SHEENAO CAMINHO DO TIGRE  Daniel Paixão Fontes     1996 – 1997 - 2003                          1
PARTE I - O TREINAMENTO       Algo me fazia temer a escuridão. Um medo ingênuo de que eu ficaria cego,ou que monstros que ...
movimentos, ele corre por cerca de 10 milhas, sem ao menos aumentar arespiração. Ele se volta para mim. É hora de iniciar ...
ferimentos que eu havia adquirido, logo isso acontecia. Mas o mestre me mandoucontinuar a socar a rocha. Não com tanta for...
Um dia, em meditação, eu compreendi a razão de tudo isso: eu estava sendopreparado para absorver o conhecimento. Kung Fu n...
Sho Win entendeu quando eu lhe expliquei que teríamos que nos ver pormenos tempo. Eu voltei e meditar, e perguntas incríve...
-   É - disse ele. Ainda nevava, muito pouco, mas nevava.-   Olhe para este floco de neve - disse ele, pegando um com a mã...
aprendizado real. Neste dia, nos separamos em dois grupos. Eu, Sho Win e Laofomos caminhar pelo bosque. O restante, inclui...
Me concentro. Fecho os olhos e respiro profundamente. Um movimentorápido e potente de músculos e lá estou eu, no ar. Olhos...
Chegamos ao lado de fora da casa. Fogueiras ardiam em quatro cantosdiferentes. Assim como quatro pequenas toras dispostas ...
Tomo impulso, corro de forma dinâmica em direção ao brilho extremamentequente. Eu sabia que ele não queria exatamente que ...
Ele desfilou por entre as fogueiras, completamente nu. Sho Win, que haviavindo ver o que ocorria, o contemplou então. Ele ...
Eu me arrasto até ela, que me olha de forma semi-diferente, mas aos demaisolhos, como sempre havia feito. Apenas uma difer...
um bom abrigo contra os fortes e gélidos ventos sopravam violentamente durantetodo o tempo.- Deixem suas coisas na cabana,...
- Hoje de manhã vocês iniciaram sua jornada. Vocês agora trilham o Caminho doTigre. Não existe mais volta - o silêncio dom...
- Lao, você não está em condições de continuar com Lyu como parceiro. É triste,mas evidente que ele possui um conhecimento...
- Vamos levá-lo para dentro - diz Sakazama, carregando-o por um dos braçosenquanto que Lao o carrega pelo outro. Yoan entr...
- Foi um bom golpe, Ling. Bom mesmo. Ninguém havia me acertado desde meupróprio mestre, meu pai. Você merece meu respeito ...
Um grande trovão corta o silêncio que estava sobre nós. O céu se fecha. Uma chuvainicia sua queda.- Vamos, não é uma chuva...
- Sho Win? - falo eu, procurando-a pelos cômodos da velha casa. A encontro em umquarto, agarrada a uma velha camisa, chora...
- Você está bem? - pergunto eu. Ela responde com um movimento de cabeça,fazendo sinal de positivo.        O maldito calor,...
- Eu estou ótimo, Sho Win. Só estou cansado, mas ainda posso ensinar algo a estesgarotos sobre o que se pode fazer com a f...
- Sho Win, me ajude, rápido! Temos que levá-lo para dentro! - grita Yoan,carregando Lao para a casa. Só restam eu, Ronin e...
- Vamos, Ling. Quebre a pedra - disse Yoan. Todos me olhavam com atenção. ShoWin sai da casa para me ver também, preocupad...
- Ling, divagando novamente no meio de um combate? Volte já para o tablado e luteverdadeiramente! Até Sho Win teria visto ...
comigo. Yoan não demonstra qualquer espanto ou excitação. Aparentava ser normalver uma mulher nua. Ele apalpa a barriga, o...
Contei a Sho Win, que sorriu, para logo depois me beijar. Ficamos ali,parados, observando a dança sinistra que as chamas d...
- Eu não sei, é estranho. Sinto medo e ao mesmo tempo alívio. É como...como lutar,eu acho. A luta é iniciada, e você tem m...
- Há uma maneira, não usual, que aprendi a pouco tempo atrás... - diz Lyu.- O que é? - pergunto eu.- Consiste em espetá-la...
ficar ao lado de minha esposa. Seguro sua mão, fria. Uma lágrima escorre de seusolhos. Ali eu passo a noite.              ...
- Adeus meu amor, me aguarde, um dia nos reencontraremos.      Saio do lugar e vou para a casa de Yoan.                   ...
o Samurai sobreviver, este se tornará um Ronin. Samurai desonrado e sem mestre.Pois bem. O dever de meu pai, sendo um Roni...
Ele apenas continua andando.                             ********************       No dia seguinte nosso treinamento com ...
Sheena: O Caminho do Tigre
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  1. 1. SHEENAO CAMINHO DO TIGRE Daniel Paixão Fontes 1996 – 1997 - 2003 1
  2. 2. PARTE I - O TREINAMENTO Algo me fazia temer a escuridão. Um medo ingênuo de que eu ficaria cego,ou que monstros que só a luz pode afastar viriam me capturar. Mas, no final dascontas, eu acabei gostando mais da escuridão do que da própria luz. Nãosubjetivamente, não! Eu ainda amo a Deus e o venero! Mas gostei da escuridãocomo ausência de pura luz física, dita e simples, assim. É na escuridão onde eu mesinto mais aconchegado. Não posso ser visto em minha solidão doentia. Isso é bom. Mas como todos as noites são curtas, os dias são longos. E é um belo dia doano de 1098 da era cristã. O sol nasce belo e forte ao leste das montanhas Shizu.Yoan, meu mestre, já esta à mesa comendo os preparos que Sho Win preparara.Como de costume, nenhuma palavra é dita durante toda a refeição. Isso é difícil deaceitar para um jovem recém saído de sua família de 7 irmãos. O silêncio só seriaquebrado em exatas 2 horas, início do treinamento diurno, e voltaria ao anoitecer,quando todos deveriam meditar. Fazem exatos 4 dias que cheguei aos montes Shizu,e meu pai, Wong, havia me arrumado esta enrascada. Yoan era o maior mestre que a China tinha. Pessoas morriam para por seusfilhos em sua custódia, sob seu treinamento. Só 4 eram selecionados, a cada 10anos, para tal honra. Eu era um dos 4 escolhidos, e até daqui a 3 anos, eu e osoutros 3 ficaríamos incomunicáveis entre nós. Eu ainda era o mais bem amparado.Eu estava dormindo na casa de Yoan, comia a comida de Sho Win e treinavasupervisionado pelo próprio mestre mais de 3 vezes por semana. Os outros deviamme odiar. Mas nem sempre o que fica na casa do mestre é o mais forte dos 4. Meupróprio pai foi discípulo de Yoan, e nunca foi um grande lutador. Ele, assim como eu,ficou na casa com o mestre. Os outros 3, ao contrário , sempre eram mais fortes.Viviam nos picos das montanhas, nas galerias geladas abaixo da montanha ou nasflorestas ao sul de nossa morada. E para piorar, esta turma será a última de Yoan em toda sua vida. Ele estavacompletando seus 95 anos de vida, e um treinamento de 10 anos é muito exaustivo.Eu tenho apenas 13 anos, e nem sequer me imagino com tanta idade. Mas dizemainda que ele agüenta umas 2 ou 3 turmas novas. Na verdade ele esta muito bempara um homem com tal idade. Ainda é capaz de correr mais rápido do que eu, pularmais alto e bater muito, muito mais forte. Na verdade os homens daqui semprerelutaram muito em morrer cedo. Meu avô morreu com 128 anos. Assim mesmo, foimorto a pedradas na cabeça por um doente mental, meu tio. Bem, mas meu pai intercedeu junto a Yoan para que ele me aceitasse. Feitoisso, deixei para trás minha numeroso família, poucos amigos e meus sonhos de serum grande fazendeiro. Seria agora um grande lutador. Eu não queria lutar, masdurante estes quatro dias algo dentro de mim floresceu. Não era ódio, nem mágoa,mas ainda era algo estranho, que queimava por dentro. Eu fui morrendo pouco apouco, para dar lugar ao homem que eu seria em pouco tempo. Um grandeguerreiro, quem sabe, ou um grande covarde, mas seria um novo homem. Terminada a refeição, Yoan sai para apreciar a manhã. Respiraprofundamente, e inicia um Kati belo e harmônico que repete toda manhã. Eu nãosei se ele quer que eu o acompanhe nestes movimentos, mas eu só me contento emolhar alguém se mover com tanta graça e habilidade como ele. Terminados os 2
  3. 3. movimentos, ele corre por cerca de 10 milhas, sem ao menos aumentar arespiração. Ele se volta para mim. É hora de iniciar mais um dia de treinamento. Inicialmente (e isso era rotina nos demais dias, pelos próximos 15 meses)fazíamos um alongamento completo do corpo. Doía muito no início, e ele memandava relaxar. Parece absurdo, mas funcionava. 50 minutos exatos dealongamento. Era isso. Depois, uma bela corrida de 20 quilômetros. Yoan percorriaem exatas uma hora e meia, eu levava de duas a quatro horas para completar essepercurso. Ele me olhava, paciente, como se já soubesse que eu era frágil e que tinhaque ter cuidado comigo, assim como meu pai. Era este o olhar dele. Deus, como euqueria surpreendê-lo! Fazer ele compreender que ele estava errado, que eu podiaser forte! Depois, nadávamos contra a correnteza do pequeno rio que havia ali porperto. Não era muito forte, mas eu quase me afoguei umas 3 ou 4 vezes no início.Yoan, por incrível que pareça, após me salvar, dava gargalhadas, se jogava de voltano rio e nadava de maneira magistral. Ele era de ferro. Após o nado, íamos comer. Sho Win nos esperava, com um grande sorriso emuita comida. Ela era nova, quase tão nova quanto eu. Era muito quieta, eobediente. Yoan havia lhe criado desde seu nascimento, disso eu sei, mas não sabiase ele realmente era pai dela, e isso eu não sei até hoje. Mas, enfim, ela era umabela moça com seus 18 anos, e cozinhava muito bem. Após comer e descansar por 2horas, nós retomávamos o treino. Yoan se sentou em uma pedra e apenas me observava. Eu aguardava suasordens, e então ele me mandou sentar a sua frente. Estávamos no lugar mais beloque eu já havia visto em toda a minha vida. Era recoberto por grama verde e farta,havia a pedra onde o mestre estava sentado, havia uma grande árvore ao seu lado,e ao fundo uma grande cascata de água caía, formando uma expeça nuvem. Tudoisso aliado ao céu azul e ao sol poderoso que pairava naquele dia, juntamente com oaspecto sombrio que as demais montanhas faziam ao fundo, o que me agradava,pois eu ainda gostava mais do escuro do que da claridade. Eu simplesmente meapaixonara pelo lugar.- Você gostou deste lugar, Ling ?- Sim, mestre.- Você deve escolher um lugar que seja seu nesta montanha, Ling. Um lugar seu,para que você possa vir aqui sempre que necessitar de respostas.- O lugar que eu escolher vai me dar respostas?- Não. Todas as respostas que você tanto anseia estão dentro de você mesmo, Ling.Você só precisa de um lugar seu para que elas lhe venham. Um lugar seu.- Mas mestre, este é o seu lugar! Eu já o vi aqui meditando todas as noites.- Agora ele será o seu lugar, Ling. Eu o deixo para você.- Por que mestre?- Por que eu já tenho todas as respostas que preciso. Este lugar é bom, e agora éseu. Ele se cala por completo, e fecha os olhos, realizando uma prece interna epessoal, como se estivesse se despedindo do lugar que lhe serviu durante décadas. Partimos então para o grande rochedo que havia ao norte. Ali eu tinha quesocar a rocha até que minha mão começasse a sangrar. Devido aos últimos dias e os 3
