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2  “Ser moderno é encontrar-se num ambiente que promete aventura,      poder, alegria, crescimento, transformação de si e ...
3 Dedico a Deus...   À minha mãe.   Ao meu filho.À minha família.Aos meus amigos
4                           AGRADECIMENTOSA Deus, por me permitir humana.Aos meus pais, sobretudo, à dona Joana, por me co...
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6ABSTRACTThe present work makes an analysis of the interference of cities in the identity deconstructionof a modern man. T...
7                                                         SUMÁRIOINTRODUÇÃO AO PASSEIO PELA CIDADE, EM SONIA COUTINHO .......
8INTRODUÇÃO AO PASSEIO PELA CIDADE, EM SONIA COUTINHO                                                 “MIL OLHOS DE ORVALH...
9dessa selva, embora a única saída, em algumas situações, seja o suicídio concretizado nacidade. Importa assegurar a perma...
10identidade as personagens driblam a adversidade da vida urbana, dando início a um processoque passará a ser constante em...
11         A discussão aqui abordada tem como tema Literatura e identidade, instigado pelodesejo de compreender o panorama...
12possíveis, vivenciadas e sustentadas num universo envolvente que só a literatura podeproporcionar. Em um trilhar incansá...
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14ela pode estar aqui em Copacabana sem causar estranheza a ninguém, assim de calçascompridas um tanto sujas, mas então le...
15que o circunda. Essa proximidade com o real é justificada pela mímese, uma vez que ouniverso existente na obra literária...
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18requereu um estreitamento com as camadas populares, pois a massa brasileira, enquantoconstituinte social, não poderia se...
19do Modernismo, mas como um movimento denso e questionador da modernidade3 que, dentreoutros, discutirá os aspectos cultu...
20         As incertezas suscitadas na contemporaneidade tentam, mais que dar respostas aosleitores, questionar os conflit...
21        Na contística de Sonia Coutinho, percebe-se a existência constante dessa concepçãode espaço e sua contribuição p...
22se com Harvey (2001, p. 273) sobre revisitar a tradição, visando uma identidade, uma tarefanão simples se entendida apen...
23         A rapidez e a tenuidade com que as concepções são construídas e desmoronadas naatualidade desconstroem as bases...
24e dolorosa sensação de perda. Acima de tudo, minha solidão. São coisas que doem, mas quetambém aprecio, porque essas coi...
25         Numa perspectiva teórica, discutir literatura na contemporaneidade implica, também,abordagem de questões outras...
26                         las todas: norma, ornamento, desvio, tipo, sintoma, cultura, é tudo isso que                   ...
272 O EU PELAS RUAS DA MODERNIDADE       A imaginação tornou-se um elemento essencial aos sujeitos da modernidade. Através...
28       Uma vez estabelecida a vida como uma peça teatral, inúmeras representações estarãoprontas à espera dos atores soc...
29       Colocar fim na própria vida, mesmo que seja em pensamento, é um recurso utilizadopela escritora. Por vezes, a mor...
30mediante a renovação de sua mulher, começa a mostrar-se enfraquecida, fazendo surgir umhomem sensível, fraco, “um pobre ...
31       Os conflitos vividos pela personagem encontram solidez nas discussões da literaturacontemporânea. Na representaçã...
32importante função do herói, reforça que nem mesmo ele conseguirá se libertar das amarras damodernidade:                 ...
33       O desejo por situações ou objetos que, mesmo simbolicamente, remetam à noite, essaspersonagens seguem suas vidas ...
34mas por trazer, para o centro das vivências modernas, diversas formas de prazer escondidasatrás das regras sociais. Ness...
35passarem durante o dia, a ânsia pela penumbra da noite permanece: “Entrou num botequim,pediu cachaça pura e, enquanto le...
36identitárias de cada habitante, essa mesma característica poderá conduzir seus andarilhos auma incerteza maior ainda sob...
37       Na contemporaneidade, a literatura não mais se sustenta, tão somente, restrita ao seuuniverso. Daí o fato de ela ...
38                            [...] fora a brancura cinzenta da espuma (as ondas picadas deixam no ar, em                 ...
39         Este sentimento que assolava a vida do flânuer tornava-se mais intenso ao descobrir-se completamente solitário ...
40       Para Edgar Poe (apud Benjamin, 1989, p. 48-50), o efeito é ainda mais devastador,pois se trata de humanos como ba...
O eu, a cidade... e os conflitos identitários do século xx uma análise na contistica de sonia coutinho
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  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA MARIA ELAINE GOMES DOS SANTOSO EU, A CIDADE... E OS CONFLITOS IDENTITÁRIOS DO SÉCULO XX: UMA ANÁLISE NA CONTÍSTICA DE SONIA COUTINHO. Conceição do Coité 2012
  2. 2. 1 MARIA ELAINE GOMES DOS SANTOSO EU, A CIDADE... E OS CONFLITOS IDENTITÁRIOS DO SÉCULO XX: UMA ANÁLISE NA CONTÍSTICA DE SONIA COUTINHO. Monografia apresentada ao Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciaturas, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciada em Letras. Orientadora: Profa. Ms. Eugênia Mateus Conceição do Coité 2012
  3. 3. 2 “Ser moderno é encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformação de si e do mundo – e, ao mesmo tempo, que ameaça destruir tudo o que sabemos, tudo o que fomos” (David Harvey, 2001)."A forma de uma cidade muda mais rápido, infelizmente, do que um coração mortal" (Charles Baudelaire)."A cidade não é a solidão porque a cidade aniquila tudo o que povoa a solidão. A cidade é o vazio" (Pierre Drieu La Rochelle).
  4. 4. 3 Dedico a Deus... À minha mãe. Ao meu filho.À minha família.Aos meus amigos
  5. 5. 4 AGRADECIMENTOSA Deus, por me permitir humana.Aos meus pais, sobretudo, à dona Joana, por me concretizarem humana.Ao meu filho Gustavo, causa da minha plenitude humana.Àqueles que comigo compartilham a honra de sermos unidos por laços sanguíneos.Aos colegas de faculdade que, movidos pela mesma sede, alcançamos juntos umavitória.Aos que se tornaram amigos, grata pela cumplicidade e companheirismo.Aos mestres que passaram e deixaram sua contribuição.À professora Jussimara Lopes por acreditar no que eu ainda não havia percebido.À escritora Sonia Coutinho, por sua produção artística.À minha orientadora, professora Eugênia Mateus, pelas inúmeras contribuições, pelapaciência, profissionalismo, disponibilidade, credibilidade no meu trabalho, pelohumanismo.
  6. 6. 5RESUMOO presente trabalho discute a interferência da cidade na (des)construção identitária do sujeitomoderno. As características especificas desse individuo que, de dia ou de noite, é andarilhodas cidades, foram evidenciadas com o objetivo de enfatizar os fatores sociais colaboradores àsua manutenção enquanto sujeito social. Para tanto, utilizam-se os conceitos tradicionais econtemporâneos da literatura com vistas a analisar o Modernismo brasileiro à revelia do quese considera Pós-modernismo. A análise literária de alguns contos da escritora contemporâneaSonia Coutinho, indica, por vezes, um diálogo com os estudos culturais que, bem como aprodução literária brasileira atual, chama a atenção para os sujeitos historicamente isoladosdas estruturas sociais. Os cantos da cidade ecoaram o ritmo da vida das personagens naincessante busca pelo seu eu. Com base na constatação de que os anseios vivenciados pelaspersonagens estão presentes tanto no universo feminino, como no masculino, realizou-se olevantamento das características que definem o indivíduo em sua obra. Observou-se, então,que para além de uma escrita tratando exclusivamente do universo feminino, Coutinho produzuma arte que possibilita analisar o comportamento do humano contemporâneo em diversasesferas sociais. Narrativas extremamente convidativas, envolventes, pois as sensaçõesdemonstradas pelas personagens se misturam a estrutura urbana e geram fascinantes histórias.Pessoas, aparentemente, perdidas de si mesmas e movidas pelo desejo de serem felizes. Osleitores são seduzidos a embarcarem no mundo das personagens e, quem sabe, tentardesvendar junto com as mesmas as veredas que as conduzirão à felicidade. Neste trabalho, acidade apresentada, adquire a forma dos desejos das personagens, justificando assim a suaplasticidade e múltiplas faces. Erguida, segundo os sonhos dos que a desejam, a cidade seguesoberana, enquanto que em seu redor, ou pelas suas entranhas, sonhos irrealizados esvaem-se,enquanto que aqueles que neles creram perdem-se nos labirintos urbanos. E a vida vaipassando. A análise foi baseada nos estudos de David Harvey (2001), Walter Benjamin(1989), Ítalo Calvino (1990), Steven Connor (2000), Linda Hutcheon (1991), Leyla Perrone-Moisés (1998) alguns dos teóricos que sustentam a interferência da cidade na (des)construçãodo eu.Palavras-chave: Literatura. Conto. (des)construção identitária. Contemporaneidade. Cidades.
  7. 7. 6ABSTRACTThe present work makes an analysis of the interference of cities in the identity deconstructionof a modern man. The specifics characteristics of this individual, that, night and day, is acities´ walker. It was evidenced with the goal, emphasize some social factors that contributedto maintain the man as a social subject, but, use traditional literature concepts andcontemporary literature concepts, in relation to the contemporaneity. The literary analysis ofsome contemporary short stories by writer Sonia Coutinho, show us the dialogue with thecultural studies, that, as the Brazilian production nowadays, call attention to the historicallyisolated man of the social structures, the four cities corners echoed the rhythm of characterslife, seeking their own identity. Based on in this observation that this anxiety makes part inthe female personality and male personality, was made some characteristics definition in herliterary work, notice that when the writing makes part of the female universe, Coutinho makesan art that allows an analysis about contemporary human behavior in different social status.It’s a extremely inviting narrative, engaging, some sensation showed by the characters have amix in some urban structures and allows fascinating stories. People, apparently lost inthemselves are moving because they wish to be happy, the readers are seduced to know thecharacters’ world, and maybe try to discover what will conduct them to happiness. In thiswork the city acquires the characters’ wishes; this way justifying the city’s multiple faces,built by those who wish to, the city keeping on the top, whereas around it, some dreams hasbeen destroyed. Some of them who believed in the dreams are lost in the urban labyrinth, thelife is passing by. The analysis was based on some studies of: de David Harvey (2001),Walter Benjamin (1989), Ítalo Calvino (1990), Steven Connor (2000), Linda Hutcheon(1991), Leyla Perrone-Moisés (1998) some of theoretical, who believe in the city as a man’sdeconstruction.Key- words: Literature. Shorts stories. Identity deconstruction. Contemporaneity. Cities.
