SERVIÇO SOCIAL UTOPIA E REALIDADE:
UMA VISÃO DA HISTÓRIA
Maria Margarida Barbosa*
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Tal reconhecimento,que mudava a própria visão que os profissionaistinham da so-
ciedade, abria,agora, a perspectivade novo...
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eajustamentodosindivíduosàsociedade.Pe...
Dessa aliançavãosurgindo as primeirasescolasdeServiçoSocial no País, a partirde
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rios começa a se organizarem defesa de s...
Oprimeiroreuniu assistentessociaisdospaísesdoconesulinteressadosem buscaral-
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naquelemomentonadatema vercomoServiçoSociale aform...
O MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL
As origens
Osanos60marcaramparaaEscoladeBeloHorizonteumperíododemudançasna...
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O estudo desse item está fundamentado na liter...
Falandodaimportânciada participaçãodopovono processode mudançadaestrutura
ideológica e política, a autora atribuía à vangu...
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Aindaem1972, uma resenhabibliográficaredigidaporCanton(1982) apresenta uma
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tos eram, então, reforçadosna Escola por um dos professores que retomava de cursos de pós-
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cia crítica o caminho naturale obrigatóriopara...
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clássica para, em seguida, abordar o métod...
metodológicadaprática,entãoelaboradaporaquele.Easdefiniçõesalicontidassão,todaselas,
aquelas já elaboradas pelo grupo chil...
Éa partirdesseenfoqueque o documentodelimitao sujeitoe o objetodoServiço So-
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teração entre professore aluno...
para a Escola, autores que possibilitama criação de uma nova estrutura de pensamento. Isso
permiteaformaçãode uma nova vis...
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  1. 1. SERVIÇO SOCIAL UTOPIA E REALIDADE: UMA VISÃO DA HISTÓRIA Maria Margarida Barbosa* A orientaçãoprofissionaldosassistentessociaistemsidoestudadaapartirdevárioscrité- rios,entreosquaisaautonomiaprofissional,osobjetivosprofissionais,o compromis- socomo públicoou com ainstituição,asreferências políticase ideológicasde grupos profissionais. Maisumavezestetemaéabordado.Contudo,suaabordagemaquiénotóriaesingular. Trata-se de um estudo localizado,do qual Belo Horizonte é o cenário,e que tem por objetivo compreendera crise de identidadeque o grupoprofissional mineiro viveu na segunda metade da década de 70. Paraisso, procurou-sefazer umaincursãonahistóriadaformaçãoprofissionaldesen- volvida na Escola de Belo Horizonte e nos locais onde os profissionais executavamo seu tra- balho.' Aolongodasduasúltimasdécadas,aliteraturadaproduçãoteóricadosassistentesso- ciaisfazapreenderaexistênciadeumdistanciamentoentreateoriae apráticadoserviçosocial, chegando mesmo a apontar para"o divórcioentre teoriae prática" (Wisshaupt,1985, p. 45). Eeraessa mesmaafirmaçãoquecomeçavaacircularnaEscoladeBeloHorizonteentreosanos de 1969 e 1972, período em que a autora vivia ali o seu processo de formação.Porém, essa é uma questão que tem sua razão de ser. O movimento de reconceituação iniciado no contexto da sociedadechilena do final dos anos 60inauguravauma novaera para o ServiçoSocial. A busca de alternativaspara uma ação que atendesseaos problemasespecíficosdas sociedades latino-americanaslevava os as- sistentes sociais a uma revisão de seus conceitose de sua própria forma de interpretar a rea- lidade. Essa busca geravauma tomada deconsciênciado papel profissionalexercido tradicio- nalmente,atravésdesuas"metasdeassistênciae promoção,tipicamenteintegradasao sistema dominante".(Santos, 1982, p. 109) * Escola de Serviço Social da PUC-Minas. A Escola de Serviço Social da PontifíciaUniversidadeCatólicade MinasGerais-PUC*Minasé a única Escola de Serviço Social existente em Belo Horizontee na região da Grande BH. Desse modo, o termo utilizado para designar esse esta- belecimento de ensino será sempreo mesmo: aEscolade Belo Horizonte,ou aEscola de Serviço Smhlde Belo Horizonte. Cad. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2,p. 25-71, out. 1997
  2. 2. Tal reconhecimento,que mudava a própria visão que os profissionaistinham da so- ciedade, abria,agora, a perspectivade novoscaminhospara a profissão.Desse modo,o caráter assistencial, assim como o compromissoideológicocom as classes dominantes,questões ine- rentes à clássica prática profissional,passavama ser condenados. O questionamento da tradicional prática social e a formação de uma nova visão de mundo e de sociedade levaram a uma redefiniçãoda profissão.O papel de educador político, os objetivosda ação,definidosporconscientização,organizaçãoe mobilizaçãodasclasses po- pulares,conjugadosaonovoconjuntoteóricoquefundamentavaaformaçãoe aaçãodos novos assistentes sociais eram alguns dos componentes básicos que sustentavam o compromisso ideológico então assumido pela profissão.Naquelemomento, partindodo princípio de que as instituiçõessãoaparelhosreprodutoresdosistema,ecomotalcristalizamosinteressesdasclas- ses dominantes, as comunidadespassavama ser o campo preferencialde exercício da prática. Eracomo seascomunidadesestivessemresguardadasdequalquerinfluênciaideológica.(San- tos, 1982, p. 107-113) Pautada pela nova concepção de profissão,e fundamentada nesse conjunto teórico- prático, a formação de profissionaiscomprometidoscom uma prática político-ideológicaque levasse à transformaçãoda sociedadepassava a ser a espinha dorsaldos cursos deServiço So- cial. Mas essa formação, apenas política,não encontravaa correspondentedemanda da socie- dade. Pois a prática profissionalcontinuava a ser exercida no interior das instituições. Nessecontexto,os novosassistentessociaissentiam-se,no mínimo,traídos. Convic- tos de seus objetivos profissionais,de um compromissocom as classes populares,e imbuídos doprincípiodequeasinstituiçõessãoaparelhosreprodutoresdaideologiadominante,nãocon- seguiam,fatalmente,reconhecerasuaprópriaprática.Daíosquestionamentosreferentesauma dicotomia, ou divórcio, entre teoria e prática, persistentementeencontrado no discurso pro- fissional de uma determinadaépoca. Ora, na EscoladeServiçoSocialdeBeloHorizonte,esseera o pontocentraldos ques- tionamentos e debates entre alunose profissionaisde campo na segunda metade dos anos 70. Esuarazãodeserestava,naturalmente,nomodelodeformaçãoprofissionalaliiniciadoapartir de1970,com ainserçãodaEscola noMovimentodeReconceituaçãolatino-americanoqueen- tão começava. Para a Escola de Belo Horizonte,tinha início naquele momento uma fase de intensa busca. Os documentos produzidospelo grupochileno queencabeçavao movimentoeram sis- tematicamenteestudados,discutidose tidoscomo novasfontes teóricas.Nessa buscaconstan- te, o corpo de professoresdecidiu pelaavaliaçãodo processodeformação daEscola atéentão. E, a partirdessaavaliação,elaborou-seumaestruturacurricularque,implantadaem1971, mu- dou radicalmente todo o processode ensino. Nessa reorganizaçãoestava, também, a semente queiria produziroMétodoBH.EocontextodaEscolasemodificavana mesmamedidaemque avançavaaimplantaçãoda novaestruturacurricular,eoMétodoBHera implantadoemcampo experimental. A estruturacurricular que passava a vigorarentão,fundamentadanos princípiose di- retrizes do movimentode reconceituação,conduziao ensino para a formaçãode profissionais comprometidos com uma única opção político-ideológica:aquela que levaria os novos assis- tentes sociais a assumirem um compromissocom o processo de educação política das classes populares e a transformaçãoda sociedade. Mas,seessaeraaprincipal diretrizdaformaçãoprofissional,ocontextodapráticaper- manecia o mesmo. O mundo institucionalcontinuavasolicitando assistentes sociais que exe- Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  3. 3. cutasse,ali,asuatradicionalprática:ocaso,ogrupo,acomunidade, numprocessodeadaptação eajustamentodosindivíduosàsociedade.Permanecia,portanto,aexistênciadeumcompromis- so com a ideologiadasclassesdominantes.Essequadrotorna-seaindamaiscomplexo quando se observa que durante os anos70 a sociedadebrasileiravivia umade suas fases mais difíceis, sob as diretrizes do regime militar que então dominava o País. Situaçãobastantecomplexa,também,viviaaEscoladeBeloHorizontenaqueleperío- do. O contextoda formação profissional,de um lado,e, de outro,a realidadeda prática profis- sional,inseridosnaconjunturadasociedadebrasileira,acabaramporgerar umacrise que, jáno final de 1975, põe termo ao modelo de formação que vinha se desenvolvendo.Daí a nova re- estruturação de todo o processo de ensino a partir de 1976. Diante da complexidadedessecontexto,e sabendoda trajetóriahistórica vivida pelo coletivo da Escola na década de 70, é que se pretende,nesteestudo, buscar as questões mani- festas e subjacentesque permitama compreensãoe a explicaçãodos fatos. Entende-se que só assimserãoencontradasas possíveisrespostasparaos momentosde transformaçãoe crise que viveram essa profissão e os seus profissionaisem Belo Horizonte. Para dar conta dessa tarefaé que se fez a opçãopeloestudo de casoscomo método de pesquisaaser utilizado.Sendo assim,oeixocentraldesteestudoéo processodeformação pro- fissional da Escola de ServiçoSocial de BeloHorizonte,num períodoque vai de 1970 a 1975. Sabe-se que nenhumfato ocorre isoladode um determinadocontexto. O que se acre- ditaéquetodofatoésempreo resultadodeumconjuntodeforçasinfluentese geradorasdetodo o movimentoda sociedade.Exatamentepor isso, é necessáriobuscar as forças predominantes na conjuntura do País e em Minas Gerais de modo particular.Entende-seque só assim haverá 27como explicar as situações de crise e as transformações que viveu a profissão em Belo Hori- zonte. Se Belo Horizonteforma o cenário desta pesquisa,sabe-seque esta cidade é o centro administrativoe políticodoEstado mineiro.Sabe-se,também,queMinas,e Belo Horizontede modo especial, constitui o centro dos interessese das necessidadesdo desenvolvimento e da acumulaçãoda riquezadoPaísemalgunsmomentosespecíficos.Paraisso,entretanto,é neces- sário retornar, mesmo que superficialmente,ao início dos anos 30. Estudos já realizados mostram que a década de 30 marcao primeirogrande surto in- dustrializantedoPaís.Oaceleradoprocessodedesenvolvimentoquemarcaapassagemdeuma sociedade agrícola para uma sociedade urbano-industrialprovoca uma série de mudançasem todosos segmentosda sociedadee a lentaorganizaçãoda burguesiaindustrial,enquantoclasse dominante, deixa indefinido o pólo hegemônico.Ao mesmo tempo, o acelerado crescimento industrial provoca igual processode urbanização e, conseqüentemente,o reaparecimento dos movimentos reivindicatóriosda classe operária. Nessecontextoera urgentearecomposiçãodos"padrõesdedominaçãodasociedade'' (Ianni, 1975, p. 11).E, entre as estratégiaspolíticaselaboradasparadar conta dessa tarefa, es- tavaoestabelecimentodealiançascomasgrandesorganizaçõesquetivessemcondiçãodecon- trolaros movimentospopulares.Entreestas,estavaaIgreja,que,necessitandoreaverainfluên- cia anteriormenteperdidasobre a sociedade,vinha reorganizandoseu trabalhode ação social. Nocontextodasociedadeindustrialquenascia,cresciasubstancialmenteo númerode entidadescatólicas destinadasa responderàs necessidades sociaisemergentes.Desse modo, a Igreja passou a reivindicar maisenfaticamenteas prerrogativasentão perdidas. A conjugação dessesfatores proporcionou a reaproximaçãoentreIgrejaeEstado,fazendosurgir acorrelação de forças necessárias à consolidaçãoda nova sociedade. Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  4. 