UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA  DEPARTAMENTO DE CIENCIAS HUMANAS  CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ/BA  CURSO DE LICENCIATU...
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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA                DEPARTAMENTO DE CIENCIAS HUMANAS                CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO C...
SUMÁRIO1 RESUMO..............................................................................................................
Duas visões sobre Canudos                                                                  Márcio André Barreto dos Santos...
INTRODUÇÃO        As tensões vividas pelo país durante o governo de Prudente de Morais (1894-1898)deslocaram-se para o nor...
Os escritos são de suma importância para o entendimento das questões que envolviamos interesses do Exército no Brasil do f...
Conforme Aldo José Morais (2006, p. 155),                           o novo elemento presente no ideal de civilização encam...
desordem citadina, provocando uma espécie de mal-estar entre as autoridades e os setoresdominantes (Winssenbach, 1998, p. ...
entre outras, revelam esses sentimentos. Todos esses olhares formam um amplo conjunto deexpressões que procuraram execrar ...
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No entanto, segundo Nicolau Sevecenko, a única maneira de justificar a catástrofe foiatribuir aos revoltosos a imagem de c...
belgas com táticas apropriadas pra os territórios dos Países Baixos (SEVECENKO, apudCUNHA), eram inspirados em fatos das g...
Os conselheiristas não saqueavam porque o Conselheiro impunha castigos severosàqueles que se utilizavam dos despojos dos s...
Contudo, não esquecendo o embate entre as forças legais e os jagunços de AntonioConselheiro em Uauá que após o confronto, ...
numa perspectiva de dar voz ao vencidos, escrevendo uma história vista a partir de baixo.Contudo, Segundo Dantas Barreto, ...
repressão a Canudos custou muito caro ao país: “obrigou o tesouro nacional a despendermilhares de contos e impôs aos cofre...
CONSIDERAÇÕES FINAIS       A guerra fratricida articulada pelo governo brasileiro em 1897 conta o lídercarismático Antonio...
O Exército via em Canudos um inimigo a ser vencido, mas, não se pode esquecer asderrotas das 2ª e 3ª Expedições, em que o ...
BibliografiaARARIPE, Tristão de Alencar. Expedições Militares Contra Canudos. Imp. Do Exército,Rio de Janeiro, 1960.BARRET...
OLIVEIRA, José Plínio de. Queimadas no contexto histórico e cultural do eixo euclidiano.Serrinha: Universidade do Estado d...
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Duas visões sobre canudos

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE CIENCIAS HUMANAS CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ/BA CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA MÁRCIO ANDRÉ BARRETO DOS SANTOS PROFESSOR ORIENTADOR ROGÉRIO SOUZA SILVADuas visões sobre Canudos CONCEIÇÃO DO COITÉ/BA 2010
  2. 2. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE CIENCIAS HUMANAS CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ/BA CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA MÁRCIO ANDRÉ BARRETO DOS SANTOS PROFESSOR ORIENTADOR ROGERIO SOUZA SILVADuas visões sobre Canudos Artigo apresentado ao Curso de graduação da Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação – Campus XIV – curso Licenciatura em História, como requisito final de avaliação do Curso Licenciatura em História. CONCEIÇÃO DO COITÉ/BA 2010 2
  3. 3. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE CIENCIAS HUMANAS CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ/BA CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA MÁRCIO ANDRÉ BARRETO DOS SANTOS Duas visões sobre CanudosArtigo aprovado em ______/_____/_____ para obtenção do título de Licenciatura emHistória.Banca Examinadora: _________________________________ Rogério Souza Silva _________________________________ Convidado _________________________________ Convidado 3
  4. 4. SUMÁRIO1 RESUMO..............................................................................................................................................42 INTRODUÇÃO....................................................................................................................................53 CANUDOS: DUAS VISÕES, UM ÚNICO OBJETIVO..................................................................6 3.1 Mudanças estruturais e mudanças políticas..........................................................................6 3.2 Canudos ao olhar dos militares.............................................................................................8 3.3 O estranho sertão e seus habitantes....................................................................................10 3.4 um viés militar e o desabafo de Dantas...............................................................................11 3.5 Conselheiristas.....................................................................................................................14 3.6 Controvérsias e silêncios.....................................................................................................16 3.7 Despesas..............................................................................................................................184 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................................195 BIBLIOGRAFIA...............................................................................................................................22 4
