Caminhos para o desenvolvimento pelo cooperativismo                                                                       ...
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Certamente, isso pode e deve fazer parte do processo de desenvolvimento local. No entanto,a questão é mais complexa.      ...
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O desenvolvimento não é apenas resultado de caminhos técnicos, mas de processospolíticos e, por isso, é preciso “rediscuti...
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No entanto, o desafio desse confronto mútuo, não pode apenas ser posto aosintelectuais, aos estudiosos da problemática soc...
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Na prática do cooperativismo este foi, muitas vezes, tão adverso aos interesses enecessidades de seus associados, como a p...
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A questão da participação aparece como contraposição à burocracia dos projetos dedesenvolvimento. A participação se traduz...
Na realidade da economia de mercado não existem apenas os aspectoscompetitivos. Muitos são os aspectos associativos em emp...
de um capital social que as gerações souberam construir pela sua capacidade associativa ecooperativa em superar o passado....
polêmicas, na concordância pouco se aprende. As dificuldades de um processo dedesenvolvimento não estão nos limites do con...
nas experiências dinâmicas de cada sociedade. Precisam ser construídas, através do diálogo,do debate, da argumentação.    ...
ASSMANN, Hugo, 1998: Reencantar a Educação. Rumo à sociedade aprendente.Petrópolis, RJ: Vozes, 2ª ed.BECKER, Dinizar Fermi...
SOARES, Rosemary Dore, 2000: A concepção gramsciana do estado e o debate sobre aescola. Ijuí: Ed. UNIJUI.SZTOMPKA, Piotr, ...
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  1. 1. Caminhos para o desenvolvimento pelo cooperativismo Walter Frantz 2003Apresentação O presente exemplar de Cadernos UNIJUI, da Serie Cooperativismo, nº 5, traz doistextos. O primeiro resulta de uma conferencia e o segundo foi produzido a partir de umtexto anteriormente escrito, especialmente, para produtores agrícolas familiares. Agora sãooferecidos como suporte ao debate, especialmente, sobre o desenvolvimento local. Não sãotextos acabados. Procuram convergir e atrair a atenção do leitor para o campo daproblemática do desenvolvimento. Procuram abordar o cooperativismo como um caminhopossível ao desenvolvimento local. O tema e a problemática do desenvolvimento se constitui em um dos grandesnúcleos de debate, na atualidade, assim como o cooperativismo. Entretanto, as questões sãoantigas, embora, no campo do cooperativismo e do desenvolvimento, estejam acontecendocoisas novas. O que está acontecendo de novo, no espaço do desenvolvimento, diz respeitoa sua abordagem, sua explicação, em termos teóricos e em termos de práticas dedesenvolvimento. Mais na teoria do que na prática, os velhos conceitos de desenvolvimentoestão superados. Está aberto o caminho, por essa via, também para a reconstrução daspráticas, a par de novos conceitos. O cooperativismo, depois de muitas e diversas experiências, revigora como práticasocial, especialmente, no campo da economia popular e, como problemática social, retornaao espaço do debate teórico da academia, da pesquisa. O desenvolvimento é um fenômeno social complexo no qual todos os homens estãoinseridos, de um modo positivo ou negativo. Abarca todos os sentidos da vida e cujarealidade desafia a todas as áreas do conhecimento humano. Envolver-se com a busca doentendimento e a própria prática de um projeto de desenvolvimento exige a capacidade deir além das áreas específicas da formação profissional de cada um. Exige a capacidade dabusca permanente do conhecimento. Por ser um fenômeno social, começa com os própriosindivíduos envolvidos. E, como tal, tem a ver com a educação, com a formação de cada um,constituindo-se esta em desafio central no desenvolvimento local. 1
  2. 2. A organização cooperativa pode ser um dos caminhos mais significativos de inseriresforços pessoais e institucionais, no sentido do processo de desenvolvimento local ouregional. É preciso ter consciência dessa relação e sentir-se comprometido, buscando apra´ticas desse caminho. Por dentro da problemática do desenvolvimento, cresce um debateque se torna sempre mais crítico e profundo, base para novos conhecimentos e novaspráticas. No espaço da cooperação, podemos encontrar um lugar social de educação, deaprendizagem. Aprendizagem os seres humanos elaboram, acima de tudo, a partir das dificuldades,das contradições, inerentes `as práticas do desenvolvimento e da cooperação. Nem ocooperativismo e nem o processo de desenvolvimento são campos de concordânciasteóricas ou práticas. São campos polêmicos e nisso há não nenhum problema. Os desafiosque nascem da problemática do desenvolvimento e da cooperação, estão postos àsdiferentes ciências, à política, à economia, à cultura, à educação.Desenvolvimento local, associativismo e cooperação1Considerações iniciais O fenômeno da associação, com o sentido de aproximação, identidade,solidariedade, colaboração, cooperação, entre pessoas ou grupos sociais, pode-se estenderdo campo das idéias até às práticas sociais, sejam elas práticas da cultura, da política ou daeconomia. No conceito de associação está implícita a idéia de movimento em direção aooutro. No entanto, não é apenas um movimento de aproximação. No movimento deaproximação estão também as experiências,as intenções os interesses das pessoas que seaproximam. A associação é um movimento carregado pela intenção de quem se movimenta,de quem se aproxima, daí o seu sentido social, pois, a intenção vai em direção ao outro,pela comunicação. Por isso, a associação implica comunicação, diálogo. O objeto dacomunicação e do diálogo, são, pois, as intenções, os interesses das pessoas. Na base dasintenções e interesses estão as necessidades, os desejos. Pela comunicação se ajustam osinteresses, as intenções das pessoas. Na dinâmica da comunicação do processo associativo,1 Conferência pronunciada no Simpósio Internacional de Gestão Pública, Desenvolvimento e Cidadania.UNIJUI, Ijuí/RS, em 13 de novembro de 2002. 2
  3. 3. constrói-se a força e o sentido comum do movimento social de quem se aproxima, dos quese identificam. Portanto, na identificação, aglutina-se a força que se dinamiza pelacomunicação. A ação comunicativa como uma relação que, sem desrespeito às diferenças,dinamiza a aproximação, a cooperação das pessoas, conduz energia, força, produz ações depoder. Na associação, pela comunicação, constrói-se poder de ação. Este se realiza,socialmente, pela cooperação instrumentalizada, organizada. É interessante observar dados de uma pesquisa2 que realizamos, junto aosassociados da COTRIJUI – Cooperativa Regional Tritícola Serrana Ltda. Perguntados se aorganização cooperativa representaria poder, força, 91,1% dos entrevistados respondeu quesim, 5,7% respondeu que apenas em parte e 3,2% respondeu que não representa força oupoder. As razões alegadas para essa compreensão se fundamentam em 60,6% no sentidoassociativo da cooperativa, isto é, os associados percebem em suas relações associativas umpoder de ação. Trata-se de uma compreensão de associativismo com finalidade cooperativa,nesse caso, no espaço da economia. Especialmente, a economia de produzir, armazenar,industrializar e comercializar produtos agrícolas. O associativismo, com sentido co-operativo, é um fenômeno que pode serobservado nos mais diferentes lugares sociais: na empresa, na família, na escola,comunidade etc. No entanto, predominantemente, a co-operação é entendida com sentidoeconômico e envolve a produção e a distribuição dos bens necessários à vida. Convémobservar que, em si, a cooperação é um fenômeno que pode também ocorrer entre agentesdo crime, promovendo atividades ilegais e contrárias aos interesses da sociedade e do bempúblico. Portanto, a cooperação em si, como fenômeno social, precisa ser avaliada peladimensão de seu sentido, pelo significado social do processo cooperativo. Aqui,consideramos os fenômenos associativos e cooperativos sob o aspecto da inclusão social edo bem público que, como tais, se traduzem em desenvolvimento local. Sob essa ótica compreensiva, o desenvolvimento local é resultado de um processopolítico. Isso amplia e complexifica a dimensão do processo. Por exemplo, não permiteconfundir desenvolvimento local com a instalação de um empreendimento econômico, deuma empresa, de uma iniciativa econômica, tendo sua centralidade em um produto.2 Pesquisa realizada em 2000. 3
