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RESUMO      REGGAE É DE PAZ: A IDENTIDADE CULTURAL NEGRA EM CONCEIÇÃO DO COITÉA Música Reggae tem sido utilizada como inst...
ABSTRACTThe Reggae music has been used as a symbolic instrument of affirmation andreaffirmation of cultural identity by co...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO______________________________________________________________________ 01IDENTIDADE______________________...
INTRODUÇÃO      Este trabalho tem a proposta de discutir a relação entre a musicalidade reggae ea identidade cultural negr...
Enfim este trabalho (Memorial e vídeo) se propõe a trazer a discussão da relaçãoentre música e identidade cultural do povo...
A IDENTIDADE       O conceito de identidade é um dos conceitos mais polêmicos da atualidade.Concordamos com Stuart Hall (2...
quando argumenta que “a constituição da identidade é um ato de poder. No processode construção de uma identidade, sempre e...
que mais importou escravos. Aproximadamente quatro milhões de escravos entraramno país até o final do século XIX, "o que r...
Ainda segundo Ortiz (1994, p. 14) o atraso evolutivo do país no início do séculoXX era atribuída a raça. Ele diz que      ...
No momento da libertação dos escravos, os negros foram despejados nasociedade econômica, sem habitação nem trabalho. Socia...
A mídia de massa assumiu o papel que era desempenhado pela ciência doséculo XIX. Os jornais só mostram o afro descendente ...
O nascimento da negritude       A identidade negra passou, ao longo da História, de uma identidade inferiorizada,indesejad...
Brasil      Inicialmente o Brasil seguiu as discussões internacionais em torno da negritude,O movimento no país culminou n...
Unidos e de Marcus Garvey na Jamaica influenciaram profundamente o pensamento danegritude ao redor do mundo.              ...
Após este período houve apenas pequenas ações em torno da negritude. “OMovimento negro enquanto proposta política só ressu...
meninada” (BARRETO, 2007, p. 27). A partir daí, cada fazendeiro que por terras deCoité se estabelecia, logo tratava de com...
pública da compra do escravo. Neste momento também não era consultado, o escravo,pois não lhe era permitida a manifestação...
carregada de crítica social, pelos quatro cantos do país. (CARDOSO, 1997, p. 15).Assim, Conceição do Coité conheceu as dis...
sua cultura, não ir em busca de identificação na cultura do outro, mas o desejo ardentepelas suas raízes, pelo seu modo pr...
MÚSICA E IDENTIDADE                      Quatrocentos anos foi a duração da escravidão de milhares de pessoas,que por     ...
pela população negra marginalizada. Nesses locais predominavam diversos problemassociais, violência, miséria e desemprego....
cena, que acabou por tornar-se típica nas plantações do delta do Mississipi, era alegião de negros, trabalhando de forma d...
O VÍDEO-DOCUMENTÁRIO       O vídeo documentário é um produto audiovisual extremamente flexível comrelação à sua estrutura,...
não documentação de um modo de vida identitário, de uma condição sócio-culturalexistente.         Está ai a importância da...
qual o roteirista não consegue deixar escapar a sua subjetividade. Assim, nós partimosda premissa de que a música reggae t...
Outro aspecto que será fundamental para o nosso documentário se refere à suaparte lúdica. Relacionado a este aspecto, cons...
tomaremos cuidado para não mascararmos a realidade da pesquisa e para nãomudarmos a semântica das entrevistas nem das imag...
p. 191)10, “A arte de mixar é a forma com que as dinâmicas são criadas através dosequipamentos do estúdio”. Para ele, “os ...
uma representação da realidade, como sons de cachorro latindo, sons de pessoasandando etc.      Os efeitos musicais serão ...
onde todos as partes do audiovisual são reunidas, como vídeo principal, extras, makingoff etc.       Voltando ao aspecto d...
Giorgetti sugere quando diz que a música “vem em auxilio do personagem que nãoconsegue mais exprimir-se por si próprio” (2...
O MEMORIALEnquadramentosPara efeito de normatização desta pesquisa, utilizaremos para a noção deenquadramentos de câmera, ...
(FONSECA, 2007, p. 8). Para driblarmos esta situação, nos deslocamos com oentrevistado para o Laboratório de Rádio do curs...
Em nossa entrevista com Marcos Aurélio, queríamos uma imagem estável, o que nãofoi possível, pois não tínhamos um tripé pa...
conduzida de forma que todos respondessem conforme o domínio do assunto. Nãohavia uma linearidade de fala neste círculo. Q...
Neste dia, também marcamos entrevista com Moisés Blondy, que é um dos precursoresda música Reggae no município de Conceiçã...
promoção da cultura e valorização da cidadania. Lá entrevistamos o sócio influente daAssociação, Sr Fernando Araújo. Saben...
para a gravação da sonora. Apesar de o ambiente ser mais silencioso, aindacontinuamos com problemas na iluminação, pois er...
parte dos estudos exploratórios pode ser definida como pesquisas Bibliográficas                       (1989, p. 48).Neste ...
Dia 30/11/2009Às 17h entrevistamos Orlando Matos, autor do livro “Martinha, Escrava, Esposa,Rainha”. Na entrevista utiliza...
espaço diegético – são participantes invisíveis e inaudíveis, mas desempenham umpapel importante em determinar a nossa res...
um precursor do Movimento organizado pela defesa e valorização da cultura negra emnosso município, tendo se destacado pela...
não a impor significados, mas a mostrar que o mundo é feito de muitos                    significados.Às onze horas nos di...
quiseram gravar entrevistas, pois segundo eles, estavam com medo de represálias porestarem exercendo uma atividade ilegal,...
Antes do momento da edição e da elaboração do roteiro do vídeo, fomos aosgrupos entrevistados em busca de músicas que pude...
Reggae é de paz a identidade  cultural negra em conceição do coité
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  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA José Jurandí Silva de Oliveira Júnior Paulo Enselmo Ramos de JesusREGGAE É DE PAZ: A IDENTIDADE CULTURAL NEGRA EM CONCEIÇÃO DO COITÉ Conceição do Coité-BA 2010.
  2. 2. José Jurandí Silva de Oliveira Júnior Paulo Enselmo Ramos de Jesus REGGAE É DE PAZ:a identidade cultural negra em conceição do coité Trabalho de Conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social – Habilitação em Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial de obtenção do grau de bacharel em Comunicação, sob a orientação da professora Patrícia Rocha de Araújo. Conceição do Coité-BA 2010.
  3. 3. José Jurandí Silva de Oliveira Júnior Paulo Enselmo Ramos de Jesus REGGAE É DE PAZ: a identidade cultural negra em conceição do coité Trabalho de Conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social – Habilitação em Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial de obtenção do grau de bacharel em Comunicação, sob a orientação da professora Patrícia Rocha de Araújo.Data: _____________________________________________________Resultado: _________________________________________________BANCA EXAMINADORAProfessora (orientadora) _____________________________________Assinatura: ________________________________________________Professora ________________________________________________Assinatura: ________________________________________________Professora ________________________________________________Assinatura: ________________________________________________
  4. 4. RESUMO REGGAE É DE PAZ: A IDENTIDADE CULTURAL NEGRA EM CONCEIÇÃO DO COITÉA Música Reggae tem sido utilizada como instrumento simbólico de afirmação ereafirmação da identidade cultural pelas comunidades afro-descendentes na Sede doMunicípio de Conceição do Coité. A negritude em Conceição do Coité teve inicio logocedo com a escravidão no século XVII. Na década de 1980, o movimento negro sefortaleceu e ganhou corpo na cidade com o surgimento dos movimentos sociaisorganizados em torno da negritude. Atualmente são vários os grupos que discutem atemática racial na cidade, dentre eles: Revolution Reggae, Rebanho de Israel,Quixanayah e o Grupo Jamaica. Este trabalho tem como objetivo construir um vídeo-documentário que mostre em que medida a música reggae, enquanto música deexpressão social tem contribuído para afirmação e reafirmação da identidade culturaldas comunidades afro descendentes na sede do município de Conceição do Coité.Foram utilizados como método de coleta de dados a entrevista, e a observaçãoparticipante, além da pesquisa bibliográfica para realização da pesquisa descritivaque documentou tudo em imagens através de uma câmera filmadora. Estas imagensforam usadas depois na montagem do vídeo.Palavras-chave: Reggae, Identidade, Música, Negritude
  5. 5. ABSTRACTThe Reggae music has been used as a symbolic instrument of affirmation andreaffirmation of cultural identity by communities african-descendants in the town ofConceição do Coité. Blackness in Conceição do Coité began early with slavery in theseventeenth century. In the 1980s, the black movement was strengthened and it wonthe city with the emergence of social movements organized around the blackness.Currently there are several groups that discuss the race issue in the city, among them:Revolution Reggae, Comunidade Rebanho de Israel, Quixanayah and GrupoJamaica. This work aims to build a documentary video that shows the extent to whichreggae music, as music of social expression has contributed to the affirmation andreaffirmation cultural identity of communities african descendants in the town ofConceição do Coité. It was used interviews and participant observation as a method ofdata collection, in addition to the literature for carrying out descriptive research whichdocumented all in images via a digital camcorder. These images were then used toassemble the video.Key-words: Reggae, Identity, Music, Negritude
  6. 6. SUMÁRIOINTRODUÇÃO______________________________________________________________________ 01IDENTIDADE_______________________________________________________________________ 03Identidade negra: um processo histórico________________________________________________ 04Auto-discriminação__________________________________________________________________07O nascimento da negritude___________________________________________________________ 09Brasil_____________________________________________________________________________ 10Conceição do Coité_________________________________________________________________ 12A identidade negra: conceitos_________________________________________________________ 15MÚSICA E IDENTIDADE_______________________________________________________________17O VÍDEO – DOCUMENTÁRIO___________________________________________________________20O MEMORIAL______________________________________________________________________ 29CONCLUSÃO_______________________________________________________________________ 53REFERÊNCIAS_______________________________________________________________________56
