Vivências urbanas na cidade de serrinha ba (1917-1919)

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Vivências urbanas na cidade de serrinha ba (1917-1919)

  1. 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE HISTÓRIA RAFAELLA DE LIMA CAPISTRANOVIVÊNCIAS URBANAS NA CIDADE DE SERRINHA - BA (1917-1919) Conceição do Coité – BA 2010
  2. 2. 2 RAFAELLA DE LIMA CAPISTRANOVIVÊNCIAS URBANAS NA CIDADE DE SERRINHA - BA (1917-1919) Monografia apresentada ao Curso de Licenciatura em História da Universidade do Estado da Bahia – UNEB - Campus-XIV, como requisito parcial para obtenção de grau de Licenciada em História. Orientador: Prof. Ms. Rogério Silva. Conceição do Coité – BA 2010
  3. 3. 3 TERMO DE APROVAÇÃO RAFAELLA DE LIMA CAPISTRANO VIVÊNCIAS URBANAS NA CIDADE DE SERRINHA - BA (1917-1919)Monografia apresentada ao Curso de graduação em História, Departamento de Educação - CampusXIV, Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciadaem História, pela seguinte banca examinadora: Aprovada em ___/____/2010 _________________________________________________ Professor - Examinador 01 Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus XIV _________________________________________________ Professor - Examinador 02 Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus XIV ________________________________________________ Professor Ms. Rogério Silva- Orientador Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus XIV Conceição do Coité – BA 2010
  4. 4. 4 RESUMO A discussão sobre o estudo das cidades no Brasil durante o século XX foi caracterizado poruma sociedade pautada na idéia de progresso e transformação. Com o advento da Repúblicasurgiu uma nova dinâmica social, política e econômica que influenciou diretamente nasreformas urbanas. Sendo assim, a formação da concepção de modernidade surge com aremodelação de grandes cidades como o Rio de Janeiro que foi modelo para as outras capitais.As reformas urbanas também tinham como objetivo copiar os modelos urbanísticos europeusa maioria dos projetos envolveu o saneamento de ruas, a inserção de novas tecnologias ehigienização. A presente monografia tem como intuito analisar as transformações urbanas esociais ocorridas na cidade de Serrinha entre os anos de 1917 e 1919. Para isso foi necessáriotraçar um breve histórico das mudanças experimentadas no município durante a intendênciade Luiz Nogueira sendo que, através da narrativa do Jornal de Serrinha e a partir dacompreensão das imagens produzidas nesse período foi possível identificar alguns aspectos daideologia moderna da época.Palavras-chave: urbanização, reformas urbanas, modernidade, Serrinha. ABSTRACTThe discussion on the study of cities in Brazil during the twentieth century was characterized by asociety based on the idea of progress and transformation. With the advent of the Republic has come anew dynamic social, political and economic influence in the country that directly in urban reforms.Thus, the formation of the conception of modernity comes with the remodeling of large cities like Riode Janeiro that was the model for the other capitals. The urban reforms also were intended to copy theEuropean urban models, most projects involved the rehabilitation of streets, the insertion of newtechnologies and hygiene. This thesis has the intention to examine the urban and socialtransformations that occurred in the city of Serrinha between the years 1917 and 1919. This required abrief history of the changes experienced in the city during the stewardship of Luiz Nogueira is thatthrough the narrative of the Journal of Serrinha and from the understanding of images produced duringthis period was possible to identify some aspects of the modern ideology of the time.Keywords: urbanization,urban reforms, modernity,Serrinha.
  5. 5. 5 AGRADECIMENTOS Primeiramente, quero agradecer a Deus por ter me dado força espiritual para superartodos os obstáculos durante a elaboração deste trabalho. Aos meus pais e tios que são o alicerce de minha vida, pelo apoio que foi oferecidodurante minha caminhada na universidade, aos meus irmãos pela compreensão e ao meunamorado pelo ombro amigo durante os momentos de incertezas. Aos professores que contribuíram para minha formação acadêmica, em especial aRogério Silva que me acompanhou durante todo o processo desde a elaboração a conclusãodo trabalho. Aos colegas Edcarla, Arlete, Cristian, Gislani e Samara que dividiram comigo asalegria e tristezas e que estarão presentes nas boas lembranças dessa etapa de minha vida.
  6. 6. 6 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 7CAPÍTULO I-A CIDADE NO OCIDENTE. ....................................................................... 12CAPÍTULO II-REFORMAS URBANAS EM SERRINHA. .............................................. 21CAPÍTULO III-IMAGENS DA URBANIZAÇÃO. ............................................................ 31CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 38REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 40FONTES .................................................................................................................................. 42
  7. 7. 7 INTRODUÇÃO Lewis Mumford (1991), afirmava que a cidade foi "a mais preciosa invenção coletivada civilização‖ (p.63). Neste cenário o homem construiu seus templos, constituiu as relaçõessociais e descobriu nesse espaço a oportunidade de concretizar seus sonhos. Refletir sobre asurbes tem sido um caminho árduo para muitos dos historiadores que optaram por esse desafio.Entretanto, com o aperfeiçoamento das abordagens teóricas, as novas pesquisas têmcontribuído para ampliar a percepção do homem sobre a dimensão do cotidiano urbano. Ao lado do capitalismo a Revolução Industrial construiu um novo cenário para asantigas cidades, o século XIX e a primeira metade do século XX foram marcados porinumeráveis transformações e entre elas estão às reformas urbanas1. Ainda neste período seinicia as primeiras tentativas de construção da urbe que atendesse ao imaginário da sociedadeburguesa, as autoridades das principais capitais do mundo foram responsáveis por tentaremmaterializar o progresso da vida moderna e civilizada. Elemento obrigatório aos estudiosos que tem como objeto de pesquisa as práticasmodernas, as cidades são essências para compreensão desta dinâmica, logo que é neste espaçoque as pessoas vivenciaram as inovações. De acordo com Mumford a cidade é fruto do instinto humano, a consolidação doslaços fraternos transformou pequenos grupos em aldeias, o autor atribuiu às mulheres ―odesejo de construir cidades para poderem dar a luz e proteger seus filhos‖ (FREIGAT, 2002,p.2) o que inicialmente trouxe um caráter feminino. Porém, com o aprimoramento das novasatividades que requeriam força e trabalho braçal, as aldeias tornaram-se cada vez maismasculina. O teórico também afirmou que a cidade possui um caráter transformador inigualável,composto de aspectos urbanos marcados por seus autores em cada tempo; as urbes abrigam atodos sem distinção de gênero, classe e raça e é por essa urbanização que as mesmascresceram ao longo da história construindo um conjunto de relações sociais e valores.1 Compreende-se como reformas urbanas o conjunto de interferências no espaço e na estrutura de uma cidadeque intervêm diretamente nas relações políticas, econômicas e socioculturais.
  8. 8. 8 O debate sobre os tempos modernos que ganhou força no final do século XIXbuscou entender as limitações e implicações deste tema chegando à conclusão que não umconsenso para defini – lá, dividindo as correntes intelectuais em dois campos: o espiritual e omaterial2. Para Marshall Berman (19186) a modernidade seria o conjunto de experiências einstabilidades vividas por uma sociedade. De acordo com o escritor marxista ser moderno é―encontra-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento,autotransformação e transformação das coisas em redor, mas ao mesmo tempo ameaça adestruir tudo o que sabemos e somos‖ (p.15). Portanto, o processo das reformas urbanas nãocompreende apenas aos estudos das edificações e monumentos é perceber através do queautor chama de ―turbilhão da vida moderna‖ – a evolução da sociedade por meio dos aspectossociais, políticos e econômicos. Jean-Jacques Rousseau foi o primeiro a usar a palavramoderniste, ―no sentindo em que as gerações do século XIX e XX a usarão ―(BERMAN,1986, p.14). Em sua novela Nova Heloísa, o autor relata a história de Saint-Preux, um jovemque sai do campo para morar numa metrópole e descreve nas cartas a sua amada Julie aexperiência de adapta-se ao que lhe parece estranho e agitado. Em meio ao conturbado início do século XX, os intelectuais e artistas questionaramalguns conceitos inerentes para a civilização ocidental como a razão e espiritualismo. Adesestabilização política, bem como as péssimas condições sociais foram fatores quecontribuíram para enfraquecimento do discurso. Deste modo os tempos modernos tendem arejeitar as questões ligadas à tradição. Segundo Friedrich Nietzsche o homem retirou Deus deseu papel norteador da vida o ser divino perde sua acuidade para a natureza e oindividualismo. Como refere o filósofo, a inversão de valores e o momento conturbado que asociedade encontrava-se culminou numa crise da moral cristã e das verdades absolutas3. Emseu livro Além do Bem e do Mal (2004), Nietzsche desenvolveu parte de sua obra tecendocríticas a razão e a ciência refletindo sobre a origem dos vários conceitos. No Brasil, o século XX é considerado o século da modernidade. É durante esseperíodo que se realizou o processo de reformas urbanas em várias capitais, as mesmastentaram mudar a imagem do país, ―a fim de adaptá-las aos novos ideais modernos e2 O primeiro diz respeito ao modernismo que esteve presente nas manifestações intelectuais e artísticas, já osmaterialistas acreditam que o moderno está no conjunto de estruturas urbanas e sociais.3 Sendo a modernidade o período de decadência espiritual, esse momento em que os homens desprezam osdogmas católicos é chamado por Nietzsche de a ―morte de deus‖. Se tratando da negação de condutas éticas emorais, o filosofo denomina de ―niilismo‖ essas ausência de valores e crise existencialista.
