UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB      DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍ...
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Este trabalho é especialmente dedicado à minhaorientadora Profª Cristina Carvalho e à minha queridacolega Camila Mascarenh...
AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, a DEUS, minha força, sustento, consolo e razão do meu   viver durante toda essa jornada...
RESUMOO presente trabalho tem como objetivo analisar as três estratégias de relativização e osparâmetros linguísticos e ex...
ABSTRACTThe present work aims to analyze the three strategies of relativization and the linguistic andextralinguistic para...
SUMÁRIOLISTA DE TABELAS......................................................................................................
CAPÍTULO 3: ANÁLISE DE DADOS.................................................................................             ...
LISTA DE TABELASTabela 1 – As três estratégias de relativização no corpus de língua falada (PEPP –SSA).......................
LISTA DE GRÁFICOSGráfico 1: Distribuição das estruturas relativas na amostra..................................... 31
11INTRODUÇÃO        Nos últimos anos, tem-se observado que estudiosos na área da línguaportuguesa se debruçam, com intensi...
12necessidade de se conhecer a realidade linguística observada na fala dos nãouniversitários no que se refere a uma variaç...
13CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA     O presente capítulo, como está indicado, apresenta o referencial teórico dapesqui...
14do qual o ser humano se comunica, constitui uma expressão do comportamentosocial, por isso não está isenta das atribuiçõ...
15     Tendo em vista as considerações feitas anteriormente, pode-se dizer que, emsentido amplo, a Sociolinguística tem co...
16      Nessa perspectiva, vale ressaltar que, em uma comunidade de fala, há umconjunto de variedades linguísticas, para a...
17      A Sociolinguística, como já foi mencionado, inclui em seu escopo apreocupação com os aspectos da estrutura linguís...
18           (03) “Eu até fiquei feliz outro dia Ø que eu peguei a revista da TV [...]”. (PEPP,           Inq. 12. p.25). ...
19encontra em um ambiente propício ao uso de uma linguagem mais formal, porexemplo, um ambiente de trabalho, acadêmico. Já...
20estão correlacionados à forma de uso das variantes nos diferentes níveis de umadeterminada língua. Esta pesquisa conside...
21         dizia: “I...grande, sai da frente...”(PEPP, Inq. 36, p.146) 5.           Uma outra variável linguística que tem...
22                     Dos possíveis fatores externos, os que mais têm sido discutidos são                     o estilo de...
23      CAPITULO 2 – METODOLOGIA      O presente capítulo, como já está indicado no próprio título, apresenta asetapas de ...
24                 NÍVEL          FUNDAMENTAL          NÍVEL            MÉDIO                  Masculino         Feminino ...
25      É importante ressaltar que para o levantamento e fichamento dos dados dedados, não foram consideradas as ocorrênci...
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27      É importante destacar que os fatores de ordem sintática também exerceminfluência para explicação da variação em qu...
28    Gênero/sexo          Para os estudos sociolinguistas, esse fator é de forte relevância em umavariação. Através da a...
29    Grau de escolaridade      Na perspectiva da Sociolinguística, a depender da instrução escolar, o falantepode expres...
30CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DE DADOS        Neste capítulo, são apresentadas a análise quantitativa dos dados e ainterpretação ...
31falantes da cidade de Salvador optam mais por estratégias não padrão do quepadrão.      Entre as variantes não-padrão, a...
3259,5%. Em outras palavras, a pesquisa de Tarallo (1983) revela que, desde aquelaépoca, o uso da variante cortadora tem a...
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35      Tarallo (1983 apud Bispo, 2009), ao registrar a frequência dos três tipos deestratégias em dados de fala, obteve r...
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39      Assim sendo, os resultados apresentados neste capítulo demonstramempiricamente que os fatores tanto linguísticos q...
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41      A maior frequência de uso da estratégia cortadora, na pesquisa, denotaclaramente que as regras mais tradicionais d...
REFERÊNCIASALKMIN, Tânia. Sociolinguística: parte I. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, AnaChristina. (orgs.) Introdução à Li...
delimitação. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Ana Christina. (orgs.) Introdução àLinguística. São Paulo: Cortez, 2001._____...
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Estratégias de relativação na fala popular de salvador uma análise sociolinguistica

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Estratégias de relativação na fala popular de salvador uma análise sociolinguistica

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA ROSANA CRISTINA LIMA DA SILVAESTRATÉGIAS DE RELATIVIZAÇÃO NA FALA POPULAR DE SALVADOR: UMA ANÁLISE SOCIOLINGUÍSTICA Conceição do Coité 2012
  2. 2. ROSANA CRISTINA LIMA DA SILVAESTRATÉGIAS DE RELATIVIZAÇÃO NA FALA POPULAR DE SALVADOR: UMA ANÁLISE SOCIOLINGUÍSTICA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB – Campus XIV), no curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura, como parte do processo avaliativo para obtenção do Grau de Graduação em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura Orientadora: Prof.ª Dr. Cristina dos Santos Carvalho. Conceição do Coité 2012
  3. 3. “[...] A língua é um tipo de comportamento estreitamentesocial, assim como tudo numa cultura [...] Por trás de umaaparente ausência de regras do fenômeno social, existe uma regularidade na sua configuração que é tão real quanto aquelas dos processos físicos do mundo mecânico... Uma língua é sobretudo um produto social e cultural e como tal deve ser entendida...” (Edward Sapir).
  4. 4. Este trabalho é especialmente dedicado à minhaorientadora Profª Cristina Carvalho e à minha queridacolega Camila Mascarenhas, companheiras inesquecíveis,sempre presentes na realização deste sonho. AGRADECIMENTOS
  5. 5. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, a DEUS, minha força, sustento, consolo e razão do meu viver durante toda essa jornada e por toda minha vida. Amo ao Senhor, meu Salvador e a Ele toda honra, toda glória para sempre, amém. Aos meus queridos pais, JOSÉ ROMEU DA SILVA e LAURIMAR LIMA DA SILVA, pelo companheirismo, pela força, pela paciência, por todo esforço, incentivo e pela educação maravilhosa que me transmitiram, fazendo com que eu crescesse em sabedoria e bom caráter. Amo-os com tudo que tenho e com tudo que sou. À minha irmã LAURA, à minha sobrinha linda DÉBORAH, pela compreensão e ajuda e pelo carinho durante essa conquista. Amo vocês. À minha querida orientadora CRISTINA CARVALHO por toda paciência, generosidade, dedicação e sabedoria. Obrigada por me ajudar, por me amparar nesta caminhada. Sinto-me muito feliz pelo possível e o impossível que fez para que eu pudesse chegar a realizar esse sonho. Ao professor DEIJAIR FERREIRA, por contribuir e também por se dedicar na elaboração da minha pesquisa. Às minhas inesquecíveis amigas ELIANE, MÔNICA E KELLY, minhas companheiras, meus pontos de apoio nas horas difíceis. Amigas para sempre, amo-as demais. A MARCELO motorista, por toda paciência, dedicação e amizade que me possibilitou chegar até aqui. A todos que, de alguma maneira, fazem parte da minha história e que, direta ou indiretamente, me ajudaram a conquistar este sonho.
  6. 6. RESUMOO presente trabalho tem como objetivo analisar as três estratégias de relativização e osparâmetros linguísticos e extralinguísticos que favorecem o uso dessas construções na falapopular de Salvador. Neste estudo, são utilizados como base teórico-metodológica ospostulados da Teoria da Variação Linguística, que tem como precursor William Labov. Ocorpus da presente pesquisa é constituído por dezesseis inquéritos do Programa de Estudossobre o Português Popular de Salvador (PEPP), desenvolvido na Universidade do Estado daBahia e coordenado pela Profª Norma Lopes. Para a análise do fenômeno variável emquestão, foram controlados os seguintes fatores linguísticos: o traço de animacidade doreferente e a função sintática do relativo. Quanto aos fatores sociais, foram selecionadosgênero/sexo, faixa etária e grau de escolaridade. Os resultados obtidos na pesquisaevidenciam que, dentre as três estratégias analisadas, a relativa cortadora é a que apareceem maior ocorrência no corpus. Também demonstram que há um maior índice de atuaçãosobre essa variante dos parâmetros função sintática do relativo e grau de escolaridade,ratificando hipóteses aventadas na pesquisa. Assim, constata-se que a variação investigadaacontece com a interferência de critérios tanto sociais como estruturais, o que confirma aafirmação de que há uma relação intrínseca entre língua e sociedade.Palavras-chave: Estratégias de relativização; Teoria da Variação Linguística; Variáveislinguísticas e sociais.
