Nas sombras

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Nas sombras

  1. 1. Nas SombrasCapítulo Um— Você pode me ouvir, não pode?Apertei o botão verde da copiadora para abafar a voz desencarnada. Algumas vezes, se eu as ignorasse por temposuficiente, elas iam embora — confusas, desencorajadas e mais solitárias do que nunca. Algumas vezes.Tá bom,quase nunca. Normalmente elas ficavam mais altas.Não tinha tempo para lidar com isso naquele dia. Apenas maisum bloco de processos para tirar os grampos, copiar e grampear novamente, e então eu poderia ir para casa, trocaresta camisa de força e esta meia-calça por uma camiseta e um jeans, e conseguir chegar à casa do Logan antes doensaio. Para dizer a ele que sinto muito, que mudei de ideia e que dessa vez ele pode acreditar em mim. Sério.— Eu sei que você pode me escutar. — A voz da mulher velha ganhava força enquanto se aproximava. — Você é umdeles.Não me encolhi enquanto pegava o processo do topo da pilha sobre a mesa da sala de conferências. Eu não podiavê-la sob as fortes luzes fluorescentes do escritório, o que tornava por volta de um por cento mais fácil fingir que elanão estava lá.Algum dia, se dependesse de mim, nenhum deles estaria mais ali.— Que criança intolerantemente rude — disse ela.Arranquei o grampo do último processo e o deixei voar em uma direção desconhecida, tentando me apressar semparecer que estava me apressando. Se a fantasma soubesse que eu estava me preparando para ir embora, ela ia saircuspindo sua história sem ser convidada. Coloquei cuidadosamente as folhas no alimentador e apertei “copiar”novamente.— Você não pode ter mais que 16 anos. — A voz da senhora estava perto, quase no meu cotovelo. — Então vocênasceu nos escutando.Eu não precisava que ela me lembrasse de como as divagações dos fantasmas costumavamencobrir as canções de ninar new age da minha mãe. (De acordo com tia Gina, mamãe achava que as velhas cançõesde ninar eram muito perturbadoras: “nana, neném, que a cuca vem pegar”. Mas quando pessoas mortas estãoreclamando e choramingando em volta do seu berço o tempo todo, a ideia de ser pega pela cuca não é exatamenteuma fonte de preocupação.)A pior parte era que aquelas canções de ninar eram tudo que eu me lembrava dela.— Vamos lá! — reclamei baixinho com a copiadora, resistindo à vontade de chutá-la.Essa bosta tinha escolhido justo aquele momento para emperrar.— Merda. — Cerrei o punho, enfiando a ponta do removedor de grampos debaixo da unha do meu dedão. — Ai!Inferno!Chupei a gota de sangue que se formou.
  2. 2. — Cuidado com o palavreado. — O fantasma fungou. — Quando eu tinha a sua idade, mocinhas nunca teriamescutado tais palavras, muito menos assassinado a língua mãe com... blá-blá... crianças de hoje em dia... blá-blá...culpa dos pais... blá.Abri a frente da copiadora com força e procurei pelo papel preso, cantarolando uma canção dos Keeley Brotherspara encobrir os resmungos do fantasma.— Eles me cortaram — disse ela, com a voz baixa.Parei de cantarolar e soltei um suspiro que balançou minha franja. Algumas vezes não tinha como ignorar essaspessoas.Levantei, batendo a porta da copiadora.— Uma condição. Eu vou poder ver você.— De forma alguma — ela bufou.— Resposta errada.Contornei a mesa e fui em direção ao interruptor ao lado da porta da sala de conferências.— Por favor, você não quer fazer isso. A forma como eles me deixaram...Apaguei a luz e acionei a Caixa Preta.— Não!O fantasma avançou na minha direção em uma explosão de luz roxa. Ela parou a 5 centímetros do meu rosto esoltou um gritinho agudo que bateu em todos os pequenos ossos dos meus ouvidos.Recuar? Não era uma opção.Cruzei os braços e, calma e vagarosamente, estendi o meu polegar.— Este é seu último aviso. — Sua voz estava áspera em uma tentativa de me assustar. — Acenda a luz.