  5. 5. Duas visões sobre Canudos Márcio André Barreto dos Santos1ResumoO artigo Duas visões sobre Canudos, analisa três obras de dois altos oficiais do Exército, queestiveram na última campanha para a destruição de Antonio Conselheiro e sua urbe, paratentar compreender a Guerra de Canudos em algumas de suas particularidades, extraindo desuas obras como o Exército posicionou-se frente a esse movimento no sertão baiano e, o queesse posicionamento influiu nas obras de Dantas Barreto e Macedo Soares, para poderentender o grau de violência que fora empregado contra Canudos.Palavras-chave: Exército, Canudos, conselheiristas, conflito, revisão1 Estudante de Licenciatura em História da UNEB – Campus XIV – Conceição do Coité - Bahia. Correioeletrônico: Barreto-ba@hotmail.com 5
  6. 6. INTRODUÇÃO As tensões vividas pelo país durante o governo de Prudente de Morais (1894-1898)deslocaram-se para o nordeste da Bahia. Após três tentativas frustradas de derrotar AntônioConselheiro, organiza-se, a partir de meados de 1897, um grande contingente militar lideradopelo general Arthur Oscar. Sem dúvida, Canudos naquele determinado momento significavapara as forças legais o inimigo que poderia derrubar o regime Republicano. No intuito de abrir novas possibilidades de interpretações sobre esse acontecimento, opresente artigo analisa a obra de dois oficiais do Exército, que estiveram na campanha para adestruição de Antonio Conselheiro, escrita logo após a hedionda carnificina, com o objetivode elucidar e se compreender a Guerra de Canudos em algumas de suas particularidades,extraindo de suas obras como o Exército se posicionou em frente a essa revolta no sertãobaiano e, sobretudo, o que esse posicionamento influiu nas obras de Emídio Dantas Barreto eDuque-Estrada de Macedo Soares pra poder entender o grau de violência que fora empregadocontra Canudos. As obras de Emídio Dantas Barreto2, A última Expedição de Canudos (1898) e aDestruição de Canudos (1912) e, por último, A Guerra de Canudos (1902) do Ten. HenriqueDuque-Estrada de Macedo Soares3, estes livros desmembram-se em várias vertentes commuitas possibilidades de estudo, pois tratam em seu conteúdo desde os seus assuntosburocráticos em torno da constituição da última Expedição passando pelos planos de guerra, aorganização das tropas, as dificuldades com a região e os percalços da guerra e, por fim, adestruição de Canudos, tudo isto escrito baseado nas experiências diárias e nos relatóriosdiários da Expedição.2 Emídio Dantas Barreto, Marechal-de-Exército, historiador militar, jornalista, romancista e teatrólogo, nasceuem Bom Conselho, PE, em 22 de março de 1850, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 8 de março de 1931. Eleitoem 10 de setembro de 1910 para a Cadeira n. 27, na sucessão de Joaquim Nabuco, foi recebido em 7 de janeirode 1911, pelo acadêmico Carlos de Laet. Com apenas 15 anos de idade, alistou-se como voluntário na campanhado Paraguai, onde obteve medalha por sua atuação. Em 1868, foi promovido a oficial. Após o término da guerra,voltou ao Brasil e fez o curso de artilharia na Escola Militar do Rio de Janeiro. Tomou parte na campanha deCanudos, tendo sido seus esforços coroados com a promoção a coronel. Em 1910 era General-de-Divisão. Foiministro da Guerra de Hermes da Fonseca. Demitiu-se para assumir o governo de Pernambuco (1911-1915),Estado que o elegeu senador (1916-1918). Reformou-se como Marechal-de-Exército em 1918.3 Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares, nasceu em Bananal, município de Maricá, Estado do Rio deJaneiro, em 20 de outubro de 1870 e faleceu em 21 de fevereiro de 1906. Seguiu a careira militar, na qualalcançou o posto de tenente de artilharia.
  7. 7. Os escritos são de suma importância para o entendimento das questões que envolviamos interesses do Exército no Brasil do final do século XIX e início do XX. As obras analisadasconstituem-se em uma grande fonte documental da época que nos revela detalhes peculiarespara o estudo e análise da Guerra de Canudos. Portanto, o presente artigo não tem a pretensão de suprir tal lacuna, propõe, tãosomente, e muito modestamente, equacionar o problema levantando questões que poderãoconstituir-se em abertura pra um exame mais amplo e profundo do assunto.CANUDOS: DUAS VISÕES, UM ÚNICO OBJETIVOMudanças políticas e mudanças estruturais Para entendermos algumas das questões que envolveram Canudos no período daGuerra, temos que retornar a estrutura vigente na época, fazendo uma releitura do seucontexto. Sobretudo, as mudanças que vinham se processando no bojo da sociedade iamconfigurando não somente modificações de tipos estruturais, bem como, a de caráter social. Para entender o que era o Exército naquele determinado momento, temos que retomara formação de seus militares, que com a Escola Militar, principalmente depois da Guerra doParaguai, sem dúvida, foi importante na criação de uma identidade militar, “classe militar”,principalmente depois da chamada Questão Militar – um incidente entre o governo imperial eo Exército, envolvendo a discussão do direito que os militares teriam ou não de manifestarem-se publicamente a respeito de questões políticas ou militares, em que atitudes do governoimperial foram entendidas por alguns oficiais como um ultraje à honra dos militares – eventosda Questão Militar se arrastaram de agosto de 1886 a maio de 1887 (Castro: 1995, p. 85).Mas também na gestação da República e na implantação do espírito científico positivista. A Guerra de Canudos foi um episódio que marcou um dos momentos maisimportantes do final do século XIX no Brasil. Com a instauração da República brasileira,foram acompanhados por significativas alterações no cenário nacional, frutos da novarealidade política e econômica, que viam com estigmas o seu passado colonial e monárquicodiante dos países europeus, transpor as dificuldades equivalia a igualar à Europa e América doNorte (industrializadas, saneadas e brancas) e, portanto à civilização. 7