  7. 7. ABSTRACTThe present work aims to analyze the three strategies of relativization and the linguistic andextralinguistic parameters that favor the use of these constructions in popular speech ofSalvador. In this study, are used theoretical and methodological base the postulates of theTheory of Linguistic Variation, whose precursor William Labov. The corpus of this researchconsists of sixteen surveys of the Studies Programme of the Portuguese Popular of Salvador(PEPP) developed at the Universidade do Estado da Bahia and coordinated by the teacherNorma Lopes. For the analysis of variable phenomenon in question were checked thefollowing linguistic factors: the trace of the referent animacy and syntactic function of therelative. As for social factors, were selected gender/sex, age and educational level. Theresults obtained in the survey show that among the three strategies analyzed, the relativecutter is the one that appears in greater abundance in the corpus. They also demonstratethat there is a higher rate of activity on this variant of the parameters on the syntactic functionand educational level, confirming hypotheses proposed in the research. This way, it appearsthat investigated variation happens to the interference of both social and structural criteria,which confirms the claim that there is an intrinsic relationship between language and society.Keywords: Strategies of relativization; Theory of Linguistic Variation, linguistic and socialvariables.
  8. 8. SUMÁRIOLISTA DE TABELAS......................................................................................................... 09LISTA DE GRÁFICOS....................................................................................................... 10INTRODUÇÃO................................................................................................................... 11CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA.............................................................. 131.1 Sociolinguística: breve histórico, objeto de estudo e postulados teóricos................... 131.2 O fenômeno da variação......................................................................................... 161.3 Fenômenos linguísticos variáveis e influência de parâmetros linguísticos esociais................................................................................................................................ 20CAPÍTULO 2: METODOLOGIA......................................................................................... 232.1Corpus da pesquisa...................................................................................................... 232.2 Observação e análise dos dados................................................................................ 242.2.1 Variável dependente................................................................................................. 252.2.2 Variáveis independentes.......................................................................................... 262.2.2.1Parâmetros linguísticos e hipóteses...................................................................... 262.2.2.2 Parâmetros sociais e hipóteses............................................................................. 27
  9. 9. CAPÍTULO 3: ANÁLISE DE DADOS................................................................................. 30 3.1 Variáveis linguísticas................................................................................................. 32 3.2 Variáveis extralinguísticas ........................................................................................ 35CONCLUSÃO..................................................................................................................... 40REFERÊNCIAS
  10. 10. LISTA DE TABELASTabela 1 – As três estratégias de relativização no corpus de língua falada (PEPP –SSA).......................................................................................................................... 30Tabela 2 – Distribuição das estratégias de relativização em função do fatoranimacidade do referente.......................................................................................... 33Tabela 3 – Distribuição das estratégias de relativização em função do fator funçãosintática do relativo................................................................................................... 34Tabela 4 – Distribuição das estratégias de relativização em função do gênero/sexodos informantes........................................................................................................ 36Tabela 5 – Distribuição das estratégias de relativização em função do nível deescolaridade dos informantes.................................................................................... 37Tabela 6 – Distribuição das estratégias de relativização em função da faixa etáriados informantes......................................................................................................... 38
  11. 11. LISTA DE GRÁFICOSGráfico 1: Distribuição das estruturas relativas na amostra..................................... 31
  12. 12. 11INTRODUÇÃO Nos últimos anos, tem-se observado que estudiosos na área da línguaportuguesa se debruçam, com intensidade, sobre questões que remetem à variaçãolinguística. Essas questões são basicamente fundamentadas a partir do ponto devista da Sociolinguística que, entendida como uma subárea da Linguística, trabalhacom a língua falada, admitindo que esta é heterogênea. Vale mencionar que, ao estudar a língua falada, a Sociolinguística leva emconsideração o contexto social em que os falantes estão inseridos; isso ocorreporque o objeto de estudo desta subárea é a língua usada por uma comunidade defala. Na língua portuguesa (e, mais especificamente, na fala popular de Salvador),têm sido realizados estudos que dizem respeito a fenômenos variáveis sintáticos;dentre esses fenômenos, ressaltam-se as estratégias de relativização. Essefenômeno apresenta as seguintes possibilidades de construção sintática: (a) arelativa padrão, a qual é aceita pela gramática normativa (01), (b) a relativacopiadora (02) e (c) a relativa cortadora (03), consideradas não-padrão. (01) Esse é um filme de que gosto muito. (02) Esse é um filme que eu gosto muito dele. (03) Esse é um filme Ø que eu gosto muito.1 Baseado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista, este trabalhopretende analisar as construções relativas e os parâmetros linguísticos eextralinguísticos que favorecem o uso dessas construções no português brasileiro.Para tanto, foram utilizados como corpus dezesseis inquéritos do Programa deEstudos sobre o Português Popular de Salvador (PEPP), desenvolvido naUniversidade do Estado da Bahia. A opção por esse corpus justifica-se pela1 Exemplos retirados de Bagno (2004).
  13. 13. 12necessidade de se conhecer a realidade linguística observada na fala dos nãouniversitários no que se refere a uma variação no nível sintático do português faladono Brasil (mais especificamente, na cidade de Salvador). Ao se considerarem os seus pressupostos teóricos, o fenômeno linguísticoexaminado e a natureza do corpus, com esta pesquisa, procura-se, maisespecificamente, investigar: (a) qual das estratégias de relativização tornou-se“preferencial” na fala popular de habitantes de Salvador; (b) dentre as estratégiasnão-padrão, qual a mais empregada por esses falantes; (c) que fatores – linguísticose sociais - motivam esses falantes a usarem mais uma estratégia do que a outra. Este trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro, apresenta-se oreferencial teórico, destacando-se o objeto de estudo e os postulados teóricos daSociolinguística Variacionista, os tipos de variação linguística e a influência deparâmetros linguísticos e sociais nesse fenômeno. No segundo capítulo, abordam-seos procedimentos metodológicos adotados tanto na observação dos dados como naanálise dos mesmos. No terceiro capítulo, realiza-se a análise quantitativa dosdados, identificando, entre as variáveis linguísticas e extralinguísticas controladas napesquisa, quais são as de maior relevância para o fenômeno estudado. Em seguida,expõem-se as considerações finais sobre o fenômeno analisado e os resultadosalcançados ao final da pesquisa. Por fim, apresentam-se as respectivas referências. Sabe-se que, embora já existam estudos (Bagno, 2004; Mollica, 2003; Tarallo,1983, entre outros) relacionados às três estratégias de relativização na línguaportuguesa, esta pesquisa torna-se pertinente por considerar uma variação nalíngua, presente na fala popular da cidade analisada. Dessa forma, espera-se que otrabalho aqui desenvolvido contribua para a ampliação de conhecimentos no que dizrespeito ao estudo de um aspecto da variação sintática na modalidade falada dalíngua portuguesa. Ademais, a partir dos seus resultados, poderão ser feitos estudoscomparativos do uso desse fenômeno linguístico na cidade de Salvador com os deoutras localidades.
