A prática de literatura no ensino médio como inovar

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A prática de literatura no ensino médio como inovar

  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE LETRAS ANA ELMA DOS SANTOS SILVAA PRÁTICA DE LITERATURA NO ENSINO MÉDIO: COMO INOVAR? Conceição do Coité 2012
  2. 2. 1 ANA ELMA DOS SANTOS SILVAA PRÁTICA DE LITERATURA NO ENSINO MÉDIO: COMO INOVAR? Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literatura – Licenciatura, na Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial de obtenção do grau de Licenciatura em Letras. Orientadora: Profa. Juréia Maria Ferreira da Silva. Conceição do Coité 2012
  3. 3. 2Dedico este trabalho à minhafamília, pelo apoio na escolhado Curso e pelas contribuiçõespara realização deste.
  4. 4. 3 AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus pela vida e oportunidade de estudar. A família pelo apoio e ajuda na realização de algumas atividades. Aos colegas que souberam me compreender e exerceram companheirismo. Aos diretores, professores e alunos das escolas que cederam informações necessárias à realização desta monografia. Aos professores que me ofereceram bons ensinamentos. E, de forma especial, a professora Juréia Ferreira pela humildade, dedicação,paciência nas orientações e os bons conselhos oferecidos para realização dessa pesquisa.
  5. 5. 4“O bom educador é o que consegue, enquanto fala, trazero aluno até a intimidade do movimento de seupensamento” (Paulo Freire).
  6. 6. 5 RESUMOA partir da premissa que a literatura está constantemente presente no cotidiano decada indivíduo, esta monografia tem como objetivos identificar e propor estratégiasmetodológicas para o ensino de literatura em escolas de nível médio, tomando comoobjeto de estudo duas escolas da cidade de Valente/BA. O intuito do trabalho éperceber o desenvolvimento pessoal dos alunos perante a literatura, se o ensinodesta contribui para a vida dos leitores e se os tornam sujeitos atuantes nacomunidade em que vivem. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e asteorias de Lajolo (1999), Cosson (2006), Leite (2002), Masini (2004), Machado(2002), Martins (2006), Compagnon (2003), Coutinho (1995), entre outros,direcionam e apontam melhorias no ensino de Literatura no nível médio. Paracompletar tais vozes, realizou-se pesquisa qualitativa com abordagemfenomenológica com técnicas de pesquisa participante e questionário de entrevistacom professores e alunos. Os resultados apresentados apontam que o ensino deLiteratura no nível médio ainda encontra-se focado em análises históricas e estudosde textos, sem trabalhar a relação entre Literatura e vida, o que tira do aluno/leitor oconhecimento crítico e expressivo e a oportunidade de uma aprendizagemsignificativa.Palavras-chave: Ensino Médio. Literatura. Vida.
  7. 7. 6 ABSTRACTAt From the premise that literature is constantly present in everyday life of eachindividual, this thesis aims to identify and propose methodological strategies forteaching literature in high schools, taking as an object of study two schools ofValente city/BA. The aim of this work is to realize the personal development ofstudents before the literature, the teaching of this contributes to readers lives andmake them liable active in the community they live in. The National CurriculumParameters (NCP) and the theories of Lajolo (1999), Cosson (2006), Leite (2002),Masini (2004), Machado (2002), Martins (2006), Compagnon (2003), Coutinho(1995) , among others, direct and link improvements in teaching literature in highschool. To complete these voices, there was qualitative research with aphenomenological approach to participatory research techniques and questionnaireinterviews with teachers and students. These results suggest that the teaching ofliterature at the secondary level is still focused on historical analysis and study oftexts, without working the relationship between literature and life, which takes thestudent / reader critical knowledge and expressive and an opportunity to meaningfullearning.Keywords: Teaching Medium. Literature. Life.
  8. 8. 7 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ..................................................................................... 9CAPITULO I A PRÁTICA DE LITERATURA NO ENSINO MÉDIO: 11 COMO INOVAR? ........................................................1.1 O que é literatura? ...................................................... 111.2 A função da literatura .................................................. 151.3 Teoria da recepção ..................................................... 181.4 A literatura escolarizada .............................................. 22CAPITULO II REFERENCIAL METODOLÓGICO ............................. 282.1 Metodologia de pesquisa qualitativa com abordagem 28 fenomenológica ............................................................2.2 Descrição do Lócus da pesquisa ................................. 302.3 Coletas de dados ......................................................... 322.3.1 Observação participante .............................................. 332.3.2 Questionário de entrevista ........................................... 34CAPITULO III ANÁLISE DE DADOS .................................................. 363.1 O ensino de literatura: uma prática desarticulada das 36 propostas curriculares e das necessidades do aluno ......................................................................................3.2 A escolarização da literatura em detrimento de uma 43 formação leitora para a humanização do aluno / leitor ......................................................................................
  9. 9. 83.3 O sentido da literatura no Ensino Médio: alunos desinteressados, professores desestimulados 53 ......................................................................................CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................... 68REFERÊNCIAS ......................................................................................APÊNDICES ......................................................................................
  10. 10. 9 INTRODUÇÃO Esta monografia foi produzida com a intenção de entender como estáocorrendo o ensino de literatura no nível médio e, quais os meios de inovar essaprática. Buscou-se entender se o trabalho com a literatura contempla asespecificidades de significação e produção que são propostas pelo texto literário. Etambém, se esse trabalho oferece ao aluno uma aprendizagem significativa e umcrescimento crítico e expressivo, tornando-o sujeito capaz de atuar no contexto emque vive. O principal objetivo desse trabalho é propor estratégias metodológicas para oensino de literatura em escolas de nível médio, com vistas à obtenção de umaaprendizagem mais efetiva no domínio da literatura, além de identificar estratégiaspara a prática educativa de literatura com base nos Parâmetros CurricularesNacionais (PCN) do ensino médio e, observar como essas estratégias se efetivamem sala de aula. Objetiva-se ainda, descrever como é realizada a práticapedagógica por professores do ensino médio com o texto literário, bem comocontrastar a metodologia utilizada pelos professores de literatura com os métodosindicados pelos PCN de nível médio. Como a literatura está constantemente presente no cotidiano de cadaindivíduo, e tem o poder de encantar e fascinar quem a consome, o interesse pelotema surgiu a partir da necessidade de buscar formas alternativas de aprimoramentoda prática do professor, em função de serem poucos os recursos disponíveis nestaárea que mostrem as possibilidades de um ensino mais dinâmico e maiscontextualizado. Para concretização desse estudo optou-se por uma pesquisa qualitativa comabordagem fenomenológica, sendo realizada uma pesquisa de campo em duasescolas do município de Valente, sendo estas o Colégio Estadual César Borges e oColégio Estadual Wilson Lins, e observações diretas e participantes. Além disso,foram aplicados questionários de entrevista para professores e para alunos. Dessaforma, considerando-se a abrangência da Literatura, este estudo propõe estratégiasque possam ajudar a solucionar o problema e essas propostas enfatizam a relaçãodo leitor com o texto literário e sua realidade.
  11. 11. 10 Esta monografia encontra-se desenvolvida em três capítulos. No capítulo 1,foi apresentada a Literatura, sua função, recepção e sua prática no Ensino Médio.Essas descrições foram embasadas por teóricos como Compagnon (2003), Cosson(2006), Coutinho (1995), Eagleton (2003), Lajolo (1999), Leite (2002), Martins(2006), Coelho (1993), apenas para citar alguns. No capítulo 2, embasado porBicudo (1994), Goldenberg (2003), Lakatos e Marconi (1996), Machado (1994),Noronha (2004), Masini (2004), entre outros, far-se-á uma descrição da metodologiade pesquisa com abordagem fenomenológica, a ser utilizada para a coleta dosdados, e também para a pesquisa participante e o questionário de entrevista. Nocapítulo 3, apresenta-se o resultado da pesquisa, a prática desarticulada, aLiteratura escolarizada e o sentido desta no Ensino Médio. Entendo, por conseguinte, que a proposta contida neste estudo possibilitaráo desenvolvimento de uma nova concepção sobre como conduzir as aulas deliteratura e, principalmente, como encontrar metodologias para lecionar essadisciplina de modo a propiciar aos alunos a oportunidade de uma aquisição doconhecimento que seja enriquecedora, transformadora e prazerosa.
  12. 12. 11CAPÍTULO 1 A PRÁTICA DE LITERATURA NO ENSINO MÉDIO: como inovar? A Literatura no Ensino Médio é um considerável meio dos alunos não sóadquirirem conhecimentos acerca de escolas literárias e dados biográficos deautores de diferentes períodos, também é necessário que saibam o que é e qual afunção, a recepção dos textos/obras pelos alunos e a que se destina a literatura.Entretanto, mais do que isso, o estudo de Literatura no currículo das escolas éimportante tanto para o processo do conhecimento escolar como para o papel decidadão consciente. Dessa forma, através do professor de Língua e Literatura, aescola deve, no ato do ensino, levar em consideração a realidade sócio-cultural dosdiscentes, para assim, contribuir para a formação de uma consciência crítica demundo e formar cidadãos competentes e atuantes no convívio social e, ainda,estimular nestes, a capacidade da criatividade, da curiosidade e o gosto pela leitura,tornando-os então, leitores hábeis e autônomos.1.1 O que é literatura? De acordo com o Dicionário Aurélio, século XXI, Literatura classifica-se como:[Do lat. litteratura.] s.f. 1. Arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosaou verso. 2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época. Através dos tempos, foram estabelecidos e criados por teóricos, muitos ediferentes conceitos acerca da literatura. Entretanto, nenhum desses chega a serdecisivo e completo, pois cada época e teórico baseia-se em diferentes tipos deconhecimentos da vida, da arte, da palavra; enfim, dos valores e desvalores domundo e da condição humana.