  9. 9. 9higiênicos, decorrente do avanço científico, de novas tecnologias e de novas ideologias‖.(PINHEIRO, 2002, p.25) A reforma de maior repercussão foi desempenhada por Pereira Passos no Rio deJaneiro entre os anos de 1902 e 1906. Os melhoramentos trouxeram para a cidade váriosbenefícios: são instalados bondes elétricos, serviços de limpeza, opções de lazer e atividadesculturais. O aperfeiçoamento da imprensa também é reflexo deste momento, os jornais e asfotografias são incorporados pela modernidade e foram capazes de fornecer a dimensão doseu cotidiano. Assim como no Rio de Janeiro, a sociedade brasileira se defronta com a ideologiamodernizadora que não tinha apenas o intuito de alterar a feição das cidades. Modificar econtrolar os costumes e o modo de vida dos habitantes, também fez parte do projeto, pois paraestes a civilidade não se daria somente com a reestruturação urbana, seria preciso àreeducação das pessoas. Desta forma o governo usou da censura, da imposição e da repressãopara fazer valer os novos hábitos defendidos pelas elites. As práticas religiosas e culturais dapopulação também foram proibidas pela lei por representarem a transgressão da sociedade. Portanto, para a construção da imagem de um país mais moderno a elite utilizo-sede elementos como valores e hábitos que foram incorporados até mesmo por pequenascidades como o município de Serrinha. As reformas urbanas implantadas durante o governo do intendente Luiz Nogueira(1916-1920) prometiam elevar o município ao patamar de um dos locais mais importantes daregião. Nomeado intendente de Serrinha pelo governador J.J. Seabra, o Tenente- coronel foiresponsável pela implantação do primeiro plano urbanístico da cidade e o segundo no interiorda Bahia4. O município começou a adquiriu maior prestígio comercial e econômico deste modoforam remodeladas praças e ruas, houve a construção de açudes para o abastecimento de água,e a chegada da iluminação na forma de acetileno, sendo que os movimentos culturais tambémganharam maior dimensão. Os melhoramentos urbanos que modificaram a dinâmica da sociedade serrinhenseforam registrados principalmente por meio do jornal. No ano de 1917 foi criado porReginaldo Cardoso o Jornal de Serrinha: seminário imparcial, noticioso, literário, comerciale agrícola onde estão descritos os fatos e os eventos da época.4 Segundo Tasso Franco, o primeiro plano urbanístico do inteiro da Bahia foi implantando em Santo Amaro.
  10. 10. 10 As transformações urbanas foi um momento que marcou a história de Serrinha.Entretanto, não há nenhum estudo a respeito do tema proposto. Deste modo, o presentetrabalho propiciará um esclarecimento sobre o processo de modernização, desenvolvimento ereforma urbana neste município, que deverá contribuir para a construção da identidade local,preenchendo assim algumas lacunas referentes à sua história. Para o desenvolvimento da pesquisa, trabalhamos com a bibliografia disponível noacervo das Bibliotecas Professor José Carlos dos Anjos5 e Julieta Carteado6 a fim decompreender o processo das reformas e identificar algumas características nas transformaçõessofridas na cidade. Partindo do pressuposto que o jornal é um importante instrumento denarrativa da sociedade consideramos o periódico como principal documento para esse estudo.Portanto, foram analisadas 60 edições do Jornal de Serrinha entre os anos de 1917 e 1919 quepertencem ao Museu Pró-memória de Serrinha um dos pouco locais que possui alguma fontesobre este período. Em relação à documentação iconográfica, as fotos foram utilizadas como suportepara a pesquisa, as imagens foram empregadas para entendermos como a sociedade tentourepresentar o município na modernidade. O acervo iconográfico também está disponível noMuseu Pró-memória de Serrinha. No capítulo I, intitulado- “A Cidade no Ocidente” – discorremos sobre a questãodas reformas urbanas em Paris durante seu Segundo Império; as transformações e a inserçãodas idéias modernas na cidade do Rio de Janeiro durante a gestão de Pereira Passos e por suavez o processo de remodelação em Salvador realizada no governo de J.J. Seabra entre os anosde 1912 e 1916. O capítulo II, que tem como titulo -“Reformas Urbanas em Serrinha”- discutimosa história da cidade e identificamos alguns aspectos da modernidade presente no discurso doJornal de Serrinha: seminário imparcial, noticioso, literário, comercial e agrícola, atravésdeste percebemos como se encontrava a dinâmica da sociedade diante das reformas implantaspor Luiz Nogueira. E por fim no capítulo III, -―Imagens da Urbanização”-foram analisadas algumasimagens da cidade no inicio do século XX, fotos dos principias lugares mencionados no jornal5 A biblioteca Professor José Carlos dos Anjos está localizada em Conceição do Coité-BA na UniversidadeEstadual da Bahia, Campus XIV6 A Biblioteca Central Julieta Carteado está localiza em Feira de Sanata-BA e pertence a Universidade Estadualde Feira de Santana.
  11. 11. 11como a Praça Luiz Nogueira centro dos melhoramentos promovidos pelo intendente e aestação férrea, primeiro sinalizador de mudança no município.
  12. 12. 12 CAPÍTULO IA CIDADE NO OCIDENTE.
  13. 13. 13 As reformas urbanas implantadas durante a segunda metade do século XIX fizeram deParis um das cidades mais importantes da Europa. Porém, ―as intervenções urbanas realizadaspara a abertura de ruas e de novos espaços em centros densamente construídos não são umainvenção de Haussaman‖ (PINHEIRO,2002,p.65). Foi da Londres do contexto de RevoluçãoIndustrial que Napoleão III espelhou-se para promover as modificações parisienses. SegundoPesavento, a capital francesa foi símbolo da modernidade e citando Caillois se refere àmetrópole como um ―mito‖ que atrai até hoje os olhares de diversos artistas, escritores efotógrafos. Entendemos, todavia, que Paris se constitui no paradigma da cidade moderna, metonímia da modernidade urbana, isso se deve, em grande parte, á força das representações construídas sobre a cidade, seja sob a forma de uma vasta produção literária, seja pela projeção urbanística dos seus projetos. (PESAVENTO, 2002, p.31) De fato, Paris não foi à primeira cidade a promover melhorias urbanas, mas as suasreformas são referências não somente no continente europeu como no restante do mundo. Nomeado por Napoleão III, Georges-Eugène Haussmann (1853-1870) ostentou odesafio de transformar a cidade numa metrópole que se adequasse a modernidade e aos novoscostumes da burguesia parisiense. Foi a partir desse contexto que tem início o fenômenochamado de haussmannização7. Paris estava passando por várias complicações em sua estrutura como as ruas estreitas quedificultavam a circulação, a falta de higiene, precária iluminação e transtornos na distribuição deágua. Para tentar solucionar estes problemas investiu-se em redes de esgoto, abastecimento deágua, construção de edifícios para órgão públicos, serviço de transporte, áreas de lazer comoparques e praças além da construção de ruas amplas que facilitavam a movimentação. Símbolo das transformações huassmaisnas os bulevares, são exemplos dos novos padrõesde urbanização. Os mesmos foram vistos como modelo das edificações modernas e logo seconstituíram num grande centro econômico e comercial além de contribuir para a estética doambiente.7 Projeto de modernização e embelezamento estratégico da cidade realizado pelo Barão de Haussmann
  14. 14. 14 Os bulevares de Napoleão e Haussmann criaram novas bases – econômicas, sociais, estéticas – para reunir um enorme contingente de pessoas. No nível da rua, elas se enfileiravam em frente a pequenos negócios e lojas de todos os tipos e, em cada esquina, restaurantes com terraços e cafés nas calçadas. Esses cafés, como aqueles onde os amantes baudelarianos e a família de farrapos se defrontam, passaram logo a ser vistos, em todo mundo, como símbolos de la vie parisiense (BERMAN,1986.p.147). As intervenções mudaram a dinâmica e o pensamento da população parisiense, astransformações receberam várias críticas com relação as suas construções. A maioria dasreclamações questionava o excesso de gatos financeiros, a falta de habitação para os populares e aexclusão social que crescia cada vez mais como refere Pinheiro: Todo esse movimento tem um outro lado. A cultura popular é excluída dos novos espaços; teatros populares são demolidos, e os pobres perdem seus espaços de lazer. As demolições no centro provocaram uma crise de habitações, favorecem a especulação e agrava a segregação social, uma das conseqüências reformas hussamannianas. (PINHEIRO, 2002, p.82) Dentre os principias artistas que refletiram sobre esse contexto de contradições,Baudelaire foi um dos poucos escritores que conseguiu absorver a fusão das formas matérias eespirituais, percebendo assim a interdependência entre o homem e o ambiente moderno. Umadas características marcantes desse artista esta em classificar o sentido da vida moderna emalgo difícil e vago para se determinar, portanto a arte deveria acompanhar essas inovações. Baudelaire refletiu sobre o espírito e a forma dessa nova sociedade que deparava-se com os diferentes hábitos. O mesmo tinha duas visões sobre o tema: a primeira a quedenomina de modernismo pastoral (BERMAN,1986) uma visão mais romântica que sãorepresentados pelas obras Salão de 1846 e O Pintor da Vida Moderna (1859). O segundomomento vai ser caracterizado pelo modernismo anti-pastoral uma visão critica umdistanciamento entre o espiritual e o material que estão nos ensaios de 1855. Através da poesia de Baudelaire, Walter Benjamin (1994), refletiu sobre o ―mito‖em que Paris constituiu-se, dentro desse contexto nasceu à figura do flâuner que passava amaioria de seu tempo vagando pelas ruas e observando o que acontecia ao seu redor. Oflâuner seria aquele que captaria de modo sensível o sentido da vida, a dinâmica da cidade e ocomportamento do homem.
