1  UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB    DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV              COLEGIADO DE HISTÓRIA     ...
2             JAIR MOTA JUNQUEIRAFESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A                      2011                 A...
3         FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS 1990 A 2011                                                                 ...
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10     Como explana Bakhtin (2008), as festas oficiais tendiam a consagrar aestabilidade, a imutabilidade e as perenidades...
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12     A questão da representação com figuras típicas da cultura nordestina, a exemplodo homem interiorano e dos alimentos...
13receio no sentido de que a festa não corresponda às expectativas em termos deorganização, público e atrações musicais.  ...
14pois essa presença, principalmente nos anos em que ocorrem os pleitos eleitorais, éfundamental para o sucesso nas urnas....
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16financeiramente apenas acompanhavam. Notava-se a grande vontade de algumascrianças, pertencentes à elite, em participar,...
17cerca de 30 mil reais. Assim, como em Campina Grande e em Caruaru, se transforma namaior fonte de lucros do ano para o D...
18O sagrado e o profano no São João     Apesar das festas juninas serem atribuídas aos santos, Antônio, Pedro e João, emvi...
19                        aproxime para que no dia de São João, ao saltar a fogueira, façam                        antes u...
20     Os senhores e senhoras são atores principais na realização de cultos, quermesses emissas. Talvez, não se identifiqu...
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23quantidade de adeptos. Para representar os ideais de seus participantes sãoconfeccionadas, todos os anos, camisas com fr...
24povo sai às ruas desprovido dos preconceitos cotidianos para beber, dançar, enfim,manifestar suas carências, desejos e d...
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26     Nos festejos juninos em Bandiaçu, verifica-se de forma bastante diferenciadas apresença de manifestações profanas, ...
27                                    REFERÊNCIASALDÉ, Lorenzo. Isto é São João? Revista História Viva (RHBN). Junho, 2009...
28RIBEIRO, Darcy. Documentário: A invenção do povo brasileiro. CinematográficaSuperfilmes. Brasil, 2000.RUSSO, Marcelo. Fe...
29                                    EntrevistadosAntônio Martir Mota, 68 anos, aposentado. (12/08/2011).Antônio Lucivâni...
30                                               Anexo       Imagem 1. Início da Alvorada (2006).              Imagem 2. E...
31Imagem 7. Representação de uma casa de farinha (2011). Imagem 8. Representação de um motor de sisal                     ...
32  Imagem 10. Pessoas dançando na praça (2006).      Imagem 11. Palco, dividindo a praça (2011).                         ...
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Festas juninas em bandiaçu dos anos de 1990 a 2011

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Festas juninas em bandiaçu dos anos de 1990 a 2011

  1. 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE HISTÓRIA JAIR MOTA JUNQUEIRAFESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A 2011 Conceição do Coité 2011
  2. 2. 2 JAIR MOTA JUNQUEIRAFESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A 2011 Artigo apresentado ao Departamento de Educação do Estado da Bahia (UNEB), curso de licenciatura em História, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciado em História. Orientadora: Prof. Ms. Adriana Teles Boudoux Conceição do Coité 2011
  3. 3. 3 FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS 1990 A 2011 Jair Mota Junqueira1RESUMO A festa revela não apenas os momentos festivos de uma localidade, mas tambémas vivências cotidianas, suas identidades, valores e tensões. O artigo discute asfestividades no mês de Junho, enfatizando o São João, focando o distrito de Bandiaçu2no município de Conceição do Coité dos anos 1990 a 2011. Para tanto, são analisadas asimbricações entre as esferas sagradas e profanas; as relações políticas existentes nessafestividade; continuidades, mudanças e dificuldades que se efetivaram ao longo dosanos. O objetivo será entender suas origens e perpetuação, recorrendo, portanto, àsnarrativas dos participantes bem como registros fotográficos.Palavras-Chave: Festas Juninas. Sagrado. Profano. Política.ABSTRACT The party reveals not only the festive moments of a locality, but also the dailyexperiences, their identities, values and tensions. The article discusses the festivities inJune, focusing on John, focusing on the district Bandiaçu in the municipality ofConceição do Coité the years 1990-2011. To this end, we analyze the interplay betweensacred and secular spheres, the political relations existing at that feast; continuities,changes and difficulties that they conducted over the years. The goal is to understand itsorigins and perpetuation, using, hence the participants narratives as well asphotographs.Keywards: State Fairs. Sacred. Profane. Politics.¹ Estudante do curso de História da Universidade do Estado da Bahia, Campus XIV. Pesquisadesenvolvida sob orientação da Professora Adriana Teles Boudoux.2 Esse distrito situa-se no município de Conceição do Coité, em pleno semi-árido nordestino. Está a cercade 10 km da sede. Sua economia baseia-se na agropecuária, nos benefícios do INSS e mais recentemente,nos valores repassados pelo governo federal através do programa Bolsa Família. (IBGE, 2010).
  4. 4. 4Considerações introdutórias Este artigo tratará sobre festejos juninos no distrito de Bandiaçu dos anos 1990 a2011. Esse recorte temporal dá-se pela incorporação de algumas novidades nos festejosnesse período. Será dada ênfase à festa de São João, que é a manifestação maiscomemorada. Percebe-se, após algumas leituras, que os festejos do mês de Junho (SantoAntônio, São João e São Pedro), de forma geral, são tratados como O São João, poralguns autores, na mídia, em propagandas e principalmente entre os populares, nãohavendo, portanto, uma distinção acentuada na comemoração dos santos. Também será analisado o famoso Rapa, uma tradição que, ao que tudo indica,teria sido iniciada na localidade no dia 25 de Junho, entre os anos de 1967/68 porpopulares que, inconformados com o final das festas, resolveram sair de casa em casa,recolhendo as comidas e bebidas que haviam sobrado das comemorações. Essamanifestação encontra-se em crise desde início do século XXI, quando apareceram osprimeiros sinais da “decadência”, percebida após sucessivos períodos de diminuição naquantidade de adeptos, que talvez tenha ocorrido pela concorrência de povoadosvizinhos, os quais passaram a copiá-lo, e da má organização facilmente percebida noevento. O objetivo do trabalho é perceber como se deu a introdução dos festejos locais,suas permanências, mudanças e influências, dialogando com manifestações análogas emdiferentes lugares, percebendo e discutindo semelhanças e diferenças culturais eregionais. Foram utilizados livros, artigos, textos e imagens que tratam sobre o conteúdo demaneira geral. Porém, como não existe nenhum trabalho sobre o assunto específico dalocalidade, entrei em contato com moradores locais que presenciaram os fatos, assim,através da oralidade, buscarei preencher as lacunas deixadas pela ausência dedocumentação escrita. A história oral, segundo Paul Thompson, é a interpretação da história e dasmutáveis sociedades e culturas através da escuta das pessoas e do registro de suaslembranças e experiências. Esta surgiu no século XX, com o intuito de diversificar asfontes e somar-se às escritas. Em muitos casos, é o único meio de registrar e analisarcostumes e hábitos que não dispõem de documentos escritos. Porém, ela é seletiva,estando sujeita tanto a esquecimentos, quanto a acréscimos e silêncios.
