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À minha mãe Terezinha,a pessoa mais especial da minha vida.                                   4
AGRADECIMENTOS         A melhor maneira de registrar a gratidão é mergulhar na profundeza interior eperceber momentos atem...
plantadas, e o motor para uma trajetória significativa pautada em princípios éticos perspicazesfoi impulsionado.        Ho...
RESUMOA representação da mulher na sociedade, nos espaços público e privado, e seus passos embusca de uma identidade no ro...
ABSTRACTThe woman’s representation in the society, in the public and private spheres, and her stepstowards an identity wit...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO AO JOGO BÉLICO DE TEREZA ................................................... 101      ENTRELUGARES: espa...
INTRODUÇÃO AO JOGO BÉLICO DE TEREZA                                    Tendo dito e não sendo contestado, agora pergunto e...
Busca-se revisitar o processo de carnavalização como recurso metafórico deconstrução de mulher transgressora a partir dos ...
(1998); Beauvoir (1980); Castells (1942); Chaves (2011); Chalhoub (1998); Duarte (2004);Ferreira (2002); Mota (2000)foment...
a no plano obscuro e indecifrável mistério, depara-se com uma Tereza inacabada, em contínuoprocesso de construção identitá...
1 ENTRELUGARES: espaços imaginados entre público e privado         Na literatura, a representação feminina sempre esteve e...
Desestabilizadas, no processo de significação identitária, as mulheres vivem na disjunçãocomportamental. Os espaços interm...
Apresenta sua bravura, ao matar o capitão. Embora “Cansada de guerra”, cria trincheiras deresistência contra a idealização...
1.1 Entrelugar: configuração fronteiriça e literária                                          A arquitetura do novo sujeit...
o passado não é originário, em que o presente não é simplesmente                       transitório. Trata-se de um futuro ...
dizer que o entrelugar consiste no seu lugar. A nova ordem de fronteiras, o “perambular” porespaços, públicos e privados, ...
ocidental, mas também contesta sua idéia (sic) historicista de tempo como um todoprogressivo e ordenado”. A condição alien...
As práticas excludentes, permeadas nas relações sociais, ao serem transgredidas,como mecanismo de superação coletiva, tran...
verdadeiro, permite uma interação leitor/escritor de forma a inseri-los na escrita ficcional,transpondo-os para as realida...
relação às imposições patriarcais, mas que travam luta constante e progressiva contra asamarras sociais.         O atrativ...
que tangem os discursos marginalizantes e discriminatórios. O autor configura personagensem espaços amplos e significativo...
1.3 Entrelugar feminino? Uma questão de ótica                                          Ninguém nasce mulher, torna-se mulh...
formas nascentes, menina por demais verde, ao gosto do capitão. Mas a                        demônia cruza as pernas, tran...
nos contextos sociais vigentes, desempenhando papéis exclusivamente centrados na posiçãode mulher, voltada para o casament...
Veio mais a frente Justiniano na intenção de agarrar a maldita, sujeitá-la na                       cama, romper o eterno ...
2 IDENTIDADE, MULHER E METÁFORA: a dialética imagem jorgeamadiana                                    A identidade de uma p...
posiciona como subservientes, portanto, impossibilitadas de lutar pela aquisição de umaidentidade livre de arquétipos mode...
2.1 Identidade plural e coletiva: desenhos imagético-imaginários ou construção cultural?                                  ...
contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas                        identificações estão send...
Tereza fragmentam-se. Porém, congruem para dimensões semelhantes. Ao abraçar os espaçospúblicos, abre-se para a contestaçã...
poderes vigentes tornaram-se as principais “armas” no jogo bélico. A mulher que viveu pormuito tempo sob o viés marginaliz...
objetivo no decorrer da sua trajetória de literato não foi a aceitação social, mas a demarcaçãode uma escrita profunda, si...
quebra e transgride com o ditado socialmente, sem, portanto, desvincular-se dascaracterísticas femininas valorativas.     ...
É preciso lhe ensinar a temer, a respeitar o amo e senhor que a comprou a                         quem de direito, é seu d...
reivindicação e busca por solução. Por sua fortaleza inerente ao processo vital, Tereza nãoaceita ser objeto sexual, nem t...
A metáfora é um saber dissimulado, que é saber, ainda que não pareça – um                       conhecimento da ordem do s...
Tereza deve ser filha de Yansã, sendo as duas iguais na coragem, na                          disposição: apesar de mulher,...
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  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DO CURSO DE LETRAS – LICENCIATURA, HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA O ENTRE-LUGAR FEMININO:a metáfora da identidade da mulher no espaço bélico entre o público e o privado em Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado Conceição do Coité 2012 1
  2. 2. RIGOMÁRIA DA SILVA LOPES O ENTRE-LUGAR FEMININO:a metáfora da identidade da mulher no espaço bélico entre o público e o privado em Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado Monografia apresentada ao Departamento de Educação, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB),Campus XIV, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciada em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura. Orientadora: Prof.ª Eugênia Mateus de Souza Conceição do Coité 2012 2
  3. 3. MULHERAntes do homem, a mulher, a mãe, durante ohomem, a mulher, a esposa, depois do homem, amulher, a sombra. Sombra do homem, claridade dohomem, trabalhadora, dura em seus trabalhos,amorosa, estrelada como o céu em um ciclo tenazde ternura, mulher corajosa das profissões, operáriadas fábricas cruéis, doutora luminosa junto àcriança, lavadeira das roupas alheias, escritora quesegura uma pequena pena como espada, mulher domorto que partiu na mina sepultado pelo carvãosangrento, solitária mulher do navegante,companheira do preso e do soldado, mulher doceque rega seus rosais, mulher sagrada que damiséria multiplica seu pão com pranto e luta,mulher, título de ouro e nome da terra, florpalpitante da primavera e fermento santo da vida,chegou a hora da aurora, a hora das pétalas de pão,a hora da luz organizada, a hora de todas mulheresjuntas defendendo a paz, a terra, o filho. Pablo Neruda MULHER GUERREIRA Não se molda às circunstâncias E se lhe privam o prazer, Vira guerreira Não aceita imposições Vai em busca, indo à luta Para não se deixar morrer! Menina guerreira Quer viver plenamente, buscando, amando, desejando, sonhando, e sentindo o prazer de viver. Moiro do Barlavento 3
  4. 4. À minha mãe Terezinha,a pessoa mais especial da minha vida. 4
  5. 5. AGRADECIMENTOS A melhor maneira de registrar a gratidão é mergulhar na profundeza interior eperceber momentos atemporais e pessoas que se tornaram significativamente essenciais nonosso processo vital. Quero aqui mencionar momentos e pessoas que, de uma forma especial,marcaram parte da minha história acadêmica. Agradeço primordialmente ao meu Deus por estar comigo em todas ascircunstâncias, auxiliando-me a seguir confiante sem desanimar em meio aos obstáculos. Porme acompanhar por espaços polissêmicos. Por me presentear com uma mãe admirável, queesteve comigo, correndo em meu auxílio para reerguer-me quando aparecia o cansaço. Àminha mãe devo a formação do meu caráter. Com ele (caráter) pude conhecer e conviver com pessoas esplêndidas e desfrutar demomentos singulares. Dentre eles as pessoas do meu “lar” acadêmico. Minha permanênciaessa instituição deve-se muito a um grupo de colegas, professores, funcionários quecontribuíram de maneira incalculável para o meu desenvolvimento e crescimento pessoal eprofissional. Aos funcionários Décio, Roberto, Margarete, agradeço o apoio quando necessário;aos zeladores em geral, obrigada pelo sorriso e palavras revigorantes. Tenho prazer emreconhecer o compromisso ao trabalho docente que todos os professores desta instituiçãodesempenhaste no decorrer do curso: Edite, Antonilma, Bulcão, Celina Bastos, FátimaBarros, Itana Nunes, Saionara, Plínio. Em particular, a influência da minha orientadoraEugênia Mateus de Souza que, com todo carinho, respeito, atenção e compromisso me aceitoucomo orientanda e por acreditar que este trabalho se materializasse; agradeço ao professorDeijair Ferreira pela paciência e incentivo. Desfrutei de uma relação de cumplicidade, companheirismo ao lado da turma deLetras Vernáculas, 2008.1. A vocês agradeço pelos momentos alegres, tristes, divertidos,tensos, prazerosos e fortalecedores. Em particular fui privilegiada por poder conhecer umgrupo de amigas que impulsionaram minha permanência nessa instituição no decorrer docurso: Camila Silva, Camila Mascarenhas, Soelha Aleluia, Rosieli Silva, Luciana Lago e AnyTarcila. Muito obrigada pela compreensão, pelo incentivo, pelos carinhos, por estarem ao meulado. Embora nossas vidas agora sigam rumos diferentes, a certeza que temos é de levarum pouco de tudo e de todos. A semente de informação, criticidade e amizade sincera foram 5
  6. 6. plantadas, e o motor para uma trajetória significativa pautada em princípios éticos perspicazesfoi impulsionado. Hoje acredito que os sonhos podem se tornar realidade desde que acreditemosfirmemente; acreditei e conquistei, em unidade. Os percalços não foram maiores que minhafé, mais degraus para meu crescimento. Agradeço à vida, as dores, as alegrias... Enfim, a tudoque me permitiu chegar a meu mais novo caminho. 6
  7. 7. RESUMOA representação da mulher na sociedade, nos espaços público e privado, e seus passos embusca de uma identidade no romance Tereza Batista Cansada de Guerra dialogam com osestudos de pesquisadores, como Almeida (2010); Araújo (2003); Bahktin (2008); Bhabha(1998); Beauvoir (1980); Belline (2003); Brait (2008); Castells (1999); Chaves (2006);Chalhoub (1998) Duarte (2004); Ferreira e Nascimento (2002); Giddens (2002); Lévinas(1997); Lopes (1987); Motta, Sardenberb e Gomes (2000); e Pereira (2004), os quaissedimentam as hipóteses de uma problemática insistente, todavia, indignada com a falta deresultados fotografados nos ideiais de mulher. Num jogo bélico estampado de lutas, cansaçose desafios, analisa-se as posições intersticiais de Indivíduos restrito à esfera privada e, ainda,desprovidos de liberdade e aceitação social, suas armas defensivas contra as imposições estãofortemente marcada pela determinação de caráter modelada em Tereza Batista para comandareste exército com as demais mulheres sociais. Por meio de uma linguagem clara e objetiva,busca-se, pois, demonstrar os avanços da personagem em busca da sua liberdade, e a quebracom os padrões tradicionalistas para por um fim numa luta identitária sem méritos imediatos,mas sequencializada pelos (des)caminhos agora impostos pelo discurso feminino direcionadoao seu lugar e às próprias escolhas.PALAVRAS-CHAVE: Mulher. Literatura. Representação. Ruptura. Espaços públicos eprivados. 7
