UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB      DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS XIV  COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILI...
GRASIELE DE OLIVEIRA MOTA MAGALHÃESTRAVESSIAS IDENTITÁRIAS E DESLOCAMENTOS DOS      SUJEITOS NA LITERATURA ROSIANA        ...
As viagens são sempre experiências deestranhamento. Esse estranhamento nãoocorre apenas em relação ao outro, mas aopróprio...
Dedico esta monografia a Leonardo, meu esposo. Sujeito que nunca permanece nasmargens. Com determinação e coragem persiste...
AGRADECIMENTOSEm especial, a minha mãe, que com seu cuidado e atenção, esteve sempre disposta a meajudar.Ao meu esposo, co...
RESUMOO presente trabalho é uma releitura dos contos de Guimarães Rosa, Sôroco, sua mãe,sua filha e A terceira margem do r...
ABSTRACTThe present work it is a reinterpretation of the stories of Guimaraes Rosa, Soroco, her mother,her daughter and th...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO ...........................................................................................................
INTRODUÇÃO        Independente da classe, raça, posição social e geográfica ou período histórico, aapreciação da literatur...
Com base no exposto, deteve-se sobre os personagens do conto, por possuírem vidasdeslocadas, serem persistentes a resistir...
CAPÍTULO 1 DIÁLOGOS LINGUÍSTICOS-LITÉRÁRIOS: o fazer artísticorosiano e          a expressão da loucura.                  ...
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Grossmann (1982, p.35), a singularidade dos elementos que se apresentam na obraliterária representa uma continuidade unive...
vida do pai. E, sem coragem de assumir quem é, e em que acredita, teme ser excluídosocialmente e acaba por viver na medioc...
(des)organiza, (des)constrói o que se vive, sente e ouve. A linguagem literária encena avida, como um mecanismo que resgat...
metáforas de destinos, de margens e travessias, que conduzem personagens a algumlugar. Características peculiares do estil...
determinam-se os tipos de consumo, padrões para hábitos e modelos de conduta.Cobranças quase impossíveis de se acompanhar....
alguns sujeitos provoca tensões, inseguranças e incertezas, e os levam a lutar contra o“meio”, tomando distância ou enfren...
encontrada no estado selvagem, só existe na sociedade, dentro das normas que isolam,reprimem e excluem.       Cabe enfatiz...
Além dos espaços físicos, o autor cria também espaços metafísicos, mundos queatraem o leitor, pois estabelece relações com...
provocar no leitor uma admiração, capaz de instigar e dificultar a percepção e a leitura.O texto comumente apresenta-se de...
deslizam para imagens fantásticas e oportunizam o deleite e também a autoconsciênciado leitor e permitem estabelecer uma i...
2.2 Fuga ou Entre lugar        À medida que estuda Guimarães Rosa, o leitor sente-se cada vez mais motivadoa prosseguir e ...
Ao criarem sua própria linguagem para nela se sustentarem, antes necessitamcriar um lugar, para que possam se estabelecer,...
Constrói personagens em trânsito, ou loucos desajustados,                        habitantes de um mundo imediatista e prag...
Para Iser (2002, p. 409) “A diversidade de compreensões do texto literáriomostra o limite da semântica”. Daí torna-se comp...
Definir-se será comprometer-se com a existência de                       materialidades corporais [...] Não que a exterior...
poderia conter nosso “eu”. Todo homem necessita do processo de mutação, pois atravésda (des)fragmentação, ele torna-se con...
Em sua literatura, Guimarães Rosa singulariza a linguagem, os personagens,inverte o discurso e propõe travessias. Ao (des)...
O conto Sôroco, sua mãe, sua filha, compõe a obra Primeiras histórias, deGuimarães Rosa, que foi publicada em 1962 e abord...
[...] De antes Sorôco agüentara de repassar tantas desgraças, de                       morar com as duas, pelejava. Daí, c...
Segundo Perrone-moisés ( 2002, p. 213), as loucas, retratam “um constado deenormes diversidades desta vida”. Diante disso,...
relação a ela, mas, também a vida humana como uma loucura. Esta que era observada àdistância pelo povo, apossa-se de todos...
O conto A terceira margem do rio, que compõe a obra Primeiras historias, deGuimarães Rosa, publicado em 1962, narra a hist...
Dessa forma, o personagem pai de A terceira margem do rio, parece que desejapartir desse mundo inseguro “líquido” (BAUMAN ...
Para esse autor, a consciência humana sabe que deve transcender à moral,romper com a tradição. Esta é a lei da vida para q...
O comportamento transgressor daquele pai, ao diferir dos padrões comuns,entrou para a categoria de loucura. Foucault (2002...
Caldas (Ano I p. 33-37) escreve que um dos grandes norteadores da produçãorosiana, é transmitir pela linguagem o aprendiza...
um ser deslocado, apesar de permanecer na margem do rio a relatar o que ocorre comele mesmo, com seus familiares, com os q...
lo, “[...] a gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu” (p. 35). Aprisiona-se nastentativas de compreender a decisão d...
O filho deveria ter aprendido que certas experienciais, quando nãocompartilhadas, não podem ser contadas. “Mas por afeto m...
apenas observar, perdeu-se na (in)ação, perdeu-se a si mesmo, perdeu também a chancede mudar de lugar.          O pai volt...
Em cada época da história a vida é percebida e vivida por vieses quecorrespondem à realidade contemporânea. Ao longo do te...
de ação. “[...] experimenta sentimentos de impotência em relação a um universo socialcada vez mais amplo e alheio” (GIDDEN...
própria vida, que envolve correr riscos, implica enfrentar a diversidade, as travessias.Que podem resultar em perdas e gan...
Travessias identitárias de deslocamentos dos sujeitos na literatura risiana
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Travessias identitárias de deslocamentos dos sujeitos na literatura risiana

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA GRASIELE DE OLIVEIRA MOTA MAGALHÃESTRAVESSIAS IDENTITÁRIAS E DESLOCAMENTOS DOS SUJEITOS NA LITERATURA ROSIANA Conceição do Coité 2012
  2. 2. GRASIELE DE OLIVEIRA MOTA MAGALHÃESTRAVESSIAS IDENTITÁRIAS E DESLOCAMENTOS DOS SUJEITOS NA LITERATURA ROSIANA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas - Licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB – campus XIV) para obtenção do título de Licenciada Orientadora: Profa. Eugênia Mateus de Souza Conceição do Coité 2012
  3. 3. As viagens são sempre experiências deestranhamento. Esse estranhamento nãoocorre apenas em relação ao outro, mas aopróprio viajante. O que a viagem leva maisprofundamente a compreender é que “ooutro, só o alcançamos em nós mesmos.[...] Não podemos apanhá-lo fora, só otocamos dentro de nós mesmos, pagando opreço de nossa própria transformação”. (S.CARDOSO)
  4. 4. Dedico esta monografia a Leonardo, meu esposo. Sujeito que nunca permanece nasmargens. Com determinação e coragem persistente, faz da sua vida uma constantetravessia de fronteiras para conquistar os objetivos. É um exemplo que teimo em seguir.Como um dos resultados, tenho a conclusão deste trabalho e a chegada ao final docurso; foi uma longa travessia de fronteiras, que me trouxeram a este objetivo. O queme deixa muito feliz.
  5. 5. AGRADECIMENTOSEm especial, a minha mãe, que com seu cuidado e atenção, esteve sempre disposta a meajudar.Ao meu esposo, companheiro que me apoiou em todos os momentos.Aos amigos, Efigênia, Lívia e George, que se dispuseram sempre que precisei paraoferecer livros, correções de trabalhos ou partilhas de conhecimentos.Aos colegas, que fizeram grande diferença nas partilhas de conhecimentos de atenção eamizade. Aos que se tornaram parte da minha história e aos que se tornaram amigos, epermanecerão.A professora Eugênia Mateus, pela dedicação, pelo auxílio constante e por acreditar nomeu potencial.Enfim, a todos que direta ou indiretamente, contribuíram para que eu chegasse até aqui.Meu muito obrigada!
  6. 6. RESUMOO presente trabalho é uma releitura dos contos de Guimarães Rosa, Sôroco, sua mãe,sua filha e A terceira margem do rio, presente na obra Primeiras histórias. Neste, faz-seuma tentativa de verificar o processo de (des)construção dos personagens dos contos,como representantes da sociedade contemporânea, influenciado pelas imagens do real eseus efeitos sobre os sujeitos. A compreensão se dará, a partir de uma desconstrução dotexto, transportando o drama dos personagens para o mundo real. Para concretizar estareleitura, parte-se das relações que a literatura estabelece com a realidade. Através dostraços deixados pelo texto, tenta-se configurar os deslocamentos e desconstruções do eu,que movem os sujeitos a uma travessia interior para assumir uma identidade autônomadiante das transformações sociais. Utilizou-se na pesquisa, para fundamentar a análisedesse trabalho autores como: Bauman (2007), Tollentino (2007), Barthes (2002),Giddens (2002), Foucault (2002), Leite (2001), Bonder (1998), Villaça (1996), Derrida(1991), Grossmann (1982), Rosa (1988), dentre outros.Palavras–chave: Guimarães Rosa. Literatura versus realidade. Loucura e sanidade.(Des)construção do eu.