  4. 4. Certamente, isso pode e deve fazer parte do processo de desenvolvimento local. No entanto,a questão é mais complexa. Para introduzir uma reflexão sobre desenvolvimento local, talvez, seja convenientequestionar sobre o próprio sentido do termo local. O termo local implica, inicialmente, anoção de espaço geográfico e encerra a idéia de limite, de proximidade física. Em setratando de proximidade de pessoas, a noção geográfica passa a ter sentido sociológico. Oespaço geográfico passa a ser um local de encontro, de aproximação, de identidade cultural,em termos de valores e comportamentos. Aproxima-se da noção de comunidade. Nessadimensão, o local e o associativo se entrelaçam como fenômenos sociais. Novossignificados são construídos. Nessa dimensão, o termo local parece conter mais ênfase àspessoas que às organizações. Adquire um sentido político. O sentido político da valorizaçãoe do desenvolvimento desses aspectos “locais” deve ser a inclusão social, o bem público nacomunidade. No entanto, é comum ver-se o termo “local” vir associado, não só a pequenosespaços geográficos, mas também a um determinado ambiente cultural, a um lugar de vida,de economia menos complexa, mas, não necessariamente, menos desafiadora ouproblemática. O termo “local”, muitas vezes, vem associado ao mundo rural, seja emtermos de cultura ou de economia. Markus Brose (1999, p. 49) afirma que a compreensão do que seja desenvolvimentolocal “surge do entendimento de que o meio rural, exatamente por não ser apenas agrícola,engloba também as pequenas cidades que apesar de constituírem o espaço urbano, estão,via de regra, essencialmente, ligadas ao meio rural, dele dependendo para sobreviver e paraele prestando todo tipo de serviços”. Brose faz uma relação entre local e rural. Na definiçãoda compreensão do que seja desenvolvimento local aproxima economia, geografia física egeografia social. Nessa relação introduz conceitos sociais e físicos, introduz a noção deproximidade, a dimensão de tamanho. A noção de local contém a idéia de proximidadefísica e social. Desenvolvimento local é produto da relação desses conceitos e dimensões,portanto, um conceito relativo, flexível e elástico. Brose cita como indicadores dodesenvolvimento local: • a manutenção e a criação de postos de trabalho; • o início de novas atividades econômicas; 4
  5. 5. • a pluratividade na agricultura familiar; • a estabilidade na renda familiar; • a manutenção de uma paisagem rural equilibrada; • a ativa participação da população nas decisões nos seus espaços econômicos; • as novas formas de gestão pública. Sergio C. Buarque (2002, p. 25) conceitua desenvolvimento local “como umprocesso endógeno de mudança, que leva ao dinamismo econômico e à melhoria daqualidade de vida da população em pequenas unidades territoriais e agrupamentoshumanos”. Assim, por desenvolvimento local pode-se entender a melhoria das condiçõeslocais de vida de uma população, sob todas as suas dimensões. O desenvolvimento é umprocesso fundado em relações associativas que conduzem à “participação da população nasdecisões nos seus espaços econômicos” (Brose, 1999 p. 49). Sob esse aspecto, existemrelações de causa e efeito entre o associativismo, a cooperação e o desenvolvimento local. Potencialmente, o associativismo e a cooperação, contêm o desenvolvimento local,principalmente, quando as organizações cooperativas garantem espaço à participação dosassociados, não apenas na parte econômica, mas também estimula o crescimento cultural epolítico dos associados. Aqui se entende o político como a capacidade de participação, deconstrução e de compreensão dos espaços públicos, em uma comunidade. O conceito depolítica está relacionado com a capacidade reação das pessoas frente aos problemas edesafios da vida. Por isso, o associativismo e a organização cooperativa também têm umsentido político. Na mesma pesquisa já acima citada, 46,9% dos associados definiram a suacompreensão de cooperativismo, a partir do campo político, isto é, associativo. Enfim, entende-se por política a responsabilidade social com o meio ambiente e aecologia que se traduz em melhoria de qualidade de vida: vida em todos os sentidos daexistência humana. O desenvolvimento é um fenômeno da existência humana. Aspreocupações com a vida encerram questões da cultura, da política, da economia. Odesenvolvimento local ganha aqui a sua importância: pode-se aceitar a idéia que seja umprocesso mais perto da vida, das pessoas. É algo que está mais para as pessoas que paraoutras coisas. O processo do desenvolvimento de uma pessoa, comunidade, região ou país, 5
  6. 6. passa por questões como valores e comportamentos, frente à natureza e a sociedade,relações sociais na economia, responsabilidade social na política, empenho na qualificaçãoetc. A recuperação ou a afirmação dessas dimensões do desenvolvimento é algo que aindaestá em construção, seja na prática ou nas concepções teóricas. No entanto, cada vez mais,percebidas como desafios a todos. O desenvolvimento é um fenômeno social que contém um “movimento em direçãoao melhor” e o associativismo expressa a relação entre indivíduos com interesses comunsno sentido de uma melhor qualidade de vida. Indivíduos se associam em função deinteresses comuns que podem desencadear ações de cooperação com reflexo nodesenvolvimento local. O desenvolvimento local aparece como o efeito das relações decooperação, especialmente, no campo da economia e da preservação ambiental. Indivíduos se associam em função de algo que tenham em comum. A associaçãoexpressa uma relação dinâmica, uma relação em movimento, em direção a um lugar melhorpela cooperação. Nesse movimento social vai-se da associação à cooperação, pelaorganização, com vistas à implementação de ações, visando a concretização dos interessescomuns. A associação cooperativa é entendida como um movimento que vai do lugarprivado, individual, a um lugar comum, coletivo. Esse é o sentido político do processo, doqual nascem as organizações cooperativas. Assim, o sentido político da associaçãosobrepõe-se ao operacional da organização. Os efeitos sociais das ações cooperativas são mais amplos que os objetivos doscooperantes. Sob essa dimensão a cooperação produz um bem público. A cooperaçãosempre produz um bem público, ela revela uma dimensão pública. Esta é a mais implícita eprimeira relação entre desenvolvimento local, associativismo e cooperação. Os efeitos dacooperação podem, inclusive, interessar aos não associados, em uma comunidade.Traduzem-se em efeitos que podem ir da cultura à economia. Pela presente reflexão sobre desenvolvimento local, associativismo e cooperação,procura-se saber sobre possíveis relações entre as práticas desses fenômenos sociais. Naverdade, trata-se de temas conhecidos e práticas velhas, mas com abordagem sob novoângulo de discussão. Em que consiste o velho e o novo? Consiste na certeza e na incerteza;no absoluto e no relativo, no autoritário e no diálogo; na obediência e na participação. 6
  7. 7. Trata-se de fenômenos sociais, dos quais o desenvolvimento contém um“movimento em direção ao melhor”3 e o associativismo e o cooperativismo, comomovimentos, contêm uma relação de indivíduos com interesses comuns. Estão numarelação de causa e efeito: potencialmente, as práticas do associativismo, da cooperação,contêm o desenvolvimento local. Para atuar sobre o desenvolvimento, mesmo que local, antes de tudo, é preciso quese compreenda o que está acontecendo no mundo contemporâneo. No processo dastransformações em curso não existe uma ruptura entre o local e o global. O que existe,segundo Dinizar Becker (2000: 13), é “uma tendência de passagem das megadecisões, dasmacropolíticas, dos grandes projetos de desenvolvimento como forma predominante parauma crescente participação das micro e mesodecisões, micro e mesopolíticas e dospequenos e mesoprojetos, que levam à definição e constituição de múltiplas formas deinserção subordinada ou autônoma de cada lugar no processo global de desenvolvimento”. Para que seja uma inserção autônoma, é preciso descobrir-se, nesse contexto, comoator social, como sujeito, e conhecer o lugar que nele se ocupa e quais as possibilidades deações concretas. É preciso construir espaços comuns para essas ações. Essa é uma decisãopolítica dos sujeitos. A construção desses espaços, por conseqüência, dá-se em basesassociativas e as organizações cooperativas são um modelo ideal para a instrumentalizaçãode ações concretas. Entre a ação cooperativa e o desenvolvimento local existe uma relaçãopotencial de causa e efeito, entrelaçando as duas práticas. No entanto, especialmente, no pensamento da cultura política, a competição aparececomo elemento básico do processo de desenvolvimento. Quem já não ouviu falar de quedevemos ser mais bem preparados para a competição? Quando se trata de competir,ficamos sempre muito atentos com as exigências e os desafios que resultam dessa situação.Sob esse aspecto, existem relações de causa e efeito entre o associativismo e odesenvolvimento local. Potencialmente, o associativismo contém o desenvolvimento local.Por desenvolvimento local entendemos a melhoria das condições locais de vida de umapopulação, sob todas as suas dimensões. O desenvolvimento, desse modo, é um processofundado em relações sociais associativas.3 Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano. São Paulo: Martins Fortes, 2000. 7