  4. 4. ferimentos que eu havia adquirido, logo isso acontecia. Mas o mestre me mandoucontinuar a socar a rocha. Não com tanta força, para não quebrar ossos, mas comforça o suficiente para me rasgar a carne dos dedos. O local que eu socava ficoumanchado de sangue. E assim fiquei por uma hora inteira. As lágrimas caiam, masYoan não me permitia parar. Ataduras eram colocadas nos ferimentos, mas eu nãopodia parar de socar a rocha. Por fim, ele me pediu para parar. E eu parei. Ele meolhava com orgulho, eu, ali, com lágrimas nos olhos, sangue quente e semicoagulado pingando de minhas mãos, o suor a tomando conta de todo o meu rosto emeu coração disparado. Eu não havia parado até ele me mandar. Ele não me disseuma só palavra, mas eu vi em seus olhos o orgulho que sentia de mim por não terparado ou reclamado um só minuto. Eu o havia finalmente surpreendido. Saímos do lugar, e rumamos para um bosque. Eu devia, agora, pular porentre tocos de árvores dispostos a mais de dois metros uns dos outros, no mínimo.Cai muitas vezes, é verdade, mas dei pulos muito bons. Yoan, para me demonstrarcomo deveria ser feito, deu saltos impressionantes. Mais uma hora. Pulos e pulos.Meus músculos gritavam por piedade, mas eu sabia que nunca poderia pedirpiedade, pois quebraria aquele elo de admiração e orgulho que estávamos criandoentre nós. Após isso, o penúltimo exercício: golpear com mãos, braços, pernas, pés eprincipalmente canelas, árvores finas e grossas até a noite iniciar. Isso doía muito.Mas Yoan me demonstrou mais uma vez como é que deveria ser feito, e partiu umaárvore média com um forte golpe de canela. Ele me pediu para não tentar aquiloainda, pois com certeza eu quebraria algo, mas não a árvore. E eu ficava ali,golpeando, golpeando, sob o atento olhar dele. Parecia que o dia não ia acabarnunca. Por fim ele me manda encerrar o treinamento por hoje. Voltamos até a frente da casa. O mestre entra para se banhar, enquanto queeu deveria tomar banho no pequeno rio e depois fazer mais exercícios dealongamento. O silêncio dominara mais uma vez. Eu me dispo e caio na água gelada,que é até boa, pois meu corpo acabado se sente melhor. Ouço uma risada e olho aoredor para ver de onde vem. Vem de trás de uma pedra, de onde Sho Win meespiava. Ao ver que fora descoberta, ele dispara em corrida para dentro da casa. Eu termino o banho, visto roupas secas e limpas, e realizo o alongamento,assim como Yoan me ensinara. Entro para comer. O jantar é no mais completosilêncio. Depois, vou para meu lugar, aquele que Yoan me cedera. Uma noite clara elimpa exibe uma coberta de estrelas incrível. Eu me sento na pedra, e fico a observartoda aquela beleza escura, sob a luz de uma lua tão cheia quanto pode. Eu meditopor um longo tempo. Eu não tenho perguntas para serem respondidas ainda, porisso eu apenas explorei o local com meus sentidos. O Inverno veio, e eu ficava horas e horas de baixo da neve gelada, semagasalhos. Eu meditava a noite sob tal neve, que de certa forma me purificava aalma sangrada durante o treinamento. Mesmo nos dias em que o mestre dormiafora, para treinar os outros 3 alunos, eu seguia a risca o treinamento. Minhas mãosforam ficando resistentes, e não sangravam mais ao bater na rocha. Meu corpo,pouco a pouco, ia se transformando, ficando forte e belo. Eu podia notar os olhos deSho Win sobre mim durante o dia todo. Eu não sentia mais as dores que sentiaantes. Eu estava forte, como um verdadeiro lutador, ao fim de 15 meses. Mas nãohavia sido treinado em técnica. 4
  5. 5. Um dia, em meditação, eu compreendi a razão de tudo isso: eu estava sendopreparado para absorver o conhecimento. Kung Fu não era fácil, e ainda mais comYoan. Seu objetivo não era nos tornar meros lutadores, mas sim verdadeirosmestres, versados em todos os estilos conhecidos. Sim, eu ainda era um mero aprendiz. Um dia, quando o mestre me permitiufazer algumas perguntas, eu lhe falei de minha conclusão. Ele sorriu, e apenas disse:- Você medita buscando respostas para suas perguntas. Elas sempre serão corretas. Ainda deveríamos continuar por mais tempo com este treinamento padrão.Até completar 3 anos, para então nós quatro nos unirmos e juntos iniciarmos otreinamento. O mestre se calou, e assim, nós observamos um pequeno grupo deaves voando para o sul. Cerca de 6 dias depois disto, o mestre declara a mim e a Sho Win que ficariafora por 3 semanas, uma com cada um dos outros 3 alunos. Sho Win deu um sorrisomaroto, e eu soube, na hora, que correria certo perigo durante este tempo. Mas queperigo? Yoan parte, levando consigo pouca coisa. O que será que os outros faziampara comer, dormir...? Yoan some no caminho que segue, e eu inicio meutreinamento. Corro, nado na água parcialmente congelada, pulo, bato, alongo... e láse vai mais um dia. Sho Win me observa o dia inteiro, só que agora de forma mais explícita, pelaausência de Yoan. A noite, durante o jantar, ela fala algo, como que o dia foi frio,que a sopa esta sem sal... eu não prestei atenção e nem respondi. Estavadesabituado a falar durante minha alimentação. Ela não se importou. Durante estesquase dois anos nós nunca conversamos muita coisa além do necessário. Massempre nos olhávamos. Ela me observava com grande desejo, eu podia verclaramente, e o pior, eu estava lhe retribuindo os olhares já fazia algum tempo. Ciente da situação, logo após comer eu fui até a pedra, meditar, e de certaforma, fugir. O que eu deveria fazer? A resposta veio, não de minha mente, mas simdos lábios quentes e úmidos de Sho Win. Um ardente beijo foi trocado. Nós nosamamos ali mesmo, sobre a grama gelada, com a neve caindo sob nossos corposnus. Nunca em toda minha vida eu havia feito coisa semelhante, e nunca foi tão bomestar vivo como naquele momento de prazer infinito. Ficamos ali por vários minutos.Por fim, voltamos para a casa de Yoan, e continuamos esta troca de prazeres atéamanhecer. Pela primeira vez desde minha chegada ao monte Shizu eu não sai paratreinar. Os demais dias transcorreram normalmente. Eu treinava o dia inteiro e denoite eu e Sho Win dormíamos juntos. E assim foi seguindo. Eu abdicava de minhameditação para ficar ao lado de Sho Win por mais tempo. Isso me fazia um certomal. Eu não estava mais pensando tão claramente como antes. 5
  6. 6. Sho Win entendeu quando eu lhe expliquei que teríamos que nos ver pormenos tempo. Eu voltei e meditar, e perguntas incríveis me vinham à mente. Mas,agora, eu não estava obtendo respostas. Era como se aquele lugar fosse novo paramim desde aquela noite com Sho Win. Resolvi relaxar e buscar com meus sentidos,mais uma vez, toda a expansão do lugar que me pertencia. Reconheci-o de novo. Asrespostas me voltaram, e eu pude dormir mais uma vez purificado de corpo e almapor aquela neve, que era a encarnação da paz que eu obtinha novamente. Sho Winme abraçava como se o mundo fosse terminar. Nos amamos mais uma vez.Dormimos agarrados um ao outro, como dois amantes que éramos. ****************** Yoan voltara. Para surpresa minha, e de Sho Win, ele trazia consigo 3rapazes. Os 3 outros alunos de que ele havia falado. Os 4 finalmente ficariam juntose o treinamento teria início.- Mas mestre, ainda não se passaram 3 anos, como o Sr. havia dito.- Vocês já estão prontos, Ling. Venha, junte-se a nós. Os três observavam Ling com um olhar de admiração, inveja e ódio. Elesseriam grandes amigos.- Apresente-se a Ling - manda Yoan. O maior de todos nós era Lyu. Era belo, forte e rápido. Isso o tornava meumaior competidor em relação a Sho Win. Ainda não tenho certeza se ela realmenteme ama ou se só meu usou para suprir seus desejos carnais, e não tendo maisninguém por perto além de mim... O outro era Lao, baixo, cabeludo e mortal. Já quebrava árvores com suascanelas, mesmo Yoan o repreendendo. Era uma boa pessoa, dedicada e leal. Por último havia Sakazama, o único estrangeiro, um japonês. Era o maiscalado dos três, e segundo Lao, o mais perigoso. Eles brincavam muito com Sak,como nós o chamávamos, por ele ser do Japão. Ele não se demonstrava nervoso ouagressivo. Nem um pouco. Isso assustava. Os dias seguiram, eu e Sho Win nos encontrávamos às escondidas de noite, eela nem sequer olhava para qualquer um dos outros. Ela gostava de mim mesmo,mas o que me preocupava é se um deles tentasse alguma coisa "intima" com ela.Mas eu nada falei a ela. O treinamento seguia normalmente, sem alterações, segundo Yoan, por maisalguns meses. Mesmo sendo evidente que eu era o mais fraco de todos, Yoan aindame olhava com orgulho, coisa que ele não fazia com os demais. Sak, por sua fez, seesforçava ao máximo, e mesmo assim Yoan não se importava. Os quatro logoficaram amigos. Sak, porém, só falava com Yoan. Mas um dia, quando estavameditando, ele veio até a mim. Passou pelo meu lado e ficou a admirar a paisagemnoturna como eu mesmo fazia.- É um belo lugar, não acha? – perguntei. 6
  7. 7. - É - disse ele. Ainda nevava, muito pouco, mas nevava.- Olhe para este floco de neve - disse ele, pegando um com a mão.- É tão frio e bonito... mas derrete com o mais leve contato com a pele.- É, ... Ele se vira e soca o ar com tal precisão e segurança que acerta uma únicafolha da árvore que estava caindo atrás de si. Ela voa para mais longe.- Como você sabia que ela estava lá? - pergunto eu- Medite sobre isso... e talvez encontre a resposta, um dia - diz ele, indo embora. Eu me encontro mais uma vez com Sho Win, mas não conseguia meconcentrar nela.- O que foi, Ling?- Yoan falou que o treinamento começa amanhã.- E daí?- Eu me sinto despreparado. Os outros já sabem tanto...- Você também já sabe. Esqueceu o que o mestre sempre diz? "Nós já sabemos tudoo que temos que saber. Só que ainda não sabemos disso"- Sim, mas...- Não quero mais ouvir uma palavra. Você é o melhor dos quatro - diz ela, dando umgrande beijo em mim. Adormecemos ali mesmo, juntos. Por sorte Lao, que sabia denosso romance sei lá como, veio nos acordar.- Se o mestre pega vocês aqui ele vai te mandar embora Ling! Tomem mais cuidado! Ele vai embora. Eu sabia que pelo menos em um eu podia confiar. ****************** O sol nasce mais uma vez, belo e forte como no primeiro dia em que eucheguei. Nem parecia que havia nevado a menos de um dia ainda... mas agora otempo era perfeito. Yoan nos reúne na frente da casa. Sho Win retira água do riachopara seus afazeres, embora eu percebesse que ela nos observava, com os olhosvoltados para mim.- Hoje o verdadeiro treinamento terá início. Vocês se tornarão os maiores guerreirosde sua geração. Serão versados, a partir de agora, em todos os estilos possíveis - dizYoan.- Mas antes vocês tem que compreender que uma luta é o último ato de umatragédia. Vocês tem que evitar, a todo custo, um confronto. Não por que são fracos,mas sim por que são fortes, mais fortes que os demais. Os homens são todos iguaisem sua essência. Não existe motivo para disputas. Vocês tem que entender que tudoo que eu ensinar hoje só lhes servirá, realmente, se vocês compreenderem que umapalavra tem a força de mil golpes. Nunca ataque, somente defesa. Nunca caos, sóharmonia. Nunca luta, só paz. Todos nós, pelo menos aparentemente, compreendemos profundamente oque ele queria dizer. A luta é como uma espada, que só deve ser tirada da bainhaquando for realmente necessária, pois quando despida, ela sempre terá que serusada. Tínhamos o resto do dia de folga (a primeira em dois anos e meio detreinamento). No dia seguinte, iríamos para o cume de Shizu, iniciar nosso 7
  8. 8. aprendizado real. Neste dia, nos separamos em dois grupos. Eu, Sho Win e Laofomos caminhar pelo bosque. O restante, incluindo Yoan, ficaram no riacho,nadando.- Eu também já tive uma namorada, sabe? O nome dela era Kiy. Mas agora eu achoque ela deve estar com outro... huum, é, faz muito tempo desde que eu parti paracá e a deixei só. Ela definitivamente já deve ter arrumado outro...- Não fale assim, Lao. Ela pode estar lhe esperando... - diz Sho Win, segurando emminha mão, como namorados.- Não, eu falei pra ela não me esperar. Ela sabia para onde eu estava indo e quantotempo ia demorar. Um silêncio mórbido domina o ambiente, com o vento calmo balançando acopa das árvores, os pássaros a cantar e nós a caminhar.- Qual é a sua história, Lao? - pergunto eu, abraçado a Sho.- Eu morava nos becos de Goku, um feudo não muito distante daqui. Eu era ladrão,sabe? Minha mãe era doente e vivia pedindo esmolas nas ruas. Eu jurei que nunca iapedir daquele jeito. Mas acabaram matando ela. Pra me virar nas ruas eu tive queaprender a bater forte pra sobreviver. Foi ai que eu encontrei Kiy. Ela era filha de umex-aluno de Yoan. Ele nos descobriu um dia e ficou impressionado em como euagüentava apanhar e como meu soco era forte para o de um garoto. É que ele mebateu pra valer, sabe, mas eu também bati nele. Ele então me falou que para eu serdigno dela eu teria que me tornar um grande lutador a ponto de derrotá-lo. ChamouYoan, que de início me considerou fraco e incapaz do treinamento. Porém, no últimodia em que ele estava no feudo, 4 idiotas um pouco maiores que eu vieram mebater, por que eu já tinha fama de bom de briga entre os pequenos ladrões dacidade. Yoan apenas observou. Eu acabei com cada um daqueles cretinos em apenas5 minutos. Yoan me trouxe para cá na hora. Mas duvido que Kiy me espere. Euestou aqui mais por causa de mim mesmo. Não gosto e nem gostava de roubar.Quero ser um grande lutador e oferecer meus serviços ao Imperador como guardapessoal. Ficamos calados.- Sabe, eu morava neste bosque. Eu te vi muitas vezes aqui, Ling.Você puladesajeitado!- Eu melhorei! - dizemos em tom de brincadeira e provocação.- Então prove - diz ele. Eu pulo em cima do primeiro tronco, onde me equilibro facilmente. Lao pulaem outro tronco e vira seu rosto em minha direção.- Vejamos se pode fazer algo melhor que isso: Ele pula de forma sobrenatural, dando piruetas invertidas, se equilibrando emum só pé e saltando como uma rã. Ao final de 1 minuto ele para, ofegante.- Agora você - diz ele. Eu olho para Sho Win, que também me observa, cheia de esperanças. Elanunca havia me visto fazer acrobacias ou lutar. Acredito que nunca houvesse vistoninguém fazer aquilo antes de Lao. Eu tinha que fazer melhor. 8