  5. 5. 5Origens do São João e sua inserção no Brasil e em Bandiaçu Segundo Campos (2007, apud Araújo, 1957; 1973), os estudiosos situam asorigens das comemorações juninas entre os povos arianos e os romanos, na Europa, naIdade Antiga. As festas eram consideradas parte dos rituais de celebração da passagempara o verão (inverno no Hemisfério Sul). A população rural promovia as festas paraafastar os espíritos maus que provocavam a esterilidade da terra, as pestes nos cereais eas estiagens. No decorrer da Idade Média, a festa foi cristianizada e a Igreja Católicadeu-lhe como padroeiros os santos cujas datas localizam-se na época da mudança deestação. Chianca (2009) comenta que o São João passou a ser comemorado na Europa apartir do nascimento de João Batista, no dia 24 de Junho. A fogueira que o representateria sido acesa por ordem de sua mãe Isabel para avisar a Maria, sua prima e mãe deJesus, que se encontrava em outro ponto do vilarejo, que havia dado a luz. De acordo com Chianca (2009), buscando manter a hegemonia, evitando práticasque pudessem distanciar os fiéis de seus dogmas, a Igreja Católica reagiu de formaáspera à prática de acendimento das fogueiras que eram tidas como rituais pré-cristãos,portanto, símbolo do paganismo. Eram acesas nos cultos solares no dia com maiorduração da luminosidade, no caso, 21 de Junho, simbolizando a vitória da luz e do calorsobre a escuridão e o frio. Ainda na visão da autora, inúmeras tentativas frustradas do alto clero, no sentidode banir as práticas pagãs, consideradas satânicas, foram revistas somente no Concíliode Trento (1545-1563) onde, após muitas opiniões contrárias, a Igreja resolveuincorporar as fogueiras. Considerou-as “fogos eclesiásticos”, sendo banidas assuperstições, e o fogo sendo resignificado como sinônimo de purificação e símbolo daInquisição. Chianca (2009) explana que, no século XVI, com a recente chegada dosportugueses e como forma de aproximação e catequização dos povos indígenas, oscolonizadores souberam utilizar-se muito bem das fogueiras, há muito usadas pelosnativos, e dos fogos que impressionavam e despertava a simpatia dos índios. Porémapós mais uma série de discussões no seio da religião predominante, as fogueiras e osfogos foram proibidos desde 1641, até meados do século XX. Diante das proibições, asfestas ocorriam com grande vigilância do clero, que buscava identificar e punir práticas
  6. 6. 6pagãs, como fogueiras, fogos, adivinhações, batismos e casamentos de fogueiras.Verifica-se muita resistência no que se refere às mudanças, principalmente por parte daala mais conservadora da Instituição, os quais se colocam radicalmente contra ritospagãos nos festejos. Soihet (2005) remete ao pensamento do padre José Maria Martins Alves da Rochaa respeito das festas populares de cunho pagão: Tais festejos não significam regozijo e muito menos idéia de religião, e nem recomenda a nossa civilização. Servir-se de atos de religião para dar-se à crápula, à embriaguez, ao jogo, a todos os vícios enfim, é a maior das ofensas que se possa fazer à religião, é voltar-se ao paganismo, é negar-se a fé. (Rocha apud SOIHET, 2005, p. 351). Apesar de terem sido introduzidos no Brasil por povos europeus responsáveis pelacolonização do território, os festejos sofreram várias influências da cultura local. Taisincorporações devem-se, segundo Darcy Ribeiro (2000), à singularidade da populaçãobrasileira que foi formada a partir de etnias bastante diferenciadas e, consequentemente,de diferentes culturas, o que de forma positiva contribuiu com vários ritmos, crenças esabores. Dentre as incorporações realizadas no São João brasileiro, está o costume denesse período consumir-se aipim, amendoim, milho e derivados (pamonha, canjica,cuscuz, bolos de milho, mingau, mugunzá), jenipapo, cajá, umbu que são muitoutilizados na fabricação de licores, coco e derivados (cocadas, leite de coco), beiju etapioca no Norte, pinhão no Sul, pão de queijo no Sudeste. Como afirma Russo (2003),outras manifestações como o Forró, Tambor-de-crioula, Boi-bumbá também sãomanifestações nacionais. Há ainda, a tradicional quadrilha que, apesar de ser de origemfrancesa, também sofreu influências nas letras das músicas, nas danças e na inserção denovos personagens, como o caipira ou matuto, sertanejo, tabaréu etc. Segundo Campos (2007), em períodos juninos no meio urbano, indivíduos secaracterizam de caipiras, os quais são apresentados com vários estereótipos: dentesfalhados, roupas rasgadas e remendadas e forma de falar de maneira incorreta. Afirmaainda que muitos centros escolares nesse período, talvez de forma impensada,estimulam os alunos a incorporar diversos preconceitos. O camponês é visto comoatrasado e ignorante. Deve-se trabalhar na expectativa de difundir as diferentes culturasexistentes em nosso país, no sentido de divulgá-las positivamente. Em Bandiaçu não é diferente. Apesar de se encontrar numa região totalmenterural, percebe-se a difusão da imagem do indivíduo do campo de forma estereotipada.
  7. 7. 7Nas apresentações juninas, principalmente nas escolas, notam-se pessoas caracterizadasde matutos com dentes cariados, mal trapilho e deselegantes ao andar e falar. Deve-secompreender que as necessidades enfrentadas pelas pessoas da zona rural são oriundasde um país desigual, carente de reforma agrária, saúde e educação. A importantíssimadiversidade cultural existente no Brasil, é fruto justamente das diferenças culturais que oformaram, daí, a pluralidade da nossa cultura e a singularidade do povo brasileiro. Júlio Grigório, morador do distrito há 80 anos, afirma que a tradição decomemorar o dia de São João em Bandiaçu teria sido iniciada no final da década de 40,por volta de 1947/1948. Seguindo o calendário dos santos do catolicismo, muitasfamílias tinham o hábito de acender fogueiras e consumir milho e seus derivados(pamonha canjica, cuscuz, bolo, mingau, mugunzá), e diversos tipos de licores, ao somdo autêntico Forró, que tinha como instrumentos musicais a sanfona, zabumba,triângulo, pandeiro e ganzá3. Na comemoração eram soltos pequenos fogos de artifícios,símbolo da alegria e da comemoração do nascimento do santo. Segundo o senhor Gregório Anselmo, um dos mais antigos moradores dalocalidade; “era uma festa que acontecia entre parentes, cumpades e amigos, onde todosdançava, cumia, bebia e se divertia sem nenhuma confusão”. (Entrevistado em08/07/2011). De acordo com o senhor Jorge, morador local, no final da década de 1980,passaram a ser contratados grupos musicais que inicialmente tocavam no chão,contando logo após com um caminhão como suporte para os instrumentos musicais ecantores. Somente por volta da segunda metade da década de 1990, o caminhão foisubstituído por um palco. A alvorada consiste no costume de soltar uma grande quantidade de fogos emseqüência. O senhor Antônio, um dos primeiros organizadores dessa prática, afirma queela teria sido iniciada no início da década de 70, onde as pequenas bombas eramhegemônicas devido à ausência de outros fogos que provocasse estouros. As bombaseram montadas uma a uma, sendo que havia duas fileiras separadas por mais ou menosum centímetro de distância, unidas por certa quantidade de pólvora que servia paradesencadear as explosões simultaneamente. Havia a necessidade de que, no término deuma alvorada, fosse montada rapidamente a posterior. Já que eram milhares de3 Instrumento musical confeccionado com tampas de garrafa, arame e madeira.
  8. 8. 8pequenas bombas que dava muito trabalho para serem organizadas. Assim, garantia-seas explosões no horário programado. De acordo com o senhor Antônio, a Alvorada contava com a contribuição depopulares para compra do material. Somente no limiar da década de 90 passou a sercusteada pela Prefeitura Municipal. Nesse mesmo período, iniciou-se a prática deordenar a queima de fogos. Dessa forma, a primeira queima teria início às 00:00h, dodia 22, seguida por mais quatro queimas que seriam desencadeadas a cada uma hora,portanto, até às 05:00h da manhã. Somente por volta de 1998/1999, houve uma modificação que viria a facilitar amontagem e a queima de fogos. As pequenas bombas foram substituídas por fogos maismodernos que, além de facilitar a arrumação, trouxeram algo além das simplesexplosões provocadas pelas bombas. Cascatas de luzes com cores variadasacompanhadas de longos assovios passaram a abrilhantar ainda mais o espetáculo. (Verimagens 1 e 2). Outra manifestação bastante difundida são as quadrilhas juninas, que, segundoChianca (2009), vieram para o Brasil juntamente com a Corte portuguesa em 1808.Estas não eram exclusivas do mês de Junho, pois animava os carnavais e festas de salãorealizadas pelos círculos sociais da monarquia. Após a queda do regime, as quadrilhassaíram de cena pelo menos até 1950, quando ressurgiram com a substituição doselegantes nobres pelos matutos e caipiras. As quadrilhas em Bandiaçu, segundo a professora Joana Angélica, passaram aacontecer de forma periódica na década de 90. Essa sempre ocorreu na noite do dia 22,abrindo a festa. Porém, por volta de 2003, iniciou-se a tradição de dançar quadrilhatambém no dia 21, à noite, passando a transformar-se na abertura do evento. Existem dois tipos de quadrilha que se apresentam no São João: a tradicional e,mais recentemente, as que vêm ocorrendo aproximadamente desde 2005, onde severifica mudanças no que concerne às roupas e músicas utilizadas. Estas últimasreceberam influências de diversos estilos como Rip Rop, Axé, internacional, forrótradicional e universitário. Tais alterações buscam inovar na maneira de apresentação dadança, coexistindo com a forma tradicional. (Ver imagens 3 e 4).