  14. 14. 13CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O presente capítulo, como está indicado, apresenta o referencial teórico dapesquisa, o qual está fundamentado nos pressupostos da Teoria da Variação, fixadapelo linguista William Labov. Está distribuído em três partes. Na primeira, apresenta-se um breve histórico da Sociolinguística Variacionista, e citam-se o objeto deestudo e os pressupostos teóricos desta ciência na perspectiva de alguns autoresque se debruçam sobre esse assunto. Na segunda, discute-se o fenômeno davariação linguística, buscando exemplificá-lo, sempre que possível, com dados doportuguês falado no Brasil. Destacam-se, no terceiro item, os parâmetros linguísticose sociais que interferem na variação.1.1 Sociolinguística: breve histórico, objeto de estudo e postulados teóricos A Sociolinguística Variacionista, também denominada como Teoria daVariação, é um termo relativo a uma subárea da Linguística, fixado em 1964. Surge,mais especificamente, em um congresso realizado na Universidade da Califórnia emLos Angeles (UCSAL), o qual teve como organizador William Bright. Nestecongresso, houve a participação de uma série de estudiosos, que se tornaramreferenciais para o tradicional estudo de questões remetidas à relação entrelinguagem e sociedade (ALKMIM, 2008, p. 28). Propõe-se também, nesse congresso, que, para a Sociolinguística, éimportante relacionar variações linguísticas observadas em comunidades de falacom o que diz respeito às diferenças sociais dessas comunidades. O aparecimentodessa nova área de estudo, precedido pela influência de diversos pesquisadores,tende, então, à busca pela articulação dos aspectos linguísticos com aspectos nacategoria social e cultural (ALKMIM, 2008, p. 28). Considera-se, assim, que taisaspectos são impossíveis de serem dissociados, já que a linguagem, o meio através
  15. 15. 14do qual o ser humano se comunica, constitui uma expressão do comportamentosocial, por isso não está isenta das atribuições sociointeracionais. Dentre os pesquisadores que publicaram trabalho na área da SociolinguísticaVariacionista, destaca-se o linguista William Labov, o qual aborda o papelfundamental de fatores sociais para a explicação de uma variação linguística.Segundo Alkmin (2008, p. 30) essa abordagem é notável no seu trabalho sobre acomunidade da ilha de Martha‟s Vineyard, no litoral de Massachusetts, em 1963.Nessa pesquisa, Labov estabelece relações entre fatores como idade, sexo, etnia,ocupação e comportamento linguístico dos falantes da comunidade supracitada. Assim, sendo precursor da Sociolinguística Variacionista, Labov atenta paraessas características, demonstrando, com bases teóricas e metodológicas, “[...] aexistência da natureza socioestrutural da linguagem [...]” (CEZARIO; VOTRE, 2008,p. 147). Tendo por base as pesquisas desenvolvidas por Labov, essa correntelinguística parte do princípio de que a língua é uma instituição social e, porconseguinte, deve ser estudada a partir do seu uso no seio de uma comunidade defala, não podendo ser vista como “[...] uma estrutura autônoma, independente docontexto situacional, da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meiode comunicação [...]” (CEZARIO; VOTRE, 2008, p. 141). Ainda sobre a questão supracitada, Monteiro (2008), embasado na perspectivalaboviana, sustenta a ideia de que há uma relação intrínseca entre língua esociedade; isso porque, para ele, a língua não é apenas um veículo pelo qual setransmitem informações, mas um meio para que se fixe e se mantenharelacionamentos com outras pessoas. O autor acrescenta que não é uma novidadedizer que língua e sociedade se inter-relacionam, já que não se pode compreenderuma sem a outra, justamente porque a língua, ao ter a finalidade de promoverinteração entre falantes, consequentemente pode ser explicada como umaexpressão da cultura da qual faz parte. Monteiro (2008) explica que o nível de profundidade entre língua e sociedadeé bem maior do que o que se imagina, pois a língua, sendo entendida como um “[...]sistema, acompanha de perto a evolução da sociedade e reflete de certo modo ospadrões de comportamento, que variam em função do tempo e do espaço. Assim seexplicam os fenômenos de diversidade [...]” (MONTEIRO, 2008, p.16-7).
  16. 16. 15 Tendo em vista as considerações feitas anteriormente, pode-se dizer que, emsentido amplo, a Sociolinguística tem como objeto de estudo a língua falada,descrita, observada dentro de um contexto social. A esse respeito, Cezario e Votre(2008, p. 141) afirmam: “[...] A sociolinguística é uma área que estuda a língua emseu uso real, levando em consideração as relações entre estrutura linguística e osaspectos sociais e culturais da produção linguística [...]”. Em sentido restrito, a Sociolinguística se interessa pela diversidade linguística,ou seja, os sociolinguistas, ao se concentrarem na língua falada, reconhecem nestaa heterogeneidade. Isso se justifica pelo fato de que, a partir da década de 60, comos estudos produzidos por Labov, entre outros sociolinguistas, a heterogeneidadelinguística passa a ser considerada uma característica inerente à própria natureza dalíngua, a qual possui distintas variedades em uma mesma comunidade linguística. Aesse respeito, Mollica (2003, p. 9) afirma que “a Sociolinguística [...] se faz presentenum espaço interdisciplinar, na fronteira entre língua e sociedade, focalizandoprecipuamente os empregos linguísticos concretos, em especial os de caráterheterogêneo [...]”. Nesse contexto, para a Sociolinguística, ao se estudar uma comunidade defala, é inevitável deparar-se com distintas maneiras de expressões linguísticas. E foijustamente com o propósito de analisá-las que Labov (1972) apud Monteiro (2008)estabeleceu um modelo teórico-metodológico no qual se objetiva compreender comoos fatores tanto estruturais quanto sociais podem influenciar um fenômenolinguístico, mais precisamente, um fenômeno variável. Por essa razão, justifica-se,em termos metodológicos, a determinação de fatores linguísticos e/ouextralinguísticos (que podem atuar de forma simultânea ou isolada) em umapesquisa variacionista. Esses fatores serão abordados mais detalhadamente no itemtrês deste capítulo. Ainda sob a perspectiva laboviana, a variação é inerente ao sistemalinguístico, é entendida como um princípio geral e universal, podendo ser descrita eexplicada mediante a correlação entre dados empíricos e o contexto linguístico esocial. (MOLLICA, 2003). Esse fato implica afirmar, conforme Monteiro (2008), que avariação é um fenômeno essencial à natureza linguística do homem, ou seja, línguae variação são inseparáveis, portanto, devem ser vistas com um ponto comum, jáque todas as línguas estão suscetíveis à variação.
  17. 17. 16 Nessa perspectiva, vale ressaltar que, em uma comunidade de fala, há umconjunto de variedades linguísticas, para as quais Alkmin (2008, p. 39) assegura que“[...] há sempre uma ordenação valorativa [...] que reflete a hierarquia dos grupossociais [...]”, ou seja, existem variedades consideradas superiores ou inferiores. Noentanto, os (sócio) linguistas advertem que toda língua, toda variedade é apropriadapara a comunidade que a utiliza e, por conseguinte, é um sistema pelo qual o povoexprime aspectos tanto físicos quanto simbólicos de onde vive. Desta forma, seriaimpróprio afirmar a existência de línguas ou variedades pobres, inferiores no que serefere ao vocabulário ou aspectos gramaticais. Outro postulado da Sociolinguística laboviana é que mudança e variaçãoestão correlacionadas, no sentido de que toda mudança é resultado de umavariação, porém nem toda variação pode implicar uma mudança. Quanto ao fato de que a mudança é decorrente da variação, Bram (1968apud Lemos (2008) explica que uma mudança linguística ocorre quando uma formavariante, geralmente atrelada à condição social ou intelectual de prestígio dosusuários de uma determinada região, é modificada por conta da necessidade dessesfalantes, ou seja, uma variante sobrepõe-se em relação à outra e incorpora-se aosistema como fator universalizante no uso da língua. Assim, a Sociolinguística, segundo Cezario e Votre (2008), ao examinar alíngua na sua produção real com o enfoque em fatores linguísticos e sociais, temcontribuído para que se inscreva no âmbito da sociedade, um novo modo de “olhar”a língua falada por indivíduos em uma comunidade de fala, mediante ao uso dedivergentes variáveis linguísticas presentes nestas comunidades. Desde o seu surgimento, a Teoria da Variação opõe-se, portanto, à ausênciado componente social e à concepção de língua do ponto de vista estrutural egerativista. Considera, desse modo, a relação língua e sociedade quando trata dasvariações de formas e construções em uso que decorrem de fatores internos eexternos ao sistema linguístico.1.2 O fenômeno da variação linguística
  18. 18. 17 A Sociolinguística, como já foi mencionado, inclui em seu escopo apreocupação com os aspectos da estrutura linguística e social, centrando suaatenção na língua usada no dia-a-dia, sob a perspectiva da variação em umadeterminada comunidade de fala. Nesse sentido, em todas as comunidades de fala, existem variantes, ou seja,distintas formas de se falar uma mesma coisa. Desta forma, sob a perspectiva dossociolinguistas, uma língua apresenta-se sempre variável desde que seja utilizadapor uma comunidade de fala. Tarallo (2002, p. 11-2) assegura que “as variantes de uma „comunidade defala encontram-se sempre em relação de concorrência: padrão vs. não-padrão;conservadoras vs. inovadoras; de prestígio vs. estigmatizadas [...]”. A variante padrão, como o próprio nome já indica, está relacionada à normapadrão. Geralmente, é socialmente prestigiada dentro de uma comunidade de fala epodendo ser também a variante conservadora, ou seja, aquela que primeiro surgiunessa comunidade. Na maior parte dos casos, essa variante tem prestígio porqueestá associada a falantes e grupos de status social mais elevado. Já a variante não-padrão tende a ser inovadora, podendo ser ou não estigmatizada socialmente. Noentanto, há situações em que essas correlações não se verificam. Um exemplo de variação perceptível no português falado no Brasil dizrespeito às três estratégias de relativização do Português do Brasil. Nessa língua, talfenômeno se mostra variável porque apresenta as seguintes possibilidades deconstrução sintática: a relativa padrão (01), a relativa copiadora (02) e a relativacortadora (03). Percebe-se, então, uma possibilidade de três construções relativasdiferentes: a primeira, além de ser padrão, é também conservadora e a de prestígiosocial; as duas últimas são não-padrão e inovadoras; e, por fim, a copiadora éestigmatizada. (01) “[...] Depende do que faça eu me sinto mal de noite, [...]” (PEPP, Inq. 01, p.12).2 (02) “Tinha uma professora muito boa que até hoje eu me lembro dela [...].” (PEPP, Inq. 13, p.29)2 Exemplos (01) a (03) retirados de inquéritos do PEPP (Programa de Estudos sobre o Português falado emSalvador).