  9. 9. Me concentro. Fecho os olhos e respiro profundamente. Um movimentorápido e potente de músculos e lá estou eu, no ar. Olhos fechados, eu não tenhomedo. Sei onde esta cada tronco, não que tenha memorizado, mas por que eu possosimplesmente senti-los. Saltos enormes, um mortal duplo, e por fim, caio no últimotronco me equilibrando sobre meu braço esquerdo. Ambos, Sho Win e Lao, meobservam de forma semelhante. Eu havia feito melhor. A reação de Lao, para meu espanto, foi de alegria: - Você conseguiu! – disseele. Sho Win teve a mesma reação, vindo me beijar ardentemente, deixando Laolevemente encabulado. Voltamos para a casa de Yoan, que neste momentosimplesmente dormia. Sak e Lyu apenas estavam com seus corpos dentro da águado riacho, com as cabeças para fora. Lao se juntou a eles, entrando de roupasmesmo, só se preocupando em tirar as botas. Eu e Sho Win ficamos conversando nomeu lugar de meditação, que era perfeitamente visível do riacho. Que casal estranho nós éramos. Ela era bem mais alta que eu, linda, delicadae amorosa. Eu era mais baixo, forte, e evidentemente mais novo. Ela contava seus21 anos e eu os meus 15. Era proibido e por isso mesmo tão bom. Sabíamos queficaríamos algum tempo sem nos ver. Nos beijamos novamente. Senti os olhos deLyu a nos observar, com raiva. Ele aparentemente estava com seus 19 ou 20 anos,bem mais compatível com a idade de Sho Win que a minha. Eu sabia que ele adesejava mais do que qualquer coisa ali, mais do que aprender com Yoan. Isso estava tornando as coisas perigosas. Ele era o maior e mais rápido detodos nós. Talvez ele seja no final o melhor lutador. Mas não posso permitir que eletente algo contra nós. Resolvo fingir que não percebi seu olhar, e continuo a beijarSho Win, agora de forma mais ardente. Minha mão inicia uma dança pelo corpo dela,de cima até em baixo. Seus seios, grandes para uma chinesa comum, mas perfeitospara ela, eram macios e quentes. Suas costas, lisas; suas coxas, delicadas iscas deamor... ela também, por sua vez, retribuía as carícias, me alisando o peito seminuda camisa aberta, minhas coxas, minhas nádegas e meu sexo por cima de minhacalça. Lyu estava visivelmente odiando a mim cada vez mais e mais. Mas eu não meimportava. Sho Win e eu rumamos para o bosque mais uma vez, desta vez sós, deonde só retornamos a noite. Próximo a casa, Yoan nos observa, com olhos cerrados. Nós paramos. Haviaele descoberto? Eu não sei, mas ele sorriu para nós e entrou mais uma vez na casa. *************************- Acorde, vamos, acorde! - diz Lao, me empurrando e, por fim, me despertando.- O que foi? - pergunto eu.- Está na hora, vamos, se arrume, está na hora! - diz ele, eufórico.- Na hora do que, Lao? O sol ainda não nasceu...- Está na hora do teste, Ling, o teste! Yoan me pediu para lhe acordar e lhe chamar!Vamos, vamos!- Que teste é esse, pra onde a gente vai... - pergunto eu inutilmente a Lao, que meempurra para fora, dizendo "Vamos, vamos, os outros estão esperando, vamos!". 9
  10. 10. Chegamos ao lado de fora da casa. Fogueiras ardiam em quatro cantosdiferentes. Assim como quatro pequenas toras dispostas lado a lado no centro dasfogueiras.- A natureza é formada pelos quatro elementos. Só depois de dominarem cada umdos elementos é que vocês estarão prontos realmente - disse Yoan, em tom sinistro.- Mas o senhor falou que hoje iríamos para o cum... POF! - um golpe certeiro emmeu rosto que Yoan desferiu em tal velocidade e força que me custou acreditar quefora um soco que havia me derrubado.- Silêncio! Não questione seu mestre, jamais. Vocês nada treinaram até agora. Vocêssão tão nada quanto no dia em que chegaram aqui.São crianças, frágeis e inocentes.Mas já tem um corpo de homem. Isso é quase tudo que é necessário para iniciarmoso treinamento. Com meus antigos alunos era tudo o que bastava. FORÇA! Mas agoraeu creio que errei ao treinar apenas o corpo das pessoas. É preciso treinar também oespírito, e a coragem, e a ética! Sem isso, nada adianta ter treinado o corpo. Semisso, apenas estarei treinando assassinos, loucos ou covardes, como o deu pai, Ling.Eu o aceitei por que queria remediar o mal que havia cometido no treinamento deseu pai. E acredite, você é idêntico a ele. Mas agora vocês são minha última turma, eeu não quero fazer de vocês meros lutadores, os maiores guerreiros de sua geração,NÃO, eu quero fazer de vocês os melhores lutadores de todos os tempos! Sim, nuncaexistiu ou vai existir lutadores como vocês em todo o mundo. E para isso, otreinamento foi totalmente refeito. Esta será a primeira e a ultima fez que euensinarei o Caminho do Tigre. E esta será a entrada para este caminho. Vençam oelemento. Vençam o FOGO! Caso contrário voltarão para o lugar de onde vieramimediatamente. Esta é a ultima chance de saírem com vida caso não se achem aptospara o árdua treinamento. Vençam o FOGO, AGORA! - Grita ele. Ele nunca havia falado tanto e tão violenta e seriamente quanto agora.Admito que senti vontade de chorar, mas como sempre, me contive. E revoltado como recém tratamento rígido que ele adotara eu sou o primeiro a perguntar o que deviaser feito.- Está vendo as quatro fogueira? Escolha uma para enfrentar. Eu aponto para uma, a que eu acho mais ardente.- Você pode morrer se cometer um único deslize, Ling. Eu o olho de forma nova, que, novamente, o surpreende. E ainda digo:- Eu não vou errar.- Pois bem. Entre na fogueira e quebre a pequena tora. Não pense que será fácil. Elanão está queimada ou amolecida, é uma madeira especial, das mais duras que temno bosque. Quebre-a com um golpe de canela, Ling. E traga um dos pedaços delapara mim. VÁ! Eu paro em frente a fogueira. Ela brilha e arde, muito. Eu adoro a escuridão,e ela é tão brilhante... eu não posso tentar, eu tenho que conseguir! O ódio aindapulsava dentro de mim, em harmonia com a dor latejante do golpe dado por Yoan.Eu queria mostrar para aquele velho que eu era o melhor, e era isso que eu lhemostraria: o melhor. 10
  11. 11. Tomo impulso, corro de forma dinâmica em direção ao brilho extremamentequente. Eu sabia que ele não queria exatamente que eu entrasse na fogueira, porisso eu simplesmente pulei para dentro dela. A tora era visível. Eu dou o golpe maisforte que posso contra ela. De uma dureza incrível, por um segundo eu chego apensar que havia falhado. Mas ai percebo que havia partido a madeiraperfeitamente. Eu atravesso a fogueira sem tocar o chão, mesmo tendo perdidovelocidade com o golpe. Não me preocupo em recolher a parte da madeira, pois elahavia caído muito próximo do lugar onde eu pousaria em breve, fora das chamas.Um belo salto, sem dúvida. Um único salto. Em pleno ar adentrar no fogo, partir atora e pousar do outro lado, de forma brilhante. Minha canela doía muito, é verdade, mas não estava fraturada. A carne nolocal havia se rasgado e havia um sangramento, mas eu ainda podia andarperfeitamente. Todos olhavam abismados. Eu havia conseguido, e de forma incrível. Meiomancando, eu trago a madeira até o mestre. Jogo-a aos seus pés, ainda quente.- Você venceu - diz Yoan.- QUEM eu venci? - pergunto eu - A mim ou ao senhor? - e saio mancando para mesentar em um banco de madeira, e observo todos. Yoan sorri levemente, porém,escondendo de todos. "O garoto é atrevido, mas sabe usar o ódio de forma perigosa.Ele me surpreendeu novamente", pensa ele.- Mestre, permita-me ir agora - diz Sak.- Vá. Sak não parece preocupado. Aquilo parecia uma coisa normal para ele. Eleestava calmo e realizou movimentos soberbos. Deu um grande salto, e logo após umviolentíssimo golpe contra a tora de sua fogueira. Trouxe-a para Yoan, que mais umavez, disse: Você venceu. Sak veio sentar-se ao meu lado.- Como está a perna? - pergunta ele de forma simples.- Está boa - digo eu, mentindo.- Vá para dentro e veja com Sho Win o que pode ser feito, ela está péssima! Osangue está brotando a olhos vistos - diz ele apontando para meu ferimento.- Certo... obrigado - digo eu.- Espere - diz ele - Me traga algo também, certo ? - diz ele, segurando sua pernacom um ferimento se não igual, pior que o meu.- Certo - digo eu, mancando para a casa. Enquanto isso, Lao se apronta para saltar. Eu paro a caminhada paraobservar sua vez. Ele pula e atravessa a fogueira rapidamente. Trás a madeira parao mestre, sorrindo.- Você venceu - diz Yoan, como um mal espírito.- Vejam, não cortei a perna! - diz ele alegre e orgulhoso, indo sentar-se com Sak. Lyu era o ultimo. Eu não queria vê-lo saltar para não ter que desejar-lhe má-sorte, e por isso eu estava quase que para adentrar na casa quando eu o vi tirar acamisa. Eu não o havia visto despido antes, e ele tirou toda a roupa. Havia umaenorme figura de um dragão vermelho em suas costas. Até mesmo Yoan ficoupreocupado. Aquela era a marca do temido clã de ninjas assassinos JitSu, que haviacriado uma técnica de combate inspirada nas próprias sombras. 11
  12. 12. Ele desfilou por entre as fogueiras, completamente nu. Sho Win, que haviavindo ver o que ocorria, o contemplou então. Ele a olhou também, e logo depois,entrou na fogueira, caminhando. Todos se preocuparam, mas Yoan estava calmo.Por ali ficou ele alguns segundos. Logo depois, apareceu novamente com o pedaçode madeira e nenhuma escoriação nas pernas ou braços, nem sinais dequeimaduras. Deixou a madeira aos pés de Yoan, e disse em tom forte: "Eu venci". Sho Win ainda o observava. Ela não havia me visto. Eu podia ver o desejo emseus olhos, o mesmo desejo que eu vi quando ficamos sós pela primeira vez. Nesteinstante eu soube perfeitamente que eu a perderia. Eu manco em sua direção, e sóentão ela me percebe.- Me de algumas ataduras e alguma erva para cicatrização. Ela fica enrubescida, vendo em meus olhos que eu sabia o que passava emsua mente.- Sim, um momento. Ela volta logo depois com o material. Eu dou as costas a ela e me dirijo paraSak, que me aguardava, ansioso em limpar a ferida e fechá-la. Lyu já havia sevestido, mas Sho ainda o observava, assim como ele olhava para ela. Uma troca deolhares tão explicita que eu não podia mais ver. Rumo para o bosque.- Partiremos quando o sol nascer - diz Yoan. Eu nada respondo. Lao e Sak apenas me observam adentrando na negra e densa mata que seformava logo a minha frente. Isolado, dentro do mato, eu faço o que não fazia amuito tempo: eu choro. Choro por que estou vivendo de forma inigualavelmente má.Separado da família, rejeitado pela amada, sentindo a dor percorrer seus ossosbrancos... eu choro até o amanhecer. Voltando para o lar de Yoan, vejo Sho e Lyu naparte de trás da casa. Eles não me vêem. Ambos se beijam loucamente. Enquanto osoutros arrumam suas coisas para a viajem, eles se amam sob a proteção do céu azulque nascia belo, e agora triste. Eu ainda choro . Lágrimas de prazer escorrer pelo rosto de Sho Win que cerraos dentes e geme fracamente; ambos arfam. Algo rápido e proibido, assim como eraconosco. Sem ao menos terem tirado as roupas, ambos se levantam, se beijam maisuma vez, e vão embora. Eu engulo as lágrimas, engulo o ódio. Jogo tudo em umagrande fogueira que arde em meu peito, fogo este que move agora meu corpo. "Seremos os maiores lutadores do mundo em todos os tempos, e eu aindaserei o melhor de nós quatro. Meu sangue não mais será derramado sem vingançamortal contra meu oponente. E que isto não seja uma promessa, mas sim arealidade". Me levanto também, e dou a volta, entrando na casa e arrumando minhaspoucas coisas. *********************- Não vai se despedir de Sho Win, Ling? - fala Lao. 12