  7. 7. INTRODUÇÃO Este trabalho tem a proposta de discutir a relação entre a musicalidade reggae ea identidade cultural negra em Conceição do Coité. Produzimos um vídeo-documentáriomusical que aborda esta temática. Analisamos a identidade segundo o conceito fluidode Stuart Hall (2007). Neste sentido a identidade se constitui como algo móvel e emconstante mutação. Assim acreditamos que as comunidades afro descendentes dasede de Conceição do Coité que lutam com o conceito da negritude, têm namusicalidade reggae um forte aliado na afirmação e reafirmação de suas identidades. OReggae desde seu surgimento tem tratado da temática afro-descendente de formabastante intensa e tem contribuído para o processo de conscientização social de muitaspessoas ao redor do mundo, inclusive em Conceição do Coité, foco de nosso trabalho. Para desenvolver esta discussão, fazemos um percurso histórico sobre onascimento da negritude no mundo e sua trajetória no Brasil e na região. Reunimos emnosso vídeo intelectuais para discutir a temática do negro, e militantes da negritude,falam de suas experiências cotidianas no movimento negro da cidade, bem como fazemuma retrospectiva sobre o processo libertário através do Reggae. Dedicamos um capítulo específico para discutirmos o vídeo e uma relação com amúsica e com os movimentos sociais, justificando a pertinência deste trabalho. Para finalizar, dedicamos um capítulo para relatar todas as fases da pesquisa eda construção do vídeo, descrevendo etapa por etapa, as técnicas utilizadas, asexperiências vividas , as dificuldades encontradas, etc. 1
  8. 8. Enfim este trabalho (Memorial e vídeo) se propõe a trazer a discussão da relaçãoentre música e identidade cultural do povo negro e como ambas se complementamdentro da sociedade brasileira. 2
  9. 9. A IDENTIDADE O conceito de identidade é um dos conceitos mais polêmicos da atualidade.Concordamos com Stuart Hall (2007, p. 109) quando coloca a identidade no campo dasconstruções sociais e simbólicas. Para ele, “ela não é, nunca completamentedeterminada no sentido de que se pode sempre ganhá-la ou perdê-la, no sentido deque ela pode ser sempre sustentada ou abandonada”. (HALL, 2007, p. 108) E esse ir evir da construção identitária se dá nas relações sociais e como elas são interpretadaspelos grupos identitários. Entendemos que situações e contextos históricos podem influenciar naconstrução identitária de um determinado grupo. Temos vários exemplos históricos dediscursos de identidades construídos a partir de situações específicas. A identidadenegra, construída a partir da colonização da America, o feminismo construído a partir darevolta com uma sociedade patriarcal. Enfim, a identidade segundo Hall, “tem a ver coma questão da utilização dos recursos da história, da linguagem e da cultura para aprodução, não daquilo que nós somos, mas daquilo do qual nos tornamos.” (HALL,2007, p.109) Isto significa que a identidade faz uso de elementos históricos, lingüísticose culturais para se constituir enquanto identidade. Todos esses elementos sãoorganizados no seio da sociedade, através de representações simbólicas. Os meios decomunicação (todos os meios, inclusive os alternativos) fazem uso constantemente deelementos representativos para construção da imagem de um determinado grupo oulugar. O exemplo bem claro deste tipo de construção é aquele feito por alguns meios decomunicação a respeito do Nordeste. Nesta representação, o Nordeste é o lugar daseca, da miséria, da pobreza e da preguiça (informação verbal)1 Então, no bojo desta construção de identidade, existe sempre um jogo deinteresses que nem sempre defende os ideais do grupo constituinte e identitário. Istoconfirma aquilo que Laclau (1990, citado por HALL, 2007, p. 110) fala da identidade,1 Aula de seminários III, palestra de Carla Gouveia, e Seminários Diálogos Possíveis, Palestra de Durvalde Albuquerque, realizadas no Curso de Comunicação Social da Universidade do Estado da Bahia –Campus XIV. 3
  10. 10. quando argumenta que “a constituição da identidade é um ato de poder. No processode construção de uma identidade, sempre existe algum constituinte ideológico quebeneficia algum grupo social, independente dos beneficiários ser ou não o grupo emquestão. É o que Kathryn Woodward defende quando diz que “a identidade é assimmarcada pela diferença.” (2007, p. 9). O marco constituinte da identidade é o outro, odiferente. A mulher é mulher porque existe o homem, o negro é um grupo identitárioporque existe o branco. Esta diferenciação, ou este outro estabelece o desigual,fazendo com que a existência da identidade estabeleça a existência da desigualdade,da diferença, da luta de grupos, do jogo de poder. É o que afirma Hall quando diz que“a identidade é o produto da marcação da diferença, da exclusão social”. (2007, p. 109).Assim, para ele, as relações identitárias estabelecem também relações de poder.Identidade negra: um processo histórico O processo de construção de uma identidade em torno do negro começou a seformar a partir do processo histórico de colonização e escravidão na América e naÁfrica a partir do século XVI. Esse constructo identitário é formado dentro de uma dimensão social eeconômica conflituosa. Nesta formação identitária manifesta-se a questão do jogo depoder já abordada neste capítulo, fundamentada em Stuart Hall (2007). Assim, toda essa discussão de identidade tem suas raízes históricas e todo esseprocesso tem uma herança historiográfica que foi forjada no contexto da escravidão, noséculo XVI. No entanto, essa identidade da negritude sofreu alterações profundas com opassar dos séculos e vários elementos ideológicos, históricos, sociais e lingüísticosforam sendo incorporados a este constructo identitário. Novos elementos foram sendoincorporados à identidade negra e ela passa de algo completamente indesejado noséculo XVI à situação de valorização no início do século XXI (ao menos pelos afro-descendentes militantes da negritude). A partir do século XVI, o mundo testemunhou uma migração, em massa, deescravos da África para as colônias européias na América. O Brasil inclusive foi o país 4
  11. 11. que mais importou escravos. Aproximadamente quatro milhões de escravos entraramno país até o final do século XIX, "o que representa 40% do total de negros raptadospelo escravismo colonial” (SANTOS, 2002, 32). Estes escravos deixavam suas famílias na África de onde eram sequestrados.Toda sua vida era praticamente destruída. A partir dali não mais se considerava a vidapassada do homem negro, família, profissão, sonhos e desejos ou se o escravo haviasido artesão, comerciante, rei ou rainha (informação verbal)2. Apenas duas coisas, oescravo podia trazer consigo às Américas, porque isso não lhe podia ser tirado: suacapacidade laboril e sua memória. Para Bosi, a memória "é o intermediário informal dacultura" (2003, p. 15). Ela coloca a memória com um condão precioso que preservaHistória e cultura, coisas do cotidiano que estão distantes das instituições oficiais depreservação da História. O afro descendente se beneficiou exatamente deste caráterpreservador e não oficial da memória para passar às gerações futuras sua riquezacultural. O escravo fez uso intenso dela para preservar seu passado e construir um novofuturo. A memória é a riqueza maior de um povo. Ela não lhe pode ser tirada. E o afrodescendente buscou diversas estratégias para conservação de sua memória. Várioselementos culturais foram usados para isso. A capoeira, o candomblé e a musicalidadeafricana contribuíram imensamente para a preservação da memória deste povo. A Antropologia eurocêntrica até o século XX, por sua vez, sempre buscoujustificar a atitude desumana do homem branco europeu. Antropólogos, que ainda hojesão estudados nas escolas, expuseram verdades absurdas, colocando o homem negrocomo pertencente a uma raça inferior. Segundo Ortiz Nina Rodrigues, em suas análises do Direito penal brasileiro, tece inúmeras considerações a respeito da vinculação entre as características psíquicas do homem e sua dependência do meio ambiente. Na realidade, meio e raça se constituíam em categorias do conhecimento que definiam o quadro interpretativo da realidade brasileira. (1994, p. 16)2 Palestra de Antonio Cosme, ministrada na inauguração do Projeto Reggae em Ação em 2005, dirigido àcomunidades periféricas afro-descendentes, realizado pelo Centro de Promoção da Educação da Culturae da Cidadania. 5
  12. 12. Ainda segundo Ortiz (1994, p. 14) o atraso evolutivo do país no início do séculoXX era atribuída a raça. Ele diz que A História brasileira é, desta forma, apreendida em termos deterministas, clima e raça explicando a natureza indolente do brasileiro, as manifestações tíbias e insegura da elite intelectual, o lirismo quente dos poetas da terra, o nervosismo e a sexualidade desenfreada do mulato. Muitas atrocidades ao longo da história foram justificadas pela ciência moderna:a escravidão do negro, o holocausto e a perseguição ao judeu, o nazismo etc. O homem branco entendeu, desde cedo, que a maior riqueza de um povo estáem sua memória. Então buscou-se construir uma outra identidade para o povo africano,na tentativa de destruir suas memórias. A ciência européia do século XIX dava toda ajustificativa teórica a um processo de dominação econômica e social. Váriasrepresentações sociais foram forjadas no seio da ciência e da sociedade para deturpara identidade do negro existente nos recônditos de suas memórias (MUNANGA, 1986, p.35). Suas manifestações artísticas e culturais foram sufocadas intensamente. Suasvozes foram caladas. Sua coletividade castigada a fim de que o africano fosseinferiorizado enquanto ser humano, enquanto indivíduo, enquanto pessoa. A capoeira, ocandomblé, a música de matiz africana, as danças, a comida, toda cultura afro foicolocada como inferior, imprestável dentro da sociedade brasileira. Assim foram criadas representações em torno da imagem do povo negro. Onegro foi colocado como menos inteligente que o branco, preguiçoso, tendente ao crimee à marginalidade, violento, feio, etc. Essa opressão se seguiu após a escravidão, gerando uma dívida histórica dasociedade brasileira para com o afro descendente, imensurável. O negro foi o agentede construção da economia deste país. Foram trezentos anos de trabalho escravo,construindo um país forte economicamente. E depois da construção, foram obrigados amorar em espaços favelados, a trabalhar em ofícios desvalorizados socialmente,ficaram recrutos a uma perseguição social dos órgãos repressores do Estado comomarginais, suspeitos da polícia e do cidadão de classe média e alta. (SANTOS, 2002,p.33) 6
  13. 13. No momento da libertação dos escravos, os negros foram despejados nasociedade econômica, sem habitação nem trabalho. Socialmente desestruturados , semdinheiro, sem moral, sem ter para onde ir. Não houve uma política pública parainserção do negro na sociedade brasileira. Santos nos diz que "o dia seguinte ao fim doescravismo marca o início de uma saga de subcidadania que tem 114 anos" (2002,p.33). Após a abolição da escravatura, a mão de obra negra não foi aproveitada noregime econômico seguinte, o da mão de obra assalariada. Ao invés disto, o Estadobrasileiro preferiu importar a mão-de-obra européia, enquanto que para o negro nãorestou alternativa alguma. O governo brasileiro adotou então uma política deenbranquecimento da raça brasileira. Deu-se neste momento o processo de imigraçãoeuropéia no final do século XIX e início do século XX (IMIGRAÇÃO NO BRASIL)3. Neste momento o negro estava arrasado social e psicologicamente. Escritoresnegros narraram todos estes momentos e buscaram a libertação social, econômica emental de seu povo (MUNANGA, 1986, p. 35). Está aí o germe do processo deidentificação do negro com seu povo, com sua raça, com suas memórias, com suaHistória. É nesse momento, mais do que nunca que ocorre o processo de reconquistada identidade africana. Munanga diz que "Aceitando-se, o negro afirma-se cultural,moral, física e psiquicamente" (1986, p. 33). Os escritores negros começaram a perceber que "a idéia de uma África comnegros bárbaros era uma invenção européia." (MUNANGA, 1986, p. 41). Auto-discriminação Então foi um processo muito cruel para o povo negro. Após ter assimilado acultura e o modo de vida do branco, não havia como essa gente valorizar suas raízes esua identificação com sua gente.3 HTTP://portalsaofrancisco.com.br/alfa/imigracao-no-brasil/imigracao-no-brasil.php 7