4. Dessa aliançavãosurgindo as primeirasescolasdeServiçoSocial no País, a partirde 1936.E,entreelas,adeBeloHorizonte.Criadaem1946sobosauspíciosdaIgreja,efundamen- tada na sua DoutrinaSocial, a Escolade Belo Horizonte surge, também, num momento espe- cífico da conjunturado País e, de modo particular, do Estado de Minas Gerais. Osurtoindustrialdesenvolvimentistainiciadoem 1930chegou aofinaldadécadane- cessitandoconsolidaro poderda novaclassedominante:aburguesiaindustrial.Entretanto,era necessáriosufocaros movimentospopularesquecresciam paralelamente.Essesfatoslevaram os grupos dominantesa"armarem o Estadode poderesexcepcionais"(Carone,1977, p. 253). Assim, apoiado pelas ForçasArmadas, Governadores de Estadoe Igreja, um golpe de Estado em 1937 faz iniciar uma nova fase da história do País: o Estado Novo. Onovosistemapolíticoqueentãoseinstala,fielaoideárionacionaldesenvolvimentista, acionaseusmecanismosderepressão.Dessemodo,aditaduracivilrecém-iniciadaseconsolida no poder e põefim aos movimentos populares, levando à clandestinidadeos partidosde opo- sição. Sabe-se,porém,queaSegundaGrandeGuerra,entre1939e 1945,deixasuamarcaem todos os paísesdo mundo.OBrasil,naturalmente,nãoestáisentodessainfluência.E sendoas- sim, a partir de 1942, quando a nação norte-americanase declaraem guerra contra as Nações do Eixo, começam a surgir no Brasil os primeiros movimentos populares do Estado Novo. A União Nacional dos Estudantes-UNE inicia um movimentode protestoque vai, muitolenta- mente, ganhando as ruas. Sendo o único movimento "tolerado pelo Estado Novo" (Carone, 1977, p. 293),a UNEcomeçaa recebersobassuasasas asforças popularese osgruposde opo- 28 sição na clandestinidade. Desse modo, o movimento cresce, ganhando uma força cada vez maior e se tornando o grande representante dos anseios da nação. Aomesmotempoemquecresceomovimentopopular,algumasdecisõespolíticasto- madas pelo ditador acabam por provocar a divisãoe a deterioraçãodas forças de sustentação do poder. O quadro,que começava a se modificar internamente, começava, também, a sofrer pressões internacionais. Assim, na mesma medida em que a situação interna do País se mo- dificava,ia tambémcrescendoa pressãonorte-americanasobreo governo brasileiro,exigindo a redemocratizaçãodo País e a sua definiçãofrente ao conflitomundial,em favor das Nações Aliadas. É,portanto,enfrentandoosconflitosinternoseaspressõesinternacionaisqueo gover- no brasileirochegaem 1945, tendoadotadoalgumas medidasde aberturapolítica,e aceitando oreconhecimentodiplomáticodaUniãoSoviética.Alémdisso,forammarcadasaseleiçõespre- sidenciaisparadezembrodessemesmoano.Porém,asquestõespolíticasesociaissãosomadas à situação econômica do País naquele período. O processode industrializaçãoiniciadoem 1930cresce aceleradamenteno decorrer dadécada.Apesardisso,ele nãoéacompanhadodanecessáriadiversificaçãosetorialedeigual mudança naestruturade produção.Osetoreconômico,queconservaas tradicionaisformasde produção,chega, assim, ao período da guerracomsériasdificuldades.E, durantea guerra,en- contra dificuldadesainda maiores. Porém, contraditoriamente,é o própriocontexto de guerra que vai exigir algumas modificações no quadro econômicodo País. A necessidadedo minériodeferro para a sustentaçãodoconflito bélicoe as pressões internacionaislevamogovernobrasileiroaaceleraroseu planosiderúrgicoe aproduçãodofer- ro e do aço. Entretanto,a implantaçãoda siderurgia necessitavade um capitalcomplementar. Porisso,em1941é assinadoumcontratocomogovernonorte-americano,quedáorigema uma sériedeacordosentãocelebradosentrebrasileiros,americanose ingleses.Atravésdesses acor- Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  5. 5. dos,e com a declaraçãodoestadodeguerradoBrasilcontraas NaçõesdoEixoem 1942, o go- verno"toma conta das jazidas (de ferro) alemãs, e o controle das melhoreszonas (de siderur- gia) retorna ao Brasil". (Carone, 1977, p. 297) Ora,todaessariquezamineralestavasituadanaregiãocentraldoEstadodeMinasGe- rais e, desse modo,"importantesprojetos na área de mineração e metalurgiaforam definidos para Minas no iníciodos anos 1940"(Diniz,1981, p. 55). Em decorrênciada implantaçãodas primeirasindústriasde extraçãomineral começarama surgir,nessa mesma região, novasem- presasdeproduçãodoferroedoaço.OsprogramasgovernamentaisdestinadosaMinasGerais, motivadospelosinteressesinternacionaisdesustentaçãodaguerra, vão nãosóbeneficiaro Es- tado mas, também, dar um novo alento aos mineiros. Considerandoo atraso em que se encontrava a economia do Estado, os mineiros vi- nham, há anos,elaborandoum planode desenvolvimentoindustrialque pudessetirarsua eco- nomiadaestagnação.AintençãoerafazerdeMinasumnovopóloindustrialnoPaís,tendoBelo Horizontecomo centroeconômico.Parte desse planoconsistia em construir um centro indus- trial equipado,com a infra-estruturanecessáriapara acriaçãodeindústrias.E as primeirasini- ciativas para a construçãodessecentroforamtomadasem 1941,com o lançamentoda Cidade Industrial de Contagem. Acriaçãodeempresasdemineraçãoe metalurgianaregiãocentraldoEstadoeoinício da construção da Cidade Industrial geram uma certa movimentaçãoda população mineira. E Belo Horizonteé, naturalmente, o grande centro de atração. Algunsestudosrealizadossobreesseperíodomostramapreocupaçãodospoderespú- blicosem desfavelardeterminadas áreas urbanas, transferindofavelasinteiras para outros lo- 29cais.Aomesmotempo,novasfavelascomeçamasurgir,emdecorrênciada migraçãoruralmo- tivada pelas possibilidadesde empregoque se abriam. Eraesseocontextodasociedadebrasileirae,demodoparticular,oqueocorriaemBe- lo Horizontenafase que precedeu a criaçãoda EscoladeServiçoSocialem 1946. A partirdaí, a Escolasegue pautadapela DoutrinaSocialda Igreja e pelaliteraturaespecíficaproduzidana sociedade norte-americana. Se a Escola de Belo Horizonte se direciona pelos mesmos fundamentosda profissão nas demaisescolas do País, a chegadados anos 60 traz consigoum novo períodopara a socie- dade brasileira.E a fase que aí se inaugura é fundamental paraentendertoda a situação vivida pela Escola e pelos profissionais de Belo Horizonte na primeira metade da década posterior. Ocontextodecrisepolíticae econôrnicaqueviveuasociedadeentre1961e 1964mar- ca o momento de redefiniçãodo modelo de produçãoe acumulaçãoda riquezado País. O pe- ríodo nacional desenvolvimentistaesgotara-seao longo da década anteriore inaugurava uma fase pautadapelasdiretrizesfinanceirase tecnológicasditadaspelograndecapitalestrangeiro. E o Estado,o grandesustentadorda burguesianacional,começavaaagirem benefíciodosgru- pos transnacionais.Ameaçadapelo distanciamentodo Estado, a burguesianacionalcomeçara ase organizar,criandosuas própriasformasde proteçãoe de resistênciaàs mudançaspolíticas e econômicas. Paragovernarumpaísqueexigiamudançassubstanciais,o presidentequeassumeem 1961- João Goulart- levava consigo um plano de governorespaldado pelas diretrizesda po- lítica populistaque predominavanoPaísdesdeosanos 30.Uma vezinstaladoo novogoverno, aintençãoeraconjugaroseu planodegovernocomacriaçãodascondiçõesexigidaspelanova fasedeexpansão.Porém,adificuldadedeconjugarplanoseinteressesantagônicosnãosótorna inviávelapolíticaadotadacomo,também,fazaceleraro processoinflacionárioiniciadono go- Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  6. 6. vernoanterior.Nessecontexto,a grandemassatrabalhadoraformadaporcamponesese operá- rios começa a se organizarem defesa de seus interessese vai ganhando"força política por sua organização, conscientização e atividade".(Ianni, 1981, p. 194) Oquadrofica ainda maiscomplicadoquandoseinstalaacriseeconômica.E,comela, a crise do Estado burguês. Assim, o poder burguês se deteriora na mesma proporção em que cresceo poder políticodos operáriose camponeses.Nessecontexto,seorganizaentão"o novo bloco no poder"(Ianni,1981, p. 195),na medidaemse que unificama burguesianacionale es- trangeira,contandocom oapoioe a participação"desetoresdaclassemédia,da Igreja,latifun- diários, militares, policiais e o imperialismo". (Ianni, 1981, p. 195) Dessemodo,seorganizaoblocodominanteque,sobocomandodasforçase das pres- sões do capital internacional,articulacuidadosamenteo golpe de Estado de marçode 1964. O golpe, queseefetivou peladestituiçãodo Presidenteda República"eleitoconstitucionalmente e governandoconstitucional mente^'(Ianni,1981, p. 146),passaaos militareso poderde dirigir a Nação. Opodermilitarqueseinstalou naquelemomentochegou comocompromissodeexe- cutar"umprogramadereformasdestinadasaremoverosobstáculosàexpansãodocapitalismo noPaísea viabilizaraplenaconfiguraçãodomodelodedesenvolvimentoesboçado nasegunda metade da década passada". (Cruz et al., 1983, p. 28) Como forma de asseguraro cumprimentoda sua missão, o comando militar que aca- bavade assumiropoderfazdivulgaroatoinstitucionalde9de abrilde1964.Comapublicação desse ato, fica instalada a ditadura militare tem início um períodode prisão, suspensão de di- reitose exílio de um grande númerode intelectuaise políticos,além das liderançasestudantis, operárias,camponesasesindicais.Apartirdaí,oPaíspassaasergovernadopordecretos,emen- das, leis complementares e novos atos institucionais. Em 1967, as forças no poder necessitavamde uma reorganização. A movimentação necessária à recomposição do pólo dominante trouxe como conseqüência o aparecimento de grupos de oposição dentro do próprio bloco no poder e criou as condições necessárias para o aparecimentodomovimentoestudantillogonoiníciode1968.Essefato,conjugadocomvários outros já existentes, fez eclodir nas principais cidades do País os primeiros movimentos ope- ráriosdegrandevultodoperíodomilitar.Paraconterafasedeinsatisfaçãoe protestoqueamea- çava se expandir pelo País, o governomilitareditouem dezembrode 1968o AtoInstitucional n. 5. O atoinstitucionalentão promulgadoconferiapoderesexcepcionaisao Presidenteda República,que passavaa ter ocontroleabsolutodo Estado.É, na verdade,"uma espécie de se- gundo golpe de Estado, ou um golpe dentrodo golpe"(Ianni,1983, p. 158). Com esseendure- cimento do regime,o Governo põeem recessoo CongressoNacionale faz abater sobre o País um longo período de repressão. Nesse mesmo período, cresce rapidamenteo número de atos institucionaisedecretos-lei.Entreestes,odejaneirode1969estavavoltadoespecialmentepara os estabelecimentos de ensino: era o 477. Aditaduramilitarsegue,assim,controlandotodoequalquersurgimentodasociedade, aomesmotempoemquedifundiaaideologiadodesenvolvimentoedoprogressodoPaís.Nesse contextodeautoritarismoe arbitrariedade,derepressãoe policiamentoideológico,asociedade brasileira faz a sua passagem para os anos 70 e prossegue rumo à década posterior. Seessas são as grandesquestõesque marcam aconjunturado Paísnos anos 60, sabe- mos que dois eventos importantespara o ServiçoSocial foram realizadosnesse período:o Se- minário latino-americano de Porto Alegre, em 1965, e o Seminário de Araxá, em 1967. Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  7. 7. Oprimeiroreuniu assistentessociaisdospaísesdoconesulinteressadosem buscaral- ternativas próprias para a profissãono continentee o segundoreuniu assistentessociais brasi- leirosqueelaboravam as principaisdiretrizespara a profissãono País. Ambos,porém,realiza- dos no Brasil.E, se nesse períodoas sociedadeslatino-americanaseramsustentadas pelo ideá- riodesenvolvimentista,asociedadebrasileiraviviaummomentomuitoprópriodessecontexto. Essa conjunturaexerce, evidentemente,influênciadecisivasobreos eventos e os documentos que ali tiveram sua origem. Desses eventos, sabe-seque o Seminário de Araxá tem um significado especial para a profissão.Odocumentoalielaborado,publicadoe difundidopor todaAméricaLatina, repre- senta, segundo alguns autores, um importantemomento para o grupoiniciador do movimento que posteriormente recebeu o nome de Reconceituação.Esse mesmo documento (de Araxá) passa,então,aseradotadopelasescolasdeServiçoSocialbrasileiras.E,entreelas,naturalmen- te,está aEscoladeBeloHorizonte,ondeo referidodocumentopassavaa serfundamental para o ensino. É, portanto,sob as diretrizesdo documentode Araxá,fundamentadopelo ideário de- senvolvimentista da ditadura militar que dominava a sociedade brasileira naquele momento, que a Escola de Belo Horizonteassume,já nos anos70e 71, as definiçõesteórico-práticasque começavam a ser difundidas pelo Movimentode Reconceituação,assim como vinha aconte- cendo na sociedade chilena. Inicia-seentão um períodoem que a Escola mineiravive uma situação peculiar.Sob o rígidocontrolede umaditaduramilitar,pautada pelasdiretrizesdesenvolvimentistasditadas pelocapitalinternacional,a Escolaassumeo referencialde umaformação teórico-prática,ela- borado nocontextodademocraciacristãquedominavaa sociedadechilena naquelemomento. A situação, sem dúvida, é bastantecomplexapor si só. Porém,fica ainda mais complicada, se procuramos saber o que aconteciaem Belo Horizonte durante esse mesmo período. O ciclo de desenvolvimentoindustrialinauguradocom o golpede 64 chega aos anos 70 exigindo um redirecionamento.Naquelemomento, a ampliaçãode mercadoe a incorpora- çãode novos recursosnaturaissãofatoresimprescindíveisparaocapital nacional.No nível in- ternacional, o movimentode capitais e o momento que vivia o processode acumulação da ri- queza exigiam mudanças substanciais no processode expansão e apropriação. A conjugação desses fatores nacionais e internacionaisapontava, naquele momento, para uma"certa tendênciaà alteraçãoda divisãointernacionaldo trabalhoem relação àindús- tria, atravésda diversificaçãodaestruturaindustrialbrasileira,com aexpansãoda indústria de bens de capital e química"(Diniz,1981, p. 183). Para atenderàs exigênciasdessa fase,era ne- cessáriopromoveradescentralizaçãoindustrialdoPaís.Masera imprescindívelqueissoocor- resse na mesma macrorregiãonacionalque já possuíaa concentraçãodo capital: o centro-sul. Nessemomento,oEstadodeMinasGeraisaparece,nocenárionacional,comoo local queofe- recia as melhores condições. Finalmente,o sonho que os mineiros acalentavamhá anoscomeçava agora a concre- tizar-se. A políticade incentivosfiscaise a construçãode umacompletainfra-estruturaindus- trialemBeloHorizonte,na regiãocentraldoEstado,ofereciamtodasascondições necessárias para a implementaçãoda nova fase industrializantedo País. Desse modo, na primeira metade dos anos 70, grande número de projetos industriaissão definidos para Minas Gerais, sendo a maioriainstalada nasuaregiãocentral.Apartirdaí,oEstadodeMinase,demodoespecial, sua região central começam a se transformar"no verdadeiroparaíso das multinacionais". (Diniz, 1981, p. 208) Cad. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  8. 8. Aprimeiravista,parecequeodesenvolvimentoeconômicovoltadoparaMinasGerais naquelemomentonadatema vercomoServiçoSociale aformaçãodosassistentessociais.Po- rém, o pressuposto é que a conjunturado País, determinadapela união das forças necessárias ao redirecionamento do capital nacional e internacional, associada aos interesses políticos e econômicosquefariamdeBeloHorizonteo novocentroindustrialdo País,forma umconjunto deforçasopostasaotipodeformaçãoprofissionaloferecidapelaEscolanaquelemomento.Isso vai, naturalmente, levar ao contexto de crise vivido em 1975. Partindo do pressupostoda existênciade um antagonismoentre os objetivos da ação apreendidos durante o processode formaçãoe os objetivos da ação implementada no interior das instituiçõesdurante aquele período,este trabalhoesteve voltado,inicialmente,parao estu- dodos documentose programasdeensinoencontradosnos arquivosdaEscola. A partirdaí,fi- zeram-seolevantamentoeoestudodabibliografiadeServiçoSocialquefundamentava aestru- tura curricular que dava sustentaçãoao processodeformação.Os dados empíricos e a recons- truçãodos fatos históricossóforam possíveisa partir das entrevistasrealizadascom profissio- naisdecampo,alunos,supervisoresediretoresqueviveramosváriosmomentosdeconstrução, crise e reconstrução da Escola naquele período. Sendoeste umestudohistórico,suaestruturageralfoi definidaa partirdos momentos de transformaçãoque viveu a Escola,e queiam tomandoforma à medidaque o trabalhoavan- çava e os movimentos,as influênciase pressões de cada fase iam ficandoclaros. Desse modo, sua divisão e subdivisãocomportamas diferentesfases, influênciase movimentosque viveu, 32 então, o coletivoda Escola.A medidaqueoestudoavançava,percebia-sea presençaconstante de umagrandepersonagem-umapersonalidadeque,mesmoausente,estava, também,presen- te: o professor Paulo Freire. OestudodaliteraturaespecíficadeServiçoSocial,referenteaoperíododomovimento de reconceituação, mostravaque os textos vinhamsempre impregnados pelas idéias de Paulo Freirepublicadasatéentão.Sealgunsdessestextosestavamlimitadosacitaçõese àapropriação deconceitosdefinidospeloautor,outrostraziamoestudodetalhadodoseu métododeeducação e conscientização, apresentandoas formas e as possibilidadesde sua aplicação na prática dos assistentes sociais. A questãoobservadanaliteraturaespecíficadessafasefoi reforçadacomoestudodos programas de ensino da primeirametadedos anos 70. Todas as disciplinas de Serviço Social, teóricas e práticas, tinham nos textos de Freire o principal suporte bibliográfico. Ora, se tudo apontava para uma grande influência desse educador brasileiro sobre o Serviço Social naquele momento,era necessáriobuscar as possíveisrelações que possibilita- ram essa influência. E, para isso, além dos textos publicados nesse período, foi também utili- zada umaentrevistaexclusiva,ondeo próprioPauloFreirefala doslaçosqueo prendiamàsas- sistentessociaisbrasileirasechilenasnaquelemomento,alémdamútuainfluênciaexercidaen- tre o educador e aqueles profissionais. Éexatamenteoqueseapresentanoprimeirocapítulo:oMovimentodeReconceitua@io do Serviço Social na AméricaLatina e a influênciade Paulo Freire. Este estudo nos permitiu entender o modelo de formação profissionalimplantadoa partir de 1970-eixo do debate de- senvolvido no segundo capítulo-queculminou com o momento em 1975. A crise que exigiu um novo redirecionamentoda formação dos assistentessociais a partir de 1976, tema central do terceiro capítulo que compõe este estudo. Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out: 1997
  9. 9. O MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL As origens Osanos60marcaramparaaEscoladeBeloHorizonteumperíododemudançasnafor- maçãoque oferecia aos assistentessociais. Asegunda metadedessa mesmadécada é marcada peloiníciodoMovimentodeReconceituaçãodoServiçoSocial,quevaidefinirnovasdiretrizes para toda uma categoria de profissionais na América Latina. A conjuntura das sociedadeslatino-americanase a relaçãodesses países no contexto da políticainternacionallevamosassistentessociaisainiciaremumprocessoderevisãodeseus objetivos profissionais.Era um processo que iria desencadearnovas perspectivas de trabalho e criar formas de pensar para os futuros profissionais. OMovimentode Reconceituação,quetemsuasprimeirasidéiasgestadasedifundidas pelos assistentessociais chilenos, brasileiros,argentinose uruguaios a partir de 1965, vai, nos anos posteriores, expandir-se pelos demais países do continente. Porém, é na conjuntura po- lítica da sociedade chilena, no períodoque vai de 1968 a 1972,que a Reconceituação aparece de forma mais enfática, apontando novas diretrizes para o trabalhodos AssistentesSociais na América Latina. Para melhorsituarhistoricamenteoMovimentodeReconceituação,é necessáriobus- car no anode1965o PrimeiroSeminárioLatino-AmericanodeServiçoSocial, realizadonaci- dade brasileira de Porto Alegre. Com o tema"ServiçoSocial frente às mudançassociaisna AméricaLatina",o Semi- náriotinhacomoeixocentraloestudodosaspectosreferentesàrealidade políticaesocialvivida 33pelospaísesdocontinente.Aconjunturapolíticaeoprecáriodesenvolvimentoeconômicodes- sassociedadesseconfiguravamcomoas principaiscausasdoseu estadodepobreza,bemcomo dos problemas vividos por essa população. A força de programas sociais para o desenvol- vimentodo terceiromundoera asoluçãoencontradaparatirardamisériaagrandemassa dapo- pulaçãodocontinente.Eosassistentessociaiseramconclarnadosaparticiparemativamentedo processode desenvolvimentodessas sociedades.Para isso,entretanto,é necessárioque o Ser- viçoSocialencontreseu própriocaminho,procurandodesvencilhar-sedainfluênciaestrangei- ra - européia e norte-americana- para encontrar as soluções próprias para a realidade conti- nental. Entre as conclusões do evento, uma das principais propostas para os profissionais era a de "atuar sobre as causas dos problemas sociais". (Ander-Egg,1975, p. 406) A partirde PortoAlegre,foramrealizadosnovossemináriosnumtotaldeseiseventos até 1972, sempre nos paísesdo sul do continente:Brasil, Uruguai, Argentina,Chile e Bolívia. Apreocupaçãobásicaerasemprea mesma:abuscadeumServiçoSocial próprioparaospaíses daAméricaLatina.Osprofissionaisentãoenvolvidoscomeçavamumprocessodebuscadentro da realidade específica de seu próprio país. Era a tentativa de encontrar alternativas que pu- dessem atender à necessidade de uma única proposta de ação para o Serviço Social no con- tinente.Efoicomo partedocompromissoentãoassumidoqueos profissionaisbrasileirosfize- ram realizar o Seminário de Araxá. O encontro realizadoem março de 1967, na cidade mineira de Araxá, estava centra- lizado no empenho dos profissionais brasileirosem formular uma "síntese dos componentes universais,dos elementosdeespecificidade(doServiçoSocial) aocontextoeconômico-social da realidade brasileira".(Documentode Araxá, 1967, p. 9) O relatóriocontendoasconclusõesdoSemináriode Araxá,publicadoe divulgadoco- mo Documento de Araxá, teve uma significaçãoespecial dentro do Movimentode Reconcei- Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71,out. 1997
  10. 10. tuação, o que ocorre a partir do instante mesmoem que era redigidoe publicado.Segundo al- gunsautores,éessedocumentoque marcao momentoprecisoda subdivisãodas idéiasiniciais do Movimento de Reconceituaçãoe dá origema "um salto essencialmentequalitativo no que diz respeito às idéias desenvolvimentistas~'(Ander-Egg,1975, p. 270) que até então serviam de suporte para a ação dos assistentes sociais. Entre os semináriosrealizadosno períodoquevaide1965a 1972 nospaísesdosuldo continente, é importante ressaltar o IV Seminário, realizadoem 1969, na cidade de Concep- ción, noChile.Tal seminário,realizadonocontextode umasociedadeque viviasob as diretri- zes políticas de um governodemocrata-cristão,abordavaquatro grandes temas com seus res- pectivossub-temas.Essesgrandestemascentrais-alienaçãoe práxisdoServiçoSocial; novos instrumentosdoServiçoSocial; novasidéiaspara o marcoconceitualdoServiçoSocial, e Ser- viçoSocialemperspectiva-deramorigemaosassuntosabordadosnasconferênciasrealizadas no evento. Dessas conferências,têm grandesignificadoaquelasque foram proferidasdentro do terceirogrande tema doSeminário: novas idéias para o marco de referênciaconceitual doSer- viçoSocial. Os assuntostratados-"o conceitodè culturada pobrezae o ServiçoSocial, a teo- logia pós-conciliare o ServiçoSocial, marxismoe ServiçoSocial"(Ander-Egg,1975, p. 411) -eram apresentadospor assistentessociaischilenos.O Seminário,que conta com um número significativode profissionaise estudanteschilenosna exposiçãode seu temário,tem noencer- ramentoaparticipaçãodoargentinoAnder-Egg,quefalasobreaRevoluçãoLatino-Americana e o Serviço Social. Era o encontro que inaugurava uma novafase para o Movimentode Reconceituação. Os questionamentos e as idéias elaboradas pelos assistentessociais chilenos refletiam o con- texto políticoqueviviaaquelasociedadenofinaldosanos60,quandoaconjunturadoPaísofe- reciaaos profissionaiscondiçõesprovocadorasde um novotipode práticasocial.A necessida- de de contribuir, dentro das circunstâncias vividas pela nação, levada os assistentes sociais à elaboração de novos conceitos para o Serviço Social. Começava ali uma nova fase do Movi- mento, pois as diretrizes e propostas apresentadas naquele evento ganharam as terras latino- americanase difundiramo ideárioda"Reconceituação",encarregando-sedeformar uma nova mentalidade entre os assistentes sociais do continente. Aindana realizaçãodoSeminárioChileno,umdos assuntosmereceatençãoespecial. Éo da conferência realizada pelo professorchilenoSérgio Villegas,e que tinha por título:"O método de conscientização de Paulo Freire". O assunto, apresentadodentro de um dos temas básicos do Seminário,"Novos instrumentosdo ServiçoSocial"parece ser o início da difusão dopensamentoe do métododeconscientizaçãode PauloFreire,que"naquele momentocausa- va um impacto profundo em todo o Serviço Social chileno e de outros países7 '. (Ander-Egg, 197.5, p. 412) É a partir dali que os assistentessociaislatino-americanosadotam o ideário de Paulo Freire como um dos pontos fundamentais de trabalho para o Serviço Social no continente. Diantedessasafirmações,entretanto,restasabersePauloFreiretemrealmenteinfluênciasobre o Movimento de Reconceituação.Se essa influênciaé real,como ocorreu? Que relação existe entre a propostada Reconceituaçãoe as idéiasde Paulo Freire?Éo quese pretende ver em se- guida. Paulo Freire: uma influência Para melhorsituar historicamenteas relações existentesentre Paulo Freire e o Movi- mento de Reconceituação,é necessárioresgatar, pelo menos em parte, a trajetória desse edu- Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n.2, p. 25-71, out. 1997 1