  7. 7. ABSTRACTThe present work it is a reinterpretation of the stories of Guimaraes Rosa, Soroco, her mother,her daughter and the Third Margin of the river, present Early in the work histories. In this, it isan attempt to verify the process of (de) construction of the characters of the tales, asrepresentatives of contemporary society, influenced by the images of the real and its effects onthe subjects. Understanding takes place, from a deconstruction of the text, carrying the drama ofthe characters into the real world. To achieve this rereading of the relations breaks down thatliterature with reality. Through the traces left by the text, attempts to set the displacement anddeconstruction of the self, that move the subject to take a journey inside to an autonomousidentity in the face of social transformations. It was used in the study authors as Bauman (2007),Tollentino (2007), Barthes (2002), Giddens (2002), Foucault (2002), Milk (2001), Bonder(1998), Villaça (1996), Derrida (1991), Grossmann (1982), Rose (1988), among others, tosupport the analysis of this work.Key - words: Guimarães Rosa. Literature versus reality. Madness and sanity. (De)construction of self.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO ................................................................................................................. 091 DIÁLOGOS LINGUISTICO-LITERÁRIOS: o fazer artístico rosiano e expressão da loucura ............................................................................................. 111.1 Ficção “versus” realidade ...................................................................................... 121.2 Limites e travessias ............................................................................................... 141.3 Nas malhas de loucura .......................................................................................... 162 AS MARGENS: os deslocamentos e a (des)construção do eu ............................. 202.1 Estranhamento e loucura ....................................................................................... 212.2 Fuga ou entrelugar ................................................................................................. 232.3 O sujeito e a fragmentação .................................................................................... 263 METÁFORAS DA REALIDADE NOS CONTOS ROSIANOS: as dimensões existenciais dos personagens .............................................................. 293.1 Sorôco, sua mãe, sua filha: a herança dos sujeitos ................................................ 303.2 A terceira margem do pai: a ressignificação do sujeito ....................................... 333.3 A margem do filho: escolhas do sujeito ............................................................... 383.4 Travessias e deslocamentos: a busca dos sujeitos pela integração com o meio e consigo mesmo ...................................................................................................... 41CONCLUSÃO ................................................................................................................... 45REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 47
  9. 9. INTRODUÇÃO Independente da classe, raça, posição social e geográfica ou período histórico, aapreciação da literatura é uma atividade que enriquece o espírito. Sua linguagem universaltranscende o tempo e estabelece um elo entre os homens. Desta forma, ler e desfrutar de umbom texto é apreender quem somos, alem de promover instantes de satisfação. O textoliterário é, por si só, um questionamento acerca do mundo em que vivemos. Ao ler o texto, o leitor imprime nele as marcas da sua cultura e das suas preferências.Como cada ser constitui-se de diversas realidades; ele “lê”, a partir dos instrumentos pessoais,culturais e contemporâneos de que possui, fator que determina as (re)significações do texto.Todos buscam a integração consigo mesmo e com o meio em que vivem, desta forma,pretende-se mostrar nesta pesquisa, contingências culturais que estruturam a condição dohomem no mundo, bem como suas atitudes para assumir quem de fato é, levantandoquestionamentos acerca da natureza humana. Este trabalho aborda uma temática na qual todos estamos envolvidos. Somosparticipantes e vítimas da estrutura social, desta forma, convêm meditar sobre as alterações econseqüências que (des)centram e (des)constroem as referencias identitárias de todos nós.A estrutura metodológica aplicada a esta pesquisa, se fundamenta em leituras bibliográficas.Apoiada em diversos autores como Bauman (2007), Tollentino (2007), Barthes (2002),Giddens (2002), Foucault (2002), Leite (2001), Bonder (1998), Villaça (1996), Derrida(1991), Grossmann (1982), Rosa (1988), dentre outros. Produzi esse trabalho que se firmasobre a análise dos contos de Guimarães Rosa, Sôroco, sua mãe sua filha e A terceira margemdo rio, nos quais busquei respostas para o comportamento dos personagens a partir dapluralidade de sentidos da linguagem literária, sob os vieses da (des)construção, e dos efeitosda pós-modernidade na estrutura social e na vida de sujeitos. Cabe lembrar que o tema abordado, não se referiu a uma situação generalizada dossujeitos, mas, de casos que podem ocorrer em meio à diversidade. Apresento aspectos daexistência/natureza humana, chamando atenção para comportamentos de sujeitos diante darealidade social e suas transformações, inspirada na linguagem literária e nos contos deGuimarães Rosa, que com sua linguagem, desenha personagens que representam pessoascomuns, ao tempo que cria situações que contraiam o senso comum, deslocando edesconstruindo a vida e o cotidiano.
  10. 10. Com base no exposto, deteve-se sobre os personagens do conto, por possuírem vidasdeslocadas, serem persistentes a resistirem física e psicologicamente às escolhas. Em seguida,transportou-se tais aspectos fictícios para a realidade, comparando os comportamentos eescolhas dos personagens com o de sujeitos reais. Como reflexão, interessou tratar dastravessias e deslocamento dos sujeitos, abordando a capacidade do homem de resistir ou seadaptar às escolhas, e enfrentar conflitos com relação a si mesmo e ao espaço em que habita. Nessa perspectiva, acredita-se ter alcançado o objetivo de mostrar a (des)construção e(des)fragmentação dos sujeitos diante da travessia da vida, que deslocam as certezasidentitárias e de segurança, e insere o homem em uma interminável busca de si.
  11. 11. CAPÍTULO 1 DIÁLOGOS LINGUÍSTICOS-LITÉRÁRIOS: o fazer artísticorosiano e a expressão da loucura. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia(Guimarães Rosa). A partir das relações históricas do homem com a realidade, que envolve todo oprocesso dinâmico do mundo, em suas transformações; a literatura adentra-se nesseprocesso e cria outros mundos. Realidades acrescidas de elementos singulares, capazesde ampliar as possibilidades de pensar, do leitor. No fazer literário encontra-se um emaranhado de elementos que envolvem fatoshistóricos, cotidianos, sociais, psicológicos, transcendentes, etc. capazes de romper oslimites da ficção, aproximando-os da realidade. Nesse contexto exemplifica-se aliteratura de Guimarães Rosa, na qual encontra-se sujeitos que produzem mudanças emsuas próprias vidas, fato que favorece a uma nova consciência com relação a espaçosconstruídos, contextos inusitados que mexem com a estrutura social, familiar,psicológica e cultural do ambiente e provoca o leitor a novas questões. Neste capítulo, apresentam-se elementos da arte literária e, também, a suaestreita relação com a história e suas transformações tanto sociais, como humanas. Faz-se uma breve apresentação dos contos de Guimarães Rosa, Sôroco, sua mãe, sua filha eA terceira margem do rio, objetos de análise desse trabalho, considerando os aspectosda sua produção literária e as temáticas sobre os dramas humanos, a travessias e oslimites existenciais dos sujeitos/personagens, que apresentam comportamentospróximos à loucura.1.1 Ficção versus realidade Diferente de qualquer outra linguagem, a Literatura, com sua capacidade,desordena os padrões linguísticos e sociais do cotidiano e, como um espelho em que o
  12. 12. homem se vê refletido, é capaz de conduzi-lo às profundezas da existência. A literaturaestabelece um diálogo entre as relações sociais e transforma em histórias as experiênciashumanas. Entende-se, pois, Literatura, como um espaço promotor de transformação dosujeito, capaz de capturá-lo para lugares e possíveis “verdades” sobre o eu e a realidadecircundante. Através da mimese e das metáforas, criam-se espaços e lugares físicos emetafísicos em que indivíduos/personagens passam a habitar ao se deslocarem darealidade. Este deslocamento ocorre porque a linguagem literária tanto regula opensamento em várias direções - cria realidades que potencializam ou limitam o leitor –quanto transfigura-se polissêmicamente - modifica o real, transpõe o tempo, move oslugares, as pessoas, o mundo. É uma linguagem que se (des)materializa. De acordo com Judite Grossmann (1982, p.23) o discurso literário é sutil, aoponto de imbricar as relações entre a realidade e a ficção, englobando, representando edeslocando as origens desses discursos ora em um, ora noutro. Segundo ela, a literaturase vale da realidade para existir, e, por conter a linguagem universal, transcende otempo e estabelece um elo entre os homens e a história. O texto literário provoca, apresenta inconformismos, problematiza a realidade,transpira valores, modelos e padrões morais e éticos e acompanha estas transformações.Ele reflete as interrelações humanas e do homem com o mundo; (re)cria a vida e arealidade, ao tempo que conduz o leitor à dimensão existencial, histórica, sociocultural epolítica da humanidade através da palavra. Os caminhos traçados pela obra literária sãodescontínuos, a linguagem consegue particularizar o universal, o coletivo e o individual. Segundo Foucault (2002, p. 239), o jogo das palavras e a exploração fonética,semântica e sintática tornam o texto capaz de absorver a realidade. Estes recursosacrescem a multiplicidade semântica, e ao leitor cabe a função de (re)ordenar a suapercepção. Através das emoções o texto ficcional envolve os mundos real e imaginárioe, assim, ultrapassa os limites da significação e promove outras formas de perceber estarealidade. Nesse aspecto, o texto se desconstrói, pois o leitor, ao contactá-lo, interpreta-o,apreende-lhe os sentidos, manifesta o seu ponto de vista. Esta desconstrução do texto,portanto, não garante certezas na sua infinitude de sentidos, mas conduz o leitor adesvendar suas artimanhas, porque discurso literário, não só imita como acentua assituações universais do homem. Derrida (1972, p.12) cita que o texto “provoca adúvida, inquieta, mente, simula, engana, teatraliza a verdade, joga com o leitor”. Para
  13. 13. Grossmann (1982, p.35), a singularidade dos elementos que se apresentam na obraliterária representa uma continuidade universal das questões humanas. Entretanto, quasesempre eles estão impronunciados, pois foram invertidos, reelaborados e apresentadosem forma de paródias e metáforas. A literatura rosiana envereda pelos caminhos da desconstrução tão comuns à suaescrita. Na sua obra, o autor trata de questões universais, metaforiza a vida, o destino, astravessias. Sua linguagem desenha personagens que representam pessoas comuns, criasituações que contrariam o senso comum, transforma, desloca, (des)constrói a vida, ocotidiano. As personagens enfrentam perturbações com seus “eus” e com o mundoexterior, por isso, exige mudanças de vidas, que fazem com que estes personagenspassem a viver de modo ainda não experimentado. Constata-se nos contos rosianos, uma descentração dos sujeitos e uma(des)construção dos modelos de identidade que se formaram ao longo do tempo.Direcionam-se, portanto, possíveis olhares para a metáfora da “loucura”. A loucura daincompreensão social que leva o homem à experiência de confrontar-se consigo mesmoe com a sua verdade. Nos contos Sôroco, sua mãe, sua filha e A terceira margem do rio (objetos deanálise deste trabalho), depara-se com a representação da transcendência, sob umamultiplicidade de sentidos e significações. Realidades que ocasionam complexasrelações entre verdade e ilusão, loucura e sanidade. Os personagens dos contos sãopessoas comuns, mas diferem do senso comum, porque transformam o cotidiano e sãoimpelidos a transformações. Em Sorôco, sua mãe, sua filha, o leitor depara-se com um sujeito, excluído dasociedade (Sorôco) que ao passar sua vida cuidando de duas loucas, carece entrar emcomunhão com os mundos interno e externo, deixar vir à tona seu verdadeiro eu. Eledecide conduzir sua mãe e sua filha, loucas, para serem internadas; Episódio que leva -oa viver e a assumir a sua própria “loucura”. Em A terceira margem do rio, encontra-se um sujeito, o pai, que ao passar aviver dentro do rio, sobre as águas, dentro de uma canoa, cria e se estabelece em outramargem – “terceira margem” – recusa-se a usar a palavra, desapega-se das coisas e daspessoas e se distancia da vida social e cultural. Decisão que aparenta serdesestruturadora, mas, para ele, talvez necessária, enquanto o filho, narrador da história,que se enquadra no senso comum, passa a viver à “margem”, observando e narrando a
