0                  Sinara Carneiro de Oliveira   “Mas o Brasil não parou, continua batalhando”: Asconstruções de discursos...
1                         Sinara Carneiro de Oliveira   “Mas o Brasil não parou, continua batalhando”: As construções dedi...
2                   Banca examinadora     Conceição do Coité___ de___de_____________________________________      Prof. Or...
3                                 AGRADECIMENTOS       Agradeço a meu professor orientador Rogério Souza Silva pelos ensin...
4                                              RESUMOEste trabalho analisa a Literatura de Cordel produzida na Bahia, capt...
5                                 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ____________________________________________________6CAPÍTULO 1: A Lit...
6                                          INTRODUÇÃO                                       “Os heróis fazem a história, m...
7                                                É importante salientar que esse texto poético articulava,                ...
8       Daí a tendência em ordenar as mesmas mensagens em forma poética ritmada para facilitara memorização.       O autor...
9        Mark Curran, em História do Brasil em cordel6 procura analisa como o valor informativodo cordel o fez comentador ...
10na Biblioteca Renato Galvão pertencente ao Museu da Casa do Sertão/UEFS, optamos, peloscordelistas de maior número de fo...
11fato ficar isento de escrita, o que também pode ocasionar uma leitura, um fato não escrito podetambém ter significados i...
12estavam inseridos, está organizada da seguinte forma: no primeiro capítulo fazemos umadiscussão teórica sobre a literatu...
13Capítulo 1: A Literatura de Cordel como Fonte Histórica        Alguns estudos historiográficos têm caminhado no sentido ...
14observar rituais ou escrever um diário. Para Geertz, a cultura não é um poder ou algo ao qualpodem ser atribuídos casual...
15período, mostrando existir uma influência recíproca entre as classes subalternas e a dominante.Em A Cultura Popular no R...
16           O conceito de cultura popular é conflitante. O trabalho de Ginzburg O queijo e os vermespublicado na década d...
17página impressa à uma cultura oral:                                               Foi o choque entre a pagina impressa e...
18completamente opaco para nós e tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares a doisséculos de diferença que o se...
19utilizava-se as palavras escritas e impressa, favorecendo as relações entre analfabetos e semi-analfabetos proporcionand...
20destruição do passado, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à dasgerações passadas. Quase todos...
21termômetros admiráveis dessa mudança de mentalidade e sensibilidade”24, mostra como contextohistórico e literatura dialo...
22                                               O que tudo indica é a necessidade de revisar, na discussão               ...
23        Capítulo 2: “Os embromadores do povo”: Denúncia,crítica política e social nos folhetos populares.        Os folh...
24        Alguns jornais, revistas e trabalhos acadêmicos escreveram sobre sua biografia, jámostravam este lado sarcástico...
25                                             AVISO PÚBLICO          Os trabalhadores baianos convidam o povo em geral pa...
26seus eleitores. O escrito e visual neste folheto estão em harmonia com a mensagem passada amesma crítica que traz a sua ...
27       Sua linguagem ferina atingia seu alvo, Cuíca de santo Amaro foi detido inúmeras vezespor sua ousadia em falar o q...
28a seguir as modas das atrizes de Hollywood, mudar o estilo dos cabelos, e fumar, ato até então dohomem30. Era o confront...
29       Segundo Edilene Matos a ligação de Cuíca com os políticos da Bahia foi a maiscontraditória possível, atacava e de...
30Os semi-analfabetosCom esta inovaçãoDigo...a cédula únicaNa hora da votaçãoComo é naturalSó pode fazer confusão         ...
31descreve o “berreiro” dos eleitores de Lott, os que perderam dinheiro, viviam em palanques queagora estavam cabisbaixos....
32       Depois comenta das conseqüências desastrosas com o custo de vida subindoassustadoramente, o aumento da exploração...
33vassourinha/ varre, varre a bandalheira!/ Que o povo já ta cansado/ De sofrer dessa maneira/Jânio Quadros é a esperança ...
34           Cuíca nesses primeiros versos do folheto vai então falar da aprovação por parte de civis emilitares pela poss...
35            Brizola companheiro de Goulart, tinham juntos entrado para o PTB em 1945, dois anosmais tarde foram eleitos ...
36        Esse “agüenta com repucho” insinuado por Cuíca, foi o fato de David Nasser continuar aatacar Brizola e agora em ...
37       Nasser que é carne de cabeça       Como ninguém ignora       Continua botar do Brizola       Os seus poderes prá ...
38gostava de ser lembrando, viraria personagens das obras de baianos como Jorge Amado e DiasGomes. Cuíca morre no ano de 1...
39        Capítulo 3: “O Dragão do fim da Era”: O cordel nocombate ao perigo comunista no Brasil        A década de 1950, ...
40companhia de seu irmão mais novo, ora motivados pelas ameaças do pai ora pelo medo deapanhar da mãe quando a desobedecia...
41impressoras e das tipografias deste período, aumentava a produção destes folhetos espalhando portoda a Bahia, sobretudo ...
42também já os tinha escrito, produzira versos com duplo sentido, em alguns casos usava dopseudônimo de Zé Pindoba e afirm...
43                                         Em posto superior                                                       (...)  ...
44        Acreditava que Jânio iria corrigir ou controlar os erros de Kubitschek, essa visão dogoverno Juscelino Kubitsche...
45                                     Os desfiles de maiôs                                      Rigorosamente se impôs   ...
46        Havia setores da sociedade brasileiras bastante tradicionais em choque neste momento demodernização, não aceitav...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos popul...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos populares baianos (1950 1980)

1.092 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.092
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Mas o brasil não parou, continua batalhando, as construções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos populares baianos (1950 1980)

  1. 1. 0 Sinara Carneiro de Oliveira “Mas o Brasil não parou, continua batalhando”: Asconstruções de discursos e imagens da política nacional nos folhetos populares baianos (1950 – 1980) Universidade do Estado da Bahia Conceição do Coité 2010
  2. 2. 1 Sinara Carneiro de Oliveira “Mas o Brasil não parou, continua batalhando”: As construções dediscursos e imagens da política nacional nos folhetos populares baianos (1950 – 1980) Trabalho de conclusão de curso apresentado à Banca Examinadora da Universidade do Estado da Bahia, como exigência para obtenção do grau de Licenciado em História. Orientador: Prof. Rogério Souza Silva Universidade do Estado da Bahia Conceição do Coité 2010
  3. 3. 2 Banca examinadora Conceição do Coité___ de___de_____________________________________ Prof. Orientador Rogério Souza Silva________________________________ Prof.________________________________ Prof.
  4. 4. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a meu professor orientador Rogério Souza Silva pelos ensinamentos, disposiçãoe paciência na construção deste trabalho. A Fabiane Pinto, Maiara Gordiano e Kécia Dayana,pelo apoio amigo, pelos debates, leituras e opiniões do texto. Àqueles que contribuíramindiretamente, Nilva e Diógenes, pelo afeto; A meu pai Godoval e meu irmão Galvane pela forçadiária e ao meu avô Samuel Ramos, pela torcida e atenção. A minha Tia Suely de Oliveirasempre presente nos meus estudos. Ao meu noivo Hernando Cunha, pelas tantas viagens parafazer pesquisa e, principalmente pela paciência e compreensão, agradeço também pelo apoio dasua família. A minha irmã Luciana Carneiro, também estudante de História, pelo seucompanheirismo, sempre me ajudando em tudo que preciso, tem participação direta nestetrabalho, por ter sido a pessoa que despertou em mim a curiosidade do trabalho com cordel, quefez leituras do meu texto e opinou sobre ele. E por fim, a minha mãe Gerusa, que por formamalabarísticas fez de tudo pelo meu curso e por esta monografia, a você minha mãe dedico estetrabalho.
  5. 5. 4 RESUMOEste trabalho analisa a Literatura de Cordel produzida na Bahia, captando nela elementospolíticos e também interligados, elementos de cunho social através de suas múltiplas linguagens(escrita/visual) e formas (história/poesia/ficção) que revelam contextos em que estão inseridas,possibilita leituras de um ponto de vista diferente do tradicional, em sentido inverso analisamos ahistória de baixo para cima, percebida por sujeitos e segmentos das classes populares. Estetrabalho compreende a análise da política nacional, dos fatos que estes folhetos relatavam e ossignificados que lhe atribuíam poetas e ouvintes, que muito pode nos dizer sobre o mundo ao seuredor. Através do folheto lê-se uma época, o período deste trabalho são as décadas de 1950 e1980, os autores baianos trabalhados são José Gomes, o Cuíca de Santo Amaro, Rodolfo CoelhoCavalcante e Minelvino Francisco da Silva.Palavras-chaves: folheto popular – política ABSTRACTThis paper analyzes Cordel Literature produced in Bahia, picking up her and political elementsalso interconnected elements of social through its multi-language (written / visual) and forms(history / poetry / fiction) that show the contexts in which they operate, allows readings from adifferent point of view of traditional, conversely analyze history from the bottom up, perceivedby individuals and segments of classes. This work includes the analysis of national policy, thefacts that these leaflets and the meanings attributed to poets and listeners, who can tell us muchabout the world around them. Through the leaflet reads a time period of this study are the 1950and 1980, the authors worked in Bahia are José Gomes, Opossum Santo Amaro, Rodolfo CoelhoCavalcante and Minelvino Francisco da Silva.Keywords: leaflet popular – policy
  6. 6. 5 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ____________________________________________________6CAPÍTULO 1: A Literatura de Cordel como fonte histórica _________________13CAPÍTULO 2: “Os embromadores do povo”: Denúncia, crítica política e social nosfolhetos populares _________________________________________________23CAPÍTULO 3: “O Dragão do fim da Era”: O cordel no combate ao perigocomunista no Brasil________________________________________________39CAPÍTULO 4: “A vaca política”: imagens e discursos políticos nos folhetosreligiosos ________________________________________________________57Considerações Finais _______________________________________________73Referências Bibliográficas ___________________________________________76Fontes___________________________________________________________80
  7. 7. 6 INTRODUÇÃO “Os heróis fazem a história, mas também a fazem os anti-heróis e os vilões. E o anti-herói mais fascinante será antes de mais nada, o próprio povo, na sua luta diária para sobreviver num mundo as vezes cheio de miséria, pobreza e outros males. O cordel concentra a história disso tudo.”1 A literatura popular em verso - escrita num dado período e lugar sobre os mais diversosassuntos, acaba por registrar acontecimentos, fatos, crenças, eventos sociais, políticos eeconômicos de uma época. Acreditando que nela contém poesia, história e ficção, mas quetrazem elementos que revelam sua contemporaneidade, possibilitando leituras do contexto emque estão inseridas. Os folhetos de cordel têm espaço de criação vasto no Brasil. Desde fins do século XIXessa literatura surgiu na península Ibérica e por volta do século XVI chega ao Brasil por meio doscolonizadores portugueses. Aqui a produção do cordel foi favorecida pela interiorização demáquinas impressoras na região. A maioria da população que apreciava os cordéis era compostapor analfabetos. Sobre essa relação verso impresso e oralidade, Ana Maria Galvão, em seutrabalho realizado em Pernambuco, mostra que a leitura dos folhetos era coletiva, feita em vozalta e intensiva, sendo, portanto, a própria estrutura do texto – versos curtos e rimas - de fácilcompreensão, favorecendo as relações entre analfabetos e semi-analfabetos proporcionandopráticas de letramento. Os depoimentos da sua pesquisa indicam a alfabetização por intermédiodo cordel.2 Gilmário Brito, em Culturas e linguagens em folhetos religiosos no Nordeste: inter-relações escritura, oralidade, gestualidade, visualidade, coloca que:1 CURRRAN, Mark J. História do Brasil em cordel. São Paulo: Editora da Universidade de SãoPaulo,1998.p. 28.2 GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. “Ler e ouvir folhetos de cordel em PE: 1930 – 1950”. Tese de Doutoramentoda Faculdade de Educação da UFMG, 2000.