— Você queria falar. Eu não falo com fantasmas que não posso ver. — Toquei o interruptor da Caixa Preta. — É umadroga ficar presa, não? É assim que me sinto escutando vocês o dia inteiro.— Como você se atreve? — A mulher deu um tapa na minha cara, seus dedos encurvados como garras. Sua mãopassou através da minha cabeça sem fazer ao menos um vento. — Depois de tudo que eu passei. Olhe paramim.Tentei ver sua aparência, mas ela estava tremendo tanto de raiva que suas linhas roxas ficavam se misturado.Era como tentar assistir TV sem minhas lentes de contato.— Esses sapatos estão muito fora de moda — disse eu —, mas, tirando isso, você está bonita.O fantasma olhou para seu próprio corpo e congelou, estupefato. Seu cabelo pálido — grisalho em vida, imaginei —estava preso em um coque e ela vestia o que parecia ser um terninho de lapela bufante e sapatos de salto baixo. Elaparecia ter acabado de sair de um clube chique. Provavelmente achou sua própria morte um escândalo.— Eu não tinha me visto no escuro — falou ela, surpresa. — Achei que estaria...Sua mão passou sobre a barriga.— O quê? Gorda?— Estripada.Senti meu olhar suavizar.— Você foi assassinada?
  3. 3. Com pessoas velhas era normalmente um ataque cardíaco ou um derrame. Mas isso explicava sua raiva. Ela olhoufeio para mim:— Bem, certamente não foi suicídio.— Eu sei. — Minha voz ficou mais gentil enquanto me lembrava de ser paciente. Algumas vezes essas pobres almasnão sabiam o que esperar, apesar de todas as campanhas de conscientização pública feitas desde a Passagem. Omínimo que eu podia fazer era explicar. — Se você tivesse se matado, não seria um fantasma, porque teria estadopreparada para morrer. E não está toda retalhada porque fica congelada no momento mais feliz da sua vida.Ela examinou suas roupas com algo próximo a um sorriso, talvez se lembrando do dia em que as vestiu, então olhoude volta para mim com uma ferocidade súbita:— Mas por quê?Deixei a paciência de lado:— Como diabos eu deveria saber? — Balancei os braços. — Não sei nem ao menos por que nós vemos vocês.Ninguém sabe, tá bom?— Escute bem, mocinha. — Ela apontou seu dedo roxo na minha cara. — Quando eu tinha a sua idade...— Quando a senhora tinha a minha idade, a Passagem não tinha acontecido ainda. Tudo é diferente hoje em dia.Devia ficar agradecida por alguém poder escutá-la.— Eu não deveria estar... assim... não mesmo. — Ela claramente não conseguia dizer a palavra “morta”. — Precisoque alguém conserte isso.— Então a senhora quer processar.Essa é uma das especialidades da minha tia Gina: processo por responsabilidade em morte. Gina acredita em “pazatravés da justiça”. Ela acha que ajuda as pessoas a passar do estado de fantasma para o que quer que esteja além.O Paraíso, imagino, ou pelo menos um lugar melhor que Baltimore.O estranho é que normalmente funciona, apesar de ninguém saber exatamente o porquê. Mas, infelizmente, Gina —minha tia, guardiã e madrinha — não pode ver ou ouvir fantasmas; nem ela nem mais ninguém nascido antes daPassagem, que aconteceu há 16 anos e 9 meses. Então, quando a firma dela pega um desses casos, adivinha quem éo encarregado de traduzir? Tudo por um salário de assistente de arquivista.— Meu nome é Hazel Cavendish — disse a senhora. — Eu era uma das clientes mais leais dessa firma.Ah, isso explicava como ela tinha entrado aqui, afinal, fantasmas só podem aparecer em lugares onde estiveramdurante suas vidas. Ninguém sabe por que isso acontece também, mas com certeza torna as coisas bem mais fáceispara pessoas como eu.Ela continuou sem perder tempo:— Fui assassinada hoje de manhã na porta da minha casa em...— A senhora pode voltar na segunda? — Chequei meu relógio no brilho roxo de Hazel. — Tenho um compromissoem outro lugar.— Mas hoje ainda é quinta. Preciso falar com alguém agora.— Seus dedos escorregaram pelo colar de pérolas em volta do seu pescoço. — Aura, por favor.Dei um passo para trás.