  13. 13. 12 Nunca se chegou a uma definição concreta da Literatura, porém, dentre todosos conceitos criados, é de comum acordo que a literatura é um tipo de manifestaçãoartística que tem como „matéria prima‟ a palavra. Literatura é Arte, é um ato criador que, por meio da palavra, cria um universo autônomo, realista ou fantástico, onde os seres, coisas, fatos, tempo e espaço mesmo que se assemelhem ao que podemos reconhecer no mundo concreto que nos cerca, ali transformados em linguagem, assumem uma direção diferente: pertencem ao universo da ficção (COELHO, 1993, p. 37). A Literatura é o reflexo, exposto em forma de texto, da experiência de umartista vivenciada em uma determinada época. Mediante a visão que o artista possuidas ideologias presentes na sociedade em que vive, utiliza-se deste pretexto paraexpor seu pensamento sobre a realidade e, o faz através da ficção, recriando talrealidade por meio de outras palavras. É arte que usa os conteúdos dos textos paraproporcionar prazer e também estabelecer comunicação e, esta comunicação é feitaatravés de diferentes meios, tais como livros, televisão, rádio, revistas, cinema,teatro entre outros que fazem da palavra seu elemento comum. Além de tudo isso, a Literatura tem a capacidade de provocar estranhamento;a cada releitura que fizermos de um mesmo texto, ainda nos serão apresentadosnovos elementos que nos causarão estranhamento, uma vez que, muitas daspalavras são expostas não somente pela significação própria, mas empregadas nosentido mais geral que se pode atribuir a um termo. Na definição de Vítor Manuel deAguiar e Silva (2009), “[...] o texto literário caracteriza-se pelo facto de pertencer auma linguagem de conotação” (p. 654). A linguagem da Literatura é uma forma particular, diferente da linguagem„comum‟ que usamos no nosso cotidiano. “A literatura transforma e intensifica alinguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana” (EAGLETON,2003, p. 2). Ela tem leis específicas, estruturas e mecanismos próprios que refletemsobre a realidade social, constituindo um erro, na visão de Terry Eagleton,considerar esse vasto campo de saberes unicamente como expressão dopensamento de um autor. A Literatura tem uma especificidade única, a de agir sobre o homem e fazercom que este tenha uma visão variada da realidade. Diferente da fala cotidiana, que
  14. 14. 13muitas vezes, por estar amortecida e apagada, é ignorada, a linguagem da literaturabusca elevar a palavra, e por meio dela, tornar belo aquilo que é consideradocomum no dia a dia. O escritor/ artista, por meio de seu instrumento de trabalho, queé a palavra, intensifica o significado daquilo que realmente já existe. “A literatura,impondo-nos uma consciência dramática da linguagem, renova essas reaçõeshabituais “perceptíveis”” (EAGLETON, 2003, p. 5). A Literatura não deve concentrar seu valor no que concerne às técnicas e aosmétodos que estimulam e favorecem a memorização, mas deve sim, ser entendidacomo obra artística mais ampla, que busca representar a experiência real dasdiferentes culturas. Antônio Soares Amora (1977), diz que só na teoria é possível separar oconteúdo da forma, para ele é impossível apreciar e compreender a literatura sementender o que significam as palavras e as frases que compõem uma obra. “[...] ofenômeno literário é muito mais que simplesmente uma obra que está diante denossos olhos e que é conteúdo-forma;” (p. 61). Uma obra literária é o reflexo da expressão dos conhecimentos individuais deum determinado autor. Mas, se todos nós, escritores e leitores, temos nossoconhecimento, o que determina que um escrito de uma determinada pessoa sejaconsiderado literatura, enquanto que um texto e/ou mesmo uma carta escritos pornós, leitores comuns, não sejam? Segundo Amora (1977), o que caracterizadeterminada obra como tal, é a forma de percepção da realidade nela descrita,realidade profunda e original que surge da íntima intuição do autor e é transformadano conteúdo da narrativa. O artista possui a sensibilidade de perceber, com maior facilidade, a realidadeque o rodeia, vê de outro ângulo as dúvidas da vida. Por assim se diferenciar dohomem comum, o escritor é capaz de criar novas expressões e desenvolver melhora palavra e, assim, quem tem mais conhecimento para dizer algo, o faz de formamais espontânea e expressiva. A única diferença entre o leitor comum e o escritor éque o último é naturalmente dotado de bem mais expressão e intuição da realidadedo que o primeiro. “[...] a expressão do conhecimento intuitivo e individual só éliteratura quando o conteúdo dessa expressão é uma intuição profunda e original darealidade” (p. 52).
  15. 15. 14 A Literatura, em princípio, sempre será considerada como arte. Arte dapalavra, da emoção, da criação dentre tantas outras características. O artistatransforma e recria a realidade por meio de seu espírito criador e, através daspalavras, expõe na obra literária, a forma recriada da imaginação. Contudo, mesmocom o avanço da modernidade através dos tempos, algumas particularidadespróprias do estudo de uma obra literária permanecem conservadas. Afrânio Coutinho (1995) mostra que no século XIX havia uma falta de fé naliteratura, uma vez que os estudos literários não passavam de estudos históricos. Oautor defende também que a literatura devia ser vista, estudada e aplicada de formacrítica sendo valorizada a sua estética. Para ele, não é preciso abandonar adimensão histórica, apenas colocá-la em segundo plano, pois, a estética literáriapode fazer uso do material histórico para dar caminho à crítica. O teórico mostraque: A obra literária é encarada como instituição social. Para interpretá-la, julga-se mister elucidar os componentes da estrutura social em que apareceu. O estudo crítico, assim, reduzir-se-ia a uma simples variedade de estudo social e a obra a condição de documento (p. 60). No entanto, toma defesa que a causa primária da Literatura é de cunhoestético e não histórico. Que o fenômeno literário precisa estar em paralelo com osoutros modos de vida com os quais se relaciona e, que em toda e qualquer instânciaa Literatura não deve deixar de ser considerada uma arte. Dotada de uma composição específica, que elementos intrínsecos lhe fornecem, tem um desenvolvimento autônomo. A crítica é, sobretudo, a análise desses componentes intrínsecos, dessa substância estética, a ser estudada como arte e não como documento social ou cultural, com um mínimo de referência ao ambiente sócio-histórico (p. 61). A literatura tem sua compreensão na própria natureza. Em suas leis,elementos intrínsecos e particulares estão a essência de seus conteúdos.Desenvolve-se, de forma imanente, e isso seria mostrado de forma melhor se fosseretratada como pura arte, e não como objeto de análise histórica e social. As
  16. 16. 15Orientações Curriculares Para o Ensino Médio (2006) propõem estratégiasmetodológicas que mostram que para cumprir com os objetivos de uma Literaturahumanizadora, “não se deve sobrecarregar o aluno com informações sobre épocas,estilos, características de escolas literárias, etc., como até hoje tem ocorrido, [...]” (p.54). Dessa forma, cabe à Escola colocá-las em práticas da melhor forma possível,buscando a maneira mais adequada dos alunos adquirirem informação econhecimento. Assim, os discentes poderão estudar Literatura sem amarras, compossibilidade de um aprendizado significativo, eficiente e prazeroso, capaz de abriruma diferente visão do mundo em que vivem.1.2 A função da Literatura Diz-se que a principal função da Literatura é proporcionar prazer e, que suacaracterística primordial é a representação da realidade. Porém, através dalinguagem, proporciona também aos leitores o encontro com os diferentes fatores dacultura, tais como: transmitir informações, causar sensações, emoções, rejeições e,principalmente, atuar na educação e formação do homem como um ser social,promovendo aquisição do conhecimento e, possibilitando-lhe reconhecer a realidadeem que vive representada no mundo ficcional. Pode ainda, integrar o leitor aouniverso vivenciado pelas personagens, associando a realidade da obra àsexperiências pessoais. O trabalho da Literatura, de um modo geral, consiste em inovar, deixar alinguagem comum de lado para falar do cotidiano em uma linguagem própria, quepode representar diferentes sentidos e/ou interpretações para uma só palavra. E,através dessas palavras expressivas, o mundo real ganha uma nova significação.Pois, a linguagem cotidiana com a mesma rapidez com que pode ser compreendida,pode ser também esquecida; enquanto que a linguagem literária é diferente, possuielementos próprios e diferentes. A linguagem comum é denotativa e espontânea; aliterária segue regras e leis próprias, é conotativa, contínua, constante e persistente.A Literatura faz uso do material linguístico para anunciar o seu dizer. É como diz