  14. 14. A mídia de massa assumiu o papel que era desempenhado pela ciência doséculo XIX. Os jornais só mostram o afro descendente em situação de violência ecrime. As programações seriadas somente mostram o negro em desempenho de papelsubalterno no seio social. Papel de servidão, de marginalidade, de desprezo social. Nacontramão, todos os heróis mostrados no cinema e na TV são brancos. Assim, avalorização da cultura européia e a consequente desvalorização da cultura do negro équase uma lei na cultura midiática de massa. É certo que algumas figuras negras conseguiram seu espaço na mídia a exemplodos Jackson’s Five nos Estados Unidos, Pelé no Futebol e na teledramaturgiabrasileira, o ator Milton Gonçalves, mas estes são casos isolados e não constituíramuma realidade abrangente para a etnia afro no país. A escola não valoriza, no livro didático nem nos conteúdos trabalhados, o mundodo negro. O mercado de trabalho é muito racista em relação ao negro. Espaços sociaiscomo clubes, shops e outros tem servido de espaço onde o racismo acontece. Todosestes discursos oficiais levam o negro a negar sua identidade. Contribui para que o afrodescendente se identifique e assimile a cultura do branco. Crianças que só vêem na TVseus iguais em papéis subalternos, que na escola só ouvem falar em heróis brancos,que recebe presente de um papai Noel branco, que recebe uma boneca branca comopresente de final de ano, que sabe que seus traços físicos estão fora do padrão debeleza de sua sociedade, com certeza vai repudiar suas raízes, vai ser levada a umprocesso de identificação com o branco europeu, com a cultura do outro. (informaçãoverbal)4 É o que Sansone (2007, p. 11) discute quando fala "do hífen oculto que impedeos brasileiros de se definirem como afro-brasileiros, Ítalo-brasileiros, Líbano - brasileirose assim por diante". Para ele "a despeito de muitas provas de discriminação racial, aspessoas preferem mobilizar outras identidades sociais que lhes parecem maiscompensadoras" (2007, p. 11).4 Palestra de Antonio Cosme, ministrada na inauguração do Projeto Reggae em Ação em 2005, dirigido àcomunidades periféricas afro-descendentes, realizado pelo Centro de Promoção da Educação da Culturae da Cidadania. 8
  15. 15. O nascimento da negritude A identidade negra passou, ao longo da História, de uma identidade inferiorizada,indesejada, repudiada nos primeiros anos de sua concepção, para uma identidadealmejada, sonhada, desejada pelos negros de consciência racial, militantes danegritude. Munanga diz que, neste contexto, o negro se reivindica com paixão, amesma paixão que o fazia admirar e assimilar o branco (MUNANGA, 1986, p. 33). Em vários cantos do planeta começou-se a pensar a problemática do negro."Escritores negros tomaram consciência do processo de imitação cega à cultura branca,da assimilação cultural", do processo de aculturação (MUNANGA, 1986, p. 33) Elestomaram consciência do processo de lavagem cerebral a que foram submetidos aolongo da história. Munanga nos diz que este burburio de discussões aconteceuinicialmente nos Estados Unidos, na Europa e no Haiti, principalmente por estudantesnegros em Universidades, ao entrarem em contato com a diversidade cultural africana eeuropéia. (1986, p. 41). Os principais pensadores deste movimento da negritude foramDr. Du Bois, Langston Hughes, René Maran, O Dr. Price Mars e Aimé Cesaire "quecriou a palavra negritude" (MUNANGA, 1986, p 43). A Arte também desempenhou um papel fundamental no processo de resistênciacontra a assimilação cultural e racial. Elementos como a música, a capoeira e aliteratura desempenharam um papel fundamental. Grupos como o Ilê Ayê, Edson Gomes e Banda Cão de Raça, artistas como osreggeiros jamaicanos, James Brown, a moda Black Power nos anos 1980, e omovimento do Axé Music, foram importantes para a valorização da cultura negra. Então os negros através da arte estabeleceram uma rede de comunicaçãocultural ao redor do mundo. Paul Gilroy (1994) citado por Santos M. (2002, p. 1) nos dizque “as relações estabelecidas em decorrência da diáspora favorecem a formação deum circuito comunicativo que extrapola as fronteiras étnicas do Estado-nação,permitindo às populações dispersas conversar, interagir e efetuar trocas culturais”. Assim, juntamente com a diáspora do povo negro pelo mundo deu-se também ahibridização cultural negra. 9
  16. 16. Brasil Inicialmente o Brasil seguiu as discussões internacionais em torno da negritude,O movimento no país culminou na libertação dos escravos em 1888. Nesta época, maisde 90% dos negros no país já eram livres (SANTOS, 2002, p.33). Negros influentes naeconomia e nos meios de comunicação da época abraçaram a causa do negro elevaram suas discussões aos vários espaços dentro do país. No entanto, um fator na década de 30, vem contribuir para abafar e desvirtuar asdiscussões em torno da identidade étnica, o mito da democracia racial (SANSONE,2007, p. 10). O Estado Brasileiro decide naquela época construir representaçõesétnicas a respeito do país. Estas representações sugerem que no Brasil não existeracismo, sugere que brancos e pretos agora vivem em harmonia racial e social. A partirdeste momento, o racismo deixou de ser explícito e passou a ser velado, dissimulado ebastante cruel. Segundo Santos, "pessoas não podem ver porque já tem os olhos (etambém a consciência) acostumadas a essa realidade" (SANTOS, 2002, p. 30). Asrepresentações discriminatórias passaram a ser sutis e veladas, o que dificultou aonegro levar adiante suas discussões raciais, tendo em vista a imagem forjada de umpaís democrático racialmente. A discriminação agora existe nas piadas, no olharquestionador sobre o negro, na ausência da história negra nas escolas, nadesvalorização da cultura do negro, nas imagens representativas do negro noimaginário popular, no déficit econômico em que vivem a maioria da população negrano país. Outro fator que contribuiu para diluir as discussões raciais no seio da sociedadeforam as proibições explícitas quanto à organização de associações de base étnica,especialmente na década de 30, durante a Ditadura de Getúlio Vargas (SANSONE,2007, p. 13). A partir de 1930, vários acontecimentos ao redor do mundo relacionados à causado negro refletiam-se aqui no Brasil. As idéias de Martin Luther King nos Estados 10
  17. 17. Unidos e de Marcus Garvey na Jamaica influenciaram profundamente o pensamento danegritude ao redor do mundo. A partir dos anos 1960, a Ditadura Militar brasileira inviabilizou todas as manifestações de cunho racial: Os militares transformaram o mito da democracia racial em peça chave da sua propaganda oficial e tacharam os militantes e mesmo os artistas que insistiam em levantar o tema da discriminação como “impatrióticos”, “racistas” e “imitadores baratos” dos ativistas estadunidenses que lutavam pelos direitos civis. (MOVIMENTO NEGRO, 20105) A partir dos anos 50, o movimento Rastafári na Jamaica atrelado à musicalidadecomeçou a ganhar força e a se espalhar pelo mundo. Na década de 70 do século passado, Bob Marley ganha projeção mundial e levaas letras de suas músicas aos quatro cantos do mundo. Nessa época o Reggae jáhavia adentrado as fronteiras do Brasil. Por aqui, o movimento Negro andava um poucosufocado pelo Regime militar e após sua queda na década de 80, começa a ganharforça ao redor do país. No Brasil os movimentos negros de caráter pacifistas começaram logo no iníciodo século. A partir das idéias de Martin Luther King e Marcus Garvey, começaram a seorganizarem. Dentre os precursores do movimento podemos citar na década de 1930 aFrente Negra Brasileira, mais tarde transformada em Partido Político; O teatroexperimental do Negro em 1944 no Rio de Janeiro; o congresso Nacional do Negro emPorto Alegre em 1958 e a Associação Cultural do Negro em 1954 na cidade de SãoPaulo. Em 1959 o professor Jorge Agustinho cria o Centro de Estudos Afro-Orientais,pioneiro nas relações diplomáticas e culturais entre Brasil e África. Em 1975 foi fundado no Rio de Janeiro o IPCN – Instituto de Pesquisa e CulturaNegra, organização de relevância no quadro do Movimento Social Negro no país(MOVIMENTO NEGRO, 2010)55 http://www.geledes.org.br/afrobrasileiros-e-suas-lutas/movimento-negro.html. 11
  18. 18. Após este período houve apenas pequenas ações em torno da negritude. “OMovimento negro enquanto proposta política só ressurgiria realmente em 7 de Julho de1978 quando um ato público organizado em São Paulo contra a discriminação racialdeu origem ao Movimento Negro Unificado contra a discriminação racial (MNU). A dataficou conhecida como o Dia Nacional da Luta contra o Racismo”. A consequência deste movimento levou à criação em 1984 do primeiro órgãopúblico voltado para o apoio ao movimento afro-brasileiro, o Conselho de Participação eDesenvolvimento da Comunidade Negra. Os anos Pós-constituição de 1988 têm registrado possíveis avanços naconquista do espaço social do Negro. (MOVIMENTO NEGRO, 2010) Conceição do Coité A problemática do negro em Conceição do Coité começou muito cedo. Desdeantes que o município se tornasse arraial e freguesia, a problemática racial e do negrojá era presente neste lugar. Alguns escritores e pesquisadores que escreveram sobre acidade, narraram fatos em que a temática do negro esteve presente. A primeira escravidão em Conceição do Coité, de que se tem notícia aconteceucom índios, após o governo português haver dividido a colônia em Sesmarias. ASesmaria em que Coité estava situado recebeu o nome de Sesmaria dos Tocós e foramos Guedes que a exploraram. “Antonio Guedes de Brito criou equipes potentes paradefender a terra que era de seus parentes, banindo dela os gentios e com atos dosmais frios, matou todas essas gentes.” (BARRETO, 2007, p. 22). Nessa época, muitosíndios foram dominados e escravizados, servindo na Sesmaria dos Tocós, onde existiaum lugar chamado de Nascente do Coité, que mais tarde chamaria Olhos D´agua, ondeConceição do Coité está situado. Por essa época, foi construída uma estrada que ia da Capitania de Salvador àCapitania de São Francisco, passando pela Nascente do Coité. (BARRETO, 2007, p.22). O processo de escravidão em Coité foi tão demarcado e profundo que o primeirohabitante do lugar já trazia consigo escravos. “Traz ao menos um escravo, a mulher e a 12