  13. 13. Eu me arrasto até ela, que me olha de forma semi-diferente, mas aos demaisolhos, como sempre havia feito. Apenas uma diferença sublime, que só eu podiaperceber. Ela me dá um abraço, e me beija, sem que eu retribua o gesto.- O que foi Ling? - pergunta ela de forma sonsa.- Você está gostando de me tocar, Sho Win? Aproveite, pois se eu voltar a lhe tocaralgum dia não será de forma amorosa, mas sim com um forte chute, assim como eufazia com os cachorros de onde eu morava.- Ling!!! - responde ela tentando parecer inocente.- É isso mesmo, não é? Afinal você não passa de uma maldita cadela! Ela responde me dando um forte tapa no rosto, mas nem sequer chora, poissabe que eu estou falando a verdade.- Como pode?!! - diz ela, agora tentando iniciar um choro. Eu respondo com apenas duas ásperas e fortes palavras, sussurradas em seuouvido.- Eu vi. Ela compreende, e para de chorar. Fica imóvel, como se soubesse que euqueria matá-la naquele instante.- Nunca mais sequer olhe para mim - digo eu, saindo da sala. Ela permanece parada.- Vamos todos agora. Onde está Ling? - pergunta Yoan, na frente de Lao e Sak.- Estou aqui, mestre - respondo eu secamente.- O que é isso em seu rosto, Ling ? Parece uma panc...- Não é nada Lao, não é nada.- E agora, onde está Lyu? - pergunta Sak.- Deveríamos deixá-lo aqui. Vocês viram as costas dele... ele é do clã JitSu. O senhorainda vai treiná-lo, mesmo sabendo que ele vai se tornar um assassino? - perguntaLao. Yoan nada responde, apenas observa o nascer do sol. Eu, por minha vez,posso ver Lyu e Sho Win, semi escondidos, em um lugar que só eu podia ver, nafrente da casa de Yoan. Eles se beija mais uma vez. Só que agora é Lyu que meobserva enquanto acaricia todo o corpo de Sho. Eu abaixo a cabeça, e ignoro. Apartir daquele dia eu saberia que Sho Win fazia parte de meu passado. Logo apósisso, Lyu se reúne a nós.- Vamos agora - exclama Yoan. Marchamos em direção aos picos gelados da montanha, onde Sak haviatreinado a tanto tempo. Mesmo estando à frente, eu podia perceber os olhos de Lyusobre mim. Ele ainda não estava satisfeito em ter tomado a mulher que eu amava,ele queria algo mais. Eu ignoro e continuo a marchar, logo atrás de Yoan. Cerca de 2 horas depois chegamos ao local. Uma cabana de madeira, ondeSak dormia e comia durante sua estada lá, estava semi apodrecida. Mas ainda era 13
  14. 14. um bom abrigo contra os fortes e gélidos ventos sopravam violentamente durantetodo o tempo.- Deixem suas coisas na cabana, vamos iniciar o treinamento logo. "Ronin", mostre olugar ao demais. Eu vou descansar um pouco.- Sim, mestre - responde Sakazama. Deixamos nossas coisas na cabana e seguimosSak. Eu estava meio preocupado, nós nunca havíamos ficado a sós durante estetempo todo, não nós quatro juntos. Isso podia ficar complicado.- Que tipo de apelido é "Ronin"? - pergunta Lao a Sakazama.- Na língua de meu povo, "Ronin" é um Samurai sem senhor. Um cavaleiro errante,em busca da morte por ter permitido que seu senhor morresse. Essa é a maiordesgraça possível em toda a vida de um Samurai - diz ele, em tom melancólico.- E por que ele te chama assim? - pergunto eu.- Por que seu pai era um - diz Lyu, em tom sarcástico. Sak apenas olha Lyu com o canto de seus olhos, sem alterar seusmovimentos ou virar a cabeça, em tom superior. Ele nada fala.- Ronin. É melhor que Sak. Vai ser Ronin agora - diz Lao, brincando - Paramos.Havia um grande paredão de rocha a nossa frente. Ficamos a olhá-lo.- Este era o meu desafio pessoal. Por dois anos inteiros eu subia ele todos os diasem uma hora. Olhávamos para a parede de rocha e para Ronin sem entender como ele faziaaquilo. Era uma parede completamente vertical. Fora algumas saliências ou buracos,era completamente lisa. A altura era enorme, uma queda e seria morte na certa.Ronin observava a parede como se esta fosse sua única amiga, confirmando minhassuspeitas de que ele havia passado pouco tempo com o mestre ou qualquer outrapessoa durante todo o treinamento. Seus próprios desafios se tornaram seusamigos.- Vamos, por aqui ha uma coisa que eu quero lhes mostrar. Venham - diz ele indo nafrente. Nós o seguimos. Andamos até uma surpreendente lagoa natural que o riachoformava.- Coloquem a mão na água - diz o Ronin. Obedecemos. A água estava quente! Sim,e era mais cristalina e clara do que próxima a casa de Yoan.- Como? A água de lá era gelada e aqui está agradavelmente quente!- Uma bolsa termal embaixo da terra faz isso. Este monte era, a muito tempo, umvulcão. Agora adormecido, seu sangue aquece a água deste local, que logo adianteencontra a neve eterna das montanhas, a tornando gelada mais uma vez - diz Ronin.- Incrível! - diz Lao.- Venham, vamos para a cabana. O mestre já deve ter descansado.- É, vamos logo para a cabana, pequenino Ronin. - diz Lyu. Sak o olha novamente, mas agora de frente, com um olhar profundo. Laointerfere, puxando Sakazama.- Vamos logo, vamos logo - dizia ele. Lyu ainda me olhava de forma perigosa. Algo aconteceria, e logo.Chegamos à cabana, onde Yoan nos esperava.- Sentem-se - disse ele. Nós obedecemos. 14
  15. 15. - Hoje de manhã vocês iniciaram sua jornada. Vocês agora trilham o Caminho doTigre. Não existe mais volta - o silêncio domina a todos.- A partir de hoje um novo treinamento será iniciado, mas os antigos também serãoincorporados. Agora vocês se tornarão Tigres. Muita coisa foi ensinada naquele dia mesmo. Absorvíamos os ensinamentosmais rápido que absorvíamos os golpes dados por nosso mestre. Lyu parecia sedivertir muito com tudo aquilo, estava sempre com um sorriso, muito cínico.Desviava dos golpes de Yoan de tal modo que se mostrava em equiparação com ele.Não havia o que se ensinarem e nem o que aprenderem. Aqueles que treinavam nanossa frente não eram aluno e mestre, mas sim oponentes. Naquele dia eu vi pelaprimeira vez Yoan sangrar. Lyu não sofreu um golpe sequer. Só parou quando oMestre sangrou com um golpe certeiro em sua boca.- Desculpe mestre - dizia ele descaradamente.- Não ha do que se desculpar, Lyu. Você fez muito bem - disse Yoan, visivelmentecansado. Os combates acabaram por aquela semana. Treinamos golpes e movimentosincríveis. Os exercícios de alongamento, corrida e nado continuaram, assim comotodos os outros que estávamos habituados. Eu os ensinava a bater na rocha com asmãos nuas, Ronin nos ensinava a escalar o paredão e Lao nos mostrava comoarrebentar coisas com seus potentes golpes com a canela. Lyu, por sua vez, ria denós, e se indispunha a realizar exercícios tão primários. Ele apenas observava, enada ensinava. Isso nos provocava ira. Ainda não fazíamos idéia do por que é queele estava conosco. Era visível que era mais velho, e um excelente lutador. Sua ligação com oJitSu me provocava suspeitas terríveis , mas me recusava a aceitá-las. Como Yoan,um verdadeiro mestre, poderia... não, não poderia. Eu tentava esquecer tudo, mas aimagem de Sho Win com ele me despertava o fogo interior que mais uma vez memovia. Passada uma semana de treinamento árduo, voltamos para a casa principal.Sho Win observava a mim e a Lyu, como se estivesse surpresa por não termos nosatracado e lutado. Eu não lhe dirijo a palavra, passando por ela, assim como todosos demais, exceto Lyu, que a lambeu na orelha, lhe provocando risos. Eu vi, e elesnão mais se importaram. Logo depois ambos foram para trás da casa. Eu e osdemais fomos para o quarto e dormimos pesadamente. Meu corpo não sentia dorigual desde a primeira semana de treinamento. Os demais também se sentiamassim. Estávamos apenas começando. No dia seguinte retomamos o treinamento. Novos golpes eram ensinados acada semana, e tínhamos que lutar entre nós para os por em prática. Duas duplasentão foram separadas. Lao com Lyu e eu com Ronin. Lutávamos pesadamente, mascom respeito e afinco. Eu e Ronin nos dávamos bem, e eu sentia que nele nascia umgrande amigo. Lao se dava bem com todos, mas Lyu não se preocupava em nãomachucá-lo nos treinos. Um dia, porém, ele bateu muito forte em Lao, quedesacordou. Ronin foi socorrê-lo, enquanto que Lyu se aproximou de mim e disse:"Aprenda logo, pequeno Ling. Quando lutarmos, não serei tão piedoso como comele". Eu respondo: "Eu também não". Ele vai embora, enquanto que Yoan chegapara ajudar Lao. A noite, no jantar, Yoan falou, pela primeira vez desde que eu o conhecia. 15
  16. 16. - Lao, você não está em condições de continuar com Lyu como parceiro. É triste,mas evidente que ele possui um conhecimento muito superior ao de vocês. Por issoeu espero que você, Ling, seja o novo parceiro de Lyu. Um grande e forte calor percorre todo o meu corpo. Eu sabia que era isso queLyu queria fazia tempos, mas deixar Sakazama para ele não seria justo, mesmosendo o Ronin melhor lutador que eu. Ele queria a mim, e também deixariaSakazama como Lao.- Eu aceito - digo eu. Os olhos de Sho Win saltam. Os demais fazem ar dedesaprovação e Lyu sorri. Yoan diz: "A partir de agora assim o é" e continuamos acomer. Um novo dia nasce. O treinamento é iniciado com um alongamento total, osdemais exercícios que fazíamos no início, só que em escala menor, e depois otreinamento marcial, ou O Caminho do Tigre, o qual nós percorríamos, segundoYoan, de forma lenta e progressiva. No fim da tarde, porém, o combate de treinoseria iniciado. Sak e Lao já lutavam em um pequeno tablado armado ao lado da casade Yoan. No outro lado da casa, isolado, Lyu me esperava para a luta. Ninguém nosobservava, a não ser Sho Win, que chorava escondida, mas assim mesmo pude vê-la.- O pequeno Ling veio! Quanta coragem!!! Pensei que havia fugido! - diz ele.- Não tenho motivo para fugir Lyu. É só um maldito treino - digo eu.- Não, você sabe que não é só um treino - disse ele.- Então o que é? - pergunto eu, tomando posição de combate.- Um teste. Vamos, me ataque - dizia ele completamente relaxado. Eu não tenho que pensar muito. Vôo para sua direção. Ele se move de formarápida, feroz como um verdadeiro dragão. Me acerta um forte chute invertido,levantando sua perna na altura em que eu estava. Eu caio espatifado no chão.- Você realmente não passa de um garoto, Ling. Eu TENHO que matá-lo.Compreenda, você não devia ter me provocado daquela maneira antes.O ódio crescia dentro de mim. Eu levanto.- O que? Ainda de pé? Você não deveria ter levantado, Ling, seria muito mais rápido- diz ele me atacando rapidamente. Em um lance de puro reflexo, eu desvio. Lyu nãoacredita. O ódio estava queimando forte em mim. Meus olhos estava a ponto deexplodir. A dor que havia em meu abdômen havia desaparecido. Eu estava possuídopelo ódio e pela raiva. Eu me tornara perigoso, mesmo estando apenas no início dotreinamento. Lyu investe mais uma vez. Agora, além de me desviar, eu lhe acertoum fortíssimo golpe de joelho em seu rosto, ao estilo do Muai Tai que Sak haviaaprendido e estava me mostrando no dia anterior. Lyu cai com o rosto sangrando,desacordado. Sho Win corre em nossa direção.- Seu monstro, você matou ele!!! - gritava ela, chorando.- O monstro aqui não sou eu, cadela. E o monstro ainda esta vivo - disse euapontando para Lyu. Eu ainda pude ver Yoan, que estava observando a luta o tempotodo. Ele sorri para mim, e some mais uma vez por entre a mata cercava o local. Laoe Ronin correm para ver o que estava acontecendo. Eles olham para Lyu caído aochão e eu posso ver suas dificuldades em segurarem risadas. 16