  8. 8. 7 SUMÁRIOINTRODUÇÃO AO PASSEIO PELA CIDADE, EM SONIA COUTINHO .............. 081 LITERATURA E TALENTO: a tradição revisitada ............................................ 131.1 Modernismo ou pós-modernismo: a dialética e o espaço literário ............................. 171.2 Da tradição à contemporaneidade: quem conta um conto .......................................... 211.3 Originalidade e estilo na literatura finissecular .......................................................... 252 O EU PELAS RUAS DA MODERNIDADE .......................................................... 282.1 Andarilho noturno e o eu boêmio ............................................................................... 332.2 O Flâneur e a descoberta da cidade ........................................................................... 372.3 A modernidade e a velocidade desequilibrante do sujeito ......................................... 423 OS CANTOS DA CIDADE E A CONFIGURAÇÃO IDENTITÁRIA: uma 47 leitura da contística de Sonia Coutinho ..................................................................3.1 Sonia Coutinho e a idealização de cidade: uma revisão bibliográfica ....................... 513.2 Desconstrução de identidades espelhadas nas ruas da cidade .................................... 563.3 Escrita de gênero: simplesmente a arte literária de um(a) autor(a) ........................... 60AINDA NAS RUAS DA CIDADE: UMA ESCRITA (IN)CONCLUSA ..................... 66REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 69
  9. 9. 8INTRODUÇÃO AO PASSEIO PELA CIDADE, EM SONIA COUTINHO “MIL OLHOS DE ORVALHO DE UMA ROSA a olharam, transparentes. Uma rosa molhada no Jardim Botânico, de manhã cedo, sob o céu nublado. Tinha chovido forte e agora caía uma poeira de chuva. A rosa era chá, com um número infinito de pétalas macias fechadas sobre si mesmas. A rosa, como um repolho do céu. Abaixou-se, aproximou o nariz, cheirou. As pétalas exalavam levíssimo perfume. De perto, o orvalho grosso: viu que havia espelhos dentro das gotas, como se elas fossem bolas de cristal. Mas é obvio que não adianta fazer planos, pensou Tina. Que não adianta pensar no futuro. Como também não adiantava lembrar o passado, estar presa a recordações distantes. Apenas o presente, ordenou a si mesma. Não havia passado nem futuro, só esse agora. Enquanto mil olhos de orvalho de uma rosa a olhavam, simplesmente” (COUTINHO. In: Mil olhos de uma rosa, 2001, p. 9). Em meio à selva de pedras da cidade, Rio de Janeiro, eis que uma gota de vida pura esingela aspira antigas sensações. Nem tudo são horrores nesse lugar, o Jardim Botânicomostra isso. Mas, ela, a rosa, não permite que a divagação chegue ao longe, entre cheiros eprazeres o toque da realidade, o verbo viver, não no pretérito, tão pouco no futuro e sim nopresente. Sonia Coutinho apresenta em sua contística inúmeras histórias, diversos personagensperdidos nos labirintos da vida e presos nas garras da cidade, mas que, mesmo assim, setivessem oportunidade não fariam nada para mudar seu modo de viver, afinal, nãoconseguiriam sobreviver de maneira diferente, em outro lugar. As personagens, sem teremconsciência plena da dimensão da telha que as envolve, buscam encontrar-se, querem umaidentidade. Movidas pelas incertezas urbanas, desde as trazidas lá da cidadezinha, seguem emromaria, sim, todas as personagens realizam a mesma trajetória, rumo à cidade prometida, Riode Janeiro. Com um poder envolvente, quase sobrenatural, atrai suas presas com belaspromessas, sucesso profissional, um lugar ao sol que, por muitas vezes, encontra-se escondidoatrás das nuvens, mesmo que o conto seja O último verão em Copacabana. Os fantasmassurgidos na cidade a tornam uma verdadeira Doce, porque não, mas também cinzenta,Copacabana. Não há obstáculos resistentes o suficiente para expulsarem os desbravadores
  10. 10. 9dessa selva, embora a única saída, em algumas situações, seja o suicídio concretizado nacidade. Importa assegurar a permanência na cidade, garantir que a sociedade visualize a suafelicidade, falsa, e não voltar atrás, jamais, afinal, a cidadezinha não os quer de volta. Com base na incerteza que assola a vida desses indivíduos, vivenciando situaçõestipicamente contemporâneas, extremas, de amores e desencantos, tentar-se com esse trabalho,traçar os impasses com os quais convivem esses indivíduos e que, os impossibilitam deconsolidar a sua identidade. Mas, discutindo, também, a possibilidade de que o objetodesejado nessa incessante busca seja, de fato, utópico, impossível de ser encontrado e que é,justamente, essa busca incessante que lhes garante a permanência da cidade. O trabalho encontra-se estruturado do seguinte modo, apresentação, na qual se faráuma abordagem geral do que está contido na pesquisa. Seguido de três capítulos, cada umcom três sessões e as considerações finais, numa conclusão incerta, como a escrita de SoniaCoutinho, mas possibilitadora de diálogos outros. No primeiro capítulo, intitulado “Literaturae talento: a tradição revisitada” a discussão respalda-se em conceitos tradicionais econtemporâneos da literatura, bem como o uso de conceitos que a definem, além de apontaralguns dos recursos linguísticos que utiliza. Para tanto, há uma abordagem mais específica emmomentos históricos específicos do panorama literário brasileiro, desde o Modernismo àcontemporaneidade, haja vista Sonia Coutinho estar inserida nesse contexto histórico e social. Do mesmo modo, um diálogo com outra área de estudo, os estudos culturais, porambos dispensarem o foco de suas pesquisas ao espaço que o sujeito, historicamente rejeitado,ocupa na estrutura social moderna. Aspectos como o estilo e a originalidade são abordadoscomo característica dos contos em estudo, assegurando com isso o valor artístico dessaprodução escrita. Seguido pelo segundo capítulo, “O eu pelas ruas da modernidade”, discute-se osaspectos dos andarilhos das cidades, de dia ou pela noite e o modo como a velocidade da vidamoderna contribui para que estes indivíduos não consigam encontrar estabilidade social e,sobretudo, psicológica. Estabelece-se uma relação sobre as características do mundo modernoque interferem à construção identitárias dessa época. E por último o capítulo “Os cantos dacidade e a configuração identitária: uma leitura da contística de Sonia Coutinho” aborda osaspectos atrativos da cidade e que servem de isca aos personagens dos contos em estudo. Háuma revisão bibliográfica da contística em análise buscando apontar os indícios queconstituem, no imaginário das personagens, a cidade ideal. Na incessante busca por uma
  11. 11. 10identidade as personagens driblam a adversidade da vida urbana, dando início a um processoque passará a ser constante em sua (des)construção identitária. Neste último capítulo há a apresentação da vida da escritora e a análise de umaentrevista de Sonia Coutinho, na qual se puderam observar algumas características de sua vidadestacadas na trajetória de suas personagens. As narrativas de Coutinho têm comopersonagens principais, na grande maioria, mulheres, fato que não impede de algumashistórias terem como protagonistas homens que, por sua vez, compartilham dos mesmosconflitos do universo feminino. A partir da constatação de que os conflitos descritos pela escritora são recorrentes nouniverso masculino e feminino, ou seja, típicos dos sujeitos pós-modernos, realizou-se umasucinta abordagem acerca de sua escrita. Logo, percebeu-se que, muito além, de umaabordagem específica sobre gênero, a contística em análise oferece possibilidades para seanalisar o comportamento humano em diversas esferas sociais, desde as familiares à dinâmicados grandes centros urbanos. Na conclusão deste trabalho tentou-se realizar um encerramento do corpus emestudo, porém o objeto em análise não possibilitou, efetivamente, um fechamento dadiscussão. São tantas as temáticas instigantes, capazes de conduzir os seus leitores a situaçõesinimagináveis no mundo real, mas totalmente possível no universo literário. Morte, solidão,amores não correspondidos, incertezas, inseguranças, (des)construção de identidades,conflitos com a estrutura urbana, dilemas familiares, fracassos profissionais, repressãosexual, desejos contidos, nostalgia, descoberta dos (des)encantos da cidade, são alguns doselementos encontrados da contística de Sonia Coutinho. Todas essas sensações se misturam à desconcertante estrutura das cidades eproduzem as mais fascinantes narrativas. Cenas fantásticas descritas deparam-se com umainfinidade de personagens totalmente perdidas, mas, em meio à instabilidade, é latente odesejo de desvendar os segredos da cidade e, quem sabe, sair do lugar de desbravadores dafelicidade. Na busca por uma construção e consolidação identitárias, as personagens conduzemos leitores a embarcarem em seus universos e observar, com um olhar mais atento, a multidãocontemporânea e, quem sabe, reconhecerem-se e, através da literatura, ressignificarem a suaexistência, cumprindo com maestria a função primeira da literatura, representar a realidadeprovocando catarse nos seus amantes.
  12. 12. 11 A discussão aqui abordada tem como tema Literatura e identidade, instigado pelodesejo de compreender o panorama literário do país após o Modernismo. A literatura, aolongo da história do Brasil, consolida-se enquanto arte sempre na sustentação da suacaracterística essencial, a arte da palavra. Contudo, em face de um novo cenário da história dopaís há a intensificação no uso de alguns conceitos, bem como a exigência de novos, os quaisabarquem a complexidade contemporânea. Dentre os vários conceitos, pode-se apontar o deidentidade que, respaldado na efemeridade e fragmentação do sujeito contemporâneo ofereceaos leitores obras literárias compostas de ferramentas que lhes possibilitam pensar sobre osfatores contribuintes para a afirmação do ser humano como tal. A escritora Sonia Coutinho, na sua contística, apresenta narrativas, cujas personagensprincipais estão em constante conflito existencial, sobretudo, o conflito interno motivado,principalmente, pelo fato de elas não conseguirem se autoafirmarem. A escritora oferece umriquíssimo material para que se pense sobre a condição do indivíduo na busca pela suaidentidade, por aquilo que é constante na vida das suas personagens, ao menos a maioriadelas, dar significado à sua vida, à sua história. Assim, considera-se com esse trabalho assinalar: quais elementos da literaturacontemporânea são utilizados pela autora nos contos? Quais características garantem aoriginalidade das obras? De quais subsídios se utiliza Sonia Coutinho para desmistificar oparadigma de que, em sua escrita, trata, unicamente, de conflitos femininos? E, diante de taiselementos, será possível afirmar que o espaço físico contribui para (des)construção identitáriados sujeitos contemporâneos? Com base nos questionamentos supramencionados delineou-se o objetivo geral:verificar, sob o olhar da literatura contemporânea, as características do espaço físicointerferentes para as (des)construções identitárias na contemporaneidade. Seguido dosespecíficos: Comparar Modernismo/Pós-modernismo à revelia da literatura tradicional;Conceituar o conto sob a perspectiva tradicional e contemporânea; Identificar elementos daliteratura contemporânea nos contos em análise; Apontar a importância do espaço físico paraa (des)construção de identidades nos contos analisados; Analisar a escrita de Sonia Coutinhocomo arte literária enigmática para além das discussões de gênero. Tomando como princípios basilares a finalidade deste projeto e as múltiplaspossibilidades permitidas nos contos de Sonia Coutinho, chegou-se a sua concretização.Incerta, (in)conclusa, apaixonante. Revigorou-se a função da literatura de oferecer novidades
  13. 13. 12possíveis, vivenciadas e sustentadas num universo envolvente que só a literatura podeproporcionar. Em um trilhar incansável pelas páginas da arte contemporânea, moldada pelasmãos da artista contemporânea Sonia Coutinho, através de becos e vielas da cidade, algo novofoi tecido.