  19. 19. meninada” (BARRETO, 2007, p. 27). A partir daí, cada fazendeiro que por terras deCoité se estabelecia, logo tratava de comprar escravos, ainda que o pagamento sedesse em parcelas. (2007, p. 31) O progresso se estabeleceu por aqui pela prática daescravidão e, além do trabalho servil, muitos senhores ganhavam fortunas, através docomércio de escravos. (2007, p. 33). Barreto (2007, 34) narra a rotina dura e a vida humilhante a que os escravoseram submetidos: trabalhavam dezesseis horas por dia, alimentavam-se de comidaestragada, que seria jogada no lixo, acordavam antes do amanhecer para o trabalhohostil de cada dia. As mulheres também sofriam intensamente e muitas eramexploradas sexualmente por seus senhores. Barreto diz que os escravos desfaleciampor “construir tanta riqueza e viver como animais” (2007, p. 34). Segundo ele, “sãotantas histórias tristes, de lágrimas, dor e tormento, submetendo o escravo a tantopadecimento” (2007, p. 35). Barreto nos diz ainda que em 1760 já estavam divididastodas as terras de Coité, no sistema de grandes latifúndios, no qual poucos senhoresdetinham a propriedade de toda a região. (p. 37). Em 09 de maio de 1855, Coité foi elevada ao status de Freguesia, sendovinculada ao município de Feira de Santana. A professora Nilzete Cruz narra o dia-a-dia da feira-livre no Arraial da cidade,onde escravos e escravas eram negociados (informação verbal6). Segundo ela,senhores e coronéis utilizavam o espaço urbano da cidade, para realização da feira-livre onde se negociavam escravos. Os escravos eram expostos na praça como animaise lá eram comprados e vendidos, mas deste processo não participavam efetivamente,pois não eram consultados em nenhum momento sobre a transação que era realizadana qual eram objetos (informação verbal)7. Após todos os acertos entre comprador e vendedor, a oficialização da compraera levada ao cartório, primeiramente em Feira de Santana e, após a emancipação domunicípio, no próprio cartório da cidade. No cartório era então lavrada a escritura6 Palestra em 04/11/2009, realizada na UNEB – Campus XIV, para a disciplina de História Regional doCurso de Comunicação Social, II semestre7 Entrevista dada concedida para o documentário Reggae é de Paz, produto desta pesquisa 13
  20. 20. pública da compra do escravo. Neste momento também não era consultado, o escravo,pois não lhe era permitida a manifestação de sua vontade. Após este momento, segue-se um processo extremamente cruel e doloroso parao escravo. Dava-se a identificação do mesmo com um ferro superaquecido, quandoeram impressas em seu corpo as letras capitulares de seu senhor. Tudo isso aconteciaem um processo bastante animal e desumano. Ao que tudo indica, Segundo Nilzete Cruz (informação verbal8), existe nomunicípio vários lugares e comunidades cujos moradores são remanescentes dequilombos. Ela discute a possibilidade de a comunidade existente no municípioconhecida como o Maracujá ser remanescente de quilombos. Barreto (2007, p 11)conta a história de uma escrava, Martinha que foi objeto de paixão de um grandefazendeiro do município. O fazendeiro comprou a escrava e se tornou seu esposo.Como nessa época, Conceição do Coité pertencia ao município de Feira de Santana,todos os processos legais foram realizados pelo Fórum daquela comarca. Em 1890, Coité é levado à emancipação por um ato assinado pelo Governadorda Bahia, passando a se chamar Conceição do Coité. Entretanto, as questões relacionadas à negritude e a tomada de consciênciaracial pelo negro em Conceição do Coité remonta aos anos 80. Naqueles anos, amigração de vários afro-descendentes coiteenses para a capital do estado, Salvador,colocou a negritude coiteense em contato com os vários movimentos culturais elibertários do negro. Movimentos como o Reggae que explodiu na Jamaica e o próprioOlodum existente em Salvador fez com que esses negros migrantes trouxessem adiscussão racial para Conceição do Coité, assim como a cultura do Reggae. Naquelaépoca os discos de vinil ajudavam a levar a cultura musical a lugares antesimpensáveis. O Reggae havia ganhado o mundo (informação verbal)9. Muitos músicosbrasileiros haviam assimilado o Reggae e disseminado a musicalidade negra,8 Palestra em 04/11/2009, realizada na UNEB – Campus XIV, para a disciplina de História Regional doCurso de Comunicação Social, II semestre9 Beto Rasta, em entrevista cedida para o documentário Reggae é de Paz, produto desta pesquisa 14
  21. 21. carregada de crítica social, pelos quatro cantos do país. (CARDOSO, 1997, p. 15).Assim, Conceição do Coité conheceu as discussões da negritude. Nesta época, apenasalgumas pessoas de Conceição do Coité tinham contato com este elemento cultural.Mas isto era suficiente. Estava plantada a semente que frutificaria, através dos grupossociais e raciais no final dos anos 90 e início do século XXI. Um evento marcante para a consolidação da discussão racial no municípioaconteceu em 2005. Um curso de capacitação em Liderança social e identidade negra,chamado “Reggae em Ação: capacitando lideranças para a identidade negra emobilização social” realizado pelo Centro de Promoção da Educação da Cultura e daCidadania – CPECC e destinado aos integrantes do Grupo Revolution Reggaeespalhado pelos bairros periféricos da cidade, como Pampulha, Barreiros, Jaqueira,Matadouro, Açude Itarandi e Açudinho. Este curso visava capacitar o público alvo para atuar junto aos Bairros periféricosda cidade e aos movimentos sociais, sendo capazes de discutir as questões sociais eraciais no entremeio social. Foram ministradas aulas e oficinas nas áreas demusicalidade reggae e consciência negra, cooperativismo, economia, direitos humanos,educação e pedagogia infantil, comunicação comunitária e outros. Após quatro anos de sua realização, participantes do curso ainda comentam aimportância fundamental daquele curso para a formação do indivíduo enquanto serhumano e afro descendente. O vídeo documentário, produto desta pesquisa, trazalguns relatos importantes de participantes daquele projeto. A Identidade negra: Conceitos A Negritude então se estabeleceu como a busca do desafio cultural do mundonegro, como a luta pela emancipação de seus povos oprimidos, a luta pela revisão dasrelações entre os povos (MUNANGA, 2007, p. 42), a afirmação da personalidadeprópria dos povos, a valorização de seus modos de ser, de vestir, de expressar-seartisticamente e culturalmente. A identidade envolve a questão da valorização pessoal,do desejar-se, reconhecer no negro coisas bonitas e coisas feias também, como emqualquer ser humano. A identidade negra envolve a auto-aceitação e a celebração de 15
  22. 22. sua cultura, não ir em busca de identificação na cultura do outro, mas o desejo ardentepelas suas raízes, pelo seu modo próprio de ser. Césaire (1976), citado por Munanga(1986, p.44), diz que a negritude é o simples reconhecimento do fato de ser negro, aaceitação de seu destino, de sua história, de sua cultura”. Cesaire define a negritudeem três palavras: identidade, fidelidade e solidariedade. Estes são elementosessenciais para qualquer discussão em torno da negritude. 16
  23. 23. MÚSICA E IDENTIDADE Quatrocentos anos foi a duração da escravidão de milhares de pessoas,que por um capricho ou aprovação dos deuses, nasceram com uma única diferença dos outros povos, a pele mais escura do que o normal: a pele negra (...). Era o cântico dos escravos e no som que tiravam de qualquer objeto que seus senhorios buscavam uma explicação para esse fenômeno, vendo que eles, mesmo aprisionados e roubados da sua pátria-mãe, África, ainda possuíam uma vasta inspiração para cantar e dançar para aliviar os sofrimentos, como se soubessem que tudo aquilo não era definitivo. Este é o poder da música. (CARDOSO, 1997, p. 8) Assim, Marco Antonio Cardoso, no livro “A Magia do Reggae” sintetiza arelevância da cultura negra, especificamente suas músicas e danças. Lundu, Samba,Blues, Reggae, capoeira e, atualmente blocos afros baianos, como o Ilê Aiyê e o MaleDebalê, que fazem parte desta abastada cultura que vem sendo preservada ao longodos séculos e se transformando em instrumento de luta contra toda a repressão quetem sofrido. O Reggae é um ritmo que surgiu na Jamaica, fruto das manifestações culturaisque chegaram à Ilha através dos povos africanos, que são, em sua grande maioriaoriundos da “África ocidental”. Influenciados pelo Calipso de Trinidad Tobago e pela rumba cubana, adiversidade foi ganhando forma e os jamaicanos começaram a desenvolver seu próprioritmo, como o Mento. Começaram então a incrementar suas Bandas com a introduçãode solos de trompetes que mais tarde dariam origem ao som instrumental , dançante,alegre e agitado do SKA. O outro pano de fundo do surgimento do Reggae foram os fundamentos doRastafarianismo, um movimento que possui um caráter religioso, político, milenarista,revolucionário e constitui uma nova visão de mundo. Porém suas crenças, rituais eatitudes são produtos dos processos de hibridação a partir do encontro de diversasculturas ocorridas no caribe. É bom ressaltar que, essas manifestações se difundiram justamente nascamadas baixas, “nos chamados bairros de lata” jamaicanos, habitados geralmente 17
  24. 24. pela população negra marginalizada. Nesses locais predominavam diversos problemassociais, violência, miséria e desemprego. As letras do Reggae eram movidas peloselementos religiosos do Rastafarianismo, que entre outras coisas denunciavam osistema de opressão vivenciado pela população negra pobre das camadas baixas. IssoPossibilita considerar que o Movimento Rastafari juntamente com o Reggae sãoimportantes meios de resistência do povo negro jamaicano, no combate, mesmo quesimbólico contra o sistema de opressão vivenciado pelos mesmos. O Reggae chega ao Brasil sendo recebido, em primeiro lugar, pelas populaçõesda região do Nordeste, principalmente no Maranhão que mais tarde devido àsproporções dessa manifestação recebe a classificação de “Jamaica Brasileira”. Um dosfatores é a proximidade geográfica. “São Luís está inserido em uma região quecompreende, principalmente aos estados de Maranhão e Pará. Nessa regiãopredominam ritmos caribenhos”. Segundo Cardoso (1997, p.13), Bandas como Tribo deJah do Maranhão e Central Africana e cantores como Edson Gomes, Fausy Beydoun,contribuem para a disseminação e valorização deste ritmo no cenário nacional. Paraeste mesmo autor “O reggae no Brasil sempre sofreu uma certa indiferença do poder eda mídia, que o encarava como mais uma música de favelados, sendo portanto,insignificante ao ponto de lhe darem as costas” (1997, p. 12). Quando o reggae foi se popularizando na Jamaica, nos Estados Unidos estavaacontecendo a expansão do Rhytm and Blues, ou simplesmente “Blues”. Oriundo doSul dos Estados Unidos, dos escravos das plantações de algodão que usavam o canto,posteriormente definido como "blues", para embalar suas intermináveis e sofridasjornadas de trabalho. São evidentes tanto em seu ritmo, sensual e vigoroso, quanto nasimplicidade de suas poesias que basicamente tratavam de aspectos populares típicoscomo religião, amor, sexo, traição e trabalho. Com os escravos levados para a Américado Norte no início do século XIX, a música africana se moldou no ambiente frio edoloroso da vida nas plantações de algodão. Porém o conceito de "blues" só se tornouconhecido após o término da guerra civil quando sua essência passou a ser como ummeio de descrever o estado de espírito da população afro-americana. Era um modomais pessoal e melancólico de expressar seus sofrimentos, angústias e tristezas. A 18
