocasiões, pode utilizar fontes documentais edados estatísticos.A maior parte dos pesquisadores em ciências so-ciais admite, atualmente, que não há uma única técni-ca, um único meio válido de coletar os dados em todasas pesquisas. Acreditam que há uma interdependênciaentre os aspectos quantificáveis e a vivência da reali-dade objetivano cotidiano. Aescolha de trabalhar comdados estatísticos ou com um único grupo ou indiví-duo, ou comambos, depende das questões levantadas edos problemas que se quer responder. É o processo dapesquisa que qualifica as técnicas e os procedimentosnecessários para asrespostas que sequer alcançar.Cadapesquisador deve estabelecer os procedimentos de co-leta de dadosque sejam mais adequadospara o seu ob-jeto particular. O importante é ser criativo e flexívelpara explorar todos ospossíveis caminhos enão reificarA Arte de Pesquisar/ 63a ideia positivista de que os dados qualitativos com-prometem a objetividade, a neutralidade e origor cien-tífico.A combinação de metodologias diversas no estu-do do mesmo fenómeno, conhecida como trian-gulação25, tem por objetivo abranger a máxima am-plitude na descrição, explicação e compreensão doobjeto de estudo. Parte de princípios que sustentamque é impossível conceber a existência isolada de umfenómeno social. Enquanto os métodos quantitati-vos pressupõem uma população de objetos de estudocomparáveis, que fornecerá dados que podem sergeneralizáveis, os métodos qualitativos poderão ob-servar, diretamente, como cada indivíduo, grupo ouinstituição experimenta, concretamente, a realida-de pesquisada. A pesquisa qualitativa é útil paraidentificar conceitos e variáveis relevantes de situa-ções que podem ser estudadas quantitativamente. Éinegável a riqueza que pode ser explorar os casosdesviantes da "média" que ficam obscurecidos nosrelatórios estatísticos. Também é evidente o valorda pesquisa qualitativa para estudar questões difí-ceis de quantificar, como sentimentos, motivações,crenças e atitudes individuais. A premissa básica daintegração repousa na ideia de que os limites de ummétodo poderão ser contrabalançados pelo alcancede outro. Os métodos qualitativos e quantitativos,nesta perspectiva, deixam de ser percebidos comoopostos para serem vistos como complementares.Um exemplo de integração de observação partici-^Triangulação é uma metáfora tomada emprestada da estratégia militare da navegação, que se utilizam de múltiplos pontos de referência paralocalizar a posição exata de um objeto.
  34. 34. 64 / Mirian Goldenbergpante e survey é o estudo de NeumaAguiar26no" Cariri,uma região no sul do Ceará, sobre os modos de orga-nização social da produção na transformação de trêstipos de matéria-prima. A pesquisadora procurou ob-servar as atividades envolvidas na produção do mi-lho, do barro e da mandioca, assim como as represen-tações ocupacionais elaboradas pelos próprios traba-lhadores. Aguiar afirma que os dados da observaçãoparticipante são profundos "na medida em que atin-gem níveis de compreensão dos fatos sociais não al-cançados pelos surveys". Por outro lado, os dados dossurveys atingem um nível de mensuração que a ob-servação participante não pode atingir. A autora pro-põe que um modo de superar a dificuldade de genera-lização dos dados qualitativos e a dificuldade de in-terpretação das correlações alcançadas pelos surveysé tentar integrar os dois métodos. Para aumentar avariabilidade dos dados de forma a situar o fenómenoestudado emum contexto mais abrangente, propõe queas categorias relevantes, selecionadas através do pro-cesso de observação participante, sejam empregadasde modo amploe sistemático coma utilização do ques-tionário. Durante seis meses, a autora estudou, atra-vés da observação participante, duas indústrias deprodutos cerâmicos e duas indústrias de farinha demilho. Também recolheu, por meio de entrevistas