  19. 19. 18 (03) “Eu até fiquei feliz outro dia Ø que eu peguei a revista da TV [...]”. (PEPP, Inq. 12. p.25). Em relação a essa variação no português falado no Brasil, têm sido realizadosmuitos estudos (Bagno, 2004; MOLLICA, 2003, dentre outros) sobre essa temática,em que se tem observado que os falantes têm substituído a construção relativapadrão pela copiadora ou cortadora. A esse respeito, Bagno (2004) afirma que,apesar de ser um uso condenado pela gramática normativa, a relativa cortadoraaparece como a preferida. Em suas pesquisas, Bagno (2004) considera a relativacopiadora como a de menor ocorrência e, com relação à relativa padrão, é mínimo ouso na língua falada por brasileiros cultos urbanos. Além da classificação discutida acima, as variantes de uma língua sãoobservadas a partir de diversos fatores que remetem a categorias como sexo, idade,origem geográfica e estilo, entre outras. Em função disso, o processo de variação édescrito através de três parâmetros básicos: o geográfico, o social e o estilístico. A variação geográfica, também denominada como diatópica, diz respeito àsdiferenças distribuídas em um determinado espaço físico, entre regiões. Umexemplo bem claro para esta variação é que, em algumas cidades do estado daBahia, a palavra “jerimum” é muito usada e corresponde ao uso do termo abóbora,muito comum no Sul e no Sudeste. A variação social, conhecida por diastrática, agrupa um conjunto de fatores dacomunidade de fala que têm a ver com o indivíduo, como nível socioeconômico,grau de educação, idade, gênero. Um exemplo que evidencia essa variação é apresença de [r] no lugar de [l], em encontros consonantais como “fror” (flor),“bicicreta” (bicicleta), “prantou” (plantou). Outra variação é a estilística ou de registro, que considera um mesmoindivíduo em situações de comunicação diferentes - formais ou informais -, comopode ser identificado nos exemplos a seguir: 3 (04) “Com licença, você poderia me emprestar esse livro, por favor?” (05) “Oh, tu me empresta esse livro aí meu camarada, tu nem tá precisandodele!”. Pode-se observar que, na primeira situação, o falante, certamente, se3 Exemplos (04) e (05) criados.
  20. 20. 19encontra em um ambiente propício ao uso de uma linguagem mais formal, porexemplo, um ambiente de trabalho, acadêmico. Já, na segunda situação, o falantepode estar em uma conversa com amigos, com pessoas íntimas da família, por issoo uso da linguagem informal. Ainda se tratando natureza de uma variação, ela pode atuar em distintosníveis: fonético-fonológico, morfológico, sintático e lexical. Observa-se que ocorre uma variação no nível fonético-fonológico quando há apronúncia de um fonema de diferentes formas, como se verifica na pronúncia dapalavra tia, que falantes nativos de algumas cidades do interior da Bahia realizamcom a oclusiva alveolar [tia] e falantes nativos da região Sudeste pronunciam com aocorrência como africada palatizada [tsia]. A variação morfológica ocorre quando existem, por exemplo, modificações emalgum morfema das palavras, como demonstram os vocábulos pegajoso e peguento,que expressam uma mesma idéia, no entanto, são construídos com sufixosdiferentes. Já a variação lexical acontece quando se faz referência a um elementoexistente no mundo que pode ser pronunciado com mais de um termo linguístico(FIORIN, 2002, p. 122). Por exemplo, pode–se citar a realização da palavra“jerimum” (citada anteriormente) para falantes baianos e “abóbora” para falantespaulistanos, as duas designam um mesmo elemento. A variação sintática está relacionada às sentenças frasais, ou seja, podemexistir duas ou mais construções sintáticas diferentes, mas que expressam ummesmo sentido no português brasileiro (FIORIN, 2002, p. 124). Como exemplo,podem-se citar as sentenças em que há duas maneiras de expressar negação emnossa língua:(06) Olha, eu não vou sair agora... 4(07) Olha, eu não vou sair agora não... Essas questões são essenciais para uma pesquisa variacionista, já que, paraos sociolinguistas, é pertinente verificar como fatores linguísticos e extralinguísticos4 Exemplos (06) e (07) retirados de Beline 2002, p. 124).
  21. 21. 20estão correlacionados à forma de uso das variantes nos diferentes níveis de umadeterminada língua. Esta pesquisa considera como objeto de estudo um fenômenovariável no nível sintático, que remete às possibilidades de uso de estruturasrelativas.1.3 Fenômenos linguísticos variáveis e influência de parâmetros linguísticos sociais Desde a fixação da Sociolínguística (1964), que se tem tornado importanteressaltar que os sociolinguistas, a princípio Labov (1972), entre outros, têmconsiderado, em maior escala, o fato de a variação ser conceituada como umquesito próprio à natureza linguística. Segundo Mollica (2008), uma variação, ao constituir-se um fenômenouniversal, presume a existência de formas linguísticas alternativas consideradascomo variantes (como foi mencionado no item 1.2). Essas formas alternativasconfiguram um fenômeno variável (que deve constituir o objeto de estudo de umapesquisa variacionista), o qual é denominado de variável dependente. Nestetrabalho, trata-se das estratégias de relativização, que, como já foi exemplificado naseção anterior, apresenta três variantes. Em uma variável dependente, nota-se que o emprego de variantes não se dáde forma aleatória; assim, é preciso que se levem em consideração os fatores quecondicionam a variação, isto é, as variáveis independentes. Essas variáveis sesubdividem em externas (sociais) ou internas (linguísticas). As linguísticas são aquelas que reúnem fatores ligados a aspectos fono-morfo-sintáticos, semânticos e lexicais da língua. Nesta pesquisa, considera-se queum dos fatores que influencia a variação nas estratégias relativas é o traço deanimacidade do referente em relação à estratégia copiadora. Estudos sociolinguistas(Mollica, 2003; Bagno, 2004, dentre outros) têm demonstrado que, quando oreferente do pronome relativo é [+ animado], há uma tendência ao emprego darelativa copiadora (08). (08) Minha menina de dezesseis ano que ela é também alta, aí todo mundo
  22. 22. 21 dizia: “I...grande, sai da frente...”(PEPP, Inq. 36, p.146) 5. Uma outra variável linguística que tem se mostrado relevante para asestruturas relativas é a distância do referente. Mollica (2003), ao analisar asconstruções relativas em tempo real, constatou, com base em dados da fala doportuguês brasileiro, que a incidência do pronome cópia (mais especificamente, douso da relativa copiadora) está associada a essa variável. Segundo Mollica (2003),quando o falante tem necessidade de recuperar o referente em uma oração, nãoapenas pela distância, mas para não cometer uma ambiguidade, tem preferênciapelo uso do pronome cópia, como está explicitado nas orações abaixo: (09) O professor de matemática era o melhor da minha escola que eu estudei na 8ª série. 6 (10) O professor de matemática era o melhor da minha escola que eu estudei com ele na 8ª série. Observa-se que, em (09), há uma ambiguidade em relação ao antecedente, jáque não está bem explicitado o referente do pronome, que pode ser “escola” ou“professor”. No entanto, em (10), com a presença do pronome cópia, a ambiguidadedeixa de existir, pois é possível indicar, com exatidão, qual o referente do pronomecópia, neste caso, “o professor”. Mollica (2003) assegura que esse fenômeno, porestar vinculado a princípios de processamento linguístico, consequentemente, estárelacionado ao que se entende por clareza comunicativa. Outros fatores linguísticos que têm sido utilizados para a explicação davariação nas construções relativas são a função sintática do pronome relativo e adistância entre o pronome relativo e o referente. Esse dois parâmetros linguísticostambém serão controlados neste trabalho. Já as variáveis externas ou extralinguísticas referem-se ao conjunto defatores ligados ao indivíduo como sexo e etnia e aos fatores propriamente ditossociais como nível de escolaridade, renda ou classe social, entre outros. A essaconsideração, Monteiro (2008) assegura que5 Exemplo (08) retirado de inquéritos do PEPP (Programa de Estudos sobre o Português falado em Salvador).6 Exemplos retirados do texto de Mollica, 2003, p. 132.