  14. 14. vida do pai. E, sem coragem de assumir quem é, e em que acredita, teme ser excluídosocialmente e acaba por viver na mediocridade. Assim, a arte literária constrói percepções acerca da (des)construção daidentidade, como aquela que envolve a sociedade moderna, na qual se instaura ummodelo social que provoca dissolução de valores, de referências e significados dosambientes/espaços habitados. Interferências na idéia que o sujeito possui de si mesmo,que pode conduzi-lo a comportamentos que fogem dos padrões sociais e, quiçáprovoquem espanto e exclusão. Atitudes que estão representadas nos limites e travessiasdos eus, expressos ficcionalmente como representações alegóricas influentes na obraapresentada.1.1 Limites e travessias Como fenômeno que se concretiza a partir das relações sócio-históricas e dasinterferências na interpretação do leitor, pode-se dizer que a literatura é uma constantetravessia para a construção de novos sentidos, novos valores e significados. Semelhantea uma instituição social, ela está em contínua mudança e adaptação. Tece as buscas,orienta-se pelo pensamento, pelos processos políticos e históricos, pelas vivênciasculturais e sociais, pelos conflitos e ações do homem. Promove um mergulho nahistória, na cultura e na própria identidade do indivíduo, é apresentada, pois, como odenominador comum das experiências humanas. À medida que alcança as experiências do homem, a realidade literária sofre oprocesso de reelaboração, em que o real é modificado e surgem as paródias, a mimese ea metáfora. Para Vargas Llosa (2004, p. 16), isso se faz necessário, pois a Literaturaexpressa um tipo de verdade muito sensível, que só pode ser expressa de formadisfarçada, o motivo segundo ele, é que quase todos os homens são insatisfeitos com avida que levam e gostariam de viver de modo diferente. Para moderar esse desejo, surgea ficção, que se caracteriza por uma travessia de fronteiras entre dois mundos. Umainteração entre o fictício e o imaginário que se inserem, um no contexto do outro. De acordo com Lígia Leite (2001, p.6) quem narra as histórias, fá-lo a partir doque viu, do que viveu ou testemunhou, e também do que imaginou, sonhou ou desejou.Assim, o discurso literário fragmenta a realidade, possível através da linguagem, que
  15. 15. (des)organiza, (des)constrói o que se vive, sente e ouve. A linguagem literária encena avida, como um mecanismo que resgata, analisa e representa as forças que alimentam asociedade e a existência humana. Desse modo, quando o leitor experimenta os múltiplossignos do texto, ele transpõe limites, e (des)faz travessias. Como já foi citado, o textoprovoca dúvida, inquieta, joga com o leitor, portanto, exige envolvimento e atenção paracompreender as outras existências encontradas no texto. A experiência da literatura conduz o leitor ao rompimento de fronteiras, fazeruma partilha, independentemente da posição social, período histórico ou situaçãofinanceira, com a humanidade. A literatura imita, inventa, revela e/ou representa omundo e as atividades humanas, cria oportunidades para o leitor se colocar comoparticipante na produção de sentidos do universo representado. Segundo Terry Eagleton(1997, p.5) essa propriedade do texto, aliena a fala comum, provoca estranhamento econduz o leitor a vivenciar uma experiência subjetiva, intensa, capaz de provocarcomoção, perturbações, e chegar à catarse que, para Rogel Samuel (2002, p.11) é “[...] aconsequência da tensão provocada pelos elementos do texto”, uma experiência quetransforma esse leitor participante da história ou uma extensão dela. O mundo representado no texto, com as múltiplas possibilidades decompreensão, é possível através da mimese - definida como fenômeno que envolve oprocesso artístico do homem. O meio de representar a realidade a partir do imaginário.Cenário ideal em que o vivenciado no mundo real, passa para outro plano, o plano dosimulacro, da ambiguidade, das verdades subjetivas que modificam desfocam ouapagam as cenas reais e as transformam nas imagens do texto. Conforme escreveuVargas Llosa (2004, p. 23), a obra fictícia consegue ao mesmo tempo, apaziguar e atiçaras insatisfações do homem. É um conjunto de sentidos capazes de unir em um únicoespaço várias linguagens e pontos de vista, que em outros tipos de discursos setornariam contraditórios. O discurso literário revela coisas que nenhum outro é capaz dedizer. Apesar de manter relações com a realidade, os espaços, o tempo, e ospersonagens da obra literária, constituem um mundo que só passa a existir quandoinventado, e como uma invenção humana, a criação literária está submetida aoimaginário do autor e entrelaçada a ele. Buscou-se nesse trabalho, analisar o conto de Guimarães Rosa, Sôroco, sua mãe,sua filha e A terceira margem do rio, por serem textos que possuem um discursointenso, narrativas baseadas em um processo de (des)construção de vidas e vozes,
  16. 16. metáforas de destinos, de margens e travessias, que conduzem personagens a algumlugar. Características peculiares do estilo desse autor que, com sua linguagem, consegueunir as inquietações humanas presentes em todos os tempos e lugares e conduzir o leitorao mistério da existência humana, da essência da vida, e o faz sob uma perspectivaenigmática. Observa-se, que esse processo na obra de Guimarães Rosa, supõe transgressão,estranheza, estremece a consciência, ativa o imaginário, invade o tempo e o espaço darealidade e desperta o leitor a fazer experiências que não são alcançáveis no cotidiano,além da sensação de prazer, que Barthes (2002, p.12) define como um instanteinsustentável e puramente maravilhoso. Uma experiência possível, pois o discursoliterário e o jogo da ficção possibilitam ao sujeito real mergulhar nas cenas imaginárias,fazem com que o leitor transite entre o real e o imaginário, tornando-se, portanto, capazde alterar o seu cotidiano. As narrativas, pois, apresentam um processo de construção e desconstrução,travessias e limites, que envolvem passado, presente e exige do leitor atenção para uniros elementos que constituem a (in)existência percebida na história dos personagens.Tratam da mutabilidade do cotidiano e das experiências humanas e apontam para aestreita relação entre o real e o fictício. O discurso é intenso, envolve a subjetividade doleitor e ao entrelaçar as linguagens dos dois mundos (real e ficção) é possível percebermotivos que podem conduzir muitos sujeitos às malhas da loucura.1.3 Nas malhas da Loucura Enquadrar-se como membro pertencente a um grupo qualquer, é referencial desegurança e identidade para qualquer sujeito, entretanto, o momento atual da históriasugere, constantemente, a construção de novos modelos de comportamentos. Orompimento das fronteiras globais e o poder do mercado quebraram também asdistâncias identitárias, o que provoca constantes transformações nas certezas do homemcom relação a vários aspectos da sua vida. O bombardeio de informações que transitam a sociedade atual de formaglobalizada, contrariam a realidade econômica, psicológica e cultural de grande parte dapopulação. E, à medida que as distâncias se encurtam e a sociedade torna-se massifica,
  17. 17. determinam-se os tipos de consumo, padrões para hábitos e modelos de conduta.Cobranças quase impossíveis de se acompanhar. Assim, muitos sujeitos entram emcrises existenciais ou quebram “algumas regras” para satisfazer, ou não a apelos domercado e da mídia. De acordo com Hall (2006, p.9), as transformações que ocorrem, alteram aidentidade e a concepção que o indivíduo possui como “sujeito integrado”. É ummomento crítico, no qual muitos homens se afastam da democracia, da cidadania, daética, do respeito ao ser humano, à ordem social e à vida. As relações tornam-sesuperficiais. Deixar-se conhecer pelo próximo pode comprometer a segurança. O outro,portanto, torna-se uma ameaça e, consequentemente, a reciprocidade já não denota umaextensão da natureza humana. De acordo com Enriquez (apud TOLENTINO 2007, p. 21), o sentido existencialdo homem resulta da sua ocupação em alguma instituição social que lhe forneçasegurança e designe um status quer seja ele formalizado ou não. Contudo, a sociedadecontemporânea dificulta a convivência entre os homens. Os grupos de amigos, a família,a escola, empresas etc., tornam-se desafios para exercitar e/ou manter a segurança e apartilha. Em razão da predominância do materialismo, do consumismo e doimediatismo, o homem passa a se apoiar em referências que descentralizam seu eu. Viver requer suportar implicações. E, na atualidade, toma-se como exemplo oautoritarismo, o desemprego, a miséria, degeneração da vida urbana (violência, pobreza,drogas), que para Tolentino (2007, p.16), são problematizações do tempo e dos espaçosda globalização. À proporção que a estrutura social sofre alterações, o individuonecessita lidar com tal realidade, com as interrelações que mudam consequente econtinuamente, bem como consigo mesmo. Depara-se com mais um ciclo da história, período no qual, o ponto de vistasocial, político e econômico altera as definições do que é normal e anormal nos padrõesde vida, de consumo, de escolha e de comportamento dos sujeitos. Criam-se categorias -cidadão ou estrangeiro. Qualificam-se, seleciona ou perseguem os indivíduos. Sãoestabelecidos padrões de aceitabilidade do outro como participante ou não do meiosocial. De acordo com Bauman (2007, p.17) “em vez de grandes expectativas e sonhosagradáveis, o “progresso” evoca insônia cheia de pesadelos de “ser” deixado para trás”.Diferente de pregar a segurança existencial, a coletividade e a solidariedade, prega -se oque diz o ditado popular, “cada um por si Deus por todos”. Situação angustiante que em
  18. 18. alguns sujeitos provoca tensões, inseguranças e incertezas, e os levam a lutar contra o“meio”, tomando distância ou enfrentando-o. O “ser” fragmenta-se e desloca-se.Giddens (2002, p. 40) comenta que, por se sentir ameaçado, o indivíduo teme perder-sea si mesmo e depara-se com uma grande tarefa: estar atento para refazer suas ações e tercoragem para enfrentar o cotidiano. Ele ainda escreve que a atitude natural dessessujeitos deve ser levantar perguntas sobre mundo, sobre os outros e sobre si mesmo, eestas perguntas devem ser respondidas para que possam enfrentar com naturalidade suasquestões existenciais. Quem não responde às suas questões necessárias não viveránormalmente e poderá entrar em desequilíbrio. Os homens, ao longo de toda vida, buscam segurança e conforto existencial, equando não a encontram na sua forma concreta buscam ao menos, a sensação de sentir-se seguro. Não obstante, caminham em uma via inconstante e imprevisível, pois sofremameaças de verem diminuídas as capacidades de ação. Enfrentam o que Hanciau (apudVILLAÇA, 1996 p. 136) define como um cruzamento, de diferentes e complexasreferências identitárias. Para Giddens (2002, p.138), a transição constante do ambiente tende a provocarnos indivíduos crises de identidade, destarte, cada um deve assumir o compromisso coma sua existência, criar pontos estratégicos que o fortaleçam, para que, em determinadosmomentos aja de forma a construir sentidos úteis à vida. É no ambiente social que oindividuo manifesta potencialidade, vontade, inteligência, sensibilidade, interageconsigo e com o mundo. Mas, quando habita um espaço que sofre transformaçõesrápidas e constantes, é provável que entre em conflito. Sempre, e em qualquer lugar, existirão indivíduos com comportamentos quediferem dos outros, dos padrões e das regras definidas socialmente. Tais atitudes podemrepresentar (re)ações e rupturas com regras e padrões da sociedade. Dado o exposto, omodelo de sociedade atual, em alguns momentos, exige que sujeitos visualizem novosdestinos e estejam preparados para romperem com certos padrões que podem contrariaro senso comum. Para Foucault (2002, p. 214), não existe cultura no mundo em que se permitafazer tudo. Sabe-se que o homem não cresce governado pela liberdade, mas pelo limite.Portanto, o sujeito que não obedece às regras nem se integra a essas atividades seráconsiderado marginal ou louco. Ainda, segundo o autor (2002, p. 163), a loucura fazparte de um dos níveis estruturais da segregação social: para ele, a loucura não é
  19. 19. encontrada no estado selvagem, só existe na sociedade, dentro das normas que isolam,reprimem e excluem. Cabe enfatizar que este trabalho trata de analisar deslocamentos e travessias desujeitos, que não sabem dizer o que querem, ou não são compreendidos no que dizemou como dizem, bem como em seus silêncios. Consequentemente são julgados por suasatitudes, considerados ou tratados como loucos, fator que permite colocar entreparênteses, inúmeras perguntas sobre as complexas convenções sociais quecomprometem a linguagem e os atos dos sujeitos. Como fruto do imaginário, o texto fictício apresenta inúmeras configurações eimpõe que seja interpretado, portanto, o leitor deverá fazer uma travessia de fronteiraspara encontrar os possíveis recortes da realidade. Como produto de um autor, cada textopossui uma temática do mundo e Guimarães Rosa através da sua linguagem, provocareflexões sobre a essência e o aprendizado da vida, a incompletude humana e oscomportamentos incomuns dos sujeitos (personagens). Em vista disso, o drama dos sujeitos do conto, pode ser comparado ao dossujeitos modernos, que vivenciam concretamente os desdobramentos das organizações eestruturas sociais, que assim como podem solidificar sua condição no mundo, podemtambém causar estranhamento, fragmentação e deslocamentos do eu.CAPÍTULO 2 AS MARGENS: Deslocamentos e (des)construção do eu. O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando (Guimarães Rosa). Ainda que seja muito arriscado fazer uma travessia literária, percorrer oscaminhos oferecidos pelo texto é um aprendizado complexo, exige antes, aprender aolhar e a sentir a força das palavras. É também prazeroso, pois na obra rosiana parte-se com personagens em suasexperiências, viaja-se nas histórias através das imagens, para só assim, perceber oselementos que brotam do texto.