edocumentos, dados sobre uma fábrica de fécula demandioca que havia fechado. Foram aplicados, depoisdisso, 250 questionários.A autora afirma que a generalização não é o únicoobjetivo de sua pesquisa, e que a observação partici-26Neuma Aguiar. "Observação participante e survey: uma experiência deconjugação" em A aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.A Arte de Pesquisar/ 65pante foi de fundamental importância para exploraro tema e levantar hipóteses, para questionar as cate-gorias de seu vocabulário (que não foram compreen-didas pelos trabalhadores), para especificar os con-ceitos e as perguntas de seus questionários. Aguiardemonstra que a combinação do survey com a obser-vação participante possibilitou ir além das generali-zações sobre o processo de industrialização na região,e permitiu a compreensão das representações dos tra-balhadores sobre suas atividades.Outro exemplo de integração de dados qualitati-vos e quantitativos é a minha pesquisa sobre aman-tes de homens casados. Fiz entrevistas em profundi-dade com oito mulheres que viveram a situação deamantes, em um primeiro estudo. Em seguida, entre-vistei nove homens casados que refletiram sobre assuas experiências extraconjugais. Por fim,realizei umestudo de caso, em que entrevistei o homem casado,sua amante e toda a sua família (pai, mãe, duas irmãse um irmão)27. Além destes dados qualitativos, foramfundamentais para as minhas conclusões as análisesdemográficas feitas por Elza Berquó, a partir dos da-dos do censo de 1980.Berquó percebeu que, entre a população com maisde 65 anos, somente 32%das mulheres estavam casa-das enquanto 76% dos homens estavam casados. Amaior mortalidade dos homens — e também o fato dohomem brasileiro casar commulheres mais jovens queele — gera este desequilíbrio. "Asmulheres têm até os30 anos, no máximo, chances iguais às dos homens."2827Mirian Goldenberg. A outra. Rio de Janeiro: Record, 1997.28Elza Berquó. "Afamília no século XXI" em CiênciaHoje. Vol. 10, n958,outubro 1989, p. 64.
  35. 35. r66 / Mirian GoldenbergBerquó levanta a hipótese de que no Brasil esteja exis-tindo uma poligamia disfarçada, já que as mulheressem possibilidades de casamento acabam se unindo ahomens casados.Neste caso, apenas para ilustrar, os dados quanti-tativos revelam uma realidade demográfica e as en-trevistas em profundidade retratam como cada mulhervivência esta situação. É interessante como minhasentrevistadas se queixam que "falta homem no merca-do", constatação que pode ser facilmente verificadapelos dados do censo.Os dados do IBGE sobre idade, sexo e estado civilforam usados para pensar situações complexas, não-quantificáveis, como a situação de ser amante de umhomem casado. Estes dados ajudaram a interpretar odiscurso e a compreendera situação deuma forma maisampla. Interpretados à luz da minha questão, concluoque as mulheres têm menos chances de casar e estapode ser uma possível explicação para a situação daamante. Sem os dados do IBGE, poderia me restringiràs explicaçõesdos pesquisados: a ideia de que o fato deser amante deve corresponder a um tipo determinadode personalidade de mulher "que não se valoriza" ouque "não quer compromisso". A integração dos dadosquantitativos e qualitativos permite verificar a tensãoexistente entre a "escolha individual" e o "campo depossibilidades" das mulheres que são amantes de ho-mens casados.Creio que demonstro, através deuma análise con-creta, que a integração de dados quantitativos e qua-litativos pode proporcionar uma melhor compreen-são do problema estudado. Na verdade, o conflito en-tre pesquisa qualitativa e quantitativa é muito ar-A Arte de Pesquisar/ 67tificial. Arrisco afirmar que cada vez mais os pes-quisadores estão descobrindo que o bom pesquisa-dor deve lançar mão de todos os recursos disponí-veis que possam auxiliar à compreensão do proble-ma estudado.