  15. 15. 15 Para o perfeito flâuner... é um prazer imenso decidir morar na massa, no ondulante... Estar fora de casa; e, no entanto, se sentir em casa toda parte; ver o mundo, estar no centro do mundo e ficar escondido no mundo, tais são alguns dos menores prazeres desse espírito independentes, apaixonados, imparciais que a língua só pode definir inabilmente. (BENJAMIN, 1994, p.221) O modelo haussmaniano trouxe beleza e vigor à ―Cidade Luzes‖, entretanto suasremodelações ainda provocam discussões entre os teóricos sobre as limitações e implicaçõesadotadas em seu processo de reformas. No Brasil o século XIX, segundo Emilia Viotti (2007), foi o período em que as açõespolíticas e econômicas influenciaram diretamente em seu desenvolvimento urbano. Asautoridades que promoveram as intensas mudanças tinham como objetivo transformá-las ouigualá-las ao patamar das urbes européias. ―A transferência da sede do governo portuguêspara o Brasil, abertura dos portos em 1808, rompendo o sistema de monopólios ate então emvigor, e finalmente a independência criaram novas condições para o processo de urbanização‖(p.242) Com a chegada da Família Real os vários problemas de organização, estrutura ehigiene que assolavam as várias cidades despertam a preocupação com imagem do país. De acordo com Caio Prado Júnior (1996) as primeiras idéias no sentido demodernização podem ser observadas desde o Império, mas foi na República que o conceitoesteve mais presente. Desta forma o novo regime que tinha se instalado possibilitou umamaior abertura comercial para que os governos estaduais investissem em infra-estrutura. Emconsequência disto no século XX surgiram muitas inovações tecnológicas como aeletricidade, os novos meios de transporte e indústrias. Apesar das capitais ainda não seconstituírem uma metrópole de fato as novidades invadiram o dia-a-dia das pessoasoferecendo conforto para aqueles que poderiam usufruí desse prestígio (SEVCENKO, 1998). Podemos dizer que o conceito de modernidade esteve interligado ao processourbano, ou seja, a organização do espaço foi de suma importância para afastar a imagemnegativa que a falta de insalubridade e as péssimas estruturas tinham proporcionado. Com o desenvolvimento da industrialização a Capital Federal transformou-se nocentro econômico de grande prestigio atraindo imigrantes até mesmo do exterior. Conduzidapor Francisco Pereira Passos entre os anos de 1902 e 1906 a cidade sofreu intensas reformasurbanas, com inovações tecnológicas até então nunca vista antes no país.
  16. 16. 16 [...]O desenvolvimento dos novos meios de comunicação, telegrafia sem fio, telefone, os meios de transporte movidos a derivados de petróleo, a aviação, a imprensa ilustrada, a indústria fonográfica e o cinema intensificarão esse papel da capital da República, tornando-a eixo de irradiação e caixa de ressonância das grandes transformações em marcha pelo mundo, assim como no palco de sua visibilidade e atuação em território brasileiro. O Rio passa a ditar não só as novas modas e comportamentos, mas acima de tudo os sistemas de valores, o modo de vida, a sensibilidade, o estado de espírito e as disposições puncionais que articulam a modernidade como uma experiência existencial e íntima (In: SEVCENKO 2008(org.). SEVCENKO p.522). Pereira Passos que estava estudando na França acompanhou de perto alguns aspectosda Belle Époque parisiense. De acordo com Pinheiro, podemos afirma que as transformaçõespromovidas por Haussaman em Paris influenciaram diretamente no processo de reformas urbanasdo Rio de Janeiro. As capitais de modo geral tinham a insalubridade como ponto em comum. Estasituação prejudicou bastante o comércio nestes locais, pois a falta de higiene afastou ointeresse dos estrangeiros nos principais portos. O rápido crescimento demográfico tambémfoi um dos fatores que afetou bastante o desenvolvimento urbano, logo que sua estrutura físicanão estava preparada para essa demanda. A má situação higiênica e sanitária tornou-se o principal motivo de críticas entremédicos e higienistas. Portanto, se fez entender que seria necessário à criação de um projetoque visasse o combate a insalubridade, incentivasse mudanças na estrutura física e criassem 8uma política de coerção a chamadas ―causas sociais‖ da insalubridade. O lixo e a sujeriaeram encontrados em vários pontos inclusive nos locais que foram reformados devido odescompromisso das construtoras na manutenção dos locais durante as obras, situação estaque era provocada não só pelas empresas, mas também pelo descaso do governo. O Plano de Melhoramento da cidade assim chamado pelo prefeito e sua comissão tevecomo objetivo a criação de um novo porto, construção de redes de esgoto, o abastecimento deágua, revigoramento de bondes elétricos, construção de praças e principalmente construção deruas e avenidas.8 Para os higienistas as ―causas sociais‖ seriam ações que intensificavam a proliferação dos fatores naturaiscomo hábitos e moradias praticados pela classe pobre.
