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16       Tudo começou em 1968 com o trabalho do Sr. Boaventura, que aprendeu a arte dacantaria com o Mestre Aurino Lopes, ...
17restaurações e outras atividades de cantaria junto com seus irmãos Laécio e Paulo. Entre elas:o Monumento em homenagem a...
18como educador em Salvador e Minas Gerais no ofício de cantaria e restauração. Não é difícilencontrar canteiros que traba...
19de Santa Luz, destaco a que fiz à Serra do Lajedo, localizada a 12 Km de Santa Luz,(foto 18)onde estão concentradas a ma...
20       A revolta expressa nas palavras do canteiro P.A.O. se refere ao deslocamento que eletem que fazer diariamente de ...
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23desorganização interessa aos beneficiados da atual situação desses trabalhadores e quefomentam essa “desorganização”.   ...
24misto de liberdade e extrema dependência. Trabalhadores que se dizem autônomos e aomesmo tempo tem alguém a quem chamam ...
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26SECRETARIA DO TRABALHO E AÇAO SOCIAL. SETRAS/CRT. Cartilha driblando operigo: prevenção de acidentes e doenças nas pedre...
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  1. 1. 1 CLÁUDIO GONÇALVES DE MATTOSO TRABALHO DOS CANTEIROS DE SANTA LUZ E AS SUAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO Trabalho de conclusão de curso em Licenciatura em História pela Universidade do Estado da Bahia, sob orientação da professora Cláudia Vasconcelos. Conceição do Coité Dezembro de 2009
  2. 2. 2“Mesmo das pedras podemos extrair coisas bonitas”. (Boaventura Abreu)
  3. 3. 1 O trabalho dos canteiros de Santa Luz e as suas formas de organizaçãoCláudio Gonçalves de Mattos*ResumoNeste artigo abordo o trabalho dos canteiros na exploração de pedras de granito em SantaLuz, interior do estado da Bahia, procurando evidenciar os pontos positivos e as dificuldadesque esta classe de trabalhadores encontra no seu cotidiano com relação às suas formas deorganização. Relato os progressos já existentes neste sentido e discuto questões que seapresentam como obstáculos nesse processo.Palavras-chave: Canteiros, classe trabalhadora, organização.AbstractIn this paper I present the work of the beds in the operation of granite stones in Santa Luz,interior of Bahia state, seeking to highlight the strengths and difficulties that this class ofworkers is in their daily lives in relation to their forms of organization. Reporting the progressalready in this direction and discuss issues that present themselves as obstacles in the process.Keywords: flowerbeds, working-class, organization. 1. Introdução Santa Luz é um município do interior do estado da Bahia, localizado àaproximadamente 258 km da capital Salvador, situado na região sisaleira, no semi-áridobrasileiro1. Sua população, estimada em 2004, era de 31120 habitantes, segundo o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A cidade é conhecida no estado como umadas maiores produtoras de pedra. A pedra de granito extraída em Santa Luz ainda é totalmentetrabalhada no local de extração, nas chamadas pedreiras, onde é transformada em laje, meio-fio, paralelepípedos, principal produto vendido para calçamentos de várias cidades,especialmente do interior da Bahia. Também é extraída a chamada pedra-bruta, usada parafazer alicerce de construções. A brita, produzida tanto em britadores quanto manualmente, é*Estudante do 9º Semestre de Licenciatura em História da UNEB – CAMPUS XIV, professor de Matemática emEscola Estadual há 17 anos. (cgmvitoria@yahooo.com.br).1 http://www.febraban.org.br
  4. 4. 2outro produto muito procurado. (Ver fotos 01 a 04). O artesanato na pedra, trabalho realizadopor moradores da cidade, como a família Boaventura, é reconhecido internacionalmente. Aexploração e transformação da pedra de granito constituem-se em uma importante fonte derenda da população luzense.FOTO 01 – PEDRA BRUTA USADA EM ALICERCE FOTO 02 – PARALELEPÍPEDOS USADOS EM CALÇAMENTO DE RUAS FOTO 03 – LAJES USADAS EM CALÇADAS FOTO 04 – BRITA USADA EM CONSTRUÇÃO Apesar de ser uma das principais fontes de renda da população, a maioria dostrabalhadores da pedra encontra-se na informalidade, ou seja, não tem carteira assinada nemestão associados a nenhum sindicato ou associação. O que tem ocorrido, segundo RicardoAntunes (1998), é “uma metamorfose no universo do trabalho”. Alguns setores se qualificam,
  5. 5. 3enquanto outros permanecem estagnados. Ainda ocorrem muitos acidentes, inclusive commutilações e até mesmo morte. As famílias dos trabalhadores das pedreiras não têm nenhumasegurança e vivem à mercê da sorte. Há relatos surpreendentes que nos dá a idéia da situaçãode risco e desamparo em que vivem os trabalhadores nas pedreiras de Santa Luz, a exemplodo Sr. Paulo Ponciano em entrevista concedida ao MOC (Movimento de OrganizaçãoComunitária): “Sobrevivo da ajuda da minha esposa e dos meus filhos. No tempo de frio sintomuitas dores na mão que fora mutilada. Tenho que conviver com essa dor pelo resto davida”.2 Vários fatores são prejudiciais à saúde dos trabalhadores (ODDONE, 1986 apudNUNES, 2002, p. 10). As más condições de trabalho, os problemas sérios de saúde causadospelo serviço insalubre, a baixa remuneração, a degradação do meio ambiente e outras mazelasdessa classe de trabalhadores merecem atenção, porém, o que pretendo analisar no presenteartigo são os motivos que dificultam equacionar estes problemas. Para analisar tais questõesparto do pressuposto que a organização, não necessariamente a associação em sindicato, masa organização da classe seria uma possível solução, contudo são os sujeitos envolvidos nessecenário que darão respostas para estas perguntas. Nesse intuito foram realizadas visitas aoslocais de trabalho e entrevistas com os trabalhadores da pedra, associados ou não ao sindicato,membros do sindicato, profissionais de outras áreas, poder público, políticos, empresários erepresentantes da sociedade civil organizada. Sabemos que no município de Santa Luz existe o Sindicato dos Trabalhadores daPedra de Santa Luz, que conta com menos de dez por cento dos trabalhadores, o que nos levaa acreditar que existam motivos importantes para que essa classe não se organize de outrasformas, já que, aparentemente, há uma resistência em relação ao sindicato. Se existeproblemas com o Sindicato, quais seriam? Se realmente esses problemas existem, quais asalternativas? Quais os motivos que emperram a organização dessa classe? “A história de qualquer classe não pode ser escrita se a isolarmos de outras classes,dos Estados, instituições e idéias que fornecem sua estrutura”. Hobsbawn, (1987, p 11). Dessaforma, a atuação do poder público nesse contexto vai ser discutida. A influência político-partidária, a questão previdenciária, a burocratização e a capitalização dos sindicatos, outrosfatores de ordem econômica, política e social também serão tratados, não isoladamente, masfazendo parte desse contexto complexo que é a atual situação dos trabalhadores da pedra em2 Canteiro Paulo Ponciano, em entrevista publicada no site do MOC www.moc.org.br em 03/11/2005.