  36. 36. FAÇAA PERGUNTA CERTA!Agora, depois dessa discussão mais teórica, vamosco-locar a mãona massa e aprender a construir um prqje-to de pesquisa. Proponho ao leitor que leia os próxi-mos capítulos pensando em um tema de pesquisa queverdadeiramente o interesse, em qualquer área deco-nhecimento, e tente transformá-lo em um objeto cien-tífico de estudo.Fazer uma pesquisa significa aprender a pôr ordemnas próprias ideias. Nãoimporta tanto o tema escolhi-do mas a experiência de trabalho de pesquisa. Traba-lhando-se bem não existe tema que seja tolo ou poucoimportante. A pesquisa deve ser entendida como umaocasião única para fazer alguns exercícios que servi-rão por toda a vida. O trabalho de pesquisa deve serinstigante, mesmo que o objeto não pareça ser tão in-teressante. O que o verdadeiro pesquisador busca é ojogo criativo de aprender como pensar e olhar cientifi-camente.Qualquer tema ou assunto da atualidade pode serobjeto de uma pesquisa científica. É preciso ter estu-A Arte de Pesquisar/ 69dado muito, ter uma sólida bagagemteórica, ter muitaexperiência de pesquisa para enxergar oque outros nãoconseguem ver. O pesquisador experiente descobre as-suntos que podem parecer banais e os transforma empesquisas fecundas.O desejo de reconhecimentonão sóleva o cientista acomunicar os seus resultados, mas também o influen-cia na escolha de temas e métodosque tornem seu tra-balho mais aceitável pelos seus pares. Quanto maior aconsciência de suas motivações,mais o pesquisador écapaz de evitar os desvios (ou bias) próprios daquelesque trabalham com a ilusão de serem orientados ape-nas por propósitos científicos.Existe uma hierarquia de legitimidade dentro docampo científico traçada de acordo com os temas quedão prestígio, recursos para a pesquisa, cargos univer-sitários, publicações em editoras prestigiadas etc. As-sim, falar de "liberdade de escolha" neste campo édesconsiderar as pressões (evidentes ou sutis) às quaiso pesquisador permanentemente se submete. Tendoconsciência de tais pressões, muitas contradições e di-ficuldades podem ser mais bem compreendidas na es-colha de um assunto e na sua formulação como umprojeto de pesquisa.Nesse jogo ou nessa "arte" de fazer pesquisa, ojo-gador precisa ter alguns atributos para poder entrarno campo científico. Algunspodem ser vistos como in-ternos, atributos pessoais que devem fazer parte doindivíduo que quer ser um pesquisador.Cito,entre eles:ética, curiosidade, interesse real, empatia, paciência,paixão, equilíbrio, humildade, flexibilidade, iniciativa,disciplina, clareza, objetividade, criatividade, concen-tração, delicadeza, respeito ao entrevistado, facilidadepara conversar com outras pessoas, tranquilidade eorganização. Outras qualidades chamarei de externas,
  37. 37. 70 / Mirian Goldenbergporque dependem da formação científica do pesquisa-dor. São elas: bom domínioda teoria, escrever bem, re-lacionar dados empíricos com a teoria, domínio dastécnicas de pesquisa, experiência com pesquisa.As principais etapas da pesquisa científica envol-vem a concepçãode um tema de estudo, a coleta de da-dos, a apresentação de um relatório com os resultadose, em alguns casos, a aplicação dos resultados. Doispassos são necessários para o início da tarefa: a for-mulação do problema e a elaboraçãodo projeto de pes-quisa.i:.,FORMULANDO o PROBLEMADE PESQUISA"Frequentemente, a formulação de umproblemaé mais essencial que sua solução."EinsteinComo formular um problema específico que possa serpesquisado por processoscientíficos?O primeiro passo é tornar o problema concreto eexplícito através:• da imersão sistemática no assunto;• doestudo da literatura existente;• da discussão compessoas que acumularam ex-periência prática no campo de estudo.A boa resposta dependeda boa pergunta! Opesqui-sador deve estar consciente da importância da pergun-
  38. 38. 72 / Mirian Goldenbergta que faz e deve saber colocar as questões necessáriaspara o sucesso de sua pesquisa.O pesquisador ao escolher seu objeto de estudo devepensar:1. como identificar um tema preciso (recorte doobjeto);2. como escolher e organizar o tempo de trabalho;3. como realizar a pesquisa bibliográfica (revisãoda literatura);4. como organizar e analisar o material selecionado;5. como fazer com que o leitor compreenda o seuestudo e possa recorrer à mesma documentaçãocaso retome a pesquisa.Para tanto, o objeto de estudo deve responder aosinteresses do pesquisador e ter as fontes de consultaacessíveis e de fácil manuseio. Quanto mais se recorta otema, commais segurança e criatividade se trabalha.O estudo científico deve ser claro, interessante eobjetivo, tanto para as pessoas familiarizadas com oassunto quanto para as que não são. Amaior parte doscientistas se perde em parágrafos herméticos que mui-tas vezesnão são compreendidosnem pelos seus pares.O verdadeiro pesquisador não precisa utilizar termosobscuros para parecer profundo. A profundidade e se-riedade doestudopodeser maisbem percebida seopes-quisador utiliza uma linguagem compreensível para omaior número de leitores.A pesquisa apresenta diferentes fases. A fase ini-cial, que podeser chamada deexploratória, lembra uma"paquera" de dois adolescentes. É o momento em quese tenta descobrir algo sobre o objeto de desejo, quemmais escreveu (ou se interessou) sobre ele, como po-deria haver uma aproximação, qual a melhor aborda-A Arte de Pesquisar/ 73gem dentre todas as possíveis para conquistar esteobjeto. Em seguida, vem a fase que equivale ao "na-moro", uma fase de maior compromisso que exige umconhecimento mais profundo, uma dedicação quaseque exclusiva ao objetode paixão. É a fase de elabora-ção do projeto de pesquisa em que o estudioso mergu-lha profundamente no tema estudado. A terceira faseé o "casamento", em que a pesquisa exige fidelidade,dedicação, atenção ao seu cotidiano, que é feito de al-tos e baixos. O pesquisador deve resolver todos osproblemas que vão aparecendo, desde os mais simples(como se vestir para realizar as entrevistas) até osmais cruciais (como garantir a verba para a execuçãoda pesquisa). Por último, a fase de "separação", emque o pesquisador precisa se distanciar do seu objetopara escrever o relatório final da pesquisa. É o mo-mento em que é necessário olhar o mais criticamentepossível o objetoestudado, em que é preciso fazer rup-turas, sugerir novas pesquisas. É o momento de veros defeitos e qualidades do objeto amado.