  8. 8. 7 É importante salientar que esse texto poético articulava, além de gravuras, outras linguagens: a vocalidade, o canto, a música, os desafios, a recitação coletiva, os gestos e as “performances” que no caso nordestino, constituíam-se como um conjunto de estratégias que facilitavam a memorização/transmissão de histórias, idéias, costumes, valores, moral, crenças, possibilitando múltiplas formas de incorporações pautadas em palavras chaves, que voltavam para oralidade, formando verdadeiras interconexões a partir das matrizes poéticas de 3 tradições orais/escritos/iconografias. A narrativa dos folhetos tomou proporções de “jornal do povo”, considerando adisposição do seu texto mais acessível do que o texto jornalístico em prosa. Assim, foi seafirmando como uma criação independente em relação à literatura oficial, institucionalizada daépoca. Para os habitantes do interior, o cordel desempenhava uma importante função Dada a ausência, na maioria dos casos, de meios alternativos de informação e divertimento, os autores e poetas cantadores do cordel continuaram a desempenhar papel necessário na vida diária. Só à medida que novas estradas e os veículos de comunicação social principiaram a alcançar o interior, na década de 1950, esse quadro começou a mudar.4 Questionando em O que é literatura popular? Joseph M. Luyten defende que emqualquer literatura, seja ela portuguesa grega, alemã, são sempre encontradas manifestaçõespoéticas, que ao longo dos anos foi cedendo lugar a prosa e, quando chegamos ao século XX, apoesia comparada as outras manifestações literárias ocupam pouco espaço. “A grande razão desse fato é que as sociedades humanas, quando são iletradas, tem como único recurso a memória para guardar aquilo que acham importante.” 53 BRITO, Gilmário Moreira. Culturas e linguagens em folhetos religiosos no Nordeste: inter-relações escritura,oralidade, gestualidade, visualidade. São Paulo, 2001. Tese (Doutorado) – Universidade Católica de São Paulo, p.255.4 SLATER, Candace. A vida no barbante: a literatura de cordel no Brasil. Rio de Janeiro.: Civilização Brasileira,1984, p. 26.5 LUYTEN, Joseph M. O que é literatura popular. 4 ed. São Paulo. Editora Brasiliense, 1987, p. 7.
  9. 9. 8 Daí a tendência em ordenar as mesmas mensagens em forma poética ritmada para facilitara memorização. O autor apresenta uma análise da literatura de cordel no Brasil e as influências que sofreuao entrar em contato com o universo urbano politizado das grandes cidades. Antes praticamente oúnico veículo de informação das camadas populacionais do interior do Brasil, com o êxodo rural,o cordel passa a ser portador de reivindicação de cunho social e político. Com essas mudanças no meio da produção do cordel, influenciada pela modernização-urbanização, muitos escritores argumentaram que este tipo de literatura estava em decadência, oque de fato nunca ocorreu, pois mesmo concorrendo com os novos meios de comunicação aprodução de folhetos não pára, o que houve foi uma mudança de temas e muitos dos seus leitorescontinuaram sendo fieis à informação dos versos. Até hoje há muitos folheteiros ativos, comoreferência, Franklin Maxado. Américo Pellegrino Filho em seu artigo Literatura de cordelcontinua viva no Brasil, defende a idéia de que esta literatura não morreu e esta completandocerca de cem anos bem vividos. Argumenta-se que este gênero da poesia popular impressa, que ocorre especialmente nonordeste, passou a ser valorizado por estudiosos ou intelectuais brasileiros, depois de um artigode Orígenes Lessa na Revista Anhembi, publicado em dezembro de 1955, e talvez principalmentedepois de outro artigo, do estudioso francês Raymond Cantel, publicado no Lê Monde no ano de1969. Afirma que a partir da década de 70, o assunto se espalhou pelos estudiosos brasileiros. O autor discute que para além da previsão apressada da morte dos livretos populares, ointeresse repentino e a falta de embasamento e pesquisa levaram à mudança de nome. Nocontexto popular onde livretos são criados, vendidos e lidos, o nome é “folheto” ou “folheto detrovador” como alguns se autodenominavam, estes têm em média oito páginas. É considerado“romance” ou “historia” quando a narrativa, é mais longa e exige dezesseis a trinta e duas oumais páginas. A denominação cordel tem origem erudita, influência de Portugal, e acabouchegando ao vocabulário de autores populares. Segundo o autor criou-se também esteneologismo, como “cordelista” e “cordelismo”, que estão longe do padrão terminológico popular.
  10. 10. 9 Mark Curran, em História do Brasil em cordel6 procura analisa como o valor informativodo cordel o fez comentador ímpar de cem anos da história nacional. Em seu trabalho mostra aprodução do cordel em diferentes épocas. Discute sobre o valor documental dessa literatura, suaimportância enquanto meio de expressão popular e sua função jornalística, vindo a registrar cemanos da história brasileira em folhetos populares. Curran fala, então, de uma história do Brasilque não é oficial, contada nos folhetos de feira produzidos pelas camadas mais humildes dasociedade brasileira. Sobre o período aqui analisado, afirma que a modernização e as mudanças ocorridas noBrasil a partir dos anos 50 afetaram bastante os cordéis. Sua forma tradicional de escrita seriamantida, no entanto vozes engajadas passariam a falar do mandato de Vargas, crescimento daesquerda, os governos de Jânio Quadros e de João Goulart e o Regime Militar. Maria Ângela Faria Grilo, fala sobre o caráter informativo do cordel, segundo a autora aomesmo tempo que representam uma forma de literatura, informam sobre os acontecimentos daépoca. O poeta faz uma espécie de reportagem, mas sempre introduzindo novos elementos que osdiferenciam dos jornais. Nesse sentido, o folheto de cordel se transforma numa rica fonte depesquisa para a história, para a sociologia, para a antropologia e para a literatura. 7 Há, sem dúvidas, trabalhos que valorizam o cordel como registro, documento e memóriada história brasileira, mas ainda existe uma carência de trabalhos históricos, sendo que a maioriados estudos se desenvolve na área da Linguagem, Educação e Literatura. Neste intento buscar-se-ia mostrar aqui o valor histórico do folheto popular. A literatura de folhetos tem sido mais valorizada entre literatos, são poucos os trabalhosde cunho histórico que problematizam essa fonte como reveladora de um contexto. Dessa forma,a proposta é problematizar os versos, questioná-los, historicizá-lo, compreender o que expressame quando não explícitos vislumbrar e apreender o que de fato está representando. Tratamos mais especificamente sobre as representações da política nacional nos folhetospopulares, compreendendo as décadas de 1950 a 1980. Elegemos três cordelistas e o critério utilizado para a escolha foi a preferência porescritores que tiveram como espaço de produção a Bahia. Assim, com base no levantamento feito6 CURRRAN, Mark J. História do Brasil em cordel. São Paulo: Editora da Universidade de SãoPaulo,1998.7 GRILLO, Maria Ângela de Faria. A literatura de Cordel na sala de aula. In: Ensino de História: conceitos,temáticas e metodologias. Martha Abreu e Rachel Soihet organizadoras. Editora: Casa da Palavra, 2003,p. 121.
  11. 11. 10na Biblioteca Renato Galvão pertencente ao Museu da Casa do Sertão/UEFS, optamos, peloscordelistas de maior número de folhetos disponíveis. Os autores de cordéis aqui analisados são: Cuíca de Santo Amaro de Salvador, cujoscordéis escolhidos correspondem a década de cinqüenta até o ano de 64, ano da sua morte;Rodolfo Coelho Cavalcante, que residiu também na capital, escreveu com freqüência na décadade 60; e por fim, sobre os anos 70 são analisados os folhetos de Minelvino Francisco da Silva, deItabuna. A questão das décadas em destaque deve-se ao fato destes escritores terem produzidosmais folhetos nestes períodos, mas a analise aqui não está restrita à década de maior freqüênciade escrita, por exemplo, além da dos anos 60, Rodolfo Coelho Cavalcante escreveu nas décadasde cinqüenta e setenta também. A escolha de três autores deve-se então a questão do período da escrita, secomplementam na questão temporal, eram os escritores baianos mais ativos na época; na temáticae na escrita, há pontos em que se assemelham como em outros se distanciam, o que intensificaainda mais a analise, a escolha de mais de um autor acalora a discussão permitindo questionar emque pontos convergem ou divergem, proporcionando opiniões distintas. E também a questãoespacial, a Bahia é rica na produção de folhetos, no entanto pouca atenção tem sido dada aoscordéis desta região se comparado aos estudos sobre outros estados nordestinos. É relevante pontuar que cada escritor tem influências diferentes, podem apresentar hábitosde diferentes segmentos sociais. É importante considerar que seu texto pode ter diferentessignificados para autor, ouvinte e leitor. E é esse também um dos motivos da escolha de nãoapenas um autor, na possibilidade de avaliar diferentes versões que sirva para fazer comparaçõesou ponte. É, sobretudo devido às fontes que se atribui a escolha de data e autor. A maior disposiçãode cordéis desses autores viabiliza este trabalho. Importante mencionar que estes folhetos, por mais que se assemelhem aos jornaisdiferenciam-se deles entre outros aspectos, por não ter a obrigatoriedade do relato diário. Oscordelistas escreviam com certa espontaneidade e também oportunamente quando percebiam queo tema do folheto poderia lhe render boa vendagem. Por esse motivo os folhetos não são lineares,pode ocorrer a escrita de dois ou mais exemplares sobre um dado assunto, como também algum
  12. 12. 11fato ficar isento de escrita, o que também pode ocasionar uma leitura, um fato não escrito podetambém ter significados implícitos. Neste trabalho, as fontes documentais utilizadas foram do tipo escritas e iconográficas. Asfontes escritas deste trabalho são, sobretudo, os folhetos de cordel de Cuíca de Santo Amaro,Rodolfo Cavalcante e Minelvino Francisco, que inscritos num tempo e espaço, inseridos dentrode um contexto, produziram versos pelos quais é possível visualizar imagens políticas e tambémsociais de uma época. Para tal também foram imprescindíveis as fontes bibliográficas sobre o cordel, emespecial as obras biográficas sobre seus autores que deram aparato a esta pesquisa mostrando aorigem destes autores, a vida familiar, escolar, o trabalho, nos dando base para interpretar suasposições e anseios. “A biografia é hoje certamente considerada uma fonte para se conhecer a historia. A razão mais evidente para se ler uma biografia é saber uma pessoa, mas também sobre a época, sobre a sociedade em que ela viveu.”8 Assim, Auxiliaram este trabalho fontes bibliográficas como A presença de RodolfoCoelho Cavalcante na moderna literatura de cordel de Joseph Mark Curran; Vida e luta doTrovador Rodolfo Coelho Cavalcante de Eno Theodoro Wanke; Ele o tal, Cuíca de Santo Amaroe Noticias biográficas do poeta popular Cuíca de Santo Amaro de Edilene Mattos. Obras ligadasao histórico do cordel como História do Brasil em cordel de Mark Curran e A vida no barbante:a literatura de cordel no Brasil, essas obras foram essenciais na realização deste estudopossibilitando o diálogo dos traços biográficos dos autores e seus escritos. Também fundamentaram este trabalho, as fontes iconográficas. As capas dos folhetos, queoferecem uma visualização do escrito, da história narrada, além dessa conexão visual e escrito,traz em si uma mensagem completa, não precisam necessariamente do texto para confirmá-la. A provocação feita por este estudo de analisar um contexto histórico através do cordel,tomando-o como fonte que relatam o momento pelo qual passava o país e tal como ele erapercebido pelo povo, construídos por estes sujeitos e sendo práticas do grupo social em que8 BORGES, Vavy Pacheco. (org.) PINSKY, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo:Contexto, 2005, p. 215.