  4. 4. — Como sabe o meu nome?— Sua tia falava de você o tempo todo, me mostrou sua foto.Seu nome é difícil de esquecer. — Ela se moveu na minha direção, seus passos silenciosos. — Tão bonito.Minha cabeça começou a ficar zonza. Ah, não.Vertigem em uma pessoa nascida depois da Passagem, como eu, normalmente significa que um fantasma estávirando sombra. Eles seguem por esse caminho sem volta, quando deixam a amargura deformar suas almas. Isso atétem suas vantagens — sombras são espíritos obscuros e poderosos que podem se esconder na escuridão e ir aondequiserem.De fato, qualquer lugar; menos para fora desse mundo. Ao contrário dos fantasmas, sombras não podemfazer a passagem ou encontrar a paz, até onde sabemos. E já que elas podem, por conta própria, debilitar pessoasnascidas depois da Passagem que estiverem perto delas, “detenção” é a única opção.— Eu realmente tenho que ir — sussurrei, como se fosse magoar menos a ex-Hazel se diminuísse o volume. —Alguns dias não vão fazer diferença.— Tempo sempre faz diferença.— Não para você. — Mantive minha voz firme, mas bondosa.— Não mais.Ela chegou tão perto que eu podia ver cada ruga em seu rosto roxo.— Seus olhos são velhos — sussurrou ela, com maldade. — Você acha que já viu tudo, mas não sabe como é issoaqui. — Ela tocou meu coração com uma das mãos, mas eu não pude sentir. — Um dia você vai perder alguma coisaimportante e então vai saber.Corri para o carro, meus sapatos de trabalho fazendo barulho ao bater na calçada e criando bolhas em meuscalcanhares. Não teria tempo de passar em casa para trocar de roupa antes de ir para a casa do Logan. Devia tertrazido minhas roupas comigo, mas como poderia saber que ia aparecer um caso novo?Acabei amolecendo, é claro,e deixei a senhora idosa contar à minha tia a história de sua terrível morte. O fantasma estava tão zangado que mepreocupei com o que ela faria se eu não lhe desse atenção imediata. Tornar-se uma sombra ainda era bastante raro,especialmente para um fantasma novo como a ex-Hazel, mas não valia a pena arriscar.As volumosas árvoresalinhadas ao longo das calçadas deixavam a rua escura o suficiente para tornar possível ver fantasmas mesmo umahora antes do pôr do sol. Meia dúzia estava do lado de fora da creche na mansão do outro lado da rua. Assim como amaioria dos prédios na área do Roland Park, a creche Pequenas Criaturas era completamente protegida pela CaixaPreta — todas as suas paredes receberam a mesma camada fina de obsidiana que mantinha fantasmas afastados deáreas críticas: banheiros, instalações militares, esse tipo de coisa. Adoraria que Gina e eu tivéssemos dinheiro paramorar lá — no Roland Park, quero dizer, não em uma instalação militar.Parei para comprar uma raspadinha gigantede Coca-Cola e a ataquei com voracidade no caminho para a autoestrada I-83, parando de vez em quando para nãocongelar meu cérebro. Geralmente prefiro usar a colherzinha da ponta do canudo, mas depois do tempo que passeicom a ex-Hazel, precisava desesperadamente da quantidade cavalar de cafeína e açúcar que só o xaropeconcentrado do fundo da raspadinha poderia fornecer.As longas sombras das árvores encobriam as ruas e eucontinuei olhando estritamente para frente; assim não via os fantasmas nas calçadas.Até parece que adiantou. Noúltimo sinal de trânsito antes da via expressa, uma pequena criança roxa acenou do banco traseiro de um carro àminha frente; seus lábios estavam se movendo, formando palavras que eu não conseguia decifrar. Uma menina maisvelha ao seu lado botava as mãos sobre os ouvidos, suas mariachiquinhas louras balançando para frente e para trás,enquanto ela sacudia a cabeça. Os pais, nos bancos da frente, continuavam conversando sem perceber, ou talvezsimplesmente sem saber como lidar com aquilo. Eles deviam trocar de carro, pensei, enquanto aquela pobre menina