  23. 23. 22 Dos possíveis fatores externos, os que mais têm sido discutidos são o estilo de fala, o sexo, a idade, a escolaridade, a profissão, a classe social, a região ou zona de residência e a origem do falante. Outros, como o clima e a raça, parecem não ter qualquer influência, apesar das hipóteses que se formulam sobre sua participação na mudança linguística, estágio que naturalmente pressupõe a existência de variações. (p. 68). Esses fatores podem ser de fundamental importância para a observação dasconstruções relativas, pois, a depender da faixa etária, gênero ou escolaridade,podem ocorrer variações significativas. Vale ressaltar que um falante com faixaetária de 65 anos, nível fundamental, não fará usos linguísticos correspondentes aum falante de 25 anos com nível médio, pois o falante mais velho provavelmenteutilizará formas ou construções mais padrão em relação ao mais novo. Nestapesquisa, serão observados fatores extralinguísticos como faixa etária, gênero/sexo,nível de escolaridade dos informantes. Sobre essa questão, Corrêa (1998 apud Meirelles, 2001), em um de seusestudos variacionistas a respeito das estratégias de relativização, corrobora a ideiade que fatores sociais ou extralinguísticos e, mais especificamente, do nível deescolaridade, contribuem para o uso das construções relativas no portuguêsbrasileiro, pois constata, através da análise de 45 redações (5 de cada série do 1ºgrau e 5 de universitários), que o uso da relativa padrão se adquire por meio daescolarização. Na sua pesquisa, Corrêa (1998) apud Meirelles (2001) mostra que, de umtotal de 147 orações relativas, apenas 7 são relativas padrão; dessas, 5 delas foramescritas por universitários e as outras duas, por alunos da 6ª série. Por outro lado,apareceram 15 relativas cortadoras nas redações do 1º grau. Ressalta-se que asrelativas começam a surgir a partir da 2ª série. Ao levar em consideração essesresultados, Corrêa (1998 apud Meirelles, 2001) conclui que, em virtude da poucaocorrência da relativa padrão nas redações do 1º grau, percebeu-se que aapreensão dessa relativa é mais evidenciada quando o nível de escolarização dofalante está acima do 1º grau. Considera-se que tanto os critérios sociais quanto os estruturais podemnortear a compreensão do fenômeno variável aqui estudado no que diz respeito aouso de cada variante (relativa padrão, copiadora e cortadora).
  24. 24. 23 CAPITULO 2 – METODOLOGIA O presente capítulo, como já está indicado no próprio título, apresenta asetapas de execução da pesquisa. Estas etapas se referem ao processo de seleçãodo corpus e dos informantes, definição da variável dependente e das variáveisindependentes (internas e externas) observadas na pesquisa. São apresentadostambém os procedimentos metodológicos adotados para observação e análise dosdados.2.1 Corpus da pesquisa O corpus desta pesquisa está representado por dezesseis inquéritos doPrograma de Estudos sobre o Português falado em Salvador (PEPP), o qual écoordenado pela Profª. Drª. Norma Lopes, da Universidade do Estado da Bahia –UNEB. Os informantes da amostra desse projeto advêm da cidade de Salvador,localizada no estado da Bahia e apresentam o seguinte perfil: possuem nível deescolaridade entre fundamental e médio e estão distribuídos de acordo comgênero/sexo e faixa etária. A distribuição dos inquéritos que foram utilizados nesta pesquisa, segundo ascategorias escolaridade, gênero e faixa etária, encontra-se no quadro abaixo. Asfaixas etárias estão representadas no quadro pela letra F maiúscula seguida dosnumerais 1, 2 e 3.
  25. 25. 24 NÍVEL FUNDAMENTAL NÍVEL MÉDIO Masculino Feminino Masculino Feminino F1 PEPP 18 PEPP 44 PEPP 20 PEPP 12 (15 a 24 anos) F2 PEPP 40 PEPP 19 PEPP 13 PEPP 23 (25 a 35 anos) F3 PEPP 37 PEPP 36 PEPP 24 PEPP 17 (45 a 55 anos) F4 PEPP 34 PEPP 01 PEPP 14 PEPP 41 (65 anos em diante)Quadro 1: Inquéritos a serem utilizados nesta pesquisa e categorias sociais dosinformantes Como se pode observar com base no quadro 1, no que se refere àscategorias sociais supracitadas, dos dezesseis informantes selecionados para estapesquisa, oito possuem nível fundamental e oito possuem nível médio; oito são dogênero masculino e oito, do gênero feminino; e há quatro informantes para as faixasetárias 1 (15 a 24 anos), 2 (25 a 35 anos), 3 (45 a 55 anos) e 4 (65 anos em diante).2.2 Observação e análise de dados Para a execução desta pesquisa, quanto à observação e a análise dos dados,foram adotados os seguintes procedimentos metodológicos: (a) levantamento efichamento dos dados; (b) codificação dos dados; (c) análise quantitativa dos dados.
  26. 26. 25 É importante ressaltar que para o levantamento e fichamento dos dados dedados, não foram consideradas as ocorrências de trechos interrompidos (01). Noprocesso da pesquisa, também não foram considerados casos em que o relativo queestá sendo empregado em lugar de cujo (02). (01) Ela se sentia já que ela podia fazer alguma coisa com a gente, né, ela pegava, “Olhe, eu não estou boa...”, mesmo, ela chorando e dando risada conversando com a gente, tinha hora que minha irmã a mais... (Inq. 19, Inf. 19, p.65). (02) Tinha, tinha, naquele tempo também tinha, tinha marginal, que as vezes o, o filho era viciado... (Inq. 24, Inf. 24mM, p.117). Os dados da pesquisa foram codificados em função dos fatores linguísticos eextralinguísticos controlados na pesquisa. Estes fatores serão descritos emcorrelação com as hipóteses, como está explicitado nos itens 2.2.2.1 e 2.2.2.2. Para as etapas de codificação e análise quantitativa dos dados, utilizou-se umprograma de análise estatística, o GOLDVARB X, programa desenvolvido paracálculos estatísticos auxiliares na análise de fenômenos linguísticos variáveis.2.2.1 Variável dependente O fenômeno das estratégias de relativização constitui a variável dependenteda pesquisa. Tal fenômeno apresenta as seguintes variantes: relativa padrão (03),relativa copiadora (04) e relativa cortadora (05). (03) Apesar que também no decorrer da, da minha vida a, apesar que tive apoio religioso que foi da igreja Batista que me incentivou ao retorno da escola, foi aí que eu pude tirar o meu curso primário (Inq. 13, Inf. 13mM, p. 28). (04) Eu tenho uma amiga mesmo que ela tem dois irmãos, ela não pode dizer em casa que ela está menstruada (Inq. 12, Inf. 12mF, p. 21). (05) Tem uns seis meses, que a família de minha mãe é muito pequena né, esses avós que eu estou falando (Inq. 12, Inf. 12mF, p. 22).