  13. 13. 12estavam inseridos, está organizada da seguinte forma: no primeiro capítulo fazemos umadiscussão teórica sobre a literatura de cordel como fonte histórica; no segundo capítuloanalisamos em essência a critica política e social dos folhetos de Cuíca de Santo Amaro; noterceiro, o posicionamento político de Rodolfo Coelho Cavalcante escrevendo em combate aocomunismo; no quarto e último capitulo são colocados os elementos político-religiosos deMinelvino Francisco da Silva. A analise periódica destes capítulos tem como momento inicial amorte de Getúlio Vargas até fins do período militar no Brasil. Por fim, são postas asconsiderações finais à analise do contexto histórico nacional visto através de folhetos popularesescritos na Bahia.
  14. 14. 13Capítulo 1: A Literatura de Cordel como Fonte Histórica Alguns estudos historiográficos têm caminhado no sentido de romper com a idéiaaristocrática da cultura, tradicionalmente posto que as classes populares eram desprovidas dosaber (sem cultura) e nada mais eram consideradas como “camadas inferiores dos povoscivilizados”9. Atualmente, com a ampliação do sentido de cultura, ao tentar compreender tudo oque pode ser apreendido de uma sociedade, ocorre o que Peter Burke denomina por “descobertado povo”, lado aos estudos em volta do clássico, acadêmico e científico, passa-se a reconhecerseus correspondentes populares, suas múltiplas criações e recriações e suas variações em épocas esociedades passam a ser vistos como objeto de explicação histórica. Com este alargamento de campo de estudo há, utilizando a expressão de Le Goff, uma“revolução documental”10 do estudo de história, fugindo da investigação feita essencialmente dedocumentos de arquivos. Com o campo ampliado a Nova História tende a valorizar o informal. Esse trabalho está situado na História Cultural, campo de pesquisa vasto que agregaproblemáticas a começar pelo próprio conceito de cultura. O olhar histórico antropológico dadopor Clifford Geertz sobre este termo é instigante, defendendo em seus ensaios um conceito decultura essencialmente semiótico: “Acreditando como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua analise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado”.11 Em a Interpretação das culturas, apresenta a prática de descrição densa - o fazeretnografia - como uma tentativa de construir uma leitura em busca de significados, de algo quenos parece estranho ou inexplícito, ou que possa ser observado em campos rotineiros, como9 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição.Tradução Maria Betânia Amoroso, São Paulo: Companhia das Letras, 200, p.3.10 LE GOFF, Jacques et al. A Nova História. Trad. Ana Maria Bessa. Lisboa: Edições 70, p. 10.11 GEERTZ, Clifford: A interpretação das culturas, Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989. p.4.
  15. 15. 14observar rituais ou escrever um diário. Para Geertz, a cultura não é um poder ou algo ao qualpodem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituiçõesou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual podem ser descritos de forma inteligível -isto é, descritos com densidade.12 Colocado os embates presentes no campo da história cultural importa salientar que entreas suas múltiplas abordagens é na Cultura Popular que esse trabalho está mais especificamentesituado. A fonte aqui utilizada são Folhetos de Cordel, literatura popular em verso, que temespaço de criação histórico vasto no Brasil desde o início do século XX. O poeta de cordel escrevia o que se passava sobre um dado período e lugar, suasnarrativas curtas e de grande carga oral facilitava a memorização fazendo com os versoscirculassem como uma espécie de jornal, já que estes eram escassos e seu formato em prosa maisdifícil para serem compreendidos num segmento da sociedade de maioria analfabeta. Hoje essas narrativas representam um registro, documento e memória da históriabrasileira e uma possibilidade de estudo dos significados que estes sujeitos partilhavam, aqui emparticular referimo-nos a segmentos da população baiana que apreciavam os cordéis escritosentre nos anos de 1950 a 1980. Pontuo que se trata do estudo de certo segmento das classes populares para nãohomogeneizá-la de todo, considerando uma série de condições diversas de moradia,comportamento, trabalho, crenças e de gênero entre os populares. Com base no que Thompsonalerta em Costumes em comum sobre as generalizações da “Cultura popular”, segundo o qual, seesvaziam se não postas firmemente dentro de contextos históricos específicos, sendo o própriotermo “cultura”, utilizada como um consenso faz com que passe despercebidas as contradiçõessociais e culturais ou certas oposições existentes dentro do conjunto13. Para este trabalho é particularmente importante a discussão das obras de Mikhail Bakhtin,Carlo Ginzburg e Robert Darton, historiadores culturais com linhas de pesquisas que em muitosaspectos convergem. Estes embasam e norteiam esta pesquisa, compreender suas metodologias éimprescindível. Através da obra de um letrado, Bakhtin consegue assimilar toda a cultura popular do12 GEERTZ, 1989, op. Cit., p.10.13 THOMPSON, Edward P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. Trad. RosauraEichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1998,p. 17.
  16. 16. 15período, mostrando existir uma influência recíproca entre as classes subalternas e a dominante.Em A Cultura Popular no Renascimento e na Idade Média o objeto de estudo de Bakhtin éFrançois Rabelais, homem singular no seu tempo, e seus escritos subverte os valores oficias daépoca tornando possível perceber a multiplicidade de manifestações de uma culturamarginalizada. Procurando compreender o fato de Rabelais ser o menos popular, menos compreendido eestimado entre os escritores da literatura mundial, Bakhtin mostra que os seus contemporâneos equase todo o século XVI tinham uma postura exatamente oposta, até mesmo por estareminseridos em meio às tradições populares, literárias e ideológicas da época. Mas nota que aunidade, as imagens e elementos constitutivos do mundo Rabelaisiano a partir do século XVI eprincipalmente após o XVII aparecem totalmente incompatíveis. A solidão particular de Rabelais deve-se ao fato de não se ajustar aos cânones e regras daarte literária vigente desde o século XVI14. Bakhtin reclama a interpretação dada pelos homensdos séculos seguintes a Rabelais, sua essência não foi inteiramente evidenciada, estudados à luzdas regras culturais, estéticas e literárias da época moderna. No que diz respeito aos seuscontemporâneos, estes não podem fornecer uma resposta aos nossos problemas, uma vez que paraeles, esses problemas não existem. Bakhtin diz que compreender as imagens rabelaisianas - em grande parte enigmáticas - sóé possível através de um estudo que considere a profundidade das suas fontes populares, poissuas imagens são perfeitamente posicionadas dentro da evolução milenar da cultura popular.Estuda minuciosamente a multiplicidade das manifestações- risos, espetáculos, obras cômicasorais ou escritas, festas, vocabulário familiar e grosseiro- sobre o universo Rabelaisiano. Notando a base popular dos escritos de Rabelais, Bakhtin escreve sobre a diferença capitalentre os cânones grotesco e clássico, que na realidade histórica viva, nunca foram estáticas nemimutáveis, ao contrário, sempre houve entre os dois cânones muita forma de interação, luta,influências recíprocas, entre cruzamentos e combinações. Este trabalho foi publicado em 1965sua teoria de reciprocidade entre a cultura da classe subalterna e a classe dominante influenciougerações vindouras e mais fortemente Carlo Ginzburg que a partir de Bakhtin formula sua teoriade circularidade cultural.14 BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto deFrançois Rabelais. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora daUnB, 1987.
  17. 17. 16 O conceito de cultura popular é conflitante. O trabalho de Ginzburg O queijo e os vermespublicado na década de 1970, define que entende como classe popular um, “conjunto de atitudes,crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas num certo períodohistórico”15 afirma ser este sentido emprestado da antropologia cultural, uma vez que formuladoo conceito de cultura primitiva admite que estes indivíduos tido como povos inferiores possuemcultura. Coloca que os estudiosos das tradições populares estão em desvantagem em relação aotrabalho dos antropólogos, pois ainda hoje a cultura das classes subalternas é predominantementeoral e estes estudiosos precisam servir-se, sobretudo de fontes escritas, Ginzburg critica que estasfontes são duplamente indiretas, por serem escritas e provavelmente ligadas à cultura dominantechegando a história das classes subalternas até nós através de filtros que a deformam. A partir dessas discussões formula uma visão original da cultura popular definida pelaoposição à cultura letrada e pela relação que com ela mantém. Quebra com essa dicotomia aopropor sua concepção de circularidade cultural, quando num movimento dialógico move-se debaixo pra cima, como de cima pra baixo como comprova nesta obra com a experiência deDomenico Scandella, o Menocchio. Em que consiste o trabalho de Ginzburg? Não usa um intelectual como Bakhtin, mas ummoleiro, sujeito das classes subalternas, que sabia ler e escrever, foi acusado e queimado pelainquisição por propagar suas idéias e visão de mundo não-cristã. Ginzburg procura entendercomo um simples moleiro formulara estas idéias o contexto permite afirmar que a invenção daimprensa lhe proporcionou o contato com livros e a reforma lhe deu aparato para ousar a falarsuas idéias entre contemporâneos, esses fatores foram importantes, contudo não justificam detodo a originalidade dos pensamentos de Menocchio, a documentação utilizada por Ginzburg eque responde a essa inquietação, trata-se dos dois processos abertos contra ele quinze anos dedistância um do outro (o volume de seu processo se destacava entre os demais), além dosdocumentos inquisitoriais há outros que indicam suas atividades econômicas e vida familiar, alémde registro do próprio Menocchio e uma lista parcial de suas leituras. Sabia ler e lia livros proibidos pela igreja, mas a chave da questão não está somente emsaber quais livros tinha acesso, mas como os lia, de maneira inconsciente interpunha entre ele e apágina, não raro deformando a leitura, variando numa rede de filtros que ligava a cultura da15 GINZBURG, 2006, op.cit., p. 3.