  5. 5. ainda tem sua sanidade.A entrada da autoestrada era num aclive na direção do sol e soltei um suspiro de alívio,mordendo a ponta do canudo.Depois de quase 17 anos ouvindo sobre pavorosos assassinatos e acidentes horríveis, você poderia pensar que eume tornara durona, calejada. Poderia pensar que a tendência dos fantasmas a contar detalhes demais poderia atéme irritar algumas vezes em vez de entristecer.E você estaria certo. Na maioria das vezes. Quando eu tinha 5 anos,parei de chorar. Parei de ter pesadelos. Parei de dormir com a luz acesa para não ver seus rostos. E parei de falarsobre isso, porque àquela altura o mundo já acreditava em nós. Quinhentos milhões de crianças não podem estarerrados.Mas nunca me esqueci. Suas histórias estão guardadas em minha mente, tão perfeitamente como em umsistema de arquivo. Provavelmente porque recitei muitas delas no banco de testemunhas.A Justiça não simplesmente aceita minha palavra, ou a de outra pessoa qualquer. O testemunho só conta se dois denós, nascidos depois da Passagem, concordarmos sobre o depoimento de um fantasma. Já que fantasmasaparentemente não podem mentir, eles são ótimas testemunhas. Ano passado, eu e um novato apavorado servimosde tradutores para as vítimas de um serial killer. (Lembra do Tomcat? Aquele que gostava de “brincar com suacomida”?)Bem-vindo à minha vida. E só melhora.Estacionei na porta do Logan às 18h40. Eu adorava ir à casa dosKeeley — ela ficava em um condomínio em Hunt Valley que costumava ser uma fazenda até poucos anos atrás.Bairros novos tinham muito menos fantasmas e eu nunca tinha visto nenhumna casa deles. Naquela época, pelomenos.Chequei meu cabelo no espelho retrovisor. Desesperadamente ben-penteado. Vasculhei a minha bolsa eacabei achando alguns grampinhos prateados em forma de caveira, então os prendi no meu cabelo castanho lisopara fazê-lo sobressair em alguns lugares.— É, você está parecendo totalmente punk com seu terno bege e sapato boneca.Fiz uma careta para mim mesma no espelho e então cheguei mais perto. Será que meus olhos eram realmente tãovelhos, como disse a ex-Hazel? Talvez fossem os círculos escuros debaixo deles. Lambi meu dedo e o esfregueidebaixo dos meus olhos castanhos para ver se o rímel tinha borrado.Não. As sombras escuras na minha pele vinhamde muito pouco sono e muita preocupação. De tanto ensaiar o que ia dizer ao Logan.Enquanto andava pelo caminho de tijolos que levava à porta, ouvi música saindo da janela aberta do porão.Atrasada.Quis jogar minha bolsa no gramado dos Keeley de tantra frustração. Uma vez que Logan se perdia em sua guitarra,ele esquecia que eu existia. E nós realmente precisávamos conversar.Entrei pela porta da frente sem bater, damesma forma que fazia desde que tínhamos 6 anos, quando os Keeley moravam na minha rua em uma casageminada como a nossa. Passei correndo pelas escadas, atravessei a cozinha e entrei na sala de estar.— Ei, Aura — disse Dylan, o irmão de 15 anos do Logan, de sua posição habitual: sentado descalço no chão com aspernas arqueadas em frente à TV de tela plana. Ele deu uma olhada para mim, desviando sua atenção do videogamepor um segundo, mas voltou a olhar quando reparou no copo gigante de raspadinha.— Caso ruim?— Velhinha, esfaqueada em um assalto. Quase uma sombra.— Que droga. — Ele focou no seu jogo, balançando a cabeça no ritmo da trilha sonora metaleira. — Bebidasproteinadas funcionam melhor.— Você tem o seu jeito de se recuperar, eu tenho o meu.— Você que sabe. — Sua voz ficou mais alta de repente. — Nãããooo! Toma! Toma!Dylan jogou as costas contra o pufe e atirou o controle quase forte o suficiente para quebrá-lo. Enquanto seupersonagem era incinerado por um lança-chamas, ele gritou uma série de palavrões que me disseram que seus paisnão estavam em casa.