  17. 17. - Vamos levá-lo para dentro - diz Sakazama, carregando-o por um dos braçosenquanto que Lao o carrega pelo outro. Yoan entra com eles para prestar ajudamédica, conhecimento que ele praticava muito bem. Sho Win e eu ficamos a sós.- Você bateu nele. Como pode ? - pergunta ela.- Eu apenas fiz o que devia ser feito. Estou trilhando o Caminho do Tigre. É parte doaprendizado.- E eu, também fui parte do aprendizado? - pergunta ela.- Eu achava que não, mas agora, vendo bem, eu acho que você não passou dissomesmo, de uma lição. Ela se despe de seu vestido vermelho, ficando nua na minha frente. Ela setoca, se alisa, se acaricia.- Você me quer, Ling, eu sinto. Você sente saudades. Venha então, me possua. Ela é linda, uma estátua perfeita feita para o amor. Seu tom de pele,claríssimo, contrastava com a negritude de seus longos cabelos. Ela era perfeita,tentadora, surrealista. Eu sinto a chama do ódio se apagar dentro de meu coração. Ea do amor reascender das cinzas. Eu a toco.- Sim, sim meu amor... - diz ela, fechando os olhos. Mas rapidamente eu retiro amão de seu seio e lhe desfiro um forte tapa no rosto, tão forte que ela desaba nochão, chorando.- Por que, Ling? Por que? - diz ela, chorando e gemendo baixinho de dor.- Eu só estou lhe tratando como você deve ser tratada, maldita cadela. Eu saio do local e vou para dentro da casa, e a vejo ali, no tablado, caída aochão, nua, semi enrolada em seus panos vermelhos, chorando. Deus, o que eu haviafeito? Que cena mais bela e triste. No que eu estava me tornando? Eu nem sequerqueria bater nela. Deus, eu a amo mais do que tudo, mas não posso voltar para ela.E por que eu havia batido nela, por que? A noite, com tantas perguntas explodindo em minha cabeça, eu vou para meulugar. Lao pergunta se pode vir junto e eu digo que sim. Meditamos. A mesma noite, bela e limpa, que eu conhecia.Só a noite, a escuridão. Asrespostas vem aos poucos, a confusão se acaba como uma névoa indesejada. A pazretorna, mansa, ao meu espírito dolorido. Eu estava me tornando um homem, essaera a resposta. Não um simples homem, mas um Homem. Passos pesados atrás de nós denunciam alguém se aproximando. Uma vozcortante diz:- Lao, saia daqui - era Lyu quem estava ali. Lao se levanta e encara Lyu.- Não - diz ele.- Pode sair, Lao. Por favor. - digo eu. Ele olha mais uma vez para Lyu, de cima em baixo, e sai, devagar.- Qualquer coisa é só gritar, Ling - diz ele. Com o rosto inchado, Lyu se posiciona logo a minha frente. 17
  18. 18. - Foi um bom golpe, Ling. Bom mesmo. Ninguém havia me acertado desde meupróprio mestre, meu pai. Você merece meu respeito - diz ele, seriamente.- Eu quero lhe pedir desculpas se fui arrogante. Não que você seja melhor que eu,não,eu lhe dei apenas uma única brecha, e você a enxergou e se utilizou dela, comperfeição. Isso é muito para um aluno em início de treinamento. Eu escuto tudo em silêncio, com os olhos fechados e a cabeça baixa. Lyudesfere um forte e rápido soco em direção ao meu rosto. Sem abrir os olhos oumover a cabeça, eu seguro sua mão e bloqueio o golpe de forma surpreendente. Elese espanta.- Como você sabia que minha mão estava ai?- Medite sobre isso... e talvez encontre a resposta, um dia - digo eu, indo embora. Nos dias seguintes nossos combates ficaram mais amenos, mas como haviadito, ele era muito melhor que eu. Nenhum golpe o acertava, enquanto que ele meacertava quase todos. Porém, ele interrompia o combate várias vezes para meexplicar como certo golpe sairia melhor se desferido de certa fora, como pular e sedefender e, principalmente, ele estava me ensinando golpes que Yoan não ensinava,golpes de Nin JitSu e outras artes desconhecidas de nós. Ele estava me ensinando! E dia a dia eu chegava mais e mais perto dele. Sho Win não permanecia maiscom nenhum de nós. Sozinha, ela se entretinha a arrumar a casa e a fazer a comida.Nos jantares meus olhos cruzavam com os dela. Ela me olhava da mesma formainicial, com desejo. Ela ficava, depois do jantar, nos fundos, talvez para meditar, ouo que eu acho o mais provável, a minha espera. Eu nunca mais a havia visto comLyu. E nestas oportunidades ela sempre estava com ele. Mas eu ainda não podiaesquecer o que ela havia feito. Eu a amava, e a amo, mas o que ela fez eraimperdoável. Eu não ia lhe encontrar, e sim meditar, no meu lugar.Certo dia perguntei a Lyu se eles ainda estavam juntos.- Não, Ling, você ainda não percebeu? - disse ele.- Eu a usei. Usei para você me odiar, para lutar comigo da melhor forma possívelpara que eu pudesse testá-lo. Você passou no teste, e agora tem dois mestres,trilha dois caminhos distintos. Ela me odeia tanto quanto você me odiava, Ling - dizele bebendo um grande gole de água do cantil.- Usou? Como pode? - pergunto eu.- Eu não tenho escrúpulos, Ling. Fui banido do JitSu por ser considerado piedosodemais para com meus inimigos. Precisava fazer algo que surpreendesse a eles parapoder voltar, e ensinar ao melhor aluno de Yoan seria algo muito bom, mas eu nãosabia quem era o melhor. Me candidatei ao cargo de aluno e passei . Estou dentropara encontrar o melhor de todos, e encontrei. Agora, estou lhe ensinando aomesmo tempo que Yoan.Eu podia ver a mentira em seus olhos.- Não é por isso que você está aqui, Lyu. Eu sou um acidente. O que você querrealmente aqui?- Eu não devo lhe responder mais nada, pequeno Ling. Sho Win e eu não temos maisnada em comum, a não ser grande simpatia por você.- Então vocês nunca mais se encontraram?- Não, desde aquele dia em que eu o testei, nunca mais. 18
  19. 19. Um grande trovão corta o silêncio que estava sobre nós. O céu se fecha. Uma chuvainicia sua queda.- Vamos, não é uma chuva idiota que vai me impedir de te comer terra - diz Lyu,brincando.- Vamos ver quem vai comer terra aqui, Lyu - digo eu, me ponde em posição.Iniciamos uma luta, que se estende até a noite. **************************** Assim se passaram os próximos dois anos. Yoan ia ficando cada vez maisdebilitado fisicamente. Já não fazia os exercícios conosco, mas sim com Sho Win, nofinal da tarde, e de forma muito mais amena. Nós, ao contrário, íamos intensificandoos exercícios. Nós havíamos nos tornado verdadeiros homens, grandes lutadores. Eudespontava, pois estava tenho duplo ensinamento. Mas Ronin e Lao me davam boassurras em nossas lutas mistas. Estávamos no mesmo patamar, só que eu um poucomais adiantado. Lyu não era comparável a nós, e agora ele era amigo de todos. ShoWin ainda estava só, e mais bela e tentadora ainda. Ela continuava a me olhar e ame esperar atrás da casa todas as noites, sem que eu comparecesse. Um dia, porém, Yoan nos deu um dia de folga. Algo aconteceria no diaseguinte. Ele havia falado em vencermos os elementos, e até agora só havíamosenfrentado o Fogo. De qualquer forma, eu e Sho Win tivemos que ir de montaria atéa vila em que ela e Yoan pegavam alimentos todos os meses. Yoan, por estar sesentindo indisposto, ficara deitado em sua cama. Eu e Sho Win não trocamos umapalavra nos 25 quilômetros que separavam o pé da montanha da vila. O dia,ensolarado, estava especialmente quente. Eu tive que tirar a camisa. Sho admiroumeus novos músculos e minha estatura, agora maior. Eu já estava na mesma alturadela, se não maior. Ela me olhava com desejo. Eu não correspondia. Chegamos a vila, e um grande choque eu levei, afinal, faziam quase cincoanos que eu não via outras pessoas a não ser Yoan e o pessoal. Havia tanta gente etanta coisa nas ruas... Sho me cutuca e indica o lugar aonde deveríamos ir buscar osmantimentos. Eu estava hipnotizado por aquela multidão ensandecida, que gritava,ria, chorava, cantava, corria e comprava. Era lindo. Mas fomos então ao tal lugar.Um senhor de aparentemente 60 anos entrega a mim e a Sho Win sacolas com acomida. Prendemos elas nos cavalos, e nos preparamos para partir. Porém Sho Winvai por outro lado.- Venha, eu tenho que visitar uma amiga.- Sho Win... - digo eu agarrando o braço dela. Ela me olha, com uma mistura deternura e ódio.- Me solte. Eu tenho que visitar esta amiga. Vamos, não vai demorar muito, é aquiperto, venha! - diz ela, galopando em frente com o cavalo. Eu a sigo. Entramos por uma viela deserta. Depois, chegamos a uma pequena praça.Uma casa que ficava logo em frente é para onde rumamos. Sho Win bate palmas.- Mai Ni ! Main Ni ! - grita ela. Ninguém responde.- Vamos, não ha ninguém - digo eu, puxando ela.- Não, espere! - grita ela, pulando do cavalo e entrando na casa.- Sho Win! - grito eu, correndo atrás dela. Ao entrar na casa, um odor forte depodridão invade meus pulmões. Tenho que me esforçar para não vomitar. 19
  20. 20. - Sho Win? - falo eu, procurando-a pelos cômodos da velha casa. A encontro em umquarto, agarrada a uma velha camisa, chorando.- Sho Win... o que houve?- Ela se foi, Ling. Ela morreu.- Ela estava doente?- Sim, já estava velha e não podia mais se cuidar. Eu não podia ficar aqui, tinha queficar com o mestre. Mas sempre que vinha para a cidade eu a visitava, limpava acasa, lavava as roupas, fazia comida... mas agora... ela se foi - Deus, como euqueria abraçá-la!- Quem era ela, Sho?- Ela era minha mãe, Ling. Era minha mãe...- Por que você não abandonou o mestre para ficar com ela?- Eu... não podia! Ele sempre foi tão bom para mim! Quando meu pai morreu (é,Yoan não era seu pai) minha mãe não tinha como me sustentar. Yoan era amigo demeu pai, e se dispôs a me criar. Ele NUNCA, NUNCA levantou a mão para mim.Sempre foi um verdadeiro pai. Mas eu continuava a ver minha mãe. E agora elamorreu, ela morreu...- Venha Sho Win. Vamos embora - digo eu, a pegando delicadamente pelo braço. Chegamos até o lado de fora. Nossos cavalos estavam cercados por 6 jovensda cidade. Jovens que cometeriam seu maior erro. Eles nos vêem sair.- Se estão procurando a velha podem esquecer, Ela morreu fazem 2 semanas - dizum. - Sho Win sai da casa. Eles a vêem.- Uuuuuuuuh, o que temos aqui! O camponês tem uma namorada, e que namorada!- Vem pra cá, mulher! - diz um deles, a agarrando e a puxando para o meio deles,onde eles lhe deslizam as mãos ruins pelo vestido bege. Eu dou um passo a frente.- Hei! Hei! Hei! Temos um herói aqui. Não é mesmo, camponês? - diz ele me dandoum tapa no peito. Eu me contenho. Eles começaram a despir Sho Win.- Parem agora e deixe-nos passar. Não queremos problemas.- Você quer que paremos? Pois bem, faças-nos parar! - grita o que estava meencarando.- Não posso bater em vocês sem antes TENTAREM me bater - digo eu pacificamente.- Então tome isso, montanhês! - diz ele desferindo um golpe rápido para os da sualaia, mas horrivelmente lento para uma pessoa que já percorreu boa parte doCaminho do Tigre. Eu o bloqueio de forma simples, e logo após eu quebro o seubraço na altura do cotovelo, invertendo a junta. Ele cai no chão, gemendo e gritandode dor. Os outros vem tentar me combater e deixam Sho Win livre dos abusos. Elase veste, cobrindo seu belo corpo. Os demais já estão em cima de mim. Devo admitir que foi não só fácil como também divertido derrubar cada umdeles com um único e diferente golpe. Quebrar um osso diferente em cada um delese ouvir seus estalos me deixou de certa forma contente. Eles se recuperariam, masnunca mais iriam importunar desconhecidos. Tudo não levou mais do que 2 minutos.Eu pego Sho Win, que estava caída no chão, ainda chorando, e a ponho em seucavalo. Eu monto no meu e então saímos da cidade. Os demais habitantes da vilame olham com respeito. Iniciamos o longo caminho da volta. Um caminho tãodeserto quanto bonito. Era primavera, e uma infinidade de flores do campo forrava,juntamente com a grama verde recém nascida, todo o solo do local. No meio docaminho, Sho Win pede para parar. Quer descansar. Paramos então. Ela desce docavalo e caminha pelas flores. Eu observo. Também desço de minha montaria paraandar um pouco. 20