  6. 6. 4Santa Luz, levantando os motivos que dificultam a organização dessa classe, cuja maioria,não tem nenhuma representação legal para defender seus interesses. Segundo o memorialista Nelci Lima da Cruz 3, a exploração de pedra na região deSanta Luz teve início antes mesmo da emancipação do município. No final do século XIX einício do século XX, a exploração de pedra para fazer paralelepípedos já era realizada nomunicípio e o transporte era feito em carroças com tração animal até a estação ferroviária, deonde os paralelepípedos eram transportados de trem para outras cidades da Bahia.Curiosamente, nesse período, alguns trabalhadores da pedra tinham carteira assinada,conforme relato de Nelci Lima da Cruz, em entrevista concedida no dia 10 de novembro de2009. Atualmente não se tem conhecimento de nenhum canteiro, operário que lavra pedras,que trabalhe com carteira assinada ou que pague a previdência como autônomo. Será que essaprática de se trabalhar sem carteira assinada consolidou-se naturalmente ou foi uma estratégiapensada pelos empregadores? Justamente buscando entender esta situação dos canteiros que se dizem autônomos eao mesmo tempo falam em “patrão”, quando se referem aos comerciantes que compram suaprodução de pedra, é que surgiu a idéia de explorar este tema. Se estamos falando de umaclasse de trabalhadores que já existe a mais de um século, porque as conquistas desta classenos parecem tão tímidas?. A visão que temos do trabalho nas pedreiras e o que foi escrito atéhoje sobre esses trabalhadores condizem com a visão dos mesmos? Quais as experiências bemsucedidas dentro desta classe? Qual papel tem desenvolvido o Sindicato dos Trabalhadores daPedra de Santa Luz? Qual tem sido a atuação do Poder Público? Levantaremos estas questõesno decorrer desse artigo.2 A exploração da pedra de granito em Santa Luz: Segundo Diagnóstico Setorial sobre a exploração de pedras em Santa Luz, realizadoem 1999 pelo SEBRAE (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas da Bahia), aslimitações do clima e as dificuldades de acesso à terra, levaram muitos trabalhadores rurais ase dedicarem à extração de granito na região de Santa Luz. O grande potencial das jazidasdesse minério deixaram Santa Luz na condição de maior produtora de pedra de granito daBahia no ano de 1999, conforme Diagnóstico Setorial, porém, não foi o suficiente paramelhorar as condições de vida e trabalho dos canteiros.3 Nelci Lima da Cruz é professor e memorialista de Santa Luz e tem alguns livros publicados como MemóriasHistóricas de Santa Luz.
  7. 7. 5 A exploração de pedra em Santa Luz, ao longo dos anos, tem se configurado em umcomércio instável para os canteiros. O período em que a demanda aumenta corresponde àsvésperas das eleições municipais e estaduais, quando as prefeituras injetam verbas nos setoresde construção civil e pavimentação. Passado este período, o preço da pedra cai e a situaçãovolta a ficar crítica. Essa é uma postura de grande parte dos municípios brasileiros no trato dasverbas públicas e uma prática comum de se trabalhar mais no período de campanha eleitoral.Interpretando o clientelismo como uma estratégia eleitoral, Mariana Borges Martins da Silva4lembra que, independente do partido político, conforme a conjuntura pode-se esperar que estelance mão deste tipo de estratégia. Com essa prática, a maior parte do lucro fica nas mãos dosatravessadores e empresários que entram em cena, principalmente quando aumenta ademanda. É neste contexto histórico, social, político e econômico que tem se formado a classedos trabalhadores da pedra em Santa Luz. De acordo com Nelci Lima da Cruz, as atividadesde exploração de pedra de granito em Santa Luz datam de mais de cem anos de existência. Oque se pode perceber é que o trabalho dos canteiros continua artesanal praticamente em suatotalidade. Para se ter uma idéia do tímido avanço tecnológico nesse setor, segundo dadoscoletados com os próprios canteiros, o que estes aprenderam com pais e avós continuampassando para seus filhos, não acontecendo nenhuma mudança considerável no processo deextração e beneficiamento da pedra. Segundo SIVIERI, 1996 apud NUNES, 2002, p.18, oscanteiros trabalham em constante situação de risco. O processo de extração e beneficiamento da pedra de granito pode começar a serentendido, em todas as suas etapas, nas palavras de Gilberto Lopes da Silva, canteiro quetrabalha há mais de vinte anos nas pedreiras de Santa Luz: “... a pessoa tem que ver o tipo da pedra, escolher uma pedra que não teja enterrada, apesar de hoje as pedra descoberta que não tão sendo trabalhada tá em lugar que o caminhão não pode subir, tá mais difícil encontrar pedra boa, tem pedra que não dá pra tirar material. Tem de ver o tipo da pedra, tem uma que não tem corte, não tem natureza, tem que ver aquelas que tem uma face mais... umas lateral mais certa que é as mais que...ela já tendo uma lateral certa, uma face certa, já é um corte ali...já aproveita e vai procurar mais dois corte ali, porque a pedra tem três corte: corrida, segundo e trincante.5 Essa linguagem é bastante comum entre os canteiros: “corte”, “trincante”, “corrida”,“segunda”. Para melhor entendimento entre nós, leigos, pedi para que Gilberto nos falasse4 Mestranda em Ciência Política, IUPERJ. Artigo Porque voltar ao clientelismo? Considerações sobre ogovernismo no Brasil.5 Entrevista com o canteiro Gilberto Lopes da Silva, realizada em 16/10/2009.
  8. 8. 6mais sobre esse conhecimento valioso e decisivo na escolha de uma pedra a ser trabalhada.Vale salientar que estamos falando de um morro de pedra que varia de formatos e tamanhos,(Ver foto 05). A escolha é fundamental e os primeiros cortes, se não seguirem a “natureza” dapedra, como relata Gilberto, “pode desandar todo trabalho e perder a pedra e o trabalho”. Pra quadrar uma pedra você tem que dar três tipo de corte: a corrida é o veio da pedra, é onde ela corta mais fácil, é o melhor corte, o corte da produção é a corrida. Depois da corrida vem o “segundo corte”, que é o melhor corte depois da corrida, não é tão bom como o primeiro e, por último vem o “trincante”, que é o mais ruim, é o corte que a gente deixa por último, porque nesse você vai ter mais trabalho, ele não corta certo como os outros, é mais duro, corta quebrando a pedra em lascas. Se não tiver cuidado perde o bloco da pedra. É difícil você acertar os três cortes de primeira. Sempre a gente acerta a corrida e os outros a gente descobre trabalhando. Aqui na Serra o primeiro corte, a corrida, sempre dá de “alevante”. 6 FOTO 05 – MORRO DOS LOPES (LOCALIZADO A 2 KM DE SANTA LUZ) CITADO POR EUCLIDES DA CUNHA NO LIVRO OS SERTÕES. SUAS PEDRAS COMEÇARAM A SER CORTADAS E COMERCIALIZADAS. HOJE É PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ESTÁ PROTEGIDO POR LEI. NAS REDONDEZAS DESTE MORRO VÁRIAS PEDREIRAS ESTÃO INSTALADAS. Como podemos perceber, cortar umapedra requer conhecimento do trabalho queestá sendo realizado. Quando o entrevistadose refere à Serra, trata-se do seu local detrabalho que é a Serra do Lajedo, distantecerca de 12 Km de Santa Luz. Ele afirma quelá a “corrida” sempre dá de “alevante”, ouseja, a corrida que é o veio da pedra, osentido em que a pedra corta com maisfacilidade, na maioria das vezes se dá na FOTO 06 – O CANTEIRO JOSÉ NASCIMENTO FURANDO UMA MINA MANUALMENTE PARAhorizontal, que na linguagem dos canteiros é DETONAÇÃO.“alevante”. Creio que devido à explosão que6 Idem.