  18. 18. 17página impressa à uma cultura oral: Foi o choque entre a pagina impressa e a cultura oral, da qual era depositário, que induziu Menocchio a formular- para si mesmo em primeiro lugar, depois aos seus concidadãos e, por fim, aos juízes- as “ opiniões [..] [que] saíram da sua própria cabeça”16. Outro importante trabalho que enfrenta as dificuldades de estudar o popular é O grandemassacre de gatos de Robert Darton, formado por ensaios, resultantes de um trabalho que preza odiálogo entre a história e a antropologia e particularmente, as estratégias interpretativas deClifford Geertz. O autor se propõe a analisar as maneiras de pensar na França do século XVIII, através douniverso simbólico captar a sua acepção. Enquadra seu trabalho na história cultural, como elecoloca, sua tendência é etnográfica, uma abordagem antropológica da história, como uma ciênciainterpretativa na busca de significados. Para entender a maneira como as pessoas comuns entendiam o mundo. Robert Darton tempor base o exame de uma coleção de textos, como uma versão primitiva de ChapeuzinhoVermelho que compõe sua primeira análise História que os camponeses contam: o significado deMamãe Ganso. Para Robert Darton, apesar desses contos não poderem ser datados com precisãode um documento histórico eles são uma das poucas pontes de entrada no universo mental doscamponeses nos tempos do Antigo Regime. O autor sugere buscar a opacidade dos textos, comofaz ao tentar explicar o massacre de gatos. Segundo ele, entender qual é a piada, no caso de umacoisa tão pouco engraçada como uma matança ritual de gatos, é o primeiro passo no sentido da“captação” da cultura17. Bem coloca que aqueles que se voltam ao trabalho de campo deparam com a questão deque os outros povos são diferentes e pensam de outra maneira e para compreender sua maneira depensar é preciso captar a diferença. Darton alerta contra a falsa impressão de familiaridade com opassado. Lembra que o que era sabedoria proverbial para nossos ancestrais permanece16 GINZBURG, 2006, op.cit., p.7317 DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história culturalfrancesa. Trad. Sônia Coutinho. 4. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001. p. 335.
  19. 19. 18completamente opaco para nós e tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares a doisséculos de diferença que o separam de seu objeto de estudo. Problematizando em quais aspectos a discussão dessa obras estão ligadas aos propósitosdeste estudo colocamos aspectos comuns que une os escritos de Bakhtin a Ginzburg, como o fatode não separar a cultura popular e erudita em compartimentos estanques. Nota-se o movimentocircular em torno da literatura de folhetos, pelos seus temas e enredos como estes transitam entreo erudito e o popular e do popular ao erudito, escrevendo sobre crimes, desastres naturais,acontecimentos sobrenaturais chegando até política, economia e eventos de grande repercussão.De modo geral, pode-se afirmar que o poeta de cordel, não limitado a descrever a realidade demaneira artística tinha também consciência de seu papel de informar. De acordo com RonaldDaus, citado por Grilo18 ao dizer que “os folhetos tornam públicos acontecimentos sensacionais,traduzem as notícias da imprensa da capital para a linguagem do habitante do sertão, e asinterpretam como público gostaria de ouvi-lás, mudando-as muitas vezes e dando-lhes novasfunções e significados”. Em O grande massacre de gatos de Robert Darton, destacamos a noção de leitura19 erelembrando a influência de Geertz para o autor com conceito de cultura semiótica ”comosistemas entrelaçados de signos interpretáveis” motivando leitura de algo em busca designificados, Robert Darton defende que pode-se ler um ritual ou uma cidade, da mesma maneiracomo se pode ler um conto popular ou um texto filosófico. De forma que analisa a cidade comoum texto através de um burguês provinciano que ao descrever a sua Montpellier é possível captaro que entendia por vida urbana. Outro ensaio é feito por meio de uma rica série de cartas que ocomerciante Jean Ranson escreveu entre 1774 e 1785, leitor assíduo de Rousseau, essas cartasdemonstram como o rousseauismo foi absorvido no modo de vida burguês provinciano, sob oantigo regime. A questão da leitura de folhetos é precisamente curiosa, numa cultura em que a oralidadeé predominante e composta em sua maioria de analfabetos e semi-analfabetos. A leitura era feitaem voz alta, coletiva e intensiva, a própria estrutura do texto, com versos curtos e rima tambémfacilitava sua compreensão, em muitos casos chegava-se a decorar verso, havia situações em que18 GRILO, 2003.op. cit. P. 11819 Inegavelmente presente nas obras de Bakhtin e Ginzburg, ambos trazem a discussão em suas obras.
  20. 20. 19utilizava-se as palavras escritas e impressa, favorecendo as relações entre analfabetos e semi-analfabetos proporcionando a estes práticas de letramento20. Como já foi dito muitos poetas tinham consciência do seu papel de informar, além dopróprio conteúdo do cordel tinham preferência em utilizar a capa final dos folhetos para fazeranúncios, propagandas, homenagens e mensagens pessoais, que demonstram a variedade delinguagem e informações que podem ser apresentadas num cordel. Um exemplo é o folheto deRodolfo Coelho Cavalcante “A menina de doze anos que está falando com a Santa no Ceará”escrito em 1970, mesmo não tendo não de comum com o conteúdo escrito dentro do cordel, oautor aproveita o espaço final e utiliza para fazer um protesto: Abaixo o analfabetismo! O analfabeto coitado, Tenho muita pena dele Em vez dele andar montado O letrado monta nêle Jamais condene você O analfabeto, coitado, Dê-lhe uma carta de ABECÊ Que êle se torna educado É um protesto de Rodolfo Cavalcante pelo reconhecimento dos escritos dos cordelistas -causa pela qual brigou em toda sua trajetória, e também um discurso político pela alfabetização.São varias as estratégias dos cordelistas para expressar suas opiniões, noticiar, fazerpropagandas, protestos. Tinham essa preocupação em diversificar, pois sabiam que seus folhetoseram bem vindos por muitos sujeitos e alguns grupos sociais baianos, para alguns inclusive, ocordel representava a única fonte de informação ao qual tinham acesso, seja pela forma escrita oupelo seu valor mais fáceis de adquirir. O período referente a esse estudo, décadas de 1950 à 1970, é cronologicamente recente.No entanto, este período da nossa história soa para muitos uma realidade distante, senão malcompreendida. Problematizando o “Breve século XX” em A Era dos Extremos, Eric Hobsbawmafirma que um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX, é a20 GALVÃO, op.cit.
  21. 21. 20destruição do passado, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à dasgerações passadas. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo,sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Lembra o ofíciodo historia doe em lembrar o que os outros esquecem, mais importante que nunca no fim dosegundo milênio21. Os folhetos de cordel é, pois, uma das formas de explorar este período, aomesmo tempo que torna possível analisar o seu significado para alguns segmentos das classespopulares. A literatura de cordel como acreditavam seus leitores, era mais confiável do que qualqueroutro meio de comunicação que tinham acesso, ou pelo menos o mais fácil de ser compreendido,sua função de “jornal do sertão” é percebido nas palavras de Rodolfo Coelho Cavalcante ementrevista a orígenes Lessa: “O sertanejo sabe dizer pelo rádio ou por ouvir dizer os acontecimentos importantes. Mas só acredita quando sai no folheto...Se o folheto confirma, aconteceu...” 22 O que valida a literatura de cordel como fonte para estudos históricos? Estequestionamento se insere no centro da discussão em torno da narrativa histórica acalorada nasdécadas de 1970 e 1980 no despontar da “Nova História” quando é colocado em questão muitosparadigma tradicionais, entre os quais o debate teórico da história e da literatura. A literatura é compreendida para além de um fenômeno estético, é também umamanifestação cultural, mesmo sem a intenção de se “escrever história” muitos aspectos que ficamnas entrelinhas do texto é digno de leitura de uma época, um povo, que de um modo ou de outromotivam a arte literária e muito revela sobre ela e as condições em que foram produzidas. Mostrando como o contrário pode acontecer Nicolau Sevcenko A literatura como missãofalando das grandes mudanças ocorridas em todos os setores da sociedade brasileira em torno doséculo XIX e XX, coloca, “Mudanças que foram registradas pela literatura, mas, sobretudomudanças que se transformaram em literatura”23, ou ainda, “os textos artísticos se tornaram aliás21 HOBSBAWN, Eric J. A era dos extremos: O breve Século XX: 1914 – 1991. Companhia das Letras, 1994, p 13.22 BAHIA. Antologia Baiana de Literatura de Cordel. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 1997.23 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.p. 286.
  22. 22. 21termômetros admiráveis dessa mudança de mentalidade e sensibilidade”24, mostra como contextohistórico e literatura dialogam, tornando um parte do outro. Outro ponto de vista a ser analisado é o de Sidney Chalhoub e Leonardo Afonso Pereira, aproposta é historicizar a obra literária como é feito nos ensaios que compõe “A História Contada:capítulos de historia social da literatura no Brasil”, são analisadas obras de Machado de Assis,José de Alencar, Jorge Amado, todos enfatizam caráter histórico da obra literária: Em suma, é preciso desnudar o rei. Tomar a literatura sem reverencias, sem reducionismos estéticos, dessacralizá-la, submete- la ao interrogatório sistemático que é uma obrigação do nosso ofício. Para os historiadores a literatura é, enfim, Testemunho Histórico25. Para os autores qualquer forma de literatura, seja ela uma poesia, conto ou romance é umaevidência histórica objetivamente determinada, digna como os documentos “oficiais”-inventários, atas, alforrias, etc., de serem questionadas, exploradas e analisadas. Sendo válidotambém para a investigação do sujeito, tentando perceber o que testemunha, o que coloca entre oque diz e o real. Na perspectiva desses autores é preciso buscar a lógica social do texto. Partimos agora para o ponto de vista de um lingüista sobre a história. Em O texto históricocomo artefato literário Hayden White deixa sua marca em considerar (como o próprio títulosucinta) as narrativas históricas como ficções verbais de conteúdos tanto inventados comodescobertos e no que diz respeito a forma, considera serem mais comuns com seus equivalentesna literatura do que seus correspondentes nas ciências, concepção que ele próprio admite que esta“fusão de consciência mítica” e da história ofenderá historiadores e teóricos literários que em suaconcepção de literatura contrapõe história à ficção ou do fato à fantasia. Os documentos históricos, segundo White, não são menos opacos do que os textosestudados pelo crítico literário e tampouco é mais acessível o mundo figurado por essesdocumentos:24 SEVCENKO, 2003. Op. Cit. .p. 287.25 CHALHOUB, Sidney, PEREIRA,Leonardo Afonso M.(org). A história contada: Capítulos de Históri social daliteratura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p. 7.