  6. 6. O Sr. e a Sra. Keeley aparentemente já tinham saído para sua segunda lua de mel.Abri a porta do porão, deixando escapar uma explosão de acordes de guitarra, então tirei meus sapatos para quepudesse descer a escada sem fazer barulho.Na metade do caminho, olhei por cima do corrimão para o ladoesquerdo do porão inacabado. Logan estava olhando para o outro lado, tocando sua Fender Stratocaster nova eobservando seu irmão Mickey fazer um solo. O movimento de suas escápulas fazia ondas na camiseta verde-neonque eu comprara para ele na nossa última viagem a Ocean City.Quando ele moveu a cabeça para olhar seus dedosno braço da guitarra, pude ver seu perfil. Mesmo com o rosto todo concentrado, seus olhos azuis como o céubrilhavam de felicidade. Logan poderia tocar guitarra em um esgoto e ainda se divertir.Logan e Mickey eram comoyin e yang, dentro e fora. O cabelo espetado de Logan era descolorido com mechas pretas, enquanto o de Mickeyera preto com mechas louras. Logan tocava uma guitarra preta de destro e seu irmão, uma branca de canhoto. Elestinham o mesmo porte físico esbelto, e muitas pessoas achavam que eles eram gêmeos, mas Mickey tinha 18 anos eLogan apenas 17 (menos um dia).A irmã deles, Siobhan — a verdadeira gêmea de Mickey — estava sentada com aspernas cruzadas no tapete em frente a eles, sua rabeca apoiada em seu joelho esquerdo enquanto dividia um cigarrocom o baixista, seu namorado, Connor.Minha melhor amiga, Megan, estava sentada ao lado deles, os joelhos dobrados junto ao peito. Ela enrolava umamecha do seu longo cabelo vermelho entre os dedos enquanto olhava para Mickey.O único que estava de frentepara mim era Brian, o baterista. Ele me viu e na mesma hora perdeu o tempo da música. Eu me encolhi — ele erabrilhante algumas vezes, mas podia se distrair com uma poeira perdida.Mickey e Logan pararam de tocar e seviraram para Brian, que ajeitou o boné branco de baseball virado para trás em sua cabeça, envergonhado.— Meu Deus — disse Mickey —, é muito pedir para você manter a porra do andamento?— Desculpe. — Brian rodou a baqueta entre seus dedos, então apontou para mim. — Ela está aqui.Logan se virou e esperei um olhar de repreensão por interromper o ensaio — sem falar em um resíduo dehostilidade pela briga de ontem à noite. Mas ao invés disso, seu rosto se iluminou.— Aura! — Ele passou a correia por cima da cabeça, entregou sua guitarra a Mickey e correu para me encontrar nopé da escada.— Ai, meu Deus, você não vai acreditar! — Ele me segurou pela cintura e me levantou do chão. — Você não vaiacreditar.— Eu vou, prometo. — Passei meus braços em volta do seu pescoço, sorrindo tanto que chegava a doer. Claramenteele não estava chateado comigo. — O que houve?— Espere um pouco. — Logan me colocou de volta no chão, então abriu meus braços para examinar meu terno. —Eles fazem você usar isso para trabalhar?— Não tive tempo de trocar de roupa. — Dei um soco de leve em seu peito por me torturar. — Então, em que eunão vou acreditar?— Siobhan, pegue algumas roupas para ela — disse ele autoritariamente.— Você pode escolher — disse ela —, diga por favor ou beije minha bunda.— Por favor! — Logan pôs as mãos para cima. — Qualquer coisa para manter sua bunda a uma distância segura.Siobhan entregou a Connor seu cigarro e se pôs de pé. Quando passou por mim, ela apertou meu cotovelo e disse:— O cara acha que é um deus do rock só porque umas pessoas de uns selos vão ao show amanhã.Minha mente rodou enquanto absorvia minha maior esperança e meu maior medo.