  11. 11. cador brasileiro, situando-o em momentos específicos da conjuntura do país. O estudo desse item está fundamentado na literatura publicada pelo próprio autor e, também, nos artigose documentosdivulgadospelas revistasdeServiçoSocial no período ini- cial doMovimento.Conta,ainda,com um trabalhoelaboradosobreo assuntoe umaentrevista com Paulo Freire.2 Nosúltimosanosdadécadade40,porvoltade1947,PauloFreireassumiaumtrabalho naáreadeeducação juntoaoServiçoSocialdaIndústria-SESI,nacidadebrasileiradoRecife. Naquelaorganização,atravésdo conhecimentodos assistentessociais que ali atuavam, Paulo Freire não só era apresentado, mas começava a participarda ação e do conhecimento profis- sional dos assistentes sociais. Sempre perfilandoo SESI,Paulo Freireestabelece um estreito contatocom os assis- tentessociais, nãosódo Recifecomo tambémdocentro-suldoPaís. Nessa trajetóriapeloterri- tório brasileiroduranteos anos 50e iníciode 60, tendosempreo SESIcomo local de trabalho, éque PauloFreireafirmaterencontradonoseu"processodeformaçãomomentosinformaisda formação que têm a presença muito grande de assistentessociais". (Freire & Karsch, 1983) Ainda no Brasil, antes de aparecercomo educador, antes mesmode cumprir sua tra- jetóriaforadoPaís,existiajá umaestreitaligaçãoentrePauloFreireeosassistentessociais.Tal ligação traziacomoconseqüênciaumanovaconcepçãodetrabalho,oqueinfluenciavaas dire- trizesdoprogramaque vinhasendodesenvolvidono SESI.Alémdisso,essainfluênciadeixava marcasemtodoo grupode profissionaisenvolvido,na medidaemquehaviaumaconcordância entreo pensamentodoeducadoreodasassistentessociaisdainstituiçãonaquelemomento.Se- guindoseu própriodepoimento,aorientaçãoqueconseguiu,então,"finalmentedaíao SESIem Pernambuco contou com o apoio desse grupo todo de assistentessociais, o que significa que havia umacertacoerênciae umacertaconcordânciaentreelase mim".(Freire& Karsch,1983) Aconjunturadasociedadebrasileira,nosprimeirosanosdadécadade60,fezcomque o País se tornasse um dos centros de atenção no cenário mundial.O golpede 64, que levara os militaresao poder,iniciava uma novaera para essa sociedade.E a reorganizaçãopolíticae so- cialdoBrasil,apartirde1964,levavaaoexíliováriosintelectuais.Entreeles,PauloFreire.Nes- se período,a naçãochilena, que vivia um momentohistóricode liberdade democrática,nãosó acolhia o educador como, também, assumia oficialmenteseu método de alfabetização-cons- cientização. (Freire, 1979, p. 13-24) Chegando ao Chile, o contatode PauloFreirecom as assistentessociais, já na cidade deSantiago, apresentavauma linha mais progressistapara oServiçoSocial. Era umaforma de compreensão mais radicaldasociedade,a visãoquesóexistequandose vive a história. A con- junturapolíticadaquelepaísaofinal dosanos60nãosóproporcionavaascondiçõesfavoráveis ao aparecimento de uma nova mentalidadeentre os assistentessociais como, também, exigia novas perspectivas de a ~ ã o . ~ Para os assistentes sociais,conclamadosa superar o assistencialismoe participar do * A referência é sobre o texto redigido por Karsch (1982) e uma entrevista com Paulo Freire gravada por Karsch em 1983. Material inédito,cedido pela autora.A partirdaqui,todasascitações extraídasdessaentrevistaterãoapenasumareferência: Freire & Karsch, 1983. [...I qciandoeu chegueiao Chile, exilaclo,o que eu comecei aperceberjá nos primeirosencontros com os assistentes sociais ein Santiago,desde fora dauniversidade,éque haviauma linhamais progressista do Serviço Social. Eu nãodiria maispro- gressista que as niinhns arnigasdo Recife. Para mim, elas (as assistentes sociais do Recife)já tinham uma postura muito crítica do Serviço Social. Não uma posturamarxista, que elas nunca foram. Elas eram profundamente cristãs. Mas o mo- inento histórico do Brasil em que elas viviam não era ainda o momento,eu creio, de uma compreensão mais radical, que não se rlrí fora da história, tnas que se dá dentro da história. Essa eu começo a encontrar no Chile, dentro das condições histórico-sociais e politicas que a sociedade chilena vivia. (Freire & Karsch, 1983) Cd.sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  12. 12. Falandodaimportânciada participaçãodopovono processode mudançadaestrutura ideológica e política, a autora atribuía à vanguarda profissional a tarefa de assumir a cons- cientização dos homens quanto ao seu papel de sujeitos da hi~tória.~Era esse o compromisso a ser assumido pelos assistentes sociais. Conclamadosa superar o assistencialismo,os novos profissionaisdeveriam"entregar às pessoasos elementos que lhes permitamchegar às causas de suas situações deficitárias"frente à situação global. (Young, 1972, p. 37) Aautorafala, ainda,dohomemsujeito,dainserçãoe da participaçãona práticado po- vo, da necessidade e da importância do desvelamentocrítico da realidade. O diálogo é enfa- tizadocomo uminstrumentoimprescindíveldesseprocesso.Aautoraafirmaqueopovopossui formas próprias de "organização,mobilizaçãoe gestão". Cabe ao assistente social a tarefa de assessorar o povo na busca e na sistematizaçãode todo o instrumental técnicoque possa con- tribuir para que o processo de conscientização e participação seja a base para um "autêntico processo revolucionário"(Young,1972, p. 39). Todos esses temas- a conscientização, o diá- logo, o desvelamento crítico da realidade, a noção de Ser Humanocomo sujeito e não objeto -são questões apresentadase sustentadas na obra de Paulo Freire, nas suas reflexões, no pen- samento por ele difundido. Nessemesmoano- 1972-umnovotexto,vindoda Argentinae escrito por um grupo de assistentes sociais, traz de forma objetivao pensamentode Paulo Freire para o Serviço So- cial.Fundamentadonaobradoeducadorbrasileiro,ogrupochegaàelaboraçãodeumaproposta metodológica a ser aplicada pelos assistentes sociais. O artigo, que apresenta uma síntese da obradePauloFreire,foiescritocoma"intencionalidadededaraplicaçãoteórico-práticadeseus conceitos básicos ao Serviço Social" (Kisnerman et al., 1972, p. 5). Tendo por suporte toda a obra de Freire acessível até então- 1959 a 1972- o artigo tem, também, todas as suascitações retiradas do seu livroPedagogia dooprimido, publicado em Montevidéu em 1972. Os autores consideravamque o conteúdodesse artigo devia apoiar a reflexão crítica dosassistentessociaisfrenteàproblemáticaestruturaldasociedade.Afirmandoqueoresultado é perfeitamenteaplicávelaoServiçoSocialreconceituado,osautoresressaltama"importância com que a obra de Paulo Freire se reveste para nós que estamosem permanente busca de um Serviço Social que esteja de acordocom as necessidadeshistóricasde nossa época e de nosso país"(Kisnermanet al.,1972,p. 5).E nessecontexto,afirmavam,nãohaviaespaço paraa apli- cação de técnicas e outros instrumentos, pois o ponto fundamental da ação está na atitude de compromisso dos assistentes sociais com o processo de transformaçã~.~ O texto prossegue analisando alguns pontos de forma específica. São enfocados algunsaspectosdocontextosocialprópriodospaísesda AméricaLatina,como:ahumanização e adesumanizaçãodo homeme adominaçãopolítico-ideológicaàqualestãosubmetidasasso- ciedadessubdesenvolvidasdocontinentelatino-americano.Aindadentro doconteúdo analíti- codotexto,osautoresapresentamumasíntesedosníveisdeconsciência,os quaissãosimilares àqueles que Paulo Freire apresenta no livro Educação como prática de liberdade. Apósaapresentaçãodessasínteseanalítica,osautoresfalamdoServiçoSocial,dodiá- logo, dos temas geradores,e finalizam mostrando um processo metodológico a ser assumido '[...I sua ação deve contribuir para:(a)a compreensão cada vezmais conscientedo processo que estamos vivenclo, para ga- nhar maior participação nele; (b)LI libertação de mitos impostos pela burguesia através do processo de desmistifcação; e (c)a emergência de novos valores gerados na prcítica social do povo.(Young, 1972, p. 37) [...I cunsideramosfundamentala atitude do assistente social e não dos instrumentose técnicas de aplicação. Estasde nada valem se a atitude profissional não estcí autenticamentecomprometidacom o pensare atuarparaessa transformação. (Kis- nerman et al., 1972, p. 5-6) Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  13. 13. viávelhistóricodasociedadechilena,apresençade PauloFreireparecetersido umainfluência decisiva paraos rumosda profissãonaquelemomento.As reflexõessobre o papel do trabalha- dorsocial noprocessodemudança: escritasemSantiagonoanode1968,foramfeitasparauma ocasiãoespecial vividapeloautornaquelepaís:refletirsobreo tema,numencontrode técnicos que atuam em instituições governamentais. Nasreflexõesqueapresentasobreotrabalhodoassistentesocial,oautorcriticaa men- talidadee ocaráterassistencialistada açãoprofissional,afirmandoqueo assistentesocial,"co- moeducadorqueé, nãopodeserumtécnicofriamenteneutro"(Freire,1977,p.39;Freire,1986, p.49).Háqueclarificarsuaopçãopolítica,umavezqueessaopçãoéquevaideterminaropapel, os métodos e as técnicas de atuação do assistente social. Analisandoafrasetemadoartigo,oautorafirmaqueopapeldotrabalhadorsocialcon- sisteematuarjuntamentecomoutrosprofissionaisnaestruturadasociedade.Oartigocontinua, fazendo umparaleloentreo trabalhoreacionárioe o trabalhopolítico,a partirda ação doassis- tentesocial.Nesseparalelo,oautorfaladanecessidadedeoassistentesocialmudarsua percep- çãoda realidade,a qual édistorcidapelaideologiadominante.Nesseprocessodesuperação de sua visão de sociedade, há a necessidadede uma apropriação,de uma inserção profissional no contexto ~ocial.~ Nessamesmaocasião,oautorafirmaque,nessanovasociedade,aaçãodosassistentes sociaisdeveráserdesenvolvida"com,jamaissobreindivíduos,aquemconsiderasujeitose não objetos,incidênciasde sua ação"(Freire,1978,p. 40;Freire,1986,p.51). Aofinalizarsuas re- flexões,Freireatribuiaotrabalhadorsocialopapeldeagentedesencadeadordeumaaçãocons- cientizadora,juntoaosindivíduoscomquemtrabalha.Poisé nesseprocessoqueo profissional também se con~cientiza.~ As reflexõesde PauloFreire,que atendiamàsolicitaçãodos profissionaisnum deter- minadomomentodasociedade,iriammarcarprofundamenteaquelesprofissionais.Suasidéias ganhavam corpo entre os assistentessociaischilenose redirecionavamo curso doMovimento de Reconceituação.Afertilidadepor que passavao País propiciavao amadurecimentodas no- vasidéias, fazendocomque osassistentessociaischilenosencabeçassemoMovimentode Re- conceituação. As novas perspectivasde ação "deveriam contribuir, dentro das circunstâncias concretasqueviviaopaís"(Karsch,1982,p.10).Eeraexatarnentenaqueleperíodo,1968-1973, quando a naçãochilenaviviasuaexperiênciademocráticaeculturalsob asdiretrizesde umgo- vernodemocrata-cristão,que o Movimentode Reconceituaçãorompiasuas fronteirase seex- pandiapelasterrasdocontinente.Énesseexpandir-sequeainfluênciadopensamentode Paulo Freire sefaz de forma decisiva. Os textos publicados nesse períodotraziam algumas questões bastante objetivas, as quais permitem uma análise efetiva dessa influência. O artigo vindodo Chileem 1972 (Young, 1972, p. 35-39) apresenta as reflexões dos assistentes sociais sobre a especificidadedo Serviço Social no contexto que vivia o País. Na- quela sociedade os papéis tradicionaisdo Serviço Social - o papel educativo e o papel coor- denador-vinhamtomandoocontornoespecíficodo real coletivoe a suaespecificidadesurgia dasnecessidadesconcretasdapopulaçãonacontribuiçãocom"açõeseducativasecoordenado- ras de massa". (Young, 1972, p. 37) Hoy en e1 ServicioSocial, n. 16-17, p. 89-104, 1969. Mudançaque"implica uma apropriaçãodo contexto;uma inserção nele;um nãoficar aderidoa ele; um nãoestar quase sob o tempo, mas no tempo". (Freire, 1969, p. 104; Freire, 1977, p. 40; Freire, 1986, p. 60) v...]tentar a conscientização dos indivíduoscom quem trabalha,enquanto ele se conscientiza, poiseste e não outro, nospa- rece ser o papel do trabalhador social que optou pela mudança. (Freire, 1986, p. 60) Cad. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  14. 