  20. 20. Além dos espaços físicos, o autor cria também espaços metafísicos, mundos queatraem o leitor, pois estabelece relações com o interior subjetivo de cada sujeito,recheado de emoções e imaginação. Os contos de Guimarães Rosa provocam reflexões, levantam questões sobre asverdades existenciais dos personagens e consequentemente do leitor. Ao proporcionaraos personagens vidas singulares o autor contraria regras e padrões sociais. Tais personagens não se submetem à lógica da razão, porém, habitam lugaressem regras. Abrem caminhos para que se possa dialogar com outros modos de ser ou decomportar-se no mundo, sem, contudo deixar de fazer diferença na vida de algunsoutros sujeitos. Por esse motivo, apenas se levantam possíveis hipóteses acerca dosmotivos de seus comportamentos. Este capítulo apresenta personagens diferentes, que rompem com a rotina;deparam-se com desafios, bem como os conflitos, que envolvem o ser na continuidadeda vida. Através dos traços deixados pela linguagem literária e pelo estilo rosiano, tenta-se captar elementos capazes de melhor configurar a travessia, os deslocamentos e adesconstrução do eu, posicionando-se sobre o comportamento estranho dos personagensque podem ser motivados por alguma fuga, ou negação, resultado ou não dafragmentação interior.2.1 Estranhamento e loucura Uma das principais características do texto literário é o trabalho estético dalinguagem, entretanto, os aspectos formais não são tão importantes quanto ossemânticos, pois são estes que criam o sentido existencial da literatura. Como oanteriormente citado, os deslocamentos de sentidos possibilitados pela obra literáriacriam rompimentos, margens, e uma consequente admiração que transforma o texto emum espaço de múltiplas significações. Desta forma, o fazer artístico literário tem opotencial de intensificar a experiência de descoberta, encanto e contemplação dascoisas. Desautomatizar as experiências cotidianas e como resultado, provocarestranhamento. Segundo Barthes (2002, p.9), “O texto pode criar caminhos que conduzam oleitor ao desfrute oferecido pelo autor”. Artifícios dos quais a literatura se apropria para
  21. 21. provocar no leitor uma admiração, capaz de instigar e dificultar a percepção e a leitura.O texto comumente apresenta-se de forma inusitada, pois rompe com a razão, foge doconvencional e desfamiliariza o cotidiano. Desafia os conceitos preconcebidos sobre omundo, favorece à estranha sensação de novidade e provoca um choque entre as coisaspré estabelecidas. A visão apreendida das coisas, do espaço e do tempo se alarga e seestreita. Surge um universo de significações que introduzem o leitor em uma dimensãoque só através da arte é possível experimentar. O texto explora múltiplos sentidos, e estabelece novas e diferentes significações,como nos contos de Guimarães Rosa, Sôroco, sua mãe, sua filha e A terceira margemdo rio. O autor lança um olhar sobre a vida cotidiana do homem, com seus medos edramas. O leitor retira reflexões sobre o mistério da existência e transcende no processode fruição. Ao internalizar a experiência dos personagens, pode despertar em si o desejode também transpor limites e desafios existenciais, bem como superar oscondicionamentos que interferem na vida cotidiana. O autor subverte o lugar comum, cria mundos singulares, deslocados, insere oinusitado em histórias com personagens que, em seu modus vivendi difere do comum;são estranhos, marginais, estáveis, fronteiriços. Apresenta elementos de onde se poderefletir sobre a jornada individual, em direção à auto reflexão e ao autoconhecimento. Nos textos rosianos, percebem-se ainda ausências de sentidos na lógica de vidados personagens, um tipo de loucura, sem começo ou fim, sem preocupação com tempocronológico, com vida social. Vidas com abismos e vazios. Personagens com umalógica de vida, difícil de compreender. “[...] ele começou a cantar, [...] mas sozinho,para si” (ROSA, 1988, p.22), “Nosso pai passava ao largo [...] sem deixar ninguém sechegar à pega ou à fala” (p. 34). “Tiro por mim, no que queria, e no que não queria, sócom nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos(p. 34)”.Despertam questionamentos sobre o não estar vivo, o não existir. Em suma,experiências que revelam o interior do ser em seu constante trilhar existencial. Levantareflexões sobre os complexos mecanismos que movem o ser humano, e conduzem oleitor à busca por desvendar além dos elementos do texto, seus próprios enigmas efronteiras. É possível aplicar as palavras de Barthes (2002, p. 20) ao texto de GuimarãesRosa, “[...] não devorar, não engolir, mas pastar com minúcias, redescobrir [...]”. Osdesvios da linguagem rosiana criam espaços que provocam a investigação.Proporcionam travessias, encontram-se reveladas partes do real com o fictício que
  22. 22. deslizam para imagens fantásticas e oportunizam o deleite e também a autoconsciênciado leitor e permitem estabelecer uma inter-relação com aspectos psicológicos e sociais. Na literatura rosiana, os personagens fazem travessias existenciais complexas;fazem experiências que qualquer sujeito real pode fazer. Acontecimentos cotidianos,mas que se tornam extraordinários, e por isso, estranhos. Enfrentam a tentativa deressignificar a vida através de jornadas que fogem da lógica comum estabelecida domundo. Problematizam o existir e, segundo Barthes (2002) provocam o estranhamento aponto de despertar no leitor o desejo de participar do texto como continuidade de si. Quando um sujeito depara-se com situações estranhas, ou seja, com o novo, elecostuma enfrentar ou fugir. Na mesma medida, o texto provoca essas possibilidades noleitor. Ou ele se deixa absorver pela leitura ou a abandona. Segundo Roland Barthes(2002, p. 11) “o prazer da leitura vem evidentemente de certas rupturas [...]”. Na obrade Rosa, o leitor sente-se obrigado a romper com alguns valores e convicções, paraparticipar do jogo dialógico e extrair seus significados. Se deixar envolver por lacunasestranhas que o texto oferece, e quiçá descobrir ou ocupar seus vazios existenciais.ainda conforme o autor citado ( p.39) o prazer oferecido pelo texto “[...] não é umresíduo ingênuo; não depende de uma lógica de entendimento e da sensação; é umaderiva, algo ao mesmo tempo revolucionário e associal e não pode ser assumido pornenhuma coletividade [...]”. A arte literária, capaz de promover tal experiência, ultrapassa limites, move opensamento, transcende o sujeito e as coisas, o eu e o mundo e o próprio discurso. Naprática, ela supera o cotidiano. E como representação pode produzir no sujeito leitormudanças de conduta, de valores e novas concepções de mundo. Desta forma, o texto em seu estranhamento, aproxima-se do mistério existenciale da busca essencial dos sujeitos, que recorrem à experiências capazes de conduzi-lo aoseu verdadeiro eu, ou não. Para tanto, livram-se dos (pré)conceitos que os outrosatribuem a si, perdem ou assumem máscaras e (des)fazem alguns papéis representadosconvenientemente, segundo o modelo de sociedade no qual estão inserido. Nãoobstante, assumir a verdadeira essência exige o preço de manifestar particularidades quese diferenciam do dito “normal”. A diferenciação que origina estranhamento ocasiona amarginalização, exclusão e transforma em louco aquele que não aceita seguir os padrõesde conduta de determinado grupo social. E muito sujeitos, por não suportarem talrealidade, poderão, ou não, fugir para outros lugares em busca de um novo existir.
  23. 23. 2.2 Fuga ou Entre lugar À medida que estuda Guimarães Rosa, o leitor sente-se cada vez mais motivadoa prosseguir e perseguir os mistérios que se escondem por trás dos personagens, comsuas vidas e histórias inquietantes, comportamentos fora dos padrões, que confrontam arazão e a concepção de mundo que está instaurada em cada sujeito real. Rosa, com sua linguagem, que por si só é questionadora, direciona os olharespara a profundeza do ser através de personagens que propiciam essa experiência. Elesincomodam o leitor com suas reações, comportamentos incomuns e silêncio. Ospersonagens possuem características peculiares, e por esse motivo, são capazes de “ver”além do cotidiano, vivem e assumem realidades inatingíveis pelo senso comum e destaforma ressignificam suas vidas e de quem os rodeiam. Segundo Santos (1999, p. 58) adefinição do sujeito se dá, a partir do seu comprometimento com questões existenciais,que implicam nos gestos, no falar e no agir a partir da interioridade. Contudo, não sedeve isolar o exterior, pois ambos são os responsáveis por constituírem os sentidos daexistência. Os sujeitos observados na obra de Rosa ocupam espaços inusitados, apresentamatos e comportamentos que fazem com que o leitor adentre esses “lugares” - físicos oupsicológicos - instigados a “olharem” a sua maneira o mistério que habita as vidas, e, noinvisível, encontrar os possíveis significados. Segundo Oliveira (Ano I, p.18) Rosa“tenta captar o infinito [...] traduzi-lo em palavras, em signos e em símbolos”. Nos contos rosianos, o leitor mergulha em um tipo de mistério quaseindecifrável, porque as histórias e seus personagens consistem em um perder-se notempo e no espaço, um perder-se de si, dos outros e dos referenciais. A experiência dospersonagens sugere dúvida, isolamento, solidão, que se sujeitam como a um rito depassagem, quiçá necessário, e que poderá conduzi-los a outro mundo. Ao encontro do“eu” ou com um novo “eu”. Livres, ou não, das amarras convencionais fogem das regras, portam-se comoestranhos no mundo ou em um mundo estranho. Por esta razão, considera-se que estãoem conflito existencial ou surtaram em alguma loucura. Segundo Foucault (2002, p.216), “A loucura abre uma reserva lacunar [...] que faz ver esse oco no qual língua e falaimplicam-se.”