  25. 25. cena, que acabou por tornar-se típica nas plantações do delta do Mississipi, era alegião de negros, trabalhando de forma desgastante, sobre o embalo dos cantos, o"blues". Mas, segundo Cardoso de todas estas manifestações, o reggae é a mais explicitamente revolucionária. É satírico e por vezes cruel, porém as letras também não se hesitam ao tratar de temas como o amor, lealdade, esperança, ideais, justiça, novas coisas e novas formas. É essa afirmação de possibilidades revolucionárias que coloca o reggae em uma categoria à parte (1997, p. 17). Em Conceição do Coité, esta realidade da música reggae não é muito diferentedo que acontece no cenário nacional e até mundial. A música reggae tem alcançadouma grande penetração nas comunidades negras do Açude Itarandi, do Bairro dosBarreiros e da Comunidade Nova Esperança. São bairros da cidade de Conceição doCoité onde moram pessoas, na maioria, negras e de baixa renda per capta. Os jovensdestas comunidades descobriram na música reggae uma filosofia de vida. Ouvemreggae como uma celebração, como um ritual. Reggae para eles é uma maneira deviver o mundo, de falar das injustiças sociais, uma forma de se expressar, uma maneirade aprender, de falar, de viver. Uma maneira de ser. Isto justificou a escolha destegênero musical enquanto ferramenta propulsora para o desenvolvimento de um projetode pesquisa desta natureza. A música reggae tem sido usada como símbolo afirmador de suas identidades,como acontece também na Jamaica e em outras partes do mundo, muito embora ofenômeno da identidade étnica e cultural negra não seja igual em todas as partes domundo. Sansone afirma que a identidade étnica difere de lugar para lugar (SANSONE,2007, p. 9). Mas a música reggae tem sido usada pelos povos negros em várias partesdo mundo como um símbolo de sua identidade cultural. Na maioria dos movimentos ligados a identidade negra, o Reggae tem estadopresente. Ele traz em suas canções, letras de protestos social, de reivindicação, devalorização da raça etc. Estes ingredientes da musicalidade reggae contribui para oprocesso de conscientização das comunidades afro-descendentes ao redor do mundo.Assim, a música tem sido uma forte aliada no processo de resistência e libertaçãosocial. 19
  26. 26. O VÍDEO-DOCUMENTÁRIO O vídeo documentário é um produto audiovisual extremamente flexível comrelação à sua estrutura, seleção de planos e possibilidade de posicionamento dodocumentarista. Assim, entendemos que ele pode ser usado em múltiplas situaçõesreais e por atores sociais para produção de discursos e pontos de vistas sobre umadeterminada realidade, bem como para propagação de idéias sociais e consciênciascoletivas. Sendo assim, o vídeo tem uma visão comunitária, pois ao retratar uma realidadecotidiana, não objetiva a reunião de grandes públicos, mas o seu produto é dirigidogeralmente a um pequeno público que se vê representado nestas produções e queparticipam deste processo sem encenação. O vídeo documentário não está atrelado aroteiros e padrões pré-definidos, porque como diz Puccini, "nem todos os roteiros dedocumentários nascem da etapa de pré-produção do filme" (p. 16, 2009). Assim, entendemos que ele é extremamente útil na representação de temascomo o que é objeto deste trabalho de pesquisa. Segundo Musburger, “umdocumentário deve ser produzido para fazer alguma diferença, ganhar uma discussão,ou resolver uma questão sobre um assunto socialmente importante” (2008, p. 122). Aimportância social deste trabalho está no fato de que a identidade cultural é a razão deser de uma comunidade. É a identidade cultural que mostra como é a vida das pessoasde um determinado lugar. Sem identidade, um povo não existe, não se firma enquantogrupo, enquanto comunidade, enquanto povo. Queremos descobrir em que medida o escutar e viver a música reggae temcontribuído para afirmação e definição da identidade destes grupos em Conceição doCoité, para entender porque estas pessoas vivem o reggae diariamente e o preferem àqualquer outro estilo musical, afirmando ser o reggae verdadeiramente "música raiz".E, caso este contexto social não seja pesquisado haverá um prejuízo sócio-cultural pela 20
  27. 27. não documentação de um modo de vida identitário, de uma condição sócio-culturalexistente. Está ai a importância da discussão e delimitação da identidade de um gruposocial. Conhecer uma identidade é afirmar a existência de um grupo, é valorizar suacultura. É por isso que esta pesquisa se propõe a estudar em que medida o reggaecontribui para construção e reconstrução destas identidades. Ademais, o movimento negro em Conceição do Coité está em evidênciaatualmente, destacando-se na cidade, na região e até em nível nacional, no âmbito dosMovimentos Sociais. E a música reggae tem feito parte deste processo de forma ativa,integrando todas as atividades que são desenvolvidas pelo Movimento. Então se faznecessário fazer o mapeamento dos usos que se faz desta linguagem musical no seiodeste movimento e destas comunidades e como estes usos dialogam e promovem aafirmação e reafirmação da identidade cultural deste povo. A importância desta pesquisa não se limita ao conhecimento da realidadepesquisada pelo mundo acadêmico, mas se propõe a oferecer ao grupo socialpesquisado, a condição de ele se conhecer melhor, de pensar a respeito de suacondição enquanto povo no mundo. Conhecendo-se, o povo pode refletir sobre suasidentidades e dialogar de forma crítica, criativa e racional com outras identidades que ocerca. Acreditamos que um vídeo documentário irá contribuir para o processo demobilização social em que vivem essas comunidades. O vídeo poderá servir paraexibições em suas atividades, inclusive de conquista de novos militantes, assim comotambém, se divulgado na internet, levará o conhecimento da existência destes grupos alugares inimagináveis. Outrossim, entendemos também que por ser flexível e aberto, o documentaristatem liberdade para assumir um posicionamento em relação ao tema abordado.Segundo Erik Barnow, citado por Musburger (2008, p. 123), o documentário apresentaa visão de mundo do documentarista. Para ele o vídeo documentário é um produto no 21
  28. 28. qual o roteirista não consegue deixar escapar a sua subjetividade. Assim, nós partimosda premissa de que a música reggae tem contribuído para afirmação e reafirmação daidentidade negra em Conceição do Coité e procuraremos, embasados na pesquisarealizada, construir o vídeo na defesa desta posição. Buscar-se-á dar vozes aos atores sociais, fontes da pesquisa, e no vídeoprivilegiaremos o discurso destes grupos, deixando-os falar e dialogar com intelectuaisque discutem a temática da identidade racial. Em razão disso, optamos por construir umvídeo sem a utilização de narrador. As vozes dialogarão de tal forma que a narrativaseja construída. Acreditamos que a ausência de OFF não prejudicará a narrativa, porque aslacunas deixadas pela imagem, se houver, serão complementadas com a inserção decaracteres que proporcionarão um ambiente em que os textos assumirão o papel de um"elo", para proporcionar a coesão textual do vídeo. Musburger nos diz que “pode-seacrescentar uma quantidade mínima de narração escrita ao som ambiente e naturalpara preencher as lacunas que não ficaram totalmente explicitas com as imagens e ossons” (2008 p. 126). Buscaremos assim, construir um vídeo agradável e de fácil entendimento para oexpectador, tentando colher nas entrevistas falas ricas em detalhes, mas com umvocabulário de fácil assimilação. Construiremos um vídeo documentário de uma realidade social. Sendo assim,usaremos cenas captadas no dia-a-dia das pessoas estudadas. Também faremos oregistro das apresentações e ensaios da Banda de Reggae e reuniões dos gruposnegros que ouvem o reggae em Coité. Assim, abordaremos também a importância deste estilo musical como parteintegrante da cultura regional e que traduz em si as lutas, os anseios e as vivências dascomunidades que em grande parte estão nas periferias da cidade, inseridas àsmargens da dinâmica social dominante. 22
  29. 29. Outro aspecto que será fundamental para o nosso documentário se refere à suaparte lúdica. Relacionado a este aspecto, construíremos um vídeo musical, onde amúsica estará presente durante todo o enredo. Esta musicalidade aparecerá através datrilha sonora, sobe som e BG (background). As músicas, que formarão a trilha sonora do vídeo, serão escolhidas dorepertório do reggae local, regional , nacional e internacional com letras que abordam atemática da identidade negra e da discriminação racial. Estas trilhas serão sugeridaspelos grupos pesquisados, na tentativa de traduzir no audiovisual, um pouco dorepertório musical destes grupos. Acreditamos que o fato de eles escolherem asmúsicas, dará mais autenticidade ao produto, porque mostrará um pouco daquilo queeles ouvem no dia-a-dia. Após serem reunidas, estas trilhas sugeridas pelos pesquisados, nósprocuraremos selecionar entre elas, aquelas músicas que passem uma dinâmicamusical de acordo com o trecho do vídeo no qual ela será usada. Sabe-se que asmúsicas nos transmitem diferentes dinâmicas. Segundo Gibson, “a música nos toca nosentimento e isto só é possível devido a sua dinâmica, a sua intensidade. São milhõesde dinâmicas discerníveis na música que nos afetam teoricamente, emocionalmente,fisicamente, visualmente, psicologicamente, fisiologicamente e espiritualmente” (2005,p. 191). De acordo com o “feeling” de determinada fala, de determinado trecho, dedeterminado momento do vídeo, usaremos determinada trilha para intensificar estemomento, para amplificar determinado sentimento, para conduzir psicologicamente otelespectador para determinado sentimento e emoção. Para seguir o ponto de vista deGibson, este “sentimento poderá ser físico, abstrato, emocional ou psíquico” (2005, p.191). Com relação à utilização de efeitos especiais, buscaremos utilizar-los quando foressencialmente necessário, no intuito de dar mais naturalidade ao vídeo. Buscaremosefeitos que não mascarem a realidade pesquisada. Estes efeitos são importantes paraevitar cortes bruscos nas imagens, para dar mais sutileza na transição de imagens,para tirar a monotonia na visualização de imagens muito paradas etc. No entanto 23
  30. 30. tomaremos cuidado para não mascararmos a realidade da pesquisa e para nãomudarmos a semântica das entrevistas nem das imagens captadas. Com relação aos efeitos de áudio, seguiremos o mesmo raciocínio. Tais efeitosserão utilizados quando se justificarem técnica e artisticamente, segundo a linguagemdo audiovisual e de acordo com o objetivo proposto pelo documentário. Estes efeitos deáudio, como reverb, chorus, delay, flange e outros servem para ambientar o som e paradar-lhe mais presença ou ausência dentro do espectro sonoro. Tomaremos cuidado também no momento da edição, no processo de seleção decenas, corte das imagens, ordem de aparecimento no vídeo etc. Em primeiro momento,buscaremos, no processo de decupagem, eliminar apenas as imagens que tenhamproblemas técnicos no momento da captação: áudio ruim, imagens com problemas deiluminação, com problemas de enquadramentos etc. Ainda assim, imagens comproblemas, mas que tenham falas essenciais e áudio importantes, do ponto de vista doobjetivo do vídeo, este áudio será preservado e será coberto com outras imagens,captadas no momento de pesquisa e colheita de imagens, através do sistemaconhecido como “nota coberta” na linguagem audiovisual. Haverá um cuidado essencial com o áudio do documentário, principalmente como áudio das entrevistas. Em primeiro, momento, após a escolha das imagens emontagem do documentário, este áudio será exportado pelo programa de edição devídeo e será trabalhado em um programa de edição de som como o Audacity ouSoundforge. Neste momento, haverá o tratamento da relação som/ruído, a equalizaçãodo áudio para se tornar mais audível e agradável ao ouvido humano. É neste momentoque se inserirá também os efeitos de áudio ao som das entrevistas. Far-se-á, nestemomento, também o processo de compressão do som para dar mais presença ao áudiodo documentário. Só após este momento de tratamento do áudio das entrevistas, é que serãoinseridos os outros elementos sonoros ao vídeo, como trilha sonora, efeitos sonorosetc. Este processo de mistura de sons é conhecido como mixagem. Para Gibson (2005, 24