  27. 27. 262.2.2 Variáveis independentes No que diz respeito às variáveis independentes, estas correspondem àsvariáveis de ordem socioestrutural consideradas nesta pesquisa. Cabe destacar quepara que essas variáveis fossem aplicadas à pesquisa, foram tomados comoreferência os trabalhos realizados por Bagno (2004) e Mollica (2003).2.2.2.1 Parâmetros linguísticos e hipóteses Os parâmetros linguísticos ou internos dizem respeito aos fatores ligados aaspectos fono-morfo-sintáticos da língua (como já foi dito no capítulo 1), os quaiscondicionam a variação. Nesta pesquisa, consideram-se como parâmetroslinguísticos o traço de animacidade do referente e função sintática do relativo.  Traço de animacidade do referente Trata-se de um fator que está vinculado à natureza semântica da língua.Segundo esse fator, o referente de uma construção relativa pode ter o traço [+animado] (06) ou o traço [- animado] (07). Acredita-se na hipótese de que apresença do traço [+ animado] do referente favoreça a ocorrência da relativacopiadora. (06) Tinha uma professora muito boa que até hoje eu me lembro dela, lá tinha sabatina de matemática, hoje eu sou um ótimo aluno de matemática... (Inq. 13, Inf. 13mM, p. 29). (07) Eu até fiquei feliz outro dia que eu peguei a revista da TV (Inq. 12, Inf. 12mF, p. 25).  Função sintática do relativo
  28. 28. 27 É importante destacar que os fatores de ordem sintática também exerceminfluência para explicação da variação em questão. Entre esses fatores, é de granderelevância a função sintática do relativo: sujeito (08), objeto direto (09), objetoindireto (10), adjunto adverbial (11) e complemento adverbial (12). Para a função sintática, existe a hipótese de que quando o relativodesempenha função sintática de sujeito ou de objeto direto há a tendência ao uso daestratégia relativa copiadora; quando o relativo tem função sintática de objetoindireto, de adjunto adverbial ou de complemento adverbial, a tendência está para oemprego da relativa cortadora. (08) Eu tenho uma amiga mesmo que ela tem dois irmãos, ela não pode dizer em casa que ela está menstruada (Inq. 12, Inf. 12mF, p. 21). (09) Numa sala assim que tinha, eu dormia ali, agora também não vinha pra casa, durante oito dias (Inq. 24, Inf 24mM p. 128). (10) Meu Deus eu acho que é pra bebê porque a palavra com que, com que eles falam (Inq.12,Inf 12, p. 24). (11) Eu acho assim que é até uma segurança, que no outro dia eu fico, eh, na vez que eu estava no Águia aí chegaram pra mim, a coordenadora a coordenadora e alou que era um tipo de segurança (Inq. 12, Inf. 12mF, p. 25). (12) Mas o pagode que eu vou é, não é igual a esses que acontece em rua (Inq. 18, Inf.18, p. 54).2.2.2.2 Parâmetros sociais e hipóteses Os parâmetros sociais, também denominados de variáveis externas, estãointrinsecamente ligados ao individuo ou ao contexto social de uma comunidade defala (MOLLICA, 2003). Monteiro (2008), dentre essas variáveis, as que mais sediscutem são a escolaridade, a idade, a classe social, profissão, entre outros(Monteiro, 2008). Nesta pesquisa, foram controlados os fatores sociais gênero/sexo,faixa etária e grau de escolaridade.
  29. 29. 28  Gênero/sexo Para os estudos sociolinguistas, esse fator é de forte relevância em umavariação. Através da análise desse parâmetro, há a possibilidade de se perceberemas diferenças no comportamento linguístico entre o sexo masculino e o sexofeminino. Segundo Monteiro (2008), espera-se que a mulher expresse umcomportamento linguístico mais conservador. Assim, já que, do ponto de vista sociolinguístico, falantes do sexo feminino semostram mais conservadores, possivelmente, utilizarão mais a construção relativapadrão.  Faixa etária A faixa etária é um dos fatores básicos na realização de um fenômenovariável, já que as diferenças linguísticas são perceptíveis quanto à idade de umdeterminado falante.Sobre essa questão, Monteiro (2008) pontua que, em função daidade, ocorrem divergências na linguagem de adolescentes e idosos. Para esseautor, os adolescentes podem usar construções aparentemente estranhas. Para esta pesquisa, foram consideradas as seguintes categorias de faixaetária: F1 – 15 a 24 anos. F2 – 25 a 35 anos. F3 – 45 a 55 anos. F4 – 65 anos em diante. Em relação à faixa etária, aventa-se, neste trabalho, a hipótese de quefalantes mais velhos empregam mais a relativa padrão.
  30. 30. 29  Grau de escolaridade Na perspectiva da Sociolinguística, a depender da instrução escolar, o falantepode expressar-se de diversas formas. O presente estudo leva em consideração osníveis fundamental e médio. No caso desta pesquisa, tem-se a hipótese de que,dentre as estratégias de relativização, é a estratégia padrão a mais utilizada porfalantes mais escolarizados. Espera-se que os fatores escolhidos na pesquisa e descritos neste capítulo,tanto os de ordem estrutural (o traço de animacidade do referente e função sintáticado relativo), quanto os de ordem social (gênero/sexo, escolaridade, faixa etária)contribuam para caracterização das estruturas relativas na fala popular de Salvador.A influência de tais fatores no fenômeno investigado será discutida no próximocapítulo, o de análise quantitativa dos dados.
  31. 31. 30CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DE DADOS Neste capítulo, são apresentadas a análise quantitativa dos dados e ainterpretação dos resultados (que, como já foi dito anteriormente, foram obtidos pormeio do programa de análise estatística GOLDVARB X). Inicialmente, discutem-seos resultados gerais dos tipos de construções relativas na amostra. Posteriormente,estabelece-se, nos itens 3.1 e 3.2, respectivamente, a correlação entre o fenômenolinguístico examinado e os fatores linguísticos e sociais considerados na pesquisa. No corpus analisado, há o registro de um total de 137 ocorrências dos trêstipos de estratégias de relativização na fala popular de Salvador. Na tabela 1, estãodistribuídas essas estratégias. RESULTADOS PROVENIENTES DO PROGRAMA DE ESTUDO SOBRE O PORTUGUÊS POPULAR FALADO EM SALVADOR (PEPP) ESTRATÉGIA DE ESTRATÉGIA DE ESTRATÉGIA DE TOTAL RELATIVIZAÇÃO RELATIVIZAÇÃO RELATIZAÇÃO PADRÃO CORTADORA COPIADORA 7 N % N % N % 137 59 43,1 71 51,8 7 5,1Tabela 1 – As três estratégias de relativização no corpus de língua falada (PEPP – SSA). Pode-se constatar que, das 137 ocorrências registradas no corpus, 43,1% sãocasos da construção relativa padrão; 51,8% da construção relativa cortadora; e 5,1%dos casos com a construção relativa copiadora. Tais resultados evidenciam que os7 Em todas as tabelas, o símbolo N corresponde ao número total de ocorrências de cada variante considerada napesquisa
  32. 32. 31falantes da cidade de Salvador optam mais por estratégias não padrão do quepadrão. Entre as variantes não-padrão, a relativa cortadora, construção em que há oapagamento de uma preposição, aparece com uma frequência bem maior emrelação à relativa copiadora (como já foi mencionado, 51,8% e 5,1%,respectivamente). Os resultados aqui obtidos em relação às três estratégias de relativizaçãotambém podem ser observados a partir do gráfico abaixo: Gráfico 1: Distribuição das estruturas relativas na amostra. Os achados desta pesquisa corroboram os resultados de Tarallo (1983 apudMeirelles, 2001). Esse autor, ao realizar um estudo diacrônico das estratégias derelativização no Português Brasileiro, observa que (a) a variante consideradapadrão, desde o final do século XIX, tem perdido a sua influência entre os falantesbrasileiros e (b) uma das variantes consideradas não-padrão e inovadoras, a relativacortadora, já aparecia como a de preferência por falantes urbanos. Assim, Tarallo(1983 apud Meirelles, 2001), ao examinar dados de fala, considera que, já naqueleperíodo, o uso da relativa padrão havia tido uma redução de 89,2% de uso para35,4%, enquanto a cortadora aumentou o seu emprego pelos falantes de 0,9% para
  33. 33. 3259,5%. Em outras palavras, a pesquisa de Tarallo (1983) revela que, desde aquelaépoca, o uso da variante cortadora tem aumentado consideravelmente em relaçãoao uso da relativa padrão. A esse respeito, Bagno (2004), pautado nos trabalhos de Tarallo (1983) e deKato (1993), também traz a afirmação de que, apesar de ser um uso condenadopela gramática normativa, a relativa cortadora é a construção sintática realizada commaior preferência pelos falantes e, com relação à relativa padrão, é mínimo o seuuso na língua falada por brasileiros cultos urbanos. No seu estudo, Bagno (2004)registra os seguintes percentuais de ocorrências: para a estratégia padrão, 20,5%dos casos e para a estratégia cortadora, 94,4%. Percebe-se que os resultados aqui obtidos, no que se refere às construçõespadrão e cortadora, se aproximam dos resultados dos trabalhos dos autoressupracitados, já que, nesta pesquisa, a estratégia cortadora também aparece commaior frequência nos dados do PEPP. Quando se comparam os dados numéricos detectados neste trabalho para aconstrução relativa copiadora com os de Tarallo (1983 apud Meirelles, 2001), nota-se que, nos dois estudos, essa variante aparece com um índice percentual bembaixo de ocorrência. Tarallo (1983 apud Meirelles, 2001) mostra que a variantecopiadora ou resumptiva, como assim denomina, se mantém reduzida o uso aolongo do tempo pelo fato de lhe ser atribuído o valor de estigmatizada. Apresentada a distribuição geral de cada tipo de construção relativa naamostra, passa-se a verificar a seguir a atuação dos parâmetros linguísticos esociais no fenômeno investigado.3.1 Variáveis linguísticas Como variáveis linguísticas, foram consideradas, nesta pesquisa, como já foicitado no capítulo de metodologia, o traço de animacidade do referente e a funçãosintática do relativo. Na tabela 2, encontra-se a distribuição das três estratégias de relativizaçãoem função do parâmetro animacidade do referente.