14. pelosassistentessociais nodesempenhodesuasfunções.Aoanalisara necessidadedeoServi- ço Social adquirir uma visão crítica para superar as contradições sociais, os autores definem com umafrase de Paulo Freire a necessidadedo"reconhecimento da razão de ser desta (visão crítica), a fim de conseguir umaação transformadoraqueincidasobre essa realidade,a instau- ração de uma ordem diferenteque possibilitea buscadeser mais". (Kisnermanet al.,1972,p. 9) Falando da práxis, da inserção, da superação da contradição assistente-assistido, da importância do diálogo, o grupoelabora uma propostabaseada na tarefa de implementar dis- cussões que se iniciem nas contradições básicas e existenciais da população trabalhada. Para tanto,oconteúdoprogramáticoéorganizadoatravésdolevantamentodetemasgeradores,num processo análogo ao processoapresentadopor Paulo Freire. O universo temático pode contar compalavrascomocasa,rancho,patrão,salário,esedesdobraratésituações-limites,taiscomo: falta de moradia, déficit salarial, déficit alimentare muitos outros. Apropostametodológicaelaboradaporessesautoresprevêa participaçãoativa,siste- máticae coletivanumprocessode trabalhoquepossuiduasfases bemdistintas.A primeira,de- nominadaconscientização,consistenomomentoemquetodaapopulaçãoenvolvidavaiinves- tigar, vai conhecer o real vivido.Vai, portanto,de forma sistematizada,conhecer as dificulda- des da sua própria realidade. A medidaque essainvestigaçãose amplia,vai sendoampliadotambémo nívelde co- nhecimento e análise desses indivíduos, uma vez que os problemasencontrados deverão ser compreendidos na sua complexidadeconjuntural.A partirda correlaçãoe da interligação que o investigadorconsegue estabelecerentre os fatos apreendidospela análiseé que esses inves- tigadores deverão levantar as alternativasde ação. Segundo os autores, o "desvelamentocrítico"da realidadese transforma num"fazer educativo"à medida que o investigador"se conscientiza"de sua realidade, ao mesmo tempo em que permite a conscientização de quem é investigado. É o desencadeamentodo processode uma ação multiplicadora,em que pesquisador epesquisadosãosujeitosdamesmaação.Nesseprocesso,afaseinicialconsistenodesvelamento críticodarealidade,naanálisedassituações-problemascaptadas,e nolevantamentodealterna- tivas de solução. Se o conhecimentoe a análisesão ocentroda primeirafase, a segundafase desse pro- cesso será caracterizada pela ação propriamentedita. Essa ação consiste na organização das massas, agoraconscientesdaimportânciae da necessidadede umesforço comum.Tal esforço consistiana buscaconjuntadosmeiose dasalternativasdesuperaçãodassituações,doslimites entãoexistentes.Eessassituações-limiteseramvistas,também,como uma"totalidadeestrutu- rada".Inseridosnesseprocesso,todosossujeitosestariamvivendodeforma permanentee pro- gressivaos meiosdecomunicaçãopara umaparticipaçãoativareal no processode transforma- ção. "A transformação através da práxis". (Kisnerman et al., 1972, p. 18) Oespaçocriadonaconjunturade umademocraciacristã-o momentopolíticochileno -propiciavaaoMovimentodeReconceituaçãoascondiçõesnecessáriasparaseefetivarogran- desaltoqualitativoquebuscavamos assistentessociais."Aíentãoeu achoqueoServiçoSocial avançou realmente"(Freire &Karsch,1983).Estavaaíinauguradaa novafasedoMovimento, que vai alcançar a receptividadeentre os assistentessociais de toda a América Latina. O ideárioda participaçãoe daconscientizaçãocorriaas terrasdocontinente,trazendo aoServiçoSociala visãodeumhomemnovoeaesperançadeumanovasociedade.Omomento político vivido no Chile"desafia para uma nova visãodo social:o social político,o social que transformaem um novo mundoe realidadede opressãode passagempara uma realidadede li- bertação". (Karsch, 1983, p. 13) Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  15. 15. Aindaem1972, uma resenhabibliográficaredigidaporCanton(1982) apresenta uma síntese do livro Princípios doServiçoSocial, onde o terceirocapítulo é dedicado especifica- menteaosvaloresdoServiçoSocial.Nocomentárioquefaz,oautorafirmaquetalvezsejaaque- leo"melhorjáconseguidocomforteinspiraçãonasidéiasdePauloFreire".(Canton,1972,p.81) Em 1974, o livro da professorachilena, Maria AngélicaGallardo Clark, trazia, tam- bém,o assuntoemquestão.Jánaintrodução,aautoraenfatizavaaimportânciadeoServiçoSo- cialbuscar uma teoriaqueviessefundamentarsuaação.Umateoriaquepudessenascer"daraiz da sua própria prática social em seu enfrentamento metódico e persistente com a realidade" (Clark, 1974, p. 5). Em seguida, afirma que cabe aos assistentes sociais "atuar para transfor- mar".SegundoClark,osassistentessociaispossuemvárioscaminhosparaaformulaçãodeseus objetivosde"libertação"doshomens(Clark,1974,p.5-10).Eentreos caminhoscitados, a au- tora afirmaque"o própriométododeconscientizaçãoé já umainstânciametodológicaqueini- cia a abordagemde um assuntoparticularda práticasocial,ou seja,o analfabetismoou consci- entização pura". (Clark, 1974, p. 7-8) O capítuloquatro desse mesmolivro(Clark,1974,p. 75-142), é dedicado aduas pro- postas metodológicas para o Serviço Social. A primeira,denominadaMetodologia Básica ou Metodologia Geral, tinha o seu embasamentoteóricosustentadopelo Materialismo Histórico e Dialético. A segunda proposta,denominadaMetodologiada Conscientizaçãofora recriada, segundoClark,peloprofessorMarceloFerradaNoli-dauniversidadedeConcepción-apartir do método de alfabetizaçãode Paulo Freire com os camponesesbrasileiros. A autora prosseguefazendo uma análisecomparativaentre o processode alfabetiza- ção de Paulo Freire e o processode conscientizaçãopura.Nessa análise,faz váriascitações do educador e levanta todas as etapas do seu processo de educaçãoconscientizadora,assimcomo é apresentado no livro Educação como prática da liberdade. Após essa análise, afirmando serconvenientecomeçardoesquemaelaboradoapartirdométodoPauloFreire,Clark apresen- ta para o assistente social um processode trabalhoque segue as mesmasetapas do método de alfabetizaçãodoeducadorbrasileiro.Essemodeloera, também,análogoàqueleformulado por Kisnerman. Asidéiasde PauloFreireacenamparaumnovométododeaçãoparaos assistentesso- ciaislatino-americanos.EoMovimentodeReconceituação,quetemporberçoa naçãochilena, levanoseu bojoa marcadaatitudemetodológicapropostapelopensadorbrasileiro.Nessafase, os textos do Movimentode Reconceituaçãovêm impregnadosdo ideário de Paulo Freire. Pa- rece mesmoqueessa influênciavai um pouco mais além, jáqueforneceaos assistentessociais a noção de uma sociedadedual e contraditória.Esses profissionaisprosseguemsuas reflexões dentro de uma nova visão de mundo e de sociedade.E toda uma geraçãode assistentes sociais passava a buscar uma percepçãodialética da realidade social. É como se aquele fosse o momento em que toda uma categoria toma consciência da existênciada hegemoniadasclassesdominantes,dascontradiçõesda sociedadee dopapelque aprofissãovinhaexercendoatéentão.9EnaentrevistaconcedidaaKarsch,opróprioPauloFrei- re afirma que"analisandohistoricamente,eu achoqueeu tenhoa vercom o ServiçoSocial nu- [...I eu tenho a itnpresscioque na medida em que esses assistentes sociais afirmamque essa icléiade conscientização deve embasar a açãode toclosaqueles que trabalhamcomo ser humanona suavida social, eles (osassistentes sociais),enquanto categoria profissionalnesse Movimentode Reconceituação,tomamconsciênciaclafunçãode uma hegemoniadaclasse do- minante. Portanto,quandodizem que esta deve ser aação doassistente social, conscientizaro povo,eles própriosse consci- entizarn. Eaessa idéiaque PauloFreire responde:é, euacho que você tem razão. Daia afirnlaçãoque eufiz h6 muitotempo. Que nofurzclo ninguétn conscientizaninguém. Nós nos conscientizamosnuma prática política definida.Até o momento em que a gente continua pensando que vai conscientizar o não conscientizado, a gente tem um certo vestígio elitista. (Freire & Karsch, 1983) Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  16. 16. ma perspectivadialética".Econtinualogoem seguida:"de umladoeu insisto na marcaque al- gumas figuras do Serviço Social me deram,indiscutivelmente.Mas, de outro, eu acho que vi- rei uma presença real na América Latina, no campo da educação popular"(Freire & Karsch 1983).Frente aessasquestões,é possívelafirmarqueoMovimentodeReconceituaçãocarrega apresençadePauloFreirenomomentodebuscaqueoServiçoSocialempreendeenquanto uma categoria profissional na América Latina. SeainfluênciadePauloFreireéassimtãomarcantenoServiçoSociallatino-america- noapartirdoMovimentodeReconceituação,quecausasteriamessainfluência?Aqui,algumas hipóteses podem ser levantadas: a experiência político-pedagógicaadquirida no nordeste brasileiro, através de um processo que posteriormentedenomina de conscienti~ação,~~e a trajetória de vida que leva PauloFreiredo nordestebrasileiroaoChilefazem doeducador umafigura míticaentreos profissionaisque têm nosocialseu objetode trabalhoe, portanto,es- tão cônscios das limitações de suas ações; a importância que Paulo Freire atribui ao social, os laços que o prendem aos assis- tentessociais-jáa partirdo Recife-e a reflexãocríticaquefaz sobre o trabalhodo ServiçoSocialfazemdoeducadorumapresençaesperançosaentreos profissionais, nummomentoemqueacategoriapassavapor umafasedegrandesquestionamentos sobre a validade de sua ação; um educador que sintetiza o pensamento cristão e faz uma conjugação própria para uma propostade libertaçãodo jugo de dominaçãoe opressãoaponta aos assistentes sociais uma possibilidadede práticaprofissionalque nega e superaos antigos valo- res que orientavam o trabalho profissionalconservador,então contestado. O MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃOEM BELO HORIZONTE Os caminhos mineiros OMovimentode ReconceituaçãoiniciadonoChile nos últimosanos da década de60 percorria os países da América Latina e, já nos primeirosanos da década de 70, entrava mar- cadamente na Escola de Belo Horizonte. O estudo do material encontrado sobre aquele período," bem como os depoimentos obtidos junto a professorese diretoresque atuavam nessa Escola entre 1969 e 1975, mostram queo modelodeassistentesocial,formadoatravésdeumaperspectivamodernizantedesenvol- vimentista,necessitavade umredirecionamento,jánofinaldos anos60.Do pontode vista pro- fissional, a necessidadedeformarassistentessociaiscom umanovamentalidadeleva aogrupo de professores a preocupaçãode buscar novos caminhos. Essa preocupação refletia já os pri- meiros questionamentosàs idéias originadasem Porto Alegre, em 1965.Esses questionamen- "' [...I na ijerdarle, toda a idéia de conscientizaçáo, náo da palavra mesmo, porque a palavra náo foi cunhada por tniin, mas o queela encarnacomoprcíxis político-pedagógica, vemse constituindoemmimna medidaemque eu pratiquei.Foiaminha prhtica, foi o meucompromisso comos trabalhaclores,com os camponeses; foi o meuencontroconstante, e não comarmas, mas constante com trabalhadores urbanos e trabalhadores rurais no Nordeste, em Pernambuco,que vieram perfilandoo que depois eu chamei de conscientização. Não foi propriamenteuma reflexão teóric. Se fez sobre a prcítica feita, sobre a prcítica vivida, sobre a prcítica realizada. E foi exatarnente aquela primeira prática. E interessante salientar exatarnentea prcítica que eu tive no SESI''. (Freire & Karsch, 1983) 'I Método Básico (I969); A Prática como Fonteda Teoria (1971); Análise Histórica da Orientação Metodológicada Escola de Serviço Social da UniversidadeCatólica de Minas Gerais (1974). Cnd.serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71,out. 1997