  8. 8. ABSTRACTThe woman’s representation in the society, in the public and private spheres, and her stepstowards an identity within the novel Tereza Batista Cansada de Guerra dialogue with thestudents of researchers like Almeida (2010); Araújo (2003); Bahktim (2008); Bhabha (1998);Beauvoir (1980); Belline (2003). Brait (2008); Castells (1999); Chaves (2006); Chalhoub(1998); Duarte (2004); Ferreira e Nascimento (2002); Giddens (2002); Lévinas (1997); Lopes(1987); Motta, Sardenberb e Gomes (2000); e Pereira (2004), who dig hypothesis of aninsistent issue, anyway, indignant about the lack of results taken on the woman’s ideals. In awarlike game printed of battles, tiring and challenging, it is analyzed the interstitials positionsof individuals restricted to the private sphere and, yet, lacking of freedom and socialacceptance, their defensive guns against the impositions are strongly marked by thedetermination of character modeled in Tereza Batista to command this army with the othersocial women. By the means of a clear and objective language, it aims to demonstrate thecharacter’s advances towards its freedom, and the rupture with the traditionalist standards inorder to put an end in an identity fight without immediate merits, but sequenced by the(anti)ways now imposed by the feminine discourse directed to its place and own choices.KEYWORDS: Woman. Literature. Representation. Rupture. Public and private spheres. 8
  9. 9. SUMÁRIOINTRODUÇÃO AO JOGO BÉLICO DE TEREZA ................................................... 101 ENTRELUGARES: espaços imaginados entre público e privado .................... 141.1 Entrelugar: configuração fronteiriça e literária ........................................................ 171.2 Jorge Mulher Amado: o interstício literário dialético ............................................. 211.3 Entrelugar feminino? Uma questão de ótica ............................................................ 252 IDENTIDADE, MULHER E METÁFORA: a dialética imagem jorgeamadiana ........................................................................................................ 292.1 Identidade plural e coletiva: desenhos imagético-imaginários ou construção cultural? ................................................................................................................... 312.2 Mulher objeto ou objeto mulher: de um extremo a outro na escrita jorgeamadiana 342.3 Metáfora e carnavalização à revelia de uma construção literária de mulher ......... 383 TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA: interstício bélico do anti- herói ........................................................................................................................ 433.1 Mulher cansada + jogo bélico = a busca de espaço ................................................. 443.2 Nem público nem privado, apenas Tereza Batista e a concretização do eu ............ 483.3 Simplesmente Amado Tereza: “Da terceira vez não vi mais nada”........................ 51AINDA CANSADA... MAS SEM CONCLUSÕES ABSOLUTAS ............................ 56REFERÈNCIAS .............................................................................................................. 59 9
  10. 10. INTRODUÇÃO AO JOGO BÉLICO DE TEREZA Tendo dito e não sendo contestado, agora pergunto eu: que lhe interessa, seu mano, saber das mal aventuras de Tereza Batista? Por acaso pode remediar acontecidos passados?Tereza carregou fardo penoso, poucos machos agüentariam (sic) com o peso; ela aguentou (sic) e foi em frente, ninguém a viu se queixando, pedindo piedade; se houve quem rara vez a ajudasse assim agiu por dever da amizade; jamais por frouxidão da moça atrevida; onde estivesse afugentava a tristeza. Da desgraça fez pouco caso, meu irmão, para Tereza só alegria tinha valor (AMADO, 1972, p. 8). A literatura arte com poder de recriar, ressignificar o real, revive o que já passoupresentifica o passado e provoca fruição no leitor, ou seja, comove. A fantástica linguagemliterária possibilita para um novo olhar, uma nova forma de perceber o mundo, uma vez que avelocidade dos fatos da vida ao serem descritos não permitem uma pausa para absorção dosacontecimentos, pela simultaneidade e falta de relação existente entre si. Na ficção contemporânea existe um abandono da descrição dos episódios de formalinear, isso decorre, pois o sujeito está envolto diante de uma realidade social e cultural quenão o completa, o mundo do fragmento e do múltiplo é o caminho natural e inevitável para ouno e o todo. Segundo Maia (2009), falar de contemporaneidade é falar de todos nós,enxergando o movimento histórico; é o espaço de uma nova ordem estabelecida, advindaprincipalmente dos grupos minoritários que reivindicam participação e visibilidade igualitáriasocialmente. Seguindo essa linha de pensamento, a temática analisada –As marcas identitáriasde uma guerra entre o público e o privado na formação metafórica do feminino, em TerezaBatista Cansada de Guerra, de Jorge Amado – estrutura-se numa monografia intitulada OENTRE-LUGAR FEMININO: a metáfora da identidade da mulher no espaço bélico entre opúblico e o privado em Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado. Sob o olhar degênero, temática por se exaurir, e da narrativa Jorgeamadina tenta-se com esse trabalhoaveriguar as marcas de uma guerra entre o público e o privado na formação do feminino, e nabusca por um espaço na sociedade, em Tereza Batista Cansada de Guerra, definindo oPúblico e Privado e as práticas opressoras do domínio público e seus reflexos na formaçãoidentitária feminina. 10
  11. 11. Busca-se revisitar o processo de carnavalização como recurso metafórico deconstrução de mulher transgressora a partir dos princípios religiosos sincréticos, identificandoas atitudes femininas, plurais e contestadoras, no processo de emancipação, na figura deTereza Batista em comparação às demais figuras femininas do romance, como integraçãoentre literatura e cultura na escrita jorgeamadiana. Analisam-se os papéis sociais atuados porTereza Batista Cansada de Guerra e a demarcação da dicotomia entre a mulher do espaçopúblico e a mulher do espaço privado. Na narrativa estudada, o autor Jorge Amado traz a imagem da mulher do séc. XX,vítima da falta de sanções sociais e marcada por uma carga de erotismo e, juntamente, comela força e audácia. O autor enfoca a mulher que rompe modelos pré-estabelecidos paraalcançar a liberdade; afirma um sujeito feminino arrebatador que luta para alcançar umavisibilidade social. O universo polêmico marca-se pela presença da forte e complexapersonagem que chocou a sociedade e, rompeu convenções sociais usando o poder desedução, sensualidade, acompanhada com atrativos valorativos, afirmando a força da mulher erespondendo ao mundo que lhe excluía. O guia para as leituras e estruturação do trabalho partiu primeiro do objetivo geral –Averiguar as marcas de uma guerra entre o público e o privado na formação do feminino, e nabusca por um espaço na sociedade, em Tereza Batista Cansada de Guerra – direção para ospassos da pesquisa:a. Definir Público e Privado no contexto em questão;b. Elencar as práticas opressoras do domínio público e seus reflexos na formação identitária feminina;c. Revisitar o processo de carnavalização como recurso metafórico de construção de mulher transgressora a partir dos princípios religiosos sincréticos.d. Identificar atitudes plurais contestadoras femininas no processo de emancipação, na figura de Tereza Batista em comparação às demais figuras femininas da obra, como integração entre literatura e cultura na escrita jorgeamadiana.e. Analisar os papéis sociais atuados por Tereza Batista Cansada de Guerra e a demarcação da dicotomia entre a mulher do espaço público e a mulher do espaço privado. De início, a preocupação voltou-se para a leitura e análise do romance em questão,por conseguinte, novas leituras de fundamentação teórica, como Almeida (1998); Bhabha 11
  12. 12. (1998); Beauvoir (1980); Castells (1942); Chaves (2011); Chalhoub (1998); Duarte (2004);Ferreira (2002); Mota (2000)fomentaram o texto, com o objetivo de relacioná-las a narrativaem análise e seu autor. Enfim, uma pesquisa de caráter bibliográfico.O trabalho estáestruturado em três capítulos, cada um com três sessões e as considerações finais. No primeiro capítulo intitulado Entrelugares: espaços imaginados entre público eprivado, foi feita uma análise do anúncio feminino no espaço público; retratou-se aultrapassagem de fronteiras/limites nos interstícios dialéticos, os entraves vitais sãosubstanciados nesse processo de ruptura. A imagem feminina é descrita por uma nova óticainterpretativa, o escritor Jorge Amado apresenta uma mulher amada, que ultrapassa as belezasestéticas; simultâneo aos arquétipos de fragilidade, doçura, atribuídos à mulher, retrata-se amulher guerreira, que crítica as mazelas sociais por meio das suas ações. A mulherdesvincula-se do discurso ideológico horizontal, firma-se em plurais espaços e assume-seenquanto sujeito mobilizador. No segundo capítulo Identidade, mulher e metáfora: a dialética imagemjorgeamadiana, busca-se mapear o processo de formação identitárias, de mulheres no espaçosocial, em concomitância com a mulher analisada no corpus do trabalho, Tereza Batista. Asarticulações femininas metaforizam-se revestem a mulher de atrativos reestruturados eressignificantes. A mulher Amadiana é descrita como objeto de crítica e ruptura social,entremeia nos espaços ainda inatingíveis e modifica o discurso articulado. A mulhercarnavaliza-se, transforma-se em uma nova mulher, reveste-se com armas defensivas contratoda forma de imposição e marginalização social. No terceiro capítulo designado Tereza Batista Cansada de Guerra: interstício bélicodo anti-herói possibilita-se uma abordagem centrada especificamente na obra Tereza BatistaCansada de Guerra, nos entrelugares percorridos por Tereza e que congruem para a formaçãodo seu caráter. Nesse ponto, retrata-se a personagem quando se assume enquanto mulherobjeto, dançarina, prostituta, professora, amásia, altruísta, enfermeira e militante. A narrativapermite uma íntima aproximação da personagem com demais figuras sociais quecompartilham dos mesmos conflitos femininos. A imagem da mulher amadiana emerge nosespaços públicos e privados, transita nas variadas esferas sociais e mostra a possibilidade doser humano de “ir além”. A partir da contestação que Tereza vivenciou diante de metralhadas guerrasexistenciais, finaliza-se com Ainda cansada... Mas sem conclusões absolutas. Neste tópicofinalizador apresentam-se os amores, dissabores vivenciados pela personagem; configurando- 12
  13. 13. a no plano obscuro e indecifrável mistério, depara-se com uma Tereza inacabada, em contínuoprocesso de construção identitária. Jorge amado conduz o leitor à imaginação, sua linguagem transporta o indivíduo aabarcar o irreal para real no imaginário. Há uma dialética entre imaginário e ficção que só aficção pode separar. Unindo aspectos reais ficcional, Amado mapeia a vida da mulher eenxerga-a em patamares polissêmicos. Configura-a sob ótica libertária, e apresenta mulheresque, enfrentando o jogo bélico opressor, constituem-se enquanto indivíduo de ação,conduzindo os leitos às novas óticas interpretativas. 13