  24. 24. Ao criarem sua própria linguagem para nela se sustentarem, antes necessitamcriar um lugar, para que possam se estabelecer, lugares imaginários, lugares nãoespecificados. Lugares distantes da comunicação. Em Sôroco, sua mãe, sua filha e Aterceira margem do rio, existem uma deficiência na comunicação entre os sujeitos,ficam silenciosos, incompreendidos. Em consequência, criam ilhas, ficam presos, cadaum em seu mundo. “Sôroco[...] no sofrer assim das coisas, ele, no oco sem beiras,debaixo do peso” (ROSA, p.21). O pai de A terceira margem, “[...] só executava ainvenção de permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio.” (p.33). Quanto aofilho; “Eu fiquei aqui, de resto. Eu permaneci com as bagagens da vida” (p.34). De certa forma, esses lugares em que se colocam os personagens rosianos,Sôroco, em Sôroco, sua mãe, sua filha e o pai e o filho em A terceira margem do riofazem pensar sobre os sujeitos modernos que enfrentam certo esvaziamento dasexperiências sociais e (des)construção das relações intercomunicativas. SegundoBauman (2007, p.8), “A comunidade [...] parece cada vez mais destituída desubstância”. De acordo com Giddens (2002, p. 137) “O lugar torna-se [...] menossignificativo do que costumava ser como referente externo da vida do indivíduo.” Emdecorrência, instalam-se sentimentos de insegurança ou medo, que não são apenasexternos, mas vem também de dentro dos indivíduos, que se isolam, distanciam-se eseparam-se do convívio social. Estabelecem-se no entrelugar que, de acordo com o conceito de SilvianoSantiago (2000), é um atravessamento, entrelaçamento e confronto de línguas, dosespaços, de culturas, enfim, que acabam por instituir outro lugar, no qual os sujeitosnecessitam assumir outros comportamentos. Nesse entrelugar “Surgem novos discursos,diferentes sujeitos, dinâmicas de fronteiras” (HANCIAU apud Villaça, 1996, p. 12). Ena (re)construção individual resta a cada um constituir a sua verdade interior. O deslocamento e a desterritorialização dos sujeitos apontam para um espaçocapaz de promover uma redefinição identitária, o que experimentam pode ser um“lugar” de (re)descobertas, de auto-afirmação ou ainda um lugar de perder-se para nãomais encontrar-se. Para Foucault (2002, p. 216), “A loucura apareceu [...] como umaprodigiosa reserva de sentidos.” Os personagens do conto estão na margem, e entremargens. Talvez seja por esse motivo que os “lugares” dos personagens são flutuantes equase incompreensíveis, entrelugares. Segundo Fonseca e Alves (2000, p.113),Guimarães Rosa:
  25. 25. Constrói personagens em trânsito, ou loucos desajustados, habitantes de um mundo imediatista e pragmático, que por isso mesmo, parecem capazes de fazer mergulhar o ser humano mais fundo em sua problemática. Ao se perceberem nas margens do cotidiano, partem em busca de um espaço, ourefúgio que não lhe ofereça risco. Necessitados de mudança desestruturam os padrõesou rompem com eles. Estes fatos lhes fazem criar mundos e transformá-los em espaçosricos de significações. Segundo Caldas (Ano I, p. 33), a obra de Guimarães Rosa, “[...]condensa as inquietações humanas que estão presentes em todos os lugares e tempos”.Através dos seus artifícios lingüísticos e estéticos, ele consegue transmitir ao leitor, quea linguagem literária subordinada à realidade, propicia a compreensão da condição dosujeito que perde seu contato, sua conexão, seja com o mundo interior e com a própriavida, seja com as transformações sociais ou cotidianas. O entrelugar habitado pelos personagens pode representar possibilidade dereflexão do sujeito para se encontra consigo mesmo, entender suas relações consigo ecom o espaço, ou uma problematização que o autor propõe para refletir sobre oestranhamento provocado ao ambiente social quando um sujeito se retira ou reage demodo incomum como fuga ou busca de soluções para algum conflito interior. 2.3 O sujeito e a fragmentação Como manifestação das experiências humanas transformadas em histórias, otexto literário consegue penetrar no íntimo de indivíduos e apresentar a mobilidadeinterior no processo de (des)construção do eu. As narrativas oferecem ao leitorpossibilidades de perceber o real, como se não existissem os recursos da mimese ou dasmetáforas. Aspectos encontrados nos contos de Guimarães Rosa, os quais abremperspectivas sobre a natureza humana e fazem pensar sobre diferentes modos epossibilidades de se viver. Portanto, “[...] o mundo representado há de se tornar como sefosse um mundo” (ISER, 2002, p. 403). A semelhança do texto com o real permite queatravés dele sejam encontrados elementos empíricos do mundo.
  26. 26. Para Iser (2002, p. 409) “A diversidade de compreensões do texto literáriomostra o limite da semântica”. Daí torna-se compreensível o potencial que tem o textode representar a condição humana no mundo, bem como as relações intercomunicativasem diversos tempos e lugares. Ao despertar para questões sobre as transformaçõeshistóricas e socioculturais que interferem a integração do sujeito no mundo e no meioem que vive, estabelece uma realidade na qual o “eu” se (des)fragmenta, e o indivíduoreage através de alterações no comportamento, na linguagem ou na vida. Nos contos,Sôroco, sua mãe, sua filha e A terceira margem do rio os personagens enfrentam oisolamento e a solidão, sujeitam-se a uma (des)integração e (des)construção de simesmo, ao tempo que, parecem procurar espaços que lhes ofereçam alguma segurançaou equilíbrio interior. Aguiar e Silva (1979) enfatizam que a literatura é um trabalho artístico àsombra de inúmeras facetas que expressam inconfundivelmente as emoções e osmistérios do homem. De acordo com Aleilton Fonseca (2000), os personagens rosianos,ao habitarem em um mundo que imita o real, promovem o mergulho do leitor naproblemática humana para perceber que a vida, cercada pela fugacidade das alegrias eda insatisfação dos desejos, está marcada pelo estigma da morte. Por meio das relações com o outro, o homem se constrói como sujeito. Mas, éatravés das escolhas, dos atos, dos gestos, do silêncio e mesmo da fala, que manifestaquem ele é. Quando se está em equilíbrio consigo mesmo e com o ambiente no qualvive, o sujeito consegue se relacionar com as diversas realidades do cotidiano eapreende-as, à medida que administra os desafios que carecem de respostas. Aocontrário, o sujeito em possível conflito interior, assume posturas incoerentes com ospadrões do meio social e cultural em que vive. Ao se deparar com algum embate interior versus exterior, o individuo nãoquestiona apenas a sim mesmo, mas também os outros, à medida que busca possíveisrespostas que solucionem os desafios à sua frente, e ressignifique sua vida.Provavelmente, esta fase de transição provocará algum tipo de resistência por parte dosoutros com quem ele convive. Ao passo que alguém experimenta o novo, perde medos,liberta-se de leis e quebra padrões, passa a ser tratado ou recebido como estrangeiro, oulouco. Para Foucault (2002, p. 26) “Quando acredito ter um corpo, estou seguro de teruma verdade mais firme que aquele que imagina ter um corpo de vidro”. De acordo comSantos (1999, p.57)
  27. 27. Definir-se será comprometer-se com a existência de materialidades corporais [...] Não que a exteriorização ponha sobre a existência certezas, mas possibilidades de ação, por atos que, num certo momento formam sentidos úteis à vida. Mudança de comportamento torna-se inevitável, pois o indivíduo encontra-se empossível fase de reformulação das suas verdades. Toma-se como exemplo as atitudes deSôroco, em Sôroco, sua mãe, sua filha e do pai e do filho em A terceira margem do rio.O homem anseia por transcendência, e transcender supõe transgressão. Abandonaralguns valores socioculturais preestabelecidos pode ajudar o sujeito a alcançar aessência da sua alma. Segundo Bonder (1998, p.13) “O ser humano é talvez a maiormetáfora da própria evolução, cuja tarefa é transgredir algo estabelecido”. Romperfronteiras, para alguns sujeitos é um grande desafio, destarte, esta não violação, podelevar a crises identitárias como ocorre com Sôroco, em Sôroco, sua mãe,sua filha, apóso embarque da mãe e da filha: “[...] estava voltando para casa, como se estivesse indopara longe, fora de conta.” (ROSA, 1988, p.21) e com o filho em A terceira margem dorio, “Sofri o grave frio dos medos, adoeci [...] Sou homem depois desse falimento? Souo que não foi, o que vai ficar calado (ROSA, p.37)”. Ainda segundo Bonder (1999), amaior traição que o homem pode cometer é contra si mesmo, quando se acomoda e nãocaminha em direção ao que acredita ser melhor para si. O modelo social contemporâneo, preza que os indivíduos aprendam a serflexíveis; os padrões de comportamento que foram instituídos com o tempo não servemmais. Os processos de contínuas e rápidas mudanças deslocam as estruturas internas dohomem, pois abalam as referências que lhes dão suporte e servem de ancoragem paraque o sujeito estabilize sua existência no mundo. Mudança que para Bauman (2007,p.18) faz “o mundo parecer mais traiçoeiro e assustador.” Portanto, deve-se adaptar aomomento para agir adequadamente e não ser deixado para trás. Bauman (2007, p.8)acrescenta que “os laços [...] que antes teciam uma rede de segurança [...] tornam-secada vez mais frágeis e reconhecidamente temporários”. Paralisar-se em decorrência dos conflitos existenciais, é aumentar aspossibilidades de uma existência sem sentido. Desta forma a fragmentação interior dosujeito se faz necessária, e é positiva quando este caminha em busca de soluções erespostas para suas questões. Para Bonder (1999, p. 51), “Passar por um processo demutação de maneira bem-sucedida é irromper em outro corpo que não se sabia que
  28. 28. poderia conter nosso “eu”. Todo homem necessita do processo de mutação, pois atravésda (des)fragmentação, ele torna-se conhecedor de si mesmo e dos outros. Todo sujeito, de alguma maneira, procura respostas que satisfaçam suasnecessidades. “Viajam” física ou metafisicamente pelo mundo e vão se (re)construindoà medida que transitam pelas diversas realidades encontradas. Travessias sãonecessárias, para que aconteçam mudanças físicas, psicológicas e no meio em que sevive. Transitar por lugares ora limitrófes e estreitos, que provocam desconforto eangustias, ora lugares que outrora se tornaram amplos e libertadores, apontam para essasnecessidades existenciais, de (des)construção e (des)fragmentação do eu para tornar-seum sujeito melhor. Ao tentar traduzir o infinito em palavras, como escreveu Oliveira (Ano I, p.18),Guimarães Rosa surpreende o leitor ao ilustrar a travessia e os deslocamentos dossujeitos em sua constante viagem pela vida, à medida que alcança aspectos existenciaisdo homem real.CAPÍTULO 3 METÁFORAS DA REALIDADE NOS CONTOS ROSIANOS: as dimensões existenciais dos personagens. O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem (Guimarães Rosa).
  29. 29. Em sua literatura, Guimarães Rosa singulariza a linguagem, os personagens,inverte o discurso e propõe travessias. Ao (des)construir os padrões linguísticos,desencadeia a (des)construção do olhar do leitor. Nesse sentido, ao criar histórias epersonagens que fogem da lógica do mundo, propicia uma compreensão do leitor quetranscende à própria narrativa. Como a literatura incorpora o movimento histórico, social e cultural dahumanidade, modificando as experiências do homem, ela altera o lugar comum e abreespaço para que se dialogue com outras formas de estar, viver e ser no mundo. Nessacondição, e sem isolar o foco narrativo, estabelece-se um diálogo com as inquietações,os medos, a insegurança e a vida do sujeito no mundo real, bem como seuscomportamentos diante de tais situações. Neste capítulo, aproxima-se ficção e realidade propondo-se tecer as buscasexistenciais do homem, a partir da necessidade que tem o sujeito de encontrar-se comseu eu para assumir uma identidade e autonomia diante dos padrões sociais, queimpõem um modelo de comportamento a seguir. Com relação aos personagens dos contos Sôroco, sua mãe, sua filha e A terceiramargem do rio, não há justifica racional para o(s) comportamento(s) do(s) sujeito(s) -Sôroco- apesar de estranho comportar-se sobriamente durante longos anos da vida acuidar de duas loucas e após enviá-las ao hospício, assumir um comportamentosemelhante ao delas, ou o fato que ocorre com as pessoas que assistem aoacontecimento, romperem coletivamente, com os limites da sanidade ao acompanharemSôroco. Há também a estranheza do comportamento do pai, que abandona família e oambiente social para viver só, em silêncio, sobre águas de um rio. E ainda, a anulaçãosocial e pessoal do filho, para estabelecer-se em um lugar sem perspectivas, parado, àmargem do rio, a alimentar-se de esperanças quase nulas durante toda vida. Obviamente, estes sujeitos serão classificados como loucos, ou desequilibrados.Porém, como na literatura tudo pode, e, na interpretação, o leitor (re)constrói a história.Cabe aqui, analisar apenas a travessia pessoal dos sujeitos, na (in)superação dosdesafios que a vida impõe, bem como os resultado da experiência.3.2 Sôroco, sua mãe e sua filha: a herança dos sujeitos.