  9. 9. 7corta a pedra ao meio, na horizontal, impulsionando de forma premeditada o bloco cortadopara cima, tenha originado a expressão. O fato de a maioria das pedras cortarem maisfacilmente na horizontal, “alevante”, deve ter uma explicação geológica, o que não é o nossoobjetivo estudar esta questão. Depois de explicar o processo de escolha da pedreira em função dos diferentes tipos decorte que pode ser dado na pedra, Gilberto explica o processo de perfuração e detonação (Verfoto 06), este último que eu considero o mais perigoso: Pra começar tem que furar os fogo e detonar. Pra furar depende do tamanho da pedra, pra vê se vai furar um metro ou dois metros ou um metro e meio ou oitenta, depende... Pra furar a pedra a gente usa broca, começa com uma de 10cm, depois de 20cm, depende do tamanho da pedra... depende da posição do furo. Um fogo desse por cima, um fogo de um metro e oitenta por cima, sendo duas pessoa trabalhando, eu com o macaqueiro, como chama, fura ne um dia, pode não dá pra furar e detonar ela no mesmo dia, mas dá pra furar ne um dia uma mina dessa... se for no compressor fura em dez minutos7. O processo de furar o fogo, como os canteiros se referem ao processo de abrir umorifício na pedra de mais ou menos 5 cm de diâmetro para depois carregar com pólvora edetonar, é feito com brocas, espécie de ponteiro de aço que é batido na pedra com duasmarretas. Em uma pedra podem ser dados de três a cinco furos deste tipo para iniciar otrabalho. Conforme vai aprofundando o furo, são usadas brocas maiores. Nesta etapa trabalhao canteiro e o “macaqueiro”, nome dado ao ajudante do canteiro, e é assim definida porGilberto: “Eu seguro a broca, bato com a marreta de um quilo e o outro bate com a marreta detrês quilos. Eu bato e quando tiro a minha ele bate também em cima”. Pode-se perceber orisco que corre quem está segurando a broca para o ajudante bater com uma marreta de trêsquilos, vale lembrar que nesse processo não se usa luvas ou qualquer outro equipamento desegurança. Os furos podem chegar a mais de dois metros de profundidade na dura pedra degranito. Muitos acidentes ocorrem nessa etapa da perfuração. O compressor, equipamentousado para perfuração que tem custo de manutenção bastante elevado, substitui todo esseprocesso. Porém muitos continuam a fazer o “fogo” manualmente em perfurações mais rasas,deixando as mais profundas para o compressor. Segundo o geólogo A.M.L., da CBPM(Companhia Baiana de Pesquisas Minerais): A CBPM mantém uma relação de apoio à produção de paralelepípedos, através de perfuração de rochas com compressor. A CBPM mantém em Santa Luz um veículo7 Idem.
  10. 10. 8 Toyota com motorista, um compressor e duas perfuratrizes para dar apoio aos canteiros. Hoje os custos giram em torno de nove mil reais por mês. 8 O Tesoureiro da Cooperativa dos Trabalhadores da Extração de Pedras de Santa Luz,Júlio Arilson, lembra que o compressor está acessível a todos os canteiros, independente deserem sindicalizados ou não, até o final deste ano de 2009. A partir de 2010 a CBPM não vaimais arcar com as despesas, deixando o compressor sob a guarda dos canteiros que assumirãoos custos. Esse processo ainda está em discussão, mas nos dá uma idéia de que o poderpúblico cada vez mais procura não se comprometer com essa classe de trabalhadores, outromotivo que exige da mesma uma postura coletiva. Depois de perfurado o orifício, chamado de “fogo” pelos canteiros, segue a etapa decarregamento e detonação dos explosivos. Depois do furo tem que riscar, que chama raiar. Com uma taiadeira mais larga do que o furo faz um talho dos dois lados do furo, é para a pedra cortar no sentido que você quiser. Carrega com pólvora e soca com barro e pedra podre. Vai botando aos pouquinhos e vai batendo com um socador de ferro e com uma marreta. Não pode botar o socador de ferro nos primeiros bolos de barro... quando já tiver uns cinco centímetro pode socar com o socador de ferro. O estopinho é botado junto com a pólvora e depois que bota o barro e soca tá carregado o fogo e é só queimar o estopinho e sair de perto.9 O uso do “socador” de ferro não é uma prática de todos os canteiros. Muitos achamperigoso e usam um instrumento de madeira para carregar o “fogo”, do início ao fim doprocesso. Segundo o canteiro Gilberto, usar o socador de ferro depois que se coloca umacamada de barro e bagaço de pedra sobre a camada de pólvora não representa perigo.Segundo ele, a maioria dos acidentes ocorre quando o fogo “encrava”, ou seja quando adetonação falha. O processo de desencravar o fogo é o que mais tem ocorrido acidentes,inclusive com morte. O objetivo do fogo é “quadrar” um bloco de pedra. Quadrar na linguagem doscanteiros é cortar um bloco retangular, o que na maioria das vezes não é possível apenas como processo de detonação (Ver foto 07), exigindo um processo de acabamento posterior.Retirado o bloco retangular começa o processo de corte sem explosivo. É a chamada retiradadas “foletas”, que devem seguir o veio natural da pedra. As foletas são fatias de 10 cm, para aprodução do paralelepípedo e meio-fio, usados em calçamentos de ruas, ainda podem ser8 Entrevista realizada com o geólogo da CBPM, em 08/11/09.9 Entrevista com o canteiro Gilberto Lopes da Silva, realizada em 16/10/2009.
  11. 11. 9retiradas “foletas” de 5 cm de espessura na fabricação de lajotas usadas em calçadas (Verfotos 08 e 09). Esse processo de retirada das “foletas” é descrito por Gilberto: Um bloco de 4x4 no caso, ele tendo um metro de altura o cara corta no pixote, não precisa mais fogo. Risca primeiro com a taiadeira e faz os buracos pra botar os pixotes... chama pixote, tipo uns prego. Os buraco dos pixote tem que ficar no risco da taiadeira. Depende do tamanho da pedra... pode botar um pixote, dois, três... oito e bate com o marrão e a pedra abre certinha.10FOTO 07 –CORTE NA PEDRA ATRAVÉS FOTO 08 – CORTE SEM EXPLOSIVO PARADE EXPLOSIVO RETIRADA DAS “FOLETAS” FOTO 09 – BLOCOS CHAMADOS PELOS CANTEIROS DE “FOLETAS” PARA A PRODUÇÃO DE PARALELEPÍPEDOS, MEIO-FIO E LAJOTAS.10 Idem.
  12. 12. 10 Percebemos no relato de Gilberto sobre o processo de exploração e transformação dapedra que várias ferramentas são usadas. Para um melhor entendimento segue algumas fotosdas ferramentas mencionadas até agora: Fotos 10 e 11. FOTO 10 – PONTEIROS FOTO 11 – BROCAS E PIXOTES As ferramentas são de aço e são fabricadas e cuidadas pelos próprios canteiros.Utilizam peças de carro, como estabilizadores, no fabrico dessas ferramentas. Além de terconhecimento do trabalho com a pedra, o canteiro precisa desenvolver habilidades de ferreiro(Ver foto 12). Segundo Gilberto: As ferramentas a gente mesmo faz aqui, corta no fole. A gente usa fole, carvão, banheira de botar a ferramenta quando aponta... pra poder ela ficar dura...ai tem uma de água e uma de óleo queimado... óleo lubrificante. As banheira é de pedra. Tem aço que é forte demais, se botar na água ele quebra e outro é mole, se botar no óleo ele fica mole... na hora de trabalhar ele fica amassando, tem que botar na água. Só descobre trabalhando. Explorei as palavras do experiente canteiro Gilberto Lopes da Silva, para dar uma noção geral do trabalho de exploração de pedra de granito no município de Santa Luz. As condições em que se dá esta atividade, as dificuldades, as conquistas, assim como as experiências bem sucedidas serão tratadas a seguir.FOTO 12 – FOLE USADO PARA APONTAR FERRAMENTAS
  13. 13. 113 Ouvindo a voz do sindicato De acordo com Canêdo (1991), a palavra “sindicato” só passou a ser usada a partir de1870 na Europa. Segundo Hobsbawn, citado pela referida autora, foi também nesse períodoque apareceram as palavras “indústria”, “socialismo” e “capitalismo”. Todas estas palavrasforam descendentes das associações profissionais de trabalhadores que surgiam,especificamente na Inglaterra, entre o final do século XVIII e início do século XIX. Para nós, brasileiros, a consolidação de uma classe trabalhadora, organizada sob oponto de vista político e social, surgiu apenas no final do século XIX e, de forma diferenciadados países europeus, não estava diretamente ligada à indústria, mas sim ao processo deexpansão da economia cafeeira. Na época as indústrias existentes encontravam-se dispersas,dificultando a comunicação entre os trabalhadores. Para Canêdo: Foram as necessidades da economia capitalista de exportação, baseada no café, que propiciaram profundas modificações no sistema de transportes e nos serviços portuários, criando diretamente as condições para a formação de um primeiro núcleo de trabalhadores livres. Indiretamente, foi também esta mesma economia de exportação que preencheu os requisitos necessários para o surgimento e concentração do proletariado fabril na região sudeste, em cujas cidades as primeiras organizações de trabalhadores tomaram impulso (1991, p. 25). Percebemos que a formação da classe operária brasileira se deu de forma diferente daeuropéia e, se insistirmos na comparação, de forma tardia. Há de se considerar as diferençasque permitiram tal disparidade, porém, independente do contexto, para que uma classeoperária possa se firmar como tal é necessário, segundo Canêdo (1991), que exista o mínimode comunicação entre seus membros e, principalmente, uma motivação. Passando a olhar oscanteiros de Santa Luz como classe operária, precisamos fazer algumas análises de suastentativas de organização. No ano de 1985, conforme entrevista concedida em 29 de setembro de 2009, pelosenhor Carlos Matos, Secretário da Cooperativa dos Extratores de Pedra de Santa Luz, foicriada uma associação denominada Associação Profissional dos Trabalhadores na Indústria deExtração de Mármores, Calcários, Pedreiras, Granitos de Santa Luz. Através desta Associaçãoos canteiros realizaram várias reivindicações em nome da classe. Em 1987 essa Associaçãofoi transformada no Sindicato dos Trabalhadores da Pedra de Santa Luz (Foto 13).
  14. 14. 12 Nos seus vinte e dois anos de existência, segundo o Senhor Carlos Matos, uma das principais lutas encampadas pela classe, nesse período, tem sido a busca da aposentadoria especial para os canteiros. Outras atividades têm sido realizadas em parceria com o MOC (Movimento de Organização Comunitária), a SETRAS (Secretaria do Trabalho e Ação Social), o SEBRAE (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas da Bahia), entre outras instituições. FOTO 13 – SEDE DO SINDICATO Dentre as atividades desenvolvidas podemos destacar o trabalho de prevenção deacidentes, que busca conscientizar os canteiros da importância do uso de materiais desegurança no trabalho, palestras como a realizada por representantes do Exército brasileiro,orientando os canteiros no manuseio de explosivos. Segundo Júlio Arilson, tesoureiro daCooperativa, a inclusão dos filhos dos trabalhadores da pedra no PETI ( Programa deErradicação do Trabalho Infantil) foi uma vitória do Sindicato, uma vez que essas criançasnão eram contempladas neste programa. Atualmente o Sindicato tem um programa que vai aoar todas as segundas-feiras em uma rádio local, onde são veiculadas as notícias sobre oscanteiros e o trabalho nas pedreiras. Também, ligada ao Sindicato, foi criada em 1997 a Cooperativa dos Trabalhadoresda Pedra de Santa Luz, esta com o objetivo de escoar a produção dos canteiros por um preçomelhor fugindo dos compradores intermediários chamados de “atravessadores”. Os sócios daCooperativa também são associados ao sindicato. O pagamento da pedra pela cooperativa éfeito por quinzena e, por iniciativa da cooperativa, foi extinto o “vale”, forma de pagamentoutilizado pelos compradores de pedra que consiste em uma ordem de compra a ser efetuadaem um determinado estabelecimento comercial. Retomaremos posteriormente a discussãosobre essa forma de pagamento utilizada com grande freqüência nesse setor. Aparentemente, pelo que foi exposto até aqui, a classe dos canteiros de Santa Luz éforte no sentido de organização de classe e representação sindical, porém, o que se podeverificar é que dos mais de mil trabalhadores da pedra, apenas trezentos são sindicalizados,sendo que destes, menos de cinquenta estão em dias com sua situação no sindicato. Entre ossindicalizados apenas cerca de trinta e cinco participam ativamente da Cooperativa, ou seja,
  15. 15. 13fornecem sua produção para o sindicato, os demais vendem sua pedra aos compradoresintermediários. Para Bernardo e Pereira (2008) a queda do percentual de sindicalizados noBrasil está ligada à capacidade dos trabalhadores em gerir suas próprias lutas. Passemos aanalisar os motivos desta situação específica do Sindicato dos Trabalhadores da Pedra deSanta Luz por dentro do sindicato. Sabemos que a história do sindicato no Brasil aponta para um momento que não é dosmelhores. Na década de 90, Ricardo Antunes já alertava: Os sindicatos estão aturdidos e exercitando uma prática que raramente foi tão defensiva. Abandonam o sindicalismo de classe dos anos 60/70, aderindo ao acrítico sindicalismo de participação e de negociação, que em geral aceita a ordem do capital e do mercado, só questionando aspectos fenomênicos dessa mesma ordem. Abandonam as perspectivas emancipatórias, da luta pelo socialismo e pela emancipação do gênero humano, operando uma aceitação também acrítica da “social-democratização”, ou o que é ainda mais perverso, debatendo no universo da agenda e do ideário neoliberal (1999, p. 72). A situação do Sindicato dos Trabalhadores da Pedra de Santa Luz tem suasespecificidades que devem ser consideradas. Não podemos falar de capitalização destesindicato considerado por Antunes (2008) “uma praga que vem avassalando sindicatos”, umavez que o mesmo não dispõe de capital devido ao número reduzido de associados queimpossibilita a acumulação de capital. A burocratização dos sindicatos, que segundo,Bernardo e Pereira (2008), é outro motivo da decadência da organização sindical também nãose pode aplicar ao Sindicato dos canteiros de Santa Luz, que conta com um número reduzidode dirigentes, tendo como presidente do sindicato um canteiro em atividade que não pode serconsiderado um burocrata sindical. Outra situação atípica que dificulta a organização do movimento sindical dos canteirose deve ser considerada é a presença do inimigo oculto, ou seja, a classe dos canteiros seconfunde com o autônomo que tem um “patrão”, como alguns deles tratam os compradores depedra, e que na realidade não tem nenhum vínculo empregatício com este “patrão”. Uma dasprincipais características do sindicato é ser combativo, tendo como principal alvo o patrão, oempresário. No caso dos canteiros há uma rede de exploração montada onde não existe uminimigo visível, ou seja, combater e reivindicar nessas condições torna-se uma árdua tarefapara o sindicato. Segundo o Sr. Carlos Matos outra dificuldade em conseguir mobilizar a classe se tratano fato de que:
  16. 16. 14 Cinquenta ou sessenta por cento dos trabalhadores da pedra tem uma roça. Trabalha na pedra mas tem uma roça. Na época que chove vai fazer uma plantação de feijão, milho, mandioca, certo? E aí ele vai pra outro sindicato que é o sindicato do trabalhador rural que lhe dá direito a uma aposentadoria e ai dizem: “aquele sindicato da pedra não presta não”. A gente tem visto muito isso e pra gente é uma dificuldade muito grande para juntar mais pessoas, mas, por outro lado a gente fica feliz porque eles têm outro lado.11 O fato de não ter uma garantia previdenciária realmente torna-se um complicador namobilização da classe. Por outro lado, não se pode deixar passar despercebido, a situação queparecia favorável ao sindicato podendo contar no governo estadual e federal com um aliado,que é justamente o Partido dos Trabalhadores. A representação política do sindicato nãomostrou nenhum avanço no sentido de cobrar de seus aliados a aposentadoria especial para oscanteiros, inclusive foi votada uma emenda referente a esta questão, em que vários segmentosforam contemplados e os canteiros foram excluídos. Retomaremos esta discussãoposteriormente na voz dos canteiros. O Sr. Carlos Matos, reconhece que, de uma forma geral,“depois que elegeu um governo de esquerda o sindicato retraiu-se muito”. Podemos perceberna fala do Sr. Carlos Matos que as lideranças político-partidárias que representam o Sindicatonão têm demonstrado força ou interesse suficiente para defender a classe e que por outro ladoo sindicato não parece se sentir a vontade para manter uma postura combativa frente aos seusaliados políticos. Outro elemento dificultador apontado pelas lideranças da Cooperativa dosTrabalhadores da Pedra de Santa Luz é a falta de apoio do poder público local. SegundoAlcides Alves Monteiro, presidente da Cooperativa: Não existe apoio do poder público. Santa luz hoje é o maior produtor de pedra. Eu costumo dizer que os trabalhadores da pedra são os embelezadores das cidades e precisam ser olhados com outros olhos, ser mais valorizados, ter políticas voltadas para esses trabalhadores. 12 Podemos perceber que o Sindicato dos Trabalhadores da Pedra de Santa Luz temagido dentro de suas possibilidades. O pouco número de associados contribui para oenfraquecimento da organização. Um dos maiores motivos desse esvaziamento ainda é a faltade seguridade junto à previdência, como já foi dito pelo Sr. Carlos Matos. O ex-canteiroJustino, hoje funcionário público, fez parte do sindicato e testemunhou a luta da entidade pelaaposentadoria especial para os canteiros:11 Carlos Matos em entrevista concedida em 29/09/2009.12 Alcides Alves Monteiro em entrevista concedida em 29/09/2009.
  17. 17. 15 Os trabalhadores da pedra, além de trabalharem numa atividade perigosa, uma atividade de risco, uma atividade que requer o máximo de cuidado e atenção, ainda tem que viver desamparado em relação à questão previdenciária. Quando um companheiro se acidenta fica a ver navios, dependendo de ajuda dos amigos. Muitos acidentes acontecem, companheiros que perderam braços, visão e outros que ficam com seqüelas pro resto de suas vidas. Vendo essa situação o sindicato, junto com entidades parceiras, lutaram pela seguridade especial para os canteiros, mas essa luta está barrada na burocracia do país lá em Brasília. 13 Diante de tantos entraves, alguns canteiros passaram a se organizar criativamente porconta própria. Vejamos o exemplo da família Abreu que se destacou como canteiros,escultores e restauradores.4. A arte na pedra: uma experiência de organização que deu certo Pelo que vimos até aqui, a situação da classe dos canteiros de Santa Luz pareceinsolúvel no que se diz respeito à organização da mesma. Para os mais pessimistas ouinteressados na manutenção dessa política capitalista ditada pelo mercado, em que a “mãoinvisível” desse mercado move e controla a economia, a situação está definida. Seanalisarmos com mais atenção veremos, dentro desse mundo dos canteiros, algumasexperiências alternativas que deram e continuam dando resultados. Vimos que os poucosassociados ao sindicato contam com algumas vantagens se comparados com a grande maioriados outros canteiros. Passemos a analisar uma experiência bem sucedida no trabalho decantaria e escultura em pedra, realizada pela família Abreu, mais conhecida como famíliaBoaventura, em Santa Luz. O Senhor Boa Ventura Abreu, mais conhecido como Ventura, mudou a história dafamília Abreu de Santa Luz, que passou a ser conhecida na Bahia e no Brasil como famíliaBoaventura, pelos seus trabalhos realizados nas pedras de granito de Santa Luz que seespalharam pela Bahia e pelo Brasil, chegando a serem utilizadas como artefatos parapresente até mesmo no exterior, como por exemplo, uma encomenda de um bispo parapresentear o então papa João Paulo II. O famoso jogador de futebol Zico também foipresenteado com uma peça esculpida em granito pelas mãos da família Boaventura. Esses sãoapenas alguns exemplos da propagação da arte na pedra de granito citados por Laécio Abreu,filho do Sr. Boaventura, em entrevista concedida em 09/11/2009.13 Ex-canteiro Justino em entrevista concedida em 12/11/2009
  18. 18. 16 Tudo começou em 1968 com o trabalho do Sr. Boaventura, que aprendeu a arte dacantaria com o Mestre Aurino Lopes, conforme reportagem veiculada na revista Panorama daBahia em 29 de agosto de 1986. Naquela ocasião Boaventura afirmava que “mesmo daspedras podemos extrair coisas bonitas”. Hoje o Mestre Boaventura, assiste com orgulho osfilhos Laécio, Everaldo e Paulo, que dão continuidade na arte de esculpir em pedra quecomeçou há quarenta e um anos. Everaldo Matos Abreu, nascido em Santa Luz, iniciou seu trabalho de cantaria aindacriança, seguindo os passos de seu pai. Em momento algum Everaldo deixou de freqüentar aescola, segundo Everaldo, uma das principais exigências de seu pai. Seu primeiro trabalho emrestauração foi no ano de 1994 no Liceu de Artes e Ofício da Bahia, conforme entrevistaconcedida em 08/11/2009. No ano seguinte foi convidado pela Faculdade de Arquitetura daUniversidade Federal da Bahia (UFBA) a ministrar um curso de Cantaria, onde os alunoseram operários de prefeituras e empresas de construção civil. Em março de 1997, foi convidado novamente pela Faculdade de Arquitetura daUniversidade Federal da Bahia (UFBA), através do professor e arquiteto Luiz Botas Dourado,a participar de um projeto de profissionalização de jovens carentes, onde trabalhou comoinstrutor de cantaria na antiga Faculdade de Medicina da Bahia. Em 2001, participou de umaseleção para um projeto do Ministério da Cultura, chamado Monumenta, que o levou à Itáliapara aperfeiçoar sua técnica em restauração no Centro Europeo di Venezia per i mestieri dellaconservazione del patrimônio architettonico, na cidade de Veneza, com duração de trêsmeses. (Foto 14) Ao retornar ao Brasil em dezembro de2001, participou do Projeto de EducaçãoProfissional para o Restauro e Conservação, em Ouro Preto – Minas Gerais, promovido pelo Programa Monumenta. Através deste, foi indicado FOTO 14 – EVERALDO (O SEGUNDO DA ESQUERDA PARA A DIREITA) EM VENEZA – para diagnosticar ITÁLIA possíveis restauros em alguns monumentos das cidades de Ouro Preto e Mariana, que durou até julho do mesmo ano. (Foto 15) Após esta jornada, com retorno a Bahia, atuou em váriasFOTO 15 – EVERALDO EM OURO PRETO – MG
  19. 19. 17restaurações e outras atividades de cantaria junto com seus irmãos Laécio e Paulo. Entre elas:o Monumento em homenagem a Independência da Bahia, na Praça do Campo Grande; oMosteiro de São Bento, Escadaria da Santa Casa de Misericórdia, piso do Convento de SantoAntonio do Carmo, Igreja da Barroquinha, Porto da Barra, entre outros. Seu irmão LaécioAbreu também cita algumas obras realizadas para fora do estado da Bahia, como, Búzios eCabo Frio, no Rio de Janeiro. “Algumas peças foram trabalhadas para artistas famosos comoDaniela Mercury e Bel do Chiclete”, afirma Laécio. Segundo depoimento de Everaldo, veiculado no Jornal A Tarde no dia 02 dedezembro de 2001, “esculpir a pedra é uma arte”. Atualmente Everaldo é funcionário públicomunicipal, mas, exerce sua atividade de canteiro e restaurador junto com seus irmãos e algunsfuncionários no ateliê da família em Santa Luz. Estes funcionários também aprenderam a artede trabalhar na cantaria com a família Boaventura. A arte de trabalhar com pedra é motivo de orgulho para toda família, relata Laécio,irmão de Everaldo e exímio canteiro, segundo o mesmo: Feliz do pai de família que souber trabalhar na pedreira e tiver o seu filho trabalhando lá. Ruim é como a gente vê tanto jovem envolvido com droga. As dificuldades existem para todo mundo, às vezes tem período que a pedreira está ruim, mas ninguém fica sem comer. Que diferença faz um médico pra um canteiro? Que diferença faz um engenheiro pra um canteiro? Nenhuma! A diferença de dinheiro que é grande? Quantos médicos têm ai que são irresponsáveis, que não valoriza o seu trabalho? Então cada um tem que agradecer a Deus pela profissão que tem. Ninguém é melhor do que ninguém. 14 Segundo Laécio, trabalhar na pedra não é fácil. Requer conhecimento e técnica. Ocanteiro que trabalha na extração da pedra, na fase inicial desse processo já necessita de umconhecimento prévio do que vai fazer: Quem corta o paralelo é um artista, tem que saber o veio da pedra, não é só chegar lá furar e bater não. Eles conhecem o veio da pedra no olhar. Eu fico triste quando alguém diz que tem vergonha de trabalhar em pedra, pois eu tenho o orgulho maior do mundo.15 A família Boaventura, como é mais conhecida, é um exemplo de organização familiarque obteve sucesso na cantaria, inclusive com um de seus membros, Everaldo Abreu, tendo aoportunidade de participar de um treinamento no exterior na área de restauração e trabalhando14 Laécio Abreu, em entrevista concedida em 09/11/2009.15 Idem.
  20. 20. 18como educador em Salvador e Minas Gerais no ofício de cantaria e restauração. Não é difícilencontrar canteiros que trabalham no sistema de organização familiar e que vivemdignamente do trabalho desenvolvido, o que prova, apesar das dificuldades, que esta artesecular pode ser valorizada, de forma a evitar que os canteiros tenham que se deslocar paraoutros estados até mesmo para trabalhar em pedreiras, onde a estrutura permite uma maiorrenda. Em entrevista concedida a Revista Panorama em 29 de agosto de 1986, o Sr.Boaventura já demonstrava essa preocupação ao afirmar que tinha o sonho de “... sair dapequena casa para viver em outra cidade. Qualquer lugar que sua arte fosse valorizada”. Hojeo Sr. Boaventura tem uma família estruturada, com filhos e netos na arte da cantaria. Valesalientar que, assim como a família Boaventura e outras famílias que vivem da cantaria, aprofissão dos canteiros ainda está longe de ser reconhecida pela importância que representapara o município e para o Estado. O descaso do poder público, tanto estadual e, principalmente, municipal, ameaçadeixar registrado apenas na memória a arte de esculpir na pedra da nossa região. Essa artedeveria ser valorizada e repassada a outros jovens através de projetos de oficinas e núcleos deensino com o apoio do poder público. Essa iniciativa foi tomada no passado, mas hoje só nosresta admirar a arte da família Boaventura. (Fotos 16 e 17) FOTO 16 – RESTAURAÇÃO EM VENEZA (ITÁLIA) FOTO 17 – CONSTRUÇÃO DE CHAFARIZ DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO (SALVADOR – BA)5. Ouvindo a voz dos canteiros Os canteiros, até aqui avaliados sob várias óticas no que diz respeito ao seu trabalho, apartir de agora serão vistos a partir de dentro da própria classe. Em visita a algumas pedreiras
  21. 21. 19de Santa Luz, destaco a que fiz à Serra do Lajedo, localizada a 12 Km de Santa Luz,(foto 18)onde estão concentradas a maioria das pedreiras da região. Ouvindo alguns canteiros, partedeles preferiu que seus nomes não fossem divulgados. Perguntando a E.F.S. (com 52 anos deidade e trabalhando na extração de pedras desde os 12 anos de idade) o que ele achava dotrabalho nas pedreiras, obtive a resposta: “O trabalho na pedreira não é fácil, mas criei meustrês filho assim... formei dois, um não quis estudar e trabalha na firma do sisal... o trabalho éduro mas num tenho o que reclamá... cada um no seu cada qual”. Podemos observar na voz de E.F.S. uma mistura de conformismo e orgulho. Conformismo com a situação que aparentemente não pode ser mudada e orgulho de ter criado a família como ele mesmo fala “no bico do ponteiro e na marreta”. FOTO 18 – SERRA DO LAJEDO À 12 KM DE SANTA LUZ, ONDE ESTÃO Indubitavelmente o trabalho CONCENTRADAS A MAIORIA DAS PEDREIRAS na pedreira exige muito docanteiro. É um trabalho insalubre, com grande grau de periculosidade, realizado sobre a pedraquente e sob o sol ardente. Estas condições parecem se agravar quando olhamos de fora. Oolhar de quem não está acostumado ao trabalho íngreme parece discordar dos próprioscanteiros, porém, fica claro que além do trabalho árduo, a falta de políticas públicas no âmbitoestadual e, municipal, que visem à valorização dessa classe de trabalhadores agravam asituação. Nas palavras do canteiro P.A.O. podemos perceber a indignação com o descaso dopoder público: Até o ano que passou a gente tinha transporte pra ir pra pedreira. Passou a eleição quem quiser ir agora tem que ir de pé. Quem tem transporte vai e volta todo dia, quem não tem dorme na pedreira a semana toda e só vem na sexta ou no sábado. Cadê o sindicato? Num resolve nada, por isso que eu sai do sindicato.
  22. 22. 20 A revolta expressa nas palavras do canteiro P.A.O. se refere ao deslocamento que eletem que fazer diariamente de Santa Luz até a pedreira onde trabalha, distante 12 Km da sededo município. Até o ano de 2008 a Prefeitura Municipal fornecia transporte aos canteiros,levando os mesmos até as pedreiras mais distantes e indo buscá-los no final da tarde.Atualmente o prefeito suspendeu o transporte, alegando falta de verbas. Um fato tambéminteressante é a cobrança que o canteiro faz com relação à atuação do sindicato. Essa práticaentre os canteiros que não são sindicalizados, a maioria, é bastante comum. Segundo o Sr.Carlito, secretário da Coopertaiva ligada ao Sindicato, “essa resistência é normal”. SegundoAntunes (1998) um grande desafio do sindicato está na elaboração de um programa queincorpore os trabalhadores que vivem na economiainformal. O canteiro L.M.A., comentando a situaçãoda sua classe afirma: “Fundando uma associaçãoseria muito mais fácil arrumar alguma coisa juntoao governo estadual e ao governo federal,municipal já não digo, pois existe a „picuinha‟política, mas mesmo assim acredito que arrumariaalguma coisa”. Pode-se perceber que o grande problemadessa classe não está apenas no fato, como muitos FOTO 19 – CANTEIRO FABRICANDOacreditam, das condições naturais do trabalho que PÓLVORAfazem do mesmo uma profissão árdua e rigorosa, mas principalmente, na falta de políticaspúblicas voltadas para esse setor da economia, que culmina com o agravamento de problemascomo a falta de valorização dessa mão-de-obra, o risco de acidentes (Foto 19), problemas desaúde, a informalização desse setor da economia que acaba por desvalorizar essa atividade edificultar a organização da classe. A crítica que o canteiro L.M.A. faz aos políticos procede,até pelo fato de conhecermos a forma de se fazer política nas pequenas cidades do interior doBrasil, porém não isenta a falta de iniciativa dos próprios trabalhadores. A grande maioria dos entrevistados comunga com a idéia de que falta união à classe.O canteiro A.C.S. comenta a sua experiência ao retornar de São Paulo e tentar investir odinheiro que tinha ganhado na compra de pedras: Eu cheguei de São Paulo com um dinheirinho que eu ganhei lá trabalhando na pedra também. Continuei trabalhando aqui na pedreira... aqui em Santa Luz. Avisei aos meus colegas que eu tava comprando pedra com um preço melhor do que o da praça.
  23. 23. 21 Eu mesmo tava querendo vender a minha produção direto sem atravessador. Sabe o que foi que um colega comentou? “Não vou vender pedra a quem bate marreta como eu”. Saí do ramo porque a turma preferia vender mais barato ao atravessador. O canteiro L.M.A. volta a falar da dificuldade de organização da classe: Eu olho muito dentro do pessoal que trabalha nas pedreiras a falta de união. Quando você procura tentar organizar alguma coisa, você começa a receber o nome de ladrão. Já é como se você quisesse roubar alguma coisa. Uma certa época eu tomei a iniciativa de fazer uma reunião pra gente tentar abrir uma associação. A minha participação era só pra tentar ajudar, eu não queria cargo nem nada, não queria pegar em dinheiro. Na primeira reunião que a gente fez o comentário já saiu que a gente tava querendo roubar. Foi essa a palavra usada. Ai eu pensei: eu estou tentando ajudar, nem comecei já tô recebendo o nome de ladrão, então eles que se virem. Essa desconfiança dos canteiros com relação às instituições e até mesmo, em relaçãoaos colegas, pode ser resultado da crise nacional que avassalou os sindicatos, segundo(ANTUNES, 1998). A corrupção na política brasileira também contribuiu para que as pessoasenxerguem com desconfiança toda e qualquer ação em nome do coletivo, seja ela do poderpúblico ou não. Essa atitude defensiva também está ligada à falta de segurança que vive otrabalhador da pedra em Santa Luz. Uma vez que o Sindicato não resolve imediatamente osproblemas da classe, esta prefere se subordinar aos empresários que garantem, pelo menos, acompra de parte de sua produção. Lembrando que, na grande maioria das vezes, é paga com ochamado “vale”, ordem de compra que substitui o pagamento em espécie. Não podemostambém isentar a classe dos canteiros dos seus problemas internos que interferem no interessecoletivo. A produção semanal de paralelepípedos em Santa Luz, há seis meses, era deaproximadamente cem mil paralelos por semana a um preço por milheiro de R$120,00. Hojeessa produção triplicou para trezentos mil paralelos semanais, o que dá cerca um milhão eduzentos mil paralelos por mês, o que deixa Santa Luz em posição de maior fornecedora deste tipo de produto no Estado da Bahia. A prefeitura comprava pedra e estocava enquanto o preço estava baixo. Hoje não compra mais. (Ver foto 20). A média de produção semanal de um canteiro é de 2500 a 3000 paralelos por FOTO 20 – ESTOQUE DE PEDRAS COMPRADAS PELA PREFEITURA
  24. 24. 22semana. O preço de um milheiro de paralelos está variando entre R$130,00 e R$150,00.Dificilmente o canteiro recebe sua produção à vista, ou seja, o “vale” é uma alternativa que oscompradores de pedra usam para pagar ao canteiro. Mesmo que estejam precisando dodinheiro o canteiro é obrigado a aceitar o vale e, muitas vezes, trocá-lo com outroscomerciantes que cobram uma taxa de cinco a dez por cento sobre o valor do vale. Essaprática diminui no período de maior demanda. Para garantir a fidelidade dos fornecedores,que poderiam vender sua pedra a quem oferecesse mais por ela, os compradores tradicionaispassam a usar menos a prática do “vale” quando o mercado está aquecido. É nesse mesmo período de muita procura que aparecem duas figuras emblemáticas nomundo do trabalho dos canteiros, que por sinal funcionam como um complicador naorganização dessa classe. Essas figuras são chamadas pelos canteiros de “faisqueiros” e“charlatões”. Os faisqueiros são compradores de pedra temporários que aparecem do nadaoferecendo maior preço e desestabilizando o mercado. Os charlatões são aproveitadores quese beneficiam com a situação e se apresentam como canteiros e vendem pedra de estoquesinexistentes, recebendo o dinheiro adiantado e deixando a má fama para os canteiros. Mais que um trabalho duro, como é considerado a profissão dos canteiros, é umtrabalho cheio de fatores complicadores que impedem a sua organização. Para os canteiros adureza da labuta é normal, difícil mesmo é lidar com tantas adversidades. Um caminhoevidente para equacionar o problema é a organização da classe de alguma forma. Percebam nafala de Epifânio Balduíno, hoje com 52 anos de idade, que segundo o mesmo, se apresentavaresistente às questões referentes à organização de classe: Eu comecei a trabalhar na pedreira eu tinha idade de 17 anos e eu sempre achei que o serviço é bom. È um pouco duro, mas a gente acostuma... Aqui em Santa Luz não tem outro recurso. Tem muito serviço, mas dos piores serviços a pedra é o melhor. O serviço é duro mas você não depende de ninguém, às vez a gente não é recompensado, mas... O sindicato anda na frente do atravessador, eu não sou sindicalizado, eu vendo a minha produção a quem chegar com cinco conto a mais ou dez. Se nós tudo se associasse no sindicato, a produção que nós tirasse toda aqui no município, nós podia repassar pro sindicato e ai o preço podia ser muito melhor. Mas um vende de um preço outro vende de outro. Eu vendo mais caro outro vende mais barato... O exemplo acima mostra que os canteiros têm consciência do potencial da classe e queestá faltando união. O Sr. Epifânio não é uma exceção. A grande maioria dos canteirosconcorda que precisam se organizar ou em sindicato ou associação. As dificuldades são aindamais acentuadas com a reprodução de um discurso de fora da classe. “A turma édesorganizada”. Essa expressão sobre os canteiros tornou-se um jargão. Essa suposta
  25. 25. 23desorganização interessa aos beneficiados da atual situação desses trabalhadores e quefomentam essa “desorganização”. Por outro lado, já que os canteiros esperam mais do Sindicato e desconfiam do poderde ação do mesmo o que os impede de se organizarem de outra forma? O que falta aoscanteiros, que trabalham bem próximos uns dos outros nas pedreiras, é se aproximarem noque diz respeito aos ideais de organização, uma vez que já demonstraram ter consciência declasse. Estamos analisando um processo histórico e devemos compreender que as mudançassão lentas, mas devemos considerar que se trata de uma classe de trabalhadores centenária eque avançou pouco no sentido de organização. Se considerarmos a trajetória de vinte e poucosanos de Sindicato podemos vislumbrar avanços, porém, se analisarmos o contexto como umtodo, percebemos que muito pode ser feito e que essas ações dependem exclusivamente daorganização dessa classe. Lutar contra as leis do mercado, cobrar políticas públicas, se imporcomo classe só será possível pensando e agindo coletivamente. A falta de liderança queconvença a turma de seu potencial coletivo contribui de forma decisiva para a estagnaçãodesses trabalhadores enquanto classe.6. Considerações Finais No período estudado as reflexões sobre os canteiros como classe de trabalhadorespermitiram a desconstrução de alguns conceitos formados ao longo do tempo, assim como aafirmação de outros. Ouvir as vozes dos sujeitos envolvidos nesse contexto foi de imensurávelimportância para o entendimento de situações complexas que parecem óbvias para quemlança um olhar de fora. Segundo Alves (1997), explicar a posteriori é fácil, problemático écompreender as tendências de nosso tempo e se orientar, quando tudo a nosso redor está setransformando. Analisar o papel de um sindicato dentro de uma classe que ainda está seformando no sentido de organização e no momento que os sindicatos amargam uma crisenacional de mais de duas décadas é preciso cuidado. Reproduzir o discurso de que a classedos canteiros é desorganizada também requer atenção, uma vez que essa supostadesorganização tem sido bastante favorável para muitos. Colocar toda a culpa no poderpúblico e isentar a classe dos canteiros de qualquer responsabilidade é ignorar o papel dospróprios canteiros na construção de sua história e da sua identidade coletiva. Na perspectiva de evidenciar os progressos e as dificuldades que tem marcado ahistória dessa classe de trabalhadores foi possível entender melhor o que chamei no iníciodesse artigo de contexto complexo que é o mundo do trabalho dos canteiros de Santa Luz. Um
  26. 26. 24misto de liberdade e extrema dependência. Trabalhadores que se dizem autônomos e aomesmo tempo tem alguém a quem chamam de patrão. Um patrão cujo único vínculoestabelecido é a compra da produção semanal que se configura como um favor. A aparenteautonomia na realidade engana e sufoca a voz desse trabalhador, impedindo-lhe de se arriscarmais e mascarando uma realidade de trabalho duro, sem investimento do poder público e comuma diversidade enorme de aproveitadores da situação. Podemos dizer que são as armadilhasdo capitalismo tão combatido por Marx. A forma como se desenvolve a atividade interfere na saúde do trabalhador, conformedefende Laurell e Noriega (1989). A situação insalubre enfrentada pelos canteiros tem que serpensada no âmbito social e não de forma isolada. Para que isso se torne possível, as decisõesdevem ser tomadas de dentro da classe que está sendo prejudicada. A iniciativa e as cobrançasjunto aos responsáveis pelo bem-estar e pela segurança dos trabalhadores têm que partir dosmesmos. Lutar contra as relações exploradoras e opressivas intrínsecas ao capitalismo,segundo Thompson (1987), é imprescindível para uma classe de trabalhadores. No que se diz respeito às políticas públicas, percebe-se claramente que a preocupaçãodo Estado também está ligada à produção. Pouco ou nada se faz para tirar da informalidade egarantir os direitos previdenciários dos trabalhadores avulsos, ficando estes reféns da sorte edo tempo, como se fossem seres diferentes. O Estado precisa focar os setores maisvulneráveis da economia. A formação profissional, como se tem comentado, não representapolítica pública para os canteiros. Se assim fosse, melhor seria extinguir a classe, ou melhor,formar profissionalmente esses trabalhadores em outras áreas. A política aqui seria a deregulamentação dessa atividade, uma vez que o Estado e a Legislação Trabalhista estãovoltados para os setores mais modernos da economia. Para Hobsbawm (2000), mesmo a ação coletiva requer estruturas e lideranças para quesejam eficazes. Enfim, muito se fala em diferentes tipos de organização no mundo dotrabalho, contudo, pouco se discute a inserção das classes marginalizadas, como a doscanteiros e outros extrativistas, nessas formas de organização. A modernização de um país vaialém do seu progresso tecnológico e torna-se necessário a iniciativa da própria classe doscanteiros em organizar-se de alguma forma, já que são os únicos interessados e até agoraprejudicados com a situação atual. Trabalhar como canteiro é uma arte, viver dessa arte é umdesafio, enfrentar esse desafio de forma isolada é um sacrifício, portanto organizar-se é amelhor forma de valorizar a arte e os artistas da cantaria.
  27. 27. 25 REFERÊNCIAS:ALVES, Edgard L.G.; VIEIRA, Carlos A.S. Qualificação profissional: uma proposta depolítica pública. In: ALVES, Edgard Luiz Gutierrez (Org.). Modernização produtiva erelações de trabalho. Petrópolis: Vozes; Brasília: IPEA, 1997.ANTUNES, R. (Org.). Neoliberalismo, Trabalho e Sindicatos: reestruturação produtiva noBrasil e na Inglaterra. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 1999.ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: Ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho.São Paulo: Boitempo, 2006.ANTUNES, R. O que é sindicalismo. São Paulo: Abril Cultural; Brasiliense, 2003.BERNARDO, João: PEREIRA, Luciano. Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã, 2008.BOITO, A. “Hegemonia liberal e sindicalismo no Brasil”, IN: Crítica Marxista. Nº3. SãoPaulo: Editora Brasiliense, 1996.CANÊDO, Letícia Bicalho. A classe operária vai ao sindicato. São Paulo: Contexto, 1991.CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES (CUT). O trabalho informal no Brasil.www.cut.org.brDOWBOR, Ladislau. Democracia econômica: um passeio pelas teorias.Fortaleza: Banco doNordeste do Brasil, 2007.GIANNOTTI, Vito. História das lutas dos trabalhadores no Brasil. Rio de Janeiro: MauadX, 2007.HOBSBAWM, Eric J. Mundos do trabalho: Novos estudos sobre história operária. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 2000.LAURELL, A. C.; NORIEGA, M. Processo de produção e saúde: trabalho e desgasteoperário. São Paulo: Hucitec, 1989.MANFREDI, Silvia Maria . Educação sindical entre o conformismo e a crítica. São Paulo:Edições Loyola.NEVES, Erivaldo Fagundes. História regional e local: fragmentação e recomposição dahistória na crise da modernidade. Feira de Santana: UEFS, 2002.NUNES, Iramaia Duarte. Educação em Saúde Pública e Terapia Ocupacional. Salvador:Escola Baiana de Medicina, 2002.SANTOS,Valmir da Silva. Educação Ambiental no município de Santa Luz/Ba: Um olharsobre a extração de pedras. Feira de Santana: Universidade de Feira de Santana, 2002.
  28. 28. 26SECRETARIA DO TRABALHO E AÇAO SOCIAL. SETRAS/CRT. Cartilha driblando operigo: prevenção de acidentes e doenças nas pedreiras. Salvador: Printfolha Gráfica,1998.THOMPSON, E.P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro, Paz e Terra,1987. Volume 3: A força dos trabalhadores.

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