  23. 23. 22 O que tudo indica é a necessidade de revisar, na discussão de formas narrativas como a historiografia, a distinção convencionalmente estabelecida entre o discurso poético e o discurso em prosa, e de reconhecer que a distinção, tão antiga quanto Aristóteles, entre história e poesia tanto obscurece quanto ilumina as duas áreas. Se há um elemento do histórico em toda poesia, há um elemento da poesia em cada relato histórico do mundo26.” (grifo meu) No mesmo ensaio fala da relutância em considerar as narrativas “com o que elasmanifestantes são: ficções verbais, cujos conteúdos são tão inventados como descobertos, e cujasformas tem mais em comum com suas contrapartidas na literatura que na ciência27, numa análiseao que chama por ficção verbal não tira o valor do discurso histórico, acredita que nele possa terelementos de imaginação e ficção da mesma forma que em qualquer outro tipo de conhecimento. Na literatura de cordel estão a poesia, história e ficção, mas sob qualquer forma revelam acontemporaneidade, possibilitando uma gama de leituras.26 WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. [Trad. De Alípio Correia F. Neto].São Paulo: EDUSP. 1995. P. 114.27 WHITE, 1995, op. Cit., p.98.
  24. 24. 23 Capítulo 2: “Os embromadores do povo”: Denúncia,crítica política e social nos folhetos populares. Os folhetos de cordel são para nós registro de uma época, os seus autores se empenhavama passar para a população os fatos que estavam acontecendo em suas cidades, estados ou no país.Mesmo o que não era escrito propositalmente na intenção de divulgar nos é revelador, estessujeitos por estarem envolvidos numa realidade histórica que era comum a seus contemporâneos,queriam mostrar a novidade do fato, não objetivavam primordialmente descrever seu tempo paraservir de fonte para um futuro diferente. Com pretensão ou não era o que estavam fazendo, sendoporta-vozes populares de uma época conturbada. A Bahia sempre apresentou um número significativo de cordelistas que escreviam nacapital e no interior, lembrando que estes versos circulavam muito além dos locais de suaprodução, como exemplo maior uso esta pesquisa que tem dois cordelistas que escreviam seusversos em Salvador e um em Itabuna entre as décadas de cinqüenta a início dos anos oitenta, noentanto o local de consulta das fontes (o cordel) foi na cidade de Conceição do Coité, no ArquivoParticular de Carlos Neves, onde foi encontrado alguns exemplares que não constava na coleçãoda Biblioteca da Casa do Sertão, local onde encontrei a maioria dos folhetos aqui trabalhados. Destes cordelistas baianos, nenhuma figura parece tão enigmática como Cuíca de SantoAmaro, ia com facilidade de homem sincero ao controverso, seus folhetos eram esperados comansiedade por uns e temidos por outros, Rodolfo Coelho Cavalcante em: Cuíca de Santo Amaro:o poeta popular que conheci, relata após a morte do autor:Muita gente da políticaDe Cuíca tinha medoPois o seu estro era fogoQue derretia rochedoQuem mal ato praticasseQue terminava o segredo
  25. 25. 24 Alguns jornais, revistas e trabalhos acadêmicos escreveram sobre sua biografia, jámostravam este lado sarcástico de cuíca, cabe aqui analisar seu discurso nos folhetos queenvolviam política, alvo maior do autor. Cuíca de Santo Amaro era um apelido que acabou sendo seu nome artístico. Só assimficou sendo conhecido em toda Bahia, seu nome verdadeiro é José Gomes, provavelmente seunome fictício dá-se pela sua relação com o município de Santo Amaro, pra onde viajava comfreqüência em sua juventude.28 Cuíca nasceu em 1907 na cidade de Salvador. Ainda pequeno seus pais se separaram e elefoi criado pela sua madrinha de batismo. Não concluiu seus estudos, sendo aluno dos FradesCapuchinos da Piedade, comentava que a eles devia a sua boa caligrafia pelos tantos exercícioscobrados pelos severos professores. Os únicos empregos fixos que teve foi numa tinturaria Portuguesa e na CompanhiaCircular de bondes. Foi para as feiras onde vendia vários tipos de quinquilharias, em 1935,conheceu sua mulher D. Maria do Carmo e para sustentar sua família passou a revender folhetosda “Pernambucana”, uma barraca do Mercado Modelo, que vendia com exclusividade os folhetosdo paraibano João Martins de Athayde. A partir daí fazia folha volante, versos em quadra ou sextilha, inicialmente sobre jogos,depois para propaganda. A população apreciava as folhas volantes e por ser um meio barato osdonos de lojas o procuravam para propagandear seus produtos. Quando Cuíca começou a escrever folhetos, a maioria deles foi destinado à GetúlioVargas, a quem tinha grande admiração por olhar para o povo trabalhador. Se a política deVargas era trabalhista o papel que Cuíca se propôs foi o de defensor do povo, a capa final dosseus folhetos era um espaço bastante explorado pelo autor, num deles logo após a morte deVargas, escreve em convite ao “povo”:28 Os dados biográficos aqui apresentados, foram retirado do livro “Ele o tal. Cuíca de Santo Amaro”, de EdileneMatos.
  26. 26. 25 AVISO PÚBLICO Os trabalhadores baianos convidam o povo em geral para assistir a missa que mandarãocelebrar na Igreja d São Francisco às 8h da manha do dia 24 do corrente em sufrágio da almado saudoso presidente Vargas. (O povo não deve faltar) Cuíca de Santo Amaro Vale aqui um paralelo com o texto “O samba na roda”29 de Alessandra Cruz, uma parte dapesquisa analisa às representações do trabalho nos sambas de Salvador. Sobre este aspecto,problematiza como a crítica do samba enfrentava o discurso ideológico da poética populista deGetúlio Vargas entre os anos de 40 e 50 em formar um tipo brasileiro de homem trabalhador quevenceria a pobreza pelo seu trabalho e a disciplina. Os sambas que analisa debocha e ridicularizaa ideologia do trabalhismo que o trabalho proporcionaria ascensão social “trabalhar e batalhar poruma nota curta”. A posição de Cuíca de Santo Amaro é curiosa ao mesmo tempo em que divulgava apolítica de Vargas como exemplo a ser seguido, produzia folhetos incentivando o povo a pensarna sua posição de pobre e trabalhador explorado não importando se era a favor ou não da políticaVarguista, era uma característica do autor ser contraditório. Em Os embromadores do povo, folheto onde se dispõe a denunciar as falcatruas políticanos discursos anteriores à eleição, é bastante apelativo, mostra a seus conterrâneos as estratégiasutilizadas pelos candidatos para “embromá-los”, era uma forma de alertar a população queestariam se beneficiando momentaneamente, pois passada as eleições acabaria também oprestígio do povo somente lembrado nessa época. Investe na xilogravura, trazendo a imagem de um político fardado, para reforçar suacondição social conseguida pela exploração do povo, assim como sua barriga grande representafartura e a boa vida dessas pessoas, os braços suspensos mostram a euforia dos discursosenganadores a expressão facial passa a idéia de esforço, de empenho em mostrar-se honesto aos29 CRUZ, Alessandra C. “O samba na roda”. Samba e cultura popular em Salvador. 1937-1954.
  27. 27. 26seus eleitores. O escrito e visual neste folheto estão em harmonia com a mensagem passada amesma crítica que traz a sua xilogravura é percebida em linguagem escrita.Através dos seus comíciosComeçam a nos embromarDizem ao povo analfabetoEu vou lhe ajudarEu tenho um lugarsinhoPra você trabalharPorque muito eleitorÉ forçado ao venderVende o voto ao candidatoPorque precisa cumerMais sabe que mais tardeBastante vai sofrerNunca se viu num plenáriaSe debater um problemaPara tirar o povoDe tão difícil dilemaQue é a fome que roe!Como se fosse pastema
  28. 28. 27 Sua linguagem ferina atingia seu alvo, Cuíca de santo Amaro foi detido inúmeras vezespor sua ousadia em falar o que entendia, para tal não fazia rodeios, sua linguagem era direta,vestia-se de fraque, chapéu de coco enfeitado com pena de pavão para trabalhar, seu modo devestir além de atrair o tornava uma figura ainda mais sarcástica. Gritava à população baiana oúltimo escândalo ou notícia nova, seu ponto de trabalho era próximo ao Elevador Lacerda. Fonte 1: Cuíca de Santo Amaro declamando folheto. In: www.enciclopedianordeste.com.br Não diferente dos outros cordelistas aqui trabalhados tinha também seu lado conservador,fazia seu discurso moralista, usando bastante da sua linguagem satírica. O folheto “O namoro no cinema” ilustra bem sua posição, dentre as mudanças decorrentesda revolução das comunicações, tem-se uma abertura aos locais de lazer como foi o caso docinema que começou ter a presença feminina. Além de um novo ambiente era também o local denovidades que passava a interferir no comportamento das novas gerações, as mulheres passaram
  29. 29. 28a seguir as modas das atrizes de Hollywood, mudar o estilo dos cabelos, e fumar, ato até então dohomem30. Era o confronto do sistema patriarcal com a modernização que chegava a Bahia. Entre 1945 e 1955 o “sonho americano” penetrava no país, dando suporte às iniciativas culturais que visavam a atualizar o país com relação à modernidade dos centros industrializados. Adotaram-se suas tendências e seus temas: o cosmopolitismo – em lugar do folclórico e do ruralista; o romance psicológico – em relação à literatura regionalista exarcebada; a renovação da linguagem da imprensa – em substituição às matérias literárias nacionalizantes; a profissionalização de um teatro preocupado com a arte pela arte – sem finalidades propagandísticas; o cinema industrializado e o surgimento da televisão31. As queixas destes maus comportamentos começaram a ser denunciadas por toda partepelos homens, segmentos conservadores da sociedade se opunham a onda modernizadora ecriticavam impiedosamente. Aqui na Bahia, Cuíca denunciava a libertinagem deste ambiente. Definia o cinema comoTodos sabem que o cinemaÉ um antro de perdiçãoTraz o sujeito assassinoFaz o sujeito ladrãoÉ um livro onde as donzelasAprendem a prostituição Faz saber com suas denúncias o que as mocinhas e os rapazes fazem no local, diz que ocinema é um pretexto para a libertinagem, alarma os pais com as suas conclusões. Cuíca se autodenominava como o defensor do povo. Em 1958, Cuíca decide candidatar-sea vereador pelo PTB, só consegue 39 votos, o que atribui ao fato de ser um homem sem posses,era um simples folheteiro. Sua campanha política teria ficado restrito à contracapa de seusfolhetos, ser vereador para Cuíca era uma forma de legitimar sua condição de defensor do povo.30 BESSE, Susan K. Modernizando a desigualdade. Restauração da ideologia de gênero no Brasil, 1914 – 1940.Edusp, 1999.31 MENDONÇA, Sônia Regina. As bases do desenvolvimento capitalista dependente: da industrialização àinternacionalização. In: LINHARES, Maria Yedda (org), história Geral do Brasil, 9 ed, Rio de janeiro: Elsevier,1990, p. 346.