  17. 17. 16Antoine Compagnon (2003): “[...] não há essência da literatura, ela é uma realidadecomplexa, heterogênea, mutável” (p. 44). Em geral, existem diferentes funções associadas à ideia de Literatura. Afunção cognitiva permite extrair experiências advindas do conhecimento expostopelo autor; a função estética permite a visualização do belo, de ver a obra artísticacomo elemento transmissor da beleza que satisfez nossos desejos e prazeres; afunção catártica adentra o nosso íntimo e nos faz sentir a emoção retratada pelaspalavras; e temos ainda a função social, que retrata a sociedade pela ótica daopinião de seu povo, estabelecendo assim, através da comunicação exposta empalavras, uma ligação entre a tríade autor, texto e leitor, proporcionando a esseúltimo a percepção do mundo que o cerca. Todo indivíduo possui uma história devida, e dessa forma, muitos se veem envolvidos nas tramas descritas no textoliterário, deixando fluir seu imaginário nas descrições sociais relatadas. Todas essas noções da Literatura estão diretamente relacionadas à formaçãointelectual do indivíduo e, cabe a esse, reconhecer a importância que lhe é de direitopara que possa continuar exercendo de forma plena todas as suas funções. E, paraisso acontecer, é preciso continuar reforçando a prática da leitura. O leitor encontrana obra literária a oportunidade de descobrir o novo, de deixar fluir a liberdade que,às vezes, fica presa dentro de si. Essa é uma das funções da Literatura, possibilitarao indivíduo a sensação de coragem, de defesa, de buscar realizar as fantasias quelhe dão prazer, fazendo desse pensamento, a oportunidade de transformar suarealidade nos aspectos moral, intelectual e social. Jonathan Culler (1997), numaabordagem pós – estruturalista ressalta que: O resultado de ler, parece, é sempre o conhecimento – talvez uma compreensão das limitações impostas pelas convenções interpretativas conhecidas -, como se terminar o livro os conduzisse para fora da experiência da leitura e lhes desse o domínio sobre ela (p. 94). A função social da Literatura visa ajudar o homem a entender tanto os seusconflitos, como os que a sociedade lhe impõe. Ler, sempre é sinônimo de uma novaexperiência, e para que haja um questionamento sobre essa experiência é precisohaver a interação do leitor com o texto. Esse texto se constitui como um objeto de
  18. 18. 17análise que permite ao leitor interpretá-lo, e nessa interpretação tem a função desurpreender, fazer com que algo novo seja descoberto a cada nova interpretação.Compagnon (2003), fala que a literatura ajuda a desenvolver a percepção dosleitores. “A literatura, ou arte em geral, renova a sensibilidade linguística dos leitoresatravés de procedimentos que desarranjam as formas habituais e automáticas dasua percepção” (p. 41). É função da Literatura promover a leitura por prazer, que faça com que oaluno compreenda o texto como possível de múltiplos significados dentro dasdiferentes esferas: cultural, social, ideológica, histórica e política. E, ainda, desperteneste um sentimento agradável pela obra literária, que é capaz de transportá-lo aoutros mundos possíveis. Esse exercício deve propor a compreensão das obrasdentro de uma avaliação crítica e relacionada com a realidade social e/ou pessoaldos alunos, promovendo, assim, uma leitura interessada, atenta e, principalmente,prazerosa, que leve em conta a multiplicidade do texto e suas várias possibilidadesde interpretação e significação como mostram os PCN (2000): O texto é único como enunciado, mas múltiplo enquanto possibilidade aberta de atribuição de significados, devendo, portanto, ser objeto também único de análise/síntese. Este procedimento de estudo da dimensão dialógica dos textos pressupõe abertura para construção de significações e dependências entre aqueles que se propõem estudá-los (p. 19). Também Coutinho (1995), fala-nos do prazer que a arte literária desperta nosindivíduos que a cultiva. A literatura é uma arte, a arte da palavra, isto é, um produto da imaginação criadora, cujo meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar no leitor ou ouvinte o prazer estético. Tem, portanto, um valor em si, e um objetivo, que não seria de comunicar ou servir de instrumento a outros valores – políticos, religiosos, morais, filosóficos (p. 61). É com o desenvolver da percepção que vão surgindo as diferentes visões demundo representadas nos livros literários. O escritor retrata em suas obras osacontecimentos da época e da sociedade em que vive isso, porque, toda obraliterária está vinculada a um contexto histórico no qual foi criada. Entretanto, não
  19. 19. 18podemos entender a literatura como reflexo da sociedade, ela é o meio pelo qualsão expostas as características e críticas feitas ao sistema de uma sociedade. Elatanto pode estar de acordo com a sociedade, como pode também estar emdesarmonia, ela pode andar em companhia do movimento no qual está inserida,bem como preceder o mesmo. E, nesse ciclo, vai sendo estabelecida a relação dohomem com o universo e com o outro e, quanto à literatura, continua cumprindo suaverdadeira função humanizadora.1.3 Teoria da recepção A teoria da recepção trata da relação existente entre o emissor (autor),mensagem (texto) e receptor (leitor). Na teoria da recepção há entre literatura e leitorum conjunto de manipulações para obter um resultado. Logo, o autor pretende algocom a escrita, porém, o leitor interpreta a leitura de acordo com sua experiência devida e com os diversos conhecimentos de mundo que possui (social, pessoal,intelectual, ideológico, linguístico), nem sempre correspondendo às expectativas doemissor. A teoria da recepção apresenta a história da Literatura de forma diferente,baseada na história da arte literária experienciada por seus leitores. O receptor é oobjeto de estudo da estética da recepção e, essa, busca um leitor necessário aoconhecimento da estética bem como o conhecimento histórico. Para Culler (1997), oleitor, representa na leitura do texto, o papel do ouvinte de uma piada, se o ouvintenão rir, a piada não se constitui como tal. Assim acontece com o aluno/leitor, queconstitui um papel decisivo na recepção do sentido anunciado. A significação daleitura não se encontra no texto, mas na experiência de vida do leitor. O texto nadamais é do que um conjunto de estruturas formais que recebem o sentido conferidopelo leitor. Um leitor que cria tudo nada aprende, mas um leitor que está constantemente se deparando com o inesperado pode fazer descobertas significativas e perturbadoras. Quanto mais uma teoria salienta a liberdade, o controle e a ação constitutiva do leitor, mais provável é que leve a histórias de encontros e
  20. 20. 19 surpresas dramáticas, que retratam a leitura como processo de descobrimento (p. 86). O ato da leitura e seu efeito é privilégio da estética da recepção, que buscarevelar a história da Literatura de outro modo, dessa vez, o objeto de estudo será aexperiência da obra literária vivenciada por seus leitores. O autor tem o/a papel/função de escrever o texto, mas esse, ao entrar emcontato com o leitor adquire outra forma e produz uma mensagem diferente daquelapretendida pelo escritor. Isso porque, a vida do leitor possui uma estruturatotalmente diferente da vida do autor. Dessa forma, quando as experiências de um ede outro se fundem no ato da leitura, surge algo diferente do que o primeiro leu e doque o segundo escreveu, o resultado dessa história é o produto da junção de duasexperiências distintas. A teoria da recepção está voltada não apenas para a produção e leitura detextos literários, mas também a recepção de tais textos, ou seja, o modo como nósleitores os interpretamos, é a Literatura vista na perspectiva do leitor. Geralmente,assumimos certa postura ao estarmos diante de um texto: criamos expectativas quepodem ou não nos satisfazer. Mas, é certo que o envolvimento que passamos a tercom o texto literário causa em nós a mesma dificuldade de entendimento quetambém nos causa algo estranho. Segundo Rogel Samuel (2002), “Se asexpectativas de um leitor não são “desapontadas” ou “violadas”, então o texto é desegunda categoria” (p. 119). É através do processo de leitura que, nós, leitores, conseguimos estarincluídos em um processo de autorrealização que nos permite buscar a mudança nomodo de ler. O encontro do leitor com a Literatura permite um melhor entendimentode si e melhora a relação com o outro. Pois, diante da leitura de cada gênero outipologia literária, seja o poema, a narrativa, o conto entre outros, são mobilizadas asciências do homem e da sociedade e, também, a moderna e repleta de saberesciência da Literatura, que faz parte do resultado da multiplicação da cultura e dotrabalho humano. Samuel (2002), diz que: A literatura potencializa uma causa de experiências do leitor. Inúmeras possibilidades de leituras a obra literária oferece, e em cada uma delas o
  21. 21. 20 leitor tem uma experiência nova, em cada leitura o leitor toca o coração da matéria estética (p. 14). A teoria da recepção considera o leitor como um elemento da obra literária.Para valorizar a recepção, o texto literário deve ser visto não só na forma estética,mas também na social, propondo um sistema articulado entre produção, recepção ecomunicação e que estabeleça uma relação dinâmica entre autor, obra e leitor e,desfaça a „fantasia‟ de literatura como sistema fechado e único. “A obra de arte é umsistema complexo. Não é o resultado da experiência individual, mas social”(SAMUEL, 2002, p. 13). Através do ato da leitura o homem entende e percebe melhor o mundo, aspalavras vão além do extremo da significação e, assim, conquistam espaços novos.A Literatura provoca a sensação de liberdade, de experimentar acontecimentos ousituações que muitas vezes estão presentes na vida real cotidiana. De acordo comEagleton (2003), “o discurso literário torna estranho, aliena a fala comum; ao fazê-lo,porém, paradoxalmente nos leva a vivenciar a experiência de maneira mais íntima,mais intensa” (p.5). O trabalho realizado pela teoria da recepção tem o objetivo de abordar aLiteratura não como uma herança, conhecida como um conjunto de textos antigos eparados que foram escritos no passado e nada tem a servir nos estudos e na vidaatual. É preciso mostrar que a literatura é um processo contínuo de produção, daqual fazem parte os textos mais antigos como também os modernos. Conjunto detextos que, na ocasião em que são criados podem trazer à memória lembranças detextos conhecidos, bem como causar alterações através de uma releitura feita nosmesmos. Para Silva (2009): O texto literário constitui uma unidade semântica, dotada de certa intencionalidade pragmática, que um emissor/ autor realiza através de um acto de enunciação regulado pelas normas e convenções do sistema semiótico literário e que os seus receptores/ leitores decodificam utilizando códigos apropriados (p. 574-5). Às vezes, os professores de Literatura colocam os alunos diante de ummundo literário muito distante da realidade deles. Sem falar que, alguns textos