  31. 31. p. 191)10, “A arte de mixar é a forma com que as dinâmicas são criadas através dosequipamentos do estúdio”. Para ele, “os quatro tipos de ferramentas que podemos usarpara criar todos os estilos diferentes de mixagem são: volume faders, panpots,equalização e efeitos” (p. 191). Assim procuraremos manipular todos estes elementos para criar diferentesdinâmicas no som do produto audiovisual, através do processo de posicionamentoacústico {para intensificar a construção da imagem sonora tridimensional entre os alto-falantes (GIBSON, 2005, p. 34)11, da distribuição de elementos dentro da mixagem, daintensidade, da exploração do espectro sonoro}, da construção de imagens acústicasetc. Entendemos, portanto, que o som desempenha um papel importante em umproduto audiovisual. Segundo Saboya (2001, p. 21) “Os sons podem nos levar a umaoutra dimensão. Podemos mobilizar uma audiência através dos sons e até mesmo‘viajar’ com ela para uma abstração total”. Ainda, segundo Saboya, o som é muito mais que um elemento de suporte da imagem. Pode ser usado para reforçar, fortalecer o impacto da mensagem. Pode se tornar mais forte que a imagem e conduzir as emoções da audiência para qualquer ponto desejado pelo roteirista (2001, p. 21, 22). Assim, será considerada também e principalmente a relação som e imagem doproduto. Nenhum destes dois elementos será super valorizado em detrimento do outro.Ao invés disto, eles trabalharão em conjunto no processo de transmissão da mensagemaudiovisual. Devemos distinguir dois tipos de efeitos sonoros, aqueles chamados de FX,como chorus, reverbs, delays etc. e aqueles que são criados no estúdio para serem10 WWW.musicaudio.net11 WWW.musicaudio.net 25
  32. 32. uma representação da realidade, como sons de cachorro latindo, sons de pessoasandando etc. Os efeitos musicais serão utilizados também, para atrair o interesse do ouvinte.Estes trechos musicais serão também extraídos de músicas reggae do repertórionacional e internacional. Outro ponto a considerar, em relação ao áudio refere-se ao número de canais docomponente sonoro. Os produtos atuais geralmente são construídos em estéreo 2.0,dolby digital 5.1 ou 7.1. Os dois últimos são mais interessantes já que dão a impressãotridimensional ao som. Nos filmes, eles são muito utilizados para dar ao telespectador aimpressão de que está no meio da cena. No entanto, a maioria dos telespectadoresbrasileiros ainda está restrita ao sistema estéreo 2.0, em virtude da limitação de seusaparelhos de reprodução audiovisual. Assim nós buscaremos construir o nosso vídeo com as opções de reproduçãoestéreo 2.0 e dolby digital 5.1. Buscando atender aos dois públicos possíveis. SegundoSantos (1993) o áudio dolby em uma ilha de edição é mais sofisticado e permite agravação das pistas de áudio, uma de cada vez. Na trilha 1 pode ser gravado o somoriginal e na pista 2 ser adicionada uma trilha sonora, efeitos ou um fundo musical(SANTOS, 1993, p.191) . Neste sistema, buscaremos privilegiar, no canal central, oáudio das entrevistas, e nas outras caixas distribuiremos os outros componentessonoros. Sendo que, em alguns momentos, quando houver na tela diálogos entre duaspersonalidades, estas falas serão distribuídas nas duas caixas frontais. Uma preocupação deste trabalho refere-se aos direitos autorais dos trechosmusicais utilizados no vídeo. Assim, serão devidamente registradas nos créditos todasas obras utilizadas com os seus respectivos autores. A autoração do vídeo documentário é o momento de criação de menus, inserçãode algumas legendas, etc. Este momento é essencialmente importante para dar aodocumentário um aspecto visual interessante. É o processo de finalização do vídeo, 26
  33. 33. onde todos as partes do audiovisual são reunidas, como vídeo principal, extras, makingoff etc. Voltando ao aspecto da edição do vídeo e a escolha de imagens, tal processoserá feito de forma que as vozes possam dialogar entre si, compondo o enredo dodocumentário. Neste aspecto tomar-se-á o cuidado para que um entrevistado nãoapareça por um tempo demasiadamente longo, deixando o documentário chato eenfadonho. Ao invés disto, cuidar-se-á para que o entrevistado apareça por ummomento curto, seguido por outro entrevistado que venha dialogar com ele, dandomovimento de imagens ao vídeo. Também haverá a interrupção de falas, com oesquema de “sobe som”, algum detalhe do dia-a-dia dos grupos pesquisados, imagensde ruas etc. com a finalidade de dar dinamismo ao vídeo e deixá-lo bem prazeroso deassistir. Trata-se da representação de uma realidade social, mas como diz Musburger(2008, p. 121), de forma livre, “fazer um tratamento criativo dessa realidade”. Como se trata de um documentário musical, a música será bastante valorizadano vídeo. Ela aparecerá de forma que não seja apenas um plano de fundo para asimagens e entrevistas (MAURO GIORGETTI, 2008, p. 3), Mas ela comporá de formafundamental o enredo do vídeo. A preocupação é tornar a música, um personagemdentro do vídeo assim como são todos os entrevistados. De acordo com Giorgetti(2008)12 “quando se opta por este recurso, destina-se a musica papel de complementoda ação”. Assim, a música no documentário não exercerá apenas o papel de BG, papelilustrativo ou de ambientação, mas ela se comportará de tal forma que passe a narrar ahistória juntamente com os entrevistados. Alguns elementos históricos não serãodiscutidos por nenhum entrevistado, no filme, mas será trazido pelas canções. Nãoapenas isso, mas a música em alguns momentos será elevada a tal nível que elamesma se comportará como as vozes dos personagens dentro do enredo. De tal formaque diga por eles os seus anseios, as suas vivências, seus sonhos e desejos. É o que12HTTP://www.mnemocine.art.br/index.php?option=com_content&view=article&id=112:musicapersonagem&catid=53:somcinema&itamid=67 27
  34. 34. Giorgetti sugere quando diz que a música “vem em auxilio do personagem que nãoconsegue mais exprimir-se por si próprio” (2008)13. Também na abertura e encerramento do filme, no momento dos créditos iniciaise finais, haverá a ocorrência da música trilha sonora que dá nome ao filme, “Reggae éde paz”, com o objetivo de “tentar estabelecer no início e confirmar no final o espírito ea essência que animam o filme...” (Giorgetti, 2008, p. 5).13HTTP://www.mnemocine.art.br/index.php?option=com_content&view=article&id=112:musicapersonagem&catid=53:somcinema&itamid=67 28
  35. 35. O MEMORIALEnquadramentosPara efeito de normatização desta pesquisa, utilizaremos para a noção deenquadramentos de câmera, as especificações de planos para TV, sugeridos por RudiSantos (1997, p. 21): plano geral, primeiro plano, plano médio, plano conjunto, planodetalhe.DIA 11/11/2009No dia 11 de Novembro de 2009 nos reunimos para o nosso primeiro dia de gravação.Às 15:00h gravamos sonora com o doutorando em Literatura, Marcos Aurélio, que falousobre a musicalidade negra e a utilização da Música Reggae como elemento deafirmação e reafirmação da Identidade. Para realizarmos esta gravação, utilizamoscomo suporte material, uma câmera filmadora da Sony, modelo Handy cam. Com autilização deste equipamento de captação audiovisual, e seus acessórios, enfrentamosvárias dificuldades: 1. Ausência de entrada para microfone externoO microfone externo confere uma melhor qualidade de áudio e sendo direcional aintensidade de ruído no processo de captação do som pode ser amenizada. Nestemesmo dia, estava acontecendo o Simpósio de Letras na UNEB Campus XIV e como oruído estava intenso, e muitas pessoas estavam circulando pelo ambiente, nãoconseguiríamos uma boa sonora, pois o microfone da câmera é omnidirecional e captao som vindo de todas as direções e no processo de propagação do som, as partículasexistentes no ar, são comprimidas, e essa mesma compressão é propagada até chegarao nosso microfone de captação, mesmo em situações que o som atravessaobstáculos, como uma parede, o princípio é o mesmo, a diferença é que nem só aspartículas de ar podem propagar o som, mas os líquidos e os sólidos também 29
  36. 36. (FONSECA, 2007, p. 8). Para driblarmos esta situação, nos deslocamos com oentrevistado para o Laboratório de Rádio do curso de Comunicação Social, pois oambiente do estúdio é tratado acusticamente e o ruído do ambiente externo neste caso,não atrapalhou o processo de captação do som.2. Ausência de um microfone ultra-direcionalAliado ao fato de a câmera não possuir entrada para microfone externo, não tínhamos ànossa disposição um microfone ultra- direcional, que é próprio para captar o som emum ambiente que exista muito ruído, ou quando o microfone precisa estar em umadistância considerável da fonte sonora, este microfone também chamado de Shotgun, éo ideal para ser utilizado na captação sonora de videodocumentários em ambientesexternos, e é muito vantajoso pois melhora a qualidade sinal- ruído. (FONSECA, 2007,p. 8)3. Ausência de Iluminação artificialNa entrevista com Marcos Aurélio, demos prioridade ao Primeiro Plano que “corta oentrevistado na altura do busto e é muito utilizado durante diálogos ou entrevistas (SANTOS, 1993, p. 29), porém surgiu uma outra dificuldade. Mesmo com a iluminaçãodas lâmpadas fluorescentes do estúdio, a imagem não ficou muito nítida . Paraconseguirmos um bom resultado, precisaríamos de uma iluminação artificial adequada.Acessamos a função da câmera denominada “Nightsgot” porém a melhora na qualidadeda imagem não foi significativa, ainda continuando sem nitidez e contraste em nossovisor de retorno. Com isso o nosso processo de captação ficou comprometido, devido aesta dificuldade.4. Ausência de um tripé. 30
  37. 37. Em nossa entrevista com Marcos Aurélio, queríamos uma imagem estável, o que nãofoi possível, pois não tínhamos um tripé para utilizar com a câmera e em nosso visor deretorno, notamos que em alguns momentos a imagem ficou trêmula. Neste caso o usodo tripé é indispensável, pois se ganha tempo, sem ser necessário refazer imagens porconta de instabilidade. (WATTS, 2007, p. 32)Neste mesmo dia, nossa equipe entrou em contato com a Banda de ReggaeQuixanayah, para fazermos a captação do ensaio que eles realizam uma vez nasemana. Nossa visita ficou marcada para as dezenove horas, porém uma de nossaspreocupações era a iluminação, pois no ambiente noturno a ausência dela poderiacomprometer a qualidade da gravação pelo fato de não possuirmos disponívelequipamentos de iluminação artificial para uma melhor captação das imagens. Ainexistência de um tripé, também nos preocupou bastante, pois o ensaio iria serdemorado e após este, faríamos uma entrevista. O uso do tripé nestes casos confereuma maior estabilidade à imagem com menor esforço físico do operador de câmera.(PUCCINI, 2009, p.68). Conforme combinado, comparecemos às 19 horas para fazer asfilmagens do ensaio da Banda Quixanayah. Para este trabalho utilizamosenquadramentos de câmera como: Plano Conjunto, Plano Médio, Primeiro Plano eDetalhe. Nesta gravação, utilizamos, em alguns momentos, como angulação a Câmeraalta, pois esta é utilizada para intensificar o conteúdo da cena filmada e valorizar osmembros do grupo, colocando-os em condição de autoridade diante do trabalho querealizam (SANTOS, 1993, p.65) Após o ensaio, a nossa equipe fez uma entrevista comos componentes da Banda para registrar relatos sobre a história do grupo. Dentre osplanos citados, fizemos esta variação, pois estes criam uma maior dinâmica visual aodocumentário criando possibilidades de movimento no momento da edição. Usamosesta variação de planos também para combater a monotonia de uma entrevista longatomada em um único take sem variação de enquadramentos. A mudança deenquadramentos ajuda muito no processo de edição. (PUCCINI, 2009, p. 68).Os integrantes da Banda Quixanayah sugeriram, no momento da entrevista, “que asimagens fossem colhidas a partir das pessoas reunidas na sala de ensaio, para dar aidéia de um bate-papo informal e a coisa ficar mais natural”. Concordamos então e osintegrantes ficaram sentados no chão e dispostos em um círculo. A entrevista era 31