  7. 7. — Ela está brincando? — perguntei a Logan.— Não — rugiu ele. — Obrigado por estragar a surpresa, cara de cavalo! — gritou ele, enquanto ela subia a escadapreguiçosamente, rindo baixinho.Eu puxei sua camisa:— Quem vai?— Sente só. — Ele segurou meus ombros. — Representantes de duas gravadoras diferentes. Uma é independente,Lianhan Records...— Essa é a que nós queremos — interrompeu Mickey.— E a outra é a Warrant.Perdi o fôlego:— Já ouvi falar da Warrant.— É porque eles fazem parte de uma gravadora muito, mas muito grande. — Os olhos de Logan se moviam emêxtase, como se Deus em pessoa estivesse entregando contratos a ele.— Vamos usar a Warrant para fazer ciúmes na Lianhan — completou Mickey. — Mas não vamos nos vender.Logan me puxou para a parte de trás da escada onde os outros não podiam nos ver:— Essa pode ser a nossa chance — sussurrou ele. — Dá para acreditar? Seria o presente de aniversário mais incrívelde todos os tempos.Estabilizei minha respiração para conseguir fazer as palavras saírem:— Espero que não seja o melhor presente.— Você está falando da Strato que meus pais me deram?— Também não é isso. — Deslizei minha mão por baixo da parte de trás da sua camiseta e deixei meus dedoscorrerem pela sua pele quente.— É alguma coisa que você... espera. — Ele arregalou os olhos, fazendo a argola prateada em sua sobrancelhabrilhar sob a luz do teto. — Você está dizendo...— Sim. — Fiquei na ponta do pé e o beijei rapidamente, mas com intensidade. — Eu estou pronta.Seus cílios dourados tremulavam, mas ele inclinou o rosto para me olhar de lado.— Você já disse isso antes.— Eu disse um monte de coisas antes. Algumas delas foram estúpidas.— Sim, é verdade. — Seus olhos se enrugaram, suavizando suas palavras. — Você sabe muito bem que eu nuncadeixaria você por causa disso, de qualquer forma. Como você pode ter ao menos pensado nisso?— Não sei. Sinto muito.— Eu também. — Ele passou seu polegar no meu queixo, o que sempre me deixava arrepiada. — Eu te amo.