  22. 22. 21trabalhados apresentam uma linguagem que complica o entendimento dosestudantes, o que faz com que esses se afastem da leitura de tais textos. Por esse motivo, os alunos costumam rotular de “chatos” e “desinteressantes”os textos que conhecemos como “clássicos” antes de lê-los, e, se o professor nãobuscar uma prática que torne o ato dessa leitura prazeroso e necessário a suaformação, por fim, esses textos passarão a ser mesmo desinteressantes para osdiscentes. Isso, porque os estudantes em sua maioria têm pouco ou nenhuminteresse pela leitura, pois estão imersos em uma sociedade que torna maisapreciável e/ou notável a imagem do que a palavra. Essa realidade faz com que osalunos desconheçam o mundo literário que é apresentado pelos professores deLiteratura, mundo esse, muitas vezes composto de textos escritos em um portuguêsque, devido às novas tecnologias da comunicação e da informação, não faz parte doentendimento e do cotidiano desses alunos. Sabendo-se que, às vezes, a linguagem presente nos textos dificulta oentendimento, uma forma útil de aprendizado, é o professor, para trabalhardeterminado conteúdo, em um primeiro momento ler o texto junto com os alunos,esclarecendo suas dúvidas, o que possibilitará a esses conhecer as funções eintenções da Literatura. Muitos professores, mesmo sendo responsáveis pelo desencadeamento doprocesso de leitura, e, de forma consequente, da Literatura, desconhecem aessência do ato de ler e o propósito do seu ensino no Ensino Médio. É preciso queprofessores e alunos tenham consciência das múltiplas possibilidades que existemna leitura de textos literários e, que almejem a transformação social brasileiraatravés das ideias e mudanças no comportamento do povo. Coelho (1993) diz que:“A verdadeira Arte (aquela que resulta de um ato criador) expressa sempre algo devital para o homem, porque direta ou indiretamente ela se nutre de valoresessenciais para a existência humana” (p. 37). Dificilmente conseguiremos entender o mundo, o universo em que vivemos e,talvez nem a nós mesmos sem a estética literária, sem o sentimento da beleza queela, através dos livros, desperta em nós. “É ela que condiciona nosso modo depensar, de amar, de desejar, agir e perceber o mundo” (COELHO, 1993, p. 37).
  23. 23. 22 Esse é o fim determinado a que se destina a teoria da recepção: entender oque pretende o autor ao lançar de si o conjunto de palavras que constituem o textoe, qual a reação do leitor ao ter contato com as informações recebidas. Dessa forma, percebe-se que, a melhor maneira de apossar-se do sentido dotexto literário é conhecer as experiências adquiridas pelo leitor no ato da leitura. Épreciso inverter a ordem das coisas, tirar o texto e o contexto histórico em que foiescrito do centro das atenções e privilegiar quem de fato faz do texto um elementoimportante no processo da leitura.1.4 A literatura escolarizada A presença e utilização do livro didático de Língua Portuguesa e Literatura emsala de aula é inquestionavelmente uma fonte de conhecimentos e descobertas,além de proporcionar o desenvolvimento da atividade cognitiva e do processoperceptivo do aluno. O professor nunca deve desprezar o princípio fundamental daobra literária, que, como toda obra de arte, é o de representar o ser humano, ouniverso e a vida, intercalando sonho e realidade por meio da palavra. Marisa Lajolo afirma que “lê-se para entender o mundo, para viver melhor”(1999, p. 07) e assim “quanto mais abrangente a concepção de mundo e de vida,mais intensamente se lê, num espiral quase sem fim, que pode e deve começar naescola, [...]”. Entretanto a autora mostra-nos também que os professores deliteratura se deparam constantemente com problemas e dúvidas diante dodesinteresse dos alunos e da falta de estudos e pesquisas consistentes queorientem o seu trabalho com o texto. O que resta então é a sensação de que “Nãoparece que o que fazer com o texto literário na sala de aula seja ainda de suacompetência” (LAJOLO, 1999, p. 14-5). A autora sustenta ainda que: O que há, então, para o professor, é um script de autoria alheia, para cuja composição ele não foi chamado: leitura jogralizada, testes de múltipla escolha, perguntas abertas ou semiabertas, reescritura de textos, resumos comentados [...] que, [...] mestres, menos ou mais treinados, estrelam para platéias às vezes desatentas, às vezes rebeldes, quase sempre desinteressadas (p. 15).
  24. 24. 23 Com tais afirmações a autora corrobora a ideia de que os professoresencontram-se, ainda hoje, reféns, aprisionados ao livro didático e a roteiros deleituras criados por outrem, que não dão conta das demandas e especificidades dotexto literário, pois, os livros didáticos de literatura abrem cada vez mais espaço paraimagens, mas não ampliam o número de poemas e de textos literários, enfatizandoassim, mais o projeto gráfico do que a mudança no modo como ensinar Literatura.Cosson (2006) afirma que: A multiplicidade dos textos, a onipresença das imagens, as variedades das manifestações culturais, entre tantas outras características da sociedade contemporânea, são alguns dos argumentos que levam à recusa de um lugar à literatura na escola atual (p.20). Da mesma forma, Lígia Chiappini de Moraes Leite (2002) reflete sobre asdificuldades de unir Língua e Literatura em uma disciplina homogênea e plena, jáque esta última é entendida apenas como análises históricas, culturais e canônicas. [...] da disciplina de comunicação e expressão, no primeiro grau, não faz parte a literatura – que só vai entrar no programa de segundo grau, entendida como história literária ou apresentação de autores e obras exigidos no vestibular [...] Ontem, como hoje, dificilmente conseguimos integrar o estudo da língua e o estudo da literatura (p. 17). Desse modo, segundo a autora, mesmo obtendo leis e parâmetros nacionaisque legitimem essa prática, o ensino de literatura mostra-se ainda, deficiente eincompleto. A divisão de Língua e Literatura na LDB nº 5.692/71 repercutiu naorganização curricular, nos livros didáticos e nas escolas que até hoje mantêmprofissionais especialistas para cada tema, como se leitura/literatura, estudosgramaticais e produção de textos não tivessem relação entre si. Esta constataçãomostra que entre a LDB e os PCN existe um ponto de contradição, pois, de acordocom os PCN o ensino de Língua Portuguesa e de Literatura deve se realizar deforma articulada, integrada e intertextual:
  25. 25. 24 O processo de ensino/aprendizagem deve basear-se em propostas interativas língua/ linguagem, consideradas em um processo discursivo de construção do pensamento simbólico, constitutivo de cada aluno em particular e da sociedade em geral (2000, p. 18).E ainda: O aluno deve ser considerado como produtor de textos, aquele que pode ser entendido pelos textos que produz e que o constitui como ser humano. O texto só existe na sociedade e é produto de uma história social e cultural, único em cada contexto, porque marca o diálogo entre os interlocutores que os produzem e entre os outros textos que o compõem. O homem visto como um texto que constrói textos (PCN, 2000, p. 18). Como facilmente se pode depreender, os PCN propõem o carátertransdisciplinar, como a base essencial a todo e qualquer processo de transmissão eaquisição do conhecimento. E este aspecto deve ser incorporado aos currículos,visando uma aprendizagem socialmente transformadora e expressiva. Nessesentido, o ensino de literatura não pode ser algo desvinculado da leitura, tampoucoservir apenas como pretexto para o estudo de gramática ou análise linguística. Muitas vezes, o texto literário no Ensino Médio é apresentado aos alunoscomo uma estrutura que por si determina o sentido. Os professores não abremespaço para os alunos demonstrarem que, ao entrarem em contato com a Literatura,são capazes de criar e experimentar os espaços em que flui o conhecimentopessoal. Talvez o aluno seja considerado um leitor passivo que não tem interessepelo conhecimento que lhe é externo, como ser incapaz de entender o elo entreforma e conteúdo, e isso geralmente ocorre em função do despreparo do próprioprofessor. A prática pedagógica do professor de literatura no Ensino Médio deve, entreoutras coisas, estimular o aluno que lê textos literários a sentir prazer em aprenderliteratura e, também, encontrar diferentes sentidos na leitura realizada. O aluno podeestudar e buscar entender se a condição histórico-social pode interferir nos sentidoscriados a partir da realidade. Os sentidos que o sujeito atribui ao conteúdo de umtexto, ocorrem de acordo às condições em que este foi produzido (espaço/tempo) e,também ao meio social em que vive. Compagnon (2003) diz que a Literatura é aLiteratura, incluindo-se ai, muito dos diferentes conceitos a ela atribuídos. Vejamos:
  26. 26. 25 Retenhamos disso tudo o seguinte: a literatura é uma inevitável petição de princípio. Literatura é literatura, aquilo que as autoridades (os professores, os editores) incluem na literatura. Seus limites, às vezes se alteram, lentamente, moderadamente [...], mas é impossível passar de sua extensão à sua compreensão, do cânone à essência. Não digamos, entretanto, que não progredimos, por que o prazer da caça, como lembrava Montaigne, não é a captura, e o modelo de leitor, como vimos, é o caçador (p. 46). No ensino de Literatura é preciso saber relacionar o saber escolarizado comos saberes adquiridos fora da escola, promovendo, dessa forma, uma relação desentido entre Literatura e vida. O professor deve propor um ato de leitura que setorne parte de uma situação de vida, possibilitando que o aluno signifique e produzasentidos acerca do discurso contido nos (as) textos/obras exigidos para leitura. A “obrigatoriedade” que faz com que os estudantes leiam obras exigidas pelocurrículo da disciplina Literatura, apresenta ao professor, o desafio de desenvolverum ensino estimulante, que sensibilize o educando a ler produzindo sentido naleitura, e que, através da leitura de determinados textos, esse, possa tornar-setambém autor e, assim, produzir seus próprios textos de forma a expressar seuspensamentos e posicionamento, assumindo, por conseguinte, tanto a função desujeito leitor quanto de sujeito produtor de textos. No ensino de Literatura na escola, o professor encontra-se diante de umduplo desafio: despertar no aluno o gosto pela leitura de livros literários como formade prazer e, paralelo a isso, cumprir todo o conteúdo programático designado paracada série do Ensino Médio. Esses conteúdos abrangem autores, escolas literáriase, ainda, particularidades históricas que apresentam detalhes distante da realidadedo aluno e o afasta da leitura. Dessa forma, resta ao professor a seguinte pergunta:como trabalhar conteúdos de caráter históricos e literários aliados ao prazer daleitura literária? O ensino de Literatura está intimamente relacionado à formação metodológicado professor e também com suas experiências de leitura do texto literário. Se asdiferentes formas de olhar o texto literário não forem repensadas pelo professor,esse terá como consequência, a rejeição dos alunos para com a leitura, o que irádesencadear desinteresse e falta de motivação pelo estudo da Literatura. IvandaMartins (2006) diz que:
  27. 27. 26 Enquanto isso não ocorrer, as aulas de literatura continuarão desinteressantes, devido aos exercícios fragmentados e repetitivos de boa parte dos livros didáticos, à postura tradicional diante do texto literário, à avaliação da leitura literária como forma de punição e não de prazer (p. 100). É possível perceber que a escola não consegue adaptar o trabalho com otexto literário às exigências que são requeridas pelo mundo moderno. Pois, aLiteratura num âmbito geral continua sendo trabalhada de forma independente,como um objeto único que não dá espaço para as intervenções dos alunos/leitores.A análise tradicional ainda tem prioridade, enfatizando a leitura como obrigação enecessidade para seguir roteiros das atividades escolares, desmotivando, dessaforma, a leitura feita por prazer. E, esse ensino: maçante e mecânico da literatura noEnsino Médio faz com que o interesse dos alunos limite-se aos conteúdos que depraxe „caem‟ no vestibular, sem nenhuma intenção de estudar e conhecer que aLiteratura é repleta de saberes acerca do homem e do próprio mundo que o cerca. Énessa perspectiva que, as aulas de Literatura não passam de roteiros informativossobre escolas e obras literárias – que ainda que organizadas, muitas vezes tornam-se incompreensíveis aos alunos -, esquecendo-se que, mais que adquirir umconhecimento literário, o aluno precisa compartilhar as experiências advindas daleitura, além de experimentar o sentimento agradável que a literatura faz nascer emnós. E, esse papel humanizador da literatura só será cumprido quandoconseguirmos mudar o rumo da escolarização. Portanto, nota-se a necessidade de mudar a forma de ver o texto literário. Oensino não pode continuar perpetuando-se de forma cristalizada, sem possibilitar aoaluno, através da Literatura, desejar e expressar o mundo por ele mesmo. É precisobuscar uma reflexão, e tentar construir junto com o aluno, de forma ampla e crítica, acompreensão da literatura, de modo que seja reconhecido por esses seu caráterplural e o seu fazer artístico. É preciso deixar de lado a omissão e, preservar a arteda palavra que nos envolve e nos torna humanos, pois, a Literatura tem o poder defazer o leitor sair do comum, deixar de lado a rotina e buscar novas e diferentesexperiências, as quais contribuem na formação da cidadania. Em vista da temática em questão, far-se-á uma investigação que promovauma compreensão densa da realidade das nossas escolas, lócus de investigação, e
  28. 28. 27para tal, a Abordagem Qualitativa e Fenomenológica e seus procedimentos decoleta de dados será bastante pertinente.
  29. 29. 28CAPÍTULO 2 REFERENCIAL METODOLÓGICO A escolha dos métodos de pesquisa é feita com base em critérios efundamentos acerca do fim que se quer obter e que sejam compatíveis com anatureza do fenômeno a ser estudado. Dessa forma, a partir das diferentesmetodologias que podem ser adotadas, optou-se por trabalhar com a pesquisaqualitativa com abordagem fenomenológica, que ao invés de quantidade, buscam oentendimento do problema e interação com os sujeitos que o compõem, para a partirda vivência diária desses indivíduos, interpretar, entender e descrever o fenômenoobservado. Para complementar tal metodologia, far-se-á uma observaçãoparticipante para, posteriormente, realizar uma análise comparativa entre duasescolas, tendo como instrumento de coleta de dados o questionário de entrevistacom perguntas mescladas entre abertas e fechadas.2.1 Metodologia de pesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica Diante das diferentes opções de metodologias disponíveis, optou-se pelapesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica, pois constitui esta, umaconveniente alternativa para estudar determinados efeitos próprios da ação humana. A pesquisa qualitativa é utilizada na realização da observação de umfenômeno. Busca em primeiro lugar observar e compreender determinadofenômeno, para depois descrever o que o mesmo significa. Segundo MirianGoldenberg (2003), Não é possível formular regras precisas sobre as técnicas de pesquisa qualitativa porque cada entrevista ou observação é única: depende do tema, do pesquisador e de seus pesquisados (p. 57). O pesquisador deve, então, apresentar claramente as características do indivíduo, organização ou grupo, que foram determinantes para sua escolha, de tal forma que o leitor possa tirar suas próprias conclusões sobre os
  30. 30. 29 resultados e a sua possível aplicação em outros grupos ou indivíduos em situações similares (p. 58). Na pesquisa qualitativa, o pesquisador não trabalha com hipótesesconstruídas previamente, ao contrário, só depois de observar é que as cria combase na realidade observada no contexto escolar. Na pesquisa, o pesquisador busca obter dados descritivos através do contatoe interação com os indivíduos e com a situação que compõe o objeto de estudo e,ainda, busca entender os fenômenos que ocorrem no campo observado a partir davivência e comportamentos dos participantes da ação. Enquanto os métodos quantitativos pressupõem uma população de objetos de estudos comparáveis, que fornecerá dados que podem ser generalizavéis, os métodos qualitativos poderão observar, diretamente, como cada indivíduo, grupo ou instituição experimenta, concretamente, a realidade pesquisada (GOLDENBERG, 2003, p. 63). Tais palavras mostram que a pesquisa qualitativa objetiva encurtar a distânciaque existe entre a teoria e a prática e expor a significação do fenômeno observado,dependendo ainda das opções teóricas e também da descrição das diferentessituações que compõem o dia a dia dos sujeitos que fazem parte da pesquisa. A abordagem do método fenomenológico consiste na compreensão dofenômeno através das descrições individuais dos sujeitos da ação. E, sendo apesquisa qualitativa inerente a fenomenologia, que é ciência que estuda o fenômenoatravés do mundo cotidiano, é consideravelmente importante valorizar o indivíduo, oqual é elemento fundamental no processo analisado. Elcie F. Salzano Masini (2004) diz que “Este enfoque de Pesquisacaracteriza-se pela ênfase ao “mundo da vida cotidiana”, [...] (p. 61). É um métodoque leva em conta a personalidade do indivíduo e sua consciência acerca de seucomportamento no momento da pesquisa. Este modelo de pesquisa apresentaalguns desafios, entre eles, destaca-se a coleta de dados, que exige um amploesforço e determinação para coletar materiais, resultando em um mínimo deinformações.
  31. 31. 30 Literalmente, a fenomenologia possui como objeto de estudo o própriofenômeno, e não coisas ditas a respeito do mesmo. Não se baseia por definições ouconceitos, mas por uma compreensão daquilo que é vivido, ou seja, volta-se para ossignificados das coisas que são percebidas no viver cotidiano. São as expressõesque o sujeito adquire no seu ambiente de pesquisa, expressando ele mesmo aspercepções que obteve. Mostra a consciência do sujeito observado por meio desuas experiências e também pela descrição de sua vida. Para Masini (2004), O método fenomenológico trata de desentranhar o fenômeno, pô-lo a descoberto. Desvendar o fenômeno além da aparência. Exatamente porque os fenômenos não estão evidentes de imediato e com regularidade faz-se necessário a fenomenologia (p. 63). Com tais palavras, nota-se que a pesquisa fenomenológica constitui-se no atode interrogar fenômenos, e, para isso, envolve um modo de pensar e de olhar pormeio da consciente experiência do sujeito no seu mundo e vida, para, assim, chegara sua essência. Dessa forma, nota-se que a compreensão do fenômeno estudado se dará pormeio de relatos que descrevem a vida social e, posteriormente, esses relatos serãousados pelo pesquisador como fundamentos para entender a essência dofenômeno.2.2 Descrição do Lócus da pesquisa Os colégios que constituirão campo de pesquisa serão o Colégio EstadualCésar Borges e o Colégio Estadual Wilson Lins, ambos localizados no município deValente/ BA. O Colégio Estadual César Borges está localizado na Rua Dr. Antonio EdilLopes, nº 289, Bairro Antonio Lopes, Valente-Ba. As atividades do Colégio tiveraminício no ano de 2003, como primeira escola a oferecer somente o curso de EnsinoMédio no município.