  9. 9. 9 São João e diversidade cultural Como afirma Pinto (2010), as festas a partir de 1970 passaram a ser vistas pelahistoriografia, com uma atenção mais constante e inovadora. Isso se deu graças aotrabalho de historiadores vinculados à História Social que resgataram tanto aperspectiva do mundo da cultura na história, quanto a perspectiva da “história vista debaixo”. A festa, como objeto de estudo, pertence ao campo historiográfico da HistóriaCultural. Esta, apesar de rotulada recentemente, é herdeira de uma longa trajetória, cujoinício deu-se através da Escola dos Annales, nas primeiras décadas do século XX e,mais diretamente, como afirma Cecília Azevedo (2003 apud PINTO, 2010), na crise doparadigma economicista da década de 1960. O abandono das grandes teoriasestruturalistas foi responsável pelo desmoronamento da visão mecânica das sociedades,permitindo abordagens etnográficas na História, colocando em foco a consciência, astensões, as atitudes e as crenças dos atores sociais. Ribeiro (2000) comenta que a cultura popular representada pela participaçãomaciça das pessoas de menor poder aquisitivo e personificada através de expressõescomo danças, crenças, hábitos e vestimentas, recebeu em diferentes momentos críticaspor parte das elites que restringiam a idéia de civilidade a uma simples cópia demodelos importados da Europa. De acordo com essa visão estereotipada, asmanifestações oriundas de membros da cultura popular são consideradas atrasadas eobjeto da mais densa ignorância. Porém, mesmo diante de críticas ferozes feitas outrora,as elites dos países periféricos acabam fazendo uma mescla entre a cultura européiavista como superior e a cultura oriunda das misturas étnicas que se deram no processode formação da cultura brasileira. A cultura popular na visão de Carlo Ginzburg (1987) se caracteriza da seguinteforma: “Cultura popular se define, de um lado, pela oposição à cultura letrada das classes dominantes; por outro lado, pelas relações que mantém com a cultura dominante, filtradas pelas classes subalternas de acordo com seus próprios valores e condições de vida. A cultura letrada, por seu turno, igualmente filtra de acordo com suas características, os elementos da cultura popular”. (p. 17). Ginzburg esclarece que apesar do distanciamento entre a cultura popular e acultura letrada, em diferentes momentos e, utilizando-se das especificidades existentesem cada grupo, ocorrem certas trocas e incorporações de elementos entre as duas.
  10. 10. 10 Como explana Bakhtin (2008), as festas oficiais tendiam a consagrar aestabilidade, a imutabilidade e as perenidades das regras que regiam o mundo:hierarquias, valores, normas e tabus religiosos, políticos e morais. Funcionava como otriunfo da verdade pré-fabricada, vitoriosa e dominante, assumindo aparência de umaverdade eterna. Davam-se geralmente em palácios, clubes e templos, tendo comoreferência a cultura letrada de origem européia. Restando aos excluídos reunir-se napraça pública, e aí, expressar seus costumes, crenças, angústias e aspirações, geralmenteindo de encontro à visão de cultura existente entre as elites. Levando-se em consideração o espaço temporal e os diferentes contextoshistóricos, as festas juninas em Bandiaçu e, principalmente o Rapa, se assemelhambastante com a visão Baktiniana sobre as manifestações populares, pois, pelo menosnesses dias, as ruas são ocupadas pelos menos favorecidos e, através do consumoexagerado de álcool e do comportamento considerado deselegante pelos que secomportam como superiores, principalmente no Rapa, são expressas as tensões,resistências e indignações do povo. Estudando a diversidade de significados e práticas nos festejos juninos, Aldé(2009) afirma que no candomblé escolheram Xangô, orixá equivalente a São João, pararepresentar o santo católico no período das festas juninas. Esse orixá representa oelemento fogo no candomblé. Em um ritual denominado ajerê, em transe, os adeptos daReligião recebem o santo. Colocam na cabeça uma panela cheia de óleo ou brasafervente dançando e atravessando a roda sem se queimar. Outra prática comum écaminharem descalços sobre as cinzas incandescentes da fogueira. Ainda segundo Aldé (2009), no pantanal sul-mato-grossense, diferente do queocorre em todo nordeste, não há quadrilha nem Forró. Comemora-se ao som de umadança típica da fronteira denominada cururu, de origem guarani. Como as cheias e asvazantes, coordenam o cotidiano nessa parte do país, ao invés de acenderem-sefogueiras, fazem uma procissão, onde as diversas imagens de São João são levadas até orio mais próximo para o tradicional banho, numa alusão ao batismo de Jesus realizadopor João Batista no Rio Jordão. Em Corumbá, segundo Souza (2004), ocorre uma inversão no que diz respeito aosanto considerado casamenteiro. Enquanto em diversas outras áreas, inclusive nonordeste, santo Antônio é reverenciado pelas mulheres que desejam arranjar um marido,portanto, sendo considerado o santo casamenteiro, em Corumbá as moças que desejamcasar fazem promessas e simpatias para São João.
  11. 11. 11 No sul do país, como prosperou a mescla de uma cultura dos povos da fronteiracom imigrantes alemães, italianos e poloneses, como explana Darcy Ribeiro (2000), emseu documentário “A Invenção do Brasil”, as danças que ditam o ritmo do São João,principalmente no Rio Grande do Sul, são o Cateretê e o fandango. Ao invés de roupascaipiras como se usam nas quadrilhas do nordeste, usa-se o tradicional traje gaúcho. De acordo com Batista (2008), outra forma bastante peculiar de comemorar o mêsjunino é o Boi- Bumbá de Parintins, no estado do Amazonas. A festa é realizada nosdias 28, 29 e 30 de Junho, na Ilha de Tupinambarama. Lá, ocorre uma grande disputaentre o boi Caprichoso e o Garantido. No espetáculo que ocorre no bumbódromo, sãoapresentadas lendas da Amazônia encenadas por tribos indígenas, sobre cobras gigantes,onças de fogo e pássaros que trazem a noite. As rivalidades são tão acentuadas, que nobumbódromo nenhum torcedor pode ultrapassar a linha que divide as duas torcidas,caso contrário, são hostilizados ou vítimas de violência. O autor comenta ainda sobre a grande rivalidade entre Caruaru/PE, e CampinaGrande/PB, na disputa pelo maior São João do Mundo. Numa festa onde o objetivoprincipal é a atração de turistas, notam-se certos exageros na perspectiva deimpressionar os visitantes. Em Caruaru é montada a Vila do Forró, cidade cenográfica, erepresentações humanas que tentam imitar o clima e a cultura material das cidadesinterioranas. Encontram-se casas coloridas, delegacia, subprefeitura, posto bancário,mercearia, igrejinha e restaurante. Encontra-se também a maior fogueira do Mundo,com mais 17 metros de altura, o maior cuscuz do Mundo com 700 quilos de massa, 3,3metros de altura e 1,5 metros de diâmetro e a maior pamonha do mundo, esta últimacom 600 quilos, inclusive, reconhecida pelo Guiness Book, na edição de 1997. De acordo com Aldé (2009), apesar de não contar com cuscuz, pamonha efogueira tão gigantes como os encontrados em Caruaru, Campina Grande expõe trêsgrandes maquetes que reproduzem construções importantes para a história da cidade,além, de exibir uma decoração ímpar. Comenta Batista (2008) que o investimento empublicidade e propaganda em Campina Grande é superior ao que se investe em Caruaru,assim, em termos de quantidade de visitantes, acaba levando vantagem. Guardado os exageros, no que se refere às exposições de elementos da culturapopular nordestina apresentados na Vila do forró, onde se percebe o homem do interiore seu cotidiano, Bandiaçu se assemelha bastante a Caruaru, já que também expõeatravés tanto de bonecos de pano quanto do ambiente, o homem do campo e seutrabalho diário (Ver imagens 5, 6, 7 e 8).