  8. 8. As preocupações perpassam todos os estágios de preparo e participação do processocompetitivo. Ninguém duvida da necessidade da educação para a competição. Porém, o desenvolvimento é um processo também fundado em relações sociaisassociativas, das quais podem nascer formas cooperativas. A organização para odesenvolvimento tem seus fundamentos na associação de todos aqueles que se constituemos sujeitos desse processo. Na identificação e na prática dessas relações está, certamente,hoje, um dos maiores desafios, diante da noção do senso comum sobre a importância e afunção da competição. É preciso reverter o mito da competição que está entranhado nacultura e no pensamento político da maioria das pessoas. Na realidade da economia de mercado não existem apenas os aspectoscompetitivos. Muitos são os aspectos associativos em empreendimentos econômicos e quepodem sustentar organizações cooperativas. De acordo com Kliksberg (2001: 109), na novadiscussão sobre o desenvolvimento existe a necessidade de captar a complexidade darealidade social. O associativismo faz parte dessa complexidade da realidade social. Épossível que se possa recuperar, pelo associativismo, o conceito e a prática de mercado,aprisionado e submetido à lógica do capital. Segundo Armando de Melo Lisboa (2001: 48), “a pretensão de eliminarcompletamente o mercado, instituição social anterior ao capitalismo, foi uma das maioresestupidezes do velho socialismo que se esvazia. Um dos desafios contemporâneos éconstruir mercados socialmente controlados”.Da competição à cooperação Construímos a nossa realidade social, através de muitas gerações, partindo dos maisdiferentes lugares desse planeta, pelo contexto político e econômico da expansão dosistema econômico competitivo capitalista. Ao longo dessa trajetória de gerações, foi-nossempre acenada a possibilidade de integrarmos esse sistema e de construirmos, por dentrodele, através da competição, nossos espaços de vida, produzindo alimentos, ocupando asflorestas, os campos e as terras férteis do País. Na direção desses sonhos, fizemos todos osesforços, geração após geração. Hoje, para uma grande parte da população, essapossibilidade de integração está muito reduzido, quase inexistente, e sua situação social édeprimente. 8
  9. 9. Foram muitos os que vieram, carregados pela esperança de melhores condições devida. A esperança por uma vida melhor, não foi menor, ao longo dos quinhentos anos delugar na história ocidental, para muitos outros, que não precisaram vir até o cenário dacolonização, pois esta foi até eles, indo de encontro as suas necessidade e interesses.Reconhecer essa história implica reconhecer os diversos aspectos que a compõem e que seapresentam, hoje, como potencialidades de um desenvolvimento nacional socialmente maisjusto. Algumas das marcas profundas de nossa história ainda não se apagaram e estãopresentes, no íntimo de nosso modo de ser e de fazer as coisas. No reconhecimento dessasmarcas está a raiz da discussão sobre desenvolvimento local. São as marcas históricas deum capital social que as gerações seculares de brasileiros souberam construir pela suacapacidade associativa e cooperativa em superar o passado. São marcas de lugares sociaisque se capitalizaram como potencialidades e diferenças, que nos distinguem e identificamnos cenários maiores da humanidade. São marcas de nossa história, daquilo que podemosdefinir como sendo nosso desenvolvimento nacional. São marcas que se transformam, pelaação da consciência, em forças políticas, em mobilização social, em capital social. Diante do reconhecimento da realidade social, abre-se o campo das visões demundo, das ciências e das teorias a respeito do desenvolvimento, do progresso dahumanidade.A discussão sobre desenvolvimento O tema e a problemática do desenvolvimento se constitui em um dos grandesnúcleos de debate, na atualidade. Entretanto, a questão é antiga, embora estejamacontecendo coisas novas. O que está acontecendo de novo, no espaço do desenvolvimento,diz respeito a sua abordagem, sua explicação, em termos teóricos e em termos de práticasde desenvolvimento. Mais na teoria do que na prática, os velhos conceitos dedesenvolvimento estão superados. Está aberto o caminho, por essa via, também para areconstrução das práticas, a par de novos conceitos. Por dentro da problemática do desenvolvimento, cresce um debate que se tornasempre mais crítico e profundo, base para novos conhecimentos e novas práticas. Apesar detantos problemas e desafios, o campo da dinâmica social do desenvolvimento, é um dos 9
  10. 10. lugares sociais de maior aprendizagem social. Esta se constitui em uma das dimensões dopróprio desenvolvimento. Com certeza, essa aprendizagem os homens a estão fazendo,acima de tudo, a partir das dificuldades, das contradições, inerentes a esse processo socialde desenvolvimento. Não se trata de um campo de concordâncias teóricas ou práticas, pois,no espaço da problemática social do desenvolvimento, as discordâncias e as contradiçõessão, ainda, profundas. No entanto, os desafios que nascem da problemática dodesenvolvimento, estão postos às diferentes ciências, à política, à economia, à cultura, àeducação. A aprendizagem acontece como um produto da divergência, pois naconcordância pouco se aprende. Esse cenário de divergências tem também as mais diferentes raízes históricas, seja apartir dos conhecimentos ou das ideologias, dos interesses privados, de indivíduos ougrupos, ou dos interesses públicos, dos cidadãos ou instituições. Poderíamos dizer que noespaço social da dinâmica do desenvolvimento, os homens se encontram com suasnecessidades, desejos, interesses, conhecimentos, suas razões e emoções, suas limitações econtradições, e deles fazem a base para as políticas e as práticas de desenvolvimento. Nomundo contemporâneo, isso se reforça com a própria crise da modernidade, isto é, com acrise das certezas, das verdades, das ciências, dos modelos, dos grandes sistemas políticos,econômicos. Muitas das certezas que nos foram repassadas pela educação, pela comunicação,através de nossas convivências sociais, já não contêm mais as respostas aos problemasatuais. No lugar das respostas que foram dadas, hoje, existem dúvidas. Isso também estáacontecendo com relação ao desenvolvimento. Basta lembrar a teoria dos estágios sobre odesenvolvimento econômico de W. W. Rostow que já serviu de fundamentação parapolíticas e práticas de desenvolvimento, mas que hoje já não é mais aceita. As incertezas, as dúvidas sobre a validade ou não das práticas de desenvolvimentopermitem recomeçar, abrem caminhos para a sua reconstrução. As práticas dodesenvolvimento devem ter como fundamento a comunicação, a liberdade da pergunta, dacrítica, da participação, do compromisso com a esperança de quem sonha com diasmelhores. A reconstrução não começa com respostas prontas, com certezas ou verdades. Areconstrução começa pela dúvida, pela experiência dos erros, pela coragem da crítica e daautocrítica. A liberdade da dúvida traz a liberdade da pergunta, a liberdade de iniciar novos 10