  8. 8. Conforme Aldo José Morais (2006, p. 155), o novo elemento presente no ideal de civilização encampado pela sociedade republicana reside na exacerbação, por assim dizer, das expectativas em torno da possibilidade de realização dessa nova sociedade, seja quanto às suas conquistas materiais, seja quanto ao seu estilo de vida. De fato, a sociedade – ou pelo menos os segmentos dirigentes e a intelectualidade nacional – viram o advento do regime republicano como sendo uma expressão inicial e concreta da superação do atraso nacional, então associado à condição de nação colonizada e, por extensão, ao antigo regime. O teor desta idéia de civilização pode ainda ser aqui caracterizado, observando queestava associado ao grande entusiasmo provocado pelo desenvolvimento de novastecnologias, progressivamente incorporadas ao quotidiano da população como resultado diretoda chamada Revolução Científico-Tecnológico, protagonizada pela Europa por volta de 1870. Com a Segunda Revolução Industrial representou um salto enorme em relação àprimeira manifestação da economia mecanizada, sobretudo, como essas inovações invadiam ocotidiano das pessoas, principalmente no contexto desse outro fenômeno derivado darevolução, as grandes metrópoles modernas (Sevecenko, 1998, p.10). Assim, para a nova elite aburguesada brasileira, as realizações tecnológicas doseuropeus eram vistas como indicador seguro da eficácia do seu modelo e processo dedesenvolvimento, e até mesmo da pertinência de suas crenças sobre a superioridade racialbranca4, conforme Aldo Morais “glorificando seus modelos de vida, seus valores,identificando-os como civilizados e dispondo-se reproduzi-los como caminha seguro paraalcançar aquela civilidade (Silva: 2006, p.156). Outro traço característico do período final do século XIX e início do século XX, ointenso crescimento dos contingentes urbanos da população brasileira. Essa tendênciademográfica marca o início de um processo que inverteu a distribuição sócio-territorial dapopulação brasileira. Em termos da fisionomia social das cidades, a conglomeração depopulações adventícias vindas dos mais diferentes lugares aumentava a impressão de4 Engajados no empreendimento do nacionalismo ou da expansão imperial, os Estados fabricaram identidadesraciais e étnicas, por meio de classificações oficiais que definiram o lugar de cada grupo perante a sociedade.O chamado racismo científico ganha corpo nas grandes nações imperialistas e colonialista do mundo. NoBrasil, esse pensamento terá grande influencia desse corpo teórico que em suma tinha índios e africanos comoinferiores, parados no tempo ou condicionados ao atraso social pelo espaço geográfico onde viviam. A elitebrasileira racista dos séculos XIX e XX sonhou promover, com a imigração européia, o branqueamento dapopulação. 8
  9. 9. desordem citadina, provocando uma espécie de mal-estar entre as autoridades e os setoresdominantes (Winssenbach, 1998, p. 91-2). Nessa perspectiva, segundo Aldo Morais, talvez a primeira expressão de tal esforçopossa ser identificada no desenvolvimento dos grandes planos de reforma urbanística,ocorrido entre os últimos anos do século XIX e as primeiras décadas do século seguinte.Destacando neste período a construção da nova capital mineira, Belo Horizonte (primeiraetapa entre 1894 e 1897), as reformas no Rio de janeiro (1904), Recife e de Belém (entre 1909e 1913), Porto Alegre (1914) e Salvador (1912 e 1916). Na época, já havia preocupações em ordenar o espaço urbano, meio ao caos dascrescentes metrópoles do Brasil, com seus projetos urbanistas de enquadramento de ruas,avenidas, saneamentos, entre outros. Maria Cristina Winssenbach coloca Canudos como umareferencia para dimensionar a questão social presente nas cidades brasileiras da época, e decerta forma prefigurava a explosão demográfica das cidades (Winssenbach, 1998, p. 94).Canudos ao olhar dos militares Quando a 4ª Expedição se depara com a cidade de Antonio Conselheiro causouespanto a todos, pois as configurações de suas ruas não tinham nenhuma preocupação comesquadro de ruas e praças, era praticamente uma desordem. O autor Duque-Estrada deMacedo Soares (1985, p. 90), que participou ativamente da última expedição contra Canudos,quando as forças federalistas chegam a cinco quilômetros de distancia, descreve-a, Lá estava, colocada em plano inferior às focas a cavaleiro, a temível Cidadela, a lendária capital dos jagunços! À nossa vista deslumbrada, surgia aquele extraordinário amontoado de casas de vários feitios, de cor barrenta e avermelhada, numa caprichosa desordem… Dentre tantos, as descrições e os conseqüentes estranhamentos sobre Canudos em seuaspecto urbano é um dos que mais chama a atenção. Expressões como “núcleo faccioso”(BARRETO: 1898, p. 13), “urbs monstruosa” (CUNHA: 1950, p. 184), “(...) negro redutodo fanatismo” (PIEDADE: 2002, p. 55), “o hediondo Canudos” (HORCADES: 1899, p. 25), 9