  17. 17. 17 Portanto, o processo de urbanização não foi apenas sinônimo de progresso tambémrepresentou um momento de rupturas e segregação social, o governo usou da censura, daimposição e da repressão para fazer valer os novos hábitos defendidos pelas elites. Á normatização da vida e regulamentação dos usos do espaço públicos segui-se a grave questão da higiene, com as medidas de vacinação contra a febre amarela, levada a efeito pelo médico Oswaldo Cruz. A campanha, que motivou a conhecida Revolta da Vacina, sobre a qual muito se tem escrito, é mais um exemplo do confronto de concepções diferenciadas entre espaço publico e espaço privado, ordem e desordem. O caráter de verdadeira operação militar, por parte do governo ao aplicar a vacina, e a revolta popular conta a medida são um exemplo cabal de que aquilo que, para um grupo, era uma norma racionalizadora e necessária, para os demais eram o caos social. (PESAVENTO, 2002, p.176) De acordo com Chalhoub (1996) para a elite burguesa a classe pobre representavaperigo de contágio. Os higienistas chegaram à conclusão que suas moradas eram nocivas asociedade sendo um local fértil de propagação de vícios. Sendo assim, como os pobresrepresentavam um problema para o controle social os cortiços ameaçavam as condiçõeshigiênicas da cidade, o que resultou na destruição das casas populares que não seenquadravam nas regras estabelecidas. A demolição mais conhecida é a do cortiço Cabeça-de-Porco , no dia 26 de janeiro de 1893, pela Inspetoria Geral de Higiene da então capital. O processo de urbanização no Rio de Janeiro foi reflexo das transformações estruturaisde ordem política, econômica e social do regime republicano, que realizadas pela eliteburguesa carioca iniciou um processo de desintegração acentuando a exclusão social no país.Eloisa Pinheiro resume os principais aspectos destas intervenções. Três aspectos se destacam como os mais importantes da reforma Passos. Ela constituiu um exemplo típico de como uma nova conjuntura na organização social determina novas funções na cidade. É o primeiro exemplo de intervenção estatal na qual o urbanismo se reorganiza em novas bases segundo as quais os pobres são expulsos da área mais valorizada da cidade. Finalmente, é uma demonstração de que a resolução das contradições do espaço gera outras novas contradições na organização social, como a nova estruturação especial e a segregação social e funcional, a exemplo da formação das primeiras favelas, que se desenvolvem em conseqüências das reformas. (PINHEIRO,2002,p.65)
  18. 18. 18 Assim como na capital, Salvador também passou por grandes transformaçõesurbanas. A má condição de higiene da capital baiana foi alvo de buliçosas críticas por parte demédicos e principalmente da imprensa local. De acordo com Alberto Heráclito Filho (1999) até o final do século XIX o espaçopúblico de Salvador foi marcado pela insalubridade e espaços irregulares. Os prédios antigoseram vistos com sinônimo de atraso e a todo o momento recordavam seu passado colonial. Como refere Leite (1996), no início do século XX Salvador era a terceira maiorcidade do país e apesar de não ter sofrido intenso crescimento demográfico como no Rio deJaneiro e São Paulo o aumento de sua população foi suficiente para comprometer a dinâmicada cidade, logo que sua estrutura permaneceu quase a mesma. As péssimas condições de saúde associado à falta de salubridade só agravavam asituação, as ruas eram verdadeiros lixos a céu aberto além de apresentarem vários problemascomo falta de alinhamento e iluminação. Saindo as ruas da cidade, agora na República, o viajante trafegava, do mesmo modo, por vias estreitas e desalinhadas, onde a circulação do ar e a penetração da luz se andavam com dificuldade; diga também que elas eram mal calçadas. Seguindo os seus caminhos observam-se detritos e dejetos depositados em plena rua, terrenos baldios acumulando lixo e excrementos de animais espalhados, devendo exalar dali um insuportável mau cheiro. O serviço de esgoto era inexistente, viam-se apenas canalizações que levavam diretamente para as ruas ou fundos das casas os detritos produzidos nos lares, escritórios de negócios e estabelecimentos comerciais. O abastecimento de água, por sua vez, era ainda, na sua maior parte, feito através de fontes, sendo o fornecimento por encantamento uma raridade (LEITE, 1996.p.29) Foram poucos os planos realizados na tentativa de melhorias para esses problemascomo o projeto de Teodoro Sampaio que visava melhorar o abastecimento de água da cidade.Os transtornos habitacionais também faziam parte desse quadro às construções e os edifícioseram realizados sem nenhuma medida de precaução desprezando fatores externos como opróprio relevo. Com caráter agroexportador seu comércio declinou junto com os preços, mesmo nãosendo mais o centro econômico a capital baiana possuiu um dos maiores portos da época. Aexpansão do comércio juntamente com a crescente industrialização também foi favorável paramudanças na estrutura física, na construção de novas ferrovias, instalação de empresa detransporte entre os quais estava o bonde elétrico e sistema bancário.
  19. 19. 19 O governo republicano de J.J. Seabra foi responsável pela reforma urbana emSalvador durante os anos de 1912 a 1916. Esse período é marcado pela assinatura de decretosque autorizam o financiamento das primeiras obras de remodelação como a construção daAvenida Sete de Setembro. Segundo Suely Puppi (2009) dois projetos foram escolhidos para remodelar o centrode Salvador: Melhoramento de Partes da Cidade de Salvador e Melhoramentos da Sé, masapesar das modificações a estrutura urbana no geral não sofreu grandes alterações e as obrasfavoreceram apenas os bairros importantes. A prioridade de determinadas áreas (as maisnobres) no processo de remodelação foi alvo de duras criticas por parte de alguns segmentossociais. Os jornais noticiavam os problemas gerados pelas obras como falta de habitação,paralisação entulhos espalhados pelas ruas e muitas construções inacabadas. O sentimento de frustração da população foi reflexo dos péssimos serviços oferecidosdepois da remodelação que havia prometido melhorias que nunca ocorreram. A falta de água,de energia e problema com o transporte público eram apenas alguns dos transtornos existentesna cidade até mesmo os serviços primários e essenciais para a sobrevivência mal conseguiamatender as necessidades da população. Além da implantação de projetos que visasse o combate aos agentes naturais das―niasmas‖ 9·,a elite soteropolitana também acreditava na importância da criação decampanhas que incentivassem a mudanças de hábitos das pessoas. Dentre estes tinha-se a preocupação com as questões sociais, que podia ser representado, por um lado, no cuidado com a habitação e o transporte popular, e por outro lado, no cuidado com a assistência pública, com casas correcionais e escolas profissionalizantes para a infância desvalida, casas correcionaras para vadios e criminosos, abrigos noturnos apara indigentes e miseráveis, hospitais para alienados, entre outros. Tinha-se, ainda um anseio pela extensão de instrução pública. Havia, também, uma expectativa da adoção de estilo de vida e hábitos cultos ou elegantes, que abrangiam desde a moda á cultura dos indivíduos, ou seja, ‖uma vida nova, de relações sociais, de solução com espírito de palestras e graça no vestir-se‖. E mais, mecanismos de controle sobre os modos de vida populares e algumas das tradições deveriam caracteriza-se por comedimento e racionalidade. (LEITE,1996,p.42)9 o pensamento higienista teve inicio com o inglês Thomas Syndenham, O médico acreditava que o meio naturale as doenças possuíam intensas relações. A partir da revolução industrial a teoria ganhou mais credibilidade. osprincipais responsáveis pelas pandemias eram os pântanos e atmosfera. O primeiro considerado elo de ligaçãoentre as ―entranhas da terra‖ , o segundo ambiente acumulava a matéria orgânica e produzia vapores chamadosde niasmas que espalhava a doença.
  20. 20. 20 Os novos hábitos da população que agora se encontravam em uma cidade ditacivilizada, vivenciaram as conseqüências e rupturas do progresso. Um bom exemplo eram oshábitos culturais adquiridos pelas elites com novas formas de divertimento, enquanto que asclasses populares conservavam algumas práticas tidas como incultas. Os costumes africanos e alguns valores herdados do período colonial e imperialcontribuíram bastante para isso, especialmente porque o modo de vida a ser seguido deveriaser o europeu. Práticas como jogo, bebida, samba entre outros eram tidos como prejudiciais asociedade, mas também reconhecidos por alguns jornais – muitas das vezes – a única formade diversão para grande parte da população e justamente por isso muito difícil de sercombatido; isso sem falar que muitos dos que deveriam manter a ordem e coibir essas práticaspor vezes também participavam delas, a exemplo dos policiais. Não chega a ser um fato totalmente estranho que guardas e policias de baixa patente participassem de divertimentos envolvendo jogos, bebidas, musicas e onde prostitutas tomassem parte. Originários das baixas camadas da população compartilhavam da cultura popular e das vicissitudes típicas da maior parte dos trabalhadores pobres urbanos. Eles também deviam sofrer com as precárias opções de lazer existentes na cidade. Não lhes restavam, portanto, outras alternativas, nem lhes eram possível possuir códigos e valores tão diferenciados que tornassem viáveis condutas sócio-culturais distintas daquela que eram as mais comuns e praticadas pelos indivíduos de sua classe. (LEITE,1996,p.121-122) O processo modernizador foi apenas o começo das mudanças pensadas paraalcançar a civilização. Mesmo não tendo almejado o sucesso esperado na época, o projetourbanístico foi de fundamental importância para o crescimento e progresso da capital baiana,que a partir de então ganhou novos ares, novas ruas e avenidas, em fim, uma nova aparênciagerando grandes esperanças para o futuro baiano. Os problemas de infra-estrutura associadosà má qualidade dos serviços oferecidos foram os grandes causadores de transtornos, noentanto Leite (1996) evidencia que não se pode esquecer a imposição das transformaçõesculturais que se fez na época, sento talvez o maior empecilho e resistência da população noideal pretendido pelas elites.
  21. 21. 21 CAPÍTULO IIREFORMAS URBANAS EM SERRINHA.