  11. 11. caminhos, novas experiências. O progresso, o desenvolvimento de melhores condições devida, só pode ser produzido com a liberdade da crítica, do debate, da comunicação. Não existem mais respostas prontas ou certezas e que venham de fora. As respostasprecisam ser buscadas nas experiências de vida de cada um, nas experiências dinâmicas decada sociedade. Precisam ser construídas, através do diálogo, do debate, da argumentação,com o que vem de fora. Através de ação grupal e cooperativa, aproxima as pessoas,desenvolve identidades, valores e comportamentos. Cooperativas carregam em si opotencial do diálogo, da ação entre pessoas com os mesmos interesses e necessidades.Organizações cooperativas carregam dentro delas um potencial de capital social que podeser ativado na construção de espaços materiais e sociais de vida. Nesse sentido, a organização cooperativa é um lugar privilegiado, podendoconstituir-se em um grupo criativo e inovativo no processo de desenvolvimento de umacomunidade. Trata-se de algo, no entanto, a ser construído. É decorrência de uma vontadepolítica. Como grupo criativo e inovativo a cooperação tem como ponto de partida "adiversidade do conjunto de talentos, capacidades, competências que constituem asingularidade e a criatividade de cada um. O método é colocá-las em comum, buscandoconstruir laços solidários de colaboração no interior da comunidade, de modo a desenvolverquanto possível os talentos, capacidades e competências coletivas.(...) Trata-se, como nocaso de cada pessoa, de desenvolver a comunidade no sentido de tornar-se sujeitoconsciente e ativo do seu próprio desenvolvimento" (Arruda,1996:23). É nesse processocriativo que se podem estabelecer os elos dinâmicos entre o desenvolvimento local e oassociativismo, produzindo-se os sentidos e os conteúdos práticos desses dois conceitos.O que é desenvolvimento? Mas, afinal, o que é desenvolvimento? Como acontece? Quem são seus atores?Essas são algumas perguntas primárias no sentido da compreensão desse fenômeno socialque precisa ser colocado em cenários históricos amplos da humanidade, mas semdesconhecer as especificidades de cada cenário da realidade social. Esses cenários sãocompostos pela economia, pela política, pela cultura de cada povo. A partir deles nascem osconceitos e as teorias sobre desenvolvimento. 11
  12. 12. No entanto, não são cenários dados. São construídos e reconstruídos,constantemente, pelas forças sociais que carregam dentre deles. Nesses cenários os fatossão diversos, contraditórios, relacionam-se pela dinâmica das necessidades, dos interesses eobjetivos de seus atores. O desenvolvimento é um processo que acontece nesse quadrocomo produto das relações sociais do campo da cultura, da política, da economia etc.Desenvolver-se não significa seguir um rumo previamente inscrito na vida social, masexige a construção das próprias condições dessa vida social pela ação dos homens. Noprocesso do desenvolvimento local é imprescindível o reconhecimento da multiplicidade ediversidade das potencialidades humanas. A ação humana é inerente ao processo de desenvolvimento. Não há como falar dedesenvolvimento sem reconhecer na agência humana o seu núcleo histórico. Os homens sãoos atores do desenvolvimento, “homens em sociedade, homens que interagem entre si (...) edesenvolvem através desses contatos (civilização) uma vontade coletiva, social; homensque irão entender os fatos econômicos, julgá-los e adaptá-los à sua vontade, de modo queessa vontade se torne a força propulsora da economia, aquilo que molda a realidadeobjetiva” (Sztompka,1998 p. 300). Nas sociedades contemporâneas, pelo processo dademocratização, essa ação humana passa a ser, cada vez mais, ampla, descentralizada eparticipada. Pela porta da democracia, amplia-se a compreensão do conceito e da prática dodesenvolvimento. Noções tradicionais de desenvolvimento são superadas, em favor dacriatividade e capacidade inovativa de cada comunidade. Dizer que os homens fazem a história, que são os atores do desenvolvimento,implica em reconhecer um espaço à cultura no processo de desenvolvimento. AfirmaKliksberg (2001, p. 106-7) que “há um novo debate em ativa ebulição no campo dodesenvolvimento. (...) Há uma revalorização no novo debate de aspectos não incluídos nopensamento econômico convencional. (...) é o reexame das relações entre cultura edesenvolvimento”. Essa visão implica o reconhecimento da supremacia da política sobre aeconomia, levando à superação do conceito de crescimento econômico como expressão dodesenvolvimento. De acordo com Kliksberg (2001 p.107) ”políticas baseadas em planosque marginalizam aspectos como os mencionados demonstram limitações muitoprofundas”. 12
  13. 13. O desenvolvimento não é apenas resultado de caminhos técnicos, mas de processospolíticos e, por isso, é preciso “rediscutir a visão convencional do desenvolvimento eintegrar novas dimensões (...) (tais como)4 as possibilidades de o capital social e a culturacontribuírem para o desenvolvimento econômico e social” (Kliksberg, 2001 p. 107).Reconhecer a agência humana como propulsora do desenvolvimento abre espaço à cultura,à educação, aos valores. Como decorrência, recoloca o problema do desenvolvimento nosespaços locais, nas proximidades humanas, nas relações entre as pessoas, nos espaços doassociativismo e das práticas cooperativas. Assim, o desenvolvimento local pode ser entendido como uma reação aos grandesprocessos, predominantemente, fundados no incentivo ao crescimento econômico, semlevar em consideração as peculiaridades e as necessidades da realidade local. Um exemplodisso pode ser a política de incentivos à monocultura, em nossa região que, pela integraçãoeconômica, destruiu as bases de muitos valores locais, inclusive a capacidade de trabalho.Aqui se abre um espaço para políticas de desenvolvimento local. O desenvolvimento local,para além de seu sentido estratégico, traduz um esforço por reconstruir laços sociais eidentidades, rompidos ou diluídos, em processos de abrangência muito amplos e interessesdistantes. De acordo com Buarque, apud Boisier (2000: 165), o desenvolvimento local secaracteriza pelo seu impulso endógeno que ”dentro da globalização é uma resultante diretada capacidade de os atores e de as sociedades locais se estruturarem e se mobilizarem, combase nas suas potencialidades e na sua matriz cultural”.5 Segundo Pierre Lévy (1997:42) “a evolução da técnica, o progresso da ciência, asturbulências geopolíticas e os elementos aleatórios dos mercados dissolvem os ofícios,pulverizam as comunidades, obrigam as regiões a se transformar, as pessoas a se deslocar,mudar de lugar, de país, de costumes e de língua. A desterritorialização muitas vezesfabrica e exclusão ou rompe os laços sociais. Quase sempre confunde as identidades, pelomenos aquelas que fundavam sobre pertenças ou “raízes”. Resultam um terrível desajuste,uma imensa necessidade de coletivo, de laço, de reconhecimento e de identidade”. Nesse4 A expressão grifada foi inserida por mim para maior clareza na leitura do texto citado.5 Tradução do espanhol, feita por mim. 13
  14. 14. contexto surge o desenvolvimento local como mecanismo e necessidade de reintegraçãosocial. Essas afirmações e reflexões de Pierre Lévy nos permitem também retomar aquestão do associativismo, do cooperativismo, em plena globalização transformadora. Nospermite falar de uma globalização cooperativa. A globalização predominante hoje é a da competição, imposta de cima para baixo eé modelada pelos interesses corporativos das grandes empresas multinacionais e pelosinteresses geopolíticos dos países ricos e fortes. No entanto, é possível também perceberuma globalização cooperativa - nascida da finitude geográfica do planeta, das dificuldadesde inserção econômica pela competição, do desenvolvimento dos conhecimentos e de suaaplicação às condições de vida. É uma globalização que deve ser construída por indivíduose sociedades que se tornam sujeitos ativos e conscientes, pessoal e coletivamente, do seupróprio desenvolvimento.Novos desafios ao cooperativismo O mundo está passando por grandes e profundas transformações. Isso todos nós jásabemos e sentimos. Essas transformações penetram em nossas vidas. Nem semprepercebemos isso claramente, tornando-nos, facilmente, vítimas desse processo.Compreender esse processo histórico, agir sobre ele, é uma das mais urgentes tarefas postaa cada um de nós, individualmente e associativamente. Escreveu Giddens, apud Sztompka (1988:14), em 1991: Vivemos uma era de mudanças sociais impressionantes, marcada por transformações radicalmente diferentes daquelas dos períodos anteriores. O colapso do socialismo de tipo soviético, o declínio da distribuição bipolar do poder mundial, a formação dos sistemas globais de informação, o aparente triunfo do capitalismo em um tempo em que as divisões globais se aguçam e os problemas ecológicos assumem proporções muito mais amplas – todas essas e outras questões confrontam as ciências sociais e têm de ser por elas confrontadas. 14