  30. 30. 29 Segundo Edilene Matos a ligação de Cuíca com os políticos da Bahia foi a maiscontraditória possível, atacava e defendia de acordo com seus interesses. No ano da sua candidatura lança o inconformado folheto Bagunça no pleito eleitoral,descreve um cenário de confusão que se ocorreu na capital no dia da votação, a confusão entreeleitores e mesários, denuncia que os eleitores não tinham o que beber, sofriam fome e agonia,mães de família com os filhos chorando, barulho infernal. Todo esse cenário de confusão,segundo ele é devido a nova reforma eleitoral com a tal cédula única. A reforma que Cuíca menciona ocorreu em 1955, abaixo diz a lei:Lei nº 2.582 – De 30 de agosto de 1955Institui a cédula única de votaçãoO Presidente da República:Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguite lei: [ ... ] Art. 6.° Havendo coincidência de eleições para Presidente e Vice-Presidente da República comeleições para preenchimento de outros cargos, o eleitor irá ao gabinete indevassável duas vezes:a primeira para assinalar na cédula única os nome dos candidatos de sua escolha; depois devotar com a cédula única o eleitor receberá do presidente da mesa a sobrecarta oficial com aqual voltará ao gabinete indevassável para votar nos mais candidatos. [ ... ]Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 1955; 134º da Independência e 67º da República.João Café Filho.Prado Kelly. O folheto de Cuíca, é então um testemunho do que teria ocorrido na prática com a novalei, segundo o que descreve no seu folheto não houve organização duas estrofes resumem bem oseu posicionamentoForam as senha distribuídasCom toda inteligênciaPara quem as impertinênciasSó chamava aquelesDa sua preferência(...)
  31. 31. 30Os semi-analfabetosCom esta inovaçãoDigo...a cédula únicaNa hora da votaçãoComo é naturalSó pode fazer confusão Além de mostrar-se irritado com a nova Lei, observamos também o inconformismo com asua iminente derrota, que versos deixam por revelar, chama o eleitor de degenerado por trocar seuvoto por dinheiro, A muita gente pobre/ Estes ambiciosos/ Não votam para gente pobre, nestemomento tudo indica que refere-se a sua própria figura, sua própria condição de trabalhadorpobre, em seguida, com tom de desilusão questiona-se: porque fui me candidatar? Passada aseleições locais, Cuíca volta a falar de política, o inicio da década de 60 vai escrever sobre osgovernos de Jânio Quadros e de João Goulart. Em 1961, marcava o cenário nacional Jânio Quadros assumindo a presidência, várioseram os comentários a respeito da sua figura e da sua vitória, segundo a definição Skidmore,Quadros entrou no cenário político como um corpo estranho, por excelência, por não estar eledefinitivamente identificado como um líder anti-vargas (embora ninguém o considerasse jamaisum Getulista) foi visto como um tipo capaz de transcender as linhas estabelecidas do conflito.Isto pareceu, então, muito mais possível devido à sua bandeira eleitoral carismática. 32 Ainda com base em Skidmore, a análise da política Quadros como sendo populista ounão, há dificuldades em responder, mas é certo que tinha característica deste estilo, como ocandidato dinâmico, presente e que passava confiança a seus eleitores. Aqui na Bahia, os cordéissão uma prova cabal dessa confiança que Quadros passava ao povo brasileiro. Cuíca, falando sobre A retumbante vitória de Jânio Quadros traz neste folheto expressõesque mostram essa boa expectativa, no seu caso em particular nota sua relação com a classetrabalhadora ao falar da trajetória de Quadros coloca que conquistando a confiança do homemtrabalhador, Jânio Quadros consegui se eleger. Quanto ao marechal Teixeira Lott, coloca que este não poderia ganhar, mesmo sendo umhomem honesto, mas o considera “estar bem entrosado/ para dirigir militar”. Cuíca também32 SKIDMORE, Thomas. Brasil de Getúlio a Castelo. 14. ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 2008, p. 231.
  32. 32. 31descreve o “berreiro” dos eleitores de Lott, os que perderam dinheiro, viviam em palanques queagora estavam cabisbaixos. Sobre o povo baiano, diz que muitos votaram em General Lott, por uma questão políticaestadual na pretensão de se vingar do governador. Neste folheto traz duas preocupações com a renovação da máquina administrativa eprincipalmente, a cobrança em olhar o povo nordestino, a cobrança é uma característica marcanteem Cuíca que não deixa se entusiasmar de todo, pois mesmo confiante nas mudanças que poderiaocorrer com o governo Quadros lembra que vai cobrar o que foi prometido, isso fica claro nosversos abaixoAgora compete ao JânioDepois que se elegeuSe lembrar do nortistaDo povo que sofreuJânio deve se lembrarDaquilo que prometeu Essa cobrança de Cuíca aconteceu. Depois da renúncia de Quadros ele lança o folhetoJânio Quadros e suas... em que vai mostrar o descontentamento com o ato do presidente, fazmuitas lamentações, afirmando o povo brasileiro como sofrido principalmente o pobre residentena Bahia, passagem que concorda com o velho ditado de que o pobre vive de teimoso, no casodos brasileiros ( em maior grau o nortista) vive entregue à sua sorte. Cuíca diz que mesmo assimrestava uma esperança, pois tinha uma fé duradoura, utiliza palavras como certeza e convicçãopara reiterar a expectativa que tinham no homem da vassoura como chefe da nação, que, noentanto quando começou a guiar o país se pôs a cometer desatinos, fala da exoneração de muitagente dos seus empregos e da tentativa do presidente pagar a divida externa. Em tom irônico diz que:Para que o BrasilLevantasse sua moralE perante as naçõesFicasse no pedestalO presidente Jânio QuadrosDecretou a lei cambial
  33. 33. 32 Depois comenta das conseqüências desastrosas com o custo de vida subindoassustadoramente, o aumento da exploração, o preço do transporte. É interessante notar a suascolocações, numa passagem, por exemplo, diz que o operário vive em aflição “pois é que tem quepagar/ A dívida da nação” desacreditado diz que essa dívida nunca vai ser paga pois com tantaganância só tende a aumentarEste povo brasileiroQue reside cá no norteEstes pobres operáriosQue elegeram um homem forteEntregues a própria sorte Aproveitando todos os espaços do cordel para expressar sua indignação, coloca na páginafinal do folheto A marcha da vassoura, o nome da música “O teu cabelo não nega” onde assinasua autoria Letra D’ele o tal – Cuíca de Santo AmaroA Marcha da VassouraA sua vassoura não nega! oh JânioNinguém jamais a pode quebrarFeitiço n’ela não pega o! JânioEnquanto ela funcionar (Bis)(CORO)Oh! Que durezaPara o operárioJânio diz ser necessárioSubiu o açúcar, carne e feijãoPara poderPagar a dívida da naçãoQuanta afliçãoA sua vassoura não nega etc. Ironiza o peso dos planos de Jânio Quadros em quitar a dívida externa do país sobre otrabalho do operário, sendo este o que mais passaria dificuldade com a elevação de preços, outravez Cuíca se põe ao lado do trabalhador. No governo de Quadros foram feitas músicas colocando-o como o varredor de toda“sujeira” existente no país, a música principal da sua campanha, era de Maugeri Neto, chamava-se “Varre, varre, varre, varre vassourinha”, em um trecho da música diz; Varre, varre, varre, varre
  34. 34. 33vassourinha/ varre, varre a bandalheira!/ Que o povo já ta cansado/ De sofrer dessa maneira/Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado.” Depois de lançar esse folheto mostrando o descontentamento do povo com arenúncia de Quadros, publica o cordel sobre A posse de Jango Goulart . Em resumo, pode-se afirmar que houve um violento debate sobre a sucessão de Quadrosapós sua renúncia, mesmo estando claro pela constituição de 1946, que o procedimento a serseguido era que o vice-presidente substitui o Presidente, mas também dizia que, no caso deausência do vice, o presidente da câmara dos deputados seria o próximo da linha sucessória. Os militares se dividiam quanto a posse de Goulart, por outro lado a opinião públicacrescia a favor da sua posse como sucessor legal, era a chamada opinião “legalista”, ondeestavam inclusas as forças populares, lideradas por estudantes esquerdistas, líderes trabalhistas eintelectuais. A dois de setembro, o congresso adotou a emenda instituindo um sistemaparlamentarista. Os militares compreenderam que não poderiam sobrepor-se à divisão existenteno próprio exército e nem ignorar a reação pública à sua tentativa de veto, o parlamentarismoteria sido uma solução de emergência. 33 Cuíca não detalha os problemas da sucessão de Quadros, relata até numa posição um tantoromântica dos acontecimentos que a democracia e a legalidade teriam vencido, elogia a largavisão das forças militares que respeitaram a constituição, e os dois de modo geral contribuírampara que o Brasil voltasse a tranqüilidade sem ter que derramar sangue, o momento escapa aofolheto da agitação que realmente havia ocorrido. Moniz bandeira discorre sobre a turbulência do período Goulart, no entanto, recebeu do congresso um poder mutilado, enfraquecido, quando a situação do Brasil mais exigia um governo forte, cntralizado, para efetuar as mudanças que o desenvolvimento do capitalismo reclamava. A renúncia de Quadros expressara essa necessidade. Ele julgara a constituição estreita, inadequada, e tentou traumatizar a Nação, com aqueles gestos, a fim de compelir o congresso aproveitou a oportunidade para dar o golpe e reduzi- los, com a emenda parlamentarista, cujo hibridismo sacramentava o impasse constitucional. Nem Goulart nem o Conselho de Ministros, aprovado pelo congresso, tiveram forças assim, para enfrentar a situação, que a espiral inflacionária deteriorava34.33 Skidmore,2008. op. Cit. P. 252 a 265.34 BANDEIRA, Moniz. O governo João Goulart. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1977, p. 43 a 44
  35. 35. 34 Cuíca nesses primeiros versos do folheto vai então falar da aprovação por parte de civis emilitares pela posse de Goulart, sem, contudo, apontar as desavenças.Civis e militaresNum gesto conscienteResolveram dar posseAo vice presidentePara que o BrasilAonde sempre para frente Logo em seguida já começa a criticar pontos desfavoráveis de ter no país um regimeparlamentar, acusando de ser contrário aos trabalhadores e também ao direito do eleitor e,sobretudo, tira a força do presidente da nação, questionando do que vale ser presidente paraoutros governar, interessando exclusivamente para quem é parlamentar. Cuíca agora em toma mais satírico fala da mudança na constituição com a adoção desseprocesso, argumentando que o Brasil desde o descobrimento sempre foi dirigido por homens deética, sem precisar de parlamento e sobre este atribui uma crítica.Eu lendo minuciosamenteA sagrada escrituraVi atravésDaquela literaturaQue a nova leiÉ uma pequena ditadura É importante notar que o povo se encontrava à par do era o sistema de governoparlamentarista, até a tomada de posse Cuíca narra com tranqüilidade e como já foi dito, até emtom um pouco romântico. Mas depois dirige críticas ao governo parlamentarista, este teria sidoarticulado por uma pequena elite, segundo Skidmore foi um recurso, uma solução para a crisepolítica, foi o resultado de longa campanha de um pequeno grupo de partidários do sistemaparlamentarista35, de fato, o folheto mostra em outros termos esse descontentamento do povo, queainda não se encontravam dentro do sistema imposto É uma pequena ditadura, analisava Cuíca. No período do mandato de Goulart, Cuíca escreveria um outro folheto bastante polêmiconarrando a briga entre David Nasser e Brizola.35 Skidmore,2008. op. Cit. P.260.