  38. 38. conduzida de forma que todos respondessem conforme o domínio do assunto. Nãohavia uma linearidade de fala neste círculo. Quando um integrante não sabia dialogarsobre um assunto que surgia referente ao dia-a-dia da Banda, imediatamente, ele pediaque outro integrante que dominasse mais o assunto, respondesse. Sendo que odocumentário não é ficção, e que é factual e feito para demonstrar a realidade, osentrevistados ficaram da mesma forma que eles ensaiam diariamente, de acordo com oque constatamos em nossas visitas anteriores fora do processo de gravação.Geralmente, eles ficam sem camisa e seus ensaios são dentro de um cômodo quetambém é um dormitório utilizado por alguns deles. Vale ressaltar que são todos irmãos.Para não alterarmos a cena natural do dia-a-dia do grupo, procuramos registrar oensaio tal como ele é, sem cenários e sem intervir na forma como ele é feitodiariamente.Sabemos que não existe isenção absoluta. Compartilhamos com Morin (MORIN, 2002,p. 84, 85) a noção de que existe a incerteza ligada ao conhecimento. Segundo ele,existem vários princípios de incertezas, que nos impossibilitam de sermoscompletamente racionais, completamente isentos de nossas emoções, de nosso pontode vista. A construção do conhecimento é apenas uma interpretação da realidade, masimpregnada de todas as incertezas. Mas, segundo ele é necessário “enfrentar asincertezas ligadas ao conhecimento”, sabendo “interpretar a realidade, antes dereconhecer onde está o realismo”. Conscientes destas incertezas procuramos intervir omínimo possível no ambiente e no comportamento das pessoas.Acreditamos que nossos contatos anteriores com o grupo, facilitaram bastante nossainteração com ele, permitindo uma maior naturalidade de fala e comportamentos.Neste dia as imagens foram feitas por Jurandi Oliveira e Paulo Enselmo, que alternaramem alguns momentos. Terminamos nossas atividades às 21h.Dia 12/11 /2009Nossa equipe contactou o Grupo de capoeira do bairro da Pampulha, periferia deConceição do Coité, tal grupo é ligado à Associação Cultural Revolution Reggae, nossoobjetivo era captar imagens do ensaio. 32
  39. 39. Neste dia, também marcamos entrevista com Moisés Blondy, que é um dos precursoresda música Reggae no município de Conceição do Coité.Dia 15/11/2009Conforme combinado, nos dirigimos para o centro da cidade para pegarmos sonoracom Moisés Blondy, porém o entrevistado remarcou para o dia 27/11 devido acompromissos profissionais.Dia 21/11/2009Nossa equipe se dirigiu ao Centro Cultural Ana Rios de Araújo no centro de Conceiçãodo Coité, para registrar o evento da “Beleza negra”, desfile anual que ocorre em nossomunicípio para destacar participantes afro descendentes sob uma ótica estética.Chegamos ás 19:00h no local e filmamos a parte externa e as imagens ficaram muitoescuras devido a falta de iluminação. Na parte interna do Centro Cultural o ambienteestava ainda mais escuro e tornou impossível o registro de imagens sem a utilização deuma iluminação artificial. O nosso grupo finalizou as atividades às 20:00h semconseguir captar boas imagens.Neste dia as imagens foram feitas por Jurandi Oliveira e Paulo Enselmo.Dia 26/11/2009Entramos em contato com Moisés Blondy para realizarmos a entrevista, desta vez foiconfirmada para as 17 horas do dia seguinte.Dia 27/11/2009Desta vez comparecemos ao CPECC - CENTRO DE PROMOÇÃO DA EDUCAÇAO DACULTURA E DA CIDADANIA, entidade cultural de Conceição do Coité, destinada à 33
  40. 40. promoção da cultura e valorização da cidadania. Lá entrevistamos o sócio influente daAssociação, Sr Fernando Araújo. Sabendo que ele é um profundo conhecedor dacultura negra em Conceição do Coité e que milita em sintonia com outras entidadesafins como o Revolution Reggae, fizemos o possível para deixar o convidado bem àvontade e conduzimos a entrevista de forma a que ela não assumisse um caráterpuramente técnico ou formal e segundo MEDINA: A entrevista pode ser apenas uma eficaz técnica para obter respostas pré-pautadas por um questionário. Mas não será um braço da comunicação humana , se encarada como simples técnica. Esta - fria nas relações entrevistado-entrevistador – não atinge os limites possíveis da inter-relação, ou, em outras palavras, do diálogo. (MEDINA, 2002, p. 5)Durante esta entrevista utilizamos como enquadramento o Plano Médio, fizemostambém movimentos de câmera como, PAN Horizontal , zoom in e zoom out. Na parteexterior do imóvel também utilizamos o zoom in e o zoom Out. O uso do Zoom in nestecaso, foi utilizado na composição da imagem, pois o fechamento do zoom é importantepara eliminar a área morta em torno dos limites da imagem. Neste caso, o uso do zoomserve apenas para dar vida a uma imagem estática. (WATTS, 2007, p. 44). Naseqüência nos dirigimos à loja de discos MB Music no centro de Conceição do Coitépara realizarmos a entrevista com Moisés Blondy. Ao chegarmos no local, verificamosque havia um serviço de alto-falantes próximo ao estabelecimento comercial quecomprometia a qualidade do áudio. Não devemos ignorar o ruído de fundo. Uma vez nagravação, é praticamente impossível se livrar dele sem prejudicar o som que queremosescutar, mesmo numa sala de som completamente equipada. Além disso, ele poderáparecer pior na gravação do que parece na vida real. Nossos ouvidos conseguem, atécerto limite, selecionar o que queremos escutar na vida real, mas eles não funcionamtão bem quando se trata de gravações por que a fonte do ruído frequentemente nãoestá na tela e todo o som vem do mesmo lugar, o alto-falante (WATTS, 1999, p. 53). Aqualidade da imagem também estava escura, em virtude da pouca luminosidade dolocal. Para realizarmos nossa entrevista, nos dirigimos com o entrevistado para oCentro Comunitário, pertencente à Igreja Católica, que fica em frente ao local marcado 34
  41. 41. para a gravação da sonora. Apesar de o ambiente ser mais silencioso, aindacontinuamos com problemas na iluminação, pois era precária, mesmo assimconseguimos realizar a entrevista.Nós sentimos que o entrevistado ficou entusiasmado com o tema do nosso videodocumentário e fez questão de ainda complementar a sua fala, relatando a história doReggae em Conceição do Coité, relacionado ao advento das Rádios livres nomunicípio. O entrevistado ainda frisou que, na maioria das Rádios de Conceição doCoité, o grupo Jamaica apresentou programas, em maior parte aos domingos e estaação fortaleceu o movimento da música Reggae e a organização de outros grupos dacultura afro descendente na Sede e nos Distritos de Conceição do Coité. Moises Blondyainda relatou que nas festas tradicionais como o Micareta da cidade, a musica reggaeera excluída como opção musical. A inserção do Reggae, nestas festas, se deu atravésda mobilização dos grupos formados, que formularam abaixo-assinados esensibilizaram o poder executivo do município, que a partir destas ações, inseriu oReggae nas festas tradicionais.Neste dia as filmagens foram feitas por José Jurandi e Paulo Enselmo.Dia 28/11/2009Tomamos conhecimento, através de palestra ministrada na Uneb Campus XIV pelaprofessora Nilzete Cruz, sobre um livro, escrito em Conceição do Coité por OrlandoMatos Barreto, com o título “Martinha, Escrava, Esposa, Rainha” que retrata a Históriado surgimento do Maracujá, comunidade Quilombola em Conceição do Coité. Nosdeslocamos para o centro da cidade para contactar o autor desta obra, que tem grandevalor histórico e documental para o nosso vídeo. Não o encontramos em suaresidência, porém ficou certo que retornaríamos outro dia para manter contato. Nestecaso utilizamos a pesquisa bibliográfica para conseguir estes dados históricos, poissegundo Gil, A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Embora em quase todos os estudos seja exigido algum tipo de trabalho dessa natureza, há pesquisas desenvolvidas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas. Boa 35
  42. 42. parte dos estudos exploratórios pode ser definida como pesquisas Bibliográficas (1989, p. 48).Neste mesmo dia às dezoito horas nos dirigimos ao bairro do Açudinho, periferia deConceição do Coité. Lá conversamos com Beto Rasta, que segundo os músicos dacidade, também é considerado um dos precursores da musicalidade Reggae nomunicípio. Mais uma vez tivemos problemas com a iluminação e a gravação que seriaexterna, teve que ser realizada no interior da residência do entrevistado que estavamais bem iluminada. Utilizamos em nosso processo de captação enquadramentos emPlano Médio e Primeiro Plano. Também foram utilizados movimentos de câmera comozoom in e zoom out .A entrevista com Beto também surgiu naturalmente. O entrevistado se sentiu até àvontade para nos mostrar a sua coletânea de LPs, antigos discos de vinil, alguns sãode sua juventude. À medida que ele nos mostrava as capas dos discos, ia fazendo umacontextualização histórica com a sua vida na militância do movimento negro. Eleenfatizou que na época que comprava aqueles LPs, foi no período em que veio deSalvador para morar em Conceição do Coité e segundo ele, as pessoas da cidadeainda não conheciam o Reggae e passaram a conhecê-lo através das novidades emdiscos que ele trazia para a cidade. O entrevistado ainda cita que este foi um caminhomuito difícil de ser trilhado pois relata que foi discriminado por ser rastafári. Por isso,segundo ele, era comparado algumas vezes com um marginal. Mas ele cita que seubom exemplo com o passar dos anos foi a prova suficiente para que todos mudassemde conceito em relação a sua auto imagem e, hoje, segundo ele, todas pessoas emConceição do Coité o vêem como um exemplo a seguir.Na seqüência fomos à “Sambaíba” comunidade rural de Conceição do Coité, ondesegundo informações, funcionava o “Bar do Reggae”. Ao chegarmos na localidade,conversamos com o proprietário o qual nos informou que o bar encerrou suasatividades em virtude da discriminação, do preconceito da sociedade e das atitudesarbitrárias de alguns freqüentadores. As imagens que fizemos ficaram ruins em virtudeda ausência de iluminação artificial.Neste dia as imagens foram feitas por Paulo Enselmo e a entrevista por JurandiOliveira. 36
  43. 43. Dia 30/11/2009Às 17h entrevistamos Orlando Matos, autor do livro “Martinha, Escrava, Esposa,Rainha”. Na entrevista utilizamos como enquadramento o Plano conjunto. As imagensforam feitas por Paulo Enselmo e Jurandi Oliveira ficou responsável pela produção daentrevista.Dia 14/01/2010Neste dia nossa dupla dedicou-se a fazer a decupagem, assim como a transferência ea conversão das imagens captadas. Para esta tarefa, utilizamos como software deedição de imagens, o Adobe Premiere CS3 que nos possibilitou marcar o tempoexistente nos trechos selecionados e formular o nosso roteiro de edição do vídeo. Autilização deste software e de outros recursos tecnológicos como a placa de captura devídeo Firewire, facilitaram a digitalização das imagens e das fotografias dos arquivosdas Entidades (CPECC e Revolution Reggae) para serem inseridas no vídeo e segundoFerreira: A digitalização das imagens integrará o documentário nas redes de informação, irá estimular a criação de formas híbridas de realização, poderá explorar outras percepções da exploração sensorial do mundo através do filme e dinamizará as políticas de criação audiovisual. No Brasil, a redução dos custos irá incentivar uma nacionalização da produção e quem sabe, trará maior liberdade dos realizadores. O documentário voltará ser como preconizava Alberto Cavalcanti – Um terreno fértil para a experimentação (FERREIRA, 2001, p. 217).Após este processo de decupagem das imagens e entrevistas, analisamos as músicasque seriam escolhidas para compor a trilha sonora do documentário, e como a músicaReggae exerce um papel de grande influência em Conceição do Coité, procuramoscontactar os apreciadores deste gênero musical para que juntos pudéssemos escolheras trilhas adequadas para cada ação. E neste processo de escolha da trilha sonora,pudemos compreender que um dos espaços do vídeo é o reino do som, quecompreende o espaço ocupado pelos elementos que não fazem parte da tela nem do 37