  15. 15. No entanto, o desafio desse confronto mútuo, não pode apenas ser posto aosintelectuais, aos estudiosos da problemática social, aos que se ocupam da educação. É umcontexto que desafia a todos, a cada um em seu lugar social de vida. Nascem desse contextoenormes desafios às pessoas, às organizações. Pois, o que está em jogo não são apenastransformações institucionais na esfera sócio-econômica, mas também, e maisprofundamente, uma transformação cultural, envolvendo mudanças na visão de mundo eparadigmas, valores, atitudes, comportamentos, modos de relação, aspirações, paixões edesejos. Dessas constatações podem nascer novas perspectivas, novos lugares sociais podemser construídos no campo da política, no campo da economia, abrigando novas relaçõessociais, embasadas no associativismo, na cooperação.Segundo Assmann (1998:28), as experiências capitalistas e socialistas não souberam levarem conta as necessidades elementares e a liberdade dos desejos, o respeito aos interesses eo impulso às iniciativas do ser humano. Afirma que “os seres vivos entrelaçamnecessidades e desejos (...). Os socialismos “reais” não souberam levar isso em conta,trabalhando unilateralmente com a priorização das necessidades elementares. Por outrolado, o capitalismo sempre foi mestre em manipular desejos e postergar a satisfação dasnecessidades elementares”. É nesse espaço entre a lógica capitalista e o fracasso das experiências socialistasque, a meu ver, se recoloca a questão do cooperativismo como uma prática social dedimensão econômica, política e cultural, tendo como denominador comum o sentido dohumano. Não se trata de discutir se o cooperativismo é uma terceira via ou não. Trata-se dereconhecer e garantir nele um instrumento prático que devolva aos indivíduos o espaço daparticipação, da decisão solidária e responsável no encaminhamento da produção edistribuição das riquezas. Nesse processo os homens deverão traçar os seus rumos, tendoapenas como cláusula pétrea de seus acordos e contratos o sentido humano de suas ações. No meu entender, não há proposta política, atualmente, em termos globais, quepermita inspirar confiança em direção ao futuro. Esse vazio está muito relacionado com adecepção política e o fracasso econômico e social das grandes experiências feitas namodernidade. Apesar do sucesso da economia de mercado capitalista, em termos sociais, osseus resultados são frustrantes. Do mesmo modo, o fracasso das experiências de economia 15
  16. 16. socialista, centralmente planejadas, resultou em decepção. Em conseqüência, quando setrata de um olhar para o futuro, a humanidade está confrontada com imensos desafios. Entre esses desafios pode-se incluir o reexame do princípio cooperativo nas relaçõeseconômicas. Organizações cooperativas são fenômenos que nascem da articulação e daassociação de indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades, buscando o seufortalecimento pela instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados, normalmente,de ordem econômica. A cooperação é, em seu princípio constituinte, um acordo racional desujeitos sobre algo, isto é, a economia. O acordo da cooperação diz respeito aos interesses enecessidades frente à produção e distribuição de bens e riquezas. No entanto, contêmelementos sociais, culturais e políticos, incorporados ao seu sentido econômico. Desteselementos decorre uma natureza local que permite reconhecer uma relação entre aorganização e o funcionamento de uma cooperativa e o processo de desenvolvimento local. Assim, pela via cooperativa, renasce o local como base do processo dedesenvolvimento. Entre o desenvolvimento local e a natureza da organização cooperativa,como expressão dos interesses e necessidades de seus associados, como extensão de suaseconomias, – caracterizada pela associação e pela instrumentação empresarial, existe umadistância menor. As organizações cooperativas podem ser reconhecidas como expressãodas ações locais de desenvolvimento. Porém, mais que o local, a organização cooperativacarrega dentro dela a força política que permite recolocar o homem e não o capital, nocentro da dinâmica da economia. Não se desconhece a função do capital na organizaçãocooperativa e no processo de desenvolvimento, mas se reconhece a necessidade da primaziada centralidade humana. Entretanto, essas são potencialidades que dependem muito davontade política dos sujeitos envolvidos. Femia, apud Sztompka (1998:300), ao comentar as posições de Gramsci em sualeitura de Marx, afirma que este “postula como fator dominante da história não os fatoseconômicos brutos mas o homem, homens em sociedade, homens que interagem entre si(...) e desenvolvem através desses contatos (civilização) uma vontade coletiva, social;homens que irão entender os fatos econômicos, julgá-los e adaptá-los à sua vontade, demodo que essa vontade se torne a força propulsora da economia, aquilo que molda arealidade objetiva”. 16
  17. 17. Essa visão implica o reconhecimento da supremacia da política sobre a economia.Essa percepção conduz à pergunta sobre as referências em relação aos caminhos políticoscontemporâneos em relação ao futuro. O associativismo, fundando organizaçõeseconômicas cooperativas, pode representar um dos mais promissores desses caminhos emrelação ao futuro. O caminho da concorrência, da competição, sob a lógica da acumulaçãodo capital, certamente, para a maioria da população, é um dos caminhos mais estreitos deseu desenvolvimento, em relação ao futuro, em direção ao melhor. De acordo com Arruda, "se espalha pelo mundo o sentimento sempre mais enraizadode que o setor privado hegemônico não consegue gerar um mundo de bem-estar e felicidadepara todos e cada um dos cidadãos, povos e nações" (Arruda, 1996: 5). Para a maioria da população, é cada vez mais seletivo o caminho da competiçãopelo mercado concorrencial capitalista. É cada vez mais difícil a inserção na economiacapitalista, diretamente. A economia capitalista está cada vez mais fundada nas tecnologiasde ponta e não no trabalho humano. A sobrevivência das pequenas economias depende,cada vez mais, de novas formas de organização, de novas tecnologias de produção, denovos mecanismos de comercialização, de novos mercados, porém, menos dominados pelalógica dos interesses do capital. É preciso organizar, construir poder de ação, poder decontrole de certos fatores de decisão, através de redes cooperativas. É preciso construir asrelações econômicas de um mercado cooperativo. É preciso recuperar a base associativa daorganização econômica. De acordo com Arruda (1996: 24) é preciso "repensar, portanto, o mercado comouma relação social, entre seres humanos, apenas mediada por dinheiros e produtos; repensara empresa e as instituições como comunidades humanas; deslocar o eixo da existênciahumana do ter para o ser; identificar e cultivar a capacidade de cada pessoa e comunidadede ser sujeito consciente e ativo do seu próprio desenvolvimento, estes são alguns dosgrandes desafios ligados ao renascimento da humanidade no milênio que se avizinha". Quando se afirma a supremacia da vontade política sobre a economia, é precisodistinguir a vontade dos homens da “vontade” do capital. Não se pode confundir a vontadede quem está alienado de sua dimensão humana a serviço do capital, com as necessidadesdos homens. Estar alienado da dimensão humana não significa estar desapropriado, apenas,de bens materiais necessários à vida. Pelo contrário, alguém pode estar de posse de bens 17