  30. 30. O conto Sôroco, sua mãe, sua filha, compõe a obra Primeiras histórias, deGuimarães Rosa, que foi publicada em 1962 e aborda uma temática que permiteobservar aspectos da loucura nos personagem que compõem a história. Inicialmente, o narrador do conto relata a reunião das pessoas da cidade, que sepõem à espera de Sôroco “[...] de ajuntamento, em beira do carro” (ROSA, 1988, p.18).Sujeito estranho, que chega à estação a conduzir duas loucas, que serão embarcadas notrem que as levarão para hospício: “A mãe [...] de idade, com para mais de uns setenta.A filha [...] só tinha aquela (p. 19). “[...] Afora essas, não se conhecia dele parente”(p.19). A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de misturas, tiras e faixas, dependuradas [...] A velha só estava de preto, com fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam. (ROSA, p. 19). Como escreveu Perrone – Moisés (2002, p.213) a “„loucura‟ assusta e fascina”.Segundo ela, as pessoas da comunidade ao se reunirem para assistir ao fato, portam-secomo curiosas, mas também temerosas, não das loucas, mas da loucura. Por essemotivo, tomam distância, “cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendomais do que os outros o acontecer das coisas” (ROSA, p.18), talvez uma maneira demanterem suas máscaras, se defenderem da própria “loucura”. Pois, de acordo comPerrone-Moisés, é impossível estabelecer limites entre esta e a sanidade mental. No texto, Sôroco porta-se como um ser desterrado, parece um ser alheio aomundo à sua volta. Aparenta assumir em sua vida, sentidos que não são parecidos comos do senso comum. “[...] homenzarrão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, umabarba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavammedo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava”(Rosa, 1988, p.18). Diante da loucura da sua mãe e sua filha, e dos cuidados que a elas dedicou porlongos anos, Sôroco pode ter se transformado em um sujeito associal; seja por sentir-seexcluído pela função que assumia; de cuidador de loucas, ou por parte da população.
  31. 31. [...] De antes Sorôco agüentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso.Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê. (ROSA, p.19-20). Pode ter sido este motivo, que o levou a separar-se das duas. Quiçá, ele seria oque de fato se apresentava, alguém que vivia com uma ausência, o oco da solidão de sersozinho mesmo acompanhado. Diante da sua condição, as pessoas o enxergavam emuma transcendência marginal, do estranhamento. A auto anulação para cuidar da suamãe e sua filha, levou Sôroco à necessidade de assumir seu verdadeiro eu. Decisão quelhe provocará efeitos. Ao embarcar no trem sua mãe e sua filha, ele irá deparar-se comum novo destino, que poderá mudar sua vida definitivamente. Circunstância que oinsere em uma possível crise existencial. Ser, ou não ser? Sôroco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas palavras. Ao sofrer a assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixas, exemploso. E lhe falaram: „o mundo está dessa forma...‟ (ROSA, 1988, p.21). Nesse momento, abre-se um abismo em sua vida, limites que marcarão a divisãoentre o ter uma família, uma referência e o passar a viver sem ela. Já foi citado nessetrabalho, que todo sujeito carece de integração com o meio, no qual pode manifestarseus pensamentos, suas emoções e criar laços fraternos, os quais resultam da aceitaçãodo sujeito em um determinado grupo, no qual ele forma uma idéia de si, e pode semanifestar no meio social. No entanto, depara-se com retratos da exclusão; a separaçãoentre o lugar em que mora Sôroco “[...] Apontavam, da Rua de baixo” (ROSA, 1988,p.19), e a estação, onde as pessoas estão reunidas, remetendo à distância entre anormalidade e a loucura.
  32. 32. Segundo Perrone-moisés ( 2002, p. 213), as loucas, retratam “um constado deenormes diversidades desta vida”. Diante disso, encontra-se nos comportamentos das“loucas” sinais de humanidade; diferentes das pessoas que se reuniram à parte paraassistir ao embarque das mulheres - porfiando, cada um em sua “sensatez”. Estas,apesar da condição, demonstram compreensão e afeto. A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo – um amor extremoso (ROSA, p. 20) Deste comentário e da situação a qual enfrenta o personagem Sôroco, visualiza-se uma cena possível de ser encontrada nas sociedades reais. O preconceito, e odistanciamento social provocado pela marginalização. As pessoas costumam se apoiarem suas máscaras, (des)constroem o outro, para esconder suas verdades. Contata-se,pois, a existência das margens; duas margens: a dos “loucos”, e a dos que acreditamserem normais, que se põem a assistir o acontecido, ao longe. A decisão de Sôroco foi muito difícil para sua vida, ou existência. Deixar partiras únicas pessoas com quem ele estabelece relações sociais, o que poderá aumentarainda mais o seu viver solitário. Estranho e silencioso possuía interrelações quase nulas- que giravam em torno da mãe e da filha, loucas, das quais ele cuidava. Encontra-se(des)construído, enfrenta uma divisão existencial. [...] se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, para ir‟s embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta. Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que is perder-se de si, parar de ser. Assim, num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir [...] num rompido -ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si – e para a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tinham cantado (ROSA, 1988, p. 21). Inicia-se um confronto por parte do personagem com o seu eu, assume umcomportamento semelhante ao das loucas. A partir desse momento; no conto, percebe-se que Guimarães Rosa tematiza, não só a loucura e o comportamento das pessoas em
  33. 33. relação a ela, mas, também a vida humana como uma loucura. Esta que era observada àdistância pelo povo, apossa-se de todos: A gente se esfriou, se afundou – um instanteo [...] e foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma só vez [...] principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão latas! Todos caminhando, com ele, Sôroco, e cantando que cantando, atrás dele, os mais detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação. (ROSA, 1988, p.21) Em uma atitude, aparentemente irracional, forma-se uma procissão atrás deSôroco, e, conforme escreve Cezar & Santos (2003, p.27) é da “ Rua de Baixo” queaponta a família. E, na “Rua de Baixo” que o conto termina, colocando fraternalmentetoda comunidade, inclusive Sorôco [...] “a assumirem agora a loucura da qual tantotinham querido proteger-se”. Como se nesse momento, em uma “atitude solidária” todosousassem assumir também sua própria loucura, mas ao retornar para suas casas,retomariam seus comportamentos convenientes aos padrões sociais; nos quais a loucuraé proibida. Confunde-se loucura e sanidade, confirmando que não há limites entre uma eoutra, tanto Sôroco, como a população daquela comunidade, por um momento,atravessam as margens que cotidianamente são intransponíveis. Alienam o tempo,rompem as fronteiras sociais, os limites entre as ruas de baixo e de cima, quiçá o quecontrolava a passagem da loucura e da sanidade. Confirmando o que citou Perrone-moisés (2002), é a constatação da enorme diversidade que a vida apresenta. O personagem pode ter assumido a “loucura” que ele guardou por muito tempo,manteve-se “são”, para cuidar de seres que dependiam dele – sua mãe e sua filha.Contudo, a cantiga destoante que iniciou com as duas loucas, foi assumida por Sôroco, elogo por toda a gente, revelam como o homem, em situações diversas pode contrariarvalores, ou princípios, e exteriorizar, o que lhe foge do controle.3.1 A terceira margem do pai: a (re)ssignificação do sujeito.
  34. 34. O conto A terceira margem do rio, que compõe a obra Primeiras historias, deGuimarães Rosa, publicado em 1962, narra a história de um homem comum, “[...]cumpridor, hordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho [...]” (ROSA, 1988, p. 32),que manda construir uma canoa, e, num certo dia, sem apresentar razões, abandonaesposa, filhos e a vida social para viver sobre as águas do rio, dentro da canoa. Este sujeito abre mão das relações sociais, das amizades, do cotidiano eprincipalmente da sua família, para isolar-se dentro dessa canoa até o fim. Umrompimento que inquieta o leitor. Como um homem cumpridor, ordeiro, positivo desdemenino, pode trocar uma existência aparentemente significativa, por outra,aparentemente sem coerência? Parece que Guimarães Rosa quer representar a complexidade da existênciahumana. Nesta condição, visualiza-se na aventura do personagem, uma travessia quaseinexplicável, repleta de significações, que reclamam por tradução. Ao despertar paraisso, o leitor surpreende-se envolvido com a trama. Segundo Cortazar (1993, p. 126)“No decorrer da leitura, não podemos evitar uma profunda experiência emocional”. Faz-se necessário, questionar a margem onde o pai passa a habitar. Logicamentesó existem duas margens no rio, esquerda e direita. No entanto, ele cria uma margementre as margens; a terceira margem. Nesta, sobre o movimento das águas, estabelece-se sem nunca determinar um destino. “Só executava a invenção de se manter naquelesespaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar nunca(ROSA, 1988, p.33)”. Ao se manter até o fim da vida naquele lugar o personagem estabelece umentrelugar, que é o entrelaçamento, confronto, mesclagem, (SANTIAGO, 2000) deinúmeros elementos e aspectos individuais e coletivos da estrutura social e da naturezahumana. Entende-se que, ao constituir ou instituir outro lugar ele assume também novoscomportamentos, e altera os de quem vive ao seu redor bem como o ambiente queabandona. Esse contexto pode ser transportado para margens do mundo real, nas quaisvivem ou são obrigados a viver, alguns indivíduos. A vida atual impõe às pessoas umacontínua mudança de costumes e situações no ambiente social. Segundo Bauman (2007, p. 8) “A „comunidade‟ [...] parece cada vez maisdestituída de substância [...] os laços inter-humanos [...] se tornam cada vez mais frágeise reconhecidamente temporais”. O homem, ao viver em insegurança constante, precisamudar de atitudes, parar, refletir e compreender o que acontece no mundo. Carece depontos de referências que lhe garantam sossego interior.
  35. 35. Dessa forma, o personagem pai de A terceira margem do rio, parece que desejapartir desse mundo inseguro “líquido” (BAUMAN 2007). E, em uma atitudeaparentemente insana, opta por viver na solidão e no silêncio. Desliga-se da estruturasocial, das pessoas e da família para atingir seu objetivo indecifrável. Como a literaturaestabelece um diálogo com as relações sociais e transforma em histórias as experiênciashumanas, traduz-se pelo viés da metáfora, que a experiência do personagem, pode setratar dos conflitos existenciais do homem com o meio e com ele mesmo. De acordo com Judite Grossmann (1982, p.67) “Essa situação do discursoliterário, imita e acentua a situação universal do homem, que tem a realidadefragmentariamente, através da linguagem”. O personagem – o pai, homem cumpridor,hordeiro, positivo, parece também em sua mudança de vida, querer transmitir algumamensagem ao seu filho e àqueles que ficam. O contínuo processo de mudança em que o homem está sujeito, o coloca nacondição de viajante em direção a novas experiências e passagens. Para Oliveira (2010,p. 54), “Antes de ser uma partida em busca de conhecer ou reencontrar lugares oupessoas, a viagem é primordialmente um encontro do viajante com ele mesmo”. Sperber(apud, Oliveira, 2010, p. 54) escreve que nestas “viagens”, o espaço se abre, amplia-se ese renova, e, à proporção que o espaço se desenvolve, desenvolve-se também opsicológico do sujeito. Conforme escreve Ettore (2001, p. 45): O eu da terceira margem do rio, é de fato aquele que com mais clareza entrevê a resposta, e chega a isso justamente “instalando-se” [...] na própria pergunta; colocando-se para sempre naquela dobra infinita, enrugando o tecido da existência [...] distinguindo na sua contiguidade o aquém do além. O pai pode desejar instituir o novo, despertar os que ficaram nas outras margenspara a condição existencial, e para a necessidade de o sujeito assumir a suaindividualidade diante dos desafios da vida e dos conflitos interiores. Segundo, Bonder(1999, p. 46), “surpreender é [...] a maior prova de poder do ser humano”. Surpreenderos outros, mas também a si mesmo. Fazer o que ainda não foi feito. Transgredir, paratransformar.
  36. 36. Para esse autor, a consciência humana sabe que deve transcender à moral,romper com a tradição. Esta é a lei da vida para que seja constituído o novo e a espécietenha sua continuidade. Ser em certa medida, “imoral”. Desconstruir padrões. Aindasegundo Bonder (1999), esta é uma atitude louvável, à medida que a transgressãopromove transformações, mudanças de comportamento, de linguagem, pensamento eatitudes positivas nas outras pessoas e nos valores preestabelecidos. O universo que o pai passa a habitar além de exigir coragem e desbravamento.Reclama por tradução. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos – sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem ilhas e coroas do rio, não pisou mais em chão nem capim (ROSA, 1988, p. 34). Nesse contexto, chama-se atenção para o que ocorre no espaço que o paiabandona. Sua partida causou certa desordem no cotidiano da família, dos vizinhos e daregião. Incitou mudanças de comportamento, pensamentos e atitudes em quem ficou nasmargens do rio. As vozes das noticias se dando pelas certas pessoas – passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda – descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava o rio, solto, solitariamente (ROSA, p. 33). Tiveram aqueles que se comoveram: “os parentes, vizinhos e conhecidos [...] sereuniram, tomaram juntamente conselho (ROSA, p.34)”. Quem veio ajudar a família:“[...] o tio [...] para auxiliar na fazenda e nos negócios (p.34)”. Quem tentou promover asituação: “[...] homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retratodele (p.34)”. Quem se mudou: “minha irmã [...] com o marido para longe daqui. Meuirmão resolveu e se foi, para uma cidade [...] minha mãe terminou indo também (p.35)”. E, como ocorre no mundo real, houve quem julgou; “[...] todos pensaram de nossopai a razão em que não queriam falar: doideira (p. 34)”.
  37. 37. O comportamento transgressor daquele pai, ao diferir dos padrões comuns,entrou para a categoria de loucura. Foucault (2002, p.170) escreve que em estado deloucura “o sujeito cobre uma superfície de linguagens que jamais é fechada, e onde osoutros vão poder intervir por sua [...] decisão obstinada de tudo alterar”. Segundo esseautor, o sujeito “normal” integra-se naturalmente com as atividades da linguagem, dotrabalho, da fala, da reprodução social, do lúdico, etc. Aquele em desequilíbriotransgride tais padrões e regras definidas socialmente. Por essa razão, o personagem deA terceira margem do rio pode entrar nessa categoria, embora ele transcenda estaspossibilidades. Para mim, não é doideira, nem transcendência, nem outra vida na dimensão metafórica destes últimos termos. Acho que a fuga se deve a uma insatisfação com o mundo, não no sentido moral dessa colocação, mas com o mundo que o homem constrói enquanto possibilidade de construção social, de troca de valores. (GOULART, apud PARREIRA, 2001, p.8) Para Bonder (1999, p.82) “aquele que não faz uso de todo o potencial de suavida, diminui de alguma maneira o potencial de todos os demais”. Conforme escreveuEttore (2001), o comportamento do pai aparenta existir um excesso de lucidez quedesvia pra a loucura. Seu comportamento incompreensível ultrapassa a capacidade dooutro de entender e poder tomar alguma atitude para ajudá-lo, ou ter uma idéia clara dasituação. “[...] o personagem é apenas a função que ele preenche: a de verificar, no seuficar teimoso e instável [...] no seu precário ancorar-se numa realidade virtual, numaverdade “terceira” [...]” (ETTORE, 2001, p. 46). Segundo Caldas (Ano I, p. 33-37) ninguém é terminado, e, é exatamente no fatode nenhum ser estar terminado, que se encontra o belo da vida. O homem, seja emqualquer momento histórico, ou sociocultural, está sempre a despertar atenção, provocarencanto ou indignação. Atitudes que provocam transformações no ambiente social e nasoutras pessoas em algum aspecto. Em A terceira margem do rio, depara-se com um contraste entre ascaracterísticas pessoais de cada indivíduo; enquanto o pai ousa atravessar as margens, àvida e a si mesmo, o filho – o narrador da história - teme e estaciona em uma margem, aobservar a passagem do tempo na (in)ação, sem ressignificar seu existir.
  38. 38. Caldas (Ano I p. 33-37) escreve que um dos grandes norteadores da produçãorosiana, é transmitir pela linguagem o aprendizado da vida. Apreende-se, entre asdiversas possibilidades de interpretações do conto, que a travessia desse personagem - opai, com o estranhamento provocado, anuncia a necessidade de cada sujeito encontrar-se consigo mesmo. Silenciar e retirar-se em certa medida para evitar insensatez. Conclui-se que o rio e as margens podem representar a vida. O homem éresponsável por significá-los. Existem diversos rios para se atravessar e inúmerasmargens a serem ocupadas. Há quem permanece na margem da rotina, que é levado poroutros a alguma margem. Há quem fica ao sabor das águas, quem enlouquece por nãosaber, ou temer navegar, e quem se posiciona com indiferença. Mas, há tambémaqueles que se colocam sobre a sua margem, tomam sua canoa, assumem a direção e,em seu silêncio, cumprem a missão, ou a escolha. Aventuram-se na travessia,desbravam novas possibilidades e (re)significam a vida o rio e as margens. Encontram-se com seu verdadeiro eu. A opção feita pelo pai instituiu o diferente, pois ele quebrou regras, instaurou onovo e transformou o ambiente à sua volta, ainda que ninguém tenha obtido explicaçõesa respeito da decisão de (re)significar a sua vida, seja por loucura ou por sanidade. Aoestar no meio do rio, introspectivo, o pai poderia desfrutar da visão ampla dos doislados, acompanhar a mudança das pessoas e do ambiente com o passar do tempo.Poderia ou não, optar pelo retorno a uma das margens. Mas, não o fez Assim, ainda que não tenha deixado herdeiro da sua missão, já que seu filho nãoousou assumir seu lugar. Surpreendeu certamente a si mesmo, pela resistência, pelacoragem e determinação em superar os limites. E muito mais aos outros, poisestabeleceu um novo lugar, do ainda não experimentado. Recusou a viver na margem.Assumiu a sua verdade, envolvido em sua solidão. Ao “sentir- se”, (des)fragmentou-se e(re)significou-se.3.2 A margem do filho: escolhas do sujeito. Em A terceira margem do rio, depara-se com um contraste. A resistência àsmargens a que pai e filho optaram viver. Ao pai, coube a escolha de viver entremargens, numa teima persistente. Ao filho a escolha de se por à margem na condição de
  39. 39. um ser deslocado, apesar de permanecer na margem do rio a relatar o que ocorre comele mesmo, com seus familiares, com os que o rodeiam, bem como sua experiência comseu pai, que se dá pelo silêncio. O pai a quem o filho devota seu tempo e sua vida permanece inacessível. “Nossopai, passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguémchegar à pega ou à fala (ROSA, 1988, p. 34)”. Este, a quem cabe, segundo o modeloculturalmente estabelecido, transmitir e ensinar aos filhos conhecimentos sobre a morale os valores sociais, recusa-se a fazê-lo. Ele se importava apenas com sua travessiapessoal, quem quisesse fazer tal experiência que seguisse seu exemplo. O pai ao negar tal partilha com o filho, talvez desejasse que este o seguisse,construísse sua canoa para acompanhá-lo na travessia da terceira margem. Ou pode tê-lodeixado livre para fazer a escolha de sua viagem, de sua travessia pela vida. O filho,porém, optou por se estabelecer na margem a uma espera sem fim, alimentando-se deum passado, “[...] no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava:assunto que jogava para trás meus pensamentos” (ROSA, p.34). Nesta condição não sedava conta do passar dos anos. “Eu fiquei aqui, de resto [...]” (p.35). Isto é, elepermaneceu como narrador da travessia do pai, e não da sua. Segundo Oliveira (2010, p.54) Antes de ser uma partida em busca de conhecer ou reencontrar lugares ou pessoas, a viagem é primordialmente um encontro do viajante com ele mesmo, com identidades e diferenças, nas relações que estabelece ao longo do caminho. Ao estabelecer-se em uma das margens, com pouca integração e interação, estefilho, narrador, anulou-se para os padrões de convivência sociocultural, posicionou-secomo um tradutor de silêncios e dos mistérios da vida do seu pai, que não volta, não secomunica, não altera o comportamento. “Só executava a invenção de permanecernaqueles espaços do rio, de meio a meio sempre dentro da canoa, para dela não saltarnunca (ROSA, 1988, p. 33)”. Este filho se debruça sob a perda e a longa e diária jornada de voltar à margemdo rio, para colocar alimento “Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tantode comida [...]” (p.33). Acompanhar os movimentos do pai, “[...] o severo que era, denão se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava [...]” (p.34). Tentar encontrá -
  40. 40. lo, “[...] a gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu” (p. 35). Aprisiona-se nastentativas de compreender a decisão do pai. Parece não importar-se com a mudança decondição e lugar das pessoas. “Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos[...] Eu fiquei aqui, de resto. [...] Eu permaneci com as bagagens da vida” (p.35). Seucomportamento é tão estranho quanto o do seu pai. Contata-se que em algum momentoo filho declara uma verdade, sobre seu pai, “Nem queria saber de nós” (p.35). Não existe lógica em uma pessoa permanecer por muitos anos dentro de umacanoa pequena, sem descer a terra. “[...] na vagação, no rio, no ermo – sem dar razão deseu feito” (p.36). Ainda assim, em uma decisão que parece insana este permanece naespera do pai. Nessa condição, narra o seu drama, a trama do pai, e a própria condiçãomedíocre da qual lamenta, depois que lhes apontam “uns primeiros cabelos brancos [...]Sou homem de tristes palavras” (p.36). Pode-se inferir que o personagem, demonstracerta incapacidade ou impossibilidade de assumir sua individualidade para enfrentardesafios e novas possibilidades; experimentar a novidade criada pelo pai, que é viverentre margens, sobre as águas do rio. Nesse contexto, percebe-se a diversidade dostemperamentos humanos. Como cada pessoa reage em determinadas situações da vida.Possui limitações e (in)capacidades de construir ou não uma canoa para assumir a suaterceira margem.Para Bonder, (1998, p. 47- 48): Todos nós deparamos com lugares estreitos em determinado momento. Estes lugares, que outrora serviram para nosso desenvolvimento e crescimento, se tornam apertados e limitadores. [...] O corpo não gosta de sair, de mudar. São a estreiteza e o desconforto que o convencem de que não existe saída. O espaço vazio, causado pelos silêncios, cria margens que apontam para anecessidade de sempre haver entre os homens algum tipo de linguagem que promova acomunicação. “Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesseas coisas fossem outras” (ROSA, p. 36). O filho, à mercê do pai, paralisou sua vida,vive sem sonhos, e com muitas ilusões, não foi capaz de vê a si próprio, anulou -se.Fixou-se na margem. “E fui tomando idéia. [...] Sou doido?” (p. 36).
  41. 41. O filho deveria ter aprendido que certas experienciais, quando nãocompartilhadas, não podem ser contadas. “Mas por afeto mesmo, de respeito, sempreque às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: “-Foi meu pai que um dia me ensinou a fazer assim...”; o que não era o certo, exato; mas,que era mentira por verdade” (ROSA p. 35). O homem precisa pensar e refletir sobre as mudanças que ocorrem no mundo eno ambiente social. Atitude que o ajudará a compreender os acontecimentos que alteramvalores costume e estilos de vida. Encontrará, portanto, respostas que o ajudem ainterpretar a complexidade do mundo, da vida, e sinta-se seguro de si e no espaço emque habita. Do contrário, terá “uma vida precária, vivida em condições de incertezaconstante. (BAUMAN 2007, p. 8). Terá uma vida líquida. “Sou homem de tristespalavras. De que era que eu tinha, tanta culpa?”(ROSA, p. 36). Sua libertação interiorpoderia ter ocorrido ao cumprir sua promessa: “Agora o senhor vem, não carece mais...[...] eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!...”(p. 36). Contudo, sofre as culpas de nãoser capaz de trocar de lugar com o pai. “Sofri o grave frio dos medos [...]” (p.37). Apósa longa espera pelo aparecimento do pai, a imagem que surge o amedronta. “[...] depoisde tamanhos anos decorridos! [...] ele me pareceu vir: da parte do além. E estoupedindo, pedindo, pedindo um perdão” (,p.37). Destaca-se o contraste do conto; um pai que ousou e um filho que temeu. Ofilho teve oportunidades, de experimentar o lugar do pai, e talvez viver a sua travessia.Mas, quando prestes a fazer a troca para decifrar tal experiência, ou encontrar o sentidodo seu existir, vira as costas. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio (ROSA 1988, p. 37). Na sua longa espera, deixou de viver a sua vida, não se reconhece mais, ficouperdido nas margens do seu próprio existir. Diz o bom senso: “quem toma distânciapara olhar, consegue ver melhor”. Aquele filho não foi capaz de assumir o seu processo,apesar de ficar na posição de observador e narrador, distante de tudo. Excedeu-se em
  42. 42. apenas observar, perdeu-se na (in)ação, perdeu-se a si mesmo, perdeu também a chancede mudar de lugar. O pai volta, apenas quando o filho decide tomar seu lugar. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei o que me urgia, jurado e declarado. [...] Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n‟água, proava para cá, concordado. [...] ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto – o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! (ROSA 1988, p. 37). O silêncio mantido por tantos anos pode ter sido de espera persistente, para quealguém se oferecesse a experimentar tal travessia. Quiçá, seja também essa terceiramargem, um lugar de silêncio, de meditação, de encontro com o verdadeiro eu. Faltouao filho problematizar sua vida, sua rotina, seu cotidiano. Ele perdeu-se na espera e nãose deu conta da possível intenção do pai. Viveu uma vida sem sentidos, enquanto o paina ausência foi capaz de „dizer‟ tanto. Não assumiu o compromisso com a suaexistência, nem a (res)significou. Permaneceu estagnado diante da mobilidade social.Não compreendeu nem assumiu a missão.3.3 Travessias e deslocamentos: a integração dos sujeitos com o meio e consigomesmo O conto reproduz instantes da condição humana, e, em vista das situaçõessignificativas que apresenta em seus textos, desperta no leitor, inúmeras sensações.Segundo Cortázar (1993, p. 151-2) no conto, é possível fazer um recorte como faz umfotógrafo, numa obra de qualidade; estabelece e fixa um limite para um determinadomomento ou acontecimento, que sejam capazes de envolver a razão e a emoção doleitor. Em Sôroco, sua mãe, sua filha e A terceira margem do rio, Guimarães Rosa aoapresentar aspectos que retratam a essência humana e o mistério do existir no mundo,aponta para a necessidade que tem o sujeito de se posicionar diante dos outros e noambiente social com autonomia e equilíbrio interior.
  43. 43. Em cada época da história a vida é percebida e vivida por vieses quecorrespondem à realidade contemporânea. Ao longo do tempo as sociedadesproblematizam a existência humana, as relações sociais e a realidade, de formaspeculiares. Na literatura rosiana encontra-se essa possibilidade. As alterações sociais,podem (des)fragmentar e por em jogo o modelo de identidade constituído e modeladocom a extensão do tempo, e podem ocasionar crises identitárias no sujeitos. Segundo Giddens (2002, p. 50): A “luta do ser contra o não ser” é a tarefa perpétua do indivíduo, não apenas “aceitar” a realidade, mas criar pontos ontológicos de referência como parte integrante do “seguir em frente” no contexto da vida cotidiana. Portanto, conforme Bauman (2007, p. 20) este sujeito deve. [...] procurar, encontrar e praticar soluções individuais para problemas socialmente produzidos [...] tentar tudo isso por meio de ações individuais, solitárias, estando munido de ferramentas e recursos flagrantemente inadequado para essa tarefa. A identidade de um sujeito se constitui a partir da capacidade de inserir-se ecomportar-se no ambiente, à medida que vai elegendo um estilo de vida, de valores eescolhas. A nova rotina estabelecida na sociedade moderna pode causar uma rupturacom o passado, um rompimento com as tradições. Por essa razão, o personagemrosiano, o pai, pode ter se inquietado, e se retirou para responder às perguntas - quemsou, e o que quero para mim - diferente do filho, que não se inquietou. Tardou-se emrefletir sua condição, em fazer e responder suas perguntas. Não seguiu o exemplo dopai. Deixou de ser ele mesmo, tornou-se “mais um” no mundo. Sem referências, nãodimensionou a sua identidade, nem (re)construiu seu eu. As organizações sociais direcionam ou classificam as escolhas individuais e ospadrões de comportamento dos sujeitos como aceitáveis ou não. Contudo, no momentoatual, elas se tornam cada vez mais inconsistentes. Ao passo que os espaços se ampliame as informações se disseminam rapidamente pelo mundo, cria-se umaintercomunicação em todos os ambientes e classes sociais. Diante desse sistema social,com amplas opções de escolhas, cada vez mais o homem vê diminuída sua capacidade
  44. 44. de ação. “[...] experimenta sentimentos de impotência em relação a um universo socialcada vez mais amplo e alheio” (GIDDENS, 2002, p. 178). Segundo Bauman (2007), o momento histórico no qual se vive, gera muitainsegurança existencial. O bombardeio de informações, o sensacionalismo da mídia como foco em tragédias, violências e miséria, a cobrança do mercado pelo corpo perfeito,pela alimentação saudável e vida longa, desencadeiam medo e pânico, porque não podeacompanhar tal excesso de cobranças. Os sujeitos, independentemente da situação cultural ou posição econômica,sentem-se obrigados a atenderem às demandas universalizadas que lhes chegam. Deacordo com Bauman (2007, p. 18) isso faz “[...] o mundo parecer mais traiçoeiro eassustador, e estimulam [...] ações defensivas – que vão, infelizmente, acrescentar vigorà capacidade do medo de se autopropagar [...]”. Situação angustiante para algunsindivíduos. Provoca tensões que fazem com que reajam e lutem contra essa realidade.Enquanto outros poderão surtar, entrando em crise existencial. Mergulhado nessa “liquidez” (BAUMAN, 2007), o sujeito entra em choque como que deseja e pode fazer e o que consegue e deve fazer. Apesar de mais autônomos,livres para fazer escolhas e assumi-las, depara-se com uma liberdade deslocada, rompe-se com modelos e valores constituídos ao longo do tempo. “As velhas identidades, quepor tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novasidentidades, fragmentando o indivíduo moderno. (HALL, 2006, p. 7)”. O caminho do autoconhecimento é sempre longo e difícil, é necessário possuirou conquistar autoconfiança e vencer os próprios medos. É sabido que todo sujeitoteme. Mas, enquanto alguns possuem coragem para assumir os desafios da jornadapessoal, outros necessitam de força, são reféns do medo e da insegurança. De acordo com Bauman (2007), o modelo social moderno, preza que osindivíduos aprendam a ser flexíveis, pois os padrões de comportamento fixados comtempo já não servem mais. Deve-se preocupar com ações adequadas para o momento deagora. Para Giddens (2000, p.40), nessa condição, “A atitude natural põe entreparênteses perguntas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo dos objetos,que devem ser dadas como respondidas para que se possa enfrentar o cotidiano”. Esseautor ainda trata que, se o sujeito não resolver suas questões existenciais, não manterá ocontrole psíquico nem conseguirá viver normalmente. Giddens (2000, p. 72) ainda escreve que o individuo deve enfrentar os riscosque surgem com as rupturas aos padrões de comportamento estabelecidos. Assumir a
  45. 45. própria vida, que envolve correr riscos, implica enfrentar a diversidade, as travessias.Que podem resultar em perdas e ganhos. Para esse autor (2000, p. 72) “É a coragem deenfrentar os riscos que levam à autorealização”. O homem, inserido no ambiente social e real, em constante transformação,depara-se com o processo contínuo de (res)significar a sua existência. Diante dasmudanças que podem ameaçar a sua identidade e interferir na sua travessia pela vida,precisa ficar atento, envolver-se, questionar-se, tomar distância, e medir asconsequências. Assumir novas atitudes, ou com medo de si e dos outros ficar estagnadoenquanto o tempo e a vida passam. Nesse contexto, o texto de Guimarães Rosa, com seus múltiplos sentidos,permite que se transporte a experiência dos personagens para a do sujeito real. Oencantamento provocado pela obra transcende as significações, move o leitor a fazersuas travessias e sondar as margens onde habita. Contudo a vida é uma constante, asmargens se transformam com o tempo e demandam novas travessias. Cabe a cadasujeito, preparar-se física e psicologicamente para fazer sua própria viagem. Que é umadescoberta de “mundos”, em que o sujeito depara-se com as próprias mudanças.CONSIDERAÇÕES FINAIS Certa da quantidade de trabalhos existentes sobre o conto Sôroco, sua mãe,sua filha e A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, empenhei-me na tentativa deproduzir um trabalho autêntico. Claro, foi necessário buscar embasamentos no que já foiproduzido sobre esta obra e, em diversos autores, necessários para a articulação do meutexto e justificar meus pensamentos. Contei com a ajuda da minha orientadora, que acreditou e me permitiu transitarentre as linguagens das quais me identifico. E, também, a ajuda de amigos, que setornaram um grande auxílio para transformar este texto numa escritura melhor e maisoriginal, segundo os princípios estilísticos. Assumi os riscos de fazer uma travessia literária, e passei a percorrer oscaminhos oferecidos pelo texto rosiano, o que se transformou em um grandeaprendizado, exigiu-me sentir a força das palavras. Foi necessário partir com ospersonagens, viajar na história, para assim, perceber os elementos que brotavam do

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