  14. 14. 131 LITERATURA E TALENTO: a tradição revisitada A literatura, como agente transformador e intensificador da linguagem, apropria-sedo sistema linguístico comum, representa a realidade e, por consequência, ressignifica-a edesenha um estilo próprio que provoca estranheza e, ao mesmo tempo, catarse no leitor. Com relação aos outros discursos, a linguagem literária distingue-se por desfigurar,de várias formas, o sistema comumente usado. Essa distorção faz com que o cotidiano torne-se um universo, inesperadamente, desfamiliarizado. Elementos como imagem, métrica, rima,entre outros, produzem o efeito de estranhamento. Diante de situações, aparentementecorriqueiras, o sujeito torna-se inseguro da sua realidade. O novo cenário posto pela literatura instiga o leitor a ter outro olhar sobre o real.Embora se trate de representação, nota-se que, pelo fato de o sistema linguístico utilizado sero mesmo do mundo verossímil, contribui para que objetos e situações da vida sejampercebidos por outro ângulo. Uma linguagem mais intensificada e, portanto, revestida deressignificações sugestivas à autoconsciência. Eagleton (2006, p. 5-6), baseado na concepçãodos formalistas russos, destaca: A literatura, impondo-nos uma consciência dramática da linguagem, renova essas reações habituais, tornando os objetos mais “perceptíveis”. Por ter de lutar com a linguagem de forma mais trabalhosa, mais autoconsciente do que o usual, o mundo que essa linguagem encerra é renovado de forma mais intensa. A renovação dessas reações habituais revela-se contínua e intensa na linguagemliterária e, na contemporaneidade, muitas são as expressões artísticas retratadas. SoniaCoutinho1, por exemplo, transporta a interrogação do quem sou eu, em sua narrativa. Ela, deposse de um sistema linguístico, inteira-se do ato de fingir somado à seleção e à combinação,representa, sobretudo, temáticas concernentes aos conflitos existenciais do indivíduo.Coutinho apresenta, em sua contística, inúmeras narrativas, nas quais se podem observarpersonagens imersas em constantes conflitos existenciais; são histórias que convidam o leitora embarcar, com um olhar mais atento, no mundo das personagens. Percebem-se, em sua obra, características que corroboram com a afirmativaapresentada por Eagleton. Propositalmente, ou não, a escritora traz elementos que consolidama sua literatura como original, esteja essa originalidade relacionada aos conceitos abordadosna tradição ou na contemporaneidade. No conto, Doce e cinzenta Copacabana (2005, p. 45),pode-se ilustrar a capacidade do texto literário de impor novas possibilidades às merassituações cotidianas, como a saída da personagem para um breve passeio em seu bairro: “[...]1 Autora dos contos em análise nesse estudo e que se encontra apresentada no último capítulo dotrabalho.
  15. 15. 14ela pode estar aqui em Copacabana sem causar estranheza a ninguém, assim de calçascompridas um tanto sujas, mas então lembra a roupa para lavar, o apartamento imundo, osrestos de comida [...]”. A peculiaridade da literatura ao utilizar o sistema linguístico convencionado faz comque a sua leitura conduza o leitor, mais que criar um mundo fictício, imaginário, a acreditarveementemente no universo inventado pela sua imaginação. Essa submersão, mergulho numaoutra realidade, é possibilitada através do uso de alguns artifícios literários, como a linguagemconotativa. Acerca do uso e da função da linguagem comum pela literatura, D’Onofrio (2007,p. 15-6) afirma: A linguagem literária acentua o próprio signo linguístico, estando orientada para a mensagem como tal e não apenas para seu significado. Sua função, mais do que referencial, é essencialmente expressiva, pois confere um novo sentido às palavras. A discussão apresentada por D’Onofrio encontra respaldo na escrita de SoniaCoutinho, pois a autora, ao se apropriar da convenção linguística, oferece uma nova visão,uma ressignificação para o comportamento humano. No conto O leque do Afeganistão (2005),a personagem do Professor Anaximandro demonstra uma conduta contraditória a que sempreapresentara, ao menos no seu discurso, fica consternado ao perceber a mudança nocomportamento da sua esposa Sibila, ao notar que ela não o deseja mais. Nesse momento, oProfessor mostra a sua verdadeira face: Ele remexeu, depressa, em alguma coisa atrás da orelha, e Sibila viu que Desafivelava a Máscara. [...] Debaixo da cobertura de borracha que compunha seus traços corriqueiros havia um misto de focinho de lobo e feições grosseiras de sátiro (COUTINHO, 2005, p. 15). A estranheza do texto literário que, ao mesmo tempo, afasta e convida o leitor atrilhar pelos caminhos das suas narrativas, dá-se pelo fato de serem atribuídos, ao significanteo próprio texto literário, novos significados, sensações, emoções. O inanimado torna-se peçafundamental do jogo de palavras criado e sustentado pela literatura. A verossimilhança écaracterística do texto literário, pois o autor ao produzi-lo está sujeito às influências do mundo
  16. 16. 15que o circunda. Essa proximidade com o real é justificada pela mímese, uma vez que ouniverso existente na obra literária torna-se verossímil. Apesar de a literatura estar cercada de artifícios que confirmam a sua escrita comodiferenciada e original, questiona-se, ainda, se haveria, efetivamente, algo a ser considerado aessência da literatura. Nesse sentido, Eagleton (2006, p. 14) afirma não existir “uma‘essência’ da literatura”. Análise de obras a partir do contexto social no qual estejaminseridas, semelhanças e diferenças com esse ambiente, bem como a sua finalidade e amaneira como o texto literário se comporta diante das práticas humanas que o rodeiam, sãoalguns dos argumentos levantados pelo autor para fundamentar a sua discordância. A concepção de texto literário, alicerçada apenas nestes princípios torna-se, o quedeveria ser uma obra de arte, em uma prática comum da linguagem, “puramente formal,vazia” (EAGLETON, 2006, p. 14), nas palavras do escritor. Além de igualá-la a outros tiposde realização linguística não-pragmática, como a piada que, assim como a literatura, nessaconcepção estritamente mecanizada, poderia transportar os interlocutores, de um dadoprocesso comunicativo, ao mundo apresentado por uma piada, dependendo do modo como écontada. Cabe salientar, portanto, outro conceito, intrinsecamente ligado à concepção deliteratura: o julgamento de valor. Nessa perspectiva, Perrone-Moisés (1998) afirma que asconsiderações tecidas acerca da história literária neste século, deixaram à margem, senão demaneira explícita, as questões inerentes a essa discussão. Perrone-Moisés (1998) afirma, inclusive, que, para que a literatura seja utilizadacomo instrumento fortalecedor das experiências de mundo dos leitores, os críticos literáriosdeveriam explicitar quais valores são utilizados em seus julgamentos. Essa atitude contribuiriapara que o leitor decidisse qual história literária serviria para aperfeiçoar a sua fruição numcontato com as obras. Para o aprofundamento da sua critica, Perrone-Moisés (1998) discute sobre aimportância do passado para a consolidação de qualquer legado literário construído num dadopresente. Segundo a escritora, os autores, em sua contemporaneidade, devem ter consciênciasobre o passado que contribuiu para a organização de sua obra. A releitura do passado se dará,segundo a autora (1998, p. 25-26), à luz de valores do presente e, como consequência,garimpar-se-á subsídios para novas produções:
  17. 17. 16 A leitura valorativa do passado literário efetuada pelos escritores-críticos modernos afeta significamente a historiografia literária. A escolha efetuada por um escritor entre os nomes-obras do passado é fortemente interessada: trata-se, para o escritor, de julgar e selecionar com vistas a um fazer. Os pressupostos apresentados por Perrone-Moisés (1998) dialogam com o que, emoutrora, fora proposto num ensaio por T.S. Eliot (1988). Neste ensaio, a individualidade éfundamental para a consolidação e manutenção da literatura dos escritores. Cada leitor aoentrar em contato com algum manuscrito tenta buscar o que o difere de textos anteriores,sobretudo os mais próximos, algo novo, até então irrevelável e com isso deleita-se na sualeitura. A tradição está além da mera utilização dos êxitos deixados pela última geração. Opassado não é renegado, mas ressignificado, revigorado. O texto da tradição é lido no presentecomo no período da sua escrita. Esta implicação exige que o escritor torne-se mais conscienteda sua contemporaneidade. O seu significado torna-se mais valoroso, pois se constrói, atravésde comparação com artistas mortos, não apenas numa perspectiva histórica, mas crítica. Tais pressupostos permitem ao poeta evoluir enquanto artista que, consciente dopassado, imprime na sua produção suas peculiaridades. Eliot (1989) afirma que essa evoluçãorelaciona-se a um autossacrifício, além de constante perda da personalidade. A partir dessaafirmativa, o escritor apresenta a correlação da despersonalização com a tradição. Acaracterística da valoração do passado é encontrada na escrita de Sonia Coutinho. Através daintertextualidade2, a autora revisita o passado e ressignica-o. Em Nos olhos do cão (2004, p.85), os descompassos da vida da personagem são relacionados ao conflito vivido em umclássico da literatura universal, a história de João e Maria: “Eu não queria nada disso pra mim,pensou o homem de 50 anos para quem não haveria resgate. Estava perdido no bosque, depoisque os pássaros comeram a trilha de migalhas de pão”. Nesse sentido, a poesia deverá serconcebida como “um conjunto vívido de toda a poesia já escrita até hoje” (ELIOT, 1989, p.42-3). O conflito interno do poeta com o seu próprio ser possibilita matéria-prima às suasproduções, pois poeta perfeito, certo de seus pensamentos separa o seu sofrer de sua mente2 COMPAGNON, Antoine (2006). Expressão do léxico literário, criado pela semioticista Júlia Kristeva, o qualdesigna o diálogo entre os textos.