  21. 21. - Você está bem? - pergunto eu. Ela responde com um movimento de cabeça,fazendo sinal de positivo. O maldito calor, mais uma vez. Uma onda quente e abafada que me força aficar com o mínimo de roupa. Tiro a camisa mais uma vez. Ela se ascende. Tira ovestido que a cobria,e fica, mais uma vez , completamente nua. Eu a observo. Elame olha, sedenta. Se deita sob seu vestido, e me convida.- Me possua, Ling. Me possua agora e eu juro pela alma de minha mãe que eu nuncamais serei de ninguém enquanto eu viver. Me possua - diz ela. Eu o faço. Ela estava mais ardente do que nunca. Seria mais uma mentira, ouenfim ela estaria falando a verdade? Eu deixo estas perguntas para a noite. Meconcentro nela. Nós, entre as flores e a grama, com um sol extremamente forte,fazemos amor por uma hora. Uma hora inteira. Eu a amo, e descobria agora que elatambém me amava. Abraçados, nus, deitados na grama, ficamos a observar o céu.- Eu não me deitei com nenhum homem mais desde...- Eu sei. Esqueça, Sho, pois eu já esqueci.- Eu te amo, Ling. Me perdoe!- Eu também te amo, cadela - nós rimos. Nos amamos mais uma vez. Nos vestimose rumamos para o monte Shizu. ***************************** A noite, como era de costume, silêncio total. Lyu nos olhava, ameno. Deu-nosum sorriso, que Sho Win devolve com uma cara fechada. Depois, atrás da casa,lugar que ela me esperava toda noite durante dois anos, nós nos encontramos.Ficamos ali por algum tempo, quando percebi que era hora de entrar e dormir. A madrugada, mais uma vez, era a hora do teste. Desta vez foi o Ronin queveio me despertar. Saímos e nos reunimos, mais uma vez, na frente de Yoan.- Vocês já iniciaram o Caminho do Tigre a algum tempo, e o vem trilhando comgrande perfeição. Para poderem ter o direito de percorrer tal caminho, vocês tiveramque desafiar e vencer um dos quatro elementos, cujo total domínio é a chave parauma melhor compreensão do Caminho. Vocês já desafiaram o fogo, está na hora dedesafiarem e ganharem da terra!- Diga o que tem que ser feito, mestre.- Pois bem, sigam-me - diz ele, se encaminhando para o local onde eu outrorasocava rochas. Lá havia uma grande fogueira, para iluminar o ambiente, e grandespedras de mármore, uma das mais duras rochas que existiam por lá.- Pois bem, escolham uma e quebrem-na.- O que?! Mestre, isso é impossível! Com martelos e estacas demoram horas, com asmãos nuas seria loucura, não importa o quão forte seja o golpe! - Tenho certeza queYoan não batera em Lao por que este estava longe. Yoan apenas falou:- Garotos insolentes, eu pensava que vocês haviam aprendido tanto! Mas vejo quenada aprenderam ainda. Vocês não são mais homens comuns, são guerreiros! Suasmãos podem destruir tudo o que tocam, se souberem como, e principalmente, sequiserem!!! Olhem para mim! Vocês acham que é impossível quebrar uma pedradestas com as mãos? Pois vejam! - diz ele, tirando a camisa. Sho Win lhe diz:- Não mestre, o senhor não esta bem... 21
  22. 22. - Eu estou ótimo, Sho Win. Só estou cansado, mas ainda posso ensinar algo a estesgarotos sobre o que se pode fazer com a força de vontade. Afastem-se! - grita ele,se aproximando da maior pedra que havia.- Ele pode se machucar se...- Shhhhhh! - cochicham Lao e Lyu. Yoan fecha os olhos, e se concentra, não pormuito tempo. Desfere um golpe seco contra a pedra, que permanece parada,tremendo.- HAAAAAAAAAAAIIIII!!!! - grita ele ao desferir o golpe.- Veja a pedra não quebrou! - fala baixinho Lao. Mas, logo depois, a pedra se parteem duas. Um metade para cada lado. A mão de Yoan perfeitamente saudável éobservada por todos nós.- Podem olhar. Não está ferida. Lembrem-se da Garra de Gato que eu lhes ensinei atempos trás. Não posso mais ajudá-los. Quebrem a pedra ou deixem o Caminho doTigre agora! Sim, a Garra de Gato. Um golpe impressionante. Um golpe forte com a parteinterna da mão seguido de uma contenção do mesmo logo que em contato com asuperfície que é tocada. Difícil, mas relativamente simples, tanto que fora um dosprimeiros golpes que aprendemos.- Mestre, quebrar madeira e pedra é uma coisa, mas quebrar Mármore é muitodiferente!- Não há diferença, Lao. Apenas quebrem-na. Todos nós ficamos pasmos. Não sabíamos quebrar pedras como ele nosmandava fazer agora. Mas Lyu não estava preocupado. Ele toma a frente e fala aomestre:- Eu quebrarei a rocha - fala com tal convicção que todos acreditam que elerealmente vá conseguir. Se põe a frente da rocha escolhida, uma bem grande. Realiza pequenosmovimentos em um kati para se aquecer ou se concentrar, diferentes dos que Yoanfez quando estava se concentrando, e desferiu um golpe completamente diferente,sem expelir um só grito. A rocha se partiu não em duas, mas em várias partes, comose não fosse realmente de mármore, mas sim de calcário. Ele caminha para Yoan elhe fala:- Ainda estou caminhando, Yoan - Ele , por sua vez , nada fala . Lao é o próximo. Escolhe uma pedra média. Para em frente a ela. Seconcentra. A Garra de Gato era um golpe soberbo. Podia matar um homemfacilmente, porém, quebrar uma rocha tão dura era algo que nunca havia passadosob sua mente. Ele desfere o golpe.- ZAAAAAAAAIIIIIIIY!!! - Nada ocorre com a rocha. Continua intacta.- Eu... , eu, falhei! - diz ele, pasmo.- Não, fracasso só em sua mente. Assim como a vitória. Levante, e desfira umverdadeiro golpe nesta rocha - diz Yoan. Lao nem sequer fala. Se levanta, fecha os olhos e dá o mais forte golpe decanela que podia dar. A pedra de esfacela, assim como sua perna. Seu osso ficavisível, e o sangue brota de forma nauseante. Ele desmaia. 22
  23. 23. - Sho Win, me ajude, rápido! Temos que levá-lo para dentro! - grita Yoan,carregando Lao para a casa. Só restam eu, Ronin e Lyu, ao redor da fogueira,esperando o mestre voltar.- Como você fez aquilo? - pergunto eu a Lyu.- Técnica secreta JitSu.- Você admite que faz parte do clã JitSu? O que faz aqui então, Lyu? - perguntaRonin.- Não me permito falar com o filho de um desonrado.- Meu pai tem mais honra em um punho do que você tem em toda sua vida!- Do que vocês estão falando? - pergunto eu sem compreender nada.- Não é nada, Ling - diz Lyu, se acalmando - Você quer saber como eu fiz aquilo?Você já sabe como fazer isso, Ling!- Como?- Pergunte a você.- Não tenho tempo para isso. Como eu faço?- Use sua raiva, Ling. TODA sua raiva! Foi assim que venceu o fogo, e foi assim queme derrotou. E será assim que derrotará a terra. RAIVA!- Não posso. Tenho que purificar minha alma de todos os sentimentos para alcançara perfeição!- Este é um dos caminhos. Mas é o mais difícil. Limpar-se por completo de emoçõesé algo impossível, pelo menos para alguém que ainda trilha o Caminho. EU mesmoainda não sou capaz disso, portanto me utilizo da raiva e do ódio para alcançar talperfeição.- Yoan consegue se despir de suas emoções por completo - diz Sakazama.- Sim, mas Yoan já esta com 100 anos de idade. Sabe o quanto este homem treinouem sua vida? - responde Lyu.- Mas, se eu continuar a me utilizar da raiva e do ódio para ser bom, eu nunca maispoderei me limpar. Entenda, eu não serei mais capaz de me desprender dasemoções e ser puro. Não terei a perfeição completa, nunca, e estarei preso ao ódio ea raiva para sempre.- Você não tem escolha, Ling. Ainda não está preparado para se purificar de talmaneira, é impossível para você ainda. Use o ódio para compensar - Eu não sei oque dizer. Yoan volta da casa com uma expressão séria.- Lao derrotou a terra. Mas a terra o feriu gravemente. Ele não poderá estar entrenos pelos próximos meses - Ninguém esperava isso. Lao, parado por meses? Issoseria fatal.- Ele não poderá fazer nenhum esf...- Não, houve uma fratura muito séria no osso da perna. Deverá ficar imobilizadacompletamente. Nada de exercícios por três meses.- Mas mestre, se ele ficar parado por três meses ele perderá toda a forma física!- Sim, mas não ha outro meio. Mesmo assim, tentaremos fazer algo para amenizar aperda.- Mestre, eu estou pronto para enfrentar a terra - disse o Ronin se encaminhandopara uma das pedras. Ele se concentra. Era uma rocha verdadeiramente temperada. Como Ferro.Ele desfere a Garra de Gato de forma perfeita, sem emanar qualquer ruído, a não sero da rocha se quebrando. Ele vencera a terra também.- Ling, vença a terra também, não acredite nas palavras de Lyu, purifique seucoração, use o que Yoan nos ensina. Não se torne um assassino como ele - disseSakazama ao ir embora. 23
  24. 24. - Vamos, Ling. Quebre a pedra - disse Yoan. Todos me olhavam com atenção. ShoWin sai da casa para me ver também, preocupada. Mas todos haviam se esquecidode uma coisa muito importante: meu desafio pessoal era socar rochas todos os dias.Minhas mãos calejadas e fortes estavam preparadas para tal missão. Só que quebrarmármore era muito difícil. Eu me afundo em minha alma, e retiro de lá toda a raiva eódio que dispunha. Desfiro não uma Garra de Gato e nem uma canelada, mas simum direto e forte soco, com todos os sentimentos que haviam em meu coraçãoampliados. Amor, ódio, paz, tristeza, felicidade. A pedra se esfacela, assim como ade Lyu.- Você venceu a terra. O caminho pode ser seguido adiante agora - diz Yoan. Lyu meobserva com um sorriso. Ronin também. Havia descoberto algo para mover meusimpulsos que não era de todo má e nem de todo bom, mas sim algo ideal para metornar um grande guerreiro. Havia encontrado meu Espírito de Luta. Entramos paratomar comer, mesmo por que o sol já estava nascendo. ********************** Ouve uma pequena comemoração entre nós. Afinal, já havíamos enfrentado,com perfeição, 2 dos quatro elementos. Tínhamos aproximadamente mais dois anospara nos prepararmos para o próximo. O que nos preocupava era o fato de que Laoestava com a perna muito machucada. Mas ele mesmo estava otimista.- Não se preocupem, eu ainda tenho a canelada mais forte daqui - brincou ele. Haviam se passado 5 anos. Estávamos no meio do caminho. E não havia maisvolta. Não éramos mais homens comuns, tão pouco os seres mortais que Yoan nosprometeu transformar. Éramos excelentes lutadores apenas. Lyu era mais que isso,claro. Possuía o conhecimento de um verdadeiro mestre, mas era visivelmentediferente. Aparentava ser de procedência ruim. Se era, nos enganava muito bem. Iniciamos o treinamento, com a forte ausência de Lao. Ele era o maisdescontraído, brincava conosco e tornava as coisas mais leves. Agora o treinamentoera menos prazeroso para nós. Lyu realizava todos os exercícios de forma incrível.Ele já sabia de tudo o que estávamos aprendendo, por que continuava conosco? Porque continuava aqui? Lao observava sentado em um pequeno banco. A perna toda enfaixada, comtalas lhe impedindo o movimento, e um apoio de madeira para poder caminhar pelasmanhãs, ao lado de Sho Win. Não, eu não tinha ciúmes. Agora eu sabia que ela meamava verdadeiramente. Lao a tratava como uma irmã mais velha, implicando ebrincando com ela de forma divertida e impertinente, como só ele sabia fazer. Quesaudades de casa! Meus irmãos implicavam comigo do mesmo modo, e como eusinto falta! Minha mãe a me chamar para comer, meu pai sentado olhando para ochão com um ar tão... triste! E a algazarra de nós sete, um bolo de gente seamontoando para comer a rala comida que havia. Eu era o menor, por isso, o últimoa comer. Quase não me restava nada, mas minha mãe era capaz de tirar da comidadela para me matar a fome. Minha mãe... espero que ela esteja bem, que todosestejam. Mal vejo a hora de voltar, mas, e Sho Win? O que eu farei com ela? Elaviria comigo? - neste momento sou atingido por um forte golpe no rosto, que me fazcair. 24
  25. 25. - Ling, divagando novamente no meio de um combate? Volte já para o tablado e luteverdadeiramente! Até Sho Win teria visto este golpe! - grita Yoan. Lyu, que estavalutando comigo, dava gargalhadas.- Garoto, nunca mais se desconcentre em uma luta como agora. Pode ser a razão desua morte - diz ele, seriamente. Eu compreendo. Voltamos a lutar. Sakazama, o Ronin, treinava os movimentos que acabávamos de aprenderem um boneco de madeira. Sua velocidade era absurdamente rápida.Interrompemos a luta para observar. Yoan voltou seus olhos para ele também. O céuestava nublado. O suor escorria de minha testa. Ainda estávamos no meio do dia.Partimos para o pequeno rio, onde realizávamos outros exercícios físicos. Laoobservava, impaciente. Dia a dia sua musculatura ia perdendo a rigidez. Nós também estávamosaprendendo mais do que ele, que estava parado. Ele voltaria, mas era provável quenunca nos alcançasse. Isto era preocupante. Dois meses se passaram. Estava sentado em minha pedra, em uma noite deinverno, quando Sho Win veio até mim. A neve caia macia e continuamente. Erauma bela noite.- O que é, Sho Win?- Estou me sentindo estranha, Ling.- Como estranha?- Eu não sei, estranha. Eu não sangro a 3 meses. Isso nunca aconteceu. E vejaisso... - diz ela levantando a saia até a altura dos seios. Eu a toco.- Não, não, Ling... agora não, eu me sinto estranha... não... olhe, olhe para minhabarriga - diz ela, afastando minha mão de seu corpo. Eu olho.- Esta maior.- Sabe o que é?- Sim. Você tem que parar de comer tanto! - digo eu lhe tocando novamente.- Não, Ling... não... sim... venha Ling, sim! Nos amamos, mais uma vez, sob a neve. Logo depois, conversando com ela,constatei que poderia ser alguma coisa mais séria.- Não tenho comido e nem nunca comi muito, você sabe. Estou com medo, não éobesidade.- O que pode ser então?- Eu não sei, mas acho que Yoan pode saber.- Acha melhor lhe procurar?- Sim Ling. Estou com medo.- Então vamos juntos. Algo me diz que tenho que ir com você. Entramos na casa. Batemos na porta do quarto de Yoan, que nos recebe. Nãofica espantado ao nos ver juntos.- Estava esperando o dia em que vocês viessem até a mim - diz ele.- Sim, mestre - digo eu - Sho Win esta preocupada. Acha que algo de errado estáacontecendo com ela.- Eu não sei... deixe-me ver. O que sente, minha pequena criança?- Minha barriga, mestre. Esta maior, e ainda aumenta. Sinto algo latejando dentrodela, mesmo depois que como - ela levanta o vestido, assim como havia feito 25