  22. 22. 22 A República Velha teve início com a promulgação da Constituição em 1891. Nesseperíodo a sociedade brasileira passou por mudanças nos campos sociais, políticoseconômicos. A economia que desde os tempos coloniais tinha como característica o comércioagroexportador prosseguiu com as mesmas atividades, persistindo o latifúndio e à mão -de -obra escrava as poucas indústrias existentes limitavam-se à produção de bens de consumo nossetores têxtil e alimentar. Após a abolição o desenvolvimento da industrialização substituiu o trabalho escravopelo assalariado permitindo que o capital destinado à compra de negros fosse utilizado emfábricas e na comercialização de novos produtos. O setor cafeeiro contribuiu bastante para ocrescimento da economia sua expansão permitiu que os grandes fazendeiros aderissem anovas atividades fomentando o mercado interno e também trazendo investimentosestrangeiros .Como refere Viotti (2007) o processo de urbanização brasileira foi―característico de áreas de economia colonial e periférica as quais não se ajustam ao modeloclássico‖ (p.235-236). Foi nesse contexto que o município de Serrinha desenvolveu-se. Seus primeiroshabitantes foram os índios da nação Cariri. Com a chegada dos portugueses entre 1621 e1891,a fazenda Serrinha que foi um importante ponto de encontro e descanso para osviajantes foi comprada por Bernardo da Silva em 1723. As rotas de boiadeiros foramessenciais para ocupação territorial e para a fixação da população nordestina ―ao longo dessasestradas, pousos de tropeiros, ranchos, vendas, estalagens, hospedarias e registros deramorigens a arraiais e povoados que se desenvolveram e mais tarde alcançaram o status de vilase de cidades‖. (CAMPOS, 2007.p.2) O pequeno vilarejo cresceu em três rumos: em direção ao tanque da bomba, nosentido da estação de trem e para o lado da estação da usina de energia (Praça Miguelcarneiro). A localidade foi passagem obrigatória da estrada de Salvador- São Francisco emdireção ao Piauí sendo este um ponto estratégico e expressivo para o comércio. Asprincipais lideranças do município eram ligadas ao partido conservador de D. Pedro II,portanto, após a Proclamação da República e intensos conflitos políticos na Bahia em 24 denovembro de 1889 a elite da cidade mesmo não apoiando elaborou um documento de adesãoao novo regime e em 30 de junho de 1891 a Vila foi elevada à categoria de cidade. O contexto do município não é diferente do nascimento da maioria das pequenascidades do interior. Segundo Emilia Viotti, praticamente a urbanização no período colonialesteve ligada à auto-suficiência do latifúndio, baixo padrão de vida do trabalhador
  23. 23. 23atrapalhando o desenvolvimento das manufaturas e inibindo o crescimento das funçõesurbanas. As principais atividades serrinhenses foram à pecuária e o comércio, desenvolvendotambém algumas atividades agrícolas seus principias produtos eram a mandioca e o milho, odesenvolvimento urbano teve maior ênfase com a chegada da ferrovia. O transporte ferroviário nasceu na mesma década que o Império do Brasil e logodespertou o interesse do Estado que tinham como objetivo integrar o vasto território, efortalecendo o poder. A estrada de ferro era sinal do progresso, tornando muito mais rápido eeficiente o transporte de pessoas e mercadorias, gerando uma vasta rede de empregos diretosou indiretos, proporcionando o contato com outros locais, assim desencadeando opovoamento e urbanização da região. A chegada da ferrovia mudou totalmente a rotina dos locais por onde passava, interferindo em vários setores da vida: na moda, no uso das expressões inglesas abrasileiradas, no modo de habitar, no uso do ferro e do vidro nas construções. Ocorreu uma europeização dos costumes, que foram disseminados em todo o Brasil onde as ferrovias alcançassem. ( FERNANDES,2006, p.199) A implantação das ferrovias na Bahia como consta no livro de Francisco Zorzo(2001) aconteceu no ano de 1850. As estradas de ferro tinham como objetivo superar a crisevivida na região através da ligação das zonas produtivas no interior com os portos do litoral.Era, portanto, um meio de controlar o espaço mercantil baiano. A ferrovia trouxe uma nova mentalidade nas relações sociais e trabalhistas, melhorou o abastecimento de água construindo açudes da estação e da bomba, este último dotado de uma bomba a vapor que puxava água pra abastecer as locomotivas e ainda gerava energia. (FRANCO, 1996.p.74) Em 1939, foi construída a garagem e oficina dos trens e em 1943, data doaniversario de Getulio Vargas, inaugurou-se a nova estação de passageiros10, onde consta umaplaca comemorativa na estação que diz: A gratidão dos filhos de Serrinha aos grandes brasileiros Dr.Getulio Dórnelas Vargas, Presidente da República, General João de Mendonça Lima, Ministro da10 Atualmente funciona uma pequena administração da ferrovia.
  24. 24. 24 Viação, engenheiro Lauro Farine Pedreira de Freitas pelos mais assinalados e valiosos serviços prestados a cidade entre os quais, esta magnífica estação.(FRANCO,1996,p.74) Uma nova cultura surgiu na medida em que muitas famílias de outras regiõeschegavam para morar na cidade. O centro urbano girava em torno das localidades próximas aferrovia, foram construídas escolas como a Graciliano Ramos que funciona até hoje, ainstalação de hotéis de pequeno porte para atender a demanda dos viajantes além de váriascasas construídas para os trabalhadores da ferrovia. Os movimentos culturais ganharam maiordimensão com a primeira Filarmônica e o Centro de Cultura em 1896. A partir de então omunicípio entrou numa nova fase do processo de urbanização, as primeiras tentativas deremodelar a cidade tem inicio em 1917. O tenente- coronel Luiz Osório Rodrigues Nogueira foi nomeado 8º intendente de Serrinhapelo governador J.J. Seabra no ano de 1916. Sua administração durou quatro anos sendoindicado por duas vezes para o mesmo cargo. O intendente era filho de Michelina CarneiroRibeiro Nogueira e Antônio Rodrigues Nogueira, foi casado com Áurea Ribeiro Nogueira e―chegou no município para trabalhar na construção da estrada de ferro Água Fria-Serrinha noano de 1878‖ (FRANCO, 1996,p.55). Decorrente de sua amizade com o presidente EpitácioPessoa e com o governador Seabra, Luiz Nogueira tornou-se forte líder político e nomeouparentes para encargos públicos. Em 1918 foi novamente nomeado pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragãoque pertenceu ao Partido Republicano Democrático. De acordo com Franco o tente-coronelenfrentou resistência por parte das oligarquias locais, segundo o autor sua nomeaçãorepresentou a quebra do domínio dessas oligarquias e enfrentou muitas dificuldades. Mesmoassim, Luiz Nogueira que era ligado ao partido do governador, foi responsável pelo primeiroplano urbanístico da cidade. Em sua maioria as reformas realizadas durante sua administração são de ordemestética, ou seja, o principal objetivo do plano foi embelezar a cidade dando ao município umanova fisionomia através da construção de praças calçamento de ruas mais largas earborizadas. Também foram tomadas atitudes para o melhoramento do saneamento a fim deevitar a propagação de doenças por falta de higiene. Foi construído um jardim decorado com palmeiras e outras espécies de arvores,
  25. 25. 25 chafarizes e portões de entrada e saída, bem como foram colocados postes com globos e luz a aceitilene, uma grande novidade da época. A praça recebeu calçamento de pedras cabeça-de-negro e esgotamento sanitário, e plantão de oitis em todo seu redor. O paço municipal recebeu melhoramentos e foi colocado no topo do prédio uma águia. (FRANCO,1996,p.93) As Principais obras promovidas pelo Intendente correspondem à remodelação dasprincipias praças do município: Manoel Vitorino e Praça do Amparo. Em 1918 por ordem doconselho a Praça Manoel Vitorino passou a se chamar Luiz Nogueira e Praça do Amparorecebeu o nome de Miguel Carneiro nessa mesma ocasião também foi construída uma estradapara ligar as duas localidades. Nas últimas três décadas do século XX, o processo deformação e consolidação do espaço esteve ligado às proximidades das praças Luiz Nogueira eMiguel Carneiro. É a partir do centro econômico localizado nestas duas praças que a cidadecresceu e constituiu novos bairros. Entendemos que a reforma urbana no município sofreu influência das transformaçõesocorridas na capital, logo que nesse período o governador J. J. Seabra também aplicava suasobras e manteve forte ligação política com Luiz Nogueira que tinha como objetivoapresentar Serrinha ao mundo mais moderno e civilizado idéia matriz das reformas emSalvador. A partir dos melhoramentos a população vivenciou um processo de alteração devalores sociais e políticos. As ações e reações a esses novos costumes foram expressosprincipalmente por meio da narrativa do jornal local, período em que a imprensa teve papelimportante para a memória desse novo cotidiano. A imprensa brasileira teve nascimento tardio em comparação com seus paísesvizinhos. Segundo Sodré (1999) a ausência do capitalismo e da burguesia foram fatorescondicionantes para o seu desenvolvimento.Dois momentos são considerados importantespara o nascimento da imprensa: a circulação do Correio Braziliense, em Londres e a criaçãodo primeiro jornal brasileiro a Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro, ambos de 1808.Entretanto os historiadores têm contestado a importância dos dois jornais em função das datase locais que circulavam. A influência do Correio Braziliense, pois, foi muito relativa. Nada teve de extraordinário. Quando as circunstâncias exigiram, apareceu aqui a imprensa adequada. E por isso é que só por exageros se pode enquadrar o Correio Braziliense no conjunto da imprensa brasileira. (SODRÉ,1999,p.28)