  32. 32. 31 Desde a época da sua construção, a Escola possui Laboratório deInformática, Sala de vídeo, Refeitório, Pátio, Jardins internos e externos, Sala deprofessores, Sala de coordenação, Biblioteca, Recepção, Banheiros para alunos,professores e funcionários e Quadra poliesportiva (construída em terreno vizinhopertencente a uma escola municipal). A escola possui diretor e vices, secretários, agentes auxiliares e um quadrodocente constituído por todos os professores graduados e, atualmente funciona com16 turmas distribuídas nos três turnos, atendendo a uma média geral de 507 alunosentre educação básica e E.J.A, e um anexo localizado no distrito de Valilândiaatendendo ao Projeto EMITEC (Ensino Médio com Intermediação Tecnológica). Aescola também promove várias atividades internas de natureza educativa artística ecultural como: festival de pizza, gincana cultural, festa junina, projetosinterdisciplinares e faz adesão aos projetos promovidos pela Secretaria de Educaçãodo Estado e Direc 12 como: FACE, TAL e AVE. O Atual Colégio Estadual Wilson Lins, localizado na Praça Nemésio Martinsda Silva nº. 476, Centro, Valente-Ba, teve sua origem no ano de 1948, com aconstrução da Escola Rural Catarina Paraguaçu. No ano de 1965 foi criada abiblioteca do Grupo Escolar Wilson Lins, denominada Biblioteca Infantil Machado deAssis. Atualmente, o Colégio Estadual Wilson Lins funciona nos turnos matutino,vespertino e noturno. A escola possui um quadro de professores efetivos, diretor evices, secretários e agentes auxiliares e, atende 29 turmas somando uma média de890 alunos na educação básica e E.J.A. Conta com 13 salas de aula, 1 biblioteca, 1diretoria, 1 secretaria, 1 sala de professores, 1 vice diretoria, 1 laboratório deinformática, sala de projeção, almoxarifados, 1 cantina, 1 quadra de esportes, 10sanitários e grande área livre para outras atividades. Promove ainda gincanas,festas juninas, feira de conhecimento. Os colégios estaduais César Borges e Wilson Lins serão denominados,respectivamente, na pesquisa de escola 1 e escola 2. Dessas escolas, serão no total5 professores e 10 anos entrevistados, que serão denominados pelas letras A, B, Cetc.
  33. 33. 322.3. Coletas de dados A coleta de dados é a etapa em que se busca aplicar as técnicas que forampreviamente selecionadas para obter as informações necessárias para realização dapesquisa. Para realizar a coleta de dados, existem diferentes procedimentos que podemser adotados, entre eles: coleta documental; entrevista; questionários, testes,formulários, observação etc. Na pesquisa em questão, optou-se por observaçãoparticipante e, posteriormente, questionários de entrevista. Na coleta de dados da pesquisa qualitativa, busca-se compreender ofenômeno e para tal, os dados obtidos serão o resultado das situações vivenciadaspelos sujeitos. Para que isso ocorra de forma natural, busca-se interrogar e entendera origem do homem/sujeito e os princípios das experiências da vida cotidiana,perceber a real existência do sujeito. Para Maria Aparecida Viggiani Bicudo (1994): A essência do fenômeno é mostrada pela realização de uma pesquisa rigorosa que busca as raízes, os fundamentos primeiros do que é visto (compreendido) e o cuidado com cada passo dado na direção da verdade (“mostração” da essência). O rigor do pesquisador fenomenológico se impõe a cada momento em que interroga o fenômeno e ao seu próprio pensar esclarecedor (p. 20). É preciso que o pesquisador tenha bastante atenção no seu trabalho decoleta, atentando para o fato de descrever o fenômeno e não de explicá-lo, pois sóatravés da descrição e atenta observação conseguirá chegar a essência dedeterminado fenômeno. Sabe-se que o fenômeno só existe se existir o sujeito que ositue e o vivencie. Logo, o observador só conseguirá encontrar descrições acerca dofenômeno através da visão de quem o conhece no dia a dia. Segundo Maria InêsFini (1994), “[...] não existe possibilidade de interrogar, por exemplo, o ensino ou aaprendizagem, mas sim o sujeito que está aprendendo” (p. 24). Isso é o que afenomenologia mostra: que sempre haverá, numa determinada situação, um sujeitoque vivencia o fenômeno, seja ele educacional, social ou cultural. Diante de tais considerações, nota-se que para realizar uma pesquisa fiel, énecessário e fundamental que o pesquisador, antes de dar início ao trabalho, deixe
  34. 34. 33de lado toda e qualquer informação e/ou afirmação que já possua a respeito dofenômeno a ser interrogado. Ele não pode e nem deve basear-se em teorias ditas apriori, mesmo que sejam consistentes ou que se julgam proposições verdadeirassobre o homem e o lugar que este ocupa no mundo. Portanto, na coleta de dados da pesquisa qualitativa com abordagemfenomenológica, não se busca encontrar problemas a serem resolvidos, masobjetiva-se encontrar a essência e estrutura do fenômeno contidas no mundo realdos sujeitos e, assim, descritas por eles.2.3.1 Observação participante A observação participante é um modo de não se impor de forma estática forado objeto estudado, mas sim propiciar uma integração entre o pesquisador e ossujeitos que participam da ação, sem posição de hierarquias, todos de um mesmolado, podendo o observador vivenciar o mesmo que os elementos do grupoobservado vivenciam. Consiste na participação real do pesquisador com a comunidade ou grupo. Ele se incorpora ao grupo, confunde-se com ele. Fica tão próximo quanto um membro do grupo que está estudando e participa das atividades normais deste (LAKATOS E MARCONI, 1996, p. 82). Nesse tipo de observação, o observador, quando a circunstância o permite,participa das atividades realizadas pelo grupo observado. A significação precisa da observação participante é definida pelo contato doobservador com o contexto da pesquisa, pois este estará numa observação direta e,consequentemente, mais apto a entender a realidade na qual as pessoas vivem eatuam. Dessa forma, adquirindo experiências de primeira mão, o pesquisador torna-se mais hábil e capaz de inferir o significado da situação, sendo capaz de aprendercoisas diferentes das que seriam possíveis com outro tipo de pesquisa. A pesquisa participante permite que pesquisados e pesquisadores convivamjuntos em um mesmo ambiente e tornem-se sujeitos ativos para produzirem
  35. 35. 34conhecimento. Diante dessa visão, observa-se que é preciso mesmo o contato coma experiência vivida das pessoas que compõem a ação, de modo a não se contentarcom a descrição em partes de como os fenômenos se apresentam, mas investigarcomo um todo a maneira como são produzidos. Segundo Heller (1982) (apudNoronha 2004, p. 142), “É fundamental portanto que o pesquisador não assumaesses “pedaços” como objeto de pesquisa, mas que trabalhe com a categoria detotalidade, que se faça o esforço metodológico de articular Cotidiano e História”. Assim, nota-se que a pesquisa participante consegue atingir seu estatutoquando supera o nível do imediato e consegue, de forma metodológica, unir ocotidiano ao que se conhece da história.2.3.2 Questionário de entrevista Sabe-se que nenhum questionário é uma fonte completa de dadosnecessários para obter informações sobre um estudo. Logo, é de fundamentalimportância que os entrevistados sejam informados da finalidade e importância desua participação tanto no trabalho como na vida de estudantes, para que nãoapresentem nenhuma objeção a responder às questões. Ou seja, antes que opesquisador entregue o questionário ao informante é preciso explicar a importânciadesse questionário, o objetivo da pesquisa e o porquê da necessidade de obter asrespostas das perguntas que o constitui, isso poderá despertar o interesse daqueleque o recebe, sensibilizando-o a ser fiel nas respostas e que o devolva preenchido.“O entrevistado deve ter certeza de que todas as respostas são valiosas – que nãohá respostas “corretas” ou ”incorretas”” (PARKER e REA, 2002, p. 41). Ou seja, seráuma participação valorosa e ao mesmo tempo sigilosa, o nome de cada entrevistadonão será divulgado e nem as respostas serão comparadas entre os demais. O questionário precisa ser breve e claro, sem muitas enrolações, é precisoapenas que contemple as necessidades do estudo. “O questionário deve ser o maisconciso possível, mas cobrindo a gama necessária do assunto requerido peloestudo” (PARKER e REA, 2002, p.54). É preciso ainda que o questionário sejasimples e direto, sem frases técnicas e nem palavras associadas aos níveis mais
  36. 36. 35elevados de escolaridade, pois este não é um exemplo de boa escrita, mas sim uminstrumento de busca de informações. O questionário utilizado nessa pesquisa contemplará 5 professores e 10alunos (4 da escola 1 e 6 da escola 2) e será formado por perguntas objetivas esubjetivas em função da rejeição à somente perguntas abertas, além de, muitasvezes, provocar respostas complexas e longas que dificultam o entendimento. A intenção do questionário não é colher dados aleatoriamente, mas obterdescrições das experiências relacionadas ao fenômeno estudado, de modo que ossujeitos descrevam de fato a experiência que possuem acerca do fenômenoobservado. Segundo Fini (1994), Os dados são, pois, as situações vividas pelos sujeitos que são tematizadas por eles, conscientemente nas descrições que faz. Ao descrevê-las, espera- se que os sujeitos simplesmente relatem de modo preciso o que ocorre com eles ao viver suas experiências (p. 28). Portanto, a autora confirma-nos que a obtenção dos dados se dá por meio doconhecimento que o sujeito adquire por prática e das descrições da maneira habitualque possui de proceder. Sendo o homem conhecedor das coisas da vida, ossignificados dos eventos vividos pelos sujeitos da pesquisa são obtidos através dediferentes manifestações de sentimentos dos mesmos, suas percepções sãoelementos fundamentais do objeto estudado e investigado, as quais serão depoisdescritas pelo pesquisador ou pelo próprio sujeito que as percebe. Os métodos aqui explicitados serão utilizados para coleta e análise de dadosdo capítulo que segue. A pesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica seráutilizada para entender a vivência do sujeito no contexto em que vive e atua durantea observação participante e, a coleta de dados por meio do procedimento dequestionário de entrevista permitirá ter acesso de forma direta às informações dopróprio sujeito da ação sobre o ensino que está vivenciando.