  10. 10. entre outras, revelam esses sentimentos. Todos esses olhares formam um amplo conjunto deexpressões que procuraram execrar o Belo Monte5 (Silva, 2006). No entanto, viam aquele amontoado de casas e suas duas torres da igreja nova demodos estarrecidos, admirando-as chegando a ponto de compará-las com as “enigmáticaspyramides do Egypto” (Barreto: 1912, p.138), a “faustosa Babylonia” (Soares:1912, p.17)arrancava a cada um presentes uma exclamação de prazer ao vê-la. Conforme o autor Dantas Barreto ao analisar a topografia da região, afirma queCanudos tinha um propósito em estar situada ali, a sede do povo do Bom Jesus Conselheiro“satisfazia inteiramente os seus intuitos subversivos (Barreto: 1912, p.11). Segundo MacedoSoares (1985, p. 44) “qualquer força para lá chegar, fosse de qualquer ponto, teria deatravessar uma região estéril, sem água e nem recursos de espécie alguma…”. Na linha depensamento dos autores, a idéia que transparece é que o conselheiro escolheu aquele lugar,aos seus olhos de difícil acesso, para construir sua fortaleza prevendo os ataques que sofreriapor parte das forças legais. Canudos era uma “edificação incomprehensivel” (Barreto: 1912, p. 142), segundoEuclides da Cunha aquele tipo de “edificação rudimentar permitia à multidão sem lares fazeraté doze casas por dia” (Cunha: 1950, p. 183), sem o menor senso de enquadramento dasruas, ocasionando uma sensação de desordem citadina. Tudo isto passava despercebido aosolhos dos conselheiristas que estavam acostumados as estreitas ruas e becos. A cidade criada por Antonio Conselheiro e os seus seguidores, denominada de BelloMonte foi muito hostilizada pelas denominações dos autores, como por exemplo: “cidadellamaldita” (Barreto:1898, p. 68), “cidadella do fanatismo” (Ibid., p. 98), “centro dofanatismo” (Soares: 1985, p. 89), “reduto infernal” (Ibid., p. 222). Esses aglomerados dedesignações procuravam disseminar uma figura maléfica, colocando Canudos como inimigodo Estado e, consequentemente, de todos os cidadãos.O estranho sertão e seus habitantes Ao se depararem com o sertão baiano, um assombro com a região, Euclides da Cunhaimortalizou a região na sua obra Os Sertões dando descrições da vegetação, clima, entre5 Trecho retirado do projeto de pesquisa Terra estrangeira: olhares de jornalistas e militares sobre o sertão daBahia durante a campanha de Canudos (2006), do autor Rogério Souza Silva. 10
  11. 11. outros, numa linguagem literária. Os autores não escondiam o sentimento dedescontentamento com lugar, denunciavam o clima quente que assolava a todos, a “terraqueimava como uma chapa de ferro candente” (Barreto: 1898, p. 174-5), a “atmosfera deuma calidez asfixiante” (Soares: 1985, p. 150), todo esse clima de constrangimento com osertão pode ser observado no trecho abaixo retirado da obra de Dantas Barreto (1898, p. 41-2), Os dias nessa região agreste, já tão conhecida pelas descripções publicadas em todos os jornaes do Brazil, tinham para nós a duração de mezes; não parecia estar-se no próprio paiz; Nota-se nas suas palavras o sentimento de não pertencimento ao lugar, transparecendoestar numa terra estrangeira, o autor afirma que nas conversas informais entre soldados eoficiais dizia-se naturalmente: “– Quando eu voltar ao Brazil farei isto ou tereiaquilo…”(Barreto: 1898, p. 43). Contudo, não podemos esquecer que eram homens, delugares diferentes, imbuídos de uma noção de civilização, progresso e modernidade diante deuma realidade que não atendia aos seus anseios (Silva, 2006), por isto, é evidente o choqueque tiveram ao deparar-se com sertão baiano. Entretanto, esse mesmo olhar estendeu-se para toda a região, nada escapava aos seusolhares, tecendo seus comentários quando passavam a caminho do local do conflito.Observação sobre as cidades, vilas, arraiais ou fazendas, juntamente com seus habitantes, àsvezes denegriam usando expressão como “pittoresca villa”(Barreto: 1912, p. 48) referindo-sea Monte Santo, uma das sedes base dos militares a que muito lhe servira. Apesar dessas visões deturpadas desses lugares, é importante ressaltar que para a 4ªExpedição e o seu propósito, esses lugares serviram de pontos de apoio para descanso dossoldados, organização das tropas, do serviço de fornecimento de alimentos e transporte,depósitos de munição e de boca, além dos hospitais instalados para cuidar dos feridos. Todavia, o sentimento de alteridade que se estendeu para os habitantes destaslocalidades, são todos execrando a figura do sertanejo, conforme podemos notar em MacedoSoares (1985, p. 44) no trecho abaixo, […] Geremoabo, Monte Santo e Uauá, lugarejos pobres, assolados pelas febres de mau caráter, e os habitantes desconfiados, embrutecidos pela ignorância e pelo fanatismo. 11
  12. 12. Aos seus olhos eram totalmente diferentes dos habitantes do sul, tachados de“brazileiro primitivo” (Barreto: 1898, p. 42), “physionomia geralmente vulgar” e eram“exemplares magníficos dessa raça imperfeita” (Barreto: 1912, p. 53). Por tudo isto,exemplifica muito bem a visão deturpada dos militares em relação aos habitantes do sertão donorte da Bahia. Dentro de uma perspectiva simbólica de pertencimento territorial, esses estrangeirosno sertão não se sentiam presos ao local, conseqüentemente, visto que esse sentimento deterritorialidade cria barreiras de aceitação, o que contribuiu nas suas visões contra o sertão eos seus habitantes. No entanto, isto não justifica a violência empregada contra osconselheiristas, mas, sobretudo, apresentas-se como um fator complicador dentro dessecomplexo universo. As mulheres não escaparam da visão destes autores sendo descritas como “Asdesgraçadas” (Barreto: 1912, p. 284), “repugnantes megeras” (Soares, 1985, p. 212), DantasBarreto vai mais além “as mulheres trajavam pobremente e, das suas roupas que não eramabundantes, exhalava forte bafio de azedo arruinado” (Barreto, 1912, p. 13). Os autoresresumem suas atividades em cuidar dos feridos e crianças, limpar as armas e da “ração” dosseus maridos. Em alguns casos as mulheres iam às linhas de fogo levar as armas que podiamrecolher dos seus companheiros mortos, algumas morriam como verdadeiras heroínas (Soares:1985, p. 92).Um viés militar e o desabafo de Dantas Barreto Canudos estava relacionada com o universo político brasileiro, que necessitava de uminimigo plenamente vigoroso para justificar o açodamento das intervenções, cada vez maisintensas, envolvendo quase metade das forças militares do Exército e das polícias estaduais.Sobretudo, segundo Rogério Souza Silva (2001), havia diversos interesses políticos em jogo: pelo governo federal, pelos jornalistas, pelas forças políticas, como os jacobinos, ou mesmos pelos governadores de Estados que estavam fora do eixo de poder central. Esses por último, enviavam tropas para o campo de batalha, em troca de alcançar favores com as unidades mais fortes da federação. 12