  34. 34. 33 RESULTADOS PROVENIENTES DO PROGRAMA DE ESTUDO SOBRE O PORTUGUÊS POPULAR FALADO EM SALVADOR (PEPP)ANIMACIDADE DO ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA TOTAL REFERENTE RELATIVA PADRÃO RELATIVA RELATIVA CORTADORA COPIADORA Animado N % N % N % N % 14 56% 5 20% 6 24% 25 18,2% Inanimado 45 40,2 66 58,9 1 0,9% 112 81,8% % %Tabela 2 – Distribuição das estratégias de relativização em função do fator animacidade do referente. Através dos dados explanados na tabela 2, não se pode sustentar a hipótesede que a presença do traço [+ animado] no referente favorece a ocorrência darelativa copiadora, já que, para esse tipo de relativa, constatou-se um percentual de24% do traço [+ animado] do referente, enquanto, para a variante padrão, o traço[+animado] obteve o resultado de 56% de casos. Os resultados obtidos nesta pesquisa a respeito do fator animacidade doreferente para a relativa copiadora contradizem as evidências estatísticas dosestudos de Mollica (2003), quando esta demonstra que a animacidade do referenteacontece com maior número de incidência quando há um pronome cópia. Os dados da tabela 2 também demonstram que o traço [- animado] doreferente favorece o emprego da estratégia tipo cortadora (58,9%). A tabela 3 apresenta a distribuição das variantes que se refere ao fatorfunção sintática do relativo.
  35. 35. 34 RESULTADOS ORIUNDOS DO PROGRAMA DE ESTUDO SOBRE O PORTUGUÊS POPULAR FALADO EM SALVADOR (PEPP) FUNÇÃO ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA TOTAL SINTÁTICA DO RELATIVA RELATIVA RELATIVA RELATIVO PADRÃO CORTADORA COPIADORA Objeto indireto N % N % N % N % 1 10% 7 70% 2 20 10 7,3% % Sujeito 27 84,4 3 9,4% 2 6,2 32 23,4% % % Objeto direto 31 88,6 3 8,6% 1 2,9 35 25,5% % % Adjunto 0 0% 56 96,6 2 3,4 58 42,3% adverbial % % Complemento 0 0% 2 100% 0 0% 2 1,5% adverbialTabela 3 – Distribuição das estratégias de relativização em função do fator função sintática dorelativo. Comparando-se os dados da tabela 3, é possível confirmar a hipótese de que,quando o relativo tem função sintática de adjunto adverbial (96,6%) ou objetoindireto (70%), há a tendência ao emprego da relativa cortadora. Vale ressaltar aindaque as duas únicas ocorrências de que na função sintática de complementoadverbial ocorre com esse tipo de estratégia. Para as funções sintáticas de objeto direto e sujeito, observa-se que há maiorocorrência da estratégia relativa padrão, o que pode ser justificado pelo fato deessas funções não serem introduzidas por preposições: 88,6% e 84,4%,respectivamente, para objeto direto e sujeito. Quanto à estratégia copiadora, esse tipo, mesmo com o total de ocorrênciasreduzido, é realizado com mais frequência na função de objeto indireto (20%).
  36. 36. 35 Tarallo (1983 apud Bispo, 2009), ao registrar a frequência dos três tipos deestratégias em dados de fala, obteve resultados que se justapõem ao destapesquisa. O autor mostra que, a respeito da função sintática de sujeito e objetodireto, o índice mais elevado foi para a relativa padrão (89,7% e 97,4%,respectivamente). Nesse mesmo contexto, Tarallo (1983 apud Bispo, 2009), afirmaque, na posição de objeto indireto, predomina a relativa cortadora com 75% doscasos analisados. Os resultados aqui apresentados para a relativa copiadora não condizem comos da pesquisa desenvolvida por Barros (2000 apud Bispo, 2009) com dados da falapessoense, a qual também analisa a função sintática do relativo. Nesse trabalho, aautora atenta para o fato de que é na posição de sujeito que a relativa copiadoraaparece com maior predomínio (27%).3.2 Variáveis extralinguísticas O exame de parâmetros sociais nesta pesquisa tem como objetivo observarcomo esses parâmetros podem influenciar variações significativas nas construçõesrelativas. Como já foi mencionado, os parâmetros extralinguísticos controlados napesquisa são gênero/sexo, nível de escolaridade e faixa etária. A tabela 4 expõe a relação entre a variável dependente e o fator gênero/sexona amostra analisada.
  37. 37. 36 RESULTADOS ORIUNDOS DO PROGRAMA DE ESTUDO SOBRE O PORTUGUÊS POPULAR FALADO EM SALVADOR (PEPP) GÊNERO/SEXO ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA TOTAL RELATIVA RELATIVA RELATIVA PADRÃO CORTADORA COPIADORA Masculino N % N % N % N % 40 46,5% 40 46,5% 6 7% 86 62,8% Feminino 19 37,3% 31 60,8% 1 2% 51 37,2%Tabela 4 – Distribuição das estratégias de relativização em função do gênero/sexo dos informantes. Considerando-se a relação entre esse parâmetro e o fenômeno aquiinvestigado, contraria-se um dos postulados sociolinguísticos sobre o fato defalantes do sexo feminino, por se mostrarem mais conservadores, utilizarem mais aconstrução padrão. No caso desta pesquisa, são os falantes do sexo masculino queempregam, com mais frequência, a variante padrão com o percentual de 46,5%,enquanto falantes do sexo feminino só atingem o percentual de 37, 3% dos casoscom essa variante. Paralelamente ao uso da relativa padrão, os falantes do sexo masculinotambém usam a relativa cortadora (46,5%). Nesse caso, são os falantes do sexofeminino que se destacam com o maior emprego (60,8%). Para a relativa copiadora, observa-se que os percentuais se mostram bemreduzidos tanto para os falantes do sexo masculino (7%) os do sexo feminino (2%)entre os informantes do PEPP – SSA. Diferentemente desses resultados, caberessaltar que, na pesquisa realizada por Mollica (2003), os falantes do sexo femininotenderam ao emprego do sintagma com pronome cópia que, neste caso, está para avariante copiadora. A tabela 5 expõe a relação entre a variável dependente e o parâmetro socialnível de escolaridade.
  38. 38. 37 RESULTADOS ORIUNDOS DO PROGRAMA DE ESTUDO SOBRE O PORTUGUÊS POPULAR FALADO EM SALVADOR (PEPP) NÍVEL DE ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA TOTAL ESCOLARIDADE RELATIVA RELATIVA RELATIVA PADRÃO CORTADORA COPIADORA Fundamental N % N % N % N % 23 31,9% 44 61,1% 5 6,9% 72 52,6% Médio 36 55,4% 27 41,5% 2 3,1% 65 47,4%Tabela 5 – Distribuição das estratégias de relativização em função do nível de escolaridade dosinformantes. Os resultados desta pesquisa confirmam a hipótese de que a estratégiapadrão é mais utilizada por falantes mais escolarizados: para essa estratégia, nosfalantes com nível fundamental de escolaridade, há o percentual de 31,9% doscasos enquanto, nos falantes com nível médio de escolarização e, por conseguinte,mais escolarizados, registra-se o percentual de 55,4% das ocorrências. Corrêa(1998 apud Meirelles, 2001,) em seu estudo com base em dados da escrita, ratificaa ideia de que falantes do Português Brasileiro usam a relativa padrão com maisintensidade no 2º grau de escolarização. Inversamente, os resultados da variantecortadora apontam para o fato de que falantes menos escolarizados (61,1%) tendema realizar mais essa variante do que os informantes de nível médio (41,5%). Na tabela 6, estão expostos os resultados entre a relação da variáveldependente e o parâmetro social faixa etária.