  17. 17. tos eram, então, reforçadosna Escola por um dos professores que retomava de cursos de pós- graduação realizados no continenteeuropeu. ApresençadaEscolanoencontrorealizadoemCaracasem1969marcavaoiníciodas novas idéias para Belo Horizonte. Naquele encontro os representantesda Escola mineira to- mavamconhecimentodoMovimentodeReconceituação,assimcomovinhaseprocessandono Chile. Ao regressar,os professoreschegavamaBeloHorizontetrazendoumdocumentochile- nodenominadoMétodoBásico,elaboradopelaEscoladeServiçoSocialda UniversidadeCa- tólica de Santiago do Chile. E já em 1970, os professores de Belo Horizonteelaboravamuma nova propostapara a formação profissionaldos assistentessociais mineiros. Tal documento,apresentado no En- contro Nacional da Associação Brasileirade Ensino de ServiçoSocial- ABESS-, realizado na cidade de Florianópolis,Santa Catarina, naquele mesmo ano, se tornava"o primeiro tra- balho de Reconceituaçãoapresentado no Brasil". (Entrevista M) Aindaem1970,oMétodoBásicocomeçavaainfluenciara formaçãodos novosassis- tentessociaismineiros.Apropostadeum únicoprocessodetrabalhoparaoatendimentodoca- so,dogrupoe dacomunidadepassavaaserdiscutidaatravésdasdisciplinasespecíficasdoSer- viçoSocial.Inicia-sealiacirculaçãodasidéiasdoMovimentodeReconceituaçãoChileno.Pa- raestudoediscussãodessasidéias,odocumentoeraadotadocomotextobásicoparao processo deformaçãonumperíodode adaptaçãode novosconceitosa umaestruturacurricularaindaem vigor. Aleituradodocumento-o Método Básico-mostraqueo grupochileno,partindode uma análiseda realidadesocialque vivia o país,apresentava umacríticaao papeldo assistente socialfrente àquelasociedade,e elaboravauma novapropostade ação paraos profissionais.O grupo, que vivia uma experiênciademocrática e cultural- uma forma de democraciacristã- 41 elaboravaentão novasdefiniçõesparaoServiçoSocialcomoprofissão.Frenteàrealidadeana- lisada, o grupofaz a opção pela mudançado sistemadominante, recusa o papel assistencialdo ServiçoSocialefaz a opção por um novopapel:odeeducador popular.Assim,o assistenteso- cial deveriacumprirsuafunção básica, atuando junto às organizações populares com as quais deveriadesenvolversuaaçãoatravésdeassessoriaaprojetosespecíficos,contribuindoparaque tomassemconsciênciade sua situação. As organizaçõespopulareseram, então, o núcleo básicode trabalhodo assistenteso- cial, junto às quais passavam a desempenharseu papel de educadores.Tendo o diálogocomo pontofundamentaldeseu papel,seusobjetivosprofissionaisestarãosempreemfunçãodosgru- pos aos quais prestarãosua assessoria. Nodesempenhodesuafunção,oassistentesocialdeveráelaboraredesenvolverasfor- mas possíveisde participação.Nesseprocesso,o profissionalé o responsável pelodesenvolvi- mento de uma "ação ativa e cada vez mais dinâmica e crítica". (Método Básico, 1971) Quanto ao diálogo, ao papel educativo,à assessoria, o grupo chileno apresenta uma proposta metodológica que deve ser desenvolvida numa linha participativa, capacitadora e conscientizadora.Ainda nessa abordagem geral e introdutóriado documento,o grupo afirma que"essa metodologiasótemsentidona medidaemqueestádeterminadapelarealidadeinves- tigada e analisada em toda a sua complexidade".(Método Básico, 1971, p. 50-51) E, para desencadearessa ação, para ter as condições necessárias para o desempenho da sua função e assessoria, o assistente social deverá estar teoricamentecapacitado. Deverá, portanto,possuir"um marcodereferênciateóricaquelhepermitainterpretararealidade".(Mé- todo Básico, 1971, p. 50) Cud. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  18. 18. A partirdessasdefiniçõesgerais,odocumentoapresentaumdetalhamentodos passos metodológicosque propõe.O estudo dessa metodologiamostra que o processoé formado por um conjunto de etapas quesão, ao mesmo tempo, independentese interdependentes,Indepen- dentes, nosentidode quecada umadelaspossuiumaestruturaçãoprópria,com dinâmicae ob- jetivostambémpróprios.Porém,nadinâmicageral,essasetapassãointerdependentese desen- volvidas de forma simultânea.Sua execução"supõe umacomunidadeou grupo social que in- vestigasua realidade,interpreta,programa,realizaas açõesprevistase avaliaos resultadosem função dos objetivos formulados". (Método Básico, 1969, p. 77) O trabalhoéiniciado peloenvolvimentodos gruposnumestudo exploratório,através doqual assistentesociale populaçãoenvolvidabuscam,juntos,oconhecimentodesua própria realidade. Trata-se do processode investigaçãodo seu universoexistencial. Uma vezlevantadosos problemasdesuarealidadeespecífica,teminício umprocesso de análise desse contexto.Entretanto,o estudo dessa realidadeparticularsó tem sentido se es- tiverfundamentado por um"marcoteórico geral"atravésdo qualse possaentender todo o sis- temasocial.Essemarcoteóricoéopontofundamentaldessemomento,porqueéelequevaiper- mitir que sejam estabelecidas as relaçõesexistentesentre o contextosocial particular- inves- tigadopeloselementosdogrupo-eocontextogeraldasociedade.A partir,então,desseestudo da realidadesocial noseu contextogenérico,serãodeduzidasas teoriasintermediáriasque vão explicar os fenômenos específicos que ocorrem no sistema. Essas teorias intermediárias, por suavez,sãotambémfundamentaisnoprocesso,namedidaemque"nospermitemdeduzir apar- tirdelas,osproblemas(aquelesencontradospelapopulação)queestãoseoriginandonosistema 42 social". (Método Básico, 1971, p. 52) Apóso estudoe a análiseda realidadesocial-nesse processode reflexãoteórico-prá- tica-passa-seaoestudodarelaçãoexistenteentreosproblemasanteriormenteestudados. Nes- se momento, procura-seestabeleceras relaçõesde dependênciae interdependênciaexistentes entre os problemasencontradosnocontextoespecíficojá conhecido.Aindanesse mesmopro- cesso de análise,sãoestabelecidastodas as relaçõesde dependênciaexistentes entre essecon- texto social específico e a macroestruturada sociedade, buscando os seus aspectos significa- tivos e contraditórios. Todoesse processo deconhecimento e análise docontextosocial vai, naturalmente,- levar esses grupos a uma tomadade decisão frente à realidade conhecida. Os grupos vão, en- tão, levantar alternativas de solução e elaborar os planos, organizando-se para a execução da ação. Ora,seogrupochilenoconsideraquea"consciênciacríticaédespertada,principalmen- te, participando-se do conhecimentoda realidadedentro de um contexto do país, admirando- a atravésda interpretaçãodiagnósticae imaginandonovasformasde vidaatravésda planifica- ção"(MétodoBásico, 1969, p. 80), aqui está definidoo principalpapel do assistente social: o deagenteresponsávelpordesencadear,atravésdefasesouetapas,umprocessodeconhecimen- to,reflexãoeanálisedasverdadeirascondiçõesexistenciaisdegruposecomunidades,levando- os a tomar atitudesfrente aessa realidade;é o papel deconscientizadore organizadorda popu- lação.Oestudodessapropostametodológicamostraqueaconscientizaçãoéocaminho natural e obrigatório para a organização da pop~lação.'~ '? OMétodo BH define como conscientização "o processo através doqual as pessoas elevam seu nível de consciência, de for- ma a: compreender a situaçãoconcreta na qual seencontram, analisar as condições reais e atuais de sua existência,exprimir seus verdadeiros interesses e criarformas deação paraconcretização dessesinteresses. [...I A organizaçãoéentendidacomo o processode coordenação sistemática dos interesses de determinado grupo, visando alcançar metas específicas" (UCMG, 1974, p. 19-20; ISI n. 4, 1976, p. 110; Santos, 1982, p. 41). O estudo recente, de Souza (1982) define para"conscientização Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  19. 19. A partirdessas questões,pode-sededuzirque,sendoo desenvolvimentodaconsciên- cia crítica o caminho naturale obrigatóriopara aorganizaçãoda população,então, a conscien- tizaçãoé um processoquesetranscendenomomentoemquesecompleta.Essatranscendência ocorre na medida em que a ação implementada pelo assistente social pode ser, também, ge- radora de valores novos. Os grupos trabalhadospoderãocriar novas formas de participação e de organização. Poderão, também, estabelecer relações intergrupais, ampliando, portanto, o sentido da ação. São osefeitos multiplicadoresda açãoe, nessesentido,o papel doeducador atribuído ao assistentesocialfaz dele umeducadorpolíticoporexcelência.Essa novafunçãovemcarac- terizar, em síntese, a mudança da própria naturezado Serviço Social. De distribuidor e admi- nistradorda assistência, papel a ele atribuídodentro da divisãosocial do trabalho, o assistente social passa agora a ser educador político e articuladordas classes populares. Diante desse contexto, porém,cabe ressaltarque as definiçõeselaboradas para o tra- balho profissional- a conscientização,a participação,a educaçãosocial e política-são ques- tõesdefinidas,defendidasefundamentadasnoideáriodePauloFreire.Pode-semesmoafirmar que o documentochilenocomportaasíntesede umapropostaquese desprendedo pensamento do educador brasileiro. Se a partirde textosde PauloFreiresãoelaboradasnovasfinalidadesda açãoe um no- vo papelparaoassistentesocial,o processometodológiconãofogeaessainfluência.Umaaná- lisecomparativa das etapas metodológicas-denominadasde investigaçãosignificativa,inter- pretação diagnóstica, programação,execução e avaliação- apresentadas no Método Básico mostra que elas são as mesmas etapas propostas pelo grupo argentino. A metodologiaentão elaborada pelo grupo argentino apresenta as etapas de investi- gaçãoexploratória,análisedascontradições,levantamentodas alternativasdeação,estudo das formas deencaminhamentodaação.Os doisdocumentos,ou asduas propostas,têm na partici- pação ativae permanentedos indivíduosdurantetodas asetapas de trabalhoo pontocentral da açãoprofissional.Éesseoprocessoqueogrupodefinecomo"permanentecapacitaçãodaspes- soas, o que implicará a sua participaçãoativa no processo de transformaçãoatravés da práxis" (Kisnerman,et al.,1972,p.18).Os passosmetodológicosapresentadosno MétodoBásico são tambémos mesmospassos propostospor Clark quandorecuperaas etapas do método de Alfa- betização e Conscientização de Paulo Freire, que propõe etapas similares para o trabalho dos assistentes sociais. Esse estudo comparativodas propostasmetodológicasleva também à observação de que o documentochileno-o Método Básico- traz um certoamadurecimentodas elaborações anteriores- Clarke Kisnerman.Isso ocorre na medidaem que,fundamentado no pensamento do educador brasileiro,o grupo chileno mantém as idéias da conscientização,da organização, da capacitação e da transformação,agora organizadas num conjunto de objetivos, princípios, métodos e técnicas. Era todo esse conjunto teórico-metodológicoque a Escola de Belo Horizonte incor- porava iformaçãoprofissionalapartirde1970,quandooMétodoBásicopassavaaserodocu- mentoprimordialdaEscolaMineira.Uma vezassumidooMétodoBásico, osprofessorespas- saram a uma fase de estudo, análise e crítica. O processo de reflexão e crítica então desen- o processoemqueapopulação,apartirdesuarealidadeexistencial,passaaampliarasuapercepção,aestabelecercorrelações dejuízos críticos,e atomaratitudesem face dela"e pororganizaçãoo"processoemqueasações grupaisdesenvolvidas pela populrição passam a ser assumidas como elemento de força social para se contraporem aos seus problemas existenciais". (Souza, 1982, p. 132-133) Cad. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  20. 