  18. 18. materiais, mas encontrar-se em processo de desumanização, isto é, estar alienado dos bensespirituais do respeito ao outro, da solidariedade, da cooperação. A redução dasnecessidades do homem à “necessidade” do lucro, isto é, à lógica do capital, pode reduzir adimensão humana da economia. O processo do desenvolvimento local permite levantar ahipótese da ampliação da dimensão humana da economia pela maior identidade dos seusagentes.Um novo lugar para o cooperativismo Ao meu ver, desse contexto podem nascer as possibilidades de um novocooperativismo, fortalecido pela avaliação crítica de suas práticas. Na reflexão, na análisecrítica, na avaliação do sentido e da importância de seu acontecer, está um dos elementosde garantia de estabilidade organizacional e institucional, de validade social docooperativismo. Quando falha a reflexão, a crítica, a avaliação, corre perigo a estabilidade ea validade das instituições, especialmente, no caso de cooperativas. Corre perigo o projetocooperativo, como um espaço de organização democrática, de participação, de qualificaçãopolítica e técnica de seus integrantes. Um dos fundamentos do cooperativismo é ademocracia. É uma das variáveis da cooperação econômica. Não é um fim em si mesmo,mas é seu meio, sem o qual o projeto cooperativo se fragiliza. Entendo a prática cooperativa como um lugar social e econômico, a partir do qual oshomens se fazem sujeitos de seu próprio destino, desde que não se desvie essa prática desua razão: a economia do humano. A construção da economia do humano, em bases cooperativas, talvez, continuasendo um dos maiores desafios postos aos homens. Afirma Lévy (1998:47) que “nada émais precioso que o humano. Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo detodo o valor. (..) é preciso ser economista do humano, (...) É necessário igualmente forjarinstrumentos – conceitos, métodos, técnicas – que tornem sensível, mensurável,organizável, em suma, praticável o progresso em direção a uma economia do humano”. Osinstrumentos de construção da economia do humano deverão ser forjados pela via doassociativismo, pela organização cooperativa, mais que pela competição. A economia dohumano pode ser entendida como uma das expressões mais próximas do desenvolvimentolocal. 18
  19. 19. Na prática do cooperativismo este foi, muitas vezes, tão adverso aos interesses enecessidades de seus associados, como a própria realidade competitiva do mercadocapitalista. Isso sempre aconteceu quando a racionalidade da cooperação foiinstrumentalizada e submetida à lógica do capital. Em algumas situações, as práticas decooperativas chegaram a se constituir em verdadeiras bombas de sucção dos recursos deuma região, em favor de outras, através de projetos de “colonização” ou pela incorporaçãode empreendimentos em dificuldades. Nesse caso, as práticas cooperativas geraram efeitosdestrutivos no processo de desenvolvimento local. Entretanto, hoje, o cooperativismo se renova, enquanto capacidade de reação eorganização da sociedade civil, diante dos desafios que a evolução social e as políticassociais e econômicas lhe impõem. De um instrumento de políticas de governos, emcontextos anteriores, o cooperativismo se afirma como espaço de organização e instrumentode atuação de diferentes grupos sociais, com sentido e objetivos econômicos específicos,sem, no entanto, desconhecer a sua inserção e responsabilidade social maior. Transpareceum esforço por uma afirmação de identidade própria, desvinculando-se de usos ecompromissos oficiais. É o reflexo da compreensão do novo papel que a sociedade civildeve exercer, hoje, no contexto das instituições e organizações, especialmente, diante dasociedade política, de seus interesses e compromissos, cuja expressão maior foi, nosséculos XIX e XX, o Estado Nacional. Desse modo, o cooperativismo retoma as suaspotencialidades no processo de desenvolvimento local. De acordo com Arruda (1996:7) "é neste processo que ganha enorme importância apráxis de um cooperativismo autônomo, autogestionário e solidário, que inova no espaço daempresa-comunidade humana e também na relação de troca entre os diversos agentes;nosso argumento é que a sociedade precisa superar a relativa inércia a que se submeteu,superando a cultura da reivindicação e da delegação, como suas alienadoras práticaspaternalistas e assistencialistas, por uma cultura do auto-desenvolvimento, da auto-ajuda eda complementaridade solidária; o associativismo e o cooperativismo autogestionários,transformados em projeto estratégico, podem ser os meios mais adequados para areestruturação da sócio-economia na nova era que se anuncia". A experiência da organização cooperativa, especialmente, na história da agriculturado Rio Grande do Sul, não tem sido inexpressiva. O desenvolvimento de muitas 19
  20. 20. comunidades tem o seu centro dinâmico na existência de cooperativas. Com certeza, setoresimportantes da economia e um contingente expressivo da população têm raízes nasexperiências cooperativas. Erros e fracassos não invalidam o significado dessa experiência,especialmente, no campo da educação, pois, é das falhas que se aprende. Talvez isso explique as constatações que Pedro Demo faz, ao analisar os dados deuma pesquisa do IBGE sobre o associativismo em regiões metropolitanas do Brasil, em1966. Pelos dados analisados, verifica-se que no Rio Grande do Sul, de modo geral, osíndices de associativismo são mais elevados que nas demais regiões do País6.As práticas cooperativas no desenvolvimento local A organização cooperativa, ao tirar o indivíduo de seu mundo particular,relacionando-o com os outros, pelos laços sociais da cooperação, construindo espaçoscoletivos, desperta a responsabilidade social e a solidariedade, elementos fundamentais aodesenvolvimento do ser humano e de seus espaços de vida. A organização cooperativa temesse sentido da construção do coletivo que lhe advém da natureza associativa. As organizações cooperativas representam importantes espaços sociais. Nesseslugares sociais as pessoas desenvolvem sentimentos, idéias, valores, comportamentos,conhecimentos, aprendizagens, estruturas de poder de atuação, através do qual secomunicam e se influenciam. A organização cooperativa abriga um complexo sistema derelações sociais que se estruturam a partir das necessidades, das intenções e interesses daspessoas que cooperam. Da dinâmica dessas relações nascem ações no espaço da economia,da política, constituindo-se, assim, as práticas cooperativas em processos educativos e emprocessos de poder. A organização cooperativa, além do seu sentido econômico, constitui-se, assim, emuma escola, onde se gera conhecimento, produz-se aprendizagem, a respeito da vida narealidade social, certamente, com profundo reflexo no processo de educação mais amplo dasociedade, deitando nela raízes de muitos de seus valores e comportamentos sociais. A organização cooperativa ao mesmo tempo, é um lugar de negócios e um lugar deprodução de conhecimento, de aprendizagem, de educação. O conhecimento, a6 Demo, Pedro, 2001: Cidadania pequena: fragilidades e desafios do associativismo no Brasil. Campinas/SP:Autores Associados. 20
  21. 21. aprendizagem, a educação, acontecem nas práticas políticas de comunicação e negociação,na busca das informações, nas práticas da comercialização dos produtos. As organizaçõescooperativas sempre foram desafiadas por operações técnicas de produção, armazenagem,industrialização e comercialização, isto é, por questões vinculadas à economia dos seusassociados. Porém, também sempre existiram os desafios de ordem política, de naturezacultural e social. Hoje, as organizações cooperativas continuam, cada vez mais, sendo confrontadas eexigidas pelas muitas transformações de ordem política, de natureza cultural e social, pelasquais passa a sociedade. Especialmente, o fenômeno da intensificação da globalização trazmuitos novos desafios. Isso exige também de seus associados e dirigentes sempre novosconhecimentos, mais capacidade de articulação, maior identificação coletiva eresponsabilidade social. Todos são confrontados, cada vez mais, com novos e maioresproblemas, diante das transformações em curso. No meu entender, na prática cooperativa pode-se desenvolver sentidos não apenasinstrumentais, em termos de economia, mas que tenham significados para a vida dascomunidades de sua inserção operacional. Na comunicação do trabalho cooperativo está apossibilidade de uma inteligência coletiva e criativa com reflexos, certamente, nodesenvolvimento local. A importância das organizações cooperativas no desenvolvimento local, em termospráticos, pode ser reconhecida em aspectos de sua organização e funcionamento, através daestruturação e da viabilização de espaços econômicos para seus associados. Oreconhecimento dos principais aspectos econômicos é possível ser feito pelas práticas deorientação da produção, pela assistência técnica permanente, pela agregação de valor,através de processos de transformação da produção, pela relação com os mercadosexistentes ou pela abertura de novos mercados. Outros aspectos de importância econômicada organização cooperativa para o processo de desenvolvimento local, certamente, estãorelacionados à estabilidade do capital investido, isto é, a possibilidade de movimentação docapital cooperativo é quase nula; o grau de alienação é menor, desde que os associadosestejam dispostos a continuar investindo no local; a circulação local dos recursosfinanceiros gerados é, certamente, maior que a de outras empresas. Relacionados aosobjetivos e aos aspectos de ordem econômica, estão os significados dos aspectos políticos 21