  39. 39. CONSTRUINDO o PROJETODE PESQUISA"Uma aranha executa operações semelhantes àsdo tecelão,e a abelha supera mais de um arqui-teto ao construir sua colmeia. Mas o que distin-gue opior arquiteto da melhor abelha é que elefigura na mente sua construção antes de trans-formá-la em realidade. No fim do processo dotrabalhoaparece um resultado quejá existia antesidealmente na imaginação do trabalhador."Karl MarxA construção do projeto de pesquisa é uma etapa im-portante e delicada da pesquisa científica. É a partirdeste projeto que se delimita o problema que será estu-dado. É o que se chama de recorte do objeto, pôr ordemnas próprias ideias, sistematizar as questões que se-rão estudadas. O pesquisador deve ser objetivo e rigo-A Arte de Pesquisar/ 75roso ao transformar suas boas ideias em um projeto depesquisa.A formulação de um projeto de pesquisa passa porvárias etapas:1. o problema que exige respostas deve ser delimi-tado dentro de um campode estudo;2. a tarefa de pesquisa precisa ser reduzida ao queé possível ser realizado pelo pesquisador;3. é preciso evitar que a coleta de dadosseja feita deforma a favorecer uma determinada resposta;4. é preciso definir os conceitos que serão usados;5. é necessário prever as etapas doprocesso de pes-quisa, mesmo sabendo-se que elas poderão serreformuladas.
  40. 40. 76 / Mirian GoldenbergSUGESTÃO PARA UMPROJETO DEPESQUISACAPA1. INSTITUIÇÃO (localonde será desenvolvidaa pesquisa)2. TÍTULO3. SUBTÍTULO4. NOME DO PESQUISADOR5. MÊS EANOI. INTRODUÇÃO1. Objetivo Geral (questão principal da pesquisa, proble-ma a ser resolvido) (o quê?principal)2. ObjetivosEspecíficos (questões secundárias a serem res-pondidas, relacionadas à questão principal) (os quês?secundários)3. Objeto (indivíduo, grupo ou instituição pesquisada)(quem? onde?)H. JUSTIFICATIVA(importância dotema proposto;mo-tivação individual, profissional, social e teórica para esco-lher o tema) (por quê?)III. HIPÓTESES DETRABALHO(algoprovável, ante-cipa algo que será ou não confirmado) (eu acredito que)IV. DISCUSSÃO TEÓRICA(contextualizar otema den-tro dodebate teórico existente; principais conceitos e cate-gorias; estudos precedentes: diálogocomosautores) (apar-tir de quem?)V. METODOLOGIA (caminhos possíveis, instrumentos efontes de pesquisa) (como?)A Arte de Pesquisar/ 77VI. CRONOGRAMA (quanto tempo?)Porexemplo:Etapa I: revisão da bibliografiaEtapa II: construção dosinstrumentos de pesquisaEtapa El: entrevistasEtapa IV: análise domaterial coletadoEtapa V: redação dotrabalho finalmesesetapasInmIVv1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 0 U 1 2X X Xxx x x xxX X XVII. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (livros e ar-tigos citados)

×