  26. 26. comigo. Yoan não demonstra qualquer espanto ou excitação. Aparentava ser normalver uma mulher nua. Ele apalpa a barriga, ouve, olha.- Era o que eu temia - diz Yoan.- O que foi mestre? É grave? - pergunto aflito.- Não, apenas infeliz. Vocês vão ter um filho. Ficamos paralisados. Um filho? Um filho com Sho Win? Antes de completar oCaminho do Tigre? Isso era realmente infeliz.- Durante o Caminho do Tigre você tomou o que julgava ser uma bifurcação, quedaria para um caminho mais belo e que chegaria ao mesmo destino que o antigo.Mas este caminho, apesar de belo, é cheio de obstáculos e perigos que o outro, feioe duro, não possuía. É o preço a se pagar pelo prazer. Espero que tenham aprendido- diz Yoan.- Sim mestre - dizemos juntamente.- Mas não vejam esta criança como algo a odiarem. Ele é fruto de seu amor, e esteamor é o que vocês vão ter que expressar para ele. Ele pode ser uma dádivadisfarçada de desgraça. Aprendam a amá-lo, caso contrário estarão cometendo umerro maior que o que cometeram.- Sim mestre. Obrigado - dizemos e saímos.- Esperem, ainda falta algo - diz Yoan.- O que, mestre?- Agora vocês devem oficializar sua união. Amanha eu farei a cerimônia. Sepreparem.- Certo, mestre - dizemos. Um casamento? Um filho? Sim, agora estava completo. Diante de umasituação tão extrema nenhuma dúvida veio à minha mente. Eu estava decidido, eSho Win também. Fomos dormir, pela primeira vez, juntos enquanto todos estavampróximos. ********************* A cerimônia não teve nada em especial, a não ser o brilho nos olhos de ShoWin. Agora tínhamos um quarto só nosso, privacidade e paz. Sai do alojamento quehavia se transformado meu antigo quarto, agora acomodando três jovens, e entravaem um novo e acolhedor ambiente. Estava casado, e seria pai. Mas eu não podiapara de andar. O Caminho estava incompleto. Havia muito o que aprender ainda. Mas nesta semana, nada de lutas. Nada de treinamentos rigorosos. Nadapara lembrar que sou um aprendiz. Que estou me tornando algo diferente do que amaioria é. Esta semana eu só teria contato com as coisas mais belas que eu podiaimaginar. Tínhamos o direito de passar esta semana inteira a sós, na cabana dospicos do grande Shizu. Não é necessário dizer o que nos ocupava a maior parte dotempo. Mas também desfrutamos de outras coisas, coisas que antes não nosdávamos ao luxo. Nadar nas águas quentes do lago próximo, ficarmos abraçados emfrente ao fogo, quente e brilhante, enquanto a neve caia, lentamente e macia.Dormir até a hora do almoço... eram coisas relativamente simples, mas que agoraadquiriam um aspecto magnífico, tal qual era o prazer de vivê-las. Estávamosvivendo. Me passou pela cabeça sumir dali com ela, mas algo, aquele algo novo quedescobri em mim, me impediu de avançar no pensamento. Meu espírito de luta medizia para nunca fugir de uma briga. E era isso que eu estava fazendo. Ficando elutando. 26
  27. 27. Contei a Sho Win, que sorriu, para logo depois me beijar. Ficamos ali,parados, observando a dança sinistra que as chamas da fogueira realizavam. Percebique não possuía mais predileção pela claridade ou pela escuridão. Eu não estavamais só. Ao contrário, agora queria ser visível, pois estava feliz. A semana passavarápida. Os dias eram comidos pela noite, que logo depois sucumbiam à força de umnovo sol. Passados 6 dias, voltamos para a casa central. Yoan nos recebera como um pai que recebe seus filhos depois de longa data.Os demais nos cumprimentam, felizes. Parecia que tudo estava realmente bem. Laojá estava podendo caminhar e iniciava seus exercícios físicos. A perna haviacicatrizado, mas ele dizia que ainda doía um pouco, mas não o suficiente paraimpedi-lo de nos dar algumas pancadas. Rimos. Ele voltava aos poucos,progressivamente, assim como a barriga de Sho Win crescia. Passaram-se 5 meses.Lao estava praticamente recuperado, em termos físicos. Era surpreendente ver comoele fazia mais exercícios que o pedido. Ficava até a noite no bosque. Corria, saltava,batia. Tudo igual ao treinamento inicial, mas só que com, no mínimo, o dobro deintensidade. Voltava para casa e dormia profundamente. O dia nascia, e ele iniciavatudo novamente. Nós o aguardávamos, treinando e avançando em técnica. Podíamoslhe passar o que havíamos aprendido em, talvez, 2 meses. Isso o deixariaequiparado a nós em pouco tempo. Era fantástico. Outra pessoa provavelmente seacabaria com aquela perna, mas ele estava recuperado por completo. Voltou aos combates em pouco tempo. Ele apanhava mais, é claro, afinalhavíamos aprendido golpes que ele não conhecia, mas logo que os levava, ele osassimilava.- Ainda tenho a outra canela pra te bater! - gritava ele, e nos vencia com seu fortegolpe. Ele havia voltado. Sho Win parara com os afazeres domésticos a mando de Yoan, no que elechamava de período crítico, ou 9º mês. A barriga dela parecia que ia explodir!Estávamos proibidos de fazer sexo a mais de dois meses. Obedecíamos Yoanseveramente. Ela vivia a se queixar de enjôos e dores nas costas. Mas continuavaalegre. Passeávamos durante o crepúsculo, sob o novo sol de primavera. Já haviamse passado quase que seis anos. Ela estava mais bonita do que no dia em que a vipela primeira vez. Ela contava agora 24 anos, eu estava com meus 18. Um certo dia paramos próximos a um bambuzal. Os bambus ainda estavamverdes e grandes. Eram numerosos, e belos. Sho Win os observava enquanto falava.- Eu tenho medo, Ling.- Medo de que?- Não me sinto bem...- Claro que não, olhe para sua barriga! - Nós rimos.- Não é só isso. Estou sendo um estorvo em sua vida.- Como ousa falar isso? Como ousa?!- Você não está trilhando o Caminho da forma que Yoan esperava.- Claro que não, com você eu o estou trilhando melhor.- Obrigada, Ling. Eu sei disso - fala ela. Eu não compreendo, mas não a questiono.- O que você sente? - pergunto eu. 27
  28. 28. - Eu não sei, é estranho. Sinto medo e ao mesmo tempo alívio. É como...como lutar,eu acho. A luta é iniciada, e você tem medo de perder, mas quando termina a luta evocê ganha, você se sente aliviado.- Sim, eu compreendo - digo a ela, sem realmente entender o que ela queria dizercom todas aquelas palavras. Voltamos para a casa. A neve residual que o invernohavia deixado ao início da primavera se iniciava. Entramos. Os dias seguintes foram recheados de neve. Parecia que o Inverno haviavoltado com toda sua fúria de encontro ao local. Treinávamos sob a nevasca semconstrangimento. Ela nos testava, nos forçava. Era só mais um inimigo dentretantos. Mas foi ai então que o grito de Sho Win nos fez parar. Corremos para dentro.Yoan a acudia.- Tragam-me baldes de água e uma faca, rápido. Panos limpos fervidos em águatambém!- Sim! - dizemos a ele. Mas Yoan me repreende.- Espere Ling. Você deve ficar comigo - Sho Win gritava de dor.- Não será fácil, Ling, eu preciso de sua ajuda.- Mas o que eu posso fazer!!! - grito eu sem compreender por que Sho Win sentiatanta dor, e ao mesmo tempo indignado pelo fato de que nada podíamos fazer paraajudá-la.- Fique com ela, Ling - ela agarra minha mão com mais força que qualquer outrohomem jamais seria capaz de ter. Ela grita mais uma vez.- Calma Sho Win, eu estou aqui... - sussurro em seu ouvido. Ela soa em bicas. Entreseus dentes havia algo para não lhe permitir esmigalhar os dentes sob a pressão desua mandíbula, que se comprimia a cada novo espasmo de dor. Os demais chegamcom os materiais requisitados pelo mestre.- Agora saiam.- Mas mestre...- SAIAM AGORA! - grita ele. Eles saem, menos Lyu. Ele observa.- Saia, Lyu - diz Yoan.- Eu ficarei pois tenho conhecimento médico, assim como você, Yoan - Eles secalam. Sho grita mais uma vez. Lyu se aproxima - Gostaria de ajudar, se vocêpermitir - diz ele a mim. Eu lhe permito.- Apenas ajude ela. Pare com a dor e traga meu filho - digo eu. Ele coloca a mão sobre a barriga de Sho Win e a aperta. Ela grita de dor. Euagarro a mão dele com força. Ele se desprende, e me olha sério.- Não interfira, Ling! Isso tem que ser feito! - eu me afasto, chorando. Fazia muitotempo que eu não chorava, e mais ainda chorar na frente de outros. A questão era que eu amava aquela mulher, e agora ela estava sofrendo. Oque eu podia fazer? Nada. Absolutamente nada. Apenas observar.- Aqui, veja - diz Lyu para Yoan, que aperta a mesma área da barriga de Sho Winque ele havia indicado. Ela gritava de dor.- Sim, eu compreendo - diz Yoan.- O que foi?! - pergunto eu, aflito.- A criança está sentada dentro da barriga de sua esposa. Ele não vai sair destamaneira. Temo que seja o fim.- Como assim o fim? Ajudem Sho Win agora!!! Ajudem!!! - grito eu não querendocompreender o que eles estavam querendo dizer. Eles continuam calados. 28
  29. 29. - Há uma maneira, não usual, que aprendi a pouco tempo atrás... - diz Lyu.- O que é? - pergunto eu.- Consiste em espetá-la com várias farpas de bambu em pontos energéticos docorpo. Podemos harmonizar desde respiração e batimentos cardíacos até amenizar ador.- Isso resolveria? Salvaria a vida dela?- Não, mas poderia nos permitir...- O que?- Abrir ela. Seria a única maneira de fazer com que a criança nasça.- Abrir?- Sim - diz Yoan - Se bloquearmos os plexos nervosos da região, poderíamos abri-la,bloqueando para um nível mínimo o sangramento na região. Mas é arriscado. Temque ser feita de maneira precisa.- Vocês podem fazer? - Sho Win grita mais uma vez, ao fundo.- Não temos outra maneira. Deste jeito, ela e a criança morrerão. Se abrirmos, elapoderá ter uma chance, e a criança nascerá, com certeza.- Façam! Agora! - grita Sho Win.- Sho Win... - digo eu, me aproximando.- Ling, eu lhe amo! Eles tem que fazer isso , por favor ... façam!!! Não deixem o meubebê morrer!!! - fala ela, chorando. Eu permito. Eles se preparam. Lyu vai até o bambuzal e retira um grandepedaço de bambu seco. Yoan retira uma garrafa de sakê de seu armário. Uma facaafiada reflete a luz das velas em meus olhos. Várias farpas são colocadas por Lyu.Sho Win aparentemente sofre o efeito, parando com os gritos e se acalmando.Lágrimas rolam por nossos rostos. Mais farpas são colocadas na região abdominaldela.- Isto é o máximo que posso fazer, Yoan - O velho dá de beber a Sho Win.- Agora teremos que cortá-la. Já passou do tempo do nascimento. Temos que serrápidos.- Ling, pegue neve lá fora, encha um balde. Traga-o para nós - diz Lyu. Eu obedeço.Quando estou na metade do balde, ouso um grande choro de criança. Entrorapidamente na casa. Sho Win estava completamente desacordada, com um grandecorte em sua barriga. O cheiro de sangue era forte, e Yoan segurava meu filho, umamenina. Lyu, por sua vez, segurava a barriga de Sho Win, tentando impedir aabertura do rasgo.- Não consigo conter o sangramento!!! - gritava ele. Eu derrubo o balde, emcompleto estado de choque. Olhava para a criança e depois para Sho Win. Com umagrande agulha de costura e uma linha, ambos fervidos em água, Lyu literalmentecostura a barriga de Sho Win após conter o sangramento. Ela permaneciadesacordada.- Não nutra esperanças, Ling. Infelizmente, será muito difícil que ela sobreviva - dizYoan, segurando a menina que agora parava de gritar. Eu a olhava com ódio.- Não! - diz Yoan me batendo no rosto - Não ouse odiar esta criança. Se quer odiar aalguém odeia a si mesmo! A culpa disto tudo é sua, e dela! - diz ele apontando paraSho Win, desacordada - Vocês o fizeram com tal intenção?! Não! Mas mesmo assimsente a necessidade de culpar alguém por isso! Pois culpe a mim, a Lyu, a você e aSho Win, menos a esta criança. Entendeu? Suas palavras ardem, pois são a verdade. Eu aceito, e tomo a criança emmeus braços. Era linda, como a mãe. Me apaixono por ela instantaneamente. MasSho Win ainda necessitava de mim. Deixo minha filha aos cuidados de Yoan, e vou 29