  36. 36. 35 Brizola companheiro de Goulart, tinham juntos entrado para o PTB em 1945, dois anosmais tarde foram eleitos deputados estaduais. Foi Deputado Federal, prefeito de Porto Alegre egovernador do Estado. Aparece em 1961 no cenário nacional ajudando seu cunhado na“Campanha da legalidade” que empreendeu na intenção de mobilizar o país para a posse deGoulart. Com a aceitação de Goulart pelo parlamentarismo, Brizola se opunha ao cunhado. Se porum lado Goulart tentara uma política de conciliação entre o PTB e PSD, a estratégia de Brizolaera de confronto. Representava no PTB os militantes mais esquerdistas “os nacionalrevolucionários”36 Incontente com o posicionamento do presidente, Brizola lhe aplicaria criticas constantes.Se a esquerda o atacava, a direita conspirava para derrubá-lo. David Nasser conhecido jornalista dos anos 50 e 60, era escritor da Revista O Cruzeiroatacava constantemente presidente João Goulart e mais assiduamente Brizola, defendia oposicionamento da direita no país. Como defensor da direita atacava a esquerda, sendo seu alvo predileto Brizola Num de seus artigos criticava pesadamente Brizola, era intitulado “Resposta a um pulha”,chamando-o de demagogo e fazendo provocações. Irritadíssimo com a edição e tendoconsciência de que a Revista o Cruzeiro era reconhecida nacionalmente, Brizola prometia vingar-se dos ataques de Nasser, como de fato fez. Ao encontrá-lo no aeroporto Galeão atingiu ojornalista com um soco de surpresa. Os jornais da época junto com a revista O Cruzeiro divulgava o ocorrido, e Cuíca comfolheto David Nasser e Brizola alarmava o fato à população baiana. Cuíca se posicionava a favorde Nasser e de sua função de jornalista, defende Nasser:Mesmo esbofeitadoO Nasser se dá ao luxoDe revelar falcatruasDo deputado gaúchoDemonstrando ao brasileiroQue agüenta com o repucho36 Retirado In: FERREIRA, Jorge. Nasce um líder as esquerdas. In: http//www.revistadehistória.com.br.
  37. 37. 36 Esse “agüenta com repucho” insinuado por Cuíca, foi o fato de David Nasser continuar aatacar Brizola e agora em tom muito mais irônico e sugestivo, neste posto vale uma semelhançaentre o modo de escrita de David Nasse e Cuíca de Santo Amaro, talvez por essa identificaçãodefenda ferozmente no seu folheto o jornalista de O cruzeiro. Na revista O cruzeiro de 18 de Janeiro de 1964, David Nasser dava sua resposta a nívelnacional, escreve sobre o fato: O Coice do Pangaré37“Humilhado com a mão ida para o Ministério da Fazenda, onde repetiria, certamente, osdesmandos que praticou no governo do Rio Grande do Sul – percebendo que cada dia perdeterreno com o aumento da resistência democrática, o Deputado Leonel Brizola perdeu a cabeça– e resolveu quebrar a minha, é a explosão natural de todo primário.”Sobre a iminência de um golpe, Nasser faz provocações sobre o que pode acontecer se a direitatoma o poder, faz insinuações à revolução:“Volto a repetir: vocês estão em pânico. A hora final se aproxima para os profetas da revolução.Não tarda o momento em que o furacão do civismo varra este país. Até então, suportaremos,estoicamente as agressões pelas costas e esperamos, com paciência franciscana, que o venenodemocrático dê cabo dos ratos.” Sentenciava Cuíca: Acontece que o David Nasser Que apanhou barbaramente No seu modo de entender Pensa diferente Continua ele a atacar Brizola e o presidente37 Revista O Cruzeiro, de 18 de Janeiro de 1964. Encontrada a Biblioteca Monsenhor Renato Galvão do Museu daCasa do Sertão/ UEFS.
  38. 38. 37 Nasser que é carne de cabeça Como ninguém ignora Continua botar do Brizola Os seus poderes prá fora Isso todo dia! Toda noite! Toda hora Esse era o tipo de folheto que Cuíca de Santo Amaro mais apreciava fazer, abusar do seutom irônico. Parecia encontrar realmente em Nasser uma referencia de escrita, pois em questão devalores, se dedicava mesmo a escrever para o povo e sobre ele. Interessava ao seu publico leiturasde ordem cotidiana, no folheto A discussão da carne verde com pão que escreve na década de50, a discussão começa com a carne interrogando ao pão por que havia deixado o povo na mão, opão apontaria que a causa toda da exploração é o Juscelino presidente da nação E ele o Kubtschek Que se diz o soberano E vai como se diz Por debaixo do pano Tomando muito dinheiro Em mão de americano Com extrema facilidade Cuíca atacava qualquer gesto de político que viesse a atingirdiretamente a mesa do povo, para que o povo saiba “que não é culpa do açougueiro”, tinha umavisão ampla de mundo, num outro folheto chamado Dívida de funcionário nunca termina, criticao aumento dos preços e a imobilidade do salário Até caixão de defunto Onde vai ser enterrado Já subiu também de preço Quando é bem acolchoado Sobe palma, e capela Mais não sobe o ordenado Dos três autores aqui estudados Cuíca é o mais destemido, não tinha medo de ser detido,pois já havia virado hábito, narrava a realidade da Bahia e não lhe importava a quantos issoatingia, todos na Bahia daquela época já ouvira falar em Cuíca de Santo Amaro Ele, o Tal como
  39. 39. 38gostava de ser lembrando, viraria personagens das obras de baianos como Jorge Amado e DiasGomes. Cuíca morre no ano de 1964, grande perda para o cordel como lastimava Rodolfo CoelhoCavalcante.
  40. 40. 39 Capítulo 3: “O Dragão do fim da Era”: O cordel nocombate ao perigo comunista no Brasil A década de 1950, em rápida analise, fora marcada pela modernização e por uma série demudanças ocorridas no Brasil, versava o poeta “O Brasil não para”38 e nos anos 60 o mandatojanguista, o crescimento da esquerda no país e o conseqüente golpe por lideranças militaresnacionais marcariam uma década conturbada dando um novo rumo a todos os setores dasociedade brasileira. A análise política deste período é minuciosa e ricamente conhecido pelos estudos dehistoriadores como Thomas Skidmore, jornalistas como Elio Gaspari e outros consagradosestudos desse período, tentando compreender o significado dessas transformações para classesmais abastadas da sociedade utilizamos os Folhetos de Cordel de Rodolfo Coelho Cavalcante. Cavalcante não é baiano de nascimento como Cuíca de Santo Amaro e MinelvinoFrancisco da Silva. De acordo com a proposta desse estudo analisaremos apenas folhetos quetiveram como espaço de produção a Bahia nos anos de 60 a 80, Rodolfo Cavalcante morou amaior parte de sua vida em Salvador e foi na capital que se assumiu cordelista de profissão eproduziu a maioria dos seus folhetos.39 Alagoano, nascido em 1919, é filho de operários. O trabalho e o vício de seu pai embebidas alcoólicas, fez com que familiares de dispusessem a criar por certo período Rodolfo eseus irmãos. Rodolfo foi adotado por sua avó dona de uma “Escolinha de ABC” foi quandoaprendeu a ler, gosto que seria desenvolvido pelo grande apreço que tinha por jornais a seu avôatribui os primeiros incentivos com os versos. Retorna à casa de seus pais aos oito anos de idade, matriculado numa escola estudava pelamanhã e o resto do dia vendia frutas, tapioca e “pegava frete”. Com o pai desempregado Rodolfosai definitivamente da escola para trabalhar como camelô. Por várias vezes fugiu de casa na38 Verso do folheto Independência do Brasil.39 Os dados biográficos do autor foram retirados do livro “ de Eno Teodoro Wanke, o autor denomina sua obra comouma biografia-reportagem-pesquisa, porque primeiro se baseia nas próprias narrativa de Rodolfo Cavalcante, falandoda sua trajetória na vila operária alagoana até se firmar como folheteiro em Salvador, daí por diante, baseia-se empesquisas documentais a exemplo do primeiro estatuto de uma associação de trovadores de cordel e da reportagemsobre cordelistas.