20. cadeadopelogrupodeBeloHorizonteéconsideradocomoummododeincorporaçãodaEscola ao Movimento de Reconceituaçãoe leva os professoresàelaboração de uma proposta de mu- dança radical no processo de formação profissional. Tais reflexõesdesembocamna estruturaçãode um novo documento,que tinha por tí- tulo"A PráticacomoFontedaTeoria".Nessedocumento-elaboradoem1971-osprofessores apresentavamumaabordagemteóricasobrea práticacientíficae analisavama práticadoestá- gio oferecido pela Escola desde a sua criação. Mediante essa análise, o grupo apresenta uma propostade reestruturação da prática profissional,com o "objetivo de fazer com que a práticaescolar a ser organizada pela Escola deServiçoSocial de BeloHorizonteseconstituaem práticateórica"(UCMG,1971,p. 16).Pa- ra cumprir esse objetivo, o grupoelabora um conjuntode definiçõesbásicas para essa prática: os objetivos, o método, a área de atuação e a teoria. Um corpo teórico deverá ser o suporte da açãoe oferecer os fundamentos à nova es- trutura de prática. "Essa teoria, cuja perspectiva é a de uma visão dialética do mundo, seria aquela que nos desse elementos não só para interpretar a realidade, mas para transformá-la" (UCMG, 1971, p. 16). A estrutura de prática elaborada nesse documento é que dá origem ao Método BH. Um estudo detalhado dos objetivosdefinidos pelo grupo mineiro, nesse documento- base de 1971, mostra que são os mesmos elaboradospelo grupochileno no MétodoBásico:a organização,aconscientizaçãoe acapacitação.Oobjetivode capacitação,entretanto, aparece 44 aquicom umadefiniçãomaisclara,maiselaboradaque nosdocumentosanteriores.Falando de cada um desses objetivos que assume, o grupo apresenta a capacitação como decorrência do processo de conscientização, no qual os indivíduos aprendema atuar de forma técnica, social e política.I3 Ainda nesse mesmoconjunto de definições,os professoresmineiros afirmam que as comunidades operáriasdeverão ser a área prioritáriade atuação.14Na opinião do grupo, entre- tanto, essa reestruturaçãoda prática a partir do estágio de seus alunos leva necessariamente a umareestruturaçãodaformaçãoteórica.A partirdessaconclusão,odocumentotraza proposta deelaboraçãode um novocurrículoqueestejacentralizado"emtrês grandesmomentosbasea- dos no método científico: etapa do conhecimento, etapa da verificação, etapa da avaliação" (UCMG: 1971, p. 22). Aelaboraçãodessedocumentoinauguravaentão uma novafase para aEscoladeBelo Horizonte. Já em 1971, o esquema de práticaformulado (UCMG, 1971, p. 19-2l), começava a ser aplicado nos camposde estágio. Nesse mesmoanoo grupoelabora tambéma nova estru- turacurricular, entãoimplantadaapartirde1972.As propostascontidasnessedocumentoéque fizeram iniciar, entre professores e alunos, um período de estudo, reflexão e discussão per- 1 manentes, que levaram à elaboração de um novo texto. O estudo desse novo documentomostra que o grupo mineiro, preocupadoem captar oespíritodoMovimentode Reconceituação,apresentaumasistematizaçãodos questionamen- tos,estudose reflexõesquevêmfazendoe,partindodeumabreveanálisehistóricadaevolução doServiço Social no Brasil, procurasituá-lo nocontextolatino-americano.Nesse processode I I 3 [...I a capacitação é o processo decorrente do anterior (a conscientização), pelo qual os indivíduos se habilitam a atuar técnica, social e politicamente. (UCMG,1971, p. 17) l4 [...I na seleção das áreas de treinamentoprofissionalserãoainda observadas como objeto de prioridade aquelas que apre- sentamuma populaçãocomtnaior potencialde transformaçãosocial-comunidadesoperárias(urbanas doucamponesas - rurais). (UCMG, 1971, p. 17- 18) Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  21. 21. análise,ogrupofala tambémdoMovimentodeReconceituaçãoefaz umacríticaàmetodologia clássica para, em seguida, abordar o método chileno. Considerando os reflexosdo ~ovimentode Reconceituaçãosobre a linha metodoló- gica, em "1971, apesar de permanecera estrutura metodológicaclássica, começa-se o estudo doMétodoBásico,quepropunhaumaestruturaúnicaaseraplicadaemqualquersituação,seja o caso, o grupo, a comunidade"(UCMG, 1974,p. 9). E assumindoo MétodoBásico, a Escola assumia todas as principais questões apresentadaspelo método chileno: o diálogo, o papel de educador,osobjetivosformulados,oprocessometodológico.Conseqüentemente,assumetam- bém a revisão do papel assistencialista,os questionamentosàs estruturas sociais, e a necessi- dade de encontrar alternativas próprias para o Serviço Social na realidade latino-americana. (UCMG, 1974) Feitaa análise,o grupoapresentao MétodoBH (UCMG,1974,p.13-35;SérieISI n.4, 1976,p.79-137;Santos,1982,p.11-68),afirmandoqueelesurgeda6'tentativadeavanço"dentro do Movimentode Reconceituaçãoe que a sua"concepçãobusca a superação do idealismo,ori- entando-seem direção a uma visãoobjetivada realidade,não apenas paraexplicá-lamascom o objetivodeparticiparprofissionalmentenoprocessodesuatransformação".(UCMG,1974,p.12) Oestudo desse método-BH-mostraqueele tem naTeoria do Conhecimento um de seus pressupostosteóricos fundamentais para a sustentaçãoda prática social.É a partir dessa abordagem teórica que o grupo define sujeito e objeto do Serviço Social como elementos in- terdependentese que estão em constante processode interação e reciprocidade. Após a definiçãodosfundamentosteóricose filosóficosque sustentam o novo méto- do, o grupo fala da importânciade um marco referencialteóricoque dê subsídios para a inter- pretaçãoe análiseda realidadesocial.Eessemarco referencialde análisedeveserformado por elementos teóricos"que antecedem a ação e são a base para o conhecimentoe a interpretação da realidade global, tendo em vista uma intervenção profissional transformadora" (UCMG, 1974, p. 17). Para tanto, esse referencial teórico deve conter dois níveis distintos. O primeiro é aquele que oferece subsídios para uma análiseglobalizadorada estrutura social no seu con- texto econômico, sócio-políticoe ideológico.O segundoé aquele que permite ao profissional analisarocontextoespecíficodesua prática,proporcionando-lheascondiçõesnecessáriaspara o estabelecimento das relações de dependênciae interdependência,dessa prática específica, com a macroestruturada sociedade.Finalmente,o grupoconcluique aTeoria da Dependência é umdossubsídiosbásicosparaumaanáliserealdasociedadebrasileira.Ora,seosfundamentos e o referencial teóricoadotadospeloMétodo levam a umaanáliseconjunturalda realidade so- cial,seusobjetivossópoderãoserdefinidosapartirdomomentoemquesetemcomoreferência asituaçãodessaconjunturae aintencionalidadedetransformá-la.Frente aessaconstatação,"a transformação da sociedadee do homem se apresentamcomo a metafinal para o Serviço So- cial" (UCMG, 1974, p. 19). Meta que só será alcançada através dos objetivos intermediários deconscientização,decapacitaçãoedeorganização,tendona"participação"oelementofunda- mental de todo esse process~.'~ Oestudocomparativodosdoisdocumentoselaboradospelogrupomineiro-aPrática como Fonte de Teoria, de 1971,e o MétodoBH- mostraque este mantém a mesma estrutura l5 "[...I a delimitaçãodos objetivos profissionaisé o resultadoda interpretaçãoda realidadee a constataçãoda necessidadede sua transformação";sua definição surge a partir de uma referência:"a situaçãoconjuntura1e a intencionalidadede trans- formá-la";suaconcretização"exige a delimitaçãode objetivosmeios.Uma abordagemanalíticada realidadebrasileiraen- quanto sociedade dependente fornece subsídios para afirmar que na consecução das metas finais serão objetivos meios do Serviço Social:aconscientização,acapacitaçãoe aorganização".(UCMG,1974, p. 19-23; ISI,n.4,1976, p. 106-109; San- tos, 1982, p. 38-40) Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  22. 22. metodológicadaprática,entãoelaboradaporaquele.Easdefiniçõesalicontidassão,todaselas, aquelas já elaboradas pelo grupo chileno no MétodoBásicode 1969. Agora, porém, o grupo mineirodefine,de modosistemático,novoselementosquevãodar maiorconsistênciaaocorpo metodológicoinicial.Eentreesses,ogrupomineirodefineosfundamentosteórico-filosóficos, formula um referencial teóricoque permitaa formaçãode uma nova visão da realidade, estru- turao objeto,os objetivose uma área prioritáriade ação. Os passosmetodológicosdo Método Básico são aqui reestruturados numa conjugação das etapas de prática do método com mo- mentos específicos de construção teórica. (UCMG, 1974; ISI n. 4, 1976; Santos, 1982) ApropostadeBeloHorizontesignifica,conseqüentemente,ummomentodeamadure- cimento e avanço dentro do processo do Movimento de Reconceituação.E, além disso, sig- nificatambémummomentodebuscadenovasdiretrizesteóricas.Nessesentido,cabe ressaltar aqui duas das principaisinfluências que marcam esse corpo teóricoe definem suas principais diretrizes: a construção de uma prática teórica a partir do conhecimentoda realidade social e a definição de novos elementos de atuação e intervenção nessa realidade. Estudos já elaborados sobre a fundamentação teórica do Método BH (Magalhães, 1982),apresentamalgumasconclusõesbastantesignificativas.Entreoutras,destacam-seasse- guintes: aconduçãodaalternativametodológicaapresentadanoMétodoBH atendeàscarac- terísticasdoconhecimentodadialéticamaterialista,na medidaemque propõe aela- boração de um conhecimentoteóricoque parte das atividades práticas do conheci- 46 mento sensível; o método,fundamentado na teoria do conhecimentomaterialistadialético, faz com que a propostaenvolvao homem histórico,o sujeitosituado nocontextode umade- terminada sociedade; o processo de busca de conhecimento,no método, só acontece através da inter-re- lação,da reciprocidadeentresujeitoeobjeto,sendoessainter-relaçãoumaformade conhecimento coerente com a filosofia marxista. (Magalhães,1982) Ora, se a Teoria do Conhecimentofaz com que o Método BH esteja estruturado nos fundamentosdoMaterialismoHistóricoeDialético,e, portanto,nafilosofiamarxista;seoMé- todoBHé adotadocomo parteintegrantedoMovimentode Reconceituação,estaria aquiinau- gurada a presença da dialética marxista no Movimentode Reconceituação? Observa-se,porém,quese o pensamento de Marxestá presenteno documentoelabo- radoemBeloHorizonte,o pensamentode PauloFreireestá tambémpresentenessemesmodo- cumento. O métodoelabora uma propostade construçãoteóricaa partirda práticado assistente social.Seesseéo processodeconstruçãodoconhecimentodadialéticamaterialista,o processo de conhecimento do MétodoBH está fundamentadona filosofia marxista.Por outro lado, po- rém,esse mesmodocumentodefineas questõesbásicas da práticado assistentesocial. E essas definições, por sua vez,trazem para a prática desse profissionalos objetivosde transformação econscientização,o papeldeeducadorsociale político,osquestionamentosde umaação assis- tencialista. Todos esses conceitos são definidos, defendidos e fundamentados no ideário de Paulo Freire. Resta, entretanto, nesse mesmo conjunto de definições do documento analisado - o Método BH -,o enfoque atribuído ao homem no seio da sociedade.Este é o Ser Humano, si- tuadonoseu contextosocial.ÉoHomemhistórico,sujeitodesuaprópriaação.OHomemcapaz de construir sua história e transformara sociedade. Cad. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  23. 23. Éa partirdesseenfoqueque o documentodelimitao sujeitoe o objetodoServiço So- cial, definindo,também,a relaçãoexistenteentreestesdoiselementosdaação.Nessecontexto, a relação sujeitolobjetosó podeocorreratravésde umainteraçãocontínuaentre ambos. Euma relação de reciprocidade, na qual ambos são sujeitos da mesma ação. Ora, se esses conceitosdefinidos no MétodoBH são princípiosteóricosfundamenta- dos e coerentes"com o conjunto do sistemada filosofia marxista"(Magalhães,1982, p. 128), essesmesmosconceitossãotambém princípiosteóricosdefendidosedefinidosporPauloFreire. Sendo esse o conjunto teórico-filosóficoque passava a orientar o processo de ensino na Escola de Belo Horizonte,os novos assistentessociaisterãonessesdocumentoso eixo cen- traldesuaformaçãoteórico-práticaaolongodaquelaprimeirametadedosanos70.Cabe,agora, saber como aquelesalunos passavama se relacionarcom aestruturadeensino então em vigor. O projeto de formação profissional Os primeirosanosda décadade 70 podem ser caracterizadoscomo umafase de gran- des transformações para a Escola de Belo Horizonte.É um período marcado por grandes ela- borações técnicas,e por definiçõesque vão levar aformação teórica paracaminhos completa- mente opostos àqueles traçados até então. O que se pretende,aqui, é caracterizara formação profissionalnaquele período, pro- curandoentendercomosedeu a relaçãoensinolaprendizagemnumperíodoemquetudoseguia em busca de um sonho: o de transformara sociedade.16 A proposta de reformulação acadêmica, elaborada pelo grupo de professores entre 1970 e 1971- a Práticacomo Fonte da Teoria- começava a circular sob a forma de um novo documentoadotadopelasdisciplinasespecíficasdeServiçoSocial.Eraessedocumentoque na- quele mesmoano iria dar origem iestruturaçãodo novocurrículo profissionalqueiria vigorar 47 nos anos vindouros. AestruturacurricularentãocriadapelaEscolamineira,implantadaa partirde 1972,17 tinha seu início na apresentaçãode uma análise crítica do currículo em vigor, a partir do que elaborava a proposta de uma formação profissional delineada em parâmetros diferentes da- quelesatéentãoexistentes.O referencialteóricoquelhedavasuportevinhasustentadopor três pontos distintos, considerados básicos para a formação dos novos assistentes sociais. O primeiro, denominado"concepção de ciência e comportamentocientífico",é fun- damentadonumaconcepçãodeciênciaque"nascecomorespostaeexplicaçãode determinada necessidade ou fenômeno gerado pela realidadee que, na medidaem que explica e responde a esses fenômenos,ela capacita a sociedadea dominare modificaressa realidade"(D.B.R.C., 1971,p.7).Comessadefinição,ogrupoassumecomociênciaoresultadodoconhecimentoque, partindoda realidade,conhece,estuda, generalizae, atravésdesse processo,cria condições de novamente voltar à realidadecom a intenção de gerar as modificações necessárias. O segundo ponto desse referencial teórico consistia na correlação entre Serviço So- cial,CiênciasSociaise realidade.Apresentandoessaquestãodafundamentaçãoteórica,o gru- po ressalta a necessidadede estabelecer"o que fazer"e "como fazer" na prática profissional. O pensamentoé, emsíntese,a necessidadedefazercomque,entendendoo significadoda ação 'Vodas as questões apresentadas neste item estão fundamentadas no estudo dos documentos existentes nos arquivos do De- partamento de Serviço Social e nas entrevistas realizadas com professores e alunos da Escola naquele período. l7 O DocumentoBásico para a Reforma de Currículo,elaborado em 1971 pelo grupo de professores de Serviço Social da Escola de Belo Horizonte, faz parte dos arquivos do Departamento de Serviço Social da PUC-Minas. O documento, que apresenta a estrutura curricular implantada a partir de 1972, passa agora a ser objeto desta análise. A partir daqui todas as referências a esse documento serão acompanhadas da indicação D.B.R.C., 1971. Cad. sem. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  24. 24. profissionalconcreta e prática,o assistentesocial possa implementaro sentido adequadoe ne- cessário a essa ação, tendo em vista seu objetivo básico de transformaressa realidade. A partir da formulação dessas questões,o grupo definecomo contribuição das Ciên- cias Sociais para o curso de Serviço Social: fornecer os elementos do conhecimento que per- mitamumaanálisehistóricaecientíficadaestruturasocial,queexpliquemo processodinâmico dessa sociedadee contribuampara a investigaçãode dadossignificativosdessa realidade, pas- siva de intervenção do Serviço Social. Assumindoa responsabilidadede ministrar esse con- junto de conhecimentos,as disciplinasde CiênciasSociais estariamfornecendo os"subsídios doconhecimentodoobjetodeintervençãodoServiçoSocial-o indivíduoe suas relaçõescom a estrutura social-fornecendo, ao lado de outras disciplinas, o instrumento para intervenção junto a esse objeto" (D.B.R.C.,1971, p. 10). Essa é, em síntese, uma propostade ruptura com o passadoe a definição doServiçoSocial como uma"disciplina de intervenção a nível das es- truturas sociais". (Alayon, 1971, p. 77) Como terceiroe último pontofundamentaldessaestrutura teórica,o grupo apresenta a sua concepção de ensinoe aprendizagem.O ensino, aqui,passaa ser fundamentado por uma concepção de"educaçãodialógica".A partir dessefundamento, o curso deverá ser desenvol- vido,essencialmente,atravésdedebates,discussõese trocadeidéias,estabelecendo-se,assim, umarelaçãoemqueo trabalhoseráfeito"com"oalunoe não"sobre"oaluno.Eemdecorrência dessaconcepçãoaparece,naturalmente,a propostade maior participaçãodoaluno naestrutura acadêmica(D.R.B.C., 1971). Era a propostade umencaminhamentoconjunto-professores e alunos- ao longo de todo o processode formação profissional. 48 Após aformulaçãodo novocontextodaformaçãoprofissional,e definida toda a con- cepção teórica que a fundamentará,é que o grupo define o perfil do novo assistente social. A partir dos anos 70, o profissionalque se quer formar é aquele que: tenha uma visão integral da realidade e postura consciente frente à mesma; seja capacitado com instrumentalanalítico eoperacionalque permitauma atuação profis- sional cientljcica eficiente; esteja conscientede sua condiçãode profissionalatuante em uma realidade que exige uma atitude constante de pesquisa, busca, elaboração e reelaboração; seja responsável frente à sociedade em seu compromissode transformação,e à profissão no compromisso de construção teórica. (D.B.R.C.,1971, p. 13) Oestudodoreferencialteóricoapontadocomofundamentalparaaformaçãodesseno- vo assistentesocial leva, necessariamente,a umaanálisedos programasde ensino desse perío- do. Nessesprogramasobserva-sequeasdisciplinasdeFilosofiaeCiênciasSociais tinhamseus conteúdos centralizados em questões que permitiam aos alunos o conhecimento da realidade brasileiracomo umasociedadeformadaporclassesantagônicas,inseridasnumcontextodede- pendência e subdesenvolvimentofrente à conjuntura internacional. Enquantoumdosobjetivosdessareestruturqãocurricularconsisteemformarumavi- sãodialéticadasociedade,osdoisprimeirospontosdessereferencialteóricooferecemossubsí- dios necessários paraessaformaçãoe trazem para a Escola um novo tipode textos e autores.18 O terceiro e últimopontodesse mesmoreferencialteórico-o quefundamenta a concepção de ensino e aprendizagem-definia umaconcepçãode ensino em que o diálogo constitui o ponto centrale permanentenarelaçãoentreprofessorealuno.Partindodessadefinição,todaestrutura Entreoutros:FlorestanFernandes,Fernando HenriqueCardoso,Celso Furtado,RaimundoFaoro,FranciscoWeffort, Nel- son Werneck, CktávioIanni, Henri Lefebvre,Marta Harnecker, Adolfo Sanchez Vasqueze Louis Althusser,além dos ca- dernos do CEBRAP. ~ h d .serv.soc., Belo Horimnte, v. 2, n. 2, p. 25-71,out. 1997
  25. 25. de ensino deverá estar pautada numa postura de diálogo, através do qual haverá uma real in- teração entre professore aluno. Nessecontexto,inexistiráa predominânciadoprofessorsobreo aluno.Ora,umacon- cepção em que ambos-professor e aluno-se colocamcomo sujeitos da mesma ação traz im- plícita a proposta depôrfim a uma estrutura de ensino bancário. O documento defende ainda amaiorparticipaçãodoalunonoprocessoeducativo.Sabe-se,porém,queodiálogo,ainteração sujeito-objeto,os questionamentosàeducaçãobancáriae a participaçãosão questões apresen- tadas, defendidas, definidas e fundamentadas no pensamento de Paulo Freire. Apósaelaboraçãodoreferencialteóricodesustentação,edelineadooperfildoprofis- sional que se querformar, apareceaestruturacurricularquedá corpo àformação teórica. Essa estruturacompõe-sedetrêsetapasdistintasebemdelineadas:doconhecimento,daexperimen- tação e verificação, da avaliaçãoe generalização. Na primeira etapa, o aluno estará em contatocom o conjunto teórico que lhe dará os subsídios necessáriosao conhecimentoe àanáliseda realidade,bem como as formas de inter- venção junto a essa realidade.É uma etapa teórica. A segunda etapa da formação-experimentaçãoe verificaçãocorresponde ao contato diretocoma realidade,atravésdapráticadeestágio.Esse contatocomarealidadeofereceráum tratamento profissionalorientado e permitiráo levantamentode dados que levarão a uma ge- neralização e a uma nova teorização. É, porém,na terceiraetapa dessaformação-avaliaçãoe generalização-que o aluno teráaoportunidadede retomaro seu processodeformaçãoe, atravésdaorganizaçãoe sistema- tizaçãodos dados, chegar àconclusãoglobal sobresuaformaçãoescolar.Estarácontribuindo, 49assim, para a construção de uma teoria profissional.(D.R.B.C., 1971) Essa estrutura de currículo apresentada no documento mostra uma coerência com a concepçãodeconhecimentocientíficoexpressapelogrupo.Aestruturadaformaçãoprofissio- naléorganizadade modoafazercomqueoalunopossavivertodoo processodeconhecimento científico. Nofinaldoprocessodeformação,oalunoteriaentãocondiçãoparanãosócontribuir naconstrução dosconhecimentosespecíficosda profissãocomo tambémintervir junto àreali- dade social.Éessaestruturacurricularque,implantadaem1972,iria operarmudançasradicais na Escola mineira. Apropostaentãoelaboradaexigiaumaampliaçãodoscamposdeestágiocoordenados pela própria Escola, os quaispassam a ser os campos preferenciaise experimentais da prática acadêmica.OMétodoBH,quejávinhasendoaplicadoemdeterminadoscampos,eraagorauma proposta de trabalho para todos os setores de estágio. Para a sustentaçãoe a garantiade que a práticade estágiose desenvolveriadentro dos moldespropostos,foramorganizadasaschamadasequipesdeprática,quecontavamcom apar- ticipaçãode professoresdeServiçoSocial e também de professoresdas várias áreas das Ciên- ciasSociais.Afinalidadedessasequipeseraadeorientaroestágiorealizadopelosalunos.Outra modificaçãoocorrida foi a participaçãode alunosem comissõesparitáriasem toda a estrutura administrativada Escola.Éo momento em que o grupo assume, na prática,a propostade"um projeto de formação profissionalencaminhadodiretamentepor professorese alunos".(Entre- vista 0 ) Se a implantaçãodesse novocurrículotraz sérias modificaçõesnaestruturaacadêmi- ca, essas mudançasocorrem também quanto ao conteúdoministradopelasdiferentes discipli- nas. Um exame mais detalhado dos programas de ensino desse período mostra que as dis- ciplinas de Ciências Sociais e Filosofia proporcionamaos alunos um estudo teórico que traz, Cad. serv. soc., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997
  26. 26. para a Escola, autores que possibilitama criação de uma nova estrutura de pensamento. Isso permiteaformaçãode uma nova visãode mundoe umanovaconcepçãodesociedade.Seessas disciplinasformavam uma nova concepçãode sociedade,as disciplinasdeServiço Social tra- tavam das questões específicas da profissão. No conjunto desses programasde ServiçoSocial, observa-sea exigência de discipli- nasqueproporcionamoestudodasquestõesmaisgeraisdaprofissão,procurandosempresituá- la nocontextohistóricodasociedade.Areferênciabibliográficaestavacentralizadaemautores como: Ezequiel Ander-Egg,Boris Alex Lima, Norberto Alayon, Adolfo Sanches Vasquez e Karel Kosik. Alémdessas disciplinas,existemtambémaquelasque têm porfinalidadeestudar as questõesmaisespecíficas,voltadasparaformasdeintervençãona realidade.Éatravésdelas que os alunos iam estudar de modo mais detalhadoos elementos e as etapas que fazem parte da metodologiade ação.E a referênciabibliográficaerasustentadaporautoreslatino-america- nos que tinham seus textos publicados pelos editoriais argentinosECRO e Humanitas. Além disso, os textos de Paulo Freire estavam sempre presentes. O estudo desses programas de Serviço Social no seu conjunto mostra que apesar de os autoreslatino-americanosmarcaremsua presençacomo os autores mais lidos pelos alunos, essa presençaaparecedeformaalternada.Omesmo,entretanto,nãoocorrecomoMétodoBH, que estava presenteem todos os programas de Serviço Social como um dos textos básicos.É, portanto,atravésdaproduçãoteóricadePauloFreireedosautoreslatino-americanosquefazem parte do Movimento de Reconceituação que os alunos apreendem as grandes questões pro- 50 postaspeloMétodoBH:ocompromissocomasclassespopulares,aassessoriatécnicae política aos trabalhadores, o desenvolvimentodos processosde conscientização,organização e capa- citação. Ora, se a proposta que gerou toda essa reformulação na estrutura da formação pro- fissional tem como um dos objetivosformar uma nova visãode mundoe uma nova concepção de sociedade,criando assim as condiçõesnecessáriasparaoexercício de um novo tipode prá- tica,ocurrículoentãoem vigortinhanoMétodoBHo seu pontodesustentação.OBHera,sem dúvida alguma, o eixo central de todo o projeto de formação dos novos assistentes sociais. Esseprojetodeformaçãovai,portanto,apartirde1972,criar umnovocontexto naEs- cola de Belo Horizonte. O Método BH, que começava também a ser implantado em todos os campos do estágio, completava o círculo necessárioa esse processo de formação. Novos são os tempos para a formação dos assistentes sociais mineiros, devido às perspectivas do Mo- vimento de Reconceituação. Parece mesmo que todos os caminhos traçados nessa nova con- juntura levam a um único fim: a implantaçãode um projetode formação profissional que pri- vilegiaaparticipação eaconstruçãodeumapráticateóricacomoopontocentraldetodoocurso. Nesse contexto, os alunos passavam a conviver com todas essas questões teórico- práticasquecompunhama únicapropostadeformaçãoe açãoparaoServiçoSocial.Essa linha radicaldeconhecimentoe ação,semoutrasalternativasteóricas,levavafatalmenteàconclusão de quesóa rupturaradicaldaestruturasocialfaria reverteroquadroexistente.Umaconjuntura que conduzia a um único e determinadofim: "a transformação da sociedade e do homem". (UCMG, 1974, p. 19; ISI n. 4, 1976, p. 109; Santos, 1982, p. 40) Comodocumentobásicodaformaçãoprofissionalnaqueleperíodo,oMétodoBH não só definia os objetivos da ação profissionalcomo também apresentava um processo metodo- lógico atravésdo qual procuravadesenvolveressesobjetivos.Eraele o métodoque sustentava toda a prática de estágio nas instituições durante esse período. AEscoladeBeloHorizonteseguiaassimosanos70. AsdisciplinasdeServiçoSocial, Cad. sem. soe., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 25-71, out. 1997

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