  18. 18. 17criadora, não se torna um artista atemporal. A mente do poeta é um reservatório de umemaranhado de frases, imagens, palavras capazes de, unidas, constituírem um novo composto. O artista utiliza-se, poeticamente, de emoções cotidianas, quase despercebidas, talvezimperceptíveis e, com a ressignificação da linguagem, além de demonstrar todos os anseiosimplícitos nesses sentimentos, impingem o objetivo do artista. Assim, entrecruzam-se aindividualidade dos escritores, através do talento, às sensações dos leitores para que a tradiçãocontinue sendo construída. Acerca das emoções baseadas no cotidiano, possivelmente estimuladas no leitor,Sonia Coutinho apresenta diversas situações corriqueiras, mas somadas ao seu talento dedescrevê-las e a receptividade do leitor asseguraram a longevidade de sua obra. Discutirliteratura implica, quase sempre, um retorno ao seu passado histórico. Essa retomada, nãonostálgica, é a sua permanência ao longo dos tempos. As diferentes abordagens no universo literário podem ser entendidas não comoprogressos, mas como adequação e aperfeiçoamento, pois enquanto representação darealidade, a literatura continua oferecendo novos olhares sobre o comportamento do serhumano que, independentemente da época, conviverá com os conflitos próprios do seu ser. A linguagem como instrumento primeiro da literatura reveste-se de novos focos, enovos olhares a redimensionam a fim de trazê-la às perspectivas de um presente, mas que nopassado, inclusive, terá viéses imprescindíveis àquela atualidade. Apesar de tantas discussões,a dialética se instaura, dando continuidade permanente ao discurso literário.1.1 Modernismo ou pós-modernismo: a dialética teórica e o espaço literário A produção literária, tradicionalmente, fora dividida em períodos determinados, nãopor datas estabelecidas a rigor, mas pelo fato de os escritos de alguns autores que viveramnuma mesma época serem marcados por iguais características, senão muito próximas ou,ainda, estarem voltados às mesmas ideologias. O Modernismo brasileiro, movimento em estudo, surge no bojo das grandestransformações sociopoliticoeconômicas, oriundas, principalmente, como consequências daPrimeira Guerra Mundial. Como uma nova estética que visava maior vivacidade narepresentação dos sentimentos, emoções e ideais artísticos daquela época, esse movimento
  19. 19. 18requereu um estreitamento com as camadas populares, pois a massa brasileira, enquantoconstituinte social, não poderia ser deixada à margem da representatividade do povo. Nessa perspectiva, inúmeras são as definições acerca do que seria esse momento nopanorama literário. Apresentam-se conceitos que engendram desde a ruptura com tendênciasliterárias já estabelecidas à retomada de temas abordados em outrora, como as inquietudes doser humano mediante a incerteza do seu destino, bem como uma literatura que expusesse asociedade brasileira tal como ela é, afastando-se, com isso, dos resquícios europeus. Percebe-se a importância do movimento para o país. Ele exerceu forte influência nacriação de um novo estilo que aguçava a consciência nacional de modo a exprimir as novasperspectivas brasileiras frente às artes e às letras, à vida e à cultura da massa brasileira.Alguns teóricos, afirmam não tratar o Modernismo apenas de um período histórico a serconceituado, mas estar relacionado aos valores culturais do país. Candido (2000, p.124)ressalta essa ideia: Parece que o Modernismo (tomado o conceito no sentido amplo de movimentos das idéias, e não apenas das letras) corresponde à tendência mais autêntica da arte e do pensamento brasileiro. Nele, e, sobretudo, na culminância em que todos os seus frutos amadureceram (1930-40), fundiram-se a libertação do academicismo, dos recalques históricos, do oficialismo literário; as tendências de educação política e reforma social: o ardor de conhecer o país. A literatura, diante dos conflitos existenciais contemporâneos, apodera-se,ficcionalmente, daquilo que a ciência não consegue explicar para se consolidar como arte, istoé, enquanto representação da realidade apresenta hipóteses, ferramentas que podem levar osujeito a questionar a sua existência, deixando-o mais certo de si ou mais alheio a sua história,desconstruindo, pois, a ideia de um mundo moderno coerente, igual, para reconstruí-la combase numa realidade fragmentada, heterogênea e imprescindível às experiências desses atoressociais. Hutcheon (1991, p. 19) afirma que o “[...] pós-modernismo é um fenômenocontraditório, que usa e abusa, instala e depois subverte os próprios conceitos que desafia[...]”. Este período não deve ser percebido tão somente como o momento da história substituto
  20. 20. 19do Modernismo, mas como um movimento denso e questionador da modernidade3 que, dentreoutros, discutirá os aspectos culturais para a formação das identidades. Ainda sobre o pós-modernismo, a autora (1991, p. 31-2) considera: [...] um processo ou atividade cultural em andamento, e creio que precisamos, mais do que de uma definição estável e estabilizante, é de uma “poética”, uma estrutura teórica aberta, em constante mutação, com a qual passamos a organizar nosso conhecimento cultural e nossos procedimentos críticos [...]. Há de se observar que a afirmação de Hutcheon encontra solidez nacontemporaneidade, pois além de perceber esse momento histórico como um processo, emconstante movimento, destaca-o como uma possibilidade a mais para compreender aconstituição cultural de uma dada época. As definições apresentadas sobre Modernismo e Pós-modernismo apontam para aspeculiaridades de cada um desses momentos. Aquele, embora buscando uma melhorrepresentação de um Brasil preocupado com as demandas sociais, deteve-se, ainda, numaescrita mais voltada aos conflitos individuais do sujeito, enquanto esse, nacontemporaneidade, discute a concepção de sujeito a partir do contexto em que ele se insere. Nessa miscelânea de concepções, nota-se uma preocupação comum: a representaçãodo sujeito, o modo como sua identidade é construída nesse novo universo, tão incerto efragmentado. No conto Uma certa felicidade (1994), Coutinho enfatiza aquela que seria umaconstante na vida dos indivíduos na contemporaneidade, a autoidentificação em meio adesconcertante estrutura dos tempos modernos. Sua personagem, numa possível visita aomédico, tenta identificar-se, momento em que se evidencia a dificuldade de o sujeitoencontrar-se, definir-se (COUTINHO, 1994, p. 21-22): Mas eu não tenho pontos de referência para reconstruir minha unidade. Tudo embaralhado: numa etapa qualquer, houve a ruptura, a continuidade se perdeu. Esqueci, doutor. Manuseio as pedras do quebra-cabeça espelho na mesa – fragmentos coloridos, desencaixados, que sou eu.3 Para Benjamin (1989), cf. Referências, modernidade é compreendida como uma época específica; designa, aomesmo tempo, a força que age nessa época e ao mesmo tempo a aproxima da antiguidade.
  21. 21. 20 As incertezas suscitadas na contemporaneidade tentam, mais que dar respostas aosleitores, questionar os conflitos humanos com base em concepções de mundo. Nessainterrelação de mundo real e ficcional, de representação mundana através de textos, ou, meracriação de novos universos, a literatura encontra malhas para tecer a sua arte. Não se trata, tãosomente, de períodos literários, mas da materialização daquilo que se tornou uma construçãodiscursiva, a vida. Nessa perspectiva, Connor (2000, p. 107) diferencia: [...] enquanto a literatura modernista se comprazia no afastamento auto- reflexivo daquilo que se considerava um mundo real sólido e mudamente não-discursivo, o mundo real transformou-se em literatura – numa questão de textos, representações, discursos. O vinculo entre texto e mundo é remoldado no pós-modernismo não pelo desaparecimento do texto no interesse de um retorno ao real, mas por uma intensificação da textualidade que a torna co-extensiva com o real. Uma vez que o real se transformou em discurso, já não há separação entre texto e mundo a ser transportado. Diversas são as discussões apresentadas sobre o que seria o tempo vivido pelasociedade hoje: modernidade, pós-modernidade, ainda, contemporaneidade enfim, tudo o queestá além do que se considerou Modernismo. Percebe-se a necessidade de nomear o presente,defini-lo como uma época específica a partir do comportamento social, bem como o modocomo será representado na literatura. A motivação para esse fato justifica-se, quiçá, pelaobrigação de situar os discursos a partir de uma dada época. Compreensões como de espaçocoletivo e individual, de ocupação do sujeito e do outro, de linguagem, são valiosas aodiscurso literário, pois serão basilares para a manutenção da literatura como representação darealidade. Mais do que nunca, esses debates são pertinentes, haja vista a complexidadevivenciada por esse período que, com toda sua efemeridade, fragmentação, rapidez, concebesujeitos cada vez mais incertos de sua existência, de sua colocação na sociedade. Ainsegurança torna-se um importante fator na construção de subjetividades, embora peculiares,são vítimas de discursos, logo, sujeitas a mudanças. Villaça (1996, p. 186), traz para adiscussão: “No espaço que vai do individual ao social, do eu ao outro, do moderno aocontemporâneo, constrói-se a subjetividade textual, onde as polaridades se dissolvem natransformação permanente instalada pelo dialogismo”.
  22. 22. 21 Na contística de Sonia Coutinho, percebe-se a existência constante dessa concepçãode espaço e sua contribuição para a construção do mundo das personagens. São histórias quetêm como elementos a rua, moldada segundo os conflitos das personagens: “[...] Enquantotudo prosseguia em redor, o trânsito engarrafado, muralhas de pedra, a solidão, Copacabana eum milhão de sonhos irrealizados” (COUTINHO, 2004, p. 88). Embora tenha buscado noespaço coletivo um refúgio para a sua angústia, a personagem percebeu, apenas, que de nadavalerá a diversidade nele encontrada sem uma harmonização consigo mesma. A literatura, portanto, como uma representante de discursos, estará sempre sujeita amodificações, interferências, permanências. Contudo, independentemente do período tratado,a obra deve manter as características que a asseguram como arte. O poder, exercido por essa escrita de conduzir leitores ao êxtase e a se reconheceremem seus escritos, perdurará para além das discussões de períodos literários. Logo, mantendo-se com tal habilidade demonstra que, como na tradição, mantêm-se viva, instigante,inovadora, uma nova opção de realidade. A arte rejuvenescida aos olhos de cada leitor se renova e se atualiza. As narrativasque, segundo Cortázar (1993), aproximam-se da fotografia e valem pelo inenarrável (Seixas,1998), também vasculham da tradição à contemporaneidade.1.2 Da tradição à contemporaneidade: quem conta um conto Tradição e contemporaneidade: duas faces de uma mesma história. Dessa maneira,visualiza-se a trajetória literária que, como qualquer outra, apresenta múltiplas versões,determinadas, sobretudo, pelo momento em que acontece. Como os indivíduos, a literaturatem sua identidade construída a partir da sua história, por isso a necessidade de discuti-lasempre à luz da tradição. Entretanto, há de se questionar o próprio conceito de tradição, haja vista cada épocaser marcada por seus descompassos que, por consequência, serão impressos naquilo quefuturamente se considerará tradição, possivelmente, essa pode ser uma maneira de, além dereconhecer a importância do que em outrora se construiu, criar a futura tradição solidificadaem bases concretas, também consolidar a literatura como uma linguagem atemporal, poisrepresentativa de uma época, oferece instrumentos influentes a novas discussões. Corrobora-
  23. 23. 22se com Harvey (2001, p. 273) sobre revisitar a tradição, visando uma identidade, uma tarefanão simples se entendida apenas como continuidade: A afirmação de qualquer identidade dependente de lugar tem de apoiar-se em algum ponto no poder motivacional da tradição. É, porém, difícil manter qualquer sentido de continuidade histórica diante de todo o fluxo e efemeridade da acumulação flexível. A literatura brasileira consolida-se enquanto arte sempre na sustentação de suacaracterística essencial, a arte da palavra. Contudo, em face de um novo cenário da história doBrasil há a intensificação no uso de alguns conceitos da tradição, bem como a exigência denovos, os quais abarquem a complexidade contemporânea. Dentre os vários conceitos, pode-se apontar o de identidade que, respaldado nafragmentação e efemeridade do sujeito contemporâneo, oferece aos leitores obras literáriascompostas de ferramentas que lhes possibilitam pensar sobre os fatores contribuintes para aafirmação do ser humano como tal. Nessa perspectiva, no final dos anos 80 e início dos anos 90, várias obras inserem-seno que se consideram os paradoxos do contemporâneo4, cujas escritas focalizam desde temasuniversais, tradicionalmente literários, a questões identitárias. A partir desse novo viés daliteratura, conceitos como o de identidade são ampliados, pois a transitoriedade docontemporâneo impõe aos indivíduos múltiplos comportamentos, o que, naturalmente,obrigam-nos a possuir uma identidade plural. Sonia Coutinho, no conto Uma certa felicidade (1994, p. 14-15), apresenta umahistória na qual são perceptíveis algumas características do conflito identitário vivenciadopelos sujeitos contemporâneos. A personagem principal, imersa num conflito constante embusca do autorreconhecimento, mostra-se cada vez mais embaraçada em meio as suaslembranças, pois não consegue juntá-las a fim de construir uma unidade, a sua unidade: E eu, que quero afinal? Não sei, e estou com 28 anos e um passado que me parece incompreensível e não tenho a quem oferecer de presente [...]. Mas, o fato de ter esquecido tanta coisa me angustia como se tivesse perdido a identidade. O esforço para lembrar é um esforço de me encontrar.4 VILLAÇA, Nízia (1996). Conjunto de obras literárias cujo foco discute, entre outros, as crises derepresentações identitárias na contemporaneidade.
  24. 24. 23 A rapidez e a tenuidade com que as concepções são construídas e desmoronadas naatualidade desconstroem as bases “sólidas” do sujeito que entra em conflito constante.Inúmeros são os dilemas, as (in)satisfações, a demanda por conceitos que consigam abarcar adinâmica da vida em movimento, iniciada nos primeiros anos do século XX. A ampliaçãodesse panorama exige a percepção das dicotomias com as quais se deparam o sujeito, além deuma linguagem que contemple a diversidade social. Villaça (1996, p. 158) caracteriza essaconvivência com esse paradoxo: [...] Vivência da crise da questão política, ética, artística, por uma subjetividade que se volta para a história, para o nacional, a cidadania [...]. Crise de representação, da valoração, simultânea à procura de uma linguagem que reflita o multiculturalismo, que mantenha as diferenças retrabalhando sempre os pares distintos. Diante da problemática na qual se encontra imersa a sociedade atualmente, torna-seinconcebível discutir literatura como uma arte absoluta, haja vista o fato de os temaspertinentes a essa linguagem estarem sendo debatidos em outras vertentes, como os estudosculturais. A autora continua: “O valor do novo e a tradição de ruptura não se sustentam nacomplexidade contemporânea, onde as questões sofrem rearticulações, formam redes” (1996,p. 162-3). Culler, assim como Villaça (1996), visualiza a literatura como uma prática culturalespecífica que se beneficia ao ter suas obras relacionadas a outros discursos, isto é, os estudosculturais podem buscar nessas obras o modo como representam as ideias de uma época. Segundo o autor (1999, p. 51-2), o trabalho desenvolvido nessa perspectiva respalda-se, sobretudo, no modo conflituoso em que as identidades são construídas. O estudo volta-se,principalmente, à compreensão das culturas de grupos minoritários, historicamentemarginalizadas pela sociedade, mulheres, negros, que encontram dificuldades para sentirem-se pertencentes à ampla cultura em que estão inseridos. Compreende-se a importância de os estudos literários dialogarem com os estudosculturais. Na contemporaneidade, fragmentação e efemeridade, características muito presentesnos escritos artísticos, entrecruzam-se para construções identitárias cada vez mais incertas:“Eu sou isso – meus conflitos, minhas insatisfações, minhas carências afetivas, essa constante
  25. 25. 24e dolorosa sensação de perda. Acima de tudo, minha solidão. São coisas que doem, mas quetambém aprecio, porque essas coisas sou eu” (COUTINHO, 2004, p. 75). Surgidos dos estudos literários, os estudos culturais, tradicionalmente concebidoscomo opositores da literatura, preocupam-se em apresentar novas possibilidades para que sediscutam grandes obras literárias sob uma nova ótica, abrindo bastantes debates sobre ocomportamento humano em sua contemporaneidade. E como ficam as discussões sobreoriginalidade e estilo? As implicações estéticas? As desconstruções evitaram petrificações eou cristalização. Há uma nova construção, uma visão renovada. Uma busca do desconhecido.Um mistério de fontes escondidas.1.3 Originalidade e estilo na literatura finissecular A essência da literatura constitui-se em materialidade da linguagem, formas napágina e sons no ar, como afirma Connor (2000, p. 89-90). O autor apresenta a essência daliteratura como um dos princípios literários para a obra. Ele contínua, ao debater a concepçãonas quais devem versar os princípios literários: O principio da literariedade de uma obra particular como algo inerente não tanto à sua natureza material quanto à sua forma – quer dizer, às maneiras particulares pelas quais o estilo e a convenção eram empregados na obra de arte particular. A literariedade, declaravam eles, estava na intensa capacidade da obra literária de servir de mediadora às qualidades da sua forma de atrair a atenção sobre esta. Embora a contemporaneidade se apresente assolada de novos conflitos,fragmentação, efemeridade, identidades etc., a literatura mostra-se renovada para continuarrepresentando a realidade, pois criou novos e intensificou a utilização de antigos conceitos. Ao se apropriar do sistema linguístico comum para falar sobre o comportamentohumano, a literatura continua atraindo a atenção para as suas obras, pois independentementeda época de que fala, permanece utilizando-se de seus conceitos para aproximar o leitor doseu universo. Verossimilhança, mímesis, estranheza, catarse, fruição são alguns dos elementosque, utilizados pela literatura e despertados no leitor, asseguram a sua originalidade.
  26. 26. 25 Numa perspectiva teórica, discutir literatura na contemporaneidade implica, também,abordagem de questões outras, como os valores ideológicos vigentes e as práticas da crítica,haja vista estes fatores interferirem diretamente para a construção de conceitos. Contudo, suainterpretação não pode ser reduzida a esse aspecto, mas estendida à sua compreensão a partirdos efeitos do seu discurso, como se observa no comentário de Connor (2000, p. 108): A teoria literária pós-moderna, no sentido dual de um conjunto dominante de idéias e práticas críticas [...] e de uma teoria de um modo dominante de literatura contemporânea, pode vivenciar e projetar-se numa espécie de crise eufórica; mas interpretar suas operações somente nestes termos é cometer o erro comum de um só atentar para o conteúdo manifesto da teoria, em vez de avaliar seus efeitos discursivos e ver o que ela diz e não o que ela faz. Percebe-se então que, mesmo a literatura cumprindo com maestria a sua função derepresentar a realidade, faz-se imprescindível atentar-se para as novas maneiras de conceberessa realidade, pois esta tem se apresentado segundo várias concepções. Essa situação obrigao discurso literário a moldar-se segundo uma nova organização e, automaticamente,desenvolver novas estratégias de representação. Villaça (1996, p. 162) discute sobre esteaspecto: “Hoje, em plena crise de representação, quando o lugar do saber começa a aparecercomo construção histórica, discurso, interpretação, o par ciência/arte, desenha novosmovimentos, inventa-se numa dinâmica outra”. Ao se tratar da originalidade na literatura contemporânea, é importante ressaltar outracaracterística dessa escrita, o estilo, entendido quase sempre do ponto de vista individual.Alguns teóricos, como Compagnon (2006), contradizem essa afirmativa, pois, segundo ele, oestilo é construído sob dois aspectos, individual e coletivo. Enquanto propriedade do discurso, o estilo imprimirá nos escritos os hábitos de umaépoca. Com essa utilização, além desses escritos serem mais facilmente identificados como deum tempo específico, possibilitarão o reconhecimento de alguns escritores e o legado deixadopor eles. Acerca da concepção de estilo, Compagnon (2006, p. 173), apresenta-o como umconceito complexo que, imbricado a sua concepção, traz tantas outras: O estilo, pois está longe de ser um conceito puro; é uma noção complexa, rica, ambígua, múltipla. Em vez de ser despojada de suas acepções anteriores à medida que adquira outras, a palavra acumulou-se e hoje pode comportá-
  27. 27. 26 las todas: norma, ornamento, desvio, tipo, sintoma, cultura, é tudo isso que queremos dizer, separadamente ou simultaneamente, quando falamos de um estilo. Possibilitar êxtase absoluto, reconhecimento com um mundo ficcional, afastamentoda realidade, até mesmo dúvida sobre a condição de ser humano, ou simplesmente deleitedurante uma leitura, é assim a literatura que, discutida à luz de diversos conceitos, emdiferentes épocas, autores variados, deverá primar por manter, tão somente, sua característicaprincipal, a arte da palavra. A tradição revisita-se, embriaga-se de conceitos e técnicas, metamorfoseia-se naaventura humana de renovar-se e pôr na locomotiva da vida as ideias que, indiferentes aoesgotamento da realidade, auxiliam na construção de símbolos num movimento ininterruptodo artista que vê e espelha o homem que desfila a noite ou durante o dia pelas páginasrevigoradas do plano mágico do imaginário.
  28. 28. 272 O EU PELAS RUAS DA MODERNIDADE A imaginação tornou-se um elemento essencial aos sujeitos da modernidade. Atravésdela realidades são reinventadas. Em face do cenário vigente nesta época, iniciado na segundametade do século XIX (PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 180), os indivíduos constituem-se cadavez mais fragmentados, efêmeros, incertos de si mesmo. Seduzidos pelo fascínio das cidades,muitos se enveredam pelas ruas, becos, vielas ou, ainda, em seus apartamentos, com intuitode, não somente atribuir significado à sua existência, mas se encontrar. Contudo, os caminhostrilhados rumo aos (des)encantos das metrópoles mais tem se apresentado como verdadeirasbifurcações, pois seus andarilhos, com suas andanças ininterruptas, não conseguem definirqual o destino alcançar. A incerteza humana encontra solidez nas representações literárias dacontemporaneidade. Artistas, como Sonia Coutinho, através de sua obra, têm descrito demodo peculiar o devaneio do sujeito moderno. Seria esse o momento da história dahumanidade em que a mera condição de cidadão, de homem livre, tornou-se insuficiente paradriblar as adversidades desse tempo e assegurar a existência? Alguns estudiosos dizem quesim. Walter Benjamin, em seus estudos acerca da obra de Baudelaire, afirma que ao sujeitomoderno caberá um novo papel, o de herói. Reinventado nessa nova função poderá oindivíduo recriar conceitos e identidades que garantam a sua vivência. Para o autor (1989, p.73), “O herói é o verdadeiro objeto da modernidade. Isso significa que, para viver amodernidade, é preciso uma constituição heróica”. Para Benjamin, os obstáculos oferecidos ao homem desse tempo estão muito além dassuas forças naturais, por isso ele é impulsionado a buscar refúgio nas ruas, fazendo dela umteatro a céu aberto no qual a vida possa ser reescrita. Contudo, nem sempre essa tentativa éacertada, forçando-o a recorrer a outros mecanismos de sobrevivência. Enfraquecido medianteas constantes dificuldades, o sujeito visualiza, como uma possível saída, a morte. O autor (BENJAMIN, 1989, p. 75) chama a atenção para este tipo de morte. Anecessidade de ela ser concebida não apenas como uma perda, uma questão espiritual, mascomo a vontade do herói moderno, como uma última tentativa de demonstrar o seu fascíniopor este mundo moderno. “O suicídio podia parecer aos olhos de Baudelaire o único atoheróico que restara às ‘populações doentias’ das cidades [...]”.
  29. 29. 28 Uma vez estabelecida a vida como uma peça teatral, inúmeras representações estarãoprontas à espera dos atores sociais. Nesse sentido Benjamin (1989, p. 75) postula: “Mas amodernidade mantém pronta a matéria-prima de tais representações e espera um mestre. Essa matéria-prima se depositou nas camadas, que, de ponta a ponta, aparecem como fundamento da modernidade” . Antes que as cortinas da vida se fechem, muitas cenas são dramatizadas e a literaturatem possibilitado a representação de muitos espetáculos. Sonia Coutinho traz, em suacontística, histórias que têm a morte, ou o suicídio, como companheira constante, quasesempre, como um último recurso frente aos dissabores de modernidade. No conto Doce eCinzenta Copacabana, pode-se visualizar o suicídio como um válvula de escape. A personagem central da história acaba de acordar em um quarto “mergulhado emcinzenta penumbra” (COUTINHO, 2005, p. 40) em Copacabana. Recentemente completara28 anos, na semana passada. Desempregada, pois abandonara o trabalho de fotógrafa de umjornal, guardou algumas economias, além de trabalhos extras que sempre surgem, batizados,casamentos, festas infantis. “Dinheiro não é um problema imediato” (COUTINHO, 2005, p.41). Talvez, preencher a lacuna causada pela solidão em sua vida fosse uma questão urgente.Quem sabe, ainda, arrumar a bagunça do seu quarto, sua mãe não acreditaria que uma pessoafosse capaz de dormir num lugar assim. Imersa em diversos conflitos, viver sozinha, ter fugido de um internato lá nacidadezinha e, mesmo, assim não poder admitir a sua fragilidade, sente-se completamenteafugentada, desesperada, com medo, desejando proteção familiar: “Essa sua necessidadeinconfessável de ter um pai” (COUTINHO, 2005, p. 42). “[...] e seja como for, não saberiaviver de outra maneira – só que, ao abrir a porta do apartamento, ah, sente um calafrio dedesgosto/medo, tudo tão sujo e solitário e cinzento” (COUTINHO, 2005, p. 46). Depois de um reencontro com as suas antigas amigas lá da cidadezinha, entra numestado emocional mais incerto ainda. Todas estão casadas, a maioria com filhos e INFELIZESAo voltar ao seu apartamento, sujo e bagunçado, tenta estabelecer um pouco de ordem,desiste, prefere ir para cama: [...] então puxa a colcha, encolhe-se lá embaixo, é quente como um útero – pode suicidar-se em seguida, não seria difícil abrindo o gás do banheiro e deixando a água correr, iria pegando no sono, devagar – mas logo faz um esforço e pensa que vai passar, que vai passar, que vai passar (COUTINHO, 2005, p. 46).
  30. 30. 29 Colocar fim na própria vida, mesmo que seja em pensamento, é um recurso utilizadopela escritora. Por vezes, a morte aparece em suas narrativas como uma explicação paracomportamentos observados pela sociedade como subversivos. No conto O leque doAfeganistão que abre a compilação Os venenos de Lucrécia (2005), narra a história de umacomplexa relação, tumultuada, entre o Professor Anaximandro e Sibila. Ele, homem austero, dos seus cinquenta anos, figura imponente no prédio ondemoravam. Ela, um tanto jovem demais para ele, trinta e cinco anos, portadora de uma belezajovial, mas que era ocultada pelo modo como se vestia e se maquiava, o que, naturalmente lhedavam o aspecto de mulher mais madura. Os dois eram oriundos de boa família. Ao longo da narrativa, nota-se que esta mulher carregava consigo desejos simples,pois, assim como o ser humano tem oportunidade de realizar coisas singelas, pela última vez,como ver o sol, passear, tomar banho, ela tem seus anseios, pouco significantes para alguns,mas para ela, de valor inestimado. “Sim, existe uma última vez na vida em que se pode fazeramor [...] ouvir um homem lhe dizer na rua (pela última vez), que é muito bonita – pois umdia se morre” (COUTINHO, 2007, p. 8). A partir de tais afirmações, o leitor, poderá ou não,deduzir que Sibila apresentava possíveis pistas sobre o seu futuro, incerto para aquele, pois aoinício da narrativa não se pode imaginar seu fim, mas certo para ela que, após cinco anosnuma união conjugal monótona, já presumiria seu destino. Ora, seu esposo, o rigoroso Anaximandro, viu-se numa situação embaraçosa aoperceber que de uma hora para outra sua companheira, até então uma mulher acima dequalquer suspeita, segundo os parâmetros sociais, transforma completamente seucomportamento, o qual ele chamou de “Estranha Vida Interior de Sibila”. E que um objeto emdestaque no meio da sua sala, um leque vindo do Afeganistão, poderia, não se sabe como, teralguma influência sobre essa nova mulher, mas um simples objeto adquirido numa sofisticadabutique de Ipanema exerceria, de fato, um poder sobre ela ou se trataria, tão somente, de umpretexto, para que a mesma permitisse que algo escondido florescesse? Ao passo que Sibila modifica a tradicional decoração a estilo inglês do seuapartamento, o Professor a observa. Ela abandonara o comportamento que tanto estimava,deixara de ser uma “mulher discreta e de classe”. Andava nua pela casa, pintava os lábios devermelho, “vermelhíssimos”; as unhas com esmalte roxo, banhava-se ao luar avermelhadoque entrava pela janela, passeava pelo jardim com os seios e o sexo à mostra, decididamente,para o Professor, “Alguma Doença ela devia ter”. A austeridade apresentada pelo Professor,
  31. 31. 30mediante a renovação de sua mulher, começa a mostrar-se enfraquecida, fazendo surgir umhomem sensível, fraco, “um pobre diabo”, vivendo o conflito de ter sua esposa submissa ediabólica de volta ou adaptar-se a esta nova que se desvendava. Ao receber de Sibila a revelação que estava apaixonada por outro, ficou transtornado,mas com desejo de mantê-la ao seu lado, manter sua libido efervescente através desta mulher.“Sua filha da puta [...] não pense que vai sair daqui assim, sem mais aquela, depois de tudo oque fiz por você [...] Já pus uma bala de prata no meu revolver, tente só uma escapada e verá– não esperarei por uma segunda oportunidade. Lixo de mulher” (COUTINHO, 2005, p. 16).Submete-a, pois, à violência física e psicológica. Contudo, não há evidências que comprovem a existência de outro homem na vida deSibila, existem referências, ora um Poeta cego, ora um jovem tuberculoso e ainda umestudante de Arqueologia. Ou seja, não seria mais um dos vários artifícios usados pelonarrador para ilustrar a conflitante condição da personagem, que idealiza um mundoimaginário a partir dos seus desejos, anseios de mudança e sendo impedida de ser uma pessoalivre, torna-se prisioneira da sua imaginação. Como desfecho dessa história, o narrador apresenta dois possíveis fins para a relaçãode Sibila e o Professor. Um, ela perdeu definitivamente o equilíbrio psicológico. O outro,propositalmente se esqueceu da sua realidade, o que para ela era o maior pesadelo, “[...]jamais conseguiu verdadeiramente suportar” (COUTINHO, 2005, p.19). Pode-se, diante disto,pensar que seria esse o objetivo da personagem ao criar um mundo imaginário, migrar paraele quando não mais tivesse condições de tolerar seu modo de viver, sem, contudo, sercriticada socialmente por isso, sim, não se pode ou ao menos não se deve julgar alguém queabandonou uma vida por motivos de distúrbios psicológicos, motivos que se desenvolvemindependentemente da vontade do ser humano. Embora essas duas possibilidades tenham sido evidenciadas, pode-se perceber nasúltimas linhas do conto que mais uma vez a morte é usada como principal artifício para o fimda vida da personagem. O homossexual, amigo presente em todos os seus momentosconflituosos, propaga várias versões para o fim da história de sua amiga. Dentre elas, aponta osuicídio: Entre as várias versões que o Amigo Homossexual, anos depois, apresentava para o final da história de Sibila, estava a de que ela teria sido rejeitada pelo Amado, com uma frase áspera e então – a) não resistiu e suicidou-se, deixando-se picar no seio por uma áspide [...](COUTINHO, 2005, p. 19).
  32. 32. 31 Os conflitos vividos pela personagem encontram solidez nas discussões da literaturacontemporânea. Na representação desse sujeito pós-moderno, efêmero, fragmentado, emconstante conflito consigo mesmo, a literatura deverá representar a desordem que dele emana.(TESTI apud SABATO, 2008, p. 5), reforça a ideia de representação do indivíduo pós-moderno: O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais. A afirmação supramencionada descreve algumas características que podem serassociadas à Sibila nesse ponto de sua vida. Ela encontra-se em alta tensão por conta daspressões, psicológica e social, as quais o marido a submete. Há um processo de solidão que aconduz, inclusive, através do sonho de embarcar em um novo outro mundo, sem tampoucosair do seu apartamento. A morte, solução encontrada por seu Amigo Homossexual a fim de oferecer–lhe umfim de vida digno, embora não se sabe concreta, pode ser vista sob um novo olhar. Não seriaessa morte a representação de uma possível saída para tantos conflitos da contemporaneidade?Há inúmeras discussões acerca do comportamento humano pós-moderno, porém pouco sefalou sobre o modo como ele deve se portar mediante seus conflitos existenciais. Este é um tema recorrente na contística de Sonia Coutinho. Em Nos olhos do cão, ohomem, de 50 anos para quem não haveria mais resgate, em meio ao seu desespero e solidão,encontra na morte o refúgio que julga necessário: “A morte como um segredo seu, um grave edigno segredo seu, a sua morte. Era preciso, pensou o homem” (COUTINHO, 2004, p. 88).Pare ele, já muito cansado da vida que leva, visualiza na morte o último recurso capaz delivrá-lo das angústias que o acompanham: “Quase com alívio, ah, ele estava tão cansado daaventura humana. E, um dia, não tão distante assim, poderia afinal, como um simples viventemorrer” (COUTINHO, 2004, p. 88). O papel de heróina modernidade estará sempre à espera dos que quiserem arriscar essemodo de vida. Contudo, Benjamin (1989, p. 93-94), embora afirmasse anteriormente sobre a
  33. 33. 32importante função do herói, reforça que nem mesmo ele conseguirá se libertar das amarras damodernidade: A modernidade se revela como sua fatalidade. Nela o herói não cabe; ela não tem emprego algum para esse tipo. Amarra-o para sempre a um porto seguro; abandona-o a uma eterna ociosidade. [...] A modernidade heróica se revela como uma tragédia onde o papel do herói está disponível. A cidade é, em si, uma demanda de gênero. Ao trilhar por suas intermináveis ruas, osujeito depara-se com a infinidade, ora revestida de encantos e magia, ora fantasiada dedesilusões. A cidade, com o seu poder envolvente de serpente, astuta, dissimulada, sedutora,enreda o andarilho em uma trama de difícil ruptura, o sujeito torna-se uma presa na cidade.Guiado pelas luzes solares ou, quem sabe, pela luminosidade noturna e enlaçado pelosdescaminhos da modernidade, o sujeito tenta encontrar-se.2.1 Andarilho noturno e o eu boêmio A literatura, na permanência de uma das funções, a representação da realidade,encontrará nos conflitos do sujeito moderno o húmus necessário à fertilização de sua arte.Sem a obrigação de que este elemento seja sempre de boa procedência e assegure a qualidadedos frutos futuros, a arte literária apodera-se dos passos firmados na modernidade. Nemsempre as pegadas são afixadas em solo firme, concreto, se o fosse, não seria nesse tempo. A cidade, espaço de constantes fabulações, comportará em seus meandros todosaqueles que dela aproximam-se. Uns, até conseguirão fazer dela o seu porto seguro. Outros,numa busca permanente pelo seu eu, irão, guiados pelas possibilidades por ela oferecidas,tentar desvendar os seus segredos através de passeios noturnos, infinitas andanças, quasesempre limitadas aos poucos metros quadrados de um apartamento em Copacabana. Em Osolhos do cão, o homem sitiado por sua solidão, tem a insônia como companheira: Às três da madrugada, insone, observando ao espelho do banheiro seu belo rosto magro, só ligeiramente gasto – a ruga amarga no canto da boca, barba e cabelos grisalhos -, tentou determinar a partir de quando, desde a sua chegada, começara a se sentir ameaçado (COUTINHO, 2004. p. 85).
  34. 34. 33 O desejo por situações ou objetos que, mesmo simbolicamente, remetam à noite, essaspersonagens seguem suas vidas encurraladas por sentimentos, desde os mais sóbrios avontades simples, como a segurança de um útero: À noite, ainda angustiado e outra vez sem conseguir dormir, ansiou por uma morna piscina arredondada e escura onde pudesse, afinal, repousar; quis voltar para antes da memória e do sofrimento, para a tépida mudez de um útero (COUTINHO, 2004, p. 87). O sujeito que se encontra e perde-se das trilhas urbanas, há muito tem sido objeto deestudo de alguns estudiosos, inclusive daqueles que se autointitulavam boêmios, comoBaudelaire, segundo a obra de Walter Benjamin (1989, p. 30): [...] “Essa boêmia – ela é tudopra mim – inclui despreocupadamente essa criatura a irmandade da boêmia”. As próprias cidades modernas, com seus encantos e magia, oferecem possibilidadespara o indivíduo tornar-se um investigador permanente dos seus indecifráveis segredos. Enessa busca, muitos acabam assumindo o papel de boêmios, figuras onipotentes econsolidadas em quaisquer centros urbanos. O surgimento dessa personagem peculiar relaciona-se, diretamente, aodesenvolvimento industrial das cidades. Embora, hoje sua função esteja imbricada àconcepção de vagabundo, tivera em outrora uma importante função no desenvolvimento demuitas metrópoles, como Paris. Benjamin (1989, p. 16), em suas pesquisas no legado deixadopor Baudelaire, aponta que havia, inclusive, antes de ser conhecido o conceito de boêmia, osque já davam significado à função, os trapeiros: Maior número de trapeiros surgiu nas cidades desde que, graças aos novos métodos industriais, os rejeitos ganharam certo valor. Trabalhavam para intermediários e representavam uma espécie de indústria caseira situada na rua. O trapeiro fascinava a sua época. Encantados, os primeiros olhos investigadores do pauperismo nele se fixaram com a pergunta muda: “Onde seria alcançado o limite da miséria humana?”. A afirmação acima demonstra que os primeiros boêmios, os trapeiros, deram à suacontribuição à sociedade. Contudo, inseridos na dinâmica urbana e suas artimanhasconvidativas, o sujeito passa a não mais firmar a sua identidade com o exercício profissional,
  35. 35. 34mas por trazer, para o centro das vivências modernas, diversas formas de prazer escondidasatrás das regras sociais. Nesse momento, sim, a figura, vê-se mais fortemente relacionada aoandarilho que não tem preocupação com mais nada, a não ser com a sua vida sem regras e deprazeres. Benjamin (1989, p. 9-10) afirma: Sua existência oscilante e, nos pormenores, mais dependente do acaso que da própria atividade, sua vida desregrada, cujas únicas estações fixas são as tavernas dos negociantes de vinho – os locais de encontro dos conspiradores -, suas relações inevitáveis com toda sorte de gente equívoca, colocam-nos naquela esfera de vida que, em Paris, é chamada a boêmia5. Na busca por reconhecimento e fortalecimento da sua arte, a literatura se apodera,ficcionalmente, daquilo que a ciência não consegue explicar a fim de consolidar-se. Assim, aconcepção acima apresentada encontra respaldo na literatura contemporânea, pois a retrataçãode alguns estilos de vida na modernidade dialoga com o perfil dos verdadeiros boêmios, sejana concepção tradicional apresentada por Baudelaire, ou, numa perspectiva mais atual. Ambas convergem para um mesmo fim, vida de pessoas que optam por um modo devida mais desregrada para além das conveniências sociais. E a literatura frente aos desafiosdeste tempo, deverá primar por manter a sua vivacidade através das produções artísticas, sem,contudo garantir-lhe sucesso absoluto em suas produções. Baudelaire (1846, p. 348 apudBenjamim 1989, p. 29), nesse sentido, afirma que: “Assim também é a literatura, quereproduz a substância mais difícil de avaliar, antes de tudo um enchimento de linhas, e oarquiteto literário cujo simples nome não promete lucros tem de vender a qualquer preço”. Aliado a este estranho sentimento que assola a vida de muitas personagens de SoniaCoutinho, a solidão, tem-se um desejo pela escuridão, por hábitos boêmios, como a ida abarzinhos, apreciar ou extravasar mágoas, através da bebida. Apesar de algumas situações se5 [Boêmia] foi a apropriação dos estilos de vida marginais pelos burgueses jovens e não tão jovens, para adramatização da ambivalência em relação às suas próprias identidades e destinos sociais [...]. As pessoas eramou não boêmias dependendo da intensidade na qual partes de suas vidas dramatizavam essas tensões e conflitospara elas próprias e para os outros, tornando-os visíveis e exigindo que fossem confrontados (Seigel,1992, p. 19-20). Segundo Seigel (apud NUNES e MENDES), a boemia é um fenômeno social e literário que teve lugar emdiversos pontos do planeta e em diferentes épocas. O termo diz respeito àqueles artistas que se reconhecem comotais, que procuram definir seus valores em contraposição aos da burguesia e em que a arte desempenha papelfundamental. Refere-se, pois, ao estilode vida especial, identificável, surgido no século dezenove, nas décadas de1830 e 1840 na França, tornado popular especialmente a partir das histórias de Henri Murger (1822-1861), quedramatiza o cotidiano de um grupo de intelectuais boêmios na Paris daquele tempo.
  36. 36. 35passarem durante o dia, a ânsia pela penumbra da noite permanece: “Entrou num botequim,pediu cachaça pura e, enquanto levava o copo à boca (suas mãos tremiam), escutou um súbitosilêncio de avesso, viu a escuridão por trás do sol ardente e negro” (COUTINHO, 2004, p.86). A literatura, não em conflito com a ciência, deve ser visualizada como uma práticasocial, uma vez que, embora ficcionalmente, ofereça instrumentos que poderão perpassarépocas para que o comportamento humano de um dado período da história seja observado.Nesse sentido, pode ser um mecanismo na compreensão do modo como as identidades,individual e coletiva, são construídas e consolidadas e quais fatores historicossociaiscontribuíram para tal afirmação. Villaça (1996, p. 160) discute este aspecto: Na busca da individualidade e da identidade nacional, a literatura funciona pela reduplicação do paradigma da ciência e não em oposição a ela: literatura não como válvula de escape para a vida social penetrada de cálculo e visão mecânica, mas literatura orientada pela mesma racionalidade do poder. A cidade, em si, favorece a multiplicidade de comportamentos e o surgimento denovas identidades. A sua estrutura basilar permite aos seus habitantes vivenciarem inúmerassensações a partir de práticas sociais. Para Harvey (2001, p. 69), a aparência das cidades e asua organização espacial constituem o esteio necessário para que o indivíduo pense, avalie erealize diversas percepções do contexto que o circunda. O autor discute, ainda, que aflexibilidade encontrada nas cidades, aliada ao constante processo de rupturas, típicos damodernidade, ao qual ela está submetida favorece a uma inacabada e contínua (des)construçãode concepções relacionadas à individualidade do sujeito e ao coletivo no qual está inserido.Harvey (2001, p. 22) postula: A modernidade, por conseguinte, não apenas envolve uma implacável ruptura com todas e quaisquer condições históricas precedentes, como é caracterizada por um interminável processo de rupturas e fragmentações internas e inerentes. O autor (2001, p. 18) segue suas análises acerca dos amores e dissabores da cidadeafirmando que embora ela se apresente totalmente plástica, ou seja, passiva às conivências
  37. 37. 36identitárias de cada habitante, essa mesma característica poderá conduzir seus andarilhos auma incerteza maior ainda sobre, o que até então, concebiam ser liberdade. Essa característicapode ser observada no conto de Sonia Coutinho Uma certa felicidade (1994, p. 51): “Aliberdade inteira e toda solidão do mundo. [...] minha liberdade inútil a tiracolo, minhaliberdade como uma túnica, como um manto a minha liberdade e solidão [...]”. Para afirmar o seu ponto de vista sobre a plasticidade da cidade, Harvey (2001, p. 17)expõe a diferença entre elas e localidades menores, como pequenos municípios e povoados:“[...] as cidades, ao contrário dos povoados e pequenos municípios, são plásticas por natureza.Moldamo-las à nossa imagem: elas, por sua vez, nos moldam por meio da resistência queoferecem quando tentamos impor-lhes nossa própria forma pessoal”. E é essa incerteza oprincipal elemento sedutor e convidativo que a cidade utiliza para atrair os seus amantes.Estes, movidos pelo desejo de domá-la, seguem, em passeios ininterruptos, por suas trilhas. A ânsia em decifrá-la é mais latente que o medo por ela oferecido. Ítalo Calvino(1990, p. 44) discute sobre as cidades; para ele: “as cidades, como os sonhos, são construídaspor desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regrassejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam outra coisa”. E o sujeito, numa busca constante por si mesmo, segue pela cidade. Se pela noite nãoencontrou o objeto de sua busca, segue em passeio diurno. Quem sabe, conduzido pelosreflexos solares, este sujeito, encontre-se, descubra-se, reconheça-se, fixe num lugar. Ouquem sabe, depare-se com uma incerteza maior ainda.2.2 O Flâneur a descoberta da cidade A palavra dá vida à fantasia, à imaginação. Através dela novos universos podem sercriados. E é na literatura que essa atividade é melhor realizada. Independe da época, dosconflitos que assolam a vida do ser humano, individuais, coletivos, do contexto, a literaturapermanecerá rejuvenescida, revigorada. Com o seu poder de renovar-se representa arealidade, embriaga-se dos conceitos de qualquer contemporaneidade e descreve, commaestria, a vida dos sujeitos. Não importa se é um indivíduo seguro de si, ou, ainda,completamente alheio à sua existência e àquele, que através de passeios intermináveis peloslabirintos, tenta decifrar o enigma da cidade, definir-se.
  38. 38. 37 Na contemporaneidade, a literatura não mais se sustenta, tão somente, restrita ao seuuniverso. Daí o fato de ela dialogar com outras áreas que, assim como ela, tentam retratar avida de um povo, sua cultura, sobretudo, àqueles que seguem na busca por reconhecimento econsolidação social, como mulheres, negros, homossexuais. Assim, seguirá transportando oleitor a novos mundos criados e sustentados na literatura, sem que se perca de vista o referentedo mundo real. Calvino (1990, p. 13-20) corrobora essa ideia: No universo infinito da literatura sempre se abrem outros caminhos a explorar, novíssimos ou bem antigos, estilos e formas que podem mudar nossa imagem do mundo [...]. Mas a literatura não basta para me assegurar que não estou apenas perseguindo sonhos, então busco na ciência alimento para as minhas visões das quais todo pesadume tenha sido excluído. Calvino (1990, p. 84) segue o seu texto discutindo sobre o poder da obra literária.Trata não do seu absolutismo, mas da sua eternidade. Da capacidade que tem de atribuirsentido, embora inexato, ao existir. Algo inexplicável, mas delicado, gracioso, tão intenso aoponto de parecer algo concreto, embora seja imaginação, ficção. Mas, de qualquer modo, tãocheia de vida, quase um organismo vivo. Ao passo que cria histórias, personagens, a literatura representa diversas figuras dasociedade. Dentre elas, os amantes dos encantos urbanos, os caçadores dos prazeres da terraprometida, os que concebem a vida, apenas impressa, na diversidade das cidades. Para oandarilho do dia das cidades, a vida esconde uma infinidade de tesouros que só poderão sernotados nos labirintos urbanos. Para Benjamim (1989, p. 35): “Que a vida em toda a suadiversidade, em toda a sua inesgotável riqueza de variações, só se desenvolva entre osparalelepípedos cinzentos e ante o cinzento pano de fundo do despotismo”. A alusão à cor cinza é uma constante nos contos de Sonia Coutinho. Suas personagensfazem referência a esta cor ao descreverem alguns cenários do bairro de Copacabana, localonde se passa a maioria absoluta das situações vivenciadas por elas. A descrição de algumascenas acontece de maneira intensa que possibilita a criação de imagens significativas, muitoembora não decifráveis. [...] um conto é, pois, uma imagem que por razão qualquer apresenta-se a mim carregada de significado, mesmo que eu não o saiba formular em termos discursivos ou conceituais.
  39. 39. 38 [...] fora a brancura cinzenta da espuma (as ondas picadas deixam no ar, em torno, uma névoa de salitre), está de um cinza profundo, ao lado da areia cinza, do céu cinza e da fileira de prédios cinzentos, é quando os pombos branco/acinzentados descem voando em harmoniosa formação [...] (CALVINO, 1990, p. 104). Na busca por si mesmo, os sujeitos urbanos terminam por abarcarem as característicasde uma típica figura das cidades, o flâneur6 que, para Baudelaire, segundo Benjamin (1989, p.34): “[...] dias de festa e dias de luto, trabalho e lazer, costumes matrimoniais hábitoscelibatários, família, casa, filhos, escola, sociedade, teatro, tipos, profissões. A calma dessasdescrições combina com o jeito flâneur, a fazer botânica no asfalto”. Inúmeros estudos apontam para a figura do flâneur como uma referência de alegria, aoseu modo, de alguém despreocupado com a vida e algumas de suas obrigações, como aluguele pagamentos de despesas comuns, cujo único foco era a malandragem, a busca pelo prazer,pela esbórnia, mesmo que, para isso, tivesse que passar dias a fio perambulando pelas ruas dacidade. Entretanto, Walter Benjamin, em estudo à obra de Baudelaire mostra que nem sempreesses andarilhos das cidades deparavam-se com o fascínio criado em suas imaginações. Elessempre eram movidos pelos encantos da cidade, sedentos em descobrir os seus mistérios,porém, esbarravam, em algum momento da sua trajetória, com a solidão.6 É através do olhar do flâneur que a cidade de Paris é transfigurada poeticamente por Baudelaire, mediante oestado de spleen, de que se falará adiante. [...] Nesta ‘nova’ ou reconstruída cidade, e que corresponde também aum mundo em decadência, de uma cultura derradeira e mortalmente ferida pelo fetiche da mercadoria e pelocapitalismo burguês, os seus passeios amplos convidavam agora ao passeio, afastando o medo que tomava otranseunte parisiense, na antiga cidade, e essa actividade (a flânerie) constituía a ocupação privilegiada doburguês ocioso (o flâneur), aquele que sustentava a convicção da fecundidade da flânerie, de que nos fala, nãoapenas Benjamin, nos seus estudos sobre Baudelaire, como também o próprio Baudelaire, na sua obra As Floresdo Mal. [...] A fantasmagoria do flâneur, aquela que irá ser analisada em primeiro lugar, é tomada comoactividade propiciadora de uma embriaguez ou, mesmo, de um êxtase peculiar (comparada frequentemente àembriaguez provocada pelo uso do haxixe), é, ao mesmo tempo, a expressão de uma situação dialéctica que seencontra na raiz da lírica alegórica de Baudelaire. [...] Como Walter Benjamin o afirma, o flâneur é um estudiosoda natureza humana. Sob a aparência de um olhar desatento e distraído, esconde-se alguém cuja volúpia residena decifração dos sinais e das imagens: algo que pode ser revelado por uma palavra deixada ao acaso, umaexpressão capaz de fascinar o olhar de um pintor, um ruído que espera o ouvido de um músico atento. Osconceitos de flânerie e de ócio devem, então, ser aproximados, tomando o segundo como a inaparente condiçãodo trabalho poético mais fecundo (CANTINHO, Maria João. Modernidade e alegoria em Walter Benjamin.In: Revista de cultura, nº 29. Fortaleza; São Paulo, outubro de 2002. Disponível:<http://www.revista.agulha.nom.br/ag29benjamin.htm>. Acesso em: 24/12/2011).
  40. 40. 39 Este sentimento que assolava a vida do flânuer tornava-se mais intenso ao descobrir-se completamente solitário em meio à multidão. Surgia, então, mais uma artimanha da cidadecom a qual o sujeito andante teria que se adaptar se nela quisesse permanecer. “As pessoastinham que se acomodar a uma circunstância nova e bastante estranha, característica da cidadegrande. [...] uma multidão a perder de vista, onde ninguém é para o outro nem totalmentenítido nem totalmente opaco” Benjamin (1989, p. 35 e 46). A sensação de estar ilhado pela solidão, mesmo ocupando um espaço no qualresidem milhões de pessoas, é uma característica recorrente nos contos de Sonia Coutinho. Atodo momento, as suas personagens se veem completamente atordoadas por esta sensaçãoque as toma, envolvendo-as num misto de incertezas e que, na verdade, são os reflexos dacontemporaneidade, sobretudo, nas grandes cidades. Estas marcas podem ser facilmente visualizadas em Sonia Coutinho, principalmenteno conto Nos olhos do cão (2004, p. 86) no qual o sujeito, um homem de 50 anos, perde-secompletamente nos labirintos da vida contemporânea e deixa-se abater pela incerteza: No dia seguinte, procurando caminhos entre o tráfego congestionado das novas avenidas, avaliou sua ilusão ao imaginar que a Cidade permaneceria ali imóvel, atestado permanente de sua identidade. Corrosiva, ali também atuara a movediça estranheza da vida – quem seria ele? A personagem central desse conto retornara à Cidade após uma temporada fora.Voltara guiado por um turbilhão de sensações, não sabia explicar, mas estava certo de que naCidade deveria permanecer. Sempre que estava mergulhado em suas frustrações, segurava-seem algo para reerguer-se e ir à busca da beleza da cidade, porém, a cada retomada de fôlegorenascia, mais forte ainda, a incerteza. Mas, na manhã seguinte, reanimado, começou a percorrer as ruas da Cidade, com a excitação de quem se empenha numa atividade sexual. Caminha por ali, pensou, era um largo coito, bíblica fornicação, aquelas ruas poeirentas e douradas, miseráveis mas luxuosas de objetos e cores [...].Algumas horas depois, cansado e encalorado, concluiu que, de certa forma, toda aquela beleza ia além do humano, reduzia as pessoas a insignificantes seres de carne perecível (COUTINHO, 2044, p. 86).
  41. 41. 40 Para Edgar Poe (apud Benjamin, 1989, p. 48-50), o efeito é ainda mais devastador,pois se trata de humanos como barreira. Em momento algum o trânsito é mencionado comoempecilho ao deslocamento do flânuer, o bloqueio é dado por outras multidões. O flânuer nãopoderia estabelecer o seu lugar na cidade, tão pouco brilhar. O andarilho segue numa rotadeslocada, com movimentos desordenados, num eterno gesticular e falar consigo mesmo,extremamente incomodado pela incontável multidão que o cerca. Estranhamente essa personagem, consciente do mar de insegurança no qual estavaimerso, sentia desejo de permanecer nesse conflito. Para ele, em algum momento da sua vidaesquecera nessa Cidade algo essencial à sua existência, precisava resgatá-lo, mesmo numresgate tortuoso, que custaria a sua paz, ele desejava continuar nesse conflito, uma vez queexplicita a necessidade de permanecer nesse lugar. Como se tivesse esquecido ali, há muitos anos, uma peça vital de seu mecanismo interior. Estivesse então em qualquer parte do mundo, à Cidade permaneceria ligado pelo pequeno elo perdido/escondido. Ou, talvez, já destruído e entranhado naquele cenário, do qual então necessitava (COUTINHO, 2004, p.81). Benjamin (1989, p.55) discute sobre a busca permanente realizada pelo andarilhodiurno das cidades. Ele afirma que aquele que sai à procura do prazer para passar o tempo irádefrontar-se com diversas barreiras sociais. A limitação seria uma espécie de termômetro, oqual estabeleceria limites entre o que o flânuer quer da cidade e o que, efetivamente, ela podeoferecer-lhe. As ruas, aparentemente, cenário perfeito para o sujeito contemporâneo, serviria derefúgio tão qual uma morada entre quatro paredes. Contudo, uma morada para muitos,obrigando aos que optam por esse espaço desenvolver a capacidade criativa de fazer dela oseu porto (in)seguro. Benjamin (1989, p.194) discorre sobre a diversidade das ruas: “As ruassão a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente inquieto, eternamente agitado, que,entre os muros dos prédios, vive, experimenta, reconhece e inventa tanto quanto os indivíduosao abrigo de suas quatro paredes”. Misturam-se nas ruas, a beleza e as maléficas condições urbanas, sim, pois o sujeitomovido pelos encantos da cidade visualiza o que de não tão bela nela existe, mas quer fixar-seali. O sujeito, não tão certo do que busca na cidade, segue ao encontro do seu desejo. Nesse

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