Avaliação que os falantes urbanos fazem na variação rural

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Avaliação que os falantes urbanos fazem na variação rural

  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE LETRAS MARIA DILMA CARNEIRO DE OLIVEIRAAVALIAÇÃO QUE OS FALANTES URBANOS FAZEM DA VARIAÇÃO RURAL , Conceição do Coité 2009
  2. 2. 1 MARIA DILMA CARNEIRO DE OLIVEIRAAVALIAÇÃO QUE OS FALANTES URBANOS FAZEM DA VARIAÇÃO RURAL Monografia apresentada ao Departamento de Educação, da Uneb campus XIV Conceição do Coité, como requisito parcial para obtenção do grau de Graduação em Licenciatura em Letras Vernáculas. Orientadora: Professora Doutora Lucia Maria de Jesus Parcero. Conceição do Coité 2009
  3. 3. 2 AGRADECIMENTOS É maravilhoso, Senhor, ter uma família para amar, pais tão especiaiscomo os que me deste. A vocês pais queridos: Salvador e Dalva, agradeço a bençãoda vida, a pessoa que sou e aos sonhos que pude realizar. A vocês irmãos: Sineide,Nilma,Joilson,Ailton e Wilson,obrigada pela força e torcida. O professor é um profissional cuja bagagem existencial se estampanaquilo que ele faz: ensinar e aprender, a descobrir, a inventar. A vocês professores:Lúcia Parcero e Deijair meu muito obrigado pela parcela que me contribuiu. Gosto de pensar o afeto como a emoção que torna o outro especial.Algo que é estruturante do sujeito e da relação, algo que desassossega em seudever, porque o outro não é mais o mesmo depois que é amado. Ao meu amadoGilmar, obrigada por todo carinho, compreensão e ajuda. Na vida somos nutridores de sonhos porque “sem sonho, não hávida possível”. E sem amigos, não há vida suportável. Aos amigos: Genilda,Gildeone,Bella e Keilla, obrigada pela ajuda e pelo incentivo.
  4. 4. 3“Tudo é do pai toda honra e toda glória é dele a vitória alcançada em minha vida” (Pe. Fábio de Melo).
  5. 5. 4Língua portuguesaÚltima flor do Lácio, inculta e bela,És, a um tempo, esplendor e sepultura:Ouro nativo, que na ganga impura.A bruta mina entre os cascalhos vela.Amo-te assim desconhecida e obscuraTuba de alto clamgor , lira singela,Que tens o trom e o silvo da procela,E o arrolo das saudades e da ternura!Amo teu viço agreste e o teu aromaDe virgens selvas e de oceano largo!Amo-te, ó rude e doloroso idioma,Em que da voz materna ouve:”meu filho!”,E em que Camões chorou, no exílio amargo,O gênio sem ventura e o amor sem brilho! Olavo Bilac
  6. 6. 5 TERMO DE APROVAÇÃO MARIA DILMA CARNEIRO DE OLIVEIRAAVALIAÇÃO QUE OS FALANTES URBANOS FAZEM DA VARIAÇÃO RURALAvaliação que os falantes urbanos fazem da variação rural. Monografia aprovadacomo requisito parcial para obtenção do grau de Licenciada em Letras Vernáculas,Departamento de Educação (DEDC), campus XIV, Conceição do Coité,Universidade do Estado da Bahia (UNEB), pela seguinte Banca Examinadora:Orientadora: Lúcia Parcero______________________________________________Professora da UNEB - campus XIVDeijair Ferreira da Silva_________________________________________________Professor da UNEB - campus XIVRosana_____________________________________________________________Professor da UNEB – XIV Conceição do Coité, 03 de abril de 2009.
  7. 7. 6 RESUMOA monografia que ora se apresenta versa sobre a avaliação que os falantes urbanosfazem da variação rural, por isso tem como objetivo identificar e analisar a avaliaçãoque os moradores da sede de Riachão do Jacuípe fazem da variante linguistica dascomunidades rurais. Para a análise do tema utilizou-se a linha metodológica daSociolingüística Qualitativa. O estudo foi desenvolvido mediante pesquisabibliográfica, questionário e de nove entrevistas, pelos quais, após a análise, pode-se perceber que ainda persiste na língua a idéia de certo e errado, gerando assim opreconceito entre falantes cultos e não cultos.Palavras-chave: Língua; Sociedade; Variação Linguistica.
  8. 8. 7 ABSTRACTThis monography discusses about the opinion of urban speakers regarding rurallinguistics variation therefore, the work alms to identify and analyse the avaliation thatthe residents of Riachão do Jacuípe city do about the linguistics variant found in therural communities. In order to analyse the theme was utilizated the methodologicguide-line of Qualitive Sociolinguistics. The whole study was developed throughbibliographic research, interview questionnaire wich show, after analyse the datas,that persist in the language the idea right and woron..So, it arises the limguisticprejudice among cult and no cult speakers.Key-word: Idiom;Association;Variation Linguistics.
  9. 9. 8 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ................................................................................................... 091 REVISÃO DA LITERATURA .......................................................................... 111.1 HISTÓRIA DA SOCIOLINGÜÍSTICA .......................................................... 111.2 A SOCIOLINGUÍSTICA E SEU OBJETO DE ESTUDO .............................. 111.3 LÍNGUA E GRAMÁTICA .............................................................................. 121.4 LÍNGUA, CULTURA E SOCIEDADE ........................................................... 142 METODOLOGIA ............................................................................................. 182.1 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS ........................................................ 182.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS .................................................... 192.2.1 Seleção e familiarização com o espaço da pesquisa ............................... 192.2.2. Coleta de dados ....................................................................................... 193 ANÁLISE DE DADOS .................................................................................... 224 CONCLUSÂO ................................................................................................. 30REFERÊNCIAS ................................................................................................. 32
  10. 10. 9INTRODUÇÃO Esta pesquisa foi desenvolvida pelo fato de se entender que alíngua em qualquer tempo/espaço é dinâmica, viva e está sujeito a mudanças,tendo em vista que é através do indivíduo que ela se concretiza. Dessa forma,podemos afirmar que não há uma homogeneização da mesma, levando emconsideração que a língua possui variações que se dá através das diversas formasde falar de um povo ou do nosso próprio falar em diversas situações. As concepções relacionadas à mudança línguistica sãodanosas e reprimem convivência em sociedade, porque a sociedade em geral,utiliza a norma culta para encontrar “erros” na fala de pessoas que usam variantespróprias de sua região ou de seu grupo social, baseando-se em critériosextralingüísticos tais como etnia, sexo, religião e localidade onde mora, como é ocaso das variantes da zona rural: [...] não são bem aceitas por alguns membros da sociedade, uma minoria pertencente a classes privilegiadas, a partir do momento em que essas variedades passam a ser utilizadas por falantes oriundos da zona rural ou dos subúrbios dos centros urbanos, [...] tentando impor uma unidade lingüística existente apenas na imaginação, ou seja, apesar da enorme diversidade e variabilidade apresentada pela língua, no uso cotidiano, falada no Brasil, as pessoas tendem a transformar o idioleto do outro em "erro” (PRETTI, 2000 p. 23). Toda língua exibe variantes, umas mais prestigiadas que outras.Assim, com base nestas suposições, decorre a noção conturbadora de erro ao sedescrever o padrão culto como certo e as demais como erradas, gerando opreconceito lingüístico. Os falantes não têm a consciência de que a língua mudaconstantemente, apesar das mudanças ocorrerem de forma lenta, não atingem umtodo, mas sim parte da língua como afirma Faraco: Os falantes normalmente nãotêm consciência de que sua língua está mudando. Parece que, como falantes,construímos uma imagem da nossa língua que repousa antes na sensação depermanência do que na sensação de mudança (FARACO, 1991, p. 9). Estes fatos justificam o interesse por esta pesquisa, cuja estrutura écomposta por três capítulos: O primeiro: revisão da literatura visa apresentar osteóricos que darão suportes e fundamentação aos capítulos seguintes. O segundo
  11. 11. 10ostenta-se da metodologia que demonstra os procedimentos e fundamentosmetodológicos utilizados na realização desta pesquisa. O terceiro capítulo exibe aanálise dos dados coletados. Após o desenvolvimento dos capítulos expõe-se aconclusão a qual apresenta os resultados obtidos. Neste trabalho nota-se que, a primeira reação dos falantes,principalmente àqueles que possuem uma situação socioeconômica mais elevada enormalmente não são os primeiros a participarem do processo de mudança dalíngua, têm como negativas as formas inovadoras e tacham de “incorretas”, “feias”,“impróprias” e em conseqüência seus falantes são avaliados mutuamente como“burros”, “ignorantes”, desfiguradores da língua, principalmente quando se refere aosfalantes rurais Embora ,linguisticamente falando as formas alternativas sejam tãoboas quanto a padrão. Assim afirma Faraco: Os grupos implementadores demudanças têm geralmente baixos prestigio social e sua fala - inclusive aquilo que énela inovação - costuma ser marcada de forma negativa pelos grupos privilegiadoseconômico-social e culturalmente (FARACO, 1991, p.16).Isso acontece pelo fato dos grupos privilegiados não terem uma base lingüística e apercepção que a língua está mudando, propagarem uma atitude negativa emrelação às mudanças, entendendo-as como uma natureza de decadência, ou seja,é como se a mudança estivesse empobrecendo a língua, deturpando-a,transformando-a para pior. Pensando assim, a variação linguistica do meio rural éconsiderada um problema para os falantes da sociedade urbana do município deRiachão do Jacuípe? Qual seria a causa e onde está o erro? Em função de tudo o que foi dito sobre a língua e suaheterogeneidade é que se pretende realizar uma pesquisa, que tem como objetivoidentificar e analisar a avaliação que os falantes da sede do Município de Riachãodo Jacuípe fazem da variante lingüística das comunidades rurais do município.
  12. 12. 111 REVISÃO DA LITERATURA1.1 HISTÓRIA DA SOCIOLINGÜÍSTICA A Sociolinguistica surge na década de 1960 nos Estados Unidos amercê especialmente dos trabalhos de William Labov.Ela veio dar a conhecer quequalquer língua transforma e sofre mudanças com o tempo e no espaço de acordocom as vissitudes sociais do falante. Embora o aspecto social da língua tenha chamado a atenção desdecedo, tendo relevância desde o trabalho do lingüista suíço Ferdinand de Saussureno início do século XX , foi talvez somente nos anos 1950 que este aspectocomeçou a ser investigado minuciosamente. Todavia como já foi dito a figura chave foi William Labov, que, nosanos 1960, começou uma série de investigações sobre a variação lingüística querevolucionaram a compreensão de como os falantes utilizam sua língua.1.2 A SOCIOLINGÜÍSTICA E SEU OBJETO DE ESTUDO Entende-se Sociolingüística como uma subárea da Lingüística.Seus estudos estão voltados para a língua e suas comunidades de fala. Por alíngua não ser homogênea, encontram-se formas diversas que tem valor igual noestudo da significação das palavras do vocabulário, da sintaxe e da morfossintaxe(MOLLICA, 2003, p.10). A Sociolingüística considera a variação como seu principal objetode estudo, julgando-a como regra geral e universal, sujeita à análise e descritacientificamente. Porém, são várias as áreas que interessa à Sociolingüística taiscomo: variação e mudança, multilinguismo, contato entre as línguas. Ela consideraaspecto social da linguagem, tanto dos pequenos grupos sócio-culturais quanto dascomunidades maiores. Como afirma Fairciough:
  13. 13. 12 È graças á Sociolinguística que a natureza socialmente constituída da prática lingüística pode ser tomada como premissa geral do estudo crítico da língua. Mas a Sociolingüística é pesadamente influenciada pelas concepções “positivistas” da ciência social: a variação sociolingüística numa determinada sociedade tende a ser vista em termos de conjuntos de fatos a serem observados e descritos usando-se métodos análogos aos da ciência natural (1989 apud Bagno, 2000, p.304). Cabe também a Sociolingüística pesquisar o grau de mutabilidadeou estabilidade da variação, fazer o diagnóstico das variáveis e prever seucomportamento regular e sistemático. Os sociolinguístas têm-se voltado para aanálise da sistematicidade, legitimidade e estigmatização. O preconceito linguístico,tem sido um ponto relevante na área, pois ainda permanece nas práticaspedagógicas a idéia de certo/errado, baseando-se no padrão culto da língua. Porisso, os estudos sócio-linguisticos oferecem riquíssimas contribuições para adesconstrução dos preconceitos lingüísticos e de distorcer essa idéia de erro. Asociolingüística oferece diferentes moldes teórico-metodológicos para análise davariação e mudança (MOLLICA, 2003, p.13). A Sociolingüística apresenta três importantes termos que sãogeralmente confundidos: variedade, variante e variável. A variedade corresponde aodialeto, o termo variante é utilizado nos estudos de sociolingüística para designar oitem lingüístico que é alvo de mudança e a palavra variável é o traço, forma ouconstrução lingüística cuja realização apresenta variantes observadas peloinvestigador.1.3 LÍNGUA E GRAMÁTICA A gramática é o estudo sistemático dos elementos constitutivos deuma língua: formas, palavras, sons, construções e recursos expressivos. É oarrolamento das normas, que dirigem determinada língua, normas estas que dizemrespeito à ortografia, à fonética, à morfologia, à sintaxe e à semântica. Pelo próprio conceito de gramática fica claro que ela só pode existirquando a língua em questão referir-se á uma cultura erudita , ou seja, a umasociedade que utiliza a escrita e a faça uma das formas de informação entre seus
  14. 14. 13membros ao lado da oralidade .Não dizendo que em uma comunidade que nãoutiliza a escrita, ou tenha importância menor, não exista uma gramática no sentidoamplo do termo.Existe necessariamente, pois o fato de existir normas básicasmínimas é a própria razão do fator chamado língua. Nesse meio tempo, a gramática no sentido restrito subentende aescrita, uma estrutura de poder quase definida na qual as normas do escrever/falartenham direção coagida.s gramáticas surgem quando as sociedades atingemrelevância de poder nas mãos de grupos que hipoteticamente, fala a “linguagemcorreta” e sobrepõe aos outros.Portanto, não executa a diferenciação entregramática normativa e descritiva.Esta diferenciação é argumento aparentementeválido, porém, na verdade, não conclusivo, formulado para induzir em erro de queum indivíduo tem a liberdade de falar/escrever como deseja. Expor ou impor a normas que guiam uma língua são atos que nãose diferem.Afinal a língua não é somente um fenômeno lingüístico, que pode sofrermudanças Poe leis próprias.A língua é também imprecindivelmente um fenômenopolítico social. Tendo em vista a noção de língua como um meio de comunicaçãoverbal, pode se afirmar que para uma boa comunicação verbal não faz necessária amemorização de regras de linguagem, nem a disciplina que faz uso de tais regras eque normalmente, nas escolas, ocupam o espaço do que deveriam ser as aulas deportuguês: estudos de variados textos agradáveis, análises e interpretação, leitura eprodução de bons textos, finalmente, vivência de forma lúdica e criativa com alíngua. O dom do bem falar/escrever tem relação com gramática.Porém,com a gramática natural, internalizada de cada falante e essa internalizarão se dáquando o falante ouve e fala o sistema de regras.No contato individual dessa regraé que revelará o dom maior ou menor de cada um.Importante é comunicar e paraque isso ocorra é necessário dominar esse sistema de regras do meio decomunicação.Isso não tem a ver com a gramática normativa, isto é, listas de regrasimpostas aos alunos, em um método que censura variante lingüística.Umagramática internalizada, aprendida pela prática, pela exibição a atos de escrita efala e vivência continua com boa língua.
  15. 15. 141.4 LÍNGUA, CULTURA E SOCIEDADE. É por meio da língua que o ser humano expressa seuspensamentos e idéias sejam elas do seu tempo, da sociedade ou da comunidade aque pertence. Cada falante é usuário e transformador da língua, pois contribui parasua transformação e renovação.Por isso, pode se dizer que, através da língua, seprojeta a cultura de um povo. Entendendo língua como: Sistema lingüístico de que se utiliza uma comunidade falante e que se caracteriza por ser grandemente diferenciado, por possuir alto grau de nivelação por ser veiculo de importante tradição liberal e, às vezes por ter- se imposto a sistemas lingüísticos de sua própria origem (AVAR apud BRANDÃO, 1991, p. 12-3.). Cultura como sendo práticas e ações sociais que seguem umpadrão determinado no espaço/tempo.Referem-se a crenças, comportamentos,valores, instituições, regras morais que permeiam e “preenchem” a sociedade.Explica e dá sentido a cosmologia social. É a identidade própria de um grupohumano em um território e num determinado período. Dessa forma, de acordo com Câmera Junior (1975) a língua é umaparte da cultura, porém essa parte se sobressai do todo, com ele se combina e oresultado dessa cultura é o meio para a língua manifestar, é a condição para elacontinuar a existir. Tendo em vista que ela em qualquer tempo/espaço é dinâmica,inovadora e transformadora por isso é heterogênea. Por entender-se língua como um conjunto das diversas formas defalar, a língua portuguesa, nomeadamente como o português brasileiro, comoqualquer outra língua, é um fenômeno dinâmico, está sempre em processo deevolução, portanto é heterogênea, ou seja, não há uma forma única e correta defalar e sim variedades linguísticas. Por esse fato é que acontece o preconceito dalíngua, principalmente á aqueles que não possuem um grau de escolarizaçãoelevado, a exemplo dos falantes das comunidades rurais por falarem de formadiferente da sociedade urbana. Isso acontece, pois muitas pessoas não sabem quedo ponto de vista, lingüístico, cientifico toda forma de falar tem sua razão de ser,tem suas normas a serem obedecidas, segue a uma gramática e por mais bemorganizada que seja uma variante lingüística ela vai sempre ser considerada
  16. 16. 15errada, porque não corresponde ao que as forças detentoras de poder nasociedade consideram certo. É perceptível que a classe dominadora discrimina a classedominada, que tem seu “falar socialmente desprestigiado”, apesar de se acreditarque somos todos iguais perante a lei; Como poderia haver “igualdade lingüística” senão há igualdade social? Os cidadãos apesar de ser declarados perante a lei iguais são na realidade descriminados, já na mesma base do mesmo em que a lei é redigida. A maioria dos cidadãos não tem acesso ao código, às vezes, tem uma possibilidade reduzida de acaso constituída pela escola e pela “norma pedagógica” ali ensinada. Apesar de fazer parte da experiência de cada um o fato de as pessoas serem discriminadas pela maneira como falam [...] (GNERRE, 1985 apud BAGNO 2000, p 55). É isso que acontece com a variante urbana em relação àvariante rural por não utilizar a variante lingüística que a sociedade urbana - forçadetentora de poder - acredita ser correta, qualquer manifestação lingüística queescape do falante rural é considerado, pelos preconceituosos linguísticos, “feias”,“absurdas”, “erradas” e assim estigmatizam-na de “estropiadores da língua”, issopor que: Fundamenta-se o discurso normativo na suposição de que existiria um padrão lingüístico uniforme e mais elaborado, o qual permitiria aos sujeitos, comunicação mais eficiente e raciocínio mais organizado. A fala popular, expressão de incultura seria uma corrupção da língua culta, devendo ser corrigida por meio do ensino regular e do preceptismo. (BRITO; D’AGELIS, 1998, apud BAGNO, 2000, p. 60). É notável que muitas pessoas confundem erro ortográfico com errode português, na verdade se diferem bastante , pois o “erro de português que tantoamedronta, estigmatiza, intimida e humilha os falantes existe, porém ninguém ocomete, pois todo e qualquer falante nativo domina sua língua.Há,no entantodiferentes gramáticas para diferentes variedades do português.Todas sãoperfeitamente válidas em seu contexto e merecem respeito.Todavia o erroortográfico existe, porém na escrita e não no ato da fala.Pelo fato dos indivíduosnão possuírem o conhecimento entre um e outro acabam confundindo uma coisa eoutra, gerando conflitos.
  17. 17. 16 Desta forma entenderíamos variedade lingüística como um conjuntode coisas parecidas, porém com algumas diferenças fazendo relação a um conjuntode fatores que vão desde a localização dos falantes até a identidade e aorganização sociocultural da comunidade de fala. É clara a influência que a língua, um fator social, tem na vida dosseres humanos. A fala está presente em nosso cotidiano, a todo o momentofazemos uso da mesma para nos comunicar. Eis a importância da mesma, poissem ela não haveria comunicação. Na verdade, não é nenhuma novidade se dizer que língua esociedade se relacionam entre si, que seria impossível uma existir sem a presençada outra, já que a finalidade da língua é a de servir como meio de comunicaçãoentre falantes de uma sociedade e por isso ela costuma ser interpretada comoforma de expressão da cultura de um povo que dela faz uso dentro da sociedade aque pertence. E é por causa da expressão da fala que surgem os preconceitos, porum individuo se expressar de modo diferente do outro, ou seja, utilizar-se de formasdiferentes,para manifestar uma mesma idéia. É o caso das variantes distintas deum falante rural comparada ao do falante urbano, o qual este preconceitua aquelepor não fazer uso do mesmo dialeto, isto é, variações faladas por comunidadesgeograficamente distintas, sem considerar que não existe um falar certo, existemalternâncias de variações e que no ato da fala o importante é o entendimento entreos interlocutores. Portanto:Não devemos, porém, cometer o erro de condicionardiretamente a língua aos fatores culturais ou raciais, embora se reconheça quepode haver uma ligação entre eles, em especial no que se refere ao vocabulário deuma língua (PRETTI, 1994, p.15). É através do uso da língua que constantemente surgem asvariedades que não são "erros”, pois qualquer variedade da língua do ponto devista estrutural é perfeita e completa. O uso da variação dialetal não constitui umerro e sim uma diferença pelo uso de outro dialeto. Salienta Meilet afirmando que: Os dialetos, do ponto de vista diacrônico são evoluções independentes de uma mesma língua. Portanto entre língua e dialeto não há uma inferioridade entre este e aquela, mas pertencem a uma mesma grandeza. O que os diferencia é a função sócio-historica que estão investidos (1918, apud ELIA 1989, p.79).
  18. 18. 17 O que os falantes da norma padrão constituem como erro, temexplicação lógica: na língua falada não há erro, há variações, diferençasgramaticais em relação à língua culta, pois: O estudo e o ensino de uma língua não podem [...] deixar de considerar - como se fossem não pertinentes - as diferentes instâncias sociais, pois os processos interlocutivos se dão no interior das múltiplas e complexas instituições de uma dada formação social. A língua, enquanto produto desta historia e enquanto condição da produção da historia presente vem marcada pelos seus usos pelos espaços sociais destes usos. Neste sentido a língua nunca pode ser estudada ou ensinada como produto acabado, pronto, fechado em si mesmo. (GERALDI, 1926 apud BAGNO, 2000, p. 305). Portanto, o uso da variação dialetal não constitui um "erro”, pois,nalíngua há variações por isso nenhuma é falada do mesmo jeito em todos os lugares,assim como nenhum individuo fala a própria língua igual a outro, mesmoconvivendo em uma mesma sociedade.
  19. 19. 182 METODOLOGIA2.1 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS Para se fazer uma pesquisa se faz necessário a escolha de umaabordagem. Nesta pesquisa, os estudos foram desenvolvidos a partir dospressupostos metodológicos da Sociolingüística qualitativa, pois nesta pesquisabusca-se explicar e descrever o uso da língua em um contexto social e cultural. Ela pode ser caracterizada como uma tentativa de compreensãominuciosa dos significados e das características situacionais mostradas pelosentrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características oucomportamentos (RICHARDSON, 1999, p. 91). Uma abordagem qualitativa dá ênfase ao estudo de pequenasquantidades de falantes, pois o grande número de dados é considerado menosrelevante. Ela dá prioridade à observação, entrevistas, gravação e transcrição dafala, e análise textual. A observação, nesta abordagem, é considerada relevantepara esclarecer os fatores políticos e sociais que firmam o uso lingüístico. A descrição não se baseia em imaginações, desejos nem emtrabalhos que se realizam na estrutura dos objetivos do pesquisador. Descreve-se ese determina com exatidão definida. O pesquisador torna-se um repórter imparcialque permite aos entrevistados expressarem a própria definição da situação. Sobreesta abordagem: A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como na fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. A pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de regra através do trabalho intensivo de campo. (BOGDAN e BIKLON apud LUDKE, 1986, p 11). É cada vez mais perceptível o interesse por parte de pesquisadoresdarem sustentação às suas pesquisas na abordagem qualitativa, isso porque osproblemas são analisados em um ambiente em que eles acontecem de formanatural, sem nenhuma dominação intencional do pesquisador. Os dados reunidos
  20. 20. 19são de predominância descritiva. Há uma preocupação maior com o processo doque com o produto. O pesquisador nesta abordagem focaliza de maneira especial osignificado que as pessoas dão às coisas e á sua vida, além da analise dos dadosseguirem um processo indutivo, ou seja, o pesquisador não se preocupa em buscarverdades incontestes que provem hipóteses definidas antes do começo dosestudos Essas são as vantagens para a utilização da abordagem qualitativa.2.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS2.2.1 Seleção e familiarização com o espaço da pesquisa A escolha de um local adequado de pesquisa e a familiaridade dopesquisador com os membros do grupo a serem entrevistados são aspectosfundamentais da pesquisa qualitativa. O trabalho em questão está sendodesenvolvido na zona rural da cidade de Riachão do Jacuípe, especificamente nosbairros: Jatobá, Barra, Bela Vista, Barra do Vento e Alto do Cruzeiro. Após ter sidodecidido o local das entrevistas, entrou-se em contato com os possíveisentrevistados, sendo que alguns do sexo masculino rejeitaram a possibilidade deserem entrevistados. No processo de entrevistas, evitou-se influenciar os entrevistadosde forma que pudesse distorcer suas idéias e concepções, pois como sanciona:FIELDING (1993 apud RICHARDSON 1999, p 96) “o pesquisador participa paraobter informações detalhadas não para ser mais um membro do grupo.Opesquisador deve manter certo distanciamento para poder obter certas informaçõese interpretá-las”. O relacionamento entrevistador/entrevistado é um fator importante,porém tem que haver bastante cautela, para que o entrevistador não se envolvademais ou de menos, evitando assim alterações nos dados a serem recolhidos.2.2.2. Coleta de dados
  21. 21. 20 O pesquisador qualitativo tem diversos dispositivos para arealização da técnica de coleta de dados, entre eles estão: a observaçãoparticipante e não participante grupo de discussão e entrevista. Os procedimentos adotados nesta pesquisa foram compostos pelo“corpus” de análise constituída a partir de um questionário previamente elaboradoreunindo seis perguntas que incluíam algumas expressões de um informante ruralnão identificado. Foram realizadas nove entrevistas com informantes da sede domunicípio de Riachão do Jacuípe, sendo estes quatro do sexo feminino (duasinformantes de escolaridade de ensino médio e duas de nível superior) e cinco desexo masculino (três informantes de escolaridade de nível médio e dois de nívelsuperior), da faixa etária de 20 a 40 anos, previamente selecionados, em que foramobservados os seguintes aspectos: faixa etária, sexo, além de ser adicionado aoquestionamento; nome, grau de escolaridade e religião. Logo após essa seleção,procedeu-se a gravação das entrevistas, que foram realizadas nos domicílios dosinformantes, com exceção de duas terem sido realizadas no laboratório deinformática do Departamento de Educação-Campus XIV. As entrevistas foram padronizadas, ou seja, as perguntas foramapresentadas a todos os informantes com as mesmas palavras, na mesma ordem,com exceção de um, que foi acrescentada, a seguinte questão: -“E você acha queessa forma de falar é considerada errada ou você acha certo falar assim?”, parainduzir a mesma a falar um pouco mais sobre o assunto As entrevistas foram semi-estruturadas, portanto, assistemáticas, de modo a permitir respostas instantâneasdos entrevistados. Em seguida foram transcritas grafematicamnete e digitadas. As entrevistas tiveram a duração total de 1 h 43 m, assim postas porordem: 1ª entrevista 9 m 23 s 2ª entrevista 11 m 35 s 3ª entrevista 15 m 12 s 4ª entrevista 10 m 10 s 5ª entrevista 12 m 05 s 6ª entrevista 8 m 25 s 7ª entrevista 10 m 52 s 8ª entrevista 11 m 08 s 9ª enytrevista 15 m 03 s
  22. 22. 21 Os informantes selecionados serão aqui apresentados a partir dasiniciais de seus nomes e suas respectivas idades, assim distribuídos: I.S - 24 M.S.M.A - 22 N.C - 40 D.M.S - 32 V.S.S - 26 J.A - 33 J.R.C.J - 27 E.L.S.M - 33 A.-28
  23. 23. 223 ANÁLISE DE DADOS Considerado o que foi visto nos capítulos anteriores e estabelecidona revisão da literatura de que é por intermédio da linguagem que se dá acomunicação entre falantes com crenças em comum, um grande numero deinformações parecidas e que pertencem a meios culturais semelhantes dentro deuma comunidade de fala. A linguagem também permite o reconhecimento e oentendimento do mundo que os rodeiam. Dentre os meios que o ser humano utilizapara se comunicar está a fala, sendo esta considerada como um “caráteremblemático” que permite reconhecer, inserir e classificar o falante em diversosgrupos: social, econômico, gênero, faixa etária, grau de escolaridade, nacionalidadee naturalidade geralmente utilizadas para estigmatizar e discriminar o individuo nasociedade onde vive. Apesar de que do ponto de vista estritamente lingüístico nãose justificam julgamentos de valores de uma forma de falar ser melhor ou pior queoutra, uma vez que a linguagem é congênita e usual a todo ser humano. Asdiferenças existentes entre um falar e outro são maneiras de “atualizações distintas”,não isentam de culpa a avaliação estigmatizada e preconceituosa entre falantes deuma mesma língua pelo fato de se servir das diferentes variantes em uso: É de se esperar dessa forma que na extensão do território brasileiro haja um a unidade lingüística, a língua portuguesa, mas também diversidade, os falares brasileiros. O falante do país não te, a menor dificuldade em entender o falante do sul, embora ocorram diferenças na fonética, na sintaxe e no léxico (LEITE, CALLOU, 2005, p. 8). É o que sucede entre os falares urbanos e rurais. Os falantesurbanos têm idéia clara do falar rural, ainda que haja diferenças. A exemplo daspalavras consideradas erradas e os falantes das mesmas “estropiadores da língua”,pela informante I.S: “derradeiro para ultimo, decumento para documento, sumanapara semana, na bera para perto.”Isto são opções lexicais e fonéticas próprios decada região ou comunidade de fala que não intervém no entendimento, nãocompromete a comunicação entre um falante e outro, pois a informante soubeconhecer as idéias de cada enunciado. As diferenças existentes - no que diz respeito à variação linguística -entre as diversas regiões do país e os distintos falares se deram a partir da
  24. 24. 23colonização do Brasil, tendo em vista que a nação brasileira foi formada por umvasto pluralismo cultural e étnico como afirma a informante D.M.S: “a gente vem de uma colonização de portugueses que se misturou com indígena aí chegaram por trás os ciganos então o Brasil num. num tem padrão único não tem uma língua e sim umas línguas que se falam e há variantes [...] então nosso linguaja é... é... sofre influencia de todas essas etnias Du indígena, do negro, português [...]. É notável que a história da colonização do país reflete nadiversidade linguística, a qual pouco a pouco veio a ser reconhecida.por outro lado asublimação de um país com língua padrão, de uma gramática inalterável aindapersiste. O preconceito lingüístico é um fator intrincado de ser resolvido, já seencontra alicerçado na sociedade, além de ser alimentado pelos meios decomunicação de massa que atuam a seu favor, em programas de rádio, televisão,colunas de jornais, revistas, além de livros que seduzem ensinar o que é “certo” e oque é “errado”, separando à margem os falantes da norma não culta. Muitas vezesesses falantes não têm o usufruto de diversos serviços, pelo fato de não saberemtirar conclusões da linguagem aplicada pelos órgãos públicos. O preconceito da língua se dá em torno de que só existe uma línguaportuguesa única-aquela aprendida na escola, imposta pela gramática normativa eaplicada nos dicionários, qualquer desvio desta tríade escola-gramática-dicionario, édeterminada como erro sob o ponto de vista do preconceito lingüístico. Podemosobservar isto na fala da informante I.S quando diz: ”que eles reduzem muito aspalavras, ou seja, engole muitas letras e acabam falando errado”. Não é certo dizerque um indivíduo comete erro por falar diferente, em grande equívoco, pois: Ninguém comete erros ao falar sua própria língua materna, assim como ninguém comete ao andar ou ao respirar. Só se erra naquilo que é aprendido, naquilo que constitui um saber secundário, obtido por meio de treinamento e memorização: erra-se ao dar um comando no computador, erra-se ao falar/escrever uma língua estrangeira (BAGNO, 1999, p. 124). A língua materna é aprendida e dominada pelos falantes nativosdesde quando começa a falar as primeiras palavras “nosso conhecimento da línguaé ao mesmo tempo altamente complexo, incrivelmente exato e extremamenteseguro” (PERINI, apud Bagno 1999, p124). Portanto não existe um modo de falar
  25. 25. 24errado como afirmou a informante I.S: ”há uma necessidade de leitura, para que elespossa pelo menos melhorar esse jeito errado de falar”.É certo que há erro deportuguês, todavia nenhum falante nativo da língua os comete.Existe uma enormeconfusão entre erro de ortografia e erro de português, a exemplo da informanteM.S.M.A quando afirma que os indivíduos ao falarem “diferente querem tentarmodificar de qualquer jeito a NGB”. A informante comete um grande equivoco aopronunciar essa frase, pois a língua falada é a verdadeira língua natural, língua quecada individuo aprende com a família, pais, irmãos, seus grupos sociais. Ela é alíngua que muda, que transforma Poe sua heterogeneidade, portanto não se deveconfundir língua falada com língua escrita, ela que tem um papel fundamental nahistória do ser humano. O mesmo fato acontece com a informante N.C, quando diz: “[...] elerealmente está falando errado né? Pra... pra língua portuguesa ta falando errado,dentro da ortografia né? [...] eu considero um modo de falar errado [...]”. Ainformante confunde erro de ortografia com erro de português, sem notar que nãoexiste erro ortográfico no ato da fala. É necessário compreender que tudo o que éconsiderado erro pela gramática normativa tem uma explicação coerente, lógica e: A primeira providência para limpar esse terreno é ter em mente que a ortografia de uma língua , o modo de escrever, não faz parte da gramática da língua [...] milhões de pessoas passam a vida inteira no total desconhecimento das formas escritas de sua língua, apesar de falarem ela perfeitamente empregando sem dificuldades as regras gramaticais dela (BAGNO, 2004, p. 28). Outra distorção é a concepção errônea de atribuir grau desuperioridade à linguagem da cidade em comparação ao falar rural ou como secostuma chamar “o falar da roça’, pelo fato do falante não utilizar a norma culta noato da fala. Por este fator é atribuída a culpa à família, como menciona o informanteJ.R.C. J:” são fatores que geralmente a própria família que não tem como...por nãoter o coencimento de ensinar a criança , aí a criança continua falando errado [...]”.Na verdade , o que está acontecendo são distorções devidas a pensamentos daelite, classe dominadora, detentora do poder, característico de uma sociedadeburguesa, subdesenvolvida, em que uma minoria por obsequio dessa classe seedifica em juiz de falar o português “correto’.
  26. 26. 25 . Portanto, podemos reafirmar que há erro de português, porémninguém o comete. E esses supostos “erros” são sistemáticos, ou seja, ordenado,organizado, seguem uma lógica e consiste em regras gramaticais.È isso queacontece com falantes brasileiros rurais, eles não “erram” por serem “burros”,“estropiadores da língua”, mas por obedecerem a regras gramaticais próprias davariedade linguística deles, aprendidas em seu meio, falada por sua família, isto é: ”[...] os próprios filhos no dia-a-dia fica observando os pais falarem então eles não têm como culpar ninguém, só por essa questão das famílias não tem como corrigirem seus filhos, então as crianças vão ficar sempre falando errado e os próprios pais também não tem como corrigir porque não tem esse coencimento, então geralmente o modo de falar não é que a criança quis falar dessa forma é porque eles aprenderam dessa forma então sempre vai ta falando errado (INFORMANTE J.R.C.J). Assim os falantes rurais fazem uso das regras gramaticais do seupróprio meio e quando eles pronunciam: “[...] palavras que tem um” l “e que sonorizam com um” u “e geralmente elas trocam isso por um” r “então” alto “elas costumam falar” arto “é... é... é... enfim todas as palavras em que elas sentem que parece que puxam um pouco pelo” u’ pelo “l” elas preferem trocar por um “r”. (INFORMANTE J. A). Eles realizam essa pronuncias de forma sistemática e sempre quetiverem de pronunciar estas palavras elas pronunciarão com “r” em vez de “l”, poisisto já está internalizada em seu vocabulário. Na gramática deles não existe oencontro consonantal com “l”. Toda língua apresenta variedades mais prestigiadas que outras.Osestudos sociolingüísticos oferecem importantes subsídios no intuito de exterminar ospreconceitos da língua e relativar o conceito de erro, ao tentar descrever o que éconsiderado pela escola desqualificado e excluindo como manifestação lingüísticagenuína.De fato o uso de enunciados do tipo “nós foi”, “nos cheguemo” (Informanterural não identificado), com primeira pessoa do plural co-sucedendo com o sujeito deterceira pessoa singular, não é comum entre as classes elitistas do Brasil, noentanto o falante que utiliza desta forma não está cometendo erro de concordânciacomo afirma o informante J.R.C.J: “esse informante fala errado, principalmente naquestão onde ele precisa usar o plural quando ele fala” nós “em vez dele falar”chegamos “ele bota o singular” nós chegou “. Desta forma asseverar que a forma”
  27. 27. 26nós chegou” é um erro, significa para alguns falantes que eles estão proibidos defazer a diferenciação intuitiva e inconsciente entre os tempos presente e passado. A língua materna entendida como língua primeira , como se sabe éaprendida sem a necessidade do ensino escolar, é adquirida com o convívio nasociedade. Assim é que os falantes rurais aprendem a sua língua materna, porintermédio da família, do convívio em seu meio dentro de sua comunidade de fala,passam a falar da maneira que ouvem, pois o meio os influenciam: ”[...] o meio que ele vive, na verdade, ele por estar num. num convívio com pessoas que não tiveram escolarização, eles tendem a si acostumar, a ser influenciado por essa linguagem desse meio que ele está inserido, então eu acho que esse é o fator principal que os influencia a falar dessa forma (INFORMANTE V.S.S). Então quando um indivíduo diz que um falante nativo não sabe falarsua própria língua ele confunde língua materna com gramática normativa. A línguamaterna de uma comunidade é sua maior herança, possuindo ou não prestígio deveser respeitada como menciona a informante M.S.M. A: ”Apesar de na o achar certo,mas respeito, o importante também é o que eles estão tentando... a mensagem queeles estão tentando nos passar”. Pois além de ser perfeita do ponto de vistalingüístico, ela é marca identitária dos falantes de uma comunidade de fala, porémesta razão não é motivo de juízos antecipados, pois: O respeito pela língua materna de um povo nada tem a ver com o fato de se ensinar ou não se ensinar gramática normativa. O respeito pela língua materna de um povo, ou melhor, pelas línguas maternas de todos os povos indicam o nosso crescimento como seres humanos. Indica nossa capacidade de conviver com as diferenças (BAGNO, 2002, p. 242). Isto é o que está faltando nas sociedades urbanas “capacidade deconviver com as diferenças” do falar das comunidades rurais. Tomar consciência deque a língua existe em função do coletivo, mas é comum a todos. O seu uso, emqualquer ato de comunicação será diferente todas as vezes que se realizar a fala.Dessa forma ao utilizar a língua, um falante fará de forma diferente de outrosindivíduos pertencentes a uma mesma comunidade, todas as vezes que secomunicar. Observa-se pois, a existência de um numero significativo de variedadede forma de expressão, seja qual for a língua utilizada para diversos propósitos paraum grande numero de falantes. O único problema da variação remete aos juízos de
  28. 28. 27valores do que é certo ou errado, de que é estranho a maneira de falar diferente dooutro, julgamentos relacionados e que dependem da noção de norma que se tem: [...] muitas vezes soa estranho [...] esses sujeitos devem ta conscientizado [...] por exemplo ele vai ter que seguir um padrão normativo, então eles tem que aprender as duas formas , ele tem que ser respeitado, sim, mas ele tem que se conscientizar que eles tem que aprender uma forma diferente que é aceitada [...]. (INFORMANTE V.S.S) Como salienta Sapir, a língua é o processo comunicativo porexcelência em toda sociedade e é muito importante observar que “quaisquer quesejam as deficiências de uma sociedade primitiva, julgada do ponto de vista dacivilização, sua linguagem inevitavelmente aparece como um aparato de simbolismoreferencial tão seguro, completo e potencialmente criativo como da linguagem maissofisticada que conheçamos (SAPIR apud TRAVAGLIA 1986, p.23). Dessa forma éa variação rural, por mais deficiente que seja, julgada pelo ponto de vista dasociedade urbana, é tão “completo”,” seguro”, e “criativo”, quanto o falar dosindivíduos urbanos, em ambos ocorre a comunicação, é bem entendido tanto pelosfalantes da mesma comunidade quanto de comunidades distintas como afirma: “dá claramente para entender o que... Que essa pessoa tá falando, não é... Não é uma... Uma... Um termo... Não há termos desconhecidos, digamos assim, na verdade, dá para se entender, está diferente do padrão normativo, mas da para se entender” (INFORMANTE V.S. S). Portanto as palavras que são substituídas pelos falantes rurais: ”atépor inté”, “nóis vai”, “muié ao invés de mulher”, ”barrer ao invés de varrer”(INFORMANTE V.S. S) são palavras previstas pelas regras da gramática natural, ouseja, internalizada do falante que as pronunciam, pois o saber lingüísticointernalizado de cada falante é sempre completo, por mais analfabeto que seja umindividuo ele conhece o sistema de todas as regras necessárias para se comunicar. É óbvio que há variantes de gramática natural, de acordo a idade,sexo, origem, nível de cultura e escolaridade, porém todas elas sem exceçãopossuem elementos necessários para formular frases e comunicar-se. Naturalmente,o nível de linguagem pode inserir e classificar indivíduos em determinados grupossociais, como aconteceu com o informante rural não identificado que pela forma defalar foi reconhecido, classificado, como um falante de: [...] baixa escolaridade, queé... Reproduz a fala provavelmente de pais e avós [...]. (INFORMANTE J.A). E ainda
  29. 29. 28que: “se trata... Inicialmente de uma pessoa idosa, que não passou por nenhuma...Por nenhuma escolarização, não tem um grau de ascensão social [...].”(INFORMANTE V. S. S). A gramática natural é flexível e varia. Não existe língua viva; paradalíngua parada, é língua morta: ”não pode (a língua) ser imutável: ao contrário, tem deviver em perpetua evolução, paralela à do organismo social que a criou [...] Apetrificação linguiistica é a morte do idioma [...]” (CUNHA apud LUFT, 2002, p.40). Adiversidade das regras deriva das variedades lingüísticas de localização geográfica,de tempo, das disposições das camadas sociais, de manifestação individual, poréma idéia tradicional só aceita a variedade culta, formal, a linguagem padrão, policiada,mesureira, tendo as variações como erradas. Por esse conceito, ou melhor,expressando, preconceito, as pessoas consideradas cultas acabam por excluir osindivíduos não cultos: “[...]. até o seu termo [...] ou culta ou padrão já é um termo que já exclui muita gente, como a gente vive num ambiente que a gente prega a inclusão e não a exclusão, se eu avalio se isso ta certo, se ta errado, só em... em querer avaliar aí eu já vou ta excluindo” (INFORMANTE D.M.S). Pois todas as variedades da língua são importantes, não seráexcluído-as, perseguindo-as, negando-as, que as usam que se mudarão algumacoisa.O falante rural usa a língua como sabe, como aprendeu em seu meio sem sepreocupar com a maneira que se expressa.Filhos de famílias cultas internalizam eusam a variedade culta, assim como filhos de falantes incultos internalizam e usam avariedade considerada inculta, embora não sejam do ponto de vista lingüísticoinferior a outra. [...] as pessoas da zona rural não; expressam o seu jeito de ser á sua maneira através da simplicidade da sua fala aquilo que ela costuma expressar no seu dia-a-dia, ela costuma expressar também na cidade com ou quando conversa com qualquer pessoa, seja ela doutor ou não, seja uma pessoa escolada ou não. (INFORMANTE A.) Diante de tudo o que foi observado, é notável a carência de umensino menos repressivo da língua materna que desenvolva o espírito crítico doaluno, imprescindível para discernir as diferenças entre língua falada e línguaescrita, dando primazia a clareza do pensamento e as relações entre língua esociedade. Assim, pode-se amenizar as tensões ligadas entre língua falada e língua
  30. 30. 29escrita, entre o que é certo e errado. Ensinar a norma culta deve implicar no mínimoà inclusão de formas variáveis sejam elas estigmatizadas ou não, de prestígio ounão, isto é, fazer um exercício progressivo e permanente da democracia lingüística.No ensino da norma culta para falantes nativos deve ser levado em consideraçãocomo realmente funciona a língua no sentido da comunicação. Para o ensino danorma culta –papel da escola- devem-se focalizar os estudos semânticos epragmáticos das formas variantes para tomarem consciência das diferençasdiscursivas existentes , em vez fazerem avaliações errôneas do que é certo e erradopois: Não basta assentar-se que “certo e errado são conceitos relativos,embora se coloquem como absoluto” (SCHERRE, 1999 apud NEVES 2006, p. 156).Mais que isso, certo e errado são conceitos impossíveis de estabelecer, a não serem campos legislados, como a ortografia, ou em questões que tocam a própriagramaticalidade, isto é, em referencia as seqüências que escapam à gramática dalíngua, seqüências nunca ocorrentes em produções lingüísticas se falante nativo, pormenos letrado que ele seja (NEVES 2006, p. 156). Portanto o campo da lingüística e o da disciplina gramatical escolarnão podem se separar, nenhum campo precisa necessariamente substituir o outro,mas caminhar lado a lado, pois um é base do outro.Então faz-se necessário que seinstitua um tratamento escolar ligado ao ensino das atividades ligadas a gramáticada língua materna, não perdendo de vista o natural e eficiente convívio com asvariantes no uso lingüístico, incluindo aí a norma considerada padrão.Dessa formahaverá uma conscientização para que o aluno saia da escola como um individuo querespeita e saiba conviver na sociedade com as diferenças sabendo respeitar alíngua materna de um povo, sem preconceitos, sem estigmas, sem desrespeito álíngua e a cultura do outro.
  31. 31. 304 CONCLUSÃO Baseado em todo estudo feito e no que já foi dito anteriormentesabe-se que a língua por sua heterogeneidade está sujeita a constante mudança,ela não evolui, não decai, não se torna complexa, ela apenas muda. Essa mudançase dá pelo fato de que a sociedade também muda, portanto língua e sociedade éuma realidade que se interrelacionam, ou seja, uma não pode existir sem a outra, jáque a função da língua é a de servir como meio de comunicação entre falantes deuma sociedade e de expressar a cultura de um povo a qual faz uso dessa língua epertence a essa sociedade. Dessa forma não podemos afirmar que há uma homogeneização dalíngua, tendo em vista que língua é um conjunto de variedades heterogêneas eessas variedades se dão através das diversas formas de falar de um povo ou donosso próprio falar de diversas formas em diversas situações. Percebe-se que alíngua está relacionada á cultura e que esta é um conhecimento adquirido e nãoimposto, além de não ser restrita a um determinado grupo social, racial e étnico. Naverdade as concepções que se tem de língua é danosa e reprime a uma convivênciaem sociedade, pois aqueles que utilizam da norma culta achando que é a forma“correta” de si falar acabam estigmatizando , conceituando como erro o modo defalar daqueles que utilizam de variações lingüísticas e falam diferente. De acordo com a pesquisa desenvolvida chega-se a conclusão queas pessoas que mais condena a variação rural fazendo avaliação errônea foraminformantes de nível de escolaridade do ensino médio, maioria do sexo femininosendo que os informantes de nível superior, a maioria possui uma concepção delíngua a partir do conceito da Sociolingüística, considerando a variação rural comoforma diferente de falar, não como errada ou imprópria. Apenas uma informante denível superior, tem noção de língua com a mesma concepção da gramáticanormativa, até chega a confundir-se entre as duas.Deixa-se claro que estainformante encontra-se no primeiro semestre do curso de Letras Vernáculas. Dar-se a perceber que a escola não tem trabalhado a inclusão deformas sucessivas entre gramática normativa e gramática natural, isto é, a gramáticainternalizada de cada falante. É perceptível que a escola exclui as formas não-padrão. De acordo com a pesquisa desenrolada, percebe-se que mesmo os
  32. 32. 31informantes que não são graduados do Curso de Letras Vernáculas, entendem quea língua é um fator social, ativo, passivo de mudanças e variações. A escola aindatem essa deficiência; não trabalhar os alunos de forma que eles possam reconhecere aceitar as diversidades linguísticas de uma sociedade, eliminando aos poucos aconfusão que há entre gramática normativa e língua nativa de um povo. Para que essa mudança aconteça é necessário considerar o ensinoda língua como um fator social, como parte de um imenso esforço. No Brasil issosignifica aceitar como o ensino de uma segunda língua ou de uma segundavariedade as variedades de prestígios e da gramática normativa, a ser utilizadacomo instrumento de ascensão social. Porém, esse seguimento deve ser levado emconsideração a estrutura línguística tanto das variedades padrão quanto dasvariedades populares.Fazendo isso se deve evitar a perda expressiva dealternativas que dispõe o falante. Desse modo pode-se mudar de alguma forma, a concepção errôneada língua, alterando a avaliação que se faz da variação rural, taxadas de incorretas,estropiadas, sendo que são apenas mudanças que se dão pelo fato da língua serheterogênea e estar em constantes mudanças. Portanto o que é errado hoje podeser considerado certo depois. Faz-se necessário eliminar a noção de certo/errado,pois na língua falada não existe erro nem acerto, há variações, e são tão boasquanto a variante padrão.
  33. 33. 32 REFERÊNCIASBAGNO, Marcos. Português ou brasileiro?: um convite à pesquisa. 4 ed, SãoPaulo: Parábola Editorial, 2004.______. A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira. São Paulo:Parábola, 2003.______. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.______. Língua Materna: letramento, variação e ensino. São Paulo: Parábola, 2002.______. Lingüística da Norma. São Paulo: Loyola, 2002.______. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical mídia e exclusãosocial. São Paulo: Loyola, São Paulo, 2000.BRANDÃO, Silvia Figueiredo. A Geografia Política no Brasil. São Paulo: Ática,1991.CAGLIARI, Luis Carlos. Alfabetização e Lingüística. São Paulo: Scipione, 1991.CAMARA JR, Matoso. Língua e Cultura. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,1975.DACANAL, José Hidelbrando. Linguagem, Poder e ensino da Língua. 2.ed, PortoAlegre: Mercado Aberto, 1987.ELIA, Silvio. A língua portuguesa no Brasil. São Paulo: Ática, 1989.FARACO, Carlos Alberto. Lingüística Histórica uma introdução ao estudo dahistoria das línguas. São Paulo: Ática; 1991.FAZENDA, Ivani [et. al]. Metodologia Qualitativa na Sociologia. Petrópolis: Vozes,2003.
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