  8. 8. Então ele me beijou, afogando minhas dúvidas em um caloroso e singelo momento. Dúvidas sobre ele, sobre mim esobre mim e ele.— Aqui está! — disse Siobhan do alto da escada, um momento antes de um amontoado de jeans e algodão cairsobre nossas cabeças. — Ops! — disse ela, fingindo surpresa.Peguei a calça jeans do ombro de Logan e a levantei, em saudação.— Obrigada, Siobhan.— De volta ao trabalho! — soou a voz de Mickey do outro lado do porão.Logan ignorou seu irmão e olhou bem nos meus olhos:— Então... talvez amanhã à noite, na minha festa? — Ele correu para complementar. — Só se você tiver certeza. Nóspodemos esperar se você...— Não. — Eu mal conseguia manter minha voz baixa. — Chega de esperar.Seus lábios se curvaram em um sorriso que logo depois desapareceu.— É melhor eu arrumar meu quarto. Tem tipo uma trilha de 30 centímetros de largura entre todas os Guitar Worldsantigos e roupas para lavar.— Eu consigo andar na ponta dos pés.— Não importa. Quero que seja perfeito.— Ei — gritou Mickey novamente, agora mais alto —, qual parte de “de volta ao trabalho” você não entendeu?Logan fez uma careta.— Estamos trocando parte do setlist: menos covers e mais material nosso. Provavelmente vamos ficar acordados anoite toda — Ele me deu um beijo que foi rápido, mas cheio de promessa. — Fique o quanto quiser.Ele desapareceu contornando a escada e imediatamente Megan tomou seu lugar ao meu lado.— Vocês fizeram as pazes? Fizeram, não fizeram?— Nós fizemos as pazes. — Sentei no sofá para tirar minhas meias-calças, olhando para trás para ter certeza de queos meninos estavam fora do campo de visão, do outro lado da escada. — Disse a ele que estou pronta.Megan se jogou ao meu lado e apoiou seu cotovelo nas costas do sofá.— Você não acha que tinha que dizer isso para segurá-lo, acha?— É algo que eu quero também. De qualquer modo, quem se importa, contanto que funcione?— Aura...— Você sabe como é ir aos shows deles. — Meu sussurro se transformou em um silvo. — Ficar vendo todas aquelasgarotas que provavelmente pagariam para ficar nuas com Mickey ou Logan. Ou mesmo com Brian ou Connor.— Mas os meninos não são assim... Bem, talvez Brian seja, mas ele não tem uma namorada. Mickey me ama. Loganama você.— E o que isso quer dizer? — Coloquei a calça jeans rapidamente. — Muitas estrelas do rock têm esposas enamoradas e eles ainda assim transam com as groupies. Todo mundo sabe que é assim.
  9. 9. — Acho sua falta de fé perturbadora — disse ela em sua melhor imitação de Darth Vader, me obrigando a sorrir.Desabotoei minha camisa de seda branca.— O que será que eu visto?— O mesmo de sempre, por fora. É assim que ele gosta de você. — Megan puxou a alça do meu sutiã bege semgraça. — Mas definitivamente algo melhor que isso por baixo.— Dã...Essa foi a minha única resposta enquanto passava a camiseta amarela e preta dos Distillers da Siobhan pela minhacabeça. Eu tinha feito uma visita escondida à Victoria´s Secret há algumas semanas — a que fica em Owings Mills,onde ninguém me reconheceria. O conjunto de sutiã e calcinha preto de renda ainda estava na embalagem original,com as etiquetas, no fundo da última gaveta da minha cômoda.— A primeira vez não precisa ser uma droga — disse ela —, não se você for com calma.— Certo — falei rapidamente, sem a mínima vontade de conversar sobre aquilo.Por sorte, naquele momento, Brian contou o tempo nas baquetas e a banda começou a tocar uma de suas cançõesoriginais, “The Day I Sailed Away”.Os Keeley Brothers queriam ser a principal banda com influência irlandesa de Baltimore. Talvez um dia seremconhecidos nacionalmente, se tornarem os próximos Pogues, ou pelo menos o próximo Floggin Molly, com umadose pesada de atitude skate punk americana.Assim que Logan começou a cantar, o rosto de Megan refletiu minha felicidade e admiração. Com aquela voz osliderando, os Keeley Brothers não precisavam ser os sucessores de ninguém.Duas gravadoras. Fechei os olhos, ignorando a forma como meu estômago se embrulhava, e saboreei aquele somque Megan e eu teríamos, em breve, que compartilhar com o mundo.Eu sabia que tudo ia mudar na próxima noite. Era como se o tempo tivesse se dobrado e eu pudesse me lembrar dofuturo.Um futuro que eu já odiava.

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