  30. 30. ficar ao lado de minha esposa. Seguro sua mão, fria. Uma lágrima escorre de seusolhos. Ali eu passo a noite. *********************** No dia seguinte a neve continua forte. A criança também. Mas Sho Win nãoacordara. Os treinamentos estavam suspensos, não tanto por nós, mas sim porcausa da grande nevasca que caía. Eu chorava o mais que podia, mas de nadaadiantava. Eu lhe pedia para acordar, se levantar, mas ela nada respondia. Ficava aliparada, imóvel. Algumas horas depois, ela parava de respirar.- SHO WIN !!!!! - gritava eu, enquanto que Lyu soprava ar para dentro dela emassageava seu peito de forma estranha. Yoan me continha. Ali ficou por cerca de 3minutos. Por fim, ele sai de cima dela, e pela primeira vez em minha vida eu vejomeus dois mestres chorarem. Yoan, meu guia no Caminho do Tigre, e Lyu, meumestre no que ele havia intitulado, a pouco tempo, de Caminho do Dragão, umabrincadeira com o verdadeiro caminho seguido. Sho Win, de olhos abertos, estavaestática. Ambos me olham seriamente, e deixam a sala. Ela havia morrido. Eu sabia disso , mas relutava em compreender. Lhe tomei a mão inerte,agora mais fria do que antes. Sua boca entre aberta, os olhos estáticos e sem brilho.- SHO WIIIIIIIIIIIN!!! SHO WIIIIIIIIIN!!! - gritava eu, chorando, e por fim abraçandoo corpo morto de minha esposa. Ela me deixara enfim. Me arrasto para fora, e mesmo no meio de toda aquelaneve eu vou até o lugar em que nos amamos pela primeira vez, meu local demeditação. Choro e grito mais. Fico ali até perder a noção de tempo. Caio, exausto,no chão. Ronin me encontra semi enterrado na neve, e me leva de volta para a casade Yoan. Eu não fui capaz de exprimir uma só palavra durante os próximos 7 dias.Não saia de meu quarto, não ria, não comia junto aos outros. Só ficava em meuquarto, eu e minha filha. Eu a chamo de Mai Win. Aparenta ser um nome otimista. Eu cuido dela em completo silêncio. Vez ou outra Yoan aparecia e meensinava algo para ajudar, como limpá-la, dar comida, estas coisas. Ao fim dos 7 dias a neve, enfim, cedera. Podíamos realizar o enterro.Sepultamos Sho Win próximo à árvore em meu local de meditação. Eu poderia vê-latodos os dias. Yoan diz algumas palavras e então entoa algumas preces budistas para ela.Eu choro, com Mai em meus braços. Ela, ao contrário de mim, sorria. Confesso quenunca a vi chorar sem ter sido em seu dia de nascimento. Todos vão embora,somente eu e Mai permanecemos. As nuvens esburacadas permitiam vez ou outra apassagem de raios de sol por entre suas fendas. Um grande raio de sol iluminavaexatamente o local de sepultamento em que estávamos.- Sho Win, meu amor... não me deixe só... não agora - digo eu, baixinho - Não mecontenho e derramo mais lágrimas. Momentaneamente eu fico sério.- Eu juro, sobre seu túmulo, que eu não deixarei de acreditar nas coisas em queacreditava antes, em coisas que descobri junto com você. Eu ainda serei o maiorlutador que poderá existir em todos os tempos. Eu juro - Paro as lágrimas, olho paraMai e me viro. 30
  31. 31. - Adeus meu amor, me aguarde, um dia nos reencontraremos. Saio do lugar e vou para a casa de Yoan. ***************************** Adquiro um ar amargurado, mas no entanto maduro e seguro, como um bomlutador tinha que ser.Yoan arrumara uma nova ajudante para a casa. Li Wong Pu eranova, com seus 14 anos. Bonita, tímida e carinhosa, cuidava de minha filhaperfeitamente, desde o primeiro dia. Fazia comida, lavava roupas e tudo o mais. Eratão boa quanto Sho Win, só que não era ela. O treinamento voltou normalmente logo após o dia do enterro. Não fuipoupado, o que achei muito certo e justo. Yoan me admirava. Estava satisfeitocomigo, pois não havia fraquejado como ele provavelmente havia pensado que eufaria. Ao contrário, fui um forte. Me empenhava agora totalmente no treinamento, deforma exagerada. Estava treinando até durante a noite. Logo os resultados estavamaparecendo. Estava muito acima em termos técnicos de Lao e de Ronin. Já estavame equiparando a Lyu. Começava a ganhar lutas dele. Estava ficando melhor a cadadia. Mai iniciava a falar. Era a mascote da turma. Todos a adoravam. Ela falavaenrolado, de forma engraçada, e eu adorava. Brincava muito, e Li Wong era comouma verdadeira mãe para ela. Passaram-se ai 18 meses desde a morte de Sho Win.Já não me doía muito o fato. Ronin e Li se encontravam escondidos, assim como eue minha esposa fazíamos. Eu fico feliz, mesmo sabendo que o final poderia ser tãoou mais trágico que o da minha própria história. Estou maduro, visivelmenteexperiente. Minha fala e maneira é a mesma de um homem com o triplo de minhaidade. Eu era um guerreiro. Um dia, depois do treinamento, Ronin se aproximou de mim. Estavameditando, assim como fazia no início, todos os dias.- O que ha, Sakazama?- Eu queria conversar, mas não sei sobre o que...- Fale, apenas fale.- Eu e Li Wong...- Sim, eu já sei.- Como?- Esqueceu-se que comigo ocorreu o mesmo? Meus olhos vêem coisas que os demaisnão são capazes de enxergar.- Entendo. Ela não quer que eu seja um guerreiro após o treinamento.- E você? Quer ser?- Eu tenho o dever! Você não compreende...- Faça-me compreender - digo eu, calmamente. Ele se senta na minha frente, aflito.- O único que sabe desta história toda além de mim é Lyu. Agora eu vou contar paravocê.- Conte-a.- Foi a 10 anos atrás. Eu estava apenas com 9 anos, mas me lembro de tudo muitobem. Morávamos em Nagoia. Meu pai era um grande guerreiro, um verdadeiroSamurai. Tínhamos um senhor, o qual meu pai jurou fidelidade e proteção. Proteçãoextrema. Sabe o que isso significa para um Samurai? Ter que, se necessário, dar aprópria vida para a proteção de seu senhor. Se algo sair errado e o senhor morrer e 31
  32. 32. o Samurai sobreviver, este se tornará um Ronin. Samurai desonrado e sem mestre.Pois bem. O dever de meu pai, sendo um Ronin, seria o de se suicidar. Só assim elerecobraria a honra perdida. Mas eu não tinha mais ninguém, e no final, ainda haviaminha irmã, Suury, com dois anos. Ele abandonou Nagoia, veio para a China e noscriou. Agora eu treino com Yoan para poder vingar a morte de meu pai.- E como Lyu soube de tudo isso?- Por que foi ele que matou o senhor de meu pai, e posteriormente ele em si. Ele éum assassino, Ling, não sabia disso?- Um assassino?! Não pode ser, Sak. Ele devia ser tão novo quanto nós naquelaépoca!- Sabe quantos anos ele tem? 25! Ele tinha 15 anos na época, e os ninjas assassinosdo JitSu se tornam mortais aos 12 anos. Ele já tinha 3 anos de experiênciaassassina!- E o que ele está fazendo aqui?- Ele debandou do clã. Foi expulso.- Por que?- Achava que não estava ganhando o suficiente de seus mestres. Deixou o clan parafundar uma ordem mercenária. Está aqui por duas coisas: ou quer nos reunir parajunto com ele sermos assassinos de aluguel ou está apenas trabalhando.- O que? Ia levar 10 anos para matar uma pessoa?- Não sei, Ling. Tudo o que sei é que ele é perigoso e está com segundas intenções.- Por que você nunca fez nada?- Oh, eu fiz sim. Antes de virmos para cá ele me revelou o mandante da morte,tanto de meu pai quanto de nosso senhor. Eu o matei.- Mas e Lyu?- Ling, ele é apenas uma arma. É o trabalho do maldito. Eu não posso culpá-lo. Overdadeiro culpado está morto a 6 anos. Podia ter sido qualquer um dos ninjas JitSu.- Compreendo. Acha que está aqui para matá-lo?- Não, se esta aqui para matar alguém só pode ser Yoan. Tem muitos inimigos e é oúnico que levaria tanto tempo assim para ser morto. Acho que, no fundo, ele estáestudando também.- Mas ele e Yoan se tratam de forma tão normal...- Não questione os métodos de um ninja assassino, Ling... ele é uma cobra criada. -diz ele se levantando.- O que acha que devo fazer?- O que você quer fazer, Sakazama?- Reerguer o nome de minha família, ser um bom Samurai, limpar o nome de meupai...- Você não tem que ser um Samurai para fazer isso, Sakazama. Para falar averdade, acho que você já o fez. Olhe-se! Seu pai teria orgulho do que você setornou - Ele se olha por um momento.- Talvez... você tenha razão. Mas eu ainda não sei... o Caminho é tão difícil, do queme valerá percorrê-lo se não lançarei mão do conhecimento posteriormente?- Você pode tirar proveito dele mesmo sem ser um guerreiro. O equilíbrio e a pazque você conquistar agora lhe servirão muito. Além do mais, se surgir umimprevisto, você não irá necessitar de um Samurai contratado, pois será seu próprioSamurai.- Eu... não sei Ling. Eu tenho que pensar - Ele sai andando.- Obrigado, Ronin.- Pelo que? - pergunta ele parando, sem voltar seu rosto para o meu, assim comoeu.- Por confiar em mim. 32
  33. 33. Ele apenas continua andando. ******************** No dia seguinte nosso treinamento com armas é iniciado. Facas, sabres,bastões, e uma infinidade de outras coisas mortais estavam a nossa disposição.Nosso treinamento se triplicara. Pegamos o jeito das armas bem rápido. Novosgolpes eram ensinados e ainda fazíamos exercícios físicos em uma intensidadeinacreditável. Os músculos chegavam a atrapalhar alguns movimentos. Mas logo nosacostumávamos. Chegou então a hora de cada um escolher uma arma específica paraaprendizado total, ou seja, seriam nossas armas eternas, nossas armas de combate.Seriamos verdadeiros mestres com elas. Lyu escolhe primeiro. Pega uma espada média, estilo japonês, de lâmina fortee corte devastador. Segura, elegante, fatal. A arma de um verdadeiro ninja. Lao escolhe em seguida. Escolhe a Sai, mini espadas com espetos nasextremidades dos cabos. Multiuso. Armas de corpo a corpo, de lançamento, de corte.Fatais, super afiadas, discretas. Eu escolho uma arma estranha e aparentemente inútil: dois pequenoscilindros de madeira unidos por uma forte corrente de ferro. Um Nun-Chako. Umaarma japonesa rápida, pequena, forte e não letal.- Por que escolheu esta arma? - pergunta Yoan.- Por que a arma mais mortal que eu poderia ter eu já tenho: meu próprio corpo,mestre. Esta era a resposta que ele queria ouvir e a que eu respondi sem pensar. Maseu estava mentindo, em parte. Se usada de forma correta, minha arma seria capazde neutralizar todas as demais. Não podia confiar muito em armas. Tinha que confiarem mim. Minha filha observava, no colo de Li Wong. Eu ascendo, ela sorri, e escondeo rosto. Ronin escolhe o bastão. Uma arma elegante, mas grande. Os maioresmestres sempre o utilizavam. E ele é honrado o suficiente para empunha-la. Os dias passam lentamente. As noites são novamente agradáveis, a escuridãome consola. Sou novamente um solitário, só que agora de coração marcado.Sangrado pelo amor que teima em me recordar de tal dor e sofrimento. Eu costumochorar antes de dormir, e minha filha me observa. Eu nada falo, e ela entãocompreende, apenas olhando para meus olhos úmidos. Enquanto todos dormem eumedito, em busca da paz que perdi com a morte de Sho Win. Meu ódio estava novamente dominando meu equilibrado espírito de luta.Estava mais poderoso, mais perigoso, porém mais cruel e triste. Deveria eu mesacrificar de tal maneira? Acabar-me de tal forma para me tornar aquilo que eu nemqueria ser? A resposta veio com uma morte. Não poderia ter uma vida feliz. Não poderia ser aquilo que gostaria de ser. Meu destino está traçado, eamaldiçoado. Devo me tornar o maior de todos para por fim ao meu sofrimento. Só 33

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