  26. 26. 26 Após a independência a imprensa passou por momentos de efervescência devido aocontexto político e a inserção da idéias liberais que já faziam parte do imaginário brasileiro.No período da República Velha (1889-1930) além da repressão muitos jornalistas foramcorrompidos e viviam a serviço de políticos que geralmente utilizava-se dos recursos públicospara patrocinar o noticiário. Através da utilização de novas máquinas incluída a de escrever houve o aumento donúmero de tiragens e da qualidade. A partir do século XIX o jornalismo brasileiro adquiriucaracterísticas no ramo cultural ligada a literatura, onde grandes escritores utilizavam operiódico como meio de divulgação de suas obras em forma de novelas ou folhetins. A imprensa em Serrinha tem inicio no ano de 1907 com edição de seu primeiro jornallocal: O Clarim, escrito a mão e distribuído por Reginaldo Cardoso o folhetim tinha o humorcomo principal característica. Ainda em 1915 é lançando A Tribuna e após dois anos nasce oJornal de Serrinha: seminário imparcial, noticioso, literário, comercial e agrícola. Editado entre os anos de 1917 -19 o periódico foi publicado semanalmente, possuíaentre 8 a 12 laudas e figuras com anúncios em sua maioria de medicamentos. As crônicas,publicadas no texto de abertura tinham como tema principal o cotidiano do município.Durante três anos de circulação Reginaldo Cardoso que era cego ocupou o cargo de roteirista,diretor e proprietário. Foi durante o governo de Luiz Nogueira casado com sua irmã ÁureaNogueira que Reginaldo recebeu ajuda e fundou a Typografia de Serrinha. O periódico surge como algo inovador e de destaque na região. O noticiário foi àprincipal fonte de informação para a população, logo que os carros auto-falantes e asemissoras de rádio só chegaram respectivamente em 1952 e 1969. Escrito pelo professorFerreira da Cunha este discurso sinaliza uma Serrinha que tinha pretensão de se inserir entreas cidades modernas e desenvolvidas da Bahia Passei por Serrinha a primeira vez em 1909, e si não tivesse acompanhado a remodelação daquela cidade verdadeiramente encantadora, talvez não a conhecesse hoje, depois principalmente dos dois últimos quatriennios administrativas idéias em operosidade incansável. Terra feliz a Serrinha, por que os seus filhos a adora-a de verdade, e procura cada dia apresentá-la ao mundo mais modernista e merecendo as maiores provas de respeito e admiração.(Edição,21 de Outubro de 1917)
  27. 27. 27 O desejo jornalístico de fazer parte da nova fase em que o município estavavivenciando foi expresso em sua primeira edição do dia 12 de outubro de 1917 que tinhacomo título ―O nosso lemma‖ onde o autor chama de verdadeiro espírito o desejo jornalísticode contribuir para a modernização. Tem a honra de apparecer n´esta‖ bella cidade sertaneja‖, como serrinhense, cheio de vida e coragem para o trabalho do bem e da verdade, concorrendo para seu engrandecimento. Sobra aos trilhos de serrinha o amor ao trabalho, o devotamento á honra, o estremecimento pelo torrão natal, o respeito á lei, ás suas autoridades o empenho ao file cumprimento dos deveres:_ e assim tudo marcha para o fim desejado. E virá em que Ella adornada com beleza de suas construções, balouçada pela briza suave que acaricia seu ambiente, perfumada pelo aroma subtil de seus campos, será a mais attrante das bellas cidades da Bahia.( Edição,12 de Outubro de 1917) De acordo com Traquina (2005), o desenvolvimento da imprensa no século XIX foimarcado pelo surgimento do jornalismo informativo. Este modelo agregou novos valores assuas reportagens que abandonavam cada vez mais o caráter das produções ficcionais. A partirde então os jornalistas adotaram em suas reportagens características como a autonomia eimparcialidade o que fez muitos jornais da época se apresentar como defensores do povo e davida pública da cidade. Portanto, com a ascensão de governos democráticos o ideal deliberdade que fazia parte da nova república foi incorporado pela imprensa como importantefator para a definição do papel do jornalista na sociedade. O esquema tradicional de vinculação política que foi marcante na formação demuitos noticiários no Brasil também pode ser percebido no jornal de Reginaldo Cardoso, essaafirmativa tem como base o seu próprio processo de fundação. O mesmo foi acusado porvárias vezes pela oposição de favorecer a gestão de Luiz Nogueira, apesar das críticas onoticiário ressaltava sempre seu papel íntegro e indiferente comprometido com vida do povo. A política partidária não tem posto no nosso programa. Não nos preocupemos com esse choque de interesses que trás os partidos militantes em e terna dobradoira, que p!anta a sizania entre os homens , que semeia o pomo da discórdia, dissolve das ôas normas e relações sociaes, que rompe com as tradições amistosas, que aggride e asphixa a verdade quando contrataria aos seus interesses, que nega justiça a seos adversários, com a politicagem ou ―politicalha‖. Escarpallaremos os factos com independência sem partididarismo. (Edição,20 de setembro de 1918) Além da tendência política, o jornal que se auto- intitulava ―porta-voz do interesseda coletividade‖ produziu freqüentemente reportagens que tinham como tema acontecimentos
  28. 28. 28jurídicos e sociais. Em algumas edições podemos observar algumas críticas aos serviçospúblicos, porém sem culpar ou ofender a figura do intendente. De acordo com seu lema o noticiário estava a serviço do progresso, o que significavapara seus idealizadores reclamar por melhoramentos materiais, reformas e denunciar tudo querepresenta um entrave para a cidade como na edição de 20 de Setembro de 1918 quando aChemin de Fer alterou o horário e aumentou em vinte por cento o preço das viagens. Ao expormos a nossa opinião com a do povo o fazemos na convicção de cumprir o nosso dever, do contrario renunciaria. Nos de logo o logar. modestíssimo que nos cabe no seio do jornalismo; em contrario, veríamos por terra a prerrogativa de porta voz dos interesses da coletividade. A reforma de horário é mais um aborto da Chemis e a elevação de tarifas um entrave, um peia á lavoura, a insdutria e ao comércio da zona e alem de tudo iníqua, depostica! Pobre Bahia!(Edição, de 20 de Setembro de 1918) O município estava passando por mudanças e sensível a estas modificações onoticiário se sente no dever de publicar e manter o leitor sempre bem informado. Surgiramseções especializadas, dedicadas às mulheres, esportes, lazer, vida social e cultural. Assimcomo o crescimento econômico era sinônimo de desenvolvimento, as noticias do setorcultural também faziam parte do caminho para a modernidade (Sevcenko,1998)· Os passeios,os eventos, as festas de aniversários eram divulgados semanalmente como forma deentretimento com o público exemplo disto foi o concurso lançado pelo noticiário no ano de1918 quando houve a eleição da mocinha mais simpática de Serrinha. Salientamos que no mesmo ano através do jornal na edição de 30 de Novembro de1917 o Intendente convidou a população para festa de inauguração dos melhoramentos dacidade. Em 27 de Janeiro de 1918, realizou-se a festa de inauguração das três novas praças(Praça Matriz, Praça Manoel Vitorino, Praça do Amparo) onde estiveram para representar ogovernador Edgar Sanches ,o senador J.J. Seabra e sua comitiva. Como foi visto no capitulo I, umas das características marcantes do projetomodernizador esteve relacionado à higiene das cidades. É válido ratificar que as ações daideologia moderna e seu processo remodelador agiram diretamente sobre os espaços públicoscom intuito de afastar a feição de cidade antiga. Em Serrinha também percebemos essecombate aos aspectos ditos não-civilizados, em algumas edições que contestam a conduta dedesleixo dos fiscais da intendência e abandono de alguns espaços da cidade:
  29. 29. 29 Passou, a 2 do corrente, o dia de finados; o cemitério desta cidade, o único que Ella possúe, contunúa ainda no mesmo estado anti-hygienico, inesthtico, horrorosamente feio. Como era natural, um dos nossos representantes foi ate lá no dia consagrado aos mortos: e a sua impressão foi tal maneira que nestas linhas elle deixa registrado o desasseio e o descuido da administração, que é a ecclesiastica, como si o local em questão, e ainda mais quase no coração da cidade, não fosse um dos que a hygiene se tornar mister!( Edição, 8 de novembro de 1918) Os jornalistas consideravam que diante do progresso alcançado não seria plausível apermanência de alguns hábitos da população. Sendo assim, o plano higienizador no municípiode Serrinha também tinha como objetivo, não só resolver os entraves relacionados aosambientes públicos, mas também estabelecer novos costumes. A edição de 1º de novembro de1918 trouxe uma nota alertando as pessoas de uma medida coercitiva que seria aplicada aaqueles que despejassem lixo e dejetos nas ruas da cidade. Justo era, portanto que á fiscalização municipal fosse dado o direito de agir, o que vem fazendo de agora por diante, cm a applicação de multas áquelles que demonstrarem essa negação completa a uma causa tão útil quanto proveitosa- a hygiene-. Ficarão, pois d´ora avante todos scientes da resolução tomada pelo município que leva nisso o interesse único de zelar pela saúde nossa e conseqüentemente de uma cidade bella e remodelada. Serão multados todos aqueles que se conduzirem de modo contrario as regras estabelecidas pela hygiene, sendo muito luvavel o procedimento do chefeado executivo aqui. (Edição, 1 de novembro de 1918) Entre os problemas relatos nos jornais também estavam os animais soltos nas principiasavenidas como cães e galinhas que prejudicavam o embelezamento e ordem pública do município. Não sabemos por que, ainda a vice- jam as flores dos jardins públicos desta cidade, uma vez que a fiscalisação municipal vai a descaso tremendo ás posturas municipaes em vigor. Certo é que nas ruas principais desta cidade que têm todas as suas casas com quintais cercados, não é licito que o município consinta á solta a criação de galinhas, gansos e animais outros pastam desabrigados, desfazendo assim Serrinha dos foros de cidade civilizada. (Edição, 1 de novembro de 1918) As análises dos jornais compravam que as transformações implantadas pelo intendenteLuiz Nogueira procuraram inserir a cidade num mundo moderno e civilizado. As reformas
  30. 30. 30urbanas contribuíram em grande parte para o crescimento do município e a reorganização doespaço, implicando na totalidade de relações sociais, políticas e econômica.