  41. 41. 40companhia de seu irmão mais novo, ora motivados pelas ameaças do pai ora pelo medo deapanhar da mãe quando a desobedeciam, numa dessas fugas foi ser artista de circo – que tinhaplatéia significativa naqueles anos, era uma opção de diversão popular se comparado ao teatro -familiarizava-se com os espetáculos. Por volta de 1938, foi professor primário na cidade de Porto Alegre (do Piauí), mesmocom sua pouca escolaridade foi considerado apto para dar aulas. Nesta localidade ouvia tantashistórias sobre o boi Labirinto que se propôs a fazer uma rima a seu respeito, era seu primeirofolheto. Sempre inquieto Rodolfo prosseguiu em suas andanças, foi a Parnaíba, Sobral e Fortaleza.Em 1939 decide voltar para a casa da sua família em Maceió. Foi nesta viagem que adquiriu emParnaíba um lote de folhetos de João Martins de Athayde, iniciando assim sua carreira devendedor de versos. Rodolfo e seu irmão Ari, voltariam a sair de casa, desta vez montaram uma“troupe” de teatro de fantoches encomendando-os a Sinézio Alves40 e saíram de cidade emcidade, numa dessas andanças conheceu e casou com Hilda Moreira de Freitas de início houverelutância por parte dos pais que não queriam sua filha com um “artista de circo”. Casado,Rodolfo decidiu parar de viajar, essa decisão vai se efetivar principalmente depois do nascimentodos filhos. Com a sua instalação na Bahia em 1945 “suas andanças terminam, sua produção se firmae ele sobe em sua carreira profissional.”41. Na década de 1940 e 1950 o governo de GetúlioVargas foi um dos assuntos mais constante nos folhetos de Rodolfo Cavalcante sua deposição,campanha eleitoral e reeleição. A sua morte assim como a de Castelo Branco, anos mais tarde,lhe rendeu mais de um folheto. Na produção dos cordéis, o próprio Rodolfo era quem o montava , fazia a dobragem -dizia-se especialista em folhetos de oito páginas - colagem e grampeamento, pagava somente pelaimpressão, uma das principais Tipografias que comentava Rodolfo era a “Tipografia Moderna”no Pelourinho, imprimia, editava jornais e folhetos, no “ABC dos seus benfeitores” cita aTipografia Santa Bárbara em Salvador e seu proprietário Orlando como o maior editor dos seusfolhetos. É importante registrar a importância do aumento do aparecimento das máquinas40 Sinézio Alves é um importante xilógrafo baiano, autor de inúmeras capas dos poetas conterrâneos.41 WANKE, Eno Teodoro. Vida e luta do trovador Rodolfo Coelho Cavalcante (biografia). Rio de Janeiro: FolhaCarioca, ed. 1983, p. 106.
  42. 42. 41impressoras e das tipografias deste período, aumentava a produção destes folhetos espalhando portoda a Bahia, sobretudo nas regiões interioranas. Rodolfo toma o cordel como profissão, a Praça Visconde do Cairu era o seu local detrabalho, aproveitava o espaço movimentado para fazer a propaganda dos seus folhetos, e nissosua experiência em espetáculos de circo sem dúvida o tivera ajudado a dramatizar e seusmomentos de camelô teria ajudado a propagandear muito bem seus folhetos. Fonte 2: Rodolfo Coelho Cavalcante, Salvador, BA, 1985. In: CURRAN, Mark J. História do Brasil em cordel. Edusp, São Paulo, 1998. P. 253. Que tipo de folheto vendia Rodolfo? Produzia folhetos de todos os tipos, a um certoponto da sua carreira seria exceção folhetos “licencioso e sexualistas”. Discursava que seusfolhetos eram moralistas e fazia isso em prol da educação do povo baiano. Na Bahia versos comconotação pornográfica eram comuns e bem vendidos, Rodolfo reclama essa normalidade, mas
  43. 43. 42também já os tinha escrito, produzira versos com duplo sentido, em alguns casos usava dopseudônimo de Zé Pindoba e afirmaria que teria se arrependido e que os teria produzido pela suanecessidade financeira o que sugere que estes tipos de folhetos tinham boa vendagem, ocorre queRodolfo toma partido contra a escrita desse tipo de folheto. A causa mais evidente dessa negação aos folhetos licenciosos encabeçada por Rodolfoseria sua experiência religiosa. Com a família teve educação católica, converteu-se aoprotestantismo e em seguida para o espiritismo “Faço meus versos, minhas histórias, todas comfundo moral. O mundo está precisando disso, sou pelo espiritualismo e não é possível que ascoisas continuem com estão”. Levaria a frente seu propósito a ponto de ser pauta em 1955 noPrimeiro Congresso de Trovadores e Violeiros que ele presidia. Rodolfo dizia não gostar de política, no entanto muitos de seus folhetos são sobre apolítica nacional e é correto afirmar que os escrevia com certa freqüência. No folheto O que Jânio Quadros está fazendo pelo Brasil, narra a vitória de JânioQuadros e descreve a situação de um país que desde os anos 50 com a morte de Vargasencontrava-se “em desordem” segundo sua óptica, Dutra não resolveu a situação e Kubitscheck“Foi um governo gigante/ Entretanto a ladroeira / Avassalou bastante”. Nesse folheto nos permite visualizar a esperança que grande parte da população via nafigura de Jânio Quadros, percebemos o efeito da propaganda política desse governo com avassoura como símbolo da sua campanha. Interessante notar seu reflexo. Em seu discursoRodolfo coloca todo um ambiente de corrupção e a vassoura Janguista seria a responsável emeliminar os políticos desonestos e oportunistas. Na mesma linha de pensamento que seucompanheiro Cuíca de Santo Amaro, Rodolfo escreve sobre Jânio Quadros. Sobre seus feitos escreve: Cortou os funcionários De várias repartições Porque eles não cumpriram As suas obrigações Muitos deles ocupavam Três empregos, não ligavam Nenhuma de suas funções E também os militares Que estavam no exterior Ganhando sem fazer nada
  44. 44. 43 Em posto superior (...) Atacava a política de Kubitscheck, no tocante a Brasília insiste nesta questão porconcordar que o presidente tentava desvencilhar atenção a outros problemas de cunho econômicoe social com a construção da nova capital. Enquanto o senhor Juscelino Só para Brasília olhava Tudo isso acontecia E ele pouco ligava Era emitindo dinheiro E o povo brasileiro A cada dia agonisava Segundo Maria Victoria de Mesquita Benevides, a inflação foi a principal fonte de oposição à política econômica do governo, principalmente por parte da “direita”, tornando-se também um dos elementos da propaganda Janista que pregava a “estabilidade de preços , política de austeridade para todas as classes” etc., levando à vitória o candidato das forças oposicionistas em 196042. Subiu xarque, subiu pão Subiu arroz e café Leite, mnteiga e farinha E o querozene até Subiu transporte e feijão Logo em seguida a crítica que tece ao governo no Kubitschek coloca a sua expectativa pelo governo de Jânio De acordo com meus cálculos Eu creio que o presidente Ao depois de controlar O Brasil perfeitamente As coisas irão baixar42 BENEVODES, Maria Victoria de Mesquita. O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidadepolítica, 1956 – 1961. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, 3º ed. P. 234-235.
  45. 45. 44 Acreditava que Jânio iria corrigir ou controlar os erros de Kubitschek, essa visão dogoverno Juscelino Kubitschek era um posicionamento quase comum, apesar do dinamismo deJuscelino Kubitschek, era acusado de corrupto e economicamente inepto, permitindo umainflação até então inédita na História do Brasil43. Os cordelista revelam em seus folhetos o dia-a-dia, experiências e sentimentos do povo.Se neste folheto transparece as expectativas em torno do governo Quadros, o seu folheto seguinteescrito em 1961 revela uma situação comum de seus contemporâneos, o impacto da sua renúncia. Pelo folheto intitulado A renúncia do Ex-Presidente Dr. Jânio Quadros é possível afirmarque não diferente dos outros estados brasileiros, os baianos também estavam aturdidos com o atodo presidente e mais ainda aqueles que depositavam confianças em ser um governo prospero. Cavalcante procura justificativas a postura do presidente “o problema real/ da suarenúncia/ foi a linha democrática/ cuja lhe causou denuncia” e sobre os rumores da sua ligaçãocom Cuba “não era “imperialista/nem “esquerdista” , em verdade” e da condecoração dopresidente com a Ordem do Cruzeiro do Sul considerada a maior condecoração brasileira dada aestrangeiros, versa: Se ele condecorou A embaixada dos cubanos Condecorou cidadãos Europeus, americanos. Na “esquerda” ou na “direita” Aplicava uma receita De acordo com os seus planos Acreditava que era uma estratégia de governo e que seu jeito arrojado e destemido fizeracom isso levar o Brasil a frente, e, sobretudo seus versos tem o intuito de driblar os comentáriosda possível ligação que estabelecia com a esquerda. Além da questão política, Rodolfo demonstra satisfeito com as medidas de cunho moraladotadas por Quadros, o que para seus críticos e adversários soava como uma maneira dedesvencilhar e fugir dos reais problemas pelos quais passava o país é tomado por Cavalcantecomo uma regularização dos costumes da decência e da moral.43 SILVA, Francisco Teixeira da. A modernização autoritária: Do golpe à redemocratização 1964/1984. In:LINHARES, Maria Yedda (org), Historia Geral do Brasil, 9 ed, Rio de Janeiro: Elsevier, 1990, p. 356.
  46. 46. 45 Os desfiles de maiôs Rigorosamente se impôs O respeito principal (...) Jânio queria acabar Com o jogo, certamente, Achando que a jogatina É um comércio indecente (...) Identificara-se com as medidas de quadros, como já é sabido Cavalcante se colocavacomo um homem conservador e seus folhetos se direcionam nesse momento ao contra-ataque ànova sociedade que despontava, no pós-guerra tanto homens como mulheres começavam a deixaros cabelos crescer, os jovens se identificavam com o Rock e vivia-se o período de maiorliberdade sexual da história humana44. Em contrapartida Cavalcante escreve o folheto Cabeludos de ontem e cabeludos de hojeem que faz um paralelo entre os cabeludos do tempo de Moisés, em que Isac, Abraão, Jeremias,Salomão e até “Cristo – o redentor querido/ como todo Nazareno/De parte simples, sereno/Tinhao cabelo comprido!” aponta que foi em Londres então que surgiram essas idéias avançadas emodas depravadas Começando pelos Beathes Quase todos os cantores Deixaram crescer cabelos, Suas barbas e podores, Dando para mocidade Maus exemplos, na verdade, De eróticos corruptores Coloca que todos os cabeludos são marginais contrários a moral dos antigos. Estesdesviam as moças de família e não tem civismo. Cavalcante julga necessário a criação de uma leina qual combatam os cabeludos que estão levando a pátria ao abismo. A xilogravura indica osmodernismos da época, juventude despojada e cheia de estilo que em nada agradava àqueles queprezavam a sociedade moralista.44 GASPARI, Elio. A Ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 213.
  47. 47. 46 Havia setores da sociedade brasileiras bastante tradicionais em choque neste momento demodernização, não aceitava as mudanças e as atitudes da juventude, o posicionamento deRodolfo Coelho Cavalcante é mais um elemento que comprova esse enfrentamento da tendêncialiberal dos jovens e o conservadorismo secular. Neste mesmo sentido escreve As modasescandalosas de hoje em dia, mostrando a moda depravada da nova geração com a infânciacorrompida que lê “Revista sexual/ É a primeira leitura/ Fantasma, zorro, coyote/ E a sualiteratura. Critica a moda que da ao homem feminilidade e em caminho inverso a masculinização damulher, nos seus versos questiona Alguém diz: ele ou ela? Só parece uma mocinha... Com a calça apertadinha Passeiando de chinela Moça com calça de homem

×