  39. 39. 38 RESULTADOS ORIUNDOS DO PROGRAMA DE ESTUDO SOBRE O PORTUGUÊS POPULAR FALADO EM SALVADOR (PEPP) FAIXA ETÁRIA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA TOTAL RELATIVA RELATIVA RELATIVA PADRÃO CORTADORA COPIADORA 15 a 24 anos N % N % N % N % 13 38,2% 19 55,9% 2 5,9% 34 24,8% 25 a 35 anos 16 55,2% 12 41,4% 1 3,4% 29 21,2% 45 a 55 anos 20 50% 18 45% 2 5% 40 29,2% 65 anos acima 10 29,4% 22 64,7% 2 5,9% 34 24,8%Tabela 6 – Distribuição das estratégias de relativização em função da faixa etária dos informantes. Os dados da tabela 6 demonstram que a presença da variante padrão éatuante entre os falantes de 25 a 35 anos, com percentual de 55,2% dos casos. Emsegundo lugar, são os informantes entre 45 a 55 anos que realizam, com maiorfrequência, a variante padrão (50%). Observa-se que os falantes acima de 65 anos são os que mais empregam arelativa cortadora (64,7%). Nesse caso, a hipótese de que falantes mais velhosempregariam mais relativa padrão não se confirma. Percebe-se também que osfalantes entre 15 a 24 anos utilizam frequentemente essa mesma variante (55,9%). É importante frisar que, para a variável faixa etária, os valores divergembastante. Lemos (2008), afirma que, mesmo uma comunidade como um todo nãomodificando o padrão que lhe é admitido, um falante pode mudar seus hábitos defala ao longo de sua vida, implicando, assim, a existência de consideráveisdiferenças linguísticas.
  40. 40. 39 Assim sendo, os resultados apresentados neste capítulo demonstramempiricamente que os fatores tanto linguísticos quanto sociais controlados nestapesquisa influenciam a variação do fenômeno aqui estudado, uso das estratégiasrelativas na fala popular de Salvador.
  41. 41. 40CONCLUSÃO No presente trabalho, a análise da variação das construções relativas na falapopular de Salvador foi estabelecida através da relação entre os fatores linguísticose sociais que motivaram a variação. Assim, a partir da observação e análise dedados da fala popular de Salvador, investigou-se, com base nos fatoressupracitados, o que leva os falantes dessa cidade a optarem por uma das trêsestratégias (padrão, copiadora e cortadora). Os resultados quantitativos obtidos napesquisa foram comparados, sempre que possível, com os resultados alcançadosnas pesquisas de Tarallo (1983 apud Meirelles, 2001), Bagno (2004), entre outrospesquisadores. Na pesquisa realizada, foi evidenciado que, na fala popular de Salvador,dentre as três estratégias relativas examinadas, a que se tornou preferencial para oshabitantes de Salvador é a cortadora. Os dados demonstram que 51,8% dos casosobservados são de relativa cortadora. Essa preferência pela relativa cortadora jáhavia sido atestada em trabalhos anteriores como os de Bagno (2000), Corrêa(1998), Tarallo (1983), entre outros autores. O resultado acima demonstra que o emprego significativo de uma estratégianão-padrão tem ocasionado um acentuado desuso da estratégia aceita pelagramática normativa na fala de uma parcela da população soteropolitana. Ademais,ele aponta para o fato de que a realização da estratégia relativa padrão, noportuguês falado no Brasil, não se mostra tão relevante no comportamento dosfalantes. No que se refere às duas variantes não-padrão (mais especificamente, arelativa copiadora e a relativa cortadora), há uma relevante diferença de uso dessasestratégias pelos falantes brasileiros. Quanto à relativa copiadora, deve-se atentarpara a pouca realização entre os falantes. Com apenas 5,1% das ocorrênciaslevantadas, a estratégia copiadora é estigmatizada pelos falantes urbanosanalisados. Assim, confirma-se a ideia de que, dentre as três estratégias, a relativacopiadora que apresenta menor frequência na pesquisa.
  42. 42. 41 A maior frequência de uso da estratégia cortadora, na pesquisa, denotaclaramente que as regras mais tradicionais de relativização não têm sidorigorosamente aplicadas na fala popular de Salvador. Ademais, percebe-se que arelativa cortadora tem se fixado como uma forma aceitável de relativização noscontextos preposicionados, substituindo, assim, a forma padrão de uso das relativas. Os dois fatores linguísticos selecionados na pesquisa se mostraramrelevantes para os resultados obtidos. É pertinente observar que a animacidade doreferente e a função sintática do relativo se mostraram atuantes quando se tratava,respectivamente, das variantes padrão e cortadora. Os fatores sociais - faixa etária, grau de escolaridade e gênero/sexo - tambémmotivaram, de forma acentuada, o fenômeno aqui investigado. Através da análisedesses fatores, verificou-se que ocorreram variações significativas em relação àstrês estratégias de relativização. Para a variável gênero/sexo, registrou-se que oshomens usam mais a variante padrão e as mulheres, a cortadora. Quanto ao graude escolaridade, os falantes mais escolarizados empregam mais a estratégiapadrão. Em relação à faixa etária, curiosamente, constatou-se que os falantes de 25a 35 anos usam mais a variante padrão e os mais velhos, a estratégia cortadora. Desta forma, espera-se que esta pesquisa, com base em dados reais doportuguês falado no Brasil, possa contribuir para outros estudos variacionistas,ampliando, assim, os conhecimentos no que diz respeito ao estudo das trêsestratégias de relativização na fala popular de Salvador. Através dos resultadosconstatados na pesquisa, pode-se confirmar a necessidade de se conhecerem asvariedades da nossa língua. Mesmo não se tratando de um estudo aplicado, a pesquisa também se tornapreponderante para que se repense o tratamento dado às construções relativas emsala de aula uma vez que as orientações da gramática normativa tendem a encararas construções não-padrão como um desvio da forma dita correta, contrariando,assim, o que é postulado na Teoria da Variação: o pressuposto de que todas aslínguas estão suscetíveis à variação. Cabe ressaltar que esses aspectos podempromover discussões tanto para investigações teóricas como também para estudosrealizados com dados do português brasileiro.
  43. 43. REFERÊNCIASALKMIN, Tânia. Sociolinguística: parte I. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, AnaChristina. (orgs.) Introdução à Linguística. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2008.BAGNO, Marcos. Dramática da língua portuguesa. São Paulo: Loyola, 2000.___________. Português ou brasileiro? : um convite à pesquisa. 4. ed. São Paulo:Parábola Editorial, 2004.BECHARA, Eli Nazareth; CAMACHO, Roberto Gomes. Estratégias de relativizaçãonas variedades lusófonas. In: SEMINÁRIO DO GEL, 58. 2010, Programação... SãoCarlos (SP): GEL, 2010. Disponível em: <http://www.gel.org.br/?resumo=6451-10>,acessado em 14/09/11 às 18:30h.BELINE, Ronald. A variação linguística. In: FIORIN, José Luiz. (org.) Introdução àlinguistica. São Paulo: Contexto, 2002.BISPO, Edvaldo Balduino. Estratégias de relativização no português brasileiro eimplicações para o ensino: o caso das cortadoras. Disponível emhttp://bdtd.bczm.ufrn.br/tedesimplificado/tde_arquivos/20/TDE-2009-07-02T081807Z-2086/Publico/EdvaldoBB.pdf, acessado em14/09/11 às 19:45h.CAMACHO, Roberto Gomes. Sociolinguística: parte II. In: MUSSALIN, Fernanda;BENTES, Ana Christina. (orgs.) Introdução à Linguística. 8. ed. São Paulo: Cortez,2008.CEZARIO, Maria Maura; VOTRE, Sebastião. Sociolinguística. In: MARTELOTTA,Mário Eduardo (org.) Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2008.MEIRELLES, Virginia A. Garrido. A variação no sistema preposicional do Portuguêsdo Brasil. Disponível em: http//:www.revistaaopedaletra.net/.../Virginia_Meirelles--A_variação_no_sitema_preposicional_do_Brasil.pdf, acessado em 09/03/11 às16:00h.MOLLICA, Maria Cecília de Magalhães. Fundamentação teórica: conceituação e
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