  44. 44. espaço diegético – são participantes invisíveis e inaudíveis, mas desempenham umpapel importante em determinar a nossa resposta, como membros da audiência, aossons e imagens. Trata-se do espaço ocupado principalmente pelo comentário oulocução e pela música de fundo (ARMES, 1999, p.187). Às dezessete horas do mesmodia nos deslocamos para o Bairro dos Barreiros em Conceição do Coité e láconversamos com o Rasta Toinho que também é diretor de eventos da AssociaçãoCultural e Beneficente Revolution Reggae.Em sua residência, ele nos convidou para ouvir dezenas de CDs, arquivos de mp3 evídeos que retratavam a musicalidade Reggae e sugeriu músicas deste estilo musicalque poderiam ser utilizadas em nosso vídeo documentário. Ele ainda mostrou-se muitoemocionado com o tema do documentário, pois, segundo ele, o movimento Reggae emConceição do Coité, através desta ação de pesquisa e produção de vídeo, poderá terum documento audiovisual para representá-lo na cidade e também na internet,apropriando-se das novas tecnologias disponíveis na contemporaneidade. Ele aindadisse que na cidade o preconceito existente com relação aos que curtem amusicalidade Reggae ainda é muito grande, pois este ritmo vem da cultura negra econscientiza as pessoas do espaço urbano da periferia a se organizarem e lutarem pormelhores condições de vida. Seguindo nesta mesma linha de pensamento, Barberoafirma que: A música negra só obteve sua cidadania transversalmente e as contradições geradas nessa passagem certamente que não são poucas, mas ela serviu para generalizar e consumar um fato cultural brasileiro de maior importantância: A emergência urbana e Moderna da música negra (2008, p. 245)Neste momento, não realizamos gravação de imagens, pois a finalidade da visita, eraapenas para a obtenção da trilha sonora para o nosso vídeo. Vale a pena ressaltar queem dias anteriores já havíamos gravado entrevista com o Rasta Toinho e agora eletambém passou a ser um colaborador ativo do nosso trabalho de pesquisa e produçãode vídeo.Na sequência, nos dirigimos, às dezenove horas, à residência de Rudina, jovem,associada à Revolution Reggae e que participou do programa Reggae em Ação que foi 38
  45. 45. um precursor do Movimento organizado pela defesa e valorização da cultura negra emnosso município, tendo se destacado pela conscientização de seus participantes,encorajando-os a engajarem nos movimentos sociais para que juntos construíssemuma sociedade melhor, mais justa e mais humana. O Objetivo da nossa entrevista erasaber qual a contribuição daquele projeto social para sua vida, bem como qual osignificado dele e do Reggae para o movimento de mulheres que ela participa.Realizamos esta entrevista utilizando a luz natural do ambiente. Em alguns momentos,sentindo a falta de iluminação, a entrevistada nos conduziu a outro cômodo de suaresidência melhor iluminado, onde pudemos realizar de forma melhor a captação dasimagens da entrevista. Tivemos uma preocupação também com o áudio a ser captado,afastando a câmera das fontes sonoras do ambiente, a exemplo do computador queestava em funcionamento no momento da entrevista.Neste dia, as imagens foram feitas por Paulo Enselmo e a entrevista por JurandiOliveira.Dia 16/01/2010Com o intuito de verificarmos o comércio de CDs e DVDs relacionados a musicalidadereggae circunscrito no município de Conceição do Coité, visitamos as bancas devendas destas mídias no centro da cidade para que pudéssemos captar imagens querepresentassem a ação deste comércio. Neste dia, conversamos com os vendedoresambulantes para que em outra oportunidade, pudéssemos fazer as imagens. Nestemomento, aproveitamos para fotografar as bancas de CDs de DVDs, dando destaqueao que era vendido dentro do estilo da música reggae. Para isso utilizamos umacâmera fotográfica semiprofissional da marca Canon, modelo Rebel XSI com objetivazoom. As imagens registradas serviram para ilustrar o nosso documentário e para darsignificado ao cenário “comercial” da música Reggae no município de Conceição doCoité, pois Penafria (1999), citada por Santos (2006, p. 1), afirma que O documentário não é um mero espelho da realidade, não representa a realidade tal qual, ao combinarem-se e interligarem-se as imagens obtidas in loco está-se a construir e dar significados à realidade, está-se o mais das vezes 39
  46. 46. não a impor significados, mas a mostrar que o mundo é feito de muitos significados.Às onze horas nos dirigimos à Rádio Coité Fm, captamos imagens do estúdio da Rádio,momento em que o locutor “Antonio Cazary” apresentava seu programa que além detocar diversos estilos musicais, também tem a sua programação voltada para amusicalidade Reggae. Utilizamos como enquadramento de câmera o Primeiro Plano e oPlano Conjunto, como movimento de câmera utilizamos a PAN Horizontal o ZOOM IM eo ZOOM OUT. O áudio captado neste momento foi o mesmo que estava sendoexecutado nas caixas de retorno do estúdio, o que confere autenticidade às imagensgravadas. Neste momento de gravação posicionamos a nossa câmera de modo que omicrofone dela pudesse valorizar principalmente a voz do entrevistado, pois a práticasonora convencional tem a sua própria hierarquia (que pode ser quebrada para efeitoartístico): a fala é superior à música, e esta superior aos efeitos sonoros. Quando hádiversas pistas para posterior sobreposição, estas refletem a hierarquia, na práticaprofissional, apenas a fala é gravada junto com as imagens (ARMES, 1999, p. 183).Através de conversas com o comunicador, descobrimos que na Rádio Coité FM existeum programa de Reggae que é apresentado aos Domingos e que poderíamos gravarentrevistas, além de fazer a captação das imagens do programa. Também fomosinformados que existe um programa de Reggae que é apresentado no serviço de alto-falantes de “Orlando” que transmite a sua programação para a área central da cidade.Comparecemos ao estúdio do serviço de alto-falantes às onze da manhã, situado naRua Duque de Caxias, no Centro da Cidade, porém neste dia não houve apresentaçãodo programa por motivos de folga do funcionário.Neste dia as fotografias foram feitas por Jurandi Oliveira e as imagens por PauloEnselmo e Jurandi Oliveira.17/01/2010Às Dez da manhã, nos dirigimos à feira livre do município de Conceição do Coité, lugarno qual tivemos contato com vários vendedores ambulantes de CDS e DVDS quecomercializam mídias relacionadas com a musicalidade Reggae. Os comerciantes não 40
  47. 47. quiseram gravar entrevistas, pois segundo eles, estavam com medo de represálias porestarem exercendo uma atividade ilegal, mas concordaram que registrássemosimagens dos discos expostos nas Bancas. Para este registro, utilizamos comoenquadramentos de Câmera os Plano detalhe, Conjunto e Geral, como movimentos decâmera foram utilizadas a PAN Vertical e Horizontal. E para registrar a capa de um DVDà distância para depois dar um enquadramento de Plano conjunto utilizamos osmovimentos de ZOOM IN e o ZOOM OUT.Às onze horas comparecemos à igreja Matriz onde está localizado o estúdio da RádioCoité FM, onde pudemos conversar com Robson Silva, locutor da Emissora queapresenta o programa aos Sábados denominado Loves Reggae, que é especificamentedestinado a tocar canções voltadas para a temática da musicalidade Reggae. Nacaptação das imagens utilizamos como enquadramento Primeiro Plano e o PlanoConjunto. Já no processo de captação sonora, registramos o som ambiente do estúdio,equalizado na mesma altura em que os locutores ouvem naturalmente nas caixas deretorno.Neste dia as imagens foram feitas por Paulo Enselmo e Jurandi Oliveira.A Pós-produçãoO processo de edição O momento da Edição do documentário foi um processo bastante intenso comrelação às emoções. Neste momento pudemos perceber a importância das teoriastrazidas para o referencial teórico do Memorial do documentário e também pudemosperceber a importância do grande volume de imagens captadas no momento dasentrevistas. Utilizamos como Software de edição de vídeo o Adobe Premiere CS3 e, emalguns momentos, o Vegas 8.0, principalmente para extração de trechos de DVDs. Omomento da edição, nos exigiu que tivéssemos muita atenção, principalmente naseleção das imagens, pois “a edição é uma das mais importantes etapas na realizaçãode um vídeo. É através dela que os planos são organizados um a um e o vídeo adquiresua forma final” (SANTOS, 1993,190). 41
  48. 48. Antes do momento da edição e da elaboração do roteiro do vídeo, fomos aosgrupos entrevistados em busca de músicas que pudessem servir como trilha sonorapara o documentário. Eles sugeriram muitas músicas e canções. Entre as músicassugeridas apareceram artistas como Mato Seco, Adão Negro, Nengo Vieira, BobMarley, Edson Gomes etc. Fomos também até os camelôs da cidade, vendedores deCDs e DVDs nas bancas das praças públicas, e compramos alguns discos de CDs,mp3 e DVDs de Reggae. Os camelôs inclusive sugeriram alguns discos, como os maisvendidos por eles aos reggueiros da cidade. Outra ação da equipe foi pegar nos arquivos dos grupos pesquisados, fotos,vídeos, e outros elementos audiovisuais que mostrassem a história desses grupos.Conseguimos várias fotos e alguns vídeos de momentos importantes principalmente doRevolution Reggae e do CPECC. Então, todo o processo de edição começou com a exibição de todas asentrevistas e imagens que tínhamos em mãos. Assistíamos e anotávamos as imagensinteressantes e úteis, já destacando todas a imagens desnecessárias. Neste momentodo processo já íamos pensando nas músicas que poderiam ser utilizadas como trilha eBG, de acordo com o repertório musical já montado no computador. Já íamos prevendotambém as imagens de inserts que poderiam ser utilizadas. Pensávamos tambémdurante este processo sobre a possível sequência entre imagens e planos. Foi montadaentão uma planilha de decupagem com este material. No final deste processo, no entanto, não tínhamos alguns elementos cruciaispara a edição. Faltava uma imagem forte para abrir e fechar o vídeo, bem como faltavatambém a trilha sonora principal e o nome do documentário. Então surgiu a idéia de valorizar a Banda Quixanayah, um dos grupospesquisados, e pensamos em escolher como trilha sonora principal, uma de suasmúsicas. Então escolhemos duas: “Reggae é de paz” e “História Real”. Daí surgiutambém o nome do documentário, Reggae é de paz: a identidade cultural negra emConceição do Coité. Com relação ao início, pensamos em iniciar o vídeo com uma citação emcaracteres, seguida por citações curtas dos entrevistados sobre o reggae, 42

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