  31. 31. 31 CAPÍTULO IIIIMAGENS DA URBANIZAÇÃO.
  32. 32. 32 Os documentos, de modo geral, apontavam somente o pensamento oficial dos gruposdominantes. Os historiadores apenas utilizavam os textos oficias como fonte de pesquisa eem sua grande maioria os trabalhos concentravam-se em relatar os acontecimentos políticos,militares, diplomáticos, entre outros. No entanto, com o surgimento da Revista dos Annalesem 1929, seus principias autores, Lucien Febvre e March Bloch, trouxeram uma novaperspectiva documental que ressaltavam a importância e a necessidade da utilização de outrasfontes, foi nesse período de quebra de paradigmas que a fotografia, lentamente, começava aganhar espaço nesse campo de atuação. Durante sua história a iconografia tem se destacado num espaço predominanteocupado por textos adquirindo diversos formatos e funções. As várias questões que envolvemo estudo das imagens tem sido objeto de um crescente conjunto de investigações no campo oque tem contribuído para o desenvolvimento de pesquisa entre a fotografia e o conhecimentocientífico, mesmo assim ainda é pouco utilizada pelos historiadores. As imagens revelam seu significado quando ultrapassamos sua barreira iconográfica; quando recuperamos as histórias que trazem implícitas em sua forma fragmentária. Através da fotografia aprendemos, recordamos, e sempre criamos novas realidades. Imagens técnicas e imagens mentais interagem entre si e fluem ininterruptamente num fascinante processo de criação/construção de realidades - e de ficções. São essas as viagens da mente: nossos "filmes" individuais, nossos sonhos, nossos segredos. Tal é a dinâmica fascinante da fotografia, que as pessoas, em geral, julgam estáticas. Através da fotografia dialogamos com o passado, somos os interlocutores das memórias silenciosas que elas mantêm em suspensão. (KOSSOY, 2005, p.36) Todo pesquisador que utiliza a fotografia como fonte deve saber que além de ser umdocumento a foto é um instrumento da memória e ideologia. As imagens estão diretamenterelacionadas ao seu contexto cultural e isto implica em observar as intenções, usos efinalidades que nortearam sua produção. Muito se debateu sobre sua veracidade esubjetividade, entretanto os questionamentos não colocam em xeque a idéia de imagem comodocumento. Segundo Susan Sontag (2004) ―o inventario teve início em 1839, e desde então,praticamente tudo foi fotografado‖ (p.51). Quando se transforma em documento histórico afoto passa a adquirir características que vai além de sua função primária fornecendo indíciosdas relações sociais, modo de vida, etc. O retrato de uma família não se limita a sua funçãooriginal de registrar seus membros, por meio dela o pesquisador pode obter informações como
  33. 33. 33identificar o grau de parentesco de cada pessoa e relações, que podem ser confrontados poroutros documentos. Assim, ―as fotos não podem criar uma posição moral, mas podem reforçá-la e podem ajudar a desenvolver essa posição moral (SONTAG, 2004, p.56)‖. Nesse sentido,fazer a história sem algum tipo de tendência viciosa não se adéqua as imagens sendo assim épreciso desestruturar o documento para descobrir suas condições de produção e é necessárioque o pesquisador fique atento a estas questões, logo que interpretar as imagens como únicaverdade seria cometer um grande equívoco. Partindo do pressuposto que a fotografia histórica é importante objeto a seranalisado na construção de uma narrativa de uma sociedade, propomos aqui uma amostra dealgumas fotos da Praça Luiz Nogueira que auxiliaram na compreensão do processo deurbanização nas primeiras décadas do século XX no município de Serrinha.Fotos 1 e 2 - Praça Manuel Vitorino atual Praça Luiz NogueiraFonte: Museu Pró-memória de Serrinha. A foto do início do século XX passa mensagem de uma cidade bastante organizadaruas limpas e ordenadas. Entendemos que a foto foi feita com o intuito de mostrar a beleza domunicípio seu progresso e ordenamento, podem ser observadas elementos ditos pelos jornaiscomo os melhoramentos realizados na avenida principal que foi calçada com pedras. Valeressaltar que a aparência das pessoas trajada em roupa elegante e clara também é um aspetoda modernidade. Porém, sabe que a maioria da população desta época não se vestia sempreassim. Uma das principais características da fotografia é registrar o aparente, construindoassim realidades a partir dessa aparência. A imagem tem o privilegio de selecionar, à
  34. 34. 34realidade dos fatos, das emoções e das coisas do mundo e nos mostra uma determinada versãoiconográfica do objeto representado. Quando este é relacionado ao comportamento, percebe-se que a uma grande diferença entre ambos, logo que a substancia não pode ser captada pelasubjetividade das imagens. Assim, As imagens revelam seu significado quando ultrapassamos sua barreira iconográfica; quando recuperamos as histórias que trazem implícitas em sua forma fragmentária. Através da fotografia aprendemos, recordamos, e sempre criamos novas realidades. Imagens técnicas e imagens mentais interagem entre si e fluem ininterruptamente num fascinante processo de criação/construção de realidades — e de ficções. São essas as viagens da mente: nossos ―filmes‖ individuais, nossos sonhos, nossos segredos. Tal é a dinâmica fascinante da fotografia, que as pessoas, em geral, julgam estáticas. Através da fotografia dialogamos com o passado, somos os interlocutores das memórias silenciosas que elas mantêm em suspensão (KOSSOY, 2005,p.49). Em Serrinha a Praça Luiz Nogueira (Foto 1 e 2) foi um dos espaços urbanos degrande destaque em sua história, no período colonial seu papel foi fundamental nas relaçõespolíticas e sociais. Juntamente com as ruas, as mesmas serviram de inspiração para escritorese pintores do século XX que vivam nesses espaços de transformação. Assim, a praça foi ocentro das reformas urbanas na cidade supracitada. Esse ambiente foi essencial para odesenvolvimento da vida urbana tornando-se um ícone social onde podem ser encontradosvários elementos da ideologia modernizadora conforme descrito na edição de 27 de janeiro de1918. Por ser um local pequeno, a praça é o núcleo do município, o ponto de encontro dediversos segmentos sociais, nela aconteciam constantemente às festas, os encontros políticoscitados no jornal. Inicialmente a praça Manoel Vitorino era murada e as pessoas entravam porum pequeno portão, mas em 1918 em homenagem ao seu intendente recebeu o nome de LuizNogueira. Assim, as reformas no espaço público tinham como principal objetivo embelezar acidade fazendo com que a mesma alcançasse a estética de grandes urbanos do interior baiano.Podemos perceber nas fotos (3,4 e 5) que as praças são bastantes aborrizadas e limpas deacordo com Leite (1996) estes elementos podem ser apontados como componetes da ideoligamodernizadora. Foto 3- Jardim da Praça Manoel Vitorino quando era murada.