  13. 13. É interessante notar como os autores viam Canudos e a própria situação que o Paísvivia no período, o trecho a seguir nos mostra a situação preocupante dos militares, O fracasso e conseqüentemente aniquilamento da brigada às ordens do intemerato coronel Moreira César produziu, como era de prever, grande abalo no espírito do público e o país inteiro agitou-se na eventualidade de mais graves e terríveis acontecimentos, proximamente aguardadas. Canudos, naquela época, constituía o espantalho geral e os mais inverossímeis boatos fervilhavam sobre sua fortaleza, o números de fanáticos e os seus intuitos (Soares: 1985, p. 48). O autor está se retratando depois do fracasso da Expedição de Moreira Cesar e o abaloque isto causou em todo o Brasil e no próprio Exército, afirmando a este estar desfalcado emal se refazendo da recente e longa campanha federalista (SOARES: 1985, p.48). Naqueleperíodo rumores já rondavam a capital do País como um movimento cujos fins eram dederrubar a República recém instaurada, chegando a contar com ajuda de estrangeiros e dosmembros do Partido Monarquista. Canudos só tomou grandes repercussões depois da derrota da Expedição MoreiraCésar foi neste momento que se pode medir “a grandeza do mal que se gerava no organismonacional e o governo viu o precipício em que dir-se-ia prestes a tombar o monumento de 89”(Barreto:1898, p. 11). Naquele determinado momento, Antonio Conselheiro e sua urbe eramas únicas forças que poderiam derrubar as instituições republicanas do Brasil, aos olhos dosrepublicanos. O autor Dantas Barreto (1898, p. 158) admite no trecho abaixo seu receio de vê a 4ªExpedição ser derrotada, E, comtudo, nenhum communicava ao outro as duvida e os receios que lhe assaltavam o espírito: não por si, que desde muito haviam feito abstracção da própria vida, mas pela expedição, pelo exercito e pela Republica, que não supportaria mais um desastre das suas forças em Canudos. Como podemos perceber, Dantas Barreto temia que o Exército não suportasse outraderrota, pois tinha a noção que se a 4ª Expedição não vencesse Canudos, a ruína assombrariao Exército e seu país que poderia cair nas mãos dos monarquistas. Não esquecendo que nestedeterminado momento, havia muitos rumores que os monarquistas estariam por trás deCanudos ou até mesmo os auxiliando nos combates contras as expedições. 13
  14. 14. No entanto, segundo Nicolau Sevecenko, a única maneira de justificar a catástrofe foiatribuir aos revoltosos a imagem de conspiradores monarquistas, decididos a derrubar o novoregime mantido, organizados e fortemente armados a partir do exterior por líderes expatriadosdo regime imperial. Aniquilá-los por completo era, portanto, uma questão de vida ou mortepara a jovem República (Sevecenko: 1996, p. 17). Sendo assim, para os militares, lutava-se contra uma pavorosa anarquia, um núcleo derebeldes, mas contra os inimigos voltados contra as Instituições Oficiais (República), ainda seafirmando após o movimento de 15 de novembro 1889, contudo, era preciso submeter aqueleformidável núcleo ao domínio da Lei. Neste sentido, a vergonha de terem perdidos em duas Expedições sucessivas para umbando de sertanejos, aumentara o ímpeto nos combates contra Canudos, isto aliado as baixassofridas no seu contingente, as péssimas condições de subsistência que as tropas passaram aolongo da campanha, o próprio cenário da Guerra, talvez tenha contribuído para o grau deviolência que fora empregado aos conselheiristas. O autor Dantas Barreto critica abertamente o Capitão Manoel Benício, correspondentedo Jornal do Commercio, em espalhar notícias inverídicas sobre a 1ª Coluna quando estapediu a 2ª coluna ao comando do general Savaget que viesse ao seu auxílio. Segundo o autor,o Capitão Manuel Benício, “para desabafo de paixões estranhas” (Barreto: 1898, p. 106-7),transcreveu para o Rio que a 1ª Coluna havia recuado três vezes, antes de chegar a 2ª, o querealmente segundo Dantas Barreto nunca havia acontecido. Apesar disso, objurga o comandante em chefe do Exército pelas condições que a 4ªExpedição achava-se quando marcharam para Canudos, pois faltava-lhes muitos recursos,desde remédios até comida. Especialmente, a falta de assistência para com a Expedição quecustaram 13 dias de fome a mercê da sorte na Favela, “E a fome, implacável e negra, a todosabatendo e definhando desesperados” (Soares: 1985, p. 116). E que isto custara muitas vidasdos soldados que aventuravam-se na caça de bois, carneiros e cabritos para alimento próprio,ao mesmo tempo, sendo vítimas dos conselheiristas que os esperavam na caatinga. Outra crítica de Dantas Barreto eram os planos de guerra para a destruição da“Jerusalém dos Fanáticos” (Barreto: 1898, p. 98), segundo o mesmo, “as combinaçõesapparatosas e cheias de atavios escusados” (Barreto: 1912, p. 158), Euclides da Cunhaafirma que os oficiais eram treinados em Francês, por instrutores belgas, por meio de manuais 14
  15. 15. belgas com táticas apropriadas pra os territórios dos Países Baixos (SEVECENKO, apudCUNHA), eram inspirados em fatos das guerras européias, na literatura militar da Rússia, daFrança e da Alemanha, e que tudo isto nada valia nas guerras americanas, tinham que serpuramente originais nas suas táticas e estratégias.Conselheiristas Há um trecho muito interessante na Introdução do livro A Guerra de Canudos, deMacedo Soares (1985, p. 12), no qual diz, Conhecendo o ódio que nos votavam os jagunços de Antonio Conselheiro, o autor, entretanto, jamais esqueceu que eles eram brasileiros e jamais os denegriu nem ofendeu, quer como homem, quer como combatentes. É importante notar que ao longo de sua obra as palavras “fanáticos”, “bandidos”,“sanguinários” e “pobres diabos”, comparando-os a “touros bravios” e o mais interessantefoi designar os conselheiristas de “grupos de canibais” (Soares: 1985, p. 33), isto é ultrajantee incompatível com o que a frase acima nos diz, mas, sobretudo, é fundamental ressaltar comoo Ten. Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares enxergava os conselheiristas com totalsentimento de desprezo. Macedo Soares ao discutir a questão sobre as derrotas sofridas e as conseqüentesbaixas padecidas pelo Exército nas anteriores Expedições, acusa à dificuldade de adaptaçãocom o ambiente, que era totalmente estranho a tudo que tinham visto. Aliado a tudo isto, foidecisivo para muitos dos fracassos do Exército o conhecimento de todo o território em voltade Canudos pelos conselheiristas, que “ocupavam os melhores pontos, os mais elevados, eentrincheiravam-se nos acidentes naturais do terreno” (Soares: 1985, p. 105). Com certeza orelevo da região e o clima foi um diferencial poderoso a favor dos conselheiristas que faziamsuas emboscadas trazendo muito prejuízo para a campanha. Aliás, não esquecendo o mérito dos conselheiristas em interceptar os comboios, estesúltimos, só se utilizavam das armas e das munições de guerra, o gado era morto e deixavam oanimal intacto, embora fossem exíguos os seus recursos. 15
  16. 16. Os conselheiristas não saqueavam porque o Conselheiro impunha castigos severosàqueles que se utilizavam dos despojos dos seus adversários a não ser o que pudesse seraproveitado como arma de guerra, conforme Macedo Soares (1985, p. 175), Os jagunços com intransigente fidelidade cumpriam os preceitos do Conselheiro, que lhes proibia em absoluto o saque e o aproveitamento dos elementos do inimigo, a não ser o da munição. A caminho do conflito a Expedição encontrou diversas casas destruídas e fazendasdanificadas pelos jagunços, outras estavam destelhadas pelos próprios donos, para seeximirem dos seus ataques (SOARES: 1985, p. 175). Isto ilustra bem a ação dos jagunçoscom o pessoal local que não apoiasse a causa Conselheirista, pregando-lhes castigos. Uma dessas ações aplicadas pelos jagunços está descrita no livro de Macedo Soares(1985, p. 68), Em caminho de Juá para Aracaty, o general-em-chefe teve aviso de que um pequeno grupo de jagunços atava fogo e tentava destelhar a casa da fazendo do coronel José Américo, prestimoso amigo e auxiliar das forças legais. O general mandou seguir para o ponto indicado o seu ajudante-de-ordens, alferes Marques da Rocha, com praça do piquete, que fizeram fugir os jagunços, exceto um, que morreu brigando. O grupo era de 8 a 10. Os dois autores descreveram esse mesmo acontecimento e o que divergem entreambos é o tamanho do grupo de jagunços, enquanto Macedo Soares afirma ser entre 8 a 10 eDantas Barreto fala entre 15 a 20 jagunços. A quantidade de jagunços não importa, mas comoessas construções são feitas, porque motivo aumentaria a quantidade de jagunços, senão paravangloriar o piquete destacado e/ou ridicularizar as forças de combate dos conselheiristas. Entretanto, os mesmos homens imbuídos de uma noção de civilidade, no qualincumbidos como agentes executores da ordem, na missão de resguardar a lei, invertiam ospapeis igualando-se a muitos arruaceiros, cometeram violência com a população sertaneja,como podemos notar abaixo, Esse comboio fora entregue a um cabo de esquadra, cuja praça nem ao menos pudera conter os soldados, que nesse trajecto commetteram violências, que afugentaram os poucos moradores da estrada, durante dias (Barreto: 1898, p. 51-2). 16
  17. 17. Contudo, não esquecendo o embate entre as forças legais e os jagunços de AntonioConselheiro em Uauá que após o confronto, antes de se retirarem, os soldados incendiaram opovoado e saquearam as casas6. Outra discussão é sobre o potencial bélico dos conselheiristas, como eles teriamconseguido suportar os ataques do Exército junto com as forças policias Estaduais. Algunsmilitares como Carlos Telles, Macedo Soares e Dantas Barreto acreditavam que as armasabandonadas pelas Expedições anteriores foram fundamentais para o aumento do potencialdos conselheiristas. Conforme Macedo Soares afirma que Canudos tinha fornecimento doselementos de guerra que vinham de Minas, Bahia e Sergipe, aliado as armas de fabricação dosconselheiristas (Soares, 1985, p. 46). Segundo Angelina Nobre Rolim Garcez (1977), os jagunços contaram com fartamunição, até a batalha final. A mesma afirma que em canudos, em nenhum momento retraiu-se ou demonstrou precisar poupar munições, “ao contrário, apesar de sitiados, os jagunçoscontinuaram atacando, esbanjando seu municiamento, como se dispusessem de uma fonteinesgotável”. Segundo Araripe, os conselheiristas conseguiram fornecedores de armas como“Coronel Leitão, fazendeiro e comerciante em Santa Luzia, o qual fornecia armas e muniçõesaos jagunços” (Garcez, 1977 apud Araripe, 1960, p. 44).Controvérsias e silêncios Umas das questões polêmicas que muitos autores e militares divergem é sobre osnúmeros de habitantes em Bello Monte, o autor Macedo Soares afirma que Canudos contavacom 6.000 habitações e estima uma população de 30 ou 35 mil pessoas fanatizadas. Noentanto, esses números são contestados, pois não há um consenso entre os próprios militaresem relação ao número de habitantes e de casas, na obra O Rei dos Jagunços de ManoelBenício – correspondente do Jornal do Comércio – alega existir ali casas em número de mil.Já Euclides da Cunha estima uma população de aproximadamente 25 a 30 mil pessoas e 5200casas. No entanto, José Calasans através de seus estudos estimava que houvesse entre 8 a 10mil pessoas, segundo ele, esse índice populacional teve seu auge na hora da guerra pelodeslocamento das pessoas para a defesa de Canudos (VILLA, 1998, p. 77). O autor escreve6 Fonte Jornal A Tarde, jornalista Oleone Coelho Fontes, 16 de novembro de 1996. 17
  18. 18. numa perspectiva de dar voz ao vencidos, escrevendo uma história vista a partir de baixo.Contudo, Segundo Dantas Barreto, após a destruição de Canudos, o número de sinais de casasdo arraial foi verificado existir 5.200 casas. O que podemos constatar é que existem muitas controvérsias em torno do número dehabitantes e das construções das casas que, segundo o Coronel Carlos Telles, existiam apenas1.000 e não 5.000 casas naquela cidade. O coronel Telles procura eliminar as fantasmagoriascriadas pelos jornalistas, políticos e militares em torno de Canudos Marco Antonio Villa argumenta sobre esse número elevado de habitantes, afirma quea contagem pouco criteriosa das casas existentes em Canudos foi ao encontro dos interessesmilitares em enaltecer o tamanho da cidade, para justificar o massacre ocorrido e a deslocaçãoda metade do contingente do exército para o conflito. Uma última questão na análise das lutas é a questão da degola dos prisioneiros.Tomarei uma citação de Euclides da Cunha (1950, p. 542), pois foi o primeiro a denunciá-lada seguinte maneira: Os soldados impunham à vítima invariavelmente um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhes a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes a facão. Entretanto, um silêncio paira sobre este determinado assunto nas duas obras de DantasBarreto e no livro de Macedo Soares, pois na guerra a degola foi uma prática corriqueira deambos os lados, contudo, é muito mais difícil de ser aceita pelos autores militares. Talvez, nointuito de esconder os crimes que praticaram, para não manchar sua reputação aos olhos dasociedade, visto que eles representavam a lei e a justiça, que não fora concebida aosprisioneiros, com exceção dos velhos, mulheres e crianças.Despesas Do ponto de vista econômico-financeiro da guerra, sua execução necessitou,especialmente na última expedição, de recursos federais e estaduais. César Zama afirma que a 18
  19. 19. repressão a Canudos custou muito caro ao país: “obrigou o tesouro nacional a despendermilhares de contos e impôs aos cofres estaduais onus que eles não podiam suportar...deixando o tesouro exausto, com credito esgotado” (Zama: 1899). Apesar disso, não faltaram oportunidades para o enriquecimento às custas dasExpedições, principalmente os grandes proprietários de gados e comerciantes, que vendiamseus produtos a preços altíssimos. Contudo, é claro, existiam casos extremos de danosmateriais causados pelos militares à região, como por exemplo, relatos dos casos de confiscosde reses que ocorreram em vários momentos para alimentar as tropas. Há um caso, muitointeressante, de um processo datado de 1908, onde a D. Francisca Dantas – proprietária dafazenda Canudos – apela por meio da justiça para que seja reembolsada o valor das comprasde víveres para a alimentação das tropas. Curiosamente, a proprietária da fazenda chega aafirmar que o exército causou mais estragos que os próprios conselheiristas. Em 05 de outubro de 1897, caíram os últimos combatentes de Canudos, estando tudoacabado. Eclodiram vivas a República e ao Exército, “assim, estava terminada e de maneiratão singularmente trágica a sanguinosa guerra, que o banditismo e o fanatismo traziam acesapor longos meses, naquele recanto do Território Nacional” (Soares: 1985, p. 224). As ordenseram para que não sobrasse nada de Canudos senão ruínas, “era preciso não deixar umaparede em meio, uma viga sequer intacta” (Barreto: 1912, p. 291) e, assim o foi executado. O autor Dantas Barreto conclui sua obra afirmando que Exército cumpriu o seu papel“amparou as instituições da República” e “destruiu os elementos subversivos dos longínquossertões da Bahia e é a impávida sentinella que vigia attentamente os traidores e os inimigosda Patria” (Barreto: 1912, p. 300). Entretanto, o mesmo autor, critica os poderes da nação emnão retribuir os militares como deviam depois da destruição de Canudos “trataram com afreisa de um facto commum na vida da República” (Barreto: 1898, p.112). A Guerra de Canudos deixou sepultados dentro de suas cercanias uma parte da históriado Exército, da Bahia e do Brasil. Submersa sobre as águas do Vaza Barris, que em tempos deseca suas águas baixam, ressurgindo destroços do passado, como se fosse um pedido para quenão nos esqueçamos daquela terrível e horrenda carnificina contra os sertanejos do norte daBahia. 19
  20. 20. CONSIDERAÇÕES FINAIS A guerra fratricida articulada pelo governo brasileiro em 1897 conta o lídercarismático Antonio Vicente Mendes Maciel – o Bom Jesus Conselheiro – e sua greiapostólico-sertaneja não apenas aniquilou a cidade de Canudos, sede daquilo que até se podedenominar de Movimento Conselheirista, mas, principalmente afetou toda a realidade dosertão baiano (Oliveira: 2006). É inegável o papel dos militares como agentes executores das ações políticasgovernamentais, bem como, a sua indiferença com os habitantes do sertão que foramdestratados, humilhados. Além disso, os militares representavam a civilidade, moralidade ejustiça, vinham incumbidos de uma noção de civilização a um espaço territorial poucodesenvolvido e acharam-se no direito de passar por cima de tudo. Mostravam-se muitas vezessuperiores aos conselheiristas e a todos os habitantes daquela região denegriam a imagensdestas pessoas humildes. Portanto, o interesse para a compreensão deste processo colocou nocerne deste trabalho a discussão sobre a visão do Exército e a influência deste pensamento nasobras em análise. O Exército vivia outro momento na sua estrutura depois da Guerra do Paraguai, maispolitizados e preocupados, dentro de seus próprios interesses, com o destino político doBrasil. Com a Proclamação da República fruto de um golpe militar e, por isso, osrepublicanos precisaram continuar investindo na propaganda objetivando alcançar o coraçãoda sociedade da consolidação do regime, afinal o novo regime não fora proclamado com aparticipação popular. Entretanto, era preciso legitimar, justificar e exaltar o novo regime que estava imbuídocom a noção de modernização do país, por isto, a manipulação do imaginário foi uma armavaliosa para justificar o novo regime e legitimar o seu poder. Segundo Von Clausewitz na obra “Da Guerra”, enfatiza que a guerra é uminstrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outrosmeios (CLAUSEWITZ, 1996). Então, quando Canudos aparece no cenário nacional,manipula-se toda a opinião pública contra Canudos, pois a República precisava de um inimigoa altura que unisse toda a nação, tornou-se assim, necessário transformar Canudos em umperigo real para a mesma, justificando certas ações. 20
  21. 21. O Exército via em Canudos um inimigo a ser vencido, mas, não se pode esquecer asderrotas das 2ª e 3ª Expedições, em que o algoz vitimado com seu orgulho ferido, buscoureerguer-se diante de toda a sociedade num esforço para expressar sua força e recuperar seuprestígio, já que cabia-lhe a defesa da República recém instaurada. Suas derrotas colocavamem xeque o seu poderio e status, então, sem dúvida, a destruição da urbe de Conselheirorepresentava a oportunidade de erigir-se perante toda a nação. Dentro dessa perspectiva militar, os autores vão beber direto da fonte e apresentam omesmo pensamentos em relação a Canudos, além do mais, estenderam isto a seus habitantes,subjugavam os sertanejos apelidados de “beatos”, “fanáticos”, “jagunços” e “bandidos”,entre outros, demonstrando seu desprezo e muitas vezes colocaram-se acima de todos e,sobretudo, dentro de uma superioridade racial, taxava-os como componentes de uma subraça.Portanto, os autores naquele espaço e determinado momento eram homens imbuídos de umanoção de civilização, progresso e modernidade, e viam tudo aquilo como um retrocesso, poisvinham de capitais urbanizadas que na época eram vistas como modernas. O Exército, instituição diretamente envolvida na luta contra Canudos, tem um modopróprio de entender como se figurava a situação em torno deles. Ele e os seus militares sãoresponsáveis não só por ter sido o dolo direto pela eliminação de Canudos, como também porestar ligado, desde o início, à implantação da República, por ser um dos principais sujeitosdos conflitos políticos daqueles primeiros momentos do novo regime, mas também pelasfunestas denominações sobre Canudos e seus habitantes, pois os militares foram os primeirosa escreverem sobre o assunto e, é claro, por terem sido formados pela Instituição “Exército”como Dantas Barreto e Macedo Soares, Euclides da Cunha e muitos outros contribuíram parao conjunto de expressões que maculam Canudos. Por isto, estudar como se formou a opinião da instituição sobre esse significativoacontecimento é contribuir para o entendimento de um importante agente social e político,para o entendimento de como ele pensa de si próprio, como pensa o país e sua relação comele. Resta-nos somente desconstruir esses tipos de visões que distorcem a realidade dosfatos apresentando-lhes a real intenção para não cairmos nas armadilhas e não reproduzirmosestas visões deturpadas do que foi o real movimento conselheiristas. 21
  22. 22. BibliografiaARARIPE, Tristão de Alencar. Expedições Militares Contra Canudos. Imp. Do Exército,Rio de Janeiro, 1960.BARRETO, Emídio Dantas. Última Expedição de Canudos. 2ª ed. Porto Alegre, Franco eIrmãos Editores, 1898.________________, Destruição de Canudos. Recife, Ed. Jornal do Recife, 1912.BENÍCIO, Manuel. O rei dos jagunços: crônica histórica e de costumes sertanejos sobre osacontecimentos de Canudos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997.BURKE, Peter. O que É História Cultural?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.CALASANS, José. Quase biografias de jagunços: (o séquito de Antonio Conselheiro).Salvador: UFBA, Centro de Estudos Baianos, 1986.CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil.São Paulo: Companhia das Letras._____________. Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi. Cia. dasLetras, São Paulo, 2002.CASTRO, Maurício de Almeida Siaines de. Canudos: visões militares. Rio de Janeiro: UFRJ,IFCS/PPGSA, 2004.CASTRO, Celso, 1990. O espírito militar: um estudo de antropologia social na AcademiaMilitar das Agulhas Negras. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. 2ª Ed. Editora: Martins Fontes, 1996.COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisivos. 4ª Ed. SãoPaulo: Brasiliense, 1987.CUNHA, Euclides. Os Sertões: a campanha de Canudos. 21ª ed., Rio de Janeiro: FranciscoAlves, 1950.GACEZ, Angelina Nobre Rolim. Aspectos econômicos do episodio de Canudos. Salvador:Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, 1977.GALVÃO, Walnice Nogueira. O calor da hora: a guerra de Canudos nos jornais, 4ªExpedição. Ed. Ática S/A. São Paulo, 1994.MONIZ, Edmundo. Canudos: a luta pela terra. 7ª Ed. São Paulo: Global, 1988.NERY, A. Constantino. A Quarta Expedição contra Canudos. 2ª ed. Pará, Typ. de PintoBarbosa, 1898.NUNES, Favila. Guerra de Canudos: narrativa histórica. Rio de Janeiro, Tipografia Morais,1898. 22
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