  14. 14. 1 ENTRELUGARES: espaços imaginados entre público e privado Na literatura, a representação feminina sempre esteve em foco, haja vista por elaocupar um espaço preponderante na formação da cultura ocidental. Novos enfoques, novasleituras, novos recortes, à figura feminina fora eternizada por poetas, esquecidas porsociedades patriarcalistas, escondida por seus próprios desejos, esquecidas como objeto deprazer ou de luxo, amada por apaixonados amantes, traída pela indiferença de seuscompanheiros. A figura ora fiel, apaixonada amorosa, sonhadora, heroína, lutadora,introspecta,protetora... A mulher chega ao século XXI seja anunciada por sua voz ou pela vozmasculina.As formas controladoras impostas continuaram evidentes. Dentre a persistência em abrir espaços públicos apenas para o lado social masculino,movimentos feministas acentuados buscaram uma forma de quebrar fronteiras. “A construçãode imagens femininas na literatura tem sido um meio pelo qual valores culturais têm sidomantidos de geração a geração (BELLINE, 2003, p.96). O olhar masculino sobrepõe-se aos direitos femininos, neutraliza os direitos damulher, desmandos que favorecem a criação de movimentos de identidades fragmentadas,cujas discussões sobre a posse de seu lugar reiterou-se nos escritos literários, os quaisdocumentam séculos quando os homens impunham suas demandas e as mulheres,consideradas inferiores, física e mentalmente, sujeitavam-se às constantes guerras entrepermanências e desejos. O entrelugar das mulheres submissas consiste em conservação sem ação. Encontram-se, os indivíduos femininos, vive-o, filtrando-se nas ideologias, sem, contudo, adequar-se.Dividem-se entre o almejar e o possuir. Trajetórias de lutas contra o silêncio evidenciam-se naliteratura, onde o outro (o patriarca) impõe o que lhes é permitido fazer. Articula-se a duplicação de identidades. Firma-se a suposição do “eu”, que poderia“ser” em substituição do “eu” vivido pela submissão e subserviência. Esse contexto sofreupoucas alterações; com o transcorrer do tempo, porém, as metamorfoses de papéis sucederam,em decorrência das lutas. Modificar a posição da mulher de passiva, subserviente e objeto emmulher “transformadora” intercala a passagem do privado para o público. O deslocamento consiste no desconstruir uma história, ressignificando-a. Dessemodo, o entrecruzar de posições, articula um mutável desenvolvimento de características. 14
  15. 15. Desestabilizadas, no processo de significação identitária, as mulheres vivem na disjunçãocomportamental. Os espaços intermediários emergem, figuram-se novos sujeitos. A formação do sujeito fragmenta-se. Figuram-se nos entrelugares. O passado refleteno presente e afeta o futuro. A mulher assume caracteres plurais. A ideologia feminina,incrustada no pensamento social, reconstrói-se. Esta atitude, vista por muitos como afronta,proporcionou um jogo bélico entre o público e o privado. Os ininterruptos conflitos estabeleceram-se mediante a passagem da mulher doprivado lar, esposa obediente, ou seja, objeto fixo de prazer às demandas patriarcais, para“protagonista” do seu próprio destino, pertencentes ao mesmo espaço público até entãopredeterminado e centrado exclusivamente ao homem. O escritor Jorge Amado, em sua narrativa, problematiza questões nascentes nasrelações sociais e se utiliza de uma linguagem crítica, embora popular, inserida na segundafase modernista. Nesta fase, escritores abordam questões sociais bastante graves: a desigualdadesocial, a vida cruel dos retirantes, os resquícios de escravidão, o coronelismo, apoiado naposse das terras - todos os problemas sociopolíticos retratados nas várias regiões. JorgeAmado extraplola o debate, transpondo as fronteiras paternalistas que entravam na passagemfeminina para espaços onde as vozes fossem ouvidas. Os estereótipos femininos criados não só transgridem como chocam o convencional.Entra em cena a mulher no contexto social em ação.Na obra Tereza Batista Cansada deGuerra, Jorge Amado desenha a imagem de Tereza Batista, mulher revolucionária e contráriaàs imposições socioculturais, que luta com toda bravura, força e audácia no firme propósito desubtrair as desigualdades. A personagem faz a travessia nas guerras impostas pelo público e luta,incansavelmente, contra o destino que lhe tentam impor. Não tivera ilusões na vida. Aindacriança, seus pais morreram em um acidente de marinete, seus tios a criaram e moldaram-napara ser uma boa dona de casa e submeter-se às demandas do público, porém, em suasbrincadeiras com os “meninos”, aprendera que guerreiro não chora. Vendida por seus tios,vive com o capitão Justo, quem lhe estupra; homem sem caráter, ou seja, inescrupuloso,oprime-a, aprisiona e escraviza. Refletem-lhe características masculinas: corajosa, não chora ou desanima, amadurecemediante sofrimento, age valentemente. Tereza se manteve firme, foi submissa quando, emmeio às guerras com o público, suas forças cessaram, contudo, logo desconstrói essa ideia. 15
  16. 16. Apresenta sua bravura, ao matar o capitão. Embora “Cansada de guerra”, cria trincheiras deresistência contra a idealização masculina de mulher. Relaciona-se, pois, a obra ao povo brasileiro, que em meio às formas de dominação,opressão e múltiplos sofrimentos, desenvolveram defesas em prol de sua existência. Na obra,Tereza não só representa o feminino, o jogo verossímil da literatura, simboliza dois blocos deopressão – a margem e o feminino. No espaço público, nega-se enquanto mulher de sujeiçãoao privado, e é-lhe negado domínio para além do lar. Incansável nesse percurso bélicoestabelecido nas relações sociais sobrevive de forma crítica e contestadora contra toda equalquer forma de dominação. Por este viés, Tereza desloca-se do entrelugar como sugestão dos interstícios paraonde foram empurrados os povos marginalizados, os “ressentidos”. Jorge Amado(des)constrói este espaço feminino com a criação de uma personagem que transita um e outrolugar. A universalidade desenhada num perfil feminino (particular) amplia os sentidos. Amáscara burguesa queda e decrépita mediante a imagem transfigurada de um antagonismo aocentro da discussão. O comportamento humano sempre foco das ilustrações reticentes de uma sociedademasculina em seus valores. Reconfigura-se esteticamente entre jogos e segredos literários novértice de uma questão antiga e recondicionada. Com o propósito de desenhar mais ummosaico, as metáforas linguísticas entrecruzam dentro de um jogo bélico entre público eprivado para estabelecer os limites dicotômicos entre a mulher do espaço público e a mulherdo espaço privado. A abertura das fronteiras da literatura de Jorge Amado cria novos conceitos de lugar.Qual o limite? Qual a fronteira? A transposição local internalizada no imaginário conhecidocomo entrelugar e o sujeito feminino simbolizam a escrita de Jorge Amado que, ao mapearestes espaços e personagens, determina o interstício literário dialético aonde perambulou paracriar matrizes tradicionais revisitadas por ângulos que só olhares transgressores enxergam.Portanto, o entrelugar feminino pode referendar uma questão de ótica. A fronteira imaginária e a literatura associada configuram os interstícios alimentadossocial e historicamente. A arte pode refinar olhares, revisitar conceitos e levantar novasversões como espelho social. 16
  17. 17. 1.1 Entrelugar: configuração fronteiriça e literária A arquitetura do novo sujeito histórico emerge nos próprios limites da representação. (BHABHA, 1998) Fronteira e limite são aspectos distintos. Enquanto o segundo delimita, separa, oprimeiro abrange a área em derredor, um espaço privilegiado de encontro ligado à alteridade1.A fronteira pode ser encarada como barreira ou como ponto de comunicação, isto é, limite eponte. O termo pode até ter sido ressignificado ao longo da história, mas segundo Chaves(2006), na literatura e no imaginário, o conceito permaneceu e autores e leitores continuamtranseuntes nesse espaço “polissêmico da linguagem”. O processo diacrônico contra a opressão é recorrente na sociedade. Os limites que seestabelecem no processo vital, são demasiadamente adquiridos mediante uma exploraçãodecorrente desde o processo de colonização. Uma vez que o indivíduo não se reconhece nocontexto vigente, adquirem comportamentos plurais, o ser não se fixa em espaçosdeterminados, atribuem-se caracteres inexistentes à sua razão, são usurpados do seu próprio“ser”. Existir consiste em habituarem-se às demandas pré-estabelecidas. Com o avançosociocultural, as configurações identitárias modificam-se. Fronteiras estabelecem-se entre oespaço aspirado e/ou ocupado. Não obstante, o conceito de público refere-se às possibilidadesdos indivíduos de impor suas opiniões. Bhabha (1998, p.301) enuncia: O que está em questão é a natureza performativa das identidades diferenciais: a regulação e negociação daqueles espaços que estão continuamente, contingencialmente, se abrindo, retraçando as fronteiras, expondo os limites de qualquer alegação de um signo singular ou autônomo de diferença – seja ele de classe, gênero ou raça. Tais atribuições de diferenças sociais– onde a diferença não é nem um nem outro, mas algo além intervalar – encontram sua agencia em uma forma de um futuro em que1 A alteridade enquanto estado de ser outro, contrário à identidade, presente nos estudos culturais, é tratado porBakhtin quando da teoria do dialogismo.“A questão da alteridade (ing. otherness; fr. alterité; al. Anderssein)corre o risco de se tornar simplisticamente universal, no caso de considerarmos o Outro como uma categoriaonipresente, porque tudo está em oposição em relação a alguma coisa ou a alguém. É necessário delimitar aaplicação do conceito e, de preferência, pelo menos no que toca à literatura, considerá-lo apenas nas relaçõespoéticas, dramáticas e nas que se abrem nos textos literários” (CEIA,2010). Segundo Bahktin, o eu só existequando em diálogo com o outro. Alteridade, pois, poderia ser definida como percepção e aceitação do valor dooutro. A inteira relação entre identidade e diferença, uma interação de difícil comunicação. (Disponível em:<http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=541&Itemid=2>. Acessadoem: 23 de abril de 20110 17