  37. 37. 36CAPÍTULO 3 ANÁLISE DE DADOS A seguinte análise buscou compreender o propósito do ensino de literatura nonível médio. Procurou-se observar a prática do professor de literatura, se atendia àsnecessidades dos alunos. Entretanto, percebe-se que cada vez mais a literatura estáescolarizada, buscando, principalmente, uma formação leitora, e deixando de lado ahumanização desse leitor. Com isso, ao tentar encontrar o sentido da literatura, oque nota-se é cada vez mais é o desestimulo do professor e o desinteresse doaluno.3.1 O ensino de literatura: uma prática desarticulada das propostas curriculares e das necessidades do aluno A literatura, de modo geral, está presente na vida de todo e qualquerindivíduo, o que falta é este saber reconhecer e, esse reconhecimento, para aquelesque têm oportunidade de estudar, deve (ou deveria) começar na escola de ensinomédio e ser perpetuado para a vida. Entretanto, com o atual ensino, o aluno nãoconsidera a literatura como algo importante para sua formação e,consequentemente, para sua vida. Os alunos participantes da pesquisa, quando questionados sobre a leitura,dizem, alguns, ter o hábito de ler, outros que só às vezes. Confira modelos dequestionários em anexo. Sobre a questão “Você tem o hábito de ler?”, observem as respostas dosalunos:a) Alunos da escola 1:11 A transcrição das falas de professores e alunos está exatamente como os sujeitos escreveram no questionário. Os “erros gramaticais”, então, são dos entrevistados e não da autoria deste trabalho.
  38. 38. 37Aluno A: “Sim”.Aluno B: “As vezes”.Aluno C: “As vezes”.Aluno D: “As vezes”.b) Alunos da escola 2:Aluno A: “Sim”.Aluno B: “Sim”.Aluno C: “Às vezes um pouco”.Aluno D: “Sim”.Aluno E: “Sim”.Aluno F: “Sim”. Em referência à questão “Qual dos itens você lê com maior frequência?”, osalunos foram questionados com a possibilidade de seis opções de respostas: a)jornais; b) romances; c) revistas; d) quadrinhos; e) poesia; f) outros (explique qual).Sendo elas:a) Alunos da escola 1:Aluno A: “outros (bíblia)”.Aluno B: “romances”.Aluno C: “outros (reflexões)”.Aluno D: “jornais”.
  39. 39. 38b) Alunos da escola 2:Aluno A: “revistas”.Aluno B: “poesia”.Aluno C: “jornais”.Aluno D: “revistas”.Aluno E: “romances, revistas, quadrinhos e poesia”.Aluno F: “revistas”. Diante das respostas às questões 1 e 2, nota-se que quase todos os alunosdizem ter o costume de ler, mas os textos literários, a exemplo de romances epoesias, não estão em suas preferências. Embora naturalmente leitura e literaturaestejam interligadas, o aluno que não gosta ou não tem hábito de ler não,necessariamente, gostará da disciplina de literatura. É preciso que ao incentivar a leitura, especificamente literária, mostre aoaluno que o conhecimento que pode obter não ficará restrito a literatura, servirátambém para sua vida social e pessoal. Para Maria Zélia Versiani Machado (2002): [...] perceber a leitura literária como uma prática social permite que o olhar se dirija não só para o momento de instauração do pacto ficcional pela leitura do texto literário, mas para uma série de fatores, entre eles aqueles que dizem respeito aos processos seletivos que orientam as escolhas no vasto leque de possibilidades oferecido aos alunos (p. 73). Assim, o sujeito/leitor não estará realizando uma leitura apenas por“obrigação”, mas também por prazer e, perceberá ainda que, a leitura literária estáatrelada a vários outros tipos de leitura, principalmente aquelas que estão voltadasàs necessidades práticas da vida cotidiana, a exemplo de ler bilhetes, notícias etc. Questionados acerca da leitura de obras literárias, os estudantes citaram aúltima obra literária lida e se esta foi por livre vontade ou solicitada pela escola.“Qual a última obra literária que você leu? Essa leitura foi solicitada pela escola?”
  40. 40. 39a) Alunos da escola 1:Aluno A: não respondeu.Aluno B: “Mar morto, sim”.Aluno C: “Comece o dia feliz, não”.Aluno D: “Monteiro Lobato, sim”.b) Alunos da escola 2:Aluno A: “Memórias Póstumas de Brás Cubas, sim”.Aluno B: “O Cortiço, sim”.Aluno C: “Dom Casmurro. Foi solicitado pela escola”.Aluno D: “Senhora. Foi solicitado pela escola”.Aluno E: “O Primo Basílio. Sim, foi solicitado pela escola”.Aluno F: “Memórias Póstumas de Brás Cubas. Foi para um seminário de português”. Percebe-se, pelas respostas dadas, que os estudantes não leem obrasliterárias por livre e espontânea vontade, mas sim por solicitação da escola. Issodecorre em função da tradição de trabalhar a obra literária de forma isolada, comoexpressão artística carregada de expressão própria e, sem levar em conta a leituraprévia do aluno e suas expectativas. Quanto a isso, nos alerta Ângela B Kleiman(2006) quando diz que: [...] quando apresentamos uma obra literária aos nossos alunos, comumente, a preocupação não é com a fruição ou a apreciação estética. Ela se torna um objeto para o ensino das características presentes na obra, ligadas à escola literária ou às figuras de linguagem que possam ter sido usadas pelo autor. Fragmentamos a obra, não poucas vezes, reduzindo-a um conjunto de características de uma escola literária ou de um estilo próprio do autor (p. 46).
  41. 41. 40 Esse tipo de prática escolar cria um leitor que não consegue construirsentidos para o texto, este sujeito/leitor apenas é capaz de reproduzir o sentido quea priori já foi dado ao texto. Infelizmente é o tipo de leitor que não possui autonomiaprópria a interpretar o que lê. Através das observações e da pesquisa qualitativarealizada em salas de aula das duas escolas, percebeu-se que os alunos nãopertencem a uma cultura de incentivo a leitura e, consequentemente, na escola nãodemonstram interesse em praticá-la. Devido a isso, a escola deve buscar formas deincentivar os alunos a tomar gosto pela leitura, pois o conhecimento que nestaadquire, leva para a vida. Rildo Cosson (2006) diz que a literatura no ambienteescolar é lócus de conhecimento e, para que dessa forma funcione, convém queseja explorada de maneira adequada. Para ele, a escola precisa ensinar o aluno afazer essa exploração. Ler implica troca de sentidos não só entre o escritor e o leitor, mas também com a sociedade onde ambos estão localizados, pois os sentidos são resultados de compartilhamentos de visões do mundo entre os homens no tempo e no espaço. Ao ler, estou abrindo uma porta entre o meu mundo e o mundo do outro (p. 27). Entretanto, com base nas conversas tidas com alguns alunos e nos dadosdos questionários, nota-se a falta de perspectivas e de interesses relacionados àleitura, pois, quando feita a pergunta “Qual sua postura em relação às obras que sãoindicadas pelo professor (a) de literatura?”, entre as cinco opções dadas, algunsdisseram que só leem algumas ou partes das mesmas.a) Alunos da escola 1:Aluno A: “lê quase todas”.Aluno B: “lê todas”.Aluno C: “lê quase todas”.Aluno D: “lê algumas”.
  42. 42. 41b) Alunos da escola 2:Aluno A: “lê quase todas”.Aluno B: “lê todas”.Aluno C: “lê o texto parcialmente”.Aluno D: “lê algumas”.Aluno E: “lê quase todas”.Aluno F: “lê todas”. Diante de tais respostas e também através das conversas com alunos, não foidifícil notar que o texto literário não é a base do ensino de literatura e nem étrabalhado de maneira interessante e prazerosa para os alunos e, talvez seja esse omotivo da recusa de uma leitura integral da obra por parte de alguns, tratando-acomo algo de difícil compreensão. Martins (2006) diz que “A carência de noçõesteóricas e a escassez de práticas de leituras literárias são fatores que contribuempara que o aluno encare a literatura como objeto artístico de difícil compreensão” (p.83). Essa falta de teoria e da leitura literária propriamente dita deve-se ao fato de aliteratura ser, basicamente, trabalhada por meio de textos fragmentados presentesno livro didático e, ainda, muitas vezes usados para leituras extras ou como pretextopara o trabalho de análise linguística. “[...] nos livros didáticos, os textos literários ouconsiderados como tais estão cada vez mais restritos às atividades de leituraextraclasse ou atividades especiais de leitura” (COSSON, 2006, p. 21). Os PCN (2000) recriminam o ensino de uma arte de expressão em que osalunos não podem se expressar, dizem que: “Quando deixamos o aluno falar, asurpresa é grande, as respostas quase sempre são surpreendentes” (p. 16). Essaquestão deve-se ao fato de que, se a leitura for realizada de forma prazerosa, sempressão e exigências, mas por uma ação espontânea, e essa espontaneidade devesurgir de um trabalho realizado em sala de aula, o aluno sentirá mais gosto pelaliteratura. Porém, nos estudos literários foca-se mais a história da literatura para
  43. 43. 42compreensão do texto, e torna dessa forma, belas obras em um martírio para osalunos. As Orientações Curriculares para o Ensino Médio propõem o ensino quedesperte o lado sensível e humano do sujeito, e, para isso, cita o Inciso III da Lei deDiretrizes e Bases da Educação Nacional, 1996 (LDBEN). “III) aprimoramento doeducando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento daautonomia intelectual e do pensamento crítico” (apud Orientações Curriculares parao Ensino Médio, 2006, p. 53). “O ensino de Literatura (e das outras artes) visa,sobretudo, ao cumprimento do Inciso III dos objetivos estabelecidos para o ensinomédio pela referida lei” (p. 53). Mesmo diante dessas propostas curriculares, o ensino da Literatura continuasendo fragmentado pelas instituições, e só visa basicamente os textos deconsagrados autores e, durante as observações nas escolas, observou-se aevidência da recusa dos adolescentes que não gostam do que leem, pois as leiturassolicitadas são obrigatórias e não despertam seus interesses. A proposta dosParâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio, 2002 (PCN+) é a realização deum ensino contextualizado e para que isso aconteça o professor precisa estar firmeneste propósito. O conceito implica compreender todo conhecimento como resultado de uma construção coletiva. Na situação escolar, como resultado da interação permanente entre alunos, professores e escola. Em vez de um conjunto de informações pouco significativas e descontextualizadas, o conhecimento é um patrimônio dinâmico, que se renova diante do amadurecimento intelectual do aprendiz, de novos pontos de vista, das descobertas científicas (p. 68).Vemos também: É inegável que toda proposta de mudanças de que é alvo qualquer sistema passa, ou deveria passar, pela reflexão e eventuais adesão e ação dos profissionais que dele fazem parte. As rupturas efetivas de antigos paradigmas dependem sem dúvida da conscientização e da vontade de mudar dos profissionais envolvidos, sem mencionar uma adequada transposição das idéias propostas no plano teórico para a prática (p. 85). Tais palavras permitem ver que uma reforma é precisa, para assim alcançar arealidade do aluno e introduzi-lo de fato no contexto social que vivencia fora daescola, fora dos conhecimentos por esta repassados e, através desse conhecimento
  44. 44. 43influenciar e atuar na realidade vivida. A aprendizagem só torna-se significativaquando o aluno indentifica-se com aquilo que o professor propõe e para que essetrabalho dê certo não se pode perder de vista o mais importante, o aluno. Diante dos impasses da prática literária, que não contempla às necessidadesdoa alunos, buscar-se-á- entender o abandono da característica principal daliteratura, que é humanizar o indivíduo, em função da escolarização que só visaformar um “bom” leitor.3.2 A escolarização da literatura em detrimento de uma formação leitora para a humanização do aluno / leitor Diante dos diferentes modos de abordagens acerca do ensino de Literatura,urge que se tenha atenção para a questão de se criarem novos procedimentosdidáticos para o ensino dessa disciplina. Os documentos e leis que regem o ensino no Brasil, a exemplo dos PCN e daLei de Diretrizes e Bases (LDB), propõem e defendem que o ensino de LínguaPortuguesa e Literatura seja feito de forma integrada. Contudo, na maioria doscasos, esta última encontra-se inserida na área da primeira, mas não são ensinadasde forma intertextual. Ao contrário, o ensino literário resume-se basicamente aanálises gramaticais, sintáticas, estudo de vocabulário etc. Dão preferências àsobras de “grandes escritores” e, com toda essa análise, acabam por torná-losdesinteressantes aos alunos. É interessante ressaltar que as aulas de LínguaPortuguesa e Literatura das escolas analisadas acontecem de forma separada, umdia é destinado para a primeira e outro para a segunda. No mais, fazem atividade deinterpretação de texto nas aulas de literatura porque o texto apresentado pelo livrodidático já vem acompanhado por um questionário a ser respondido. Nota-se, com isso, que a essência da literatura com seu poder de sedução, seinstigada nos alunos, poderia contribuir para a formação de um grande leitor atento einfluente. Entretanto, as atividades mecânicas e maçantes da escola influenciam deforma negativa para a formação desse futuro leitor. Com relação à importância da literatura, os professores foram questionadosacerca do que é mais relevante na disciplina de literatura, sendo dadas cinco opções
  45. 45. 44e pedida uma justificativa. “De acordo a sua experiência pedagógica, o que vocêacha que deve ser mais valorizado na disciplina literatura?”a( )Decorar nomes de autores obras e datas.b( )Conhecer a ordem sequencial das escolas literárias e suas características.c( )Identificar nos textos características do período a que pertence.d( )Estabelecer uma relação do texto literário com o mundo atual.e( )Fazer crescer nos alunos o interesse e a capacidade de interpretar textosliterários.Justifique:a) Professores da escola 1:Professor A: “c; d; e;”.Professor B: “c; d; e;”.Professor C: “c; d; e;”.b) Professores da escola 2:Professor A: “d; e;”.Professor B: “c; d; e;”.Nenhum dos professores justificou as opções. As respostas dos professores não condizem com o que dizem os alunosquando questionados sobre as atividades das aulas de literatura, pois, duranteconversas, relatam esses, que muitas aulas tornam-se repetitivas em relação aosroteiros de textos que fazem. Diante da pergunta “Que atividades você faz nas aulasde literatura?”
  46. 46. 45a) Alunos da escola 1:Aluno A: “ler e escrever”.Aluno B: “Nós lemos o texto e respondemos as margens do texto”.Aluno C: “pesquisa as obras dos autores”.Aluno D: “exercícios, leitura as vezes e outros”.b) Alunos da escola 2:Aluno A: “seminários”.Aluno B: “Na maioria sobre escritores”.Aluno C: “Ler paradidáticos”.Aluno D: “atividades relacionadas a interpretação de textos, leituras de livros e Alunoseminários”Aluno E: “Interpretação de textos, atividades e etc”.Aluno F: “Atividades referidas a cada assunto dado, tais como: Seminário,questionário”. Sobre a pergunta seguinte “Quais as atividades mais rotineiras nas aulas deliteratura?”, percebe-se, através das respostas, a literatura como uma atividademecânica e rotineira.a) Alunos da escola 1:Aluno A: “ler textos”.Aluno B: “ler textos”.Aluno C: “ler um texto sobre cada um dos autores”.Aluno D: “muito exercício”.
  47. 47. 46b) Alunos da escola 2:Aluno A: “Leituras em todas as aulas, e textos longos”.Aluno B: “Romantismo, Realismo, Naturalismo”.Aluno C: “Questionários sobre as obras”.Aluno D: “interpretações de textos”.Aluno E: “atividades com textos”.Aluno F: “Responder questões dos livros e fazer questionários”. Percebemos através dessas respostas que o ensino de literatura não estásendo feito com base nas orientações dos PCN que defendem um ensino integradoao de língua, e não utilizá-la como suporte ou pretexto, fragmentando o texto e,consequentemente, tirando sua essência. O estudo da gramática pode ser feito nãode forma isolada por meio de palavras, frases e períodos, mas de forma integradaao estudo literário, sendo o texto a unidade de privilégio. A análise linguística podeser trabalhada pela comparação entre os diferentes gêneros. Márcia Mendonça(2006) diz que: O texto literário, ao invés de ser utilizado pela gramática para exercícios de transformar adjetivos em locuções adjetivas, pode ser utilizado para mostrar que a adjetivação pode acontecer através de diferentes estratégias e recursos, criando, assim, efeitos e sentidos diferentes (210-1). Em face do que foi apresentado, essa forma escolarizada de ensinar literaturaé inadequada e afasta-se cada vez mais da proposta de um ensino interdisciplinar,contribuindo consequentemente para um estudo isolado, impossibilitando o aluno deperceber a integração que existe entre a literatura e as demais disciplinas.Compagnon (2006) diz que:
  48. 48. 47 A literatura, ou estudo literário, está sempre imprensada entre duas abordagens irredutíveis: uma abordagem histórica, no sentido amplo (o texto como documento), e uma abordagem linguