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ABSTRACTThis paper gives a brief study about the Lexicon regionalist Jorge Amado, and seeksto understand the conclusions r...
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11      Sabe-se que as obras de muitos escritores do Nordeste, inclusive JorgeAmado, levaram muito tempo para serem aceita...
12elas se encaixariam. Fez-se necessário primeiro entender a lexia em seu conjunto,estudando-se o conceito que ela recebe ...
13    1. JORGE AMADO: a linguagem que denuncia as mazelas da sociedade baiana   A vida de Jorge Amado é marcada por inúmer...
14comunista e eleito Deputado Federal de São Paulo em 1945, pelo Partido ComunistaBrasileiro, após o período da ditadura d...
15que vivenciaram os problemas sociais, lhe despertou certa sensibilidade, pararetratar em seus livros, histórias do cotid...
16levariam os leitores a nenhuma reflexão acerca da sociedade. Dizendo-se ainda,como argumenta Vilas Boas (2005), que “sua...
171.2 De membro da “Academia dos Rebeldes” à porta-voz de uma nação      Em 1928 nascia na Bahia um grupo de jovens dispos...
18confundir a representação com a realidade. Sobre isso, Durkheim (apudGOLDSTEIN 2002, p. 125), afirma: “Uma representação...
19narrações que faz sobre o povo brasileiro como um processo de maturação na formade representar o Brasil e refletir os pr...
20“artesanato   linguístico”   (ARAUJO,      2003,    p.   138),   prezando     sempre      pelatransparência da linguagem...
21fato de Amado narrar em suas obras, histórias com enorme riqueza de detalhes,transmitindo veracidade no que escrevia, e ...
22falada pelo dito “povão”. Enfim, fez um retrato minucioso, do que é a Bahia, do que éo Brasil.1.3 Tereza Batista Cansada...
23cada uma de suas conquistas. E Tereza era para ele talvez a maior de todas,acompanhou seus passos dia após dia, vendo-a ...
24vezes, somente para visitar seu pai que exercia o ofício de juiz no interior do estado.Ao conhecer Tereza no armazém de ...
25rico fazendeiro, respeitado e honrado. Há muito tempo Tereza já havia atraído suaatenção. Ainda quando estava sob o domí...
26que roubei da família, era sadia, alegre e bonita, hoje é doente, feia e triste, mastudo que ela tem sou eu, não vou lar...
27                                 2. LÉXICO E CULTURA      A linguagem é imprescindível para a vivência do homem em socie...
28      A língua comum necessita, a cada dia, que a ela sejam incorporadas novaslexias; e isso se torna relevante para que...
29de um termo em uma determinada designação, ou simplesmente corroborar com umjá existente.       Muitas dessas lexias des...
302.2 O léxico do Nordeste do Brasil e suas peculiaridades         Rousseau (1978, p.178) afirma que “não se sabe de onde ...
31       O léxico de uma língua vive em constante processo de mutação, e issoimplica na dificuldade em sistematizar os ter...
32processo de expansão do léxico como sendo parte indissociável do processo decivilização, sobre a argumentação de que as ...
33conceito: assustador, excessivamente desagradável, ex: “Solta um grito medonho,se torce e contorce”. (p.112)          De...
342.3 A Teoria dos Campos Lexicais   Cada povo possui elementos que o distingue dos demais, aspectos comohistória, crenças...
35organizar as palavras a partir do princípio da Lexemática ou Semântica estrutural.Uma proposta de estruturação é a da or...
36mesmo conjunto lexias de sistemas diferentes, isso acarreta oposições de sentidos,como por exemplo: pão e sofá. É notáve...
37que estão ao seu alcance, para assim construir um riquíssimo e belo tesourovocabular.      Nessa perspectiva, compreende...
38    3. O CAMPO LEXICAL DO REGIONALISMO EM TEREZA BATISTA CANSADA                                      DE GUERRA   O camp...
39      ou ruins: arretado, porreta, canguinha, enxerido, gaiato, descarado, troncudo,      colhudo, chibungo, papuda, med...
40Aporrinhar- V. Aborrecer, causar desconforto, apoquentar.             Ex.: [...] Entrevada, sem falar, sem se mexer, enx...
41Rabicho- s.m. relacionamento amoroso, namoro.          Ex.: O capitão jamais professara amor antes de Dóris, jamais volt...
42Colhudo- Adj.. Pessoa intrometida, atrevida, que tem coragem para freqüentar as           adversidades.           Ex.: O...
433.4 Qualificadores para mulherCabrocha- s.f. Mulata jovem, que gosta de samba.            Ex.: Desfiles de meninas e moç...
443.6 AçõesEstrebuchar- V. Mexer muito, descontroladamente, agitação.                Ex.: Devia haver alguma explicação, u...
45                            CONSIDERAÇÕES FINAIS      A partir dos estudos por ora desenvolvidos, compreende-se a import...
46deles, o que não se pode, entretanto é tratar a língua como algo premeditado,imutável, que deve se restringir as normas ...
REFERÊNCIASABBADE, Celina Márcia de Souza. Estruturação dos campos lexicais: o estudofuncional do léxico. In: ABBADE, Celi...
___________ Uma leitura antropológica de Jorge Amado: dinâmicas erepresentações da identidade nacional. Universidade Aarhu...
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  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA ROSIELE SILVA ALMEIDAO LÉXICO REGIONALISTA DE JORGE AMADO EM TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA Conceição do Coité 2012
  2. 2. ROSIELE SILVA ALMEIDAO LÉXICO REGIONALISTA DE JORGE AMADO EM TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas - Licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB – campus XIV) para obtenção do título de Licenciada. Orientadora: Profa. Dra. Celina Márcia de Souza Abbade. Conceição do Coité 2012
  3. 3. "A palavra distingue o homem entreos animais; a linguagem, as nações entre si- não se sabe de onde é o homem antes deele ter falado". J. J. Rousseau
  4. 4. AGRADECIMENTOS No decorrer desta pesquisa pude contar com o apoio e a dedicação demuitas pessoas que direta ou indiretamente contribuíram significantemente para obom resultado deste trabalho. Gostaria de agradecer primeiramente a Deus, quedurante todo este período em que eu estive desenvolvendo essa pesquisa me deuforças para seguir em frente, não me deixando desanimar, sendo o meu guardião eprincipal motivador. À minha querida orientadora, Professora Drª Celina Márcia deSouza Abbade, que não se restringiu em momento algum em me ajudar,colaborando incessantemente através de seus valiosos conhecimentos para que eufizesse um bom trabalho, a ela meus infindáveis agradecimentos. Ao professor Deijair Ferreira, pelo empenho, compromisso e dedicação,sempre disposto a ajudar, transpassando as barreiras da docência com seucompanheirismo e amizade admiráveis. Aos meus incansáveis mestres quetransmitiram durante toda graduação valiosos ensinamentos, indicando os caminhosa serem percorridos, contribuindo essencialmente para a minha formação. De forma muito especial agradeço aos meus pais Hildebrando e Rita, por medarem a vida, e junto com ela toda a sorte de sentimentos benévolos, meconcedendo todos os subsídios necessários para que eu alcançasse êxito emminhas escolhas. Aos meus irmãos, por me apoiarem nas mais diversascircunstâncias e decisões, me proporcionando carinho, amor e dedicação. Ao meunoivo Flávio, pelo companheirismo e amor dedicados, sempre me dando força eincentivo para seguir em frente. Aos meus amigos, por acreditarem em meupotencial. Aos meus colegas do curso de Letras Vernáculas, pela amizade ecompanheirismo demonstrados durante toda essa jornada, pelos conhecimentospartilhados, e sobretudo pelo apoio nos momentos difíceis. Aos amigos que tive aoportunidade de encontrar nesse período, em especial à Ana Elma, Cintia, Daiane,Gildevan, Maeli, Marília, Rodrigo e Vigna. Minha gratidão às amigas e companheirasde jornada: Ane Matos, Camila Lima, Camila Mascarenhas, Luciana Lago,
  5. 5. Rigomária Lopes e Soelha Aleluia, que durante todos estes anos formaram juntocomigo um grupo fortalecido para os mais diversos trabalhos, sendo verdadeiras emtudo, na amizade, coleguismo e carinho devotados. Enfim, meus sincerosagradecimentos a todos aqueles que me apoiaram para que eu alcançasse maisuma vitória.
  6. 6. RESUMOO presente trabalho faz um breve estudo sobre O Léxico Regionalista de JorgeAmado, e busca compreender a partir das conclusões alcançadas, de que modo acultura exerce influência sobre a língua e como a Lexicologia tem sido difundida pelomundo, quais os métodos mais utilizados para compreender a língua e os resultadosobtidos desde que esta ciência passou a existir. É abordado ainda, astransformações sofridas pelas línguas e de que forma isso ocorre, dando-se maiorenfoque para as incorporações de lexias às línguas ao longo do tempo. Essetrabalho consiste em pesquisa bibliográfica, tomando-se como principais teóricos:Abbade (2009), Abbade (2006), Araujo (2003), Bechara (2005), Biderman (2001),Calixto (2011), Ferreira (1986), Goldstein (2003), Houaiss (2001), Monzolilo (1995),Rousseal (1978), Teixeira (2009), Sengo (2010), Soares (2011) e Villas Boas (2011).Este trabalho é inteiramente voltado para os estudos lexicais. Diante dos esforçosdos estudiosos em estruturar o léxico de algumas línguas, optou-se modestamentepor tentar estruturar o léxico nordestino encontrado no romance Tereza BatistaCansada de Guerra (1972), do renomado escritor baiano Jorge Amado. Issoconsiste em organizar as lexias encontradas no texto de base em conjuntos,denominados Campos Lexicais. Nos referidos campos, são organizadas as lexiasque formam um determinado campo conceitual, o campo das lexias nordestinas.Elas foram então elencadas e a partir de importantes dicionários da LínguaPortuguesa conceituadas.Palavras-chaves: Cultura. Campos lexicais. Vocabulário nordestino.
  7. 7. ABSTRACTThis paper gives a brief study about the Lexicon regionalist Jorge Amado, and seeksto understand the conclusions reached from it, how culture influences language andlexicology as has been widespread throughout the world, which methods has beenused for understand the language and the results obtained from this science cameinto being. It also addressed the transformations undergone by languages and howthis occurs, giving greater focus on the incorporation of lexias to languages over thetime.Thiswork consists ofliterature, taking asthe maintheorists:Abbade (2009),Abbade (2006), Araujo (2003), Bechara (2005), Biderman (2001), Calixto (2011),Ferreira (1986), Goldstein (2003), Houaiss (2001), Monzolilo (1995), Rousseal(1978), Teixeira (2009), Sengo (2010), Soares (2011) and Villas Boas (2011).Thiswork is entirely for lexical studies, to the efforts of scholars in the lexical structure oflanguages, we opted for a modest attempt to structure the lexicon found in the bookTereza Batista: Home from the Wars, by The renowned Bahian writer Jorge Amado.That is to organize the lexias found in the basic text in sets, called lexical fields. Inthese fields, are organized lexias forming a conceptual given field, the field oflexiasNortheast. They were then listed and important dictionaries from the prestigiousPortuguese.Key-words: Culture. Lexical Fields. Vocabulary northeast.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO .............................................................................................. 101. JORGE AMADO: A LINGUAGEM QUE DENUNCIA AS MAZELAS DA SOCIEDADE BAIANA .................................. 131.1 Das experiências pessoais ao modelo de ser brasileiro ...... 131.2 De membro da “Academia dos Rebeldes” à porta-voz de uma nação ........................................................................... 171.3 Tereza Batista Cansada de Guerra: Léxico, história e cultura .................................................................................. 222. LÉXICO E CULTURA .......................................................... 272.1 O entrelaçamento da cultura com a linguagem ................... 272.2 O léxico do Nordeste do Brasil e suas peculiaridades ......... 302.3 A Teoria dos Campos Lexicais ............................................ 343. O CAMPO LEXICAL DO REGIONALISMO EM TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA ..................................... 383.1 Descontentamento ............................................................... 393.2 Relacionamento amoroso .................................................... 403.3 Qualificadores ...................................................................... 413.4 Qualificadores para mulher .................................................. 43
  9. 9. 3.5 Orgão sexual ........................................................................ 433.6 Ações ................................................................................... 443.7 Desentendimento ................................................................. 44CONSIDERAÇÕESFINAIS .......................................................................................... 45REFERÊNCIAS
  10. 10. 10 INTRODUÇÃO A abordagem deste trabalho originou-se a partir de uma análise literáriasolicitada pela professora Jussimara Lopes, através do Componente CurricularTradição e ruptura em Literatura de Língua Portuguesa. Nesta feita, pude conhecero romance Tereza Batista Cansada Guerra (1972), que, com magnífica eloquência,retrata de forma significativa a sociedade nordestina, e seus aspectos culturais,comportamentais, linguísticos e religiosos. No entanto, o trabalho que inicialmenteestava voltado para a literatura ganhou outro víeis, isso pela constatação danecessidade de uma pesquisa mais concisa para investigar até que nível a línguareflete os valores sociais, culturais e religiosos de uma determinada região. Jorge Amado buscou através de sua obra, mostrar a cultura nordestina para omundo, atrelando a isso a exploração do vocabulário regionalista através da fala eda descrição de seus personagens. Para conseguir essa façanha, Amado (1972)não poupou esforços, nem se preocupou com as críticas que lhe seriamdirecionadas, devido à ousadia de reproduzir tão fielmente em suas obras, um léxicoconstantemente depreciado por sua irreverência. Assim surgiu o interesse em desenvolver um trabalho que estivesse voltadopara a singularidade com que o escritor baiano descreve a fala de seuspersonagens, demonstrando o tesouro lexical que está atrelado ao vocabulárionordestino. Para que essa pesquisa alcançasse o êxito desejado, optou-se portrabalhar com a 1ª edição da obra Tereza Batista Cansada de Guerra (1972). Essaescolha se deu na tentativa de captar o máximo possível a veracidade da linguagemdo autor, visto que, as edições subsequentes passaram por um processo maisaguçado de correção, podendo haver nessas edições perdas ou trocas de algumaspalavras não autorizadas pelo autor.
  11. 11. 11 Sabe-se que as obras de muitos escritores do Nordeste, inclusive JorgeAmado, levaram muito tempo para serem aceitas na literatura nacional e, assimcomo o léxico nordestino, ainda causam certo espanto e estranhamento para quemvive em outras regiões do Brasil. Isso provavelmente ocorre, em virtude da falsaideologia de que tudo o que vem do Sudeste do Brasil é bonito e correto, enquantomuitos outros aspectos referentes à região nordestina são imediatamente taxadoscomo esdrúxulos e grotescos. O léxico nordestino não se distancia muito dessacaracterização precipitada e errônea, apesar da grande variedade de obras literáriasque retratam o contexto e as asperezas da vida nordestina. Esses estigmas quantoao vocabulário utilizado nessa região do país, não cessam, pelo contrário, seintensificam a cada dia, devido ao uso que o nordestino faz de sua liberdade deexpressão, criando inúmeras lexias que rapidamente se incorporam a linguagemhabitual, tornando-se comum. É importante ainda ressaltar que este processo de construção lexical estáintrinsecamente ligado às marcas culturais de um povo, ou seja, a cultura tem forteinfluência sobre a língua, em seus mais variados níveis. O homem sempre sentiu anecessidade de criar lexias para dá nome aos objetos que incessantementesurgiam. O progresso tecnológico tem forte influência sobre a expansão do léxico,visto que, as invenções necessitam de nomes, o que exige a criação de maispalavras, para denominar inúmeras coisas. No intuito de investigar esse processo,surge a Lexicologia, a ciência que estuda a palavra e a estruturação do léxico. Essesestudos têm por finalidade mostrar como a língua se constrói, provando o tempotodo que a linguagem dá vida ao pensamento. Nessa perspectiva, compreende-se a importância dessa pesquisa para quehaja uma valorização maior do léxico nordestino, que, na maioria das vezes, seencontra submetido ao preconceito linguístico, isso impede as pessoas decompreender a relevância da variedade lexical para a que a língua se consolide.Inúmeros estudos vêm sendo feitos no campo dos vocábulos, entretanto umespecificamente tem atraído a atenção dos estudiosos, a Teoria dos CamposLexicais criada por Jost Trier (apud ABBADE, 2009, p.38), que alguns anos maistarde ganhou um método que lhe deu sustentação, desenvolvido por EugênioCoseriu (apud ABBADE, p. 40). Através desse método, Coseriu (apud ABBADE, p.40) objetivava estruturar em campos o léxico de uma língua. Para ele, isso só seriapossível organizando as palavras em conjuntos, formando campos conceituais onde
  12. 12. 12elas se encaixariam. Fez-se necessário primeiro entender a lexia em seu conjunto,estudando-se o conceito que ela recebe dentro desse campo. Para estruturar o campo lexical do regionalismo no contexto já mencionado,utilizou-se a proposta de Eugenio Coseriu (apud ABBADE, 2009, p. 40), uma vezque primeiro se fez o levantamento de todas as lexias que se encaixam dentro dovocabulário nordestino no texto de base. Em seguida, foi feita uma pesquisa dossignificados que cada lexia agrega dentro dos dicionários Ferreira (1986) e Houaiss(2001). Após a ligação desses significados, foi elaborado o conceito das demaislexias, de acordo com os pressupostos científicos da língua, tomando-se como pontode partida o contexto onde estas lexias estão inseridas. Na organização dasentradas lexicais, as lexias foram caracterizadas como substantivo e adjetivomasculino singular e verbo no infinitivo. Espera-se que através desse trabalho, o léxico regionalista nordestino, sejavisto sob outra ótica, distante da até então utilizada, só assim será possível valorizaresse vocabulário que ainda se encontra relegado à falta de reconhecimento, diantede outros tantos altamente enaltecidos.
  13. 13. 13 1. JORGE AMADO: a linguagem que denuncia as mazelas da sociedade baiana A vida de Jorge Amado é marcada por inúmeros acontecimentos quedeterminaram o estilo de sua escrita. Experiências como a convivência com ostrabalhadores de fazendas de cacau e a amizade com as prostitutas das ruas daBahia, acabaram sendo transpostas em seus romances. A sua participação comomembro da Academia dos Rebeldes, lhe proporcionou um contato maior com aliteratura voltada para a crítica social. A junção de todos os fatores supracitadospermitiu ao renomado escritor baiano, uma visão abrangente da sociedadenordestina. Desta forma, Jorge Amado construiu em sua produção literária, umretrato conciso do seu espaço de criação, uma profunda reflexão do contextonordestino em seus mais variados aspectos.1.1 Das experiências pessoais ao modelo de ser brasileiro Em dez de agosto de 1912, nascia na Bahia Jorge Amado, na cidade deItabuna, em uma fazenda de cacau. Aos três anos, mudou-se com a sua família paraIlhéus, onde cursou o primário. Posteriormente, fixou moradia em Salvador, onde fezo curso secundário no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga. Chegou adiplomar-se em Direito, mas não exerceu a profissão, até porque essa não era a suameta. Em 1930, Jorge Amado mudou-se para o Rio de Janeiro onde participou demovimentos intelectuais de insatisfação, característica comum aos jovens da época.Em 1933 casa-se com a sua primeira esposa, Matilde Garcia Lopes, com quem tevesua primeira filha, Eulália, que viria a falecer ainda jovem, aos 14 anos. Járeconhecido como escritor, ganhava cada vez mais popularidade, foi militante
  14. 14. 14comunista e eleito Deputado Federal de São Paulo em 1945, pelo Partido ComunistaBrasileiro, após o período da ditadura de Getúlio Vargas. Sua vitória eleitoral só veioa confirmar o seu prestígio de romancista. Entretanto, seu mandato foi cassado doisanos depois, e ele foi exilado, juntamente com sua segunda esposa Zélia Gattai,pelo fato de se oporem às estruturas impostas pelo governo da época. Permaneceuno exílio durante cinco anos, entre França e Tchecoslováquia, de 1948 a 1952. Jorge Amado era um apaixonado pelas palavras. A arte de escrever era paraele um fascínio, fazendo dela sua profissão. Suas obras tanto se popularizaram queele passou a viver exclusivamente dos direitos autorais de seus livros. Seudesempenho como escritor lhe proporcionou o seu ingresso para a AcademiaBrasileira de Letras em 1961, além de diversos títulos estrangeiros e nacionais. O consagrado escritor brasileiro escreveu livros em 46 países, sendo algunsdeles: Alemanha, Espanha, França, Estados Unidos, Itália, Portugal, etc. Foitraduzido para 48 idiomas tais como Alemão, coreano, chinês, islandês, Japonês,entre outros. Muitos desses romances foram adaptados para o cinema, televisão,teatro, rádio e histórias em quadrinhos. Suas obras trazem vasta riqueza dedetalhes, tocando estrategicamente em assuntos do cotidiano, como a infânciaabandonada, o proletariado, os saveiristas, os negros, os vagabundos, em conflitocom a sociedade que insistia em dominá-los. Isto é, Amado não se detinha emretratar em seus livros o drama social brasileiro, pelo contrário, conseguiu, atravésda literatura, tocar em temas que fazem parte da vida de muitos brasileiros, como osproblemas que afetam os menos favorecidos. Suas obras oferecem ao leitor a possibilidade de se deleitar em um vastocampo de expressões e vocábulos, repletos de termos nordestinos, de forma queconsegue atrelar a sua linguagem lírica com a crítica social que se empenhava emrealizar. Com isso, o autor tenta burlar conscientemente os paradigmas tradicionaiscom uma linguagem de baixo calão, com alto teor de erotismo e pornografia. Alémdisso, o célebre escritor, por meio de seus romances, descreve de forma eloquentea sociedade nordestina e seus aspectos culturais, comportamentais, linguísticos ereligiosos. Traz à tona ainda, a preocupação político-social, visto que se dispôs adenunciar através de seus escritos a opressão vivenciada pelas classesmarginalizadas. Jorge Amado costumava afirmar que foi a amizade com os trabalhadores decacau, que lhe despertou a consciência social, ou seja, a convivência com aqueles
  15. 15. 15que vivenciaram os problemas sociais, lhe despertou certa sensibilidade, pararetratar em seus livros, histórias do cotidiano, porém com personagens fictícios.Suas obras vão além de uma simples literatura, conseguem com riqueza dedetalhes, refletir a imagem do povo brasileiro, visto que Amado, assume umapostura de crítico social, que induz e incita o leitor a se posicionar contra asinjustiças políticas e sociais e reivindicar seus direitos de cidadãos. Diferentemente de muitos que se calaram diante das ameaças econstrangimentos da ditadura militar, o mais autêntico dos escritores baianos, nãoretraiu a sua imaginação criativa, nem reprimiu seu desejo de criar personagens quemuito se aproximam de pessoas reais, comuns, livres de estigmas preconceituosos.O povo com seus problemas de ordem social rompe as fronteiras de intensasdiscussões, e passa então a ser o foco do processo de criação de Jorge Amado,como afirma Araujo (2003): “uma literatura em que o povo é ator, e não maisassunto” (p.15). Jorge Amado foi como escritor, por muito tempo discriminado por sercomunista e por ser um best seller, resistiu às investidas da massacrante críticaelitista e não traiu seus ideais socialistas, nem reprimiu o desejo de escrever para asgrandes massas, ou melhor dizendo, para àqueles que vivenciavam na prática osdramas ali descritos. Suas obras ainda são pouco estudadas na Academia, apesar de seuesplendoroso sucesso popular por todo o mundo. Isso porque, Jorge Amado, antesmesmo de seu status de escritor, é, acima de tudo, um contador de histórias nato,visto que, apesar da resistência de uma elite literária em aceitar suas obras dentroda Academia, ele não se empenhou em convencer de seu potencial, os grupos queo criticavam. O que ele queria mesmo era escrever para as massas populares, poiseram elas que lhe serviam de fonte de inspiração. Muitas críticas foram feitas aos personagens que ganhavam vida nos livros deJorge Amado, e o pouco que os críticos literários escreveram sobre o escritor baianoantes de sua morte, foram apenas argumentações que diminuíam a potencialidade eo caráter de seus personagens, tratando os tais como: “coronéis desumanos, negrosviris, brancos arrivistas, proletários utópicos, especuladores, biscateiros, prostitutasbeatíficas, cafetões manipuláveis.” (VILAS BOAS, 2005). Enfim, um arsenal de características que tornavam os fabulosos personagensde Jorge Amado em simples personagens fictícios, sem valor social, que não
  16. 16. 16levariam os leitores a nenhuma reflexão acerca da sociedade. Dizendo-se ainda,como argumenta Vilas Boas (2005), que “suas narrativas eram melodramáticas eembebidas de sincretismo religioso, tratando sua linguagem como discursopopularesco, firmado sobre conteúdos machistas e folclóricos, onde imperava apornografia gratuita”. Entretanto, a antipatia que a crítica demonstrava por JorgeAmado, não abalava a fidelidade das várias gerações de leitores que semultiplicavam a cada ano, em todo o mundo. Fazendo com que a popularidade doescritor baiano crescesse espantosamente, haja vista o aumento da venda deexemplares de suas obras que crescia significativamente a cada ano. Jorge Amado tem a cara do Brasil, e conseguiu essa façanha, porque não secomprometeu com ideologias políticas, isto é, não consentiu com os ideais de umgrupo dominante, antes, porém, se preocupou em desvelar ao mundo a riqueza dopatrimônio cultural do Brasil e da Bahia. Amado faz de sua literatura mais que umacrítica social, é sobretudo, uma forma de construção social, já que não descreveapenas a vida do povo da Bahia, faz além disso, uma reflexão sobre as classesmarginalizadas, as condições precárias em que vivem e seus falares estigmatizados. Embora alguns críticos afirmem que a literatura de Jorge Amado tem caráterdiscutível, firmando-se sobre o argumento de que ele não segue as regras literárias,nem mesmo os padrões tidos como inquestionáveis na língua, ele provou ao longode sua carreira, que é um profundo conhecedor do povo brasileiro, visto que não seprende ao subjetivismo exacerbado de seus personagens, isto é, não almeja apenasrevelar idealizações do sujeito baiano. Antes, revela-o como ele é. Visando explorara imagem de um povo que não conhece no cotidiano somente a Bahia de encantos,gente esta que sente na pele as asperezas da terra que, embora alguns digam que éde todos, não oferece a esse “todo”, condições favoráveis de vida e de perpetuaçãoda cultura. Amado como um amante da cultura baiana conheceu de perto as duas facesda Bahia, revelando ambas para o mundo. Conseguindo de forma enfática, oequilíbrio através da literatura entre esses dois pólos: a Bahia de sensualidade,ritmos e sabores, e a Bahia relegada ao descaso, e ao esquecimento, de um povosofrido e guerreiro.
  17. 17. 171.2 De membro da “Academia dos Rebeldes” à porta-voz de uma nação Em 1928 nascia na Bahia um grupo de jovens dispostos a lutar contra asestruturas conservadoras da sociedade brasileira da época, dirigindo a esta, críticasseveras, na busca de combater os padrões estéticos literários previamenteestabelecidos. O objetivo primordial desse grupo era varrer por meio de seusmanifestos, todos os resquícios de tradição que a literatura nacional incorporou àbaiana ao longo dos séculos. Os escritores que formavam esse grupo valorizavamsobremaneira a cultura afro-baiana e africana. Dentre esses jovens, estava Jorge Amado, um dos principais mentores dessaorganização, o qual juntamente com seus amigos almejava criar um novo jeito de sefazer literatura, afastando desta o tradicionalismo que há séculos imperava naAcademia Brasileira de Letras, seria o engajamento nas causas sociais e culturais,para fortalecimento da identidade nacional. O que contrapunha os objetivos daSemana de Arte Moderna em 1922, que caricaturava o Brasil e seu povo, comopersonagens de uma história projetada sob uma ótica que agradaria o exterior, ouseja, a figura de um país tropical com suas formas pitorescas e exóticas, compersonagens fabulosos. A Bahia até então apresentava um contexto conservador. Esse grupo passoua representar a modernidade que se espalhava Brasil afora desde 1922, num desejomútuo de explorar e, sobretudo inovar a cultura baiana da época, através dequestionamentos acerca dos códigos estéticos da literatura. Concernente a issoCalixto (2011) afirma: “Deste modo, buscavam uma literatura brasileira calcada norealismo literário como forma de expor as mazelas da sociedade, objetivando atransformação, a modernização” (p.54). A partir daí, Amado passa a levar ainda mais a sério seu desejo de recriar acultura popular e a linguagem do povo baiano em sua obra. Goldstein (2002),ressalta que é pertinente referir-se a ele como um representante informal dapopulação baiana, e ainda complementa dizendo que Jorge Amado é um autênticovivenciador que partilhou muitas das experiências que descreve em seus livros,relatando os fatos de maneira tão minunciosa, que seus leitores acabam por
  18. 18. 18confundir a representação com a realidade. Sobre isso, Durkheim (apudGOLDSTEIN 2002, p. 125), afirma: “Uma representação social, constitui uma formade conhecimento prático, socialmente elaborado, uma construção simbólicapartilhada por um conjunto social ou cultural.” Os caminhos traçados nas narrativasde Jorge Amado são reflexões acerca de problemas encontrados nas relaçõessociais da Bahia, em meados do século XX. Em seus textos tratavaintencionalmente sobre a prostituta, o negro e o operário, grupo de pessoasviolentamente discriminadas e vitimizadas, objetivando dá voz àqueles que estavamhá séculos sufocados pelas mãos do poder. Essa luta por ideais torna Jorge Amadonão apenas um literário contrário a situação caótica de seu país, mas sim umcidadão inconformado com o descaso com as minorias, e, para demonstrar o seuincômodo, não hesita em utilizar-se do que tem de melhor, a linguagem, para, senãoreverter, ao menos explicitar por meio da literatura o cotidiano do povo brasileiro. Jorge Amado, através de suas obras, possibilitou que o povo brasileiroconhecesse a cara da Bahia em seus aspectos mais obscuros, e ousou ao exploraruma região do Nordeste do Brasil que até então estava relegada ao notório descasode sua cultura e de seus aspectos sociais. A literatura brasileira, antes da literaturaamadiana, estava quase que em suma, inclinada a retratar aspectos relacionados aoSudeste brasileiro, mais especificamente ao estado do Rio de Janeiro, onde seconcentravam a maior parte dos literários reconhecidos da época, que enalteciam etomavam o referido estado como a imagem ideal de Brasil. Isso só vem a corroborarcom os ideais de ruptura, e os modelos tradicionais que, a Academia dos Rebeldestentava burlar. Sem dúvidas, o cenário onde as histórias contadas por Jorge Amado sepassam, é imprescindível para o entendimento do retrato da Bahia que se almejapassar, e mais, para a compreensão do texto em sua plenitude, ou seja, nesse novomodelo de literatura, o espaço tem grande importância, visto que conduz o leitor auma maior compreensão do que é a Bahia de Jorge Amado. O modelo elitista não tem espaço na literatura amadiana, já que o rompimentocom os padrões tradicionais da literatura não se detêm aos valores estéticos, vaimais além, seus romances não tratam em particular do modo de vida de poderososempresários ou mesmo coronéis de fazendas de café, traz a princípio a exploraçãosofrida por pessoas comuns, nas mãos dos detentores do poder. Amado, entretanto,não enxerga as suas narrativas como uma ruptura com a literatura brasileira, vê as
  19. 19. 19narrações que faz sobre o povo brasileiro como um processo de maturação na formade representar o Brasil e refletir os problemas sociais, além de em cada obra,retratar implicitamente o momento vivido por ele. Tendo plena consciência de seu ofício, mesmo integrado à realidade social que é seu núcleo temático, o escritor alcança transcendê-la, percebendo e somando realidade empírica e realidade da arte, libertando esta da mediocrasia da morte. (ARAUJO 2003, p. 125). Amado constitui-se então como a forma plena do não-conformismo,inconformismo este que o ajuda e o impulsiona a concretizar seus ideais de umacultura valorizada, sem preconceitos, isto é, uma nação igualitária que se distanciados ideais subjetivistas. Jorge Amado não admite que seus personagens sejamrelegados à natureza abstrata que permeia a literatura, sem objetivos e perspectivasque alcancem o povo com seus dramas e causas concretos, como afirma Araujo(2003): A sociedade só compreende o artista segundo leis objetivas, mas ele - o escritor, o artista da palavra - demole o mundo ou o reedita a seu modo, cobrindo-o de renovadas experiências vivenciais. (p.125) A contribuição de Jorge Amado para o Brasil, não se deu apenas como umliterário que usava a literatura para refletir sobre os problemas sociais de seu país,agiu sobremaneira, como um atuante/militante, na busca pela efetivação da culturapopular baiana, que até então se encontrava ofuscada, pela descriminalização que aatingia. E, tanto fez para que a cultura baiana ganhasse seu espaço dentro dasociedade brasileira, que recebeu durante o governo do presidente Jânio Quadros,um convite para participar do Conselho Nacional de Cultura, onde deveria fazer valeros interesses do povo dentro do Estado, devendo, sobretudo traçar projetos queincentivassem o progresso da cultura, objetivos estes que corroboram com o idealda perpetuação da mesma. Amado contrariou os intelectuais brasileiros da época, que sendo a parteelitizada da sociedade, não viam com bons olhos a inserção de um escritornordestino com uma linguagem considerada vulgar, entre eles. Já que era alheio ao
  20. 20. 20“artesanato linguístico” (ARAUJO, 2003, p. 138), prezando sempre pelatransparência da linguagem, fazendo uso desta de maneira extremamente coloquial,numa reprodução fidedigna do vocabulário baiano. Em resposta aos insultos quevinha sofrendo, em certa ocasião Jorge Amado declarou: Disseram certos críticos que não passo de um limitado romancista de putas e vagabundos. Creio que é verdade e orgulho-me de ser porta-voz dos mais despossuídos de todos os despossuídos. (...) Creio que querendo ofender- me, esses críticos me exaltaram e definiram. (AMADO apud CALIXTO, 2011, p. 15). Embora abordasse temas que exigiam pela sua natureza, seriedade, Amadoconseguia atrelar o humor às suas tentativas de atingir a sociedade. As criaturasficcionais por ele criadas se fortalecem dentro da realidade concreta, sãopersonagens do cotidiano, imersos nas sátiras histórias por Jorge Amado escritas.Jorge Amado conseguiu, embora sofrendo rejeições, passar sua mensagem deinconformismo, e o fez com maestria, sendo ao mesmo tempo sutil e irônico. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que Amado rompe com as fronteiras dasconvenções partidárias, visto que o ponto de partida de sua escrita é o discursoacerca da miscigenação, propondo em toda a sua obra um ideal que decerto estavaacima de todos os outros: um desejo ardente de uma nação mais justa, sempreconceitos de qualquer ordem, e objetivando que assim como ocorria em seusescritos, o povo estivesse no centro dessa sociedade, e não mais à margem.Concernente a isso, Araujo (2003) afirma: “O escritor considera-se engajado quandocoloca sua liberdade poética no interior de uma expressão verbal cujos limites sãoos da sociedade e não os de uma convenção ou de um partido.” (p.139) Entre meados da década de 1950, Jorge Amado conscientiza-se por completode sua importância como intelectual, mais precisamente, após a escrita de seuclássico romance Gabriela Cravo e Canela (1958). A partir daí, a sua imagem atrela-se terminantemente, ao ideal de fixação de uma identidade nacional brasileira, epara cumprimento dessa sua característica de transpor em seus livros a imagem darealidade brasileira, o autor dá origem, à um repertório de palavras, fatos,expressões e personagens, que se misturaram à sua própria imagem, não sendomais possível dissociar um do outro, isto é, escritor de personagem. Isso ocorria pelo
  21. 21. 21fato de Amado narrar em suas obras, histórias com enorme riqueza de detalhes,transmitindo veracidade no que escrevia, e ainda por tratar de temas com muitapropriedade, criou-se então a ideia de que ele narrava situações por ele mesmovividas. Como afirma Araujo (2003): “As criaturas ficcionais de Amado sãolegitimadas na realidade concreta, têm nome e sobrenome facilmente conferíveis notabelionato interativo” (p. 138). Entende-se então que, ao longo de suas obras, Jorge Amado mistura-se aospersonagens por ele criados, como o próprio escritor afirma em um de seusdiscursos: “A minha literatura é toda ela, do livro primeiro até o último publicado, [...],uma visão do povo brasileiro, colocando-se o autor de acordo com o ponto de vistado povo brasileiro, contra os seus inimigos”, (AMADO apud CALIXTO, 2011, p.19). Os livros de Jorge Amado, com seus enredos autênticos, e seus personagensempolgantes, extrapolaram a categoria ficcional, dando ao leitor a impressão, se nãoa certeza de que o autor contava histórias por ele mesmo vividas, ou depersonagens que ele realmente conheceu. Suas obras servem de fonte etnográfica,ou seja, uma espécie de guia para turistas e estrangeiros, que queiram conhecer aBahia descrita por ele. Jorge Amado em suas obras, durante a maior parte do tempo faz a fusãoentre ficção e realidade, tornando difícil a separação entre ambas. Por vezes, épossível confundir o autor com o narrador do texto, induzindo o leitor, ou melhor, aleitora a conhecer a sua Bahia, a Bahia onde tudo é possível, lugar de festas,danças, cheiros, sabores e paixões, e o faz dizendo: “[...] Não tenhas, moças, umminuto de indecisão. Atende ao chamado e vem. A Bahia te espera para uma festaquotidiana”. (GOLDSTEIN, 2003, p. 223) Assim, pode-se concluir que o escritor Jorge Amado se engajoucorajosamente na luta por uma literatura popular. Literatura esta, que segundo seusobjetivos, transcenderia as barreiras acadêmicas, alcançando seus personagenscotidianos. Ao falar em suas obras, sobre o povo baiano, não tentou agradar asclasses elitizadas, nem mesmo preocupou-se sobre as críticas que lhe seriamimputadas, em virtude do que era narrado. Rompeu definitivamente com os estigmaspreconceituosos que atingem a todos que não se enquadram nos padrõesestabelecidos pela sociedade dominante. Descreveu sem medo de rejeições, osaspectos linguísticos da sociedade baiana, demonstrando a linguagem coloquial
  22. 22. 22falada pelo dito “povão”. Enfim, fez um retrato minucioso, do que é a Bahia, do que éo Brasil.1.3 Tereza Batista Cansada de Guerra: Léxico, história e cultura. O romance Tereza Batista Cansada de Guerra foi publicado em 1972 pelaLivraria Martins Editora. Nesse período, Jorge Amado já havia completado seussessenta anos e usurpava de grande popularidade tamanha a vendagem de suasobras. O livro Tereza Batista Cansada de Guerra foi sucesso de vendas no Brasil eno exterior. Tereza Batista compõe um rico quadro de personagens femininas quepermeiam a vasta obra de Amado, constituindo-se como uma fiel representação damulher que não se conforma com a situação de submissão e fragilidade, vivendo emconstante luta para romper com as barreiras que lhe são impostas. A obra Tereza Batista Cansada de Guerra (1972) que serve de base paraeste trabalho, conta a história de Tereza Batista, garota que perdeu os pais muitocedo, ficando para ela o triste destino de morar de favor na casa de sua tia Felipaque a oprimia e humilhava. Felipa era uma feirante casada com Rosalvo, este desdea chegada de Tereza à sua casa, já maquinava planos tenebrosos para conseguir seaproveitar da garota que desde pequena mostrava que seria uma bela mulher.Tereza não tinha malícia alguma, se embrenhava pelos campos para brincar com osmoleques de sua idade, e não se restringia às brincadeiras mais pesadas, sempredisposta a lutar, seja qual fosse a guerra, como fica explícito nesse trecho da obra:“A menina solta, livre, alegre, subindo pelas árvores, em correrias com o vira-lata,em marchas e combates de cangaço com os garotos”. (AMADO, 1972, p.130) A alegria de Tereza na pureza de sua infância durou pouco, até a chegada docapitão Justiniano Duarte da Rosa em sua vida. O capitão Justo como ficouconhecido, era o homem mais temido da cidade onde morava, Cajazeiras do Norte,situada no Estado de Sergipe. Valente e impiedoso não se comprometia com justiçade qualquer ordem, suas vontades vinham sempre em primeiro lugar e isso seestendia até mesmo aos seus desejos sexuais. Tinha verdadeiro fascínio porgarotas jovens, preferivelmente as que tinham entre dose e quinze anos de idade,para as quais dedicava um colar onde expunha anéis de ouro que representavam
  23. 23. 23cada uma de suas conquistas. E Tereza era para ele talvez a maior de todas,acompanhou seus passos dia após dia, vendo-a desabrochar Os olhos do capitão acompanham a menina na escalada, de galho em galho. Os movimentos largos levantam o saiote, mostram a caçola suja de barro. Apertam-se ainda mais os olhos pequeninos de Justiniano Duarte da Rosa- para ver melhor e imaginar. (AMADO, 1972, p. 66) Capitão Justiniano foi capaz de tudo para realizar seus desejos, levandoTereza consigo. Para tanto ofertou à sua “comadre” Felipa uma quantia em dinheiroe um anel de ouro falso. Levou Tereza à força para sua fazenda, lá tentou pordiversas vezes abusá-la, entretanto surpreendeu-se ao perceber que a ingênuamenina não era tão indefesa quanto imaginava, relutava em aceitar os caprichos deJustiniano e isso lhe custou caro, apanhou muito para não se submeter aos desejosdo capitão, até ser sujeitada com o ferro quente de passar roupas nos pés: “Não mequeime, não faça isso pelo amor de Deus. Nunca mais vou fugir, peço perdão; façotudo o que quiser, peço perdão, [...] Tereza Batista, argola no colar do capitão.”(AMADO, 1972, p.118 -9) Tereza Batista viveu cerca de dois anos entre a roça e o armazém que ocapitão possuía na cidade. Sempre submissa e temerosa, atenta as mínimasvontades de Justiniano. Tereza, durante os dois anos em que esteve sob o domíniodo capitão, não lhe servia apenas como uma espécie de amásia. Justiniano faziauso de inúmeros serviços que a obrigava a cumprir. Vivia um verdadeiro inferno,cumprindo os afazeres domésticos e trabalhando arduamente no armazém,carregando sacos de alimentos e fazendo as contas dos clientes. A garota indefesa,não consegue sentir nem sequer por um instante, prazer no triste ofício de servir aocapitão como sua escrava sexual. Sobe na cama, deita-se, a mão pesada toca-lhe a coxa, abrindo-lhe as pernas. Tereza se contrai, um bolo na garganta; sempre lhe foi custoso, nunca tanto assim, porém; hoje é por demais, é outro sofrimento, maior, dói no coração. (AMADO, 1972, p. 161-2). Ainda sob o domínio de Justiniano conhece Dan, jovem bonito e sedutor, quemorando na capital Aracaju, retornava à cidade de Cajazeiras do Norte poucas
  24. 24. 24vezes, somente para visitar seu pai que exercia o ofício de juiz no interior do estado.Ao conhecer Tereza no armazém de Justiniano, consegue cativá-la de tal forma quea garota acaba apaixonando-se por ele. Entretanto apesar de gostar do jeito e,sobretudo da inocência que Tereza consegue transmitir, vê na moça apenas maisuma possibilidade de aventura. Envolveram-se, mas o que para a doce menina era uma ardente paixão,sentimento nunca antes descoberto, distante do medo que o capitão lhe despertava,para Dan era apenas mais um caso como tantos outros que tivera. Ao contrário darepulsa que sentia pelo capitão descobriu nos braços de Dan sentimentos nuncaantes aflorados. Cada despedida era para ela um confuso entrelaçamento desensações, a dor da partida, o medo de não mais vê-lo, e a tristeza em saber que osmomentos ao lado de seu amado eram poucos e passageiros, infelizmente sabiaque teria que voltar para a sua triste tarefa de submissão ao capitão Justiniano. Apersonagem passa então a viver algo até então desconhecido, e relata isso dizendo:“Meu Deus, como pode ser tão bom o que fora penosa agonia?” (AMADO, 1972, p.180) A alegria de Tereza, porém durou pouco, somente até a noite em que ao ladode Dan foi surpreendida pelo temeroso capitão. Diante do medo de ser morta porJustiniano e tomada pelo ódio desmedido por tudo o que vivera ao seu lado, oapunhalou pelas costas. O capitão não entende o repentino encorajamento da moçaque a partir dali passou a ser outra, rompendo com os padrões horizontais deobediência. O capitão a enxerga, mas não reconhece. É Tereza, sem dúvida, mas não a mesma por ele domada, na taca dobrada à sua vontade, aquela a quem ele ensinou o medo e o respeito [...] É outra Tereza ali começando, Tereza Medo Acabou [...] (AMADO, 1972, p.193). O sofrimento de Tereza ao lado do capitão Justiniano Duarte da Rosaacabou, sua morte foi para ela um alívio. Porém, mesmo com a morte do homemque tanto a humilhou, Tereza que vive em constante “guerra”, mais uma vez foisurpreendia pelas nuances do destino: foi presa pelo crime cometido, abandonada eacusada por aquele que acreditava amá-la. Porém, em seu caminho apareceu um homem digno e bondoso, querapidamente a libertou da prisão e a levou para morar com ele. Emiliano Guedes,
  25. 25. 25rico fazendeiro, respeitado e honrado. Há muito tempo Tereza já havia atraído suaatenção. Ainda quando estava sob o domínio de Justiniano, Emiliano a conheceunuma de suas idas a fazenda do capitão para tratar de negócios. Nesta feita propôsao “detentor” de Tereza um acordo para que ficasse com a menina, mas Justinianono âmago de seu orgulho por possuir amásia tão bonita não consentiu dizendo: “Éuma protegida minha, doutor, órfã de pai e mãe que me entregaram pra criar, nãoposso dispor. Se pudesse era sua. Desculpe não lhe servir.” (AMADO, 1972, p. 134) Com a morte de Justiniano e a prisão de Tereza, o primogênito dos Guedesnão perdeu tempo, tratou logo de tirar Tereza da prisão e levá-la para sua casa emCajazeiras do Norte. Tereza passou então a viver com ele, mas não submissa einfeliz como estivera por dois amargos anos nos domínios do capitão, era muito felizao lado de Emiliano Guedes e o amava, ao ponto de desejar profundamente ter umfilho com ele. Emiliano não consentiu com a ideia, justificando tal postura, pelodescontentamento que lhe causam seus dois filhos. Apesar da tristeza por nãorealizar seu desejo, Tereza viveu anos alegres ao lado de seu amado, e com eleaprendeu acerca de diversas coisas, as quais passou a apreciar, como orefinamento do paladar, nos modos e nas vestes. Emiliano, além de muito amor, deu à Tereza a oportunidade de se tornar umadama, com gestos finos e elegantes, como saber portar-se à mesa e apreciar pratose bebidas exóticas. O deleite de Tereza em companhia de Emiliano durou poucomais de seis anos. Os dias ao lado de seu amado foram intensos e prazerosos,poder-se-ia dizer que foram os melhores de sua vida, até a morte repentina de seucompanheiro enquanto faziam amor. “Tereza Batista abraçada com a morte, tendo-asobre o peito e o ventre, por entre as coxas a penetrá-la, com ela fazendo amor.Tereza Batista na cama com a morte.” (AMADO, 1972, p. 243) Com a morte de Emiliano a vida de Tereza se transformou, ficou semdinheiro, sem casa e principalmente sem o homem a quem amava. Sem opção teveque enfrentar a vida de prostituta no castelo de Taviana. Lá foi surpreendida porhomens que encantados com sua beleza lhe propuseram casamento, entretanto elanão aceitou nenhum dos pedidos, pois seu coração já pertencia ao jangadeiroJanuário Gereba. Ao conhecer Tereza Batista, Januário era casado, relutando em separa-se daesposa em virtude do agravamento da doença que esta possuía. Ele recusa o amorde Tereza naquele momento com a seguinte justificativa: “A que eu amei e quis, a
  26. 26. 26que roubei da família, era sadia, alegre e bonita, hoje é doente, feia e triste, mastudo que ela tem sou eu, não vou largá-la na rua, no alvéu”. (AMADO, 1972, p. 359). Januário Gerebra partiu, mas Tereza detentora de amor sem igual ficou à suaespera. Nesse período a cidade de Buquim onde residia no interior de Sergipe,enfrentou grande epidemia de bexiga negra (varíola). Tereza em companhia dasoutras prostitutas travou verdadeira batalha contra a doença, vacinando grandeparte da população local. Nesse meio tempo a esposa de Januário Gereba faleceu,porém um desencontro afastou mais uma vez o casal. Tereza inconformada em ficarlonge do amado partiu para a Bahia a procura de notícias deste. Januário por suavez volta à Sergipe para encontrar-se com Tereza, chegando lá é informado que asua amada teria morrido vítima da varíola. Inconsolado com a notícia Januário vaiembora sem deixar rastro. Quando volta para Aracaju, Tereza Batista é informada do acontecido, eentristecida retorna para Salvador, onde lidera um movimento de prostitutas, queficou conhecido como “a greve do balaio fechado”. Nesse manifesto as prostitutasuniram forças contra os governantes que insistiam em retirar os ditos “castelos”(bordéis) do centro da cidade para as regiões mais pobres. Assim as prostitutascomo forma de demonstrar seu descontentamento promoveram uma greve de sexoque ficou mais conhecida como “greve do balaio fechado”, o que diminuía o númerode turistas em Salvador. A trajetória de Tereza Batista foi marcada por peste, fome e guerra, da partidaao reencontro com Januário Gereba em Salvador, muitas coisas aconteceram.Tereza estava finalmente pronta para entregar-se ao amor e assim o fez, casando-se com Januário, e junto com ele descarregando no mar todas as culpas, mágoas emedos, finalmente prontos para o recomeço em alto mar.
  27. 27. 27 2. LÉXICO E CULTURA A linguagem é imprescindível para a vivência do homem em sociedade, éatravés dela que o ser humano pereniza sua história, registrando os fatos, sejatranscrevendo-os ou passando-os de geração a geração por meio de históriasnarradas oralmente. A língua enquanto um sistema aberto está sempre suscetível amudanças lexicais. Essas mudanças podem ocorrer de diferentes formas, através deincorporações de novas lexias ao vocabulário, atribuição de diversos conceitos parauma lexia, ou a até com a extinção de uma palavra. Com todas essas mudanças,qualquer esforço para a estruturação do léxico de uma língua, pode ser consideradodevido à sua complexidade, um trabalho que provavelmente não teria conclusão,isso porque, as mudanças ocorrem em uma velocidade muito grande, não sendopossível uma estruturação de todo o campo lexical de uma língua. O máximo que sepode fazer são algumas organizações de conjuntos lexicais, para compreendermelhor o contexto histórico e atual da língua. O léxico do Nordeste do Brasil possui um grande e diferenciado acervo delexias, encontrado nos falares da população que habita nessa região e em algumasobras de circulação mundial, escritas nessas terras. Qualquer língua encontra-seimpregnada dos resquícios de tradições, crenças e cultura do meio no qual éutilizada. Tudo isso dá autenticidade e originalidade ao léxico, tornando-o singular.2.1 O entrelaçamento da cultura com a linguagem Nos últimos tempos o espantoso desenvolvimento cultural tem levado osestudiosos da língua a estarem atentos às constantes e incontroláveis mudançasocorridas no campo dos vocábulos. Isso se dá, sobretudo, no que diz respeito àslexias que, ao decorrer dos anos, foram sendo incorporados à linguagem dos povos.
  28. 28. 28 A língua comum necessita, a cada dia, que a ela sejam incorporadas novaslexias; e isso se torna relevante para que o vocabulário possa ser enriquecido emudado, o que garante que este não seja extinto, antes, porém permite acontinuidade da sua existência. Concernente a isso, Abbade (2006) afirma: “Língua,história e cultura caminham sempre de mãos dadas e, para conhecermos cada umdesses aspectos, faz-se necessário mergulhar nos outros, pois nenhum delescaminha sozinho e independente.” (p. 214). Tendo em vista a dinamicidade de culturas existentes e a variedade lexicalque transita entre elas, entende-se que a língua está sempre sujeita a mutabilidadesque se dão por fatores, sócio-culturais e históricos, ou até mesmo pela necessidadede lexias que designem as experiências de vida de um povo. Ou seja, o vocabuláriode uma língua tem por principal finalidade registrar fatos, expressar crenças e arealidade cultural de uma dada região. Abbade (2006, p. 213) afirma que “estudar oléxico de uma língua é enveredar-se pela história, costumes, hábitos e estrutura deum povo, partindo-se de suas lexias”. O léxico de uma língua é constantemente mudado, e essas mudançasocorrem em maior escala, no que corresponde a ampliação do mesmo. Essaampliação pode se dá de duas formas, pelo empréstimo linguísticos, que se realizaatravés do contato entre culturas distintas, acarretando a adoção de lexiaspertencentes à outra língua; ou por meio da criação de uma nova lexia, que podeocorrer com base em alguma outra já existente dentro da própria língua, ou não.Referente a isso Carvalho (1998 apud ABBADE, 2009), afirma: Sempre que se faz necessário nomear um objeto ou uma idéia um novo termo é criado ou um novo termo já existente passa a ser empregado com novo significado. Nessa nova nomeação ou mudança de sentido consiste o neologismo. Trata-se de um termo recém-criado ou recém tomado como empréstimo a uma língua estrangeira ou a um outro domínio. (p.132) A partir dessa concepção, fica claro que as lexias, dentro de uma língua,surgem de acordo com a necessidade do falante em comunicar as suas ideias, eexpressar sentimentos. Nessa perspectiva, não há preocupação dos usuários dalíngua em constatar se o item lexical que está sendo oralizado existe de fato, poisessas lexias são na verdade recursos criados no momento da fala, para suprir a falta
  29. 29. 29de um termo em uma determinada designação, ou simplesmente corroborar com umjá existente. Muitas dessas lexias despertam a resistência dos falantes em aceitar umnovo termo na língua. Isso, porém torna-se desprezível com o passar do tempo,onde há a incorporação destas novas lexias ao vocabulário em uso, o que ocasionaconsequentemente a desneologização da mesma, tornando-a posteriormentedicionarizada. Como se sabe o dicionário de uma língua se encarrega de sintetizarde forma objetiva o léxico de uma nação, registrando minuciosamente os signoslexicais impregnados na cultura e seus respectivos significados. O escritor Jorge Amado, em seus romances, explora de forma enfática ovocabulário nordestino. Nascido em Itabuna, cidade localizada no Sul do estado daBahia, Amado descreve seguramente a linguagem dos seus conterrâneos,apontando através da fala de seus personagens, as palavras que caracterizam essaregião do Brasil. A partir daí busca-se registrar, através do romance Tereza BatistaCansada de Guerra (1972) as lexias que foram sendo incorporadas ao vocabulárionordestino ao longo dos anos, evidenciando sobremaneira como o patrimônio lexicalde um povo diz muito sobre seus hábitos, suas crenças e sua cultura. Concernente aisso Sapir (1980 apud ABBADE, 2009), afirma: “A língua não existe isolada de umacultura, isto é, de um conjunto socialmente herdado de práticas e crenças quedeterminam a trama de nossas vidas”. (p.165) É possível entender que as lexias pertencentes a uma língua, se organizamseguindo uma estrutura, que possibilita entendê-las de acordo com a mútuadependência que estabelecem no momento da conversação, ou seja, o conjunto noqual a lexia é inserida, determina o seu conceito. Portanto pode-se concluir que, o vocabulário de uma língua é constantementemudado, isso porque ele nunca está pronto, pois depende intrinsecamente dascircunstâncias em que se encontra o que prova o caráter instável do léxico, visto queas mudanças ocorridas no léxico são inerentes a qualquer língua viva. O léxico deuma língua reflete as transformações pelas quais os grupos sociais passaram, e asinfluências culturais por eles sofridas. Então, fica clara a importância do estudolexical das línguas, para que assim, se possa ter uma compreensão maior dofuncionamento da língua em geral.
  30. 30. 302.2 O léxico do Nordeste do Brasil e suas peculiaridades Rousseau (1978, p.178) afirma que “não se sabe de onde é o homem antesdele ter falado”, já que a linguagem é o principal instrumento para o registro dahistória do homem. O ser humano é por natureza, instigado constantemente para abusca de novos progressos e aperfeiçoamentos, não obstante a outros aspectosnecessários a sua vivência em sociedade, o homem não abre mão de utilizar-se dalinguagem como forma de estabelecimento do diálogo e até mesmo como umarelevante marca cultural. O léxico utilizado por qualquer povo é demasiadamente amplo, o que tornaimpossível uma sistematização, isto é, não se pode determinar um número de lexiasexistentes numa língua, nem mesmo dimensionar todos os conceitos atribuídos auma lexia, já que isso pode variar bastante de região para região. Vários fatorescontribuíram para a expansão do léxico; podemos citar o contato entre os povos devárias nacionalidades, o processo de globalização que permitiu umaintercomunicação por todo o mundo, e o avanço tecnológico, que a cada dia exige acriação de novas lexias para designar inúmeras coisas. Na oralidade essa situação se intensifica, visto que, no momento da fala sãocriados os mais diversos itens lexicais, seja para suprir uma necessidadeespontânea do indivíduo no momento da conversação ou para corroborar com umtermo já existente, o fato é que a língua enquanto organismo vivo é a cada diareinventada e aprimorada, tornando-se ao longo dos séculos mais natural e objetiva. A língua de um povo é um importante reflexo de sua cultura, sendo ela muitasvezes, um dos principais fatores de distinção entre os povos. Cada língua possuisuas lexias, agregando a elas conceitos variáveis ou não. O vocabulário de umalíngua contempla lexias para as mais diversas designações, concernente a issoAbbade (2006) afirma: O vocabulário pode ser entendido como o subconjunto que se encontra em uso efetivo, por um determinado grupo de falantes, numa determinada situação. Melhor dizendo, o vocabulário é o conjunto de palavras utilizado por determinado grupo. (p. 218)
  31. 31. 31 O léxico de uma língua vive em constante processo de mutação, e issoimplica na dificuldade em sistematizar os termos existentes, fazendo com que osfalantes de um determinado vocabulário precisem continuamente incorporá-lo aolongo da vida, isto é os falantes tornam-se perpétuos aprendizes da língua queutilizam. Toda língua possui, em sua estrutura, duas articulações, uma extremamenteformal, invariável; e outra flexível, aberta a novas incorporações e mudanças,ocasionadas por fatores sociais e culturais. Nessa perspectiva, entende-se que acultura, assim como os aspectos que determinam a vida em sociedade, é de sumaimportância para o enriquecimento e ampliação do léxico a cada dia. Carvalho (apudTEIXEIRA, 2009) afirma: “Uma língua através do vocabulário que a liga ao exterior,reflete a cultura da sociedade a qual serve de meio de expressão”. (p. 130)Pode-se assegurar então a língua como um fator reflexivo da cultura em que éveiculada, servindo ainda como uma fonte de registro e perpetuação dos fatosocorridos na sociedade. Concernente a isso Teixeira (2009) conclui: A língua, dentre outras coisas, registra e acumula as aquisições culturais, pereniza fatos e dados que o tempo e as mudanças culturais impõem à vida da sociedade; [...] espelha a vida do povo; é meio das manifestações culturais; retrata as influências pelas quais passam os grupos humanos; traduz as ansiedades que assinalam as diferentes épocas; evidencia as tendências que marcam cada momento. (p.130) O léxico do Nordeste do Brasil é amplo e rico em designações, sendoextremamente peculiar, isso porque agrega lexias pertencentes somente a estevocabulário, em alguns casos sendo falados e entendidos apenas nesse contexto. Ovocabulário desta região é assim um reflexo da sua cultura, do seu povo e de suascrenças. Biderman (2001) afirma: “O léxico de uma língua natural pode seridentificado como patrimônio vocabular de uma dada comunidade lingüística aolongo de sua história”. (p.14) Assim, é pertinente ressaltar a língua como umelemento de valor inestimável, que embora abstrato constitui-se como patrimôniorepleto de signos lexicais que são aprimorados ao longo do tempo e que servem debase para a criação de novas lexias. Esse processo faz com que a língua viva em constante estágio de expansão,se modificando e renovando-se a cada dia. Biderman (2001, p.15), define o
  32. 32. 32processo de expansão do léxico como sendo parte indissociável do processo decivilização, sobre a argumentação de que as comunidades que atingem tal estágioprecisam ampliar seu repertório para designar a realidade na qual estão inseridas, erotular as invenções. O léxico do Nordeste do Brasil não se distingue dos demais. Tem uma grandevariedade lexical, demonstrando em cada lexia uma particularidade que agrega umverdadeiro tesouro para a língua em geral. Algumas lexias pertencentes a essevocabulário são utilizadas apenas pelo povo nordestino, sendo, portantosignificativas somente nesse contexto. Sabendo-se que as palavras não possuem conceito concreto isoladamente,faz-se necessário uma investigação que demonstre o significado que essas lexiasagregam dentro da sociedade nordestina e fora desta. Para isso será utilizado comotexto de base o romance Tereza Batista Cansada de Guerra (1972), do escritorbaiano Jorge Amado, visto que uma grande parte das lexias que compõem ovocabulário dos personagens da obra em questão designa as marcas culturais quepermeiam todo o Nordeste. Desta forma, é perceptível que o vocabulário utilizadonesta obra traz fortes marcas que o identificam como próprio da populaçãonordestina, já que a língua de um povo traz consigo aspectos extremamenteparticulares. Jorge Amado utiliza-se dos elementos da língua para dá maior autenticidadee originalidade à sua escrita, visto que as lexias oriundas de dadas regiões, emmuitos casos agregam significados desconhecidos fora do contexto ondenormalmente são utilizadas. Constata-se então que há certa intencionalidade no usode lexias tipicamente nordestina na fala e na descrição de seus personagens. Para enriquecimento desse estudo, serão utilizadas algumas palavras doreferido romance para, a partir disso realizar-se uma investigação entre o significadodas lexias que agregam características do vocabulário nordestino dentro dodicionário, e, no seu contexto de origem, por meio das lexias retiradas do texto debase. Exemplos: A lexia papudo é 1conceituada como: bom conversador; que tembom papo, ex: “[...] Tereza afrouxa, cai deitada de costas- aprendeu papuda?”(AMADO 1972, p. 110); aperreio, por sua vez, tem como significado aborrecimento,ex: “[...] Cego de raiva[...] aperreio medonho” (p.114). Medonho, tem como1 Todos os conceitos foram retirados de Ferreira (1986) e Houaiss (2001).
  33. 33. 33conceito: assustador, excessivamente desagradável, ex: “Solta um grito medonho,se torce e contorce”. (p.112) Desta forma, pode-se inferir que, para uma mesma designação, isto é, paraum mesmo conceito, há uma enorme gama de possibilidades de lexias a seremempregadas. Algumas dessas lexias podem se restringir apenas a um contexto ouregião, outras, porém são utilizadas por grande parte dos falantes de uma língua,fazendo com que ela esteja livre de estigmas preconceituosos que abarcam aslexias utilizadas em um contexto restrito. Oliveira e Isquerdo (1998 apud QUEIROZ)2relata: O léxico, saber partilhado que existe na consciência dos falantes de uma língua, constitui-se no saber vocabular de um grupo sócio-liguístico-cultural. Na medida em que o léxico como a primeira via de acesso a um texto, representa a janela através da qual uma comunidade pode ver o mundo, uma vez que esse nível da língua mais deixa transparecer os valores, as crenças, os hábitos e costumes de uma comunidade, como também as inovações tecnológicas, transformações sócio-econômicas e políticas ocorridas numa sociedade. (p.21). Assim, entende-se a pluralidade da língua como um processo incontrolável,imprevisível, mas, sobretudo indispensável para o aprimoramento da língua. Esteprocesso contribui não só para facilitar a comunicação entre os falantes de umamesma língua, como também para a transmissão da cultura de geração em geração.Perpetuando a língua, dando-a aperfeiçoamentos e originalidade, permitindo que osfalantes sintam-se os condutores das variações que a língua sofre ao longo dosanos.2 Não tem informação de ano.
  34. 34. 342.3 A Teoria dos Campos Lexicais Cada povo possui elementos que o distingue dos demais, aspectos comohistória, crenças e cultura, são importantes marcas que caracterizam as sociedades,dando-lhes identidade própria, diferenciando umas das outras. O léxico obviamentetem valor inestimável para toda e qualquer sociedade, atuando no registro da culturade um povo. A língua registra e perpetua os fatos ocorridos em um determinadocontexto. Ela nada mais é que a junção de uma variedade imensa de signos lexicaisque se organizam para formar os enunciados. Para compreender a Teoria dosCampos Lexicais, é necessário, antes, que haja o entendimento da distinção entrepalavra, lexia e vocabulário. A maioria das pessoas pensa não haver diferença entre esses termos,acreditando apenas que a designação palavra seria um termo mais popular e usualna linguagem cotidiana. Em contrapartida lexia e vocabulário serviriam maisespecificamente para o uso científico. No entanto, há fatores distintivos entre eles. Abbade (2006) classifica a palavra como “um termo genérico, tradicionalmenteutilizado na língua, fazendo parte do vocabulário de todos os falantes”. (p. 218). Ovocabulário, por sua vez, é o conjunto de palavras que um grupo de falantes utiliza.É importante, entretanto, devidos cuidados para não haver equívocos na definiçãodo termo lexia. Isso porque, diferentemente do que muitos acreditam, ele não é umsinônimo do termo palavra. Abbade (2006) define lexia como “a unidade significativado léxico de uma língua, é uma palavra que tem significado social”. (p.219). O que se busca nesse trabalho é realizar um estudo que possibilite estruturar emuma determinada obra, as lexias que designam marcas regionais do vocabulárionordestino. Dentro dos objetivos aqui apresentados, é possível que haja umasistematização dessas palavras; contudo, há uma necessidade ainda maior dosestudos lexicológicos em realizar uma sistematização do léxico de uma língua. De acordo com Vilela (apud SENGO, 2010, p. 15) a Lexicologia tem comofinalidade fornecer os pressupostos teóricos e traçar as grandes linhas quecoordenam o léxico de uma língua. Tendo em vista a multiplicidade de lexias quepodem ser utilizadas para uma mesma significação, e sabendo-se que as palavrasnão possuem sentido isoladamente, alguns lexicólogos sentiram a necessidade de
  35. 35. 35organizar as palavras a partir do princípio da Lexemática ou Semântica estrutural.Uma proposta de estruturação é a da organização em campos lexicais. O estudo dateoria dos campos lingüísticos teve como um dos seus principais mentores J. Trier(apud ABBADE, 2009). Nessa perspectiva, o autor propõe a organização daspalavras em campos, nos quais as palavras estabelecem uma interdependência, Istoé, elas se organizam de modo que o significado de uma palavra dependeexclusivamente das outras que fazem parte do mesmo campo. Como afirma Abbade(2009) quando diz que As palavras estão organizadas em um campo com mútua dependência, ou seja, elas adquirem uma determinação conceitual a parti da estrutura do todo. O significado de cada uma vai depender do significado de suas vizinhas conceituais. (p. 38) Essa teoria, entretanto, foi e continua sendo alvo de muitas críticas, issoporque lhe faltava um método, como postula Abbade (2009, p.40): “Não existia umatécnica linguística ou procedimentos linguísticos para esse estudo”. Posteriormente,Eugênio Coseriu (apud ABBADE, 2009, p. 41) tenta articular uma semânticaestrutural, onde a teoria de Trier (apud ABBADE, 2009, p. 40) seria somada ao seumétodo, alcançando a eficácia e o sucesso desejado. Coseriu (apud ABBADE, 2009,p. 40) propunha, em seu método, que as palavras fossem organizadascoerentemente, seguindo uma estrutura que possibilitasse uma compreensão maisabrangente da língua. Nessa perspectiva, as palavras seriam estudadasdiacronicamente, isto é, os sentidos que uma mesma lexia recebeu em diferentesépocas da história. Essa necessidade de um estudo diacrônico se deu, a partir domomento em que ficou provado que o significado das palavras muda em maiorescala, do que o significante, ou seja, na maioria das vezes, o significante ganhanovos sentidos, podendo assim ser usado para definir várias coisas, nas maisdiversas situações. O campo lexical pode ser definido então, como um grupo de lexias, que fazemparte de uma mesma linha de significação. Pode-se exemplificar a partir do campolexical de objetos que servem para cobrir a cabeça, assim seriam elencadas aslexias: boné, boina, chapéu, gorro, entre outras que compõem esse campo.Entretanto, não se pode organizar um campo de forma aleatória, colocando em um
  36. 36. 36mesmo conjunto lexias de sistemas diferentes, isso acarreta oposições de sentidos,como por exemplo: pão e sofá. É notável, que não há nenhum sentido entre estaslexias, portanto não existe possibilidade de pertencerem a um mesmo campo. Noentanto, seria possível colocar a lexia sofá em um provável campo, o campo dosassentos: sofá, cadeira, banco, poltrona, enfim... Uma estruturação coerente. Abbade (2009) ao fazer uma concisa pesquisa sobre a estruturação doscampos lexicais, afirma: “A teoria dos campos lexicais proposta por Coseriu, visa aque cada campo conceitual tenha um conteúdo unitário e que esse conteúdo sesubdivida através de oposições entre os termos que o constituem” (p.48). Issosignifica que a constituição de um campo se dá através de pequenas oposiçõesentre as lexias, e termina quando oposições superiores exigem a criação de umnovo campo. Ao realizar o estudo do léxico de uma língua, inúmeros fatores e descobertasvêm à tona. Nessa pesquisa, em particular, o léxico do Nordeste do Brasil é o objetocentral. Para se compreender um pouco mais sobre o vocabulário nordestino,poderia-se partir de vários pontos; entretanto, optou-se pela restrição às lexias comfortes marcas nordestinas retiradas de uma dentre as várias obras de Jorge Amado. Em toda a obra, Tereza Batista Cansada de Guerra (1972), os personagenstransmitem através de seus falares a alegria e os encantos do povo nordestino. Parafazer o levantamento lexical do regionalismo nordestino, nada melhor que uma obraescrita por um autêntico baiano como Jorge Amado, com seus personagensenvolventes para descrever o falar desse povo sofrido e guerreiro, que povoa asterras quentes do Nordeste. Para isso, fez-se o levantamento das lexias nordestinasque compõem o texto base e, em seguida, a verificação dos seus respectivossignificados nos dicionários de Língua Portuguesa de Ferreira (1986) e de Houaiss(2001). É importante ressaltar que algumas dessas lexias possuem conceitosdiferentes, entre os observados nos dicionários e no seu uso habitual no contextonordestino. Para a conceituação das palavras, foi necessário recorrer aosconhecimentos extralinguísticos, e às experiências que a vivência no Nordesteacarretou para a condutora da pesquisa. Como qualquer língua viva está aberta amudanças, o falante está condicionado a utilizar dessa liberdade para facilitar a suacomunicação. O povo nordestino, não se diferencia dos demais, inovaconstantemente seu vocabulário, usando criativamente as possibilidades de criação
  37. 37. 37que estão ao seu alcance, para assim construir um riquíssimo e belo tesourovocabular. Nessa perspectiva, compreende-se o funcionamento da língua, como umprocesso progressivo, que constantemente sofre as alteridades necessárias paraque se consolide e não perca seu caráter mutável. A língua reflete as característicasdo meio em que é utilizada, perpassando as regras linguísticas que a constitui, elanão necessita de padrões para existir, o seu funcionamento dependeintrinsecamente do falante, que determina o que deve ou não ser inserido na língua,são os falantes que criam em seu cotidiano, os mais diversos itens lexicais, nãoimportando se eles terão uma boa aceitação entre os estudiosos da língua ou não. Oque não se pode deixar de lado é a liberdade do falante de criar o que achaconveniente, e o que julga indispensável para complementar o processo decomunicação. Como ficou especificado, a Lexicologia permite o estudo da língua e acompreensão das mudanças ocorridas ao longo da história, para isso não abre mãode estudar a língua como um sistema composto de conjuntos de lexias, que giramem torno de campos conceituais. A língua é, portanto, um organismo vivo, sujeito asmais variadas modificações, independente de sua aceitação, elas existem e fazemcom que a língua se perpetue, permitindo a interação entre os povos de geração emgeração.
  38. 38. 38 3. O CAMPO LEXICAL DO REGIONALISMO EM TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA O campo lexical representa um conjunto de palavras situadas no mesmo campoconceitual, isto é, quando agrupadas elas estabelecem uma relação de sentido entresi. Dentro de uma língua, existe uma variedade imensa de lexias. É possível enecessário estruturá-las para que haja uma maior compreensão de como a língua seconstituí. Nesse sentido, os campos lexicais têm um papel determinante, isso porqueé através deles que se pode visualizar algumas relações de sentido entre aspalavras. Nessa perspectiva, compreende-se que dentro de uma língua encontram-se os mais variados e diversificados campos lexicais, isso porque muitas são aslexias e variados os conceitos associados a cada uma delas. Daí a relevância daspalavras serem organizadas, seguindo uma estrutura que permita compreendê-lasnum todo específico. Retiradas do texto de base, Tereza Batista Cansada de Guerra (AMADO, 1972),as lexias elencadas nessa pesquisa estão organizadas em sete microcampos: 1. Descontentamento: nesse microcampo estão as lexias que designam dentro do contexto nordestino, marcas de descontentamento e relações conflituosas: aperreio, aporrinhar, azucrinar, emburrado e danado. 2. Relacionamento amoroso: esse campo refere-se às lexias utilizadas para definir relações amorosas e àquele que se envolve em um relacionamento amoroso: xodó, amancebada e rabicho. 3. Qualificadores: nesse microcampo, encontram-se as lexias utilizadas para qualificar e avaliar as características atribuídas às pessoas sejam elas boas
  39. 39. 39 ou ruins: arretado, porreta, canguinha, enxerido, gaiato, descarado, troncudo, colhudo, chibungo, papuda, medonho, pinóia, 4. Qualificadores para mulher: as lexias expostas nesse microcampo servem para qualificar a mulher e os fatores que fazem parte de seu cotidiano, atribuindo-lhe diferenes características: Cabrocha, cabaçuda, pitéu, dia de paquete. 5. Orgão sexual: para as lexias referentes aos órgãos sexuais: estrovenga e quirica. 6. Ações: Nesse microcampo encontram-se as lexias que designam ações: estrebuchar, desembuchar, tapear. 7. Desentendimento: esse microcampo é composto pelas lexias utilizadas para referir-se ao desentendimento: rebuliço, fuzuê, mexerico, tabefe. Abaixo estão organizadas as lexias que compõem o macrocampo doregionalismo nordestino na obra Tereza Batista Cansada de Guerra (1972).3.1 DescontentamentoAperreio- s.m. Aborrecimento, descontentamento. Ex.: De taca na mão, cego de raiva, um incomôdo nos ovos, aperreio medonho! (AMADO, 1972, p. 114)
  40. 40. 40Aporrinhar- V. Aborrecer, causar desconforto, apoquentar. Ex.: [...] Entrevada, sem falar, sem se mexer, enxergando apenas uma réstia de luz, não é vida para ninguém, e a dita cuja só não entrega os pontos de ruim, para aporrinhar. (AMADO, 1972, p. 144)Azucrinar- V. Importunar, aborrecer. Ex.: Amigo, permita lhe dizer, o amigo é um fode-mansinho, azucrinando os ouvidos da gente, sem pausa e sem reserva. (AMADO, 1972, p. 197)Emburrado- Adj. Diz-se quando o indivíduo encontra-se aborrecido, mau humorado, descontente. Ex.: Dóris herdara os nervos do pai, magoava-se facilmente, chorava por uma nada, metia-se pelos cantos emburrada, o terço na mão. (AMADO, 1972, p. 84)Danado- Adj. Algo desagradável, corrompido, estragado. Ex: - Despesona danada! –Disse o capitão e assoviou entredentes. (AMADO, 1972, p. 123)3.2 Relacionamento amorosoXodó- s.m. relacionamento amoroso, amor, paixão, sentimento de afeto, amante. Ex.: Xodó poderoso, atirado despudorosamente às fuças da população, durou pouquíssimo, não dobrou a semana. (AMADO, 1972, p. 122)
  41. 41. 41Rabicho- s.m. relacionamento amoroso, namoro. Ex.: O capitão jamais professara amor antes de Dóris, jamais voltara a senti-lo depois- todo o resto não passando de xodós, rabichos, simples assuntos de cama [...] (AMADO, 1972, p. 124).Amancebada- s.f. Relacionamento amoroso que não é oficializado, amásio, amante. Ex.: Virgens não eram o seu gênero, preferindo as casadas, amancebadas ou livres de qualquer compromisso. (AMADO, 1972, p. 143)3.3 QualificadoresArretado- Adj. qualidade apreciativa, bom, bacana, excelente. Ex.: Festa maior a de São João, com grande fogueira, montanhas de milho, rojões de foguetes, salvas de moteiro, estouro de bombas e a dança arretada. (AMADO, 1972, p.160)Porreta- Adj. Desígnio de boas qualidades, tais como: bom, excelente, confiável, simpático. Ex.: O destino é um porreta, fez e aconteceu, não me cabe duvidar. (AMADO, 1972, p. 65)Canguinha- Adj. Indivíduo avarento, mesquinho, sovina. Ex.: Farto, generoso em promessas o capitão Justiniano Duarte da Rosa. No mais canguinha. . (AMADO, 1972, p. 69)Enxerido- Adj.. Pessoa que se intromete onde não lhe é cabível. Ex.: Nenhuma cirurgia pôde atenuar o cheiro de alho no colo de dona Pérola e o dinheiro e os dengues pertubaram a moléstia de Tânia, tornando-a, enxerida e exigente. (AMADO, 1972, p. 141)
  42. 42. 42Colhudo- Adj.. Pessoa intrometida, atrevida, que tem coragem para freqüentar as adversidades. Ex.: O que eu queria ver para crer era colhudo capaz de enfrentar assombração. (AMADO, 1972, p. 98)Gaiato- Adj. Indivíduo brincalhão, divertido, alegre, travesso. Ex.: Em Aracaju, onde ia frequentemente a negócio, Veneranda a rir, gaiata, na troça, lhe propunha moça donzela. (AMADO, 1972, p. 79)Descarado- Adj. Pessoa insolente, desavergonhado, atrevido, que não sente constrangimento com seus atos. Ex.: - Tu não vem? Eu sei o que tu está querendo, cabrão descarado. (AMADO, 1972, p. 76)Troncudo- Adj. Indivíduo forte, que tem o corpo bem desenvolvido, corpulento. Ex.: O capitão a segurou pelo braço. Troncudo e gordo, meão de estatura, rosto redondo, sem pescoço [...] capaz de romper um tijolo com um soco. (AMADO, 1972, p. 76)Chibungo- Adj. Homossexual com trejeitos femininos, afeminado. Ex.: Porteiro do cinema e chibungo oficial da cidade. (AMADO, 1972, p. 88)Papuda- Adj. Pessoa que conversa bastante, que tem alto poder de convencimento. Ex.: [...] Tereza afrouxa, cai deitada de costas- aprendeu papuda. (AMADO, 1972, p. 110)Medonho- Adj. Algo assustador, excessivamente desagradável. Ex.: Dá um passo, recebe de Tereza nos ovos, dor mais sem jeito, dor mais pior, solta um grito medonho, se torce e contorce. (AMADO, 1972, p. 112)Pinóia- Adj. Coisa sem valor, sem préstimo, dispensável. Ex.: Pinóia de homem, não presta para nada, só sabe comer e dormir. (AMADO, 1972, p. 68)
  43. 43. 433.4 Qualificadores para mulherCabrocha- s.f. Mulata jovem, que gosta de samba. Ex.: Desfiles de meninas e moças em leito de defloramentos, orgias nas pensões e castelos, cabrochas violadas, batidas, abandonadas no meretrício. (AMADO, 1972, p.88)Cabaçuda- adj. Refere-se à mulher que é virgem. Ex: [...] a beata no fim da folgança estava tão perfeita e cabaçuda quanto antes. (AMADO, 1972, p.167)Pitéu- s.m. Algo atrativo, bom, gostoso. Ex.; [...] Se na festa aparecesse uma novidade, um pitéu, menina ao agrado do capitão, e ele quisesse levá-la para a roça? (AMADO, 1972, p. 163)Dia de paquete- Exp. Menstruação. Ex.: Não adianta sequer mentir, dizendo-se incomodada, em dia de paquete; Justiniano adora tê-la nas regras [...] (AMADO, 1972, p. 161)3.5 Orgão sexualEstrovenga- s.f. Órgão sexual masculino, pênis. Ex.: Queria vê-la receber a estrovenga, o corpo vibrando na resistência e na dor. Ouvi-la urinar, excitava-o loucamente. (AMADO, 1972, p. 114)Quirica- s.f. Orgão sexual feminino, vulva, vagina. Ex.: Até na quirica põe cheiro. (AMADO, 1972, p. 152)
  44. 44. 443.6 AçõesEstrebuchar- V. Mexer muito, descontroladamente, agitação. Ex.: Devia haver alguma explicação, um culpado; culpa de Tereza, é claro, com aqueles olhos de censura e piedade, o grito de agonia quando o galo caiu, estrebuchando, no peito um esguicho de sangue. (AMADO, 1972, p. 131)Desembuchar- V. Ato de desabafar, confessar, falar algo que não se queria. Ex.: - Aqui mesmo. Desembuche. (AMADO, 1972, p. 101)Tapear- V. Contornar determinadas situações, ludibriar, enganar. Ex.: Quis me tapear mais uma vez, não foi? (AMADO, 1972, p. 101)3.7 DesentendimentoRebuliço- s.m. Desentendimento, agitação, desordem, confusão. Ex.: Uma delas, Maria Romão, causou intenso rebuliço ao ser vista, de braço dado com o capitão na calçada do cinema, rebolando ancas fartas e busto soberbo. (AMADO, 1972, p. 122)Fuzuê- s.m. Confusão, conflito, desordem. Ex: Não houvesse marido e mulher dado nas pernas e o fuzuê seria feito. (AMADO, 1972, p. 94)Mexerico- s.m. Comentário intrigante, fofoca, falar algo sobre a vida alheia. Ex.: Tola menina de quatorze anos, tão distante de tais enredos, indiferente aos mexericos, olhos postos no chão ou voltados para o céu. (AMADO, 1972, p. 89)Tabefe- s.m. Bofetada, tapa, soco. Ex.: Em geral tudo terminava pelo melhor, uns socos, uns tabefes, por vezes uma surra, quase nunca o cinto ou a taca de couro cru. (AMADO, 1972, p. 79)
  45. 45. 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir dos estudos por ora desenvolvidos, compreende-se a importância dosestudos Lexicais, para que haja maior entendimento do funcionamento da língua emgeral, e as mudanças por ela sofridas ao longo dos séculos, verificando-se como alíngua constitui um verdadeiro patrimônio lexical para aqueles que a utilizam, e comoela é importante para a vivência em sociedade. É impensável o homem sem alinguagem, sem um meio de comunicação que lhe permita expressar as suas ideiase compartilhá-las no meio onde vive. O homem, enquanto ser inovador, precisareinventar o universo em que vive e onde materializa seus pensamentos. A línguanão poderia ficar alheia a isso, visto que, é um organismo vivo, sujeito portanto amodificações que a tornam ainda mais fascinante. O homem muda de acordo com as suas necessidades, e o que está à suavolta consequentemente, sofre as alteridades devidas. Ao longo do tempo, a línguapassa por inúmeras mudanças nem sempre aceitas ou consideradas dignas decontemplarem o dicionário de uma língua. Ela, entretanto, não se detém àsideologias do povo, nem se submete às vontades de dicionaristas, isso porque elanão precisa da aprovação dos estudiosos, para que seja incorporado um novotermo. É o povo que faz a língua ser o que ela é. São os falantes no momento daconversação que criam os mais autênticos termos da língua, tornando-se osprincipais responsáveis pela expansão do léxico. Não se criam palavras a partir de nenhuma técnica. Elas simplesmentetomam existência diante da necessidade do falante para denominar as mais diversascoisas. Pode sim, haver regras e normas que regem o funcionamento da língua; noentanto, isso não significa que elas devam ser seguidas à risca, privando o falantede inovar e criar o que acha devido. A liberdade de criação deve está à disposiçãodo falante o tempo todo, sem que lhe seja privado o direito de falar o que quer, daforma mais autêntica possível, é isso que torna a língua rica e bela. Como já ficouespecificado, vários fatores exercem influência sobre a língua, e a cultura é um
  46. 46. 46deles, o que não se pode, entretanto é tratar a língua como algo premeditado,imutável, que deve se restringir as normas linguísticas de um determinado povo. O léxico nordestino como foi mostrado nessa pesquisa é uma prova de quenão há barreiras para a língua, ela não deve se submeter às críticas nem aospadrões que a regem. Deve sim, corresponder às necessidades do falante, nãoimportando de que forma essa comunicação se dá. A liberdade de criação do falantedeve lhe ser assegurada para que a língua não fique estagnada, mas sim que ela semodifique e seja aperfeiçoada a cada dia. A Linguagem funciona como um modo de expressar o pensamento, nessaperspectiva, seria impensável o homem sem a linguagem, sem uma forma decomunicação que lhe permitisse interagir com o mundo a sua volta. A linguagemtorna o homem um ser social, capaz de expressar seus sentimentos e pensamentosmais profundos. Desta forma, é pertinente o estudo do vocabulário, para saber atéque ponto há fatores distintivos entre os vocabulários utilizados pelos diferentesgrupos sociais. Considera-se, portanto, a extrema relevância da estruturação do campolexical do regionalismo nordestino, a partir da obra Tereza Batista Cansada deGuerra (1972), para especificar, como o povo do Nordeste do Brasil se expressa, equais as lexias mais peculiares que utilizam no momento da comunicação. Airreverência do falar nordestino é inquestionável, não se limitando às normas eregras gramaticais ou linguísticas. Apesar dos preconceitos que vão de encontro àcriatividade do povo nordestino, estes falantes não se detêm às críticas que lhe sãoimputadas, pelo vocabulário autêntico que utilizam, pelo contrário, se orgulham porfazerem deste, um dos mais peculiares vocabulários do Brasil.
  47. 47. REFERÊNCIASABBADE, Celina Márcia de Souza. Estruturação dos campos lexicais: o estudofuncional do léxico. In: ABBADE, Celina Márcia de Souza. Um estudo lexical doprimeiro manuscrito da culinária portuguesa medieval: o livro de cozinha daInfanta D. Maria. Salvador: Quarteto, 2009.__________ O estudo do léxico. In: ABBADE, Celina Márcia de Souza. Diferentesperspectivas dos estudos filológicos. Salvador: Quarteto, 2006.__________ Aplicação prática da teoria dos campos lexicais: In: ABBADE, CelinaMárcia de Souza (Org.). O Léxico em questão. Salvador: UCSAL, 2009.AMADO, Jorge. Tereza Batista Cansada de Guerra. São Paulo: Martins, 1972.ARAUJO, Jorge de Souza. Dionísio & Cia na moqueca de dendê: desejorevolução e prazer na obra de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Relume Dumará;Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2003.BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. (37. ed). Rio de Janeiro:Lucerna, 2005.BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. As ciência do léxico. In: OLIVEIRA, Maria PintoPires de; ISQUERDO, Aparecida Negri (Orgs.). As ciências do léxico: lexicologia;lexicografia; terminologia. 2.ed. Mato Grosso do Sul: UFMS, 2001.CALIXTO, Carolina Fernandes. Jorge Amado e a identidade nacional: diálogospolíticos - culturais. Niterói: UFF, 2011. Disponível em:<http://www.historia.uff.br/stricto/td/1515.pdf>. Acesso em 25 de julho de 2011.FERREIRA, Aurélio Buarque de Olanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.GOLDSTEIN, Ilana Seltzer. O Brasil Best Seller de Jorge Amado: literatura eidentidade nacional. São Paulo: Senac, 2003.
  48. 48. ___________ Uma leitura antropológica de Jorge Amado: dinâmicas erepresentações da identidade nacional. Universidade Aarhus, 2002. Disponível em:<http://redalyc.uaemex.mx/pdf/162/16200508.pdf>. Acesso em 25 de julho de 2011.HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da línguaportuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.MONZOLILLO, Vito Cesar de Oliveira. Dinamicidade lexical: uma abordagemlinguístico sociológica de empréstimo. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995.QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro. Autos de defloramento: um estudo léxico-semântico de documentos cíveis do início do século XX. Revista Virtual, n° 1, ano I.Disponível em:<http://www.uefs.br/colplet/revista/ed01_102009/artigos/artigo_02.pdf>. Acesso em:26 de fevereiro de 2012.ROUSSEAU, Jean-Jacques. Ensaio Sobre a Origem das Línguas. Tradução deLourdes Santos Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1978.TEIXEIRA, Maria da Conceição Reis. O estudo do Léxico, o conhecimento dacultura: In: ABADDE, Celina Márcia de Souza (Org.). O Léxico em questão.Salvador: UCSAL, 2009.SENGO, Alice Graça Samuel. Processos de enriquecimento do léxico doPortuguês de Moçambique. Universidade do Porto, 2010. Disponível em:http://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/55314/2/tesemestalicesengo000124585.pdf. Acesso em: 26 de Fevereiro de 2012.SOARES, Angelo Barroso Costa. Academia dos Rebeldes: Modernismo à modabaiana. Feira de Santana: UEFS, 2005. Disponível em:<http://tede.uefs.br/tedesimplificado/tde_arquivos/1/TDE-2006-06-29T191838Z-3/Restrito/Angelo%20Barroso%20Soares.pdf>. Acesso em: 25 de julho de 2011.VILLAS BOAS: Sérgio. Olhares modernos sobre um romântico. Gazeta Mercantil,2005. Disponível em: <http://www.revista.agulha.nom.br/svboas1.html>. Acesso em25 de julho de 2011.

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