  18. 18. o passado não é originário, em que o presente não é simplesmente transitório. Trata-se de um futuro intersticial, que emerge no entre-meio. Ocupação e/ou aspiração surgem muito sobre o lugar de certas identidades. Asdiferenças asseguram a multipluralidade cultural/identitária. Nessas contrações intersticiais deespaço e fronteiras evidenciam-se cristalizações. Na obra, a personagem Tereza Batista,rasura o conceito de identidade feminino contrapondo-se às convenções e ordens lineares pré-estabelecidas. A prisão social, do espaço restrito a tal identidade criou ora estágios deresignação, ora estágios de indignação. Nesse entremeio, Tereza flutua. Livra-se do cárcere dolar e reconfigura-se no espaço social indiferente à identidade cravada à revelia do serfeminino. Segundo Simone de Beauvoir (1980, p. 9), “Ninguém nasce mulher, torna-semulher”. Qualquer restrição a esta idéia descaracteriza a imagem construída internamente.Jorge Amado estabelece espaços transgredidos congruentes às suas personagens e o fazmediante comportamentos que abalam o pertencimento social pré-moldado. As mulheres, em Tereza Batista Cansada de Guerra, adentram na fronteira/limite.Tereza, a personagem, vive o processo de descontínua escala temporal: ora amásia, dona decasa, ora prostituta. O entrelugar marca-se como impotência identitária, não se firma nospapéis desempenhados. O estado performativo, ou seja, mulher do espaço privado, e/oumulher do espaço público permeia a narrativa, desencadeia-se um estado bélico, sucumbe aosdesejos e adéqua-se aos contextos sociais. O domínio público neutraliza Tereza Batista. Oentrecruzar de identidades caracteriza-se de modo a representar novos outros perfis contráriosà modalidade inerente ao ser. O lugar feminino consiste em estar entre as demandasopressoras, mesmo sem aceitá-las. Em Silviano Santiago (2000), verifica-se o processo de colonização, em diálogosobre os discursos construídos mediante as condições subjacentes que os latino-americanosvivenciaram em face das imposições norte-americanas. Os colonizados, no encontro comesses dois mundos, não se encontram em seu próprio lugar de origem. Assim, apresentam-secomo subservientes às imposições do colonizador. As fronteiras entre o lugar e a cultura primitiva são (re)estabelecidas; as formas de secomportar, vestir e pensar baseiam-se nas demandas dos colonizadores e senhores. “Peloextermínio constante dos traços originais, pelo esquecimento da origem, o fenômeno deduplicação se estabelece como a única regra válida de civilização” (SANTIAGO, 2000, p.14). A diversidade cultural estabelecida entre etnias e variados grupos sociais conduz àmiscigenação, mistura de raças e valores. Nessa união estabelece-se a mudança. Poder-se-ia 18
  19. 19. dizer que o entrelugar consiste no seu lugar. A nova ordem de fronteiras, o “perambular” porespaços, públicos e privados, que Tereza Batista experimentou, representa genuinamente amulher guerreira, com características peculiares. O entrecruzar de barreiras/limites, adiversidade de aparatos centrados no sujeito deslocado e os plurais espaços vivenciadosresultam na penetração da mulher no entrelugar. Não se marca em um unívoco papel. Desde pequena, ao ser vendida por seus tios ao capitão Justiniano Duarte da Costa,Tereza não mais se centrou em um ponto definitivo. Os variados comportamentos advinhamda sua condição. Indivíduo desprovido de carinho, amor, família, sozinha no mundo. Umavida de subtração. Torna-se mulher, símbolo dos recortes vividos. As personagens doromance assumem-se no desencontro de espaços, o entrelugar evidencia as guerras e ocansaço. Os resquícios culturais no processo de formação da identidade tornaram-se marcasconstantes destes autores sociais nas trincheiras de resistência. A infiltração cultural assegura caminhos distintos dos vividos pelo sujeito. O pensare comportar-se são produzidos descontinuamente; abolida a unificação dos papéis, invertem-se as regras contextuais, agora heterogêneas. O código linguístico passa por metamorfoses.Novas aquisições enriquecem-no. O desvio das normas transfigura os elementos até entãoimutáveis. Os indivíduos perambulam por espaços desconhecidos e contrários ao habitual.Configuram-se, perdidos e confusos no seu próprio eu, e acatam as ideias imperiais. Talreflexo mostra-se em Tereza Batista Cansada de Guerra. A personagem ao romper com o sistema opressor e privado assume-se enquantoprostituta. Ligada a uma classe marginalizada, marca-se com estereótipos excludentes. Suaimagem deturpa-se, entre o sonho e o dever. O passado difícil, de lutas, obstáculos e prisãoque Tereza enfrentou quando criança circunscreve-se no decorrer da narrativa. Tereza rompecom as fronteiras patriarcais, ao desvincular-se do sistema opressor de Justiniano, mas seaprisiona na esfera social. A prostituição, assumida como válvula de escape por Tereza,caracteriza-se como novos outros cárceres, uma vez que os homens têm acesso livre eimpositivo ao seu corpo. Os limites impostos às mulheres eram restritos. Romper com a configuraçãopredeterminada significava aprisionar-se. O entrelugar feminino personificado em TerezaBatista caracteriza a mulher emaranhada em espaços enclausurados. O lar, espaço privado,representa-se pela vida esvaecida e privação de desejos nos espaços sociais. Seucomportamento transpõe-se para outra ordem, adere diferentes condutas. A mulher, cujocomportamento é repudiado enquadra-se à convenção, mesmo parcialmente. Bhabha (1998,p.71) ratifica: “[...] a luta contra a opressão colonial não apenas muda a direção da história 19
  20. 20. ocidental, mas também contesta sua idéia (sic) historicista de tempo como um todoprogressivo e ordenado”. A condição alienante imposta pelo grupo imperial emerge comoestereótipo estruturador, mas o marginalizado recusa tal posicionamento, desloca-se do papelde subserviência, seu quadro de referência é transgredido, e seu campo de visão perturbado.Figura-se em um campo de visão contrário ao estabelecido. A figura representativa dessa perversão é a imagem do homem pós- iluminista amarrado a, e não confrontado por, seu reflexo escuro, a sombra do homem colonizado, que fende sua presença, distorce seu contorno, rompe suas fronteiras, repete sua ação à distância, perturba e divide o próprio tempo de seu ser (BHABHA, 1998, p. 75). Desde o início, a cultura ocidental apresenta os caminhos tortuosos dicotômicos entrecolonizador e colonizado, senhor e escravos, patriarca e servos. Estabelece-se uma culturaguerreira e, desencadeia-se a sede de poder. Submissão e marginalização se fazem presentesem decorrência do medo que impera em uma sociedade masculina, centrada numa políticaeconômica e social baseada nas necessidades das elites. Todavia, Dijk (2008, p. 47) afirmaque a ideologia dominante de um determinado período costuma ser a ideologiaespecificamente da classe elitizada. A relação entre público e privado apresenta formas controversas nas demarcaçõessociais. O agrupamento social no espaço público oferece caracteres individuais marcados pormelhores possibilidades de impor suas opiniões, com fácil difusão. Os excluídos, porém,contestam a situação e entram em uma guerra contra o poder público. Rompem com o sistemaopressor e objetivam a formação de sujeitos construtores de sua própria identidade,desvinculada, das estruturas de dominação patriarcal. É a representação dos desafios. Lima (apud COSTA e SARDENBERG, 2002, p. 52) salienta que na sociedadecontemporânea muitos têm sido os desafios enfrentados pelas mulheres quando de suainserção nos espaços públicos. Tais desafios conduzem essas mulheres a assumirem “posiçõesde sujeitos” ativos e com identidades plurais. As identidades permeadas de oscilaçõesfragmentam-se constantemente com o avanço do status social. Ferreira e Nascimento (2002,p. 59) postulam que gênero não representa um “estado interior” fixo, trata-se, outrossim, maisde uma performance que cada sujeito desempenha, diariamente, ou seja, submete-sedeterminadas funções rotineiras, para o reconhecimento da mulher, segundo os padrõessociais. 20
  21. 21. As práticas excludentes, permeadas nas relações sociais, ao serem transgredidas,como mecanismo de superação coletiva, transpondo-se para um papel contrário ao que de fatose exige pelo domínio público. O espaço imaginário entre público e privado decorre dasinterações sociais que, uma vez estabelecidas, o discurso dominante prevalece. O “ser”desloca-se por fronteiras, que o faz sentir-se estrangeiro dentro do seu próprio mundo. Assim,o sujeito estilhaça-se, o mundo intermediário é demarcação nos plurais espaços coexistentes. A força e coragem de Tereza lhe permitem autonomia e autodeterminação parapermear diferentes contextos. Seu caminhar firma-se enquanto sujeito crítico; como os índioscolonizados transgridem as normas estabelecidas. Logo, apresenta-se contrárias as normas eregras constituídas pela elite vigente.1.2 Jorge Mulher Amado: o interstício literário dialético As mulheres “valentes como homens” de Jorge Amado são exceções e consideradas heroínas. (CHALHOUB; PEREIRA, 1998, p.353) A literatura, representação do real, apresenta-se como forma de expressão artística deautores, para enfocar questões sociais, e/ou criticá-las, seguindo uma linha análoga, direta ouindiretamente, à realidade social. Jorge Amado permeia sua escrita com descrição nascentenas relações sociais condizentes à sua realidade. A mulher, personagem que ocupou e ocupapapel de fundamental importância na escrita amadiana, protagoniza papéis plurais,especificamente no que se refere à crítica às desigualdades sociais e fatores socioeconômicos.Chalhoub e Pereira (1998) dizem que Jorge Amado tenta conscientizar o povo por meio dosseus personagens. O populismo literário conferido pela carga de humor, linguagem exótica, capacidadede aproximar sua linguagem com a realidade humana, personagens que condizem com aimagem de uma época onde tudo seria possível, substitui a utopia marxista pela utopia damiscigenação, refletida nas personagens mulatas que exercem papel de prostitutas muito emvoga no Brasil. O eixo norteador de suas obras privilegia uma população ficcional de origemmarginal. Seu texto converge para o sabor dos contadores de história, marcando por espaçosmarítimos, paisagem urbana, bares, bordéis etc. Lugares que aproximam personagens euniverso. A verossimilhança, característica do verossímil, do que convence, do que parece 21
  22. 22. verdadeiro, permite uma interação leitor/escritor de forma a inseri-los na escrita ficcional,transpondo-os para as realidades cotidianas. Olivieri-Godet; Penjon (apud GUMÉRY-EMERY, 2004, p. 183) profere: “Amado, se dedica ao ato simultâneo de criar umapersonagem e uma sociedade, situando o romance numa época e num lugar”. A consagração de Jorge Amado como escritor, ao longo da história literária, deve-se,principalmente, à paixão pela classe feminina. As mulheres amadianas, mulatas belas,sensuais, com uma carga de erotismo enaltecido, distorcem o discurso hegemônico social e oqualificam como escritor de putas e mulheres sem caráter. Contudo, tais atributos ecaracterísticas femininas, desvinculam-se do preconceito referente ao papel feminino na suaobra. O autor se fundamenta na literatura do universo feminino para exprimir outros anseios,preocupações e para denunciar as injustiças sociais como um todo. A sua linguagem ganha sentido estereotipado por não seguir uma linha da gramáticanormativa, comum à liberdade artística. Nas suas obras, é constante a presença da mulher do“povo”, pobre, prostituta, amásia, pertencente às classes menos favorecidas. As palavras docotidiano desenham esses perfis femininos desconstrutores de ideais. Jorge mulher Amadoapresenta-as e descreve as histórias de sofrimento, humilhação, preconceito, perseguição eexclusão social, que circunscrevem a formação da identidade da mulher. Tereza, uma dasmulheres aparece humanizada, encara a prostituição como forma de sobrevivência, sem,contudo, dissociar-se dos atributos valorativos. A propriedade com que Amado escrevia sobreestas personagens prostitutas e excluídas advêm da permanência em casas de prostituição.Suas experiências são refletidas no texto. A mulher prostituta, figurativamente, referenciacaracterísticas eróticas, mas com seus valores reforçados. A voz de Tereza é um subterfúgio à crítica social, uma referência a ele atribuída,porque desse posicionamento, direciona o olhar para a margem e focaliza outro grupo silenteda história. A personagem, em análise, ressignifica e esclarece: a mulher Amado é, acima detudo, um ser social em busca de espaço. A sociedade masculina é criticada, sob umalinguagem “descuidada”, a que representa a péssima situação dos pobres, e, sobretudo, odescaso político diante de reais dificuldades, sem ao menos, comprometer-se com a realidade.Verdades ou mentiras não importam. A narrativa faz abrir focos de luz sobre sujeitos plenosde histórias e construções de um lugar. As marcas de JorgemulherAmado estão impregnadas no decorrer da sua histórialiterária.Visíveis estão os sinais do amor de Amado por personagens femininas, um amor queultrapassa questões estéticas e reflete a formação de sujeitos protagonistas impassíveis em 22