  22. 22. da organização cooperativa: informação, conhecimento, participação, transparência e poder.Somados aos aspectos de ordem mais política, constituindo-se em elementos importantesdo capital social de uma organização cooperativa, podem ser também contabilizadosresultados sociais e culturais: solidariedade, identidade, comunicação, laços sociais,educação, aprendizagem, segurança econômica e social, responsabilidade social etc. Enfim, essa relação de causa e efeito entre associativismo, organização cooperativa,e desenvolvimento local não acontece de modo tão mecânico, determinístico, decorrente desuas atividades. No bom funcionamento de uma cooperativa existe a decorrência de efeitospositivos e de influências sobre o desenvolvimento local. Entretanto, essa relação de causae efeito deve também ser assumida por uma decisão política a favor do desenvolvimento dacomunidade de inserção. O reconhecimento da responsabilidade social do cooperativismono processo de desenvolvimento está expresso em seus princípios. Um dos princípiosreconhecidos, hoje, é o da responsabilidade social com a comunidade de inserção.Desenvolvimento: cooperação no lugar de competição Para atuar sobre o desenvolvimento, mesmo que local, antes de tudo, é preciso quese compreenda o que está acontecendo no mundo contemporâneo. Primeiro, no processodas transformações em curso não existe uma ruptura entre o local e o global. Em termos dedesenvolvimento, o que existe é uma mudança de estratégia e também de paradigma deorientação do processo de gestão da problemática social do desenvolvimento. No lugar dasgrandes decisões, dos grandes projetos, valoriza-se projetos locais ou regionais de maiorvisibilidade e transparência para a maioria da população e ganha espaço a participação,através de diferentes formas de organização e inserção, daqueles que são os primeiros a seconfrontar com o processo de desenvolvimento local. A participação aparece como princípio de um novo modelo de organização efuncionamento do processo de desenvolvimento, centrado na valorização da criatividade,na valorização do capital humano. A participação, como um processo de distribuição depoder, implica em profundas mudanças na concepção e funcionamento dos processos dedesenvolvimento. Implica em valorizar processos locais ou regionais. 22
  23. 23. A questão da participação aparece como contraposição à burocracia dos projetos dedesenvolvimento. A participação se traduz num fenômeno de busca de superação daorganização burocrática tradicional e de maior inserção da população. As chances de sucesso de um projeto de desenvolvimento local estão relacionadas àcombinação de diversos fatores internos e externos. Por isso, a importância de cada umdescobrir-se como ator e sujeito do projeto, reconhecendo as relações e o lugar que neleocupa e quais as possibilidades de ações concretas. Diante da natureza do desenvolvimento local, é preciso construir espaços comunspara as ações. Essa é, em grande medida, uma decisão política dos sujeitos empreendedoresdo desenvolvimento local. A construção desses espaços, por conseqüência, dá-se em basesassociativas, cooperativas. As organizações cooperativas são, por isso, um modelo idealpara a instrumentalização de ações concretas. Entre a ação cooperativa e o desenvolvimentolocal existe uma relação potencial de causa e efeito, entrelaçando as duas práticas. Essarelação se potencializa pelas possibilidades de políticas de intercooperação, isto é, pelaracionalização comunicativa e instrumental entre cooperativas. O núcleo dessasracionalidades é, antes de tudo, político. Isto é, depende de vontade política, de vontadepara constituir lugares de cooperação. No entanto, especialmente, no pensamento da cultura política, na economia demercado, aparece a competição mais que a cooperação como elemento básico do processode desenvolvimento. Quem já não ouviu falar de que devemos ser mais bem preparadospara a competição? Quando se trata de competir, ficamos sempre muito atentos com asexigências e os desafios que resultam dessa situação. As preocupações perpassam todos osestágios de preparo e participação do processo competitivo. Ninguém duvida danecessidade da educação para a competição. Porém, o desenvolvimento é um processo também fundado em relações sociaisassociativas, das quais podem nascer formas cooperativas. A organização para odesenvolvimento tem seus fundamentos na associação de todos aqueles que se constituemos sujeitos desse processo. Na identificação e na prática dessas relações está, certamente,hoje, um dos maiores desafios, diante da noção sobre a importância e a função dacompetição. É preciso reverter o mito da competição que está entranhado na cultura e nopensamento político da maioria das pessoas. 23
  24. 24. Na realidade da economia de mercado não existem apenas os aspectoscompetitivos. Muitos são os aspectos associativos em empreendimentos econômicos e quepodem sustentar organizações cooperativas. De acordo com Kliksberg (2001, p. 109),assessor da ONU, na nova discussão sobre o desenvolvimento existe a necessidade decaptar a complexidade da realidade social. O associativismo faz parte dessa complexidadeda realidade social. É possível que se possa recuperar, pelo associativismo, o conceito e aprática de mercado, aprisionado e submetido à lógica do capital, para recolocá-lo nadimensão de uma economia do humano. Segundo Armando de Melo Lisboa (2001, p. 48), “a pretensão de eliminarcompletamente o mercado, instituição social anterior ao capitalismo, foi uma das maioresestupidezes do velho socialismo que se esvazia. Um dos desafios contemporâneos éconstruir mercados socialmente controlados”. Em muitas de nossas localidades e regiões, construímos a realidade social, atravésde muitas gerações, partindo dos mais diferentes lugares desse planeta, pelo contextopolítico e econômico da expansão do sistema econômico competitivo capitalista. Ao longodessa trajetória de gerações, foi-nos sempre acenada a possibilidade de integrarmos essesistema e de construirmos, por dentro dele, através da competição, nossos espaços de vida,produzindo alimentos, ocupando as florestas, os campos e as terras férteis do País. Nadireção desses sonhos, fizemos todos os esforços, geração após geração. Hoje, para umagrande parte da população, essa possibilidade de integração está muito reduzido, quaseinexistente, e sua situação social é deprimente, em muitos casos. Foram muitos os que vieram, carregados pela esperança de melhores condições devida. A esperança por uma vida melhor, não foi menor, ao longo dos quinhentos anos delugar na história ocidental, para muitos outros, que não precisaram vir até o cenário dacolonização, pois esta foi até eles, indo de encontro as suas necessidade e interesses.Reconhecer essa história implica reconhecer os diversos aspectos que a compõem e que seapresentam, hoje, como potencialidades de um desenvolvimento nacional e local,socialmente mais justo. Algumas das marcas profundas dessa história ainda não se apagaram e estãopresentes, no íntimo de nosso modo de ser e de fazer as coisas. No reconhecimento dessasmarcas pode estar a raiz da discussão sobre desenvolvimento local. São as marcas históricas 24