  12. 12. 12 A questão da representação com figuras típicas da cultura nordestina, a exemplodo homem interiorano e dos alimentos utilizados nesse período, como o milho e seusderivados, e até pelas diferenças étnicas, geográficas e culturais, caracteriza o São Joãodo nordeste de forma bastante diferenciada do que ocorre no Rio Grande do Sul e emCorumbá. Em um país com tanta diversidade étnica, cultural e religiosa, não é de seestranhar a pluralidade de seu povo, de suas crenças e manifestações. Portanto,percebem-se diferentes formas de comemorações e ritos, principalmente no queconcerne às festas juninas.O espírito do São João em Bandiaçu O mês de Junho para o distrito de Bandiaçu é o período mais esperado pelosmoradores. Apesar dos festejos serem tradicionalmente iniciados apenas no dia 22, emais recentemente no dia 21, nota-se um cenário que leva a comentários e expectativassobre a realização e o possível sucesso da festa. Cerca de quinze dias antes da data esperada são iniciados os primeirospreparativos, tanto no sentido da divulgação realizada através da emissora de rádio locale de cartazes, (Ver imagem 9 ), quanto de enfeitar a praça com bandeirolas e balões quesão símbolos do São João. E, mais recentemente, imagens de caipiras, que representamo homem da região. (Rever imagens 5 e 6 ). Casa de farinha representando uma culturabastante conhecida na região, que é o cultivo e o beneficiamento da mandioca, raiz daqual se extrai a farinha e a goma utilizada para fazer biju e tapioca. (Rever imagem 7).À mandioca devem-se muitas vidas salvas em períodos de longas secas. E por último, omotor de sisal que expressa uma cultura bastante popular na região. (Rever imagem 8).Responsável durante muito tempo pelo sustento de diversas famílias, as quais eramobrigadas a trabalhar durante longas horas no cultivo e beneficiamento do sisal. Emmuitos casos, era o único meio de emprego existente. Atualmente o cultivo da fibraencontra-se quase que em extinção, sendo reduzida a algumas poucas propriedades. Esses dias de preparação são acompanhados de pequenas reuniões que ocorrementre pessoas que discutem a respeito da festa em bares, mercadinhos, residências e naprópria praça, palco central das comemorações. Existe todo um clima de tensão,otimismos e pessimismos sobre a realização do evento. Nota-se entre as pessoas muito
  13. 13. 13receio no sentido de que a festa não corresponda às expectativas em termos deorganização, público e atrações musicais. Geralmente, na véspera, a praça já está preparada para a execução dasmanifestações. Assim, tem-se a constatação de que a tensão e os comentáriospessimistas ou otimistas que ocorrem de forma corriqueira todos os anos, não passam decogitações dos bandiaçuenses, que nada mais querem do que curtir esse período deforma bastante divertida entre familiares e amigos. Essa ocasião também é marcada peloreencontro de pessoas que muitas vezes só se encontram nesse período. Ouvem-sefacilmente comentários de conterrâneos que trabalham em locais distantes e, muitasvezes fora do estado, que afirmam ter planejado desde o início do ano sua vinda ao SãoJoão da terra natal. O autor Batista (2008) lança o seguinte comentário: [...] Muitos nordestinos que se encontram fora de seus estados costumam economizar dinheiro, comprar presentes e voltar com eles para sua cidade natal na época das festas juninas, a fim de comemorar os santos. No sudeste é comum que nordestinos abandonem seus empregos, faltem por toda uma quinzena, peçam licença ou ofereçam-se para trocar o período do natal por alguns dias de folga em Junho, ou ainda negociem suas férias para gozá-las no meio do ano e poderem estar presentes às festas juninas, em sua terra [...] (p.1). Nota-se a cada ano o aumento na quantidade de pessoas que vem apreciar a festa,isso pelo menos nos dias 22, 23 e 24, já que o Rapa no dia 25 tem enfrentadodificuldades no sentido de diminuição na quantidade de foliões. As comunidadesadjacentes têm presença garantida. (Ver imagens 10). As pessoas se divertem sem medode acharem-se ridículos, com a plena sensação de liberdade e, muitas vezes de volta aostempos de criança. Isso pelo menos entre as classes mais populares, pois as elites fazemquestão de manter as aparências, conservando certo ar de superioridade.Relações políticas e sociais na festa Esse período, além de ser repleto de comemorações, danças, degustação decomidas típicas e muita diversão, ainda transforma-se em terreno fértil para a atuação depolíticos oportunistas que atuam de diversas formas, principalmente na especulação depossíveis contribuições dadas para a realização do evento. Assim, ocorrem asarticulações na tentativa de aumentar a visibilidade ao máximo diante do eleitorado,
  14. 14. 14pois essa presença, principalmente nos anos em que ocorrem os pleitos eleitorais, éfundamental para o sucesso nas urnas. O professor Josemar afirma que: “Aquele quepromove o São João fica bem visto na sociedade. Pois a festa só existe pela boa vontadedessa pessoa. Existe uma espécie de endeusamento do responsável pelo São João”.(Entrevista realizada em 16/08/2011). Nesses momentos festivos e de escolha dos representantes, nota-se algo muitodiferente do que acontece durante praticamente todo o mandato dos que são eleitos. Háuma estranha disponibilidade, acessibilidade e gentileza por parte dos políticos. Emvirtude de tanta vontade de ajudar na festa, ocorrem grandes divergências por parte dealiados e opositores, pois, na tentativa de encontrar o reconhecimento dos eleitores nãose medem esforços. Todos tentam desesperadamente contribuir, seja com a contrataçãode grupos musicais, de uma aparelhagem sonora de melhor qualidade, de um palco maisespaçoso, e até mesmo, da distribuição gratuita de bebidas, prática essa, bastantedifundida em nossa região. Absolutamente tudo é válido na captura desesperada pelamaior quantidade possível de votos. Esse período transforma-se no momento oportunode ter e manter contato com figuras públicas que permanecem ausentes por longosperíodos. E que, adotando um comportamento não corriqueiro se misturam com o povopara festejar. É o que pode ser percebido na fala do deputado federal José Carlos Aleluia(PFL-BA): “Viajo nesta quarta-feira pela manhã para a Bahia, passo o São João nocarro, visito os arraias e quadrilhas em cerca de dez municípios distribuídos por cerca de200 km do interior [...] se eu não for, não me reelejo”. (Folha de São Paulo,21/06/1993). A declaração do deputado Aleluia, se alterada para um contexto menor, no caso,as disputas para as eleições municipais tanto para o executivo e, principalmente, para olegislativo, representa perfeitamente a realidade do município de Conceição do Coité. Já nos anos posteriores às eleições, nota-se certo jogo de empurra, ou seja, emvirtude dos insucessos nas urnas diminuem-se muito aquele espírito de gentileza econtribuição. Para os que saíram vitoriosos nas eleições resta ajudar na festa sem perdera oportunidade de usar um discurso superior e paternalista, como se estivessemprestando um grande favor à comunidade. Esta dimensão política da festa é vista deforma negativa por alguns participantes; como dona Marilza: “A politicagem está atrapalhando a festa. O fato de ter uma pessoa muito ligada a um grupo político, que está guiando, está deixando a
  15. 15. 15 desejar, pois, outras pessoas que são do partido político contrário estão deixando de participar das comemorações e, principalmente do Rapa. Antigamente não tinha muito isso. A comunidade toda acompanhava”. (Entrevista realizada em 10/08/2011). Infelizmente, o que é colocado em primeiro plano não é a permanência de umatradição, e sim os interesses na aquisição de votos, o que acaba provocando divisões queprejudicam o desenrolar do evento. Desse modo, na visão dos políticos, como requisitobásico na escolha dos representantes legislativos locais, o candidato deve se doar decorpo e alma à organização dos festejos juninos, caso contrário, corre o risco de perderou não alcançar o status de vereador do município. Parcela da população que muitas vezes se deixam guiar por ideologias partidárias,não compreende que o incentivo à cultura é de obrigação da União, Estados eMunicípios, como descreve a constituição de 1988, e que, todos os recursos destinadospara tais fins, não são oriundos de riquezas e bondade pessoal, e sim, da grande eonerosa carga tributária imposta pelos nossos representantes. Dessa forma, são erguidosos pilares da futura e promissora sociedade brasileira. Enquanto os políticos trabalhamde forma conveniente e estratégica na perspectiva de aumentar suas fortunas e protegerseus apadrinhados, o povo, como coloca o nosso hino nacional, permanece deitadoeternamente em berço esplêndido. Percebe-se de maneira sutil, durante as festas juninas em Bandiaçu, certaseparação entre as pessoas de menor poder financeiro e a elite local. No dia 23 de Junhode 1990, por volta das 19:00h, foi dado início a uma tradição que perduraria até 2004,ano da morte do seu principal organizador e patrocinador, Manoel Gilberto FerreiraMota. Era realizado um coquetel, na sede da associação local, ADECOBA (Associaçãode desenvolvimento comunitário de Bandiaçu), onde grande quantidade de pessoas sefaziam presentes. Dona Marilza, a vice-presidente da associação na época, comenta: “Distribuía cobertores, camisas. O povo comia se divertia. Tinha castelo que caia. A comunidade fazia a maior farra. A meninada, os adultos. Como tinha muita coisa boa no castelo, até mesmo os adultos entravam na folia de pegar o castelo. Era muito interessante”. (Entrevista realizada em 10/08/2011). A brincadeira denominada de castelo, onde era colocada uma árvore recheada depresentes, que com a ação do fogo viria a cair, proporcionava grande diversão entre aspessoas que se amontoavam para pegar os presentes. Nessa brincadeira, percebia-se agrande participação das pessoas mais humildes. Enquanto que os mais dotados
  16. 16. 16financeiramente apenas acompanhavam. Notava-se a grande vontade de algumascrianças, pertencentes à elite, em participar, porém, eram rechaçadas pelos pais. Quantoaos adultos, conservavam o espírito de aparências que eram mantidas por medo daridicularização perante seus pares, portanto, permanecendo a certa distância dascomemorações. Nesse contexto de festas populares, Soihet (2005), salienta que: “[...] a festapossivelmente se constitui no elemento fundamental da vida coletiva, porque exprimecom marcante intensidade as dimensões dos papéis sociais e o confronto dos símbolosque eles significam”. (P. 364). Após uma observação mais apurada com o desenrolar dafesta na praça, verificava-se a continuação da distinção. Como o local do evento élevemente inclinado, observa-se facilmente, é lógico com algumas exceções, que agrande maioria do pessoal que ostenta maior poder financeiro, se situa na parte maiselevada, a qual se localiza à direita do palco. Enquanto que os menos dotadosfinanceiramente, permanecem por mais tempo na frente e na área menos elevada, ladoesquerdo do palco. (Ver imagem. 11). Nessa região, por razões que a sociologia explica,brinca-se com menos preconceito. Na parte baixa, também se concentram barracas decachorro quente, espetinhos de carne, amendoim, enfim, as comidas consideradasmenos elegantes pela elite.A indústria do Forró Toda festa, evento ou manifestação traz consigo a necessidade de uma estruturaque lhe dê suporte. Portanto, além de movimentar culturalmente o espaço, aindamovimenta toda economia local. Segundo Maranhão (2011), foi investido em CampinaGrande/PB 1,8 milhões este ano pelo Ministério da Cultura. Esta cidade juntamentecom co-irmã, Caruaru/PE, investem num marketing bastante agressivo na tentativa deatrair a maior quantidade possível de turistas. Carvalho (2008) explana que cerca de 1,5milhão de pessoas eram esperadas nas respectivas cidades em 2008, e que deveria serarrecadado 10 milhões, sendo criados 2000 postos de trabalho. Estes turistas trazemgrandes lucros para taxistas, hotéis, bares, restaurantes, ambulantes, catadores delatinhas, enfim, fazem circular grandes somas que são revestidas em arrecadação para omunicípio, e consequentemente, geram milhares de empregos. Guardadas as proporções geográficas, econômicas e populacionais, no São João deBandiaçu, em 2011, segundo o administrador Antônio Lucivânio, foram investidos
  17. 17. 17cerca de 30 mil reais. Assim, como em Campina Grande e em Caruaru, se transforma namaior fonte de lucros do ano para o Distrito, pois com a vinda de turistas, ocorre umaespeculação muito alta nos preços dos aluguéis, chegando-se a cobrar 1000 Reais, porcinco dias. Esse aumento na população e, consequentemente na demanda por produtos,geram mais renda para panificadoras, supermercados, lanchonetes, salões de beleza e,principalmente, para os donos de bares, os quais lucram durante todo período da festa,já que o movimento é incessante. Farias (Ortiz 1999, Heller e Feher, 1998 apud FARIAS 2005), explana que amediação do mercado cultural tornou-se incontrolável, contemplando ou excluindomediante o crivo das práticas norteadas pela ética hedonista do consumo com sua ênfasenas permutas de significados. Tanto que o lazer tornou-se um dos ramos dos negóciosnas tramitações capitalistas, o mais sofisticado, aqueles das atividades de serviços; aí searticulam o comércio de habilidades e conhecimentos com os suportes materiais maisdistintos. Outro fato curioso é a inserção de grupos musicais da região que se apresentam noDistrito. Nesse período, têm a maior, senão a única lucratividade do ano, já que por sededicarem ao Forró são lembrados muitas vezes, apenas nas festas juninas. Tambémpegando carona no sucesso do Forro, durante todo ano ocorrem, pelo menos no interiorda Bahia, festas particulares, a exemplo do Forró do Bosque (Cruz das Almas), O Baiãode 2 (Conceição do Coité), Forró do Piu Piu (Amargosa), Forró da Mina (Pé de Serra),entre várias outras do tipo, que misturam Forró, Axé Music e Pagode. Essa misturaagrada em cheio a juventude, público maciço nesses eventos. Florido (2011) comentaque para ter acesso desembolsam-se valores entre 50 e 500 Reais, que dá direito àcamisa e, em alguns casos, às comidas e bebidas. Em Bandiaçu, pelo menos no que concerne ao acesso à praça, local da festa,ocorre de forma gratuita desde a quadrilha que dá início ao evento até o Rapa, o qual éresponsável pelo fechamento das comemorações. Exigindo-se dos foliões apenas muitaenergia.
  18. 18. 18O sagrado e o profano no São João Apesar das festas juninas serem atribuídas aos santos, Antônio, Pedro e João, emvirtude de sua origem pagã, encontram-se várias manifestações que destoam da visãoreligiosa. Se por um lado a Igreja Católica comemora o dia dos santos numa perspectivade enquadramento aos dogmas da instituição, por outro, em diversos pontos do país,percebe-se que as comemorações nas praças e largos se caracterizam pela presençamarcante de elementos profanos. Serra (2009) relata que na mudança do ambiente para a praça, percebe-se algo aoavesso do que ocorre no templo. Há todo um ambiente extrovertido que contribui paradiferentes formas de expressão, risos, danças, pulos, abraços sem cerimônias, gestosespontâneos, exageros, tumultos, brigas e galanteios, os quais são impulsionados muitasvezes pela ingestão exagerada de bebidas alcoólicas. Algo parecido com um grandeteatro, onde diferentes apresentações ocorrem ao mesmo tempo de maneira informal. Características da praça pública na Idade Média em período de festas seassemelham às atuais, inclusive em Bandiaçu. Como declara Bakhtin (2008): “A praçapública era o ponto de convergência de tudo que não era oficial, de certa forma gozavade um direito de ‘exterritorialidade’ no mundo da ordem e da ideologia oficiais, e opovo aí tinha sempre a última palavra”. (p.132). Segundo Neiva e Pena (1916 apud ALDÉ, 2009) outra profanidade encontrada naregião entre Piauí e Goiás até 1912, era o casamento realizado na fogueira de São João,o qual era considerado como sacramento com direito, inclusive, aos noivos, padrinhos,parentes e convidados. A justificativa utilizada era que os sacerdotes ficavam emregiões distantes dificultando, portanto, as uniões. Estas eram abençoadas quando umreligioso passava pelo local. O São João é muito mais que uma simples festa para alguns estados do nordeste.Verifica-se com maior ênfase em Alagoas a criação de um vínculo criado através docompadrio que resulta em uma relação parecida à que se dá entre irmãos. SegundoAraújo (2007), existe dois tipos de compadres: “O da Igreja e o da fogueira. O da Igreja é aquele que leva a criança, o afilhado, para receber o sinal de iniciação – o batismo na Igreja Católica Romana. O de fogueira é o caso em que não há criança a ser batizada, são apenas compadres, que passam a tratar-se respeitosamente por tal. Não há apenas os compadres de fogueira, há tios, sobrinhos, pais e filhos de fogueira, basta que um afeto forte os
  19. 19. 19 aproxime para que no dia de São João, ao saltar a fogueira, façam antes um juramento e a seguir saltem em cruz três vezes a fogueira. Desse momento em diante passam a tratar-se de acordo com que adrede ficou tratada”. (Pág. 24). Conforme Aldé (2009), na festa no Pantanal, busca-se através de rituais, adivinharse a próxima colheita será próspera, ou se determinada moça conseguirá casar-se no anoseguinte. Se assemelhando à prática pagã da Idade Antiga, em Bandiaçu, que é um localonde as lavouras são responsáveis pelo sustento de grande parte das famílias. Percebe-seque o período junino está diretamente ligado as comemorações da colheita do milho.Portanto, o sucesso nas plantações é um fator que influencia diretamente na festa. Já queos agricultores em caso de boa colheita, acham-se em melhores condições para entregar-se as comemorações. Outra prática profana citada por Bakhtin na Idade Média, que também é bastanteperceptível em Bandiaçu, assim como em Caruaru, nas comemorações de São João, sãoos exageros que se dão na utilização de bebidas alcoólicas. Essa situação éfrequentemente combatida nos cultos que ocorrem na Igreja Católica nos períodosanteriores aos eventos. O professor Josemar, morador do Distrito e participante assíduodos festejos, afirma que: “Desde a alvorada até o Rapa, não se percebe nada de religiosona festa em Bandiaçu, a não ser o nome”. (Entrevista realizada em 16/08/2011). Por mais que sejam acesas fogueiras e soltem-se fogos para comemorar o SãoJoão, “os vivas” que são atribuídos ao santo, entre as pessoas e no palco onde ocorre afesta, que, aliás, se localiza em frente à igreja, traduz-se muito mais em umaempolgação oriunda da curtição, do que de uma atribuição à religiosidade. Porém, énecessário salientar que sagrado e profano coexistem, sendo que a presença de um éextremamente necessária para que haja a existência do outro. Dessa forma, entrealterações regionais e misturas entre sagrado e profano, os festejos juninos se renovam ese reinventam. Verifica-se, pelo menos em Bandiaçu, que são poucos os frequentadores assíduosdos cultos realizado na Igreja que participam de forma direta dos festejos juninos napraça. Dona Lurdes coloca: “São cometidos muitos excessos. As pessoas bebemdemais. Por isso, brigam muito. Deus não condena a diversão, e sim, os excessos”.(Entrevista realizada em 17/08/2011). Mesmo diante de tal afirmativa, ela explica quenão vai para a festa porque os familiares chegam à sua casa e, em virtude dos trabalhosrealizados durante o dia, não tem ânimo para se divertir a noite.
  20. 20. 20 Os senhores e senhoras são atores principais na realização de cultos, quermesses emissas. Talvez, não se identifiquem com a comemoração da forma como ela acontece.Daí a pequena participação no evento. Quanto aos mais jovens, influenciados pelasnovidades, e pelo espírito natural da idade, se voltam mais para as diversões,consideradas por eles, como mais prazerosas.Transformações É sabido que toda tradição carrega consigo uma série de mudanças,complementações, influências e rupturas que vão se modelando de acordo com asdiferentes épocas e crenças, já que o transcorrer da história nos ensina que nada étotalmente conservável em sua forma original. Seguindo a tendência acima, os festejos de São João em Bandiaçu também sãofrutos de mudanças que ocorreram com as diferentes gerações que vivenciaram essasmanifestações. O período festivo que teve início por volta de 1947/48, e que tivera suaincipiência com um seleto grupo de familiares, hoje se encontra em plena expansão,onde pessoas de diferentes cidades se aglutinam nesse período para viver a festa, seja aconvite de parentes, amigos ou simplesmente pela fama adquirida pelo evento nomunicípio e, em menor escala, fora dele, através da propaganda realizada por habitantesque trabalham em diferentes locais, principalmente nas empresas que se situam emcidades maiores, as quais suprem as carências de empregos da região. Mudanças no sentido de preparação para o evento também são facilmentepercebidas. Segundo o senhor Antônio, os enfeites utilizados na praça praticamente nãoexistiam nos primórdios. Foram pouco a pouco sendo introduzidos e, dentro doprocesso de desenvolvimento industrial do país que compreendeu tanto a fabricação denovos produtos quanto o desenvolvimento e aquisição de transportes mais rápidos emais eficientes, facilitaram a distribuição de novos produtos nos locais mais distantesdos grandes centros. Assim, a singela arrumação foi dando lugar a bandeirolas dediferentes cores. (Ver imagem 12). Outro fator que merece destaque é a presença de novos instrumentos musicais aexemplo de baixos, baterias, teclados e, consequentemente, um estilo de Forró mais
  21. 21. 21instrumentalizado, batizado de Neoforró, muito questionado principalmente pelaspessoas mais velhas. O senhor Júlio coloca que: “Essas banda fica tocano umas músicaque não tem nada a ver com São João. Música boa era a de antigamente que só usavasanfona, triângulo, pandeiro, zabumba e ganzá”. (Entrevistado em 08/07/2011). A declaração do senhor Júlio remete a uma questão muito discutida, definida porStuart Hall (2000), como ‘crise de identidade’: [...] Assim a chamada ‘crise de identidade’ é vista como parte de um processo mais amplo de mudanças, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. [...]. (p. 7). O indivíduo não se sente contemplado com um novo modelo ou estilo lançado,pois, as experiências vividas foram modificadas ou influenciadas por tendências maisrecentes que por não terem participado da construção da identidade de um ser ou dedeterminado grupo, são consideradas estranhas, sendo, portanto, negadas e combatidas. Percebe-se na juventude brasileira, inclusive em Bandiaçu, uma facilidade maiorpara lidar com as mudanças. É o que Hall (2000), coloca como ‘celebração móvel daidentidade’, encontrada pelas rápidas mudanças que ocorrem dentro do processo deglobalização, o qual está ancorado num sistema de comunicação maior, mais rápido emais acessível. Facilitando assim, o acesso e a incorporação de diferentesmanifestações.O Rapa: surgimento, mudanças e dificuldades Segundo o senhor Antônio, um dos idealizadores da festa, o Rapa teve início nodia 25 de Junho, por volta de 1967/68, quando em uma manhã, um grupo de amigos seencontravam reunidos lamentando sobre o fim das comemorações, quando surgiu aidéia de saírem de casa em casa, recolhendo comidas e, principalmente bebidas quehaviam sobrado dos festejos. Assim, ao som de cavaquinho, violão, triângulo, pandeiro,sanfona e zabumba, iniciaram o que viria a ficar conhecido em toda região e, em menorescala, fora dela, como o famoso Rapa de Bandiaçu. Ele afirma: “Começou com um punhado de gente, daqui a pouco, otas pessoas foram se juntano e do meio pro final já tinha era bastante gente. Como o povo já tava de ressaca que muita gente já vinha bebeno há
  22. 22. 22 muitos dias, um bucado de gente foi bebo, trupicano, cada um pra suas casa”. (Entrevista cedida em 12/08/2011). O senhor Salvador, que também participou da fundação do Rapa, inclusive, foi oprimeiro sanfoneiro, relatou que a brincadeira surgiu de forma espontânea, e que jamaisimaginaria que ganharia tanta repercussão e dimensão. Segundo ele, foi visitada umapequena quantidade de moradias, dada a pouca quantidade de casas que existia.Também eram poucas as pessoas que contribuíam com a brincadeira. Algo que talvezseja explicado pela incipiência do movimento, já que muitos moradores não sabiam oque estava acontecendo. Como explana o senhor Osvaldo: “Só se via um bucado dehome ino nas casa pegar tudo que tinha. Os dono das casa só viero a se acustumar coma brincadera depois de uns ano”. (Entrevista cedida em 08/07/2011). Cerca de cinco anos depois do início do Rapa, verificou-se que muitas pessoas seembriagavam e ficavam caídas pela rua. Como parte da solução para o problema foicriado um meio de transporte conhecido como Banguê4. (Ver imagem 13). Evidenciaseu Jorge: “O Banguê pegava os bebo que tava caído e levava pra casa. Mais numadiantava que eles tornava voltar pra rua”. Ainda segundo ele, o que movia o transporteera a força dos braços de indivíduos que estavam em menor estado de embriaguez.(Entrevista cedida em 06/07/2011). De acordo com o senhor Salvador, como forma de expressar alegria e a euforia domomento que era acompanhado pela ingestão de diversas bebidas alcoólicas, algumaspessoa fingiam estar embriagadas para serem conduzidas pelo Banguê, se retirando logoem seguida do transporte. No final da década de 90, foram introduzidas as charangas5, que eramresponsáveis pelas músicas tocadas em todo circuito a ser percorrido. Por volta de 2003,carros de particulares com equipamentos sonoros na parte traseira substituíram ascharangas. Seguindo o processo de mudanças, em anos posteriores, um trator,pertencente à Prefeitura Municipal, viria a ser usado para o transporte do som, algo queperdura até os dias atuais. No Rapa de Bandiaçu existe uma entidade denominada de Clube da Cachaça.Segundo seu fundador, o senhor Valter, esta organização iniciou-se em 2004. No início,reunia as pessoas que se identificavam com a bebida, porém, foi conquistando grande4 Instrumento que era utilizado em períodos de secas para a retirada de lama dos tanques e represas, e que,foi adaptado com cordas para a condução de pessoas.5 Veículo equipado com som na parte superior ou traseira.
  23. 23. 23quantidade de adeptos. Para representar os ideais de seus participantes sãoconfeccionadas, todos os anos, camisas com frases que de forma lúdica simbolizam oapoio ao consumo excessivo de bebidas, tais como: A oração do bêbado: “Cachaçanossa que estais no bar, alcoolizado seja nosso fígado, venha nós o copo cheio, seja feitaa nossa aguardente, assim na festa como na ressaca, a caipirinha nossa de cada dia nosdai hoje, perdoais as nossas bebedeiras, assim como nós perdoamos, a quem não tenhabebido, não nos deixais cair no refrigerante, livrai-nos da água e da polícia....também!!!(2008). Observa-se nesse caso, que a criatividade é tão grande que até paráfrase daOração do Pai Nosso, foi utilizada. Há ainda outros exemplos: “Nóis bebe é de balde”(2009). “Não sou cachaceiro, sou consumidor”... Tem cachaça aí? Traz cá! (2009).Poema do bêbado: “Cachaça cachaçinha tu é pra mim o que eu sou pra ti, tu vai mederrubar, mas antes eu vou te engolir” (2010). “Mamãe falô! Fio acaba com a cachaça!To tentando mãe, ta difice, num desisto nunca!!!”(2010). No dia do Rapa, percebe-se todo um clima de liberdade e subversão aos valoressociais, onde muitos participantes se caracterizam, alguns vestidos de mulher, inclusivemaquiados. Utilizam-se ainda de acessórios considerados estranhos, como pinicos,chifres e mocotós de boi, bolsas que são penduradas nas costas, pênis de plástico egrandes baldes que são incompatíveis com a pequena quantidade de bebidas existentes.Todos esses acessórios servem para acondicionar as bebidas. Sendo o evento regado porbebidas alcoólicas das mais variadas espécies, não são raras as brigas e confusões. O Rapa de Bandiaçu se caracteriza por ser uma festa menosprezada pela elitelocal. Sendo que, a maioria dos participantes têm baixo poder aquisitivo e, através deuma manifestação mal vista pela elite, expressam toda sua indignação com o modelosocial que está posto. Onde as aparências, o lucro e o jogo de interesses se sobrepõemao ser humano. O professor Josemar, que nasceu e passou toda sua vida participando da festa,relata que: “O Rapa é o momento em que a elite se afasta [...]. É a festa do povo mesmo [...]. Povo que é mau vestido, que é tido como feio, que cheira mal, mas que é povo, que é gente de verdade. Que são pessoas que você está vendo ali da forma como são [...]. O Rapa é como se fosse um exerciciozinho de resistência para uma coisa maior. Eu me sinto indo de encontro ao sistema”. (Entrevista cedida em 16/08/2011). No dia 25 de Junho em Bandiaçu, dia do Rapa, ocorre uma das maiores, senão amaior, manifestação de resistência por parte de membros das camadas populares. O
  24. 24. 24povo sai às ruas desprovido dos preconceitos cotidianos para beber, dançar, enfim,manifestar suas carências, desejos e dores. (Ver imagens 14 e 15). No início do século XXI, constatou-se a diminuição nos números de pessoas queacompanhavam o Rapa. Cogitou-se que tal fator estava ocorrendo pelos dias em que afesta tinha acontecido, ou seja, por cair em dias úteis, impossibilitava muitos indivíduosde participar, pois teriam que trabalhar. Vieram os anos seguintes e, percebia-se que acada nova comemoração diminuía a quantidade de adeptos. Tentando explicar asituação, a professora Joana Angélica afirma: “Os povoados vizinhos estão copiando oRapa. [...] As pessoas não se unem para fazer a festa. [...] Se alguém se prontifica aorganizar, falam que está tendo vinculação política, e que há interesses nas finanças”.(Entrevista cedida em 14/07/2011). Outras localidades vizinhas, com destaque para o povoado de Minação, municípiode Barrocas, vêm realizando festas semelhantes no dia 25 de Junho, o que acabachocando com a data em Bandiaçu. Esse fator pode até influenciar, pois algumaspessoas podem migrar de um evento para o outro, porém não determina tanta reduçãona quantidade de participantes. Na visão do senhor Júlio, o motivo pelo qual vem acontecendo uma crescenteredução na quantidade de foliões, é simplesmente pelo cansaço oriundo dos diversosfestejos que ocorrem na localidade nos dias anteriores, assim, no dia do Rapa, aspessoas já estão esgotadas. Porém, essa explicação encontra resistências, pois em anosanteriores existiam as mesmas comemorações. Outro motivo que pode ter influenciado, é um hábito mais recente, no qual algunsfoliões optam por se concentrar na praça, onde se encontram diversos carros com somautomotivo, ou seja, a tradição do cortejo que visitava diversas casas em ruas diferentes,uma das principais características do Rapa, vem dando lugar ao costume de permanecerno centro do Distrito. Em virtude da reduzida participação dos habitantes locais, os quais pouco semobilizam na organização do Rapa, assim como em outras comemorações, essa festa setransformou em um palco de campanhas políticas. Representantes ou aspirantes dopoder legislativo municipal, rivais ou até do mesmo grupo, levados por pequenas rixas,não hesitam em ofuscar o brilhantismo do evento. Nota-se, por parte dos representantesdo poder público municipal, que os investimentos na difusão e incentivo à cultura localvêm como se fosse um presente, uma espécie de dádiva derramada sobre a localidade.
  25. 25. 25 A professora Elza coloca que foi montado um grupo há cerca de 10 anos, do qualfazia parte, que ficaria incumbido da arrecadação de valores para o São João. Porémcomeçou a surgir influências políticas e, ela se retirou. “O grupo foi desarticulado porinteresses políticos”, afirma. (Entrevista cedida em 10/08/2011). Os comerciantes que têm sua principal fonte de lucro do ano, nesse período,muitas vezes se omitem nas colaborações. Como observa Magno: “O comerciante, que é os principais que colhem o tempo todo na festa, não ajuda [...]. Teve um comerciante, que os organizadores do Rapa foi pra pegar uma colaboração, e ele deu cinco reais. Os comerciantes todos. As barracas de capeta, as barraca de pastel, colhe a festa inteira. Na hora de contribuir com o Rapa, que é uma tradição, ninguém quer contribuir”. (Entrevista cedida em 10/08/2011). A professora Márcia cita como exemplo a comunidade de Joazeirinho, localidadeque também realiza as festas juninas, onde, segundo ela, há uma colaboração financeirade moradores e principalmente dos comerciantes, os quais contribuem o ano inteiro paraa realização da festa. O administrador de Bandiaçu, Antônio Lucivânio, admite que ocorram algumasfalhas, porém, segundo ele, grande parte da população apenas critica, não participandoda organização do evento. Fato que é facilmente constatável. O Rapa por ter sido criado em Bandiaçu é venerado, transformando-se em um dosprincipais orgulhos do lugar. Funciona como algo em comum na confecção de um eloque interliga os habitantes à localidade. Serve como construtor de uma identidade local.Muitos fatos da vida de moradores e frequentadores são relacionados e relembrados porocasiões em que os bandiaçuenses se encontravam festejando esse momento.Considerações finais Mesmo diante do controle da Igreja Católica, instituição de poder imensurável nacolonização do Brasil, a qual tentou de muitas formas sufocar as manifestaçõespopulares que não se enquadrassem em seus dogmas, percebe-se de formas bastantediversificadas as mudanças de significados e incorporações que ocorreram nascomemorações do São João em diferentes partes do país, prevalecendo em muitos casos,a natureza pagã derivada de sua origem. A diversidade étnica, cultural e as dimensõesgeográficas são fatores que contribuíram para mudanças tão acentuadas.
  26. 26. 26 Nos festejos juninos em Bandiaçu, verifica-se de forma bastante diferenciadas apresença de manifestações profanas, que vão desde danças de cunho sensual até aingestão exacerbada de álcool, que gera confusões e, consequentemente brigas. Um dospoucos momentos que se percebe a presença da religião nesse período, dá-se no cultoanterior ao dia do santo, realizado na Igreja Católica, onde ocorrem manifestações delouvor a São João. Nota-se, na realização das entrevistas, que algumas pessoas regidas por interessespessoais, grupais ou político-partidários em alguns momentos, omitiram ouacrescentaram determinadas informações no sentido de que prevaleça aquilo que lhe émais conveniente. As festas não representam apenas um momento de diversão entre as pessoas que acompartilham. Exprimem as relações sociais, tensões e conflitos existentes nas diversassociedades. Parafraseando Bakhtin, as festividades, em todas suas fases históricas, estãoligadas a momentos de crises, de transtornos, na vida da natureza, da sociedade e dohomem. A morte e a ressurreição, a alternância e a renovação, construíram sempre osaspectos marcantes das festas. Verificou-se no que tange às festas juninas em Bandiaçu e, principalmente, noRapa, a pouca união dos moradores no sentido de organizar as comemorações, ficandoestas, portanto, entregues à boa vontade de um pequeno grupo vinculado diretamente aopartido político da situação, o qual realiza o evento guiado por interesses econveniências político-partidárias. A omissão da comunidade juntamente com as açõespolíticas direcionadas são fatores determinantes para falhas evitáveis que ocorrem entreos dias 22 a 24, e pela crescente decadência do Rapa no dia 25. Surgiram algumas dificuldades no sentido de adquirir imagens da festa na décadade 90, seja pela raridade dos documentos, já que muitos desapareceram em exposiçõesque foram realizadas no Distrito, ou pelo temor de algumas pessoas em emprestar essasfontes com receio de que desaparecessem. Bem como, barreiras que foram impostas nabusca por possíveis documentos que se encontram sob tutela do Poder ExecutivoMunicipal, dificultaram um aprofundamento maior, deixando algumas lacunas quepoderão ser preenchidas em pesquisas posteriores sobre o tema.
  27. 27. 27 REFERÊNCIASALDÉ, Lorenzo. Isto é São João? Revista História Viva (RHBN). Junho, 2009.ARAÙJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 2ªed. São Paulo: MartinsFontes, 2007.BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. A cultura popular na Idade Média e noRenascimento. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.BATISTA, dos Rodinez. O São João como fato social total. Jornal Livre (13/06/2008).CAMPOS, Judas Tadeu de. Festas juninas nas escolas: lições de preconceitos.Campinas, 2007.CARLO, Ginzburg. O queijo e os vermes. Companhia das Letras, São Paulo, 1987.CHIANCA, Luciana. Chama que não se apaga. Revista História Viva (RHBN). Junho,2009.FARIAS, Edson. Economia e cultura no circuito das festas populares brasileiras.Brasília, setembro/Dezembro, 2005.FLORIDO, Flavio. Na Bahia indústria do Axé abraça o Forró. Folha Imagem. 2011.Folha de São Paulo, (21/06/1993).HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade: tradução Tomaz Tadeu daSilva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Recenseamento, 2010.MARANHÃO, Gil. Especial de Fim de Semana. Agência Política Real. 2011.PINTO, Fabiane. Entre a fé e a folia: festas de reis realizadas em Conceição do Coité.(1990-2009). Conceição do Coité, 2010.
  28. 28. 28RIBEIRO, Darcy. Documentário: A invenção do povo brasileiro. CinematográficaSuperfilmes. Brasil, 2000.RUSSO, Marcelo. Festas Juninas. Reportagem. Junho, 2003.SOIHET, Rachel. “Festa da Penha: resistência e interpenetração cultural” in Cunha,M.P. (org.), Carnavais e outras f(r) estas, Campinas, Ed. Unicamp, 2005.SERRA Ordep. Rumores de Festa: O Sagrado e o Profano na Bahia. Salvador:EDUFBA, 1999.SOUZA, João Carlos de. O caráter religioso e profano das festas populares: Corumbá,passagem do século XIX para o XX. São Paulo, 2004.THOMPSON, Paul. História oral e contemporaneidade. Tradução Andrea Zhouri eLígia Maria Leite Pereira. Sociedade brasileira de história oral, 2002.
  29. 29. 29 EntrevistadosAntônio Martir Mota, 68 anos, aposentado. (12/08/2011).Antônio Lucivânio Lopes Mota, 37 anos, administrador do distrito. (12/08/2001).Arlindo José de Lima, 85 anos, aposentado. (08/08/2011).Carlos Magno Oliveira Santana, 41 anos, servidor público. (10/08/2011).Elza Pereira da Silva. 61 anos, professora. (10/08/2011).Gregório Anselmo de Amorim, 85 anos, agricultor aposentado. (06/07/2011)Joana Angélica Oliveira Lima, 58 anos, professora. (14/07/2011).Jorge Carneiro Mota, 59 anos, agricultor. (06/07/2011).Josemar da Silva Araújo, 37 anos, professor. (16/08/2011).Júlio Grigório dos Santos, 81anos, agricultor aposentado. (08/07/2011).Márcia Mota Simões Borges, 38 anos, professora. (10/08/2011).Maria de Lurdes Oliveira Mota, 59 anos, aposentada e coordenadora das manifestaçõesreligiosas na Igreja Católica. (17/08/2011).Marilza Ferreira Mota, 47 anos, técnica em enfermagem e assistente social.(10/08/2011).Osvaldo Ferreira Lopes, 77 anos, agricultor e açougueiro aposentado. (08/07/2011).Salvador Ferreira Simões, 58 anos, pedreiro e sanfoneiro. (16/08/2011).Valter Carneiro de Oliveira, 42 anos, autônomo. (22/08/2011).
  30. 30. 30 Anexo Imagem 1. Início da Alvorada (2006). Imagem 2. Explosão dos fogos (2006). Imagem 3. Quadrilha tradicional (2006). Imagem 4. Quadrilha com inovações nas roupasImagem 5. Casal de namorados (2006). Imagem 6. Casal de noivos (2006).
  31. 31. 31Imagem 7. Representação de uma casa de farinha (2011). Imagem 8. Representação de um motor de sisal (2011). Imagem 9. Cartaz com propaganda do São João (2011).
  32. 32. 32 Imagem 10. Pessoas dançando na praça (2006). Imagem 11. Palco, dividindo a praça (2011). Imagem 13. O famoso Bangüê (2006).Imagem 12. Bandeirolas enfeitando a praça (2011). Imagem 14. Início do Rapa na praça (2006). Imagem 15. Cortejo pelas ruas (2006).

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