  23. 23. relação às imposições patriarcais, mas que travam luta constante e progressiva contra asamarras sociais. O atrativo físico associa-se metaforicamente à beleza interior. A mulher,personagem de Amado, manifesta uma mobilização social. A mulher apática, submissa, passaà subvertida, transgressora. A NÃO aceitação aos modelos vigentes permeia a narrativa doromance Tereza Batista Cansada de Guerra. Personagens femininas que realizam as mesmas atividades que os homens, são consideradas “valentes” como homens. Divididas em um mundo masculino, e outro feminino, os romances de Jorge Amado, aceitam que algumas mulheres transgridem essa divisão, entram para um mundo tipicamente masculino (CHALHOUB; PEREIRA, 1998, p. 353). A denúncia envolve suas personagens, como a quebra das máscaras das classesmédia e alta. Contrária a ideia de mulher apática e passiva diante da problemática social, ofeminino amadiano firma-se com força, suficientemente eficaz para encarar desafios. Adentracampos de “batalha”, vivifica experiências massacrantes, frente à superioridade masculina.Entretanto, os paradigmas estabelecidos são quebrados, constitui-se como “chefe”, construtordo seu próprio destino. A mulher, na literatura de Jorge Amado, personagem principal, protagoniza fatoscorriqueiros, descriminados socialmente, apropria-se da sensualidade, erotismo, específicos àmulher brasileira, particularmente, à baiana e retoma a vida degradante, face às críticassociais. Neste sentido, Olivieri-Godet; Penjon (apud DUARTE, 2004, p. 173) afirma que: O romance de Amado realiza, portanto, uma íntima associação entre desenvolvimento econômico, social e relações de gênero, através de suas mulheres ficcionais. Ele trabalha sempre com figuras estereotipadas, presente no imaginário masculino, mas o mecanismo de relacionamento que estabelece entre elas consegue quebrar a fixidez dos estereótipos. A mulher vulgarizada apresenta-se como técnica narrativa que exprime força,coragem e audácia em face dos conflitos sociais vigentes. A forma de expressão evidenciadapela metáfora de “vulgaridade” apresenta o mundo áspero, conflituoso e de fortessofrimentos, mas que nunca desiste de ”ser” e “viver” com autonomia, audácia, perseverança.A referência estereotipada de Jorge Amado à mulher denota a necessidade de “mudança”, no 23
  24. 24. que tangem os discursos marginalizantes e discriminatórios. O autor configura personagensem espaços amplos e significativos e permanecem no interstício, não se fixam em um único eexclusivo olhar de interpretação, perambulam nos variados espaços imaginários. O erotismoapresentado como carga de “inquietação”, marca a luta contra a pluralidade opressora por queperpassa o sujeito feminino na sociedade. Abre-se um espaço à leitura de um mundo onde elesobreponha à imagem da mulher sedutora, pecadora, vulgar e infiel com uma mulher forte,corajosa, altruísta e guerreira. Desse modo, na obra Tereza Batista Cansada de Guerra, o escritor apresenta apersonagem principal como uma mulher que desde criança sente na pele o dissabor da dorfísica e psicológica; o sofrimento lhe “seria” inerente á vida, mas não o foi. Mulher de força,coragem e garra driblou todos os obstáculos, sem se queixar nem tão pouco pensar emdesistir. Marcada com ferro e brasa, viveu-os e sobreviveu. Tereza carregou fardo penoso, poucos machos aguentariam (sic) com o peso que ela aguentou (sic) e foi em frente, ninguém a viu se queixando, pedindo piedade [...] Posso lhe confiar irmãozinho para começo de vida a de Tereza Batista foi começo e tanto; as penas que em menina penou bem poucos no inferno penaram; órfã de pai e mãe, sozinha no mundo - sozinha contra Deus e o diabo, dela nem mesmo Deus teve lástima. Pois a danada da menina assim sozinha atravessou o pior pedaço, o mais ruim dos ruins, e saiu sã e salva do outro lado, um riso na boca (AMADO, 1972, p. 8-9). Tereza não se encontra no seu lugar de origem, o interstício, coexiste. Ora, o lugarentre “dever ser” e “querer ser” estão imbricados. No processo de formação, constantesformas opressoras impedem-na de assumir características próprias. Deve-se reagir asdemandas impostas, sem, contudo aceitá-las. Jorge mulher amado, descreve uma TerezaMULHER, com características singulares. O sofrimento inerente ao seu nascimentoapresenta-a como a mulher que não amortece em face de sofrimentos e obstáculos vitais.Constrói-se, a mulher Amado: mulher militante. Ações bélicas projetam-se em consequência dessas constantes formas opressivas.Uma vez estabelecidas as “prisões”, a mulher de Jorge Amado, condicionada a uma vida desofrimento, converte-as. Enraizadas na audácia, na força efervescente. Transpõe o estereótipode mulher “dependente, dócil, flexível” para a perspicácia de uma heroína. Os costumes, tipossociais, normas são rompidos e o interstício envolve-as na busca por seus próprios sentidosidentitários. 24
  25. 25. 1.3 Entrelugar feminino? Uma questão de ótica Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. (SIMONE DE BEAUVOIR, 1980, p.9) A estrutura social está em contínuo processo de mudança e a mulher se envolvenessa diacrônica transformação social. O sujeito feminino se identifica enquanto indivíduocoadjuvante e/ou protagonista, em variadas circunstâncias contextuais que exprimem ecaracterizam o “jeito mulher de ser”. A mulher se inseriu de forma significativa na formaçãoda cultura ocidental, suas lutas, suas conquistas decorrem da coragem de se adentrarem nosentrelugares descontínuos aos recomendados pela coletividade. Assim, no processo deformação, apresenta-se fragmentada, mediante as constantes barreiras e obstáculostranspostos. O discurso falocêntrico midiatizou suas experiências, triunfaram assim seusobjetivos, moldando comportamentos, segundo suas necessidades individuais. A mulher,portanto, priva-se de autonomia e vive restrita diante dos padrões estabelecidos como“verdadeiros” e fundamentais neste jogo de soberania do homem. Ser homem e ser mulher é uma construção engendrada a partir da história de cada um e de seus condicionantes sociais, isto é, o processo de construção e reprodução de estereótipos a que esteve submetido ou circunstanciado nas principais etapas de formação (ALMEIDA, 2010, p. 22). No Romance Tereza Batista Cansada de Guerra, o processo de formação identitáriada personagem Tereza Batista centra-se em maus tratos, sofrimento, humilhação einicialmente, a consequente obediência. Tereza rompe não aceita as imposições e violênciaspatriarcais, enfrenta o sistema opressor, mas suas forças esvaírem-se. Mas porque essa filha-da-puta não chora? [...] Tereza apóia a mão no piso, se levanta num salto de moleque, novamente erguida no canto da parede. O capitão perde a cabeça, vou te ensinar, cachorra! Dá um passo, recebe o pé de Tereza nos ovos, dor mais sem jeito. [...] Tereza rola semimorta, o vestido empapado de sangue, o capitão continua a bater, com o capitão justo ninguém se atreve, quem se atreve apanha.[...] Justo mete a mão, rasga-lhe o vestido de alto a baixo, sangue no vestido, sangue na carne dura, tensa.Toca o bico dos peitos, ainda não são peitos, são 25
  26. 26. formas nascentes, menina por demais verde, ao gosto do capitão. Mas a demônia cruza as pernas, tranca as coxas, onde encontra idéia e decisão? [...] Surra de criar bicho, de arriar os quartos, só faltou mesmo matar, filha da puta rebelde [...] (AMADO, 1972, p. 93-95). A mulher aparece na história pelo olhar masculino, seu comportamento submetido àvigilância de toda a sociedade, a qual centrada no poder masculino sempre fez reverência aohomem. Por meio das suas práticas, moldaram comportamentos, segundo suas necessidadesindividuais. A mulher priva-se de autonomia, pois, vive restrita aos padrões estabelecidoscomo “corretos” e fundamentais, ditados pela soberania do homem. [...] o triunfo do patriarcado não foi nem é um acaso, nem resultado de uma revolução violenta. Desde a origem da humanidade, o privilégio biológico permitiu aos homens afirmarem-se como sujeitos soberanos. Condenada a desempenhar o papel de outro, a mulher estava também condenada a possuir apenas uma força precária: ídolo ou serva (MOTA, SARDENBERG, GOMES, 2000, p. 67). A serva Tereza Batista, assim considerada, pelo papel desempenado ao longo danarrativa, ainda no poderio de Justiniano, vive momentos de escravidão, humilhação edesespero. Todo e qualquer pensamento/ação, deveria está sob controle do patriarca. A força ea coragem de Tereza distanciavam-se das suas vontades. Priva-se de autonomia vivesubmissa. Obediência forçada foi à palavra que aprendeu a praticar no seu processo deformação identitária. Nem uma palavra de carinho, uma sombra de ternura, um agrado, uma carícia-apenas maior assiduidade, furor de posse. Acontecia-lhe, nas horas mais extravagantes, fazer um sinal a Tereza, para cama, depressa! Suspender-lhe a saia, despejar-se, inadiável necessidade, manda-lá de volta ao trabalho. [...] Submissa, sim, de total obediência, correndo para servi-lo, executando ordens e caprichos sem um pio; assim agindo para não apanhar, para evitar castigo, a palmatória, o cinto, a taca de couro cru. Ele ordenava, ela cumpria (AMADO, 1972, p. 101-107). As mulheres são submetidas a uma reprodução de comportamentos centradosprimordialmente na obediência. Reproduz desde pequenas, valores culturalmente permeados, 26
  27. 27. nos contextos sociais vigentes, desempenhando papéis exclusivamente centrados na posiçãode mulher, voltada para o casamento, para a vida doméstica e familiar e, para melhor educaros filhos, ou seja, para serem perfeitas procriadoras. Seleção estreita de possibilidades, suasatividades se reduzem às ocupações técnicas apropriadas à sua condição. Maria AtelaOrsini (apud LUCENA-GHILARDI, 2003, p. 83) postula: “a mulher sódeveria sair de casa três vezes: a batizar, a casar e a enterrar”. A dura realidade permeada naformação cultural e pessoal das mulheres prolongada por muito tempo determina as formas deprisão estabelecidas que as limitasse de participar da esfera pública. A vida das mulheres resumia-se ao silêncio e ausência de ação. Socialmente, eramvistas como inferiores, subalternas, não passando de seres insignificantes, tudo lhes eramproibido. Pela ótica patriarcal social, a mulher representava castidade e resignação. Asconvenções condenavam-na a novos horizontes. O avanço tecnológico ocorrido nas décadasde 30 e 40 propiciou-lhes o contato com aparelhos eletrônicos informativos. Assim, aparticipação da mulher na sociedade começa a surgir. Os setores conservadores já não detêmpoder absoluto, a mulher participa da sua própria construção identitária. Lucena-ghilardi,(2003, p. 53) afirma sobre a necessidade de romper barreiras. Para tanto, é preciso refletirsobre a condição feminina para acelerar o processo de autoconhecimento e descoberta. Aindaacrescenta que: O sexo frágil, em qualquer profissão, rompe com o papel de somente procriadora e reproduz, transformando, sendo capaz de possuir vontade, empreendimento e ação. Cumpre missão de sujeito e cidadã, emergindo da invisibilidade para o reconhecimento da área pública. Vence barreiras de preconceitos, pressões e resistências, construindo um novo papel sociocultural (2001, p. 580). Tereza Batista, mulher de força inigualável, apresenta-se como reprodutora dosistema dominador patriarcal em momentos de guerra, mas, desvincula-se das normas e regraspredeterminadas. Transgride a ordem até então silenciada e rompe com os padrões horizontaisde obediência. Configura-se com uma contraopinião às ideologias, a vários fatores de ordemandrocêntrica. Cansada de obedecer às demandas de Justiniano, desafia-o mais uma vez,rompe a barreira de “medo”, imposta, o trai com o personagem Daniel. Posteriormente, ao sersurpreendida ao lado do amante, em sua defesa, mata-o. A coragem, inerente à personagem,adormecida, se desperta ressurge a força, audácia e bravura da mulher face à opressão. 27
  28. 28. Veio mais a frente Justiniano na intenção de agarrar a maldita, sujeitá-la na cama, romper o eterno cabaço, penetrar a estreita fenda, rasgar-lhe as entranhas, com este ferro marcá-la lá dentro, apertar-lhe o pescoço, na hora do gozo matá-la; para fazer-se curvou-se. Mergulhando por baixo, Tereza Batista sangrou o capitão com a faca de cortar carne-seca (AMADO, 1972, p. 159). Os desafios, enfrentados pelas mulheres, exemplifica a aquisição de uma novaimagem feminina. Os modelos identitários apresentados no passado transpõem-se. Osindivíduos se deslocam constantemente, desempenham papéis sociais plurais. A mulher sobrea ótica feminina representa força política, determinação e coragem. Lima (apud COSTA eSARDENBERG, 2002, p. 61) elucida que: “Diante do conflito entre o público e privado:Todo esse quadro, pois, implica o deslocamento de identidades não mais representativasdaqueles modelos tradicionais”. Os modelos e posturas anteriormente oferecidos deslocam-se. Os lugares entreespaços plurais exemplificam a oposição à imagem unívoca que lhes foi oferecida e atribuída:“obediente mulher do lar”. Simoneti (1998, p. 52apud LUCENA-GHILARDI, 2003, p. 123)sintetiza proferindo: “A mulher está destruindo silenciosamente, o mito de desigualdade, semque ninguém precise puxá-la pelo braço. Ela já sabe andar sozinha”. 28
  29. 29. 2 IDENTIDADE, MULHER E METÁFORA: a dialética imagem jorgeamadiana A identidade de uma pessoa não se encontra no comportamento nem por mais importante que seja nas reações dos outros, mas na capacidade de manter em andamento uma narrativa particular (GIDDENS, 2002, p. 55). O perfil feminino de identidade marcara-se ideologicamente pelo desejo masculinode complemento, isto é, tudo aquilo que não lhe cabia atribuía-se à mulher como um ser quevivia socialmente para facilitar a vida do homem. Essa visão estereotipada de mulher criarasérios inconformismos na classe, porque papéis e funções sociais são definidoshistoricamente, mas biologicamente, entende uma questão de força e de sentimentos, nãonecessariamente de competência. A identidade organiza-se pelo contato entre os atoressociais. O processo identitário feminino constitui-se ao longo da história, por caracteressubjacentes à submissão e à subserviência. A exploração, fator diacrônico no espaçofeminino, sobrecarregou-se de guerras patriarcais. A narrativa Tereza Batista Cansada de Guerra articula-se no eixo ou mesmo entrepolos do entrelugar: opressor e oprimido, patriarcal e transgressor. A identidade dapersonagem principal articula-se no movimento pendular que, de um lado para outro, recortaposições, desloca-se ideologicamente e transmuta-se nos espaços bélicos, negando erevertendo ideologicamente os propósitos de mulher parasita. Os deslocamentos e pluralidade de representações e papéis sociais femininosretratam uma herança nada honrosa à história. O discurso ideológico condiz comcaracterísticas peculiares à identidade reservada à mulher. Se fatores sociais determinam ecaracterizam o indivíduo, a construção imagético-imaginária, engendrada pelo ideológicohumanitário patriarcalista, fotografou uma imagem de mulher sem movimento. A mulher era admirada como objetos de prazer, pelos códigos de domínio. Ocomportamento da mulher desenhava-se, pois, segundo o discurso masculino, cuja demandaimperava sobre elas; “o ser e agir” pautava-se em obedecer ao que lhes fora determinado. Omovimento automatizado repetia-se às conveniências, um dia desequilibradas por identidadesredefinidas. A identidade é constantemente narrada em obras literárias; focos de discussõespolissêmicas e ambíguas permeiam a trajetória de imagens femininas com marcas do olhardominante masculino. O jogo imagético imaginário do discurso hegemônico opressor a 29
  30. 30. posiciona como subservientes, portanto, impossibilitadas de lutar pela aquisição de umaidentidade livre de arquétipos modeladores. A mulher metaforiza-se de artifícios defensivos,e outras visões se estabelecem em decorrência da ruptura de pensamentos e de suamaterialização de atitudes. Nesse contexto, novas identidades surgem. A mulher assume-se enquanto atorprincipal na reelaboração comportamental. Absorve as ideologias masculinas, por vezesimpostas, porém, motivadas a mudar o quadro de dominação, não se privam em posiçõesindicadas, mas regem sua própria história, marcada por constantes lutas, desafios e cansaços. A identidade coletiva assumida por mulheres “masculinizadas”, ou seja, mulherescom atitudes diversificadas que lutam com bravura, resistência, audácia contra as demandasimpostas pelo domínio opressor, permite-lhes exercer funções outrora vistas como próprias aouniverso masculino. Essa prática não torna a mulher um sujeito pertencente a outro gênero,porque não se trata de gênero as práticas sociais; o ser mulher está impregnado na essência enão nas funções desempenhadas socialmente. Não são nem agem “como homens”, nem tampouco praticam exclusivamente asdemandas masculinas, mas, se sabe que na ideologia hegemônica social o sexo masculinoassume papel de bravo, forte, resistente, dominador e batalhador, a mulher se apodera dessesatrativos e reinventa a construção identitária. Um choque às convenções. Nesta perspectiva, o escritor Jorge Amado utiliza uma linguagem metaforizada erepresenta a força inerente à personagem Tereza Batista. A narrativa desencadeia uma análisede mulher como objeto transformador, ativa, militante e, acima de tudo, revolucionária.Lutadora, guerreira rompe os padrões lineares. Constitui-se como mulher de fibra que resisteàs nuanças e injustiças sociais. O processo metafórico fortifica a personalidade de Tereza. Os valores sincréticos religiosos, considerados reflexos de fortaleza na obra,reivindica a personagem sua força e destemor desenha-se a imagem de mulher ativa, guerreirae revolucionária. Tereza Batista apresenta uma metamorfose de papéis atribuídos e rompidosnos quais a mulher esteve e está substanciada. A metáfora de mulher entremeia por espaçoscoletivos, dialoga com o discurso hegemônico centrado no poder masculino absoluto eobsoleto e contrapõe as ideias, reveste-se de força, coragem e audácia, e luta por umaidentidade metafórica onde uma nova ordem e/ou forma de perceber as relações identitáriassão estabelecidas. Tereza rompe o discurso linear. Metaforiza-se com força para transpor aideia de mulher obediente e passiva e construir-se mulher com sua identidade. 30
  31. 31. 2.1 Identidade plural e coletiva: desenhos imagético-imaginários ou construção cultural? Identidade é o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, os quais prevalecem sobre outras fontes de significados (CASTELLS, 1999, p. 22). A formação de gênero deve-se a fatores históricos. O homem, um subterfúgiosupremo na sociedade, impõe regras, reprime as mulheres de se situarem livremente noespaço público, fora do lar. Podadas de ações outras, algumas mulheres acatam as doutrinasfamiliares. Reproduzem as múltiplas influências e instâncias moldadoras. Os patriarcas detinham o poder supremo e exclusivo por excelência. As mulheresocupavam lugar secundário, marginalizado. Respeito e obediência lhes eram impostos. Suasoportunidades eram restritas, toda e qualquer forma de não aceitação, e/ou recusa ásimposições marcavam-se sob violentas repressões e prisão. Bauer (2001, p. 12) afirma que amulher banida, ideologicamente, da história e pela força silenciada no cotidiano social,sempre teve que lutar por seus mais elementares direitos; e quando isto ocorria, por exemplo,na Idade Média, era excluída do convívio social ou até mesmo perseguida e queimada vivacomo bruxa. Subtraída dos seus direitos, privada de autonomia, coloca-se na mira do poderpatriarcal. Atitude contrária às estabelecidos engendrava-as enfadadas por cumprir obrigaçõesnão debatidas, mas impostas à sua revelia, sem ao menos a chance de manifestar-se. Asmulheres, submetidas a um modelo de comportamentos centrados primordialmente nasubordinação, enredam-se em tais ideologias e reproduzem, desde pequenas, valoresculturalmente definidos nos contextos sociais vigentes. Formada sob o olhar do outro, amulher nega-se enquanto mulher de ação. Não obstante, o processo de andamento identitário,assume várias posições de sujeito. Surgem significativas articulações. Os estágios de fixidezcomportamental são característicos, contudo, nova ordem moldadora é formadaestrategicamente. Hall (2006, p. 12-13) profere que: A identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpretados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades 31
  32. 32. contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Nesse sentido, no romance corpus do trabalho, as personagens femininasapresentam-se sob óticas distintas. Dóris, uma jovem recatada, com arquétipos de mulherfrágil, dócil e submissa,casa-se com Justiniano Duarte da Costa, homem patriarcalista. Amulher submissa da sociedade feudal, ganha destaque. Nesse período, a mulher visualizava ohomem (rei) como representante de Deus, o poder absoluto concentrava exclusivamente emsuas mãos. Dóris enfrentou as críticas sociais decorrente da diferença de idade e assume-seenquanto serva para satisfazer as demandas do patriarca. A mulher submissa, fiel e escravaganha enfoque. Esta deveria reverenciá-lo. Seu papel social restringia-se a seu “senhor”.Espancada, humilhada, aceita a condição imposta sem, hesitar. “Dóris esposa apaixonada ehumilde aos pés do marido uma escrava. Não houve antes, não haverá depois, esposa maisdevotada e ardente” (AMADO, 1972, p. 87). Os ideários culturalmente construídos devem-se, principalmente, à personalidade eàs relações contextuais, nas quais o indivíduo esteve/está substanciado. Castells (1942 p. 169)afirma que os relacionamentos interpessoais e, consequentemente, a personalidade, tambémsão marcados pela dominação e violência que tem sua origem na cultura e instituições dopatriarcalismo. Por volta do século XIV, a mulher foi excluída de atividades na esfera pública,isso se deve ao fato de o poder masculino difundir suas ideologias e consolidar-sesocialmente. Em decorrência da modificação na esfera social, o poder supremo veiculado aohomem começou a enfraquecer. A mulher sepultada de direitos, restritas a um único espaçosegmenta-se em atividades de cunho diferenciado, luta por transformação. Sua inserção emlutas e movimentos deve-se ao desejo de ajustarem-se à vida pública e se adentrarem nasdiferentes áreas contextuais. Movimentos começam a surgir, dentre eles o feminismo que visa uma igualdadeentre os sexos. A mulher que outrora se apresentava submissa reverte-se. Vive um processode grandes alterações comportamentais. Criam trincheiras de resistência. Adentram nomercado de trabalho, ganham autonomias, transformam a realidade vigente. No jogo bélicoconquistam o direito do voto e, mesmo considerada desigual, menor, insere-se nas variadasesferas sociais. Tereza, ao assumir-se enquanto sujeito construtor de sua própria identidade, vivificaas mazelas sociais e sofre degradantes consequências. Os “eus” identitários construídos por 32
  33. 33. Tereza fragmentam-se. Porém, congruem para dimensões semelhantes. Ao abraçar os espaçospúblicos, abre-se para a contestação.Pode-se afirmar que Tereza Batista, ao se submeter àsconstantes batalhas e guerras, contra o poder autoritário patriarcal, torna-a consciente doaniquilamento pela qual esteve envolta. E com isso, reformula suas experiências. Diverge docomportamento submisso e subserviente assumido por Dóris. Manifesta-se culturalmentecomo mulher, abolindo a dicotomia homem/mulher. Opõe-se a padronização de dominaçãolinear imposta. Castells (1942, p.232) confirma: O objetivo da mulher é conquistar autonomia cultural como base para resistência, inspirando assim reivindicações femininas fundamentadas em valores alternativos, tais como a não competição, a não-violência, a cooperação e a multidimensionalidade da experiência humana, conduzindo à nova identidade e cultura femininas capazes de induzir a transformação cultural da sociedade humana. Tereza, aversa às injustiças – especificamente, quando envolvia a força falocêntricasobre os menos favorecidos, mulheres que eram espancadas por homens, ou financeira (ospobres em geral) –não tinha medo. Determinada, utilizava sua força altruísta em prol deoutrem. Firmou-se como professora para ajudar Joana das Folhas a recuperar o sítio das mãosde um mau caráter. Apanhou ao defender mulher espancada pelo esposo; engajou-se na lutacontra uma epidemia denominada peste negra que avassalou Buquim; militou na greve dosbalaios, a qual consistia em determinar o fechamento dos prostíbulos, como resposta aodescaso social à classe das prostitutas. A quebra de tabus é ponto de partida para novas oportunidades sociais. Tereza viveum processo metamórfico. Os contextos formadores de cultura com que a personagem estevesubstanciada confluíram para uma formação feminina ainda mais fragmentada. O serfeminino caracteriza-se enquanto protagonista militante e construtor da sua própriaidentidade, e o homem, visto e aceito como principal provedor da prole, sente-se ameaçadocom a inserção da mulher em espaços até então únicos e exclusivos aos seus interesses. Fazer parte da categoria feminina transgressora significava romper com os códigospreestabelecidos. Ser e viver segundo as próprias ideologias trouxe constantes consequênciaspara as mulheres. A busca por igualdade tentativa de inserção no espaço público asdiferenciava do modelo previamente articulado pela sociedade. Ser igual, possuir direitos semelhantes aos da classe masculina era e é o principalobjetivo das feministas no decorrer da história. Atitudes que antes representava afronta aos 33
  34. 34. poderes vigentes tornaram-se as principais “armas” no jogo bélico. A mulher que viveu pormuito tempo sob o viés marginalizado, relegada a segundo plano, estereótipo consolidado aolongo do tempo, esforça-se para se manter forte nas lutas e imposições masculinassedimentadas como protagonista da história. Assim, a identidade, imagem e imaginário de Tereza Batista consolidam-se. Semidentidade estável e unificada, torna-se composta de inquietações que se multiplicam noconfronto bélico. Nesse contexto de lutas no qual se coloca Tereza Batista, novas identidadespluralizam-se, reflexões e ações estabelecem-se. A imagem desenhada e tatuada de Terezaincrustou-se no imaginário social. Da Tereza Amadiana, constroem-se várias outras Terezas sociais que, desprezam asconvenções culturais e conquistam dignamente sua identidade e passam de mulher objeto aobjeto mulher.2.2 Mulher objeto ou objeto mulher: de um extremo a outro na escrita jorgeamadiana Ao “fazer” a vida cotidiana, todos os seres humanos “respondem” a questão do ser – e o fazem pela natureza das atividades a que o eu se dedica (GIDDENS, 2002, p. 50). Jorge Amado, escritor baiano nascido em 10 de agosto de 1912, em uma fazendasituada no sul do estado da Bahia, falecido na cidade de salvador, a 07 de agosto de 2001,ingressou na história literária ainda jovem, aos 19 anos, com o romance O país do Carnaval.A participação na política o colocou no centro dos acontecimentos históricos maisdeterminantes de grande parte do mundo. Com uma história de empreendimento e realizações, o sucesso das suas obras éincontestável, trata-se do escritor mais lido do país, aborda temáticas diversas. Somados 31livros publicados, centra-se no meio o telúrico, o cais de salvador, os amores dissabores deuma população à margem da sociedade. Debruça-sesobre a realidade de mestiços, pobres,negros e também imagens femininas. Respalda-se nos costumes da sociedade baiana, em épocas distintas, com umalinguagem popular. Escreve com habilidade e transita as diversas camadas sociais; seuspersonagens exemplificam o tom crítico expresso por emoções intensas. Acompanhado pelacriticidade, Amado traz em suas obras um tom irônico com uma dose elevada de humor. Seu 34
  35. 35. objetivo no decorrer da sua trajetória de literato não foi a aceitação social, mas a demarcaçãode uma escrita profunda, significativa; uma correspondência biunívoca entre fatos reais efictícios. Jorge Amado, dessa forma, mantém um diálogo entre autor, obra (personagens),leitor. Sua linguagem rompe fronteiras de um extremo a outro, atravessa os limites temporaise se atualiza a cada leitura. Com estilo telúrico, Amado aborda, nos seus textos, problemas regionais com umlargo fundamento no povo, propriamente no povo baiano. Sua literatura deveria mergulhar nocontexto e na vida de todos os dias, está respaldada, exclusivamente, na realidade do povo,não com uma criação puramente estético-abstrata. Suas produções servem de marco para omanifesto de temáticas ainda ocultas. Na sua escrita não circunscreve caminhos e ambientesfixos, seus personagens circulam uma variedade de espaços e realizam saltoscomportamentais. Neste sentido, Pereira (apud OLIVIERI-GODET; PENJON, 2004, p. 146)afirma que: “Jorge Amado é, antes de tudo, um escritor comprometido com o burburinho daexistência, com o vai-e-vem das pessoas simples no contato carnal com a vida”. Em TerezaBatista Cansada de Guerra, os acontecimentos cotidianos são retratados e as estratégias deresistências asseguradas pela protagonista Tereza ampliam, pois, a ideia de bravura de umaclasse social marginalizada socialmente. Duarte (apud OLIVIERI-GODET; PENJON, 2004,p. 167) diz que “no romance de Jorge Amado, temos, portanto, com muita competência, umaamostra de como a mulher passa de objeto a sujeição da própria história, e também doprocesso cultural da construção do conceito gênero”. Emery-Guméry (apud OLIVIERI-GODET; PENJON, 2004, p. 177) confirma: Para Jorge Amado elas são o início de uma cultura nova e original. Nelas o Brasil terá que se firmar para construir sua sociedade. E o romancista dá-lhes todas as qualidades: todas são belíssimas e possuem uma extraordinária força de vida que fez com que sobrevivessem num mundo ideologicamente branco e judaico-cristão. Todas têm uma generosidade, uma bondade e até um altruísmo que às vezes as leva até a abnegação. Jorge Amado prescinde à mulher caracteres únicos, reveste-a de uma significaçãoorientada para situações diversas. A imagem feminina bifurcada ao longo da história desloca-se, ganha ênfase a mulher com representativos de força, autonomia, perspicácia e ousadia.Representada como objeto de satisfação, ser mulher condizia em ser e viver para o outro. Avisão que Jorge Amado atribui à mulher funda-a em contextos significativos. Ela rompe, 35
  36. 36. quebra e transgride com o ditado socialmente, sem, portanto, desvincular-se dascaracterísticas femininas valorativas. Assumir nova postura amedrontou o público do cenário opressor. Ameaçados, comatitudes revolucionárias, os homens principiam a presenciar novos comportamentos; ascortinas sociais estavam abrindo-se para a classe privada de ser/agir e viver segundo seuspróprios conceitos. Configura-se a passagem do privado para o público, nos jogos bélicosmarcados por cansaços e desafios. A questão fundante da luta feminista consiste no retirar-se das visões atribuídas à suaidentidade. Viver sobre o fundamento masculino, estar diante das suas decisões sem, contudo,criticar, debater, contradizer, oprimia-as. A mulher se fundamenta em suas próprias ideias.Incluir-se na produção social modifica o seu mundo individual e o social como um todo.Avaliando as lutas e conquistas femininas, o escritor Jorge Amado, circunscreve a históriafeminina marcada pela passagem da mulher enquanto simples objeto de descarte para mulhertransgressora. A beleza exuberante de Tereza direciona-a aos estereótipos de mulher sem valor,para uma pobre bonita para quem lhe cabia simplesmente a posição de amásia. Contudo,Tereza não se submete às demandas exigidas e, mesmo em face de desafios constantes e luta,consegue desmistificar essa ideia.Emery-Guméry(apud OLIVIERI-GODET; PENJON, 2004,p. 177) afirma que “Jorge Amado tenta dar um papel à mulher de cor na sociedade brasileira,pois ele acha que ela é o motor dessa sociedade” Assinala, portanto, a personagem Tereza Batista. Os discursos hegemônicosmasculinos imperam e controlam as ações femininas. A imagem da mulher ofusca-se diantedos esquemas tradicionais patriarcalistas. Porém, Jorge Amado personifica em Tereza Batista,uma figura de mulher diferente capaz de mover-se em rumos contrários aos delimitados. Essa mulher, enquanto personagem descrita como objeto de satisfação masculina –“Fêmea é para ser possuída e acabou-se” (AMADO, 1972, p. 106) –, reconstitui-se. Eleapresenta e reúne atrativos superiores aos simples aspectos físicos. Por vezes, os desejosfemininos são desvalorizados e elas permanecem no entrelugar: desejam aquisiçãodiferenciada socialmente e, não possuindo, adéqua-se ao cárcere. No romance, o personagem Justiniano, detentor de poder aquisitivo, patriarca e“senhor” controlava as decisões e ações femininas. À mulher cabia a obediência. Terezavivenciara situações semelhantes, sem opção de escolha, torna-se vulnerável às demandasdominantes; sua identidade se produz como um processo de mercadoria. 36