  25. 25. de um capital social que as gerações souberam construir pela sua capacidade associativa ecooperativa em superar o passado. São marcas de lugares sociais que se capitalizaram comopotencialidades e diferenças, que nos distinguem e identificam nos cenários maiores dahumanidade. São marcas que podem se transformar, pela ação de seu reconhecimento, emforças políticas, em mobilização social, em capital social, colocando a cooperação no lugarda competição no processo de desenvolvimento local ou regional.O lugar da cooperação no desenvolvimento local Conforme já dizíamos, em texto anteriores, o tema e a problemática dodesenvolvimento se constitui em um dos grandes núcleos de debate, na atualidade, nas maisdiversas instâncias institucionais e níveis de organização humana. Entretanto, a discussãosobre desenvolvimento já é uma questão antiga, embora estejam acontecendo coisas novas.O que está acontecendo de novo, no espaço do desenvolvimento, diz respeito a suaabordagem, sua explicação, em termos teóricos, em termos de políticas e práticas dedesenvolvimento. Embora, mais na teoria do que na prática, hoje, os velhos conceitos dedesenvolvimento estão superados. Assim, por essa via, está aberto o caminho para areconstrução das práticas, a par de novos conceitos. Evidentemente, não se trata de umcampo de concordâncias, seja na teoria ou na prática. Por dentro da problemática do desenvolvimento, cresce um debate que se tornasempre mais crítico e profundo. Esse debate se constitui a base para novos conhecimentos enovas práticas de desenvolvimento. No espaço da problemática social do desenvolvimento,as discordâncias e as contradições são, ainda, profundas. Estas se orientam por diferentesvisões de mundo, racionalidades e interesses econômicos. Por isso, hoje, o campo dinâmico das práticas do desenvolvimento, é um dos lugaressociais de maior aprendizagem. Esta se constitui em uma das dimensões do própriodesenvolvimento, pois, essencialmente, aprender é desenvolver-se. Com certeza, essaaprendizagem os homens a estão fazendo, acima de tudo, a partir das dificuldades, dascontradições, inerentes ao processo social de desenvolvimento. Os desafios que nascemdessa problemática, estão postos às diferentes ciências e práticas sociais. Estão postos àpolítica, à economia, à cultura, à educação, à administração, às organizações cooperativas.Enfim, a aprendizagem acontece mais como produto da divergência, pois, frente a questões 25
  26. 26. polêmicas, na concordância pouco se aprende. As dificuldades de um processo dedesenvolvimento não estão nos limites do conhecimento, mas na absolutização dasconvicções e interesses. O cenário das divergências tem as mais diferentes raízes históricas, seja a partir dosconhecimentos ou das ideologias, seja a partir dos interesses privados, de indivíduos ougrupos, seja a partir dos interesses públicos, dos cidadãos ou das instituições da vidahumana. Poderíamos dizer que, no espaço social da dinâmica do desenvolvimento, oshomens se encontram com suas necessidades, desejos, interesses, conhecimentos, suasrazões e emoções, suas limitações e contradições, e deles fazem a base para as políticas e aspráticas de desenvolvimento. No mundo contemporâneo, isso se reforça com a própria crise da modernidade, istoé, com a crise das certezas, das verdades, com a crise das ciências, dos modelos, dosgrandes sistemas políticos e econômicos. Muitas das certezas que nos foram repassadas, através de gerações, pela educação,pela comunicação, através de nossas convivências sociais, já não contêm mais as respostasaos problemas atuais. No lugar das respostas que foram dadas, hoje, existem dúvidas. Issotambém está acontecendo com relação ao desenvolvimento. Basta lembrar a teoria dosestágios lineares sobre o desenvolvimento econômico de Rostow, que já serviu defundamentação para políticas e práticas de desenvolvimento, mas que hoje já não é maisaceita. As incertezas, as dúvidas, sobre a validade ou não das teorias e das práticas dedesenvolvimento, permitem recomeçar, abrem caminhos para a sua reconstrução. Aspráticas do desenvolvimento devem ter como fundamento a comunicação, a liberdade dapergunta, da crítica, da participação, do compromisso político com a esperança de quemsonha com dias melhores. A reconstrução não começa com respostas prontas, com certezasou verdades. A reconstrução começa pela dúvida, pela experiência dos erros, pela coragemda crítica e da autocrítica. A liberdade da dúvida traz a liberdade da pergunta, a liberdadede iniciar novos caminhos, novas experiências. O desenvolvimento de melhores condiçõesde vida, só pode ser produzido com a liberdade da crítica, do debate, da comunicação. Não existem mais respostas prontas ou certezas que venham de fora, de modelosuniversalizados. As respostas precisam ser buscadas nas experiências de vida de cada um, 26
  27. 27. nas experiências dinâmicas de cada sociedade. Precisam ser construídas, através do diálogo,do debate, da argumentação. Aqui, começa o lugar do cooperativismo no processo de desenvolvimento local. Nosentido da comunicação, do diálogo, do debate, da argumentação, a organizaçãocooperativa é um lugar privilegiado, podendo constituir-se em um grupo criativo einovativo, no processo de desenvolvimento de uma comunidade. Pode constituir-se em umnúcleo de inteligência coletiva. Entretanto, isso é algo também a ser construído. O potencialda cooperação para o desenvolvimento de uma comunidade ou região, é algo imanente ànatureza da organização, mas depende da capacidade de percepção e gestão de seusassociados e dirigentes. Como grupo criativo e inovativo, de acordo com Marcos Arruda, a cooperação temcomo ponto de partida a diversidade do conjunto de talentos, capacidades, competênciasque constituem a singularidade e a criatividade de cada um. O método é colocá-las emcomum, buscando construir laços solidários de colaboração no interior da comunidade, demodo a desenvolver quanto possível os talentos, capacidades e competências coletivas.Trata-se, como no caso de cada pessoa, de desenvolver a comunidade no sentido detornar-se sujeito consciente e ativo do seu próprio desenvolvimento. Através de ação grupal e cooperativa, aproximam-se as pessoas, desenvolvemidentidades, valores e comportamentos. Cooperativas carregam em si o potencial dodiálogo, da ação entre pessoas com interesses e necessidades idênticas, constituindo-se embase para o desenvolvimento de capital. Organizações cooperativas carregam dentro delasum potencial de capital social que pode ser ativado em processos de desenvolvimento locale regional. Porém, tudo isso é também função de uma vontade política. É nesse processo criativo que se podem estabelecer e afirmar elos dinâmicos entre odesenvolvimento local, o associativismo, o cooperativismo, produzindo-se os sentidos e osconteúdos práticos desses conceitos.Bibliografia:ARRUDA, Marcos, 1996: Globalização e Sociedade Civil: Repensando o Cooperativismono Contexto da Cidadania Ativa. Rio de Janeiro: PACS - Instituto Políticas Alternativaspara o Cone Sul 27
  28. 28. ASSMANN, Hugo, 1998: Reencantar a Educação. Rumo à sociedade aprendente.Petrópolis, RJ: Vozes, 2ª ed.BECKER, Dinizar Fermiano e BANDEIRA, Pedro Silveira, 2000: Determinantes edesafios contemporâneos. Santa Cruz do Sul: EDUNISC.BOISIER, Sérgio, 2000: Desarrollo (local): de qué estamos hablando? In: BECKER,Dinizar Fermiano e BANDEIRA, Pedro Silveira, 2000: Determinantes e desafioscontemporâneos. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, pág. 151 a 185.BROSE, Markus, 1999: Agricultura Familiar, Desenvolvimento Local e políticas Públicas.Santa Cruz do Sul: EDUNISC.BUARQUE, Sergio C. 2002: Construindo o desenvolvimento local sustentável.Metodologia de planejamento. Rio de Janeiro: GaramondDEMO, Pedro, 2001: Cidadania Pequena: fragilidades e desafios do associativismo noBrasil. Campinas, SP: Autores Associados.KLIKSBERG, Bernardo, 2001: Falácias e mitos do desenvolvimento social. S. Paulo:Cortez; Brasília, DF: UNESCOLÉVY, Pierre, 1998: A ideografia dinâmica. Rumo a uma imaginação artificial? S. Paulo:Edições Loyola.LÉVY, Pierre,1999: A Inteligência Coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço.Tradução de Luiz Paulo Rouanet. 2ª edição. São Paulo: Edições LoyolaLISBOA, Armando de Melo, 2001: A socioeconomia solidária diante da grandetransformação. In: Ciências Sociais Unisinos, Revista do Programa de Pós-graduação emCiências Sociais Aplicadas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, vol. 37, nº 159,julho/dezembro 2001, pá. 27-57. São Leopoldo/RS: UNISINOSMARQUES, Mario Osorio e BRUM, Argemiro Jacob, 1972: Uma Comunidade em Buscade Seu Caminho.Porto Alegre: SulinaMARQUES, Mario Osorio, 1984: Universidade Emergente. O ensino superior brasileiroem Ijuí (RS), de 1957 a 1983. Ijuí(RS): FIDENEMORIN, Edgar, 1998: Sociologia. A sociologia do Microssocial ao Macroplanetário.Tradução de Maria Gabriela de Bragança e Maria da Conceição Coelho. Portugal:Publicações Europa-América 28
  29. 29. SOARES, Rosemary Dore, 2000: A concepção gramsciana do estado e o debate sobre aescola. Ijuí: Ed. UNIJUI.SZTOMPKA, Piotr, 1998: A sociologia da mudança social. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira. 29

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