  35. 35. 35 Fonte: Museu Pró-memória de Serrinha. Foto 4- Igreja Matriz Velha Fonte: Museu Pró-memória de Serrinha. Segundo Viotti a igreja foi umas das entidades mais importantes no período colonial,além de sua influencia e das práticas religiosas a igreja fez parte da vida cultural e social dopaís. Assim também aconteceu no município que cresceu em volta da antiga matriz hojechama de igreja velha. Na igreja devota a Nossa Senhora Santana aconteceram váriascelebrações importantes, a mesma fica em frente ao correto, que foi muito utilizado para arealização de festas na cidade e discurso dos políticos.
  36. 36. 36 Foto 5 e 6- Coreto de Serrinha Fonte: Museu Pró-memória de Serrinha. A estrada de ferro é o primeiro sinal da inserção da modernização no Brasil. Achegada do trem na cidade como foi relatado no segundo capítulo II vai modificar seucenário. Nesse momento apresentavam-se profundas alterações na sociedade, a populaçãocrescia e o espaço urbano transformava-se. Em volta dos trilhos criou-se um bairro chamadoEstação. No local foi construído um hotel para receber os viajantes que chegavam à estação ehoje abriga um hospital estadual. Foto 7- Inicio do seculo XX do antigo hotel que hoje situa-se o hopistal estadual
  37. 37. 37 Fonte: Museu Pró-memória de Serrinha. Foto 8 - Inicio do seculo XX da Antiga Estação Fonte: Museu Pró-memória de Serrinha. Portanto, as imagens do inicio do século XX mostram um município, sempre bemcuidado e limpo. A Praça Luiz Nogueira e a Estação de Trem principais locais da épocadesejam transmitir a mensagem de uma cidade civilizada e inserida no mundo moderno. Opapel da fotografia tem sido imprescindível para a reconstrução da história de muitas cidades.Para elucidar algumas questões e discussões as imagens se tornam indispensáveis, pois muitasvezes só elas possuem informações que permitem um maior entendimento sobre seu objeto deestudo.
  38. 38. 38 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como vimos às primeiras tentativas para remodelar a cidade teve inicio em 1917com a administração de Luiz Nogueira. Nomeado intendente de Serrinha pelo governador J.J. Seabra, o Tenente- coronel foi responsável pela implantação do primeiro plano urbanísticoda cidade e o segundo no interior da Bahia. Nesse mesmo período, promovido pelo entãogovernador, a capital baiana passou por reformas em sua estrutura. Sendo assim, podemosafirmar que as modificações urbanas no município sofreram influência direta dastransformações na capital. No referido estudo, foram identificadas algumas práticas modernas que estiverampresentes durante o processo de reforma urbana. Além de ser visto como algo inovador queiria elevá-la ao patamar de moderna e civilizada os melhoramentos foram responsáveis poralterar a dinâmica do município. As atividades no campo cultural que também foramconsideradas elementos importantes para a inserção na modernidade se intensificaram cadavez mais. A partir de então a imprensa será criada, os encontro políticos serão freqüentes, asfestas e os eventos cresciam em grande número sendo que uma das grandes atrações foi àfanfarra da Filarmônica 30 de Junho que sempre esteve presente nos dias de festas. As principais reformas da cidade estavam nos espaços públicos como ruas, praças,calçadas o que demonstra uma preocupação por parte da intendência pelo embelezamento doambiente. As mudanças de feição dos espaços mais arborizado, com jardins e flores deixava acidade cada vez mais bonita o que fazia com que os políticos e principalmente a imprensarepresentada pelo jornal, acreditassem que a partir destas mudanças; Serrinha estava nocaminho do progresso, do crescimento material e o mais importante da modernização. Entretanto, não foram apenas os espaços públicos que sofreram alteração, muitocomum no projeto modernizador de varias regiões as medidas coercivas foram utilizadas paraa mudança de hábitos e costumes o que também se fez presente no município. A populaçãoserrinhense teve que se adequar às transformações sociais e para garantir que as normasfossem cumpridas os fiscais do município tinham como função vigiar e controlar a cidade,
  39. 39. 39pois só através deste e das multas a intendência acreditava que as pessoas cumpririam com osnovos hábitos e assim protegeria o ambiente e proporcionaria uma cidade mais higiênica. Símbolo de progresso e crescimento intelectual, o Jornal de Serrinha é um dospoucos documentos sobre a memória local nesse período, durante três anos de edição otablóide foi responsável por divulgar, criticar e defender a vida pública, além de registrarinformações sobre os eventos culturais e políticos. Foram observados neste documentoelementos citados por Nelson Traquina(2005) como características do jornalismo modernopodem perceber a inserção de caricatura e figuras, o discurso que tinha como propósito sedistanciar da ―politicagem‖ e o gênero informativo que foi identificado através dasreportagens com cunho social em defesa do povo. Sendo assim, a circulação do Jornal de Serrinha exerceu papel importante paraentendermos da narrativa desta sociedade e como os cronistas da época refletiam sobre asmudanças urbanas ocorridas no município e percebiam a dinâmica de uma nova sociedadecom valores que sinalizaram a modernidade no século. Portanto, ficou explicito que as instituições públicas e suas repartições assim comoos intelectuais e principalmente a imprensa foram responsáveis pelo projeto modernizador nomunicípio. Desta forma, características como: as idéias de modernização, embelezamento,higienismo, normatização e moralização de costumes presente no discurso civilizatório damodernidade do Brasil no século XX também estiveram presentes durante os processos dereformas urbanas no município de Serrinha.
  40. 40. 40 REFERÊNCIASBENJAMIN, Walter. A modernidade e os modernos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,1975.BERMAN, Marshall. Tudo Que é Sólido Desmancha No Ar: A Aventura daModernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.BETHELL, Leslie. História da América Latina, volume VI : a América Latina após 1930: economia e sociedade. São Paulo: EDUSP; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão,2005.COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia À República: Momentos Decisivos. 8. ed SãoPaulo: Editora UNESP, 2007.CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. SãoPaulo:Companhia das Letras, 1996.FERNANDES, Etelvina Rebouças. Do Mar da Bahia ao Rio do Sertão: Bahia and SanFrancisco Railway. Salvador: Secretária da Cultura e turismo, 2006.FRANCO, Tasso. Serrinha – A colonização portuguesa numa cidade do interior daBahia. Salvador: EGBA, 1996.FREITAG, Barbara. Projeto Itinerâncias Urbanas ,Rio de Janeiro , Set. 2002.Disponívelhttp://vsites.unb.br/ics/sol/itinerancias/resenhas/freitag_barbara.html>.Acessadoem: 13 Set.2009.Kossoy, Boris. Relógio de Hiroshima: reflexões sobre os diálogos e silêncios dasimagens.Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 25, nº 49, p. 35-42 – 2005.MUNFORD, Lewis. A Cidade na história. São Paulo: Martins Fontes, 1991.PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Imaginário da cidade: visões literárias do urbano. 2. edPorto Alegre: UFRGS, 1999.PINHEIRO, Eloísa Petti. Europa, França e Bahia: difusão e adaptação de modelosurbanos. Salvador: EDUFBA, 2002.
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  43. 43. 43-Edição, de 05 de Julho de 1918.-Edição, de 12 de Julho de 1918.-Edição, de 27 de Julho de 1918.-Edição, de 09 de Agosto de 1918.-Edição, de 17 de Agosto de 1918.-Edição, de 30 de Agosto de 1918.-Edição, de 13 de Setembro de 1918.-Edição, de 04 de Outubro de 1918.-Edição, de 12 de Outubro de 1918.-Edição, de 25 de Outubro de 1918.-Edição, de 01 de Novembro de 1918.-Edição, de 08 de Novembro de 1918.-Edição, de 15 de Novembro de 1918.-Edição, de 27 de Dezembro de 1918.-Edição, de 01 de Janeiro de 1919.-Edição, de 17 de Janeiro de 1919.-Edição, de 24 de Janeiro de 1919.-Edição, de 27 de Janeiro de 1919.-Edição, de 07 de Fevereiro de 1919.-Edição, de 21 de Fevereiro de1919.-Edição, de 24 de Março de 1919.-Edição, de 27 de Março de 1919.-Edição, de 04 de Abril de 1919.-Edição, de 18 de Abril de 1919.-Edição, de 09 de Maio de 1919.-Edição, de 30 de Maio de 1919.-Edição, de 13 de Junho de 1919.-Edição, de 20 de Junho de 1919.-Edição, de 29 de Junho de 1919.-Edição, de 10 de Agosto de 1919.-Edição, de 24 de Agosto de 1919.-Edição, de 31 de Agosto de 1919.-Edição, de 07 de Outubro de 1919.

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