  37. 37. É preciso lhe ensinar a temer, a respeitar o amo e senhor que a comprou a quem de direito, é seu dono. Precisa ensiná-la o medo, educá-la [...]. Aprenda a me respeitar desgraçada, aprenda a me obedecer, quando digo abra a perna é para abrir com honra e satisfação (AMADO, 1972, p. 93). A mulher restrita a objeto de desejo e satisfação sexual sofre constantes desafios.Desenhos imaginários mapeiam as explorações femininas. Apresentada como escrava, serva,advém dos contextos que produziam e reproduziam as condições que lhe relegavam uma vidaservil. As bases hierárquicas sobrepostas às suas demandas constituem as identidadesfemininas a cada realidade aplicada. O homem como produtor de bens aquisitivos poderiainferir às mulheres atividades que lhes convinham e que “melhor” se adequavam ao perfilfeminino, isso de acordo com suas próprias ideologias. Domésticas, balconistas, professoras...Enfim, atividades que se distanciavam da realidade masculina. A mulher que desenvolvia apenas atividades do lar arca com estas e demais tarefasapresentadas e circunstanciadas no contexto social, à medida que as mulheres adentravam noespaço público antes inimaginável. As mutações sociais modificavam concomitantemente opensamento humano. Com certas restrições à mulher “objeto” como estereótipo de passiva,escrava deixariam, pois, de existir. Insere-se neste ínterim, a mulher retratada por JorgeAmado, com descrição de lutadora revolucionária. Tereza Batista representa maciçamente aluta contra os maus tratos e humilhações. Penetra mundos polissêmicos de dissabores vitais;contudo, a audácia e coragem inerentes à sua vida sobrepõem-se aos mandos, desmandos detoda ordem patriarcal. Em vez de chorar, Tereza Batista responde com um pontapé: treinada a brigas de moleques, atinge o osso no meio da perna nua, a unha de dedo grande arranha a pele; foi Tereza quem tirou sangue primeiro [...]. Em lugar de obedecer a desinfeliz tenta atingí-lo outra vez. Tereza rodopia, escapa, mete as unhas na cara gorda em sua frente, ah! Por pouco não cega o bravo capitão. Quem está com medo capitão? Nos olhos de Tereza apenas ódio, mais nada (AMADO, 1972, p. 92). A personagem age conforme suas próprias ideologias. Desvia-se do discursoopressor. A mulher ativa reestrutura-se e adquire o significado de “mulher”. Uma mulher nãomais objeto descartável, inútil ou de pouco valor moral, mas uma pessoa crítica, atriz de suaprópria imagem e atitudes, Tereza desarticula o esperado. Luta contra tudo e todos, parainserir as classes injustiçadas, especificamente, a mulher, em espaços de respeito e igualdade.De objeto maleável, descartável, a mulher transpõe-se para o objeto agente de luta, ação, 37
  38. 38. reivindicação e busca por solução. Por sua fortaleza inerente ao processo vital, Tereza nãoaceita ser objeto sexual, nem tampouco objeto de identidade descartável socialmente. O combustível abastecedor de força e coragem na luta contra o privado, imerge davida sofrida, tatuada de preconceitos e restrições. Como reflexo da intensa mobilidade nosentrelugares, articula-se. Autêntica, desenvolve uma alternância comportamental que permiteuma contínua luta com sucessão de valores. “Prefiro ser mulher direita de palavra. Embora atéhoje tenha sido apenas escrava, mulher-dama, amásia” (AMADO, 1972, p.254). Ser mulher condiz um ser de “ação”. De posse dessa consciência, Jorge Amadoapropria-se da personagem principal para apresentar uma nova face de mulher. A mulherjorgemadiana, objeto que visa crítica às desigualdades, humilhações e diferenças sociais, porconseguinte, instaura-se como mulher pública, desmitifica-se, então, a mulher da ordemprivada. “Tereza fez caso omisso às advertências, com ela perto, podendo intervir, mulhernenhuma, menos ainda menina seria comida a pulso” (AMADO, 1972, p. 299). Tereza insere-se nessa luta contra toda e qualquer desigualdade social,especificamente no que tange a desvalorização feminina. A mulher desenhada por JorgeAmado é objeto de luta por melhoria social. O escritor se universaliza com temáticaspolitizantes e uma linguagem fruidora. A mulher por ele retratada é uma ativista,revolucionária, substancialmente, apoiada na mudança contextual. Sua inserção nos pluraiscontextos contribui para a construção do novo ser mulher, que, de um extremo a outro,inclina-se em busca de mudança e dedica-se ao fazer/ser e agir diferente. Declina-se para umavida pautada em princípios solidários, numa narrativa que o escritor baiano fez nascer poruma metáfora carnavalizada uma nova visão de mulher. A mulher objeto de crítica e açãosocial.2.3 Metáfora e carnavalização à revelia de uma construção literária de mulher. O sentido e a forma de um elemento não são propriedades suas, são, isso sim, propriedades estruturais de relação (LOPES, 1987, p. 20). A metáfora constitui o processo de transmutação de sentidos. A ordem significativada linguagem original converte-se em sentidos diferenciados. Nessa cadeia de metamorfosesinterpretativas ideias se consolidam. Lopes (1987, p. 30) pronuncia: 38
  39. 39. A metáfora é um saber dissimulado, que é saber, ainda que não pareça – um conhecimento da ordem do segredo e do mistério, pois que, por isso mesmo, tem de ser postulado e em razão disso vem sobremodalizado pelo crer: Os mistérios só são verdades quando cremos neles. A linguagem metaforizada utilizada por Jorge Amado no decorrer da narrativaTereza Batista Cansada de Guerra congrue para um saber dito no interdito, ou seja, asconstantes lutas que a personagem Tereza Batista vive, na obra literária, poderiam serrelacionadas e transpostas às realidades sociais; metaforizar representa inverter, relacionar emodificar o dito. O leitor constrói o interdito. Os recursos alegóricos, metafóricospossibilitam ao leitorum processo de permutação; substituir, atribuir significados no interdito. As verdadesliterárias ressignificadas metaforizam-se, ganham novas óticas interpretativas. Verdadesficcionais tornam-se verdades reais desde que o sentido seja transposta a linguagemconotativa para a denotativa, e o imaginário torna-se real dentro da verdade imaginária. O cenário de guerra entre o público e o privado descrito na narrativapermeia-se derecursos alegóricos, os quais materializam e constroem verdades sobre a identidade dapersonagem. Araújo (2003, p. 16-20) diz que um dos objetivos da arte é educar os sentidospara enxergar o mais belo, comover-se integralmente com ele. A personagem se enquadra noespaço privado e, com sua força incansável, é carnavalizada de artifícios alegóricos,configurados por identidades pluralizadas que se modificam constantemente. Tereza constrói-se mulher de expressão, luta e ação ao carnavalizar-se. Vestida com arma de proteção,modifica os contextos e se corporifica de coragem em vista aos problemas sociais. À revelia dos acontecimentos, engloba-se na abstração de passagem por elosmediadores. Bakhtin (2008, p. 99) afirma que “o método histórico-alegórico esforça-se porver cada um dos detalhes do romance uma alusão a fatos precisos”. A alegoria é uma formade narrativa simbólica, que não sugere apenas algo além de seu sentido literal, mas insiste emser decodificada em outro sentido. É pertinente ressaltar que a imagem de Tereza Batistavinculada a forças sincrético-religiosas representa uma diáspora de comportamentos eassunção de uma consciência problemática do mundo. A mulher carnavaliza-se para representar a transposição de fronteiras. Terezaapresenta-se como uma protegida dos orixás, tanto no seu caráter como nacoragem. Emmomentos de guerra, o Santo Onofre, padroeiro das cafetinas, protege-a e a livra de perigos;sua força revitaliza-se e, em momentos de cansaços, seus inimigos são destruídos e desviadosdo seu caminho. A crença nos valores sincréticos religiosos a corporifica de força e coragem. 39
  40. 40. Tereza deve ser filha de Yansã, sendo as duas iguais na coragem, na disposição: apesar de mulher, Yansã é santo valente, ao lado de seu marido Xangô empunhou as armas de guerra, não teme sequer os eguns, os mortos, é ela quem os espera e saúda com seu grito de guerra: Eparrei (AMADO, 1972, p. 161). Os arquétipos de bravura, resistência, audácia e luta, envoltos na personalidade deTereza Batista, foram figuras marcantes no romance e representaram uma ferramenta de lutacontra os poderes opressores vigentes. Apresentam-se, pois, sob recursos alegóricos quemarcam sua força, audácia, coragem, mesmo em circunstâncias degradantes.Metaforicamente, os entrelugares em que as mulheres estiveram imersas “costuram” o jeitomulher de ser, sua face real é construída no processo de rompimento, em conjunto, na esferasocial e no espaço público adquire artefatos para mudança. Os elementos carnavalescos distorcem a visão que lhes são embutidas. Brait (2008),segundo leitura da teoria Bakhtiniana, distorce a visão de inferno por meio da linguagemcarnavalesca. O inferno considerado lugar de acerto de contas, imagem do fim do acabamentodas vidas, apresenta a ideia do inferno invertido configura-o como local alegre e divertido, noqual o medo é vencido pelo riso. Poder-se-ia, dizer, portanto, que a ideia de carnavalizarrelaciona-se a modificar, transformar, reverter; apresentar uma imagem invertida, segue alógica das permutações. Brait (2008, p. 75) ainda reforça: Para a carnavalização, valem ainda as reviravoltas, dadas num espaço do limiar, o do cassino com seus salões e mesas de apostas, onde se oferecem fortuna e misérias simultaneamente. Essas reviravoltas também compõem o tempo do limiar, correspondente tanto àquele de abertura rumo às apostas como àquele próprio ato de jogar. O tempo representado no limiar das transformações vitais apresenta-se como realidade (des)construída, à revelia das indicações com precisão. Tereza Batista, imersa em conflitos e constantes sofrimentos desde a fase da infância,dribla a ideia de mulher oprimida, subalterna, subserviente e passiva. Uma revolucionáriaincansável. Para Brait (2008, p. 84), a carnavalização registra-se como um movimento dedesestabilização, subversão e ruptura em relação ao mundo oficial. A personagem encabeçaem uma luta contra a exploração especificamente feminina. Os mecanismos carnavalescosreferem-se à recriação identitária na qual Tereza está circunstanciada, senão consubstanciada.Os lugares, as pessoas são metamorfoseadas com a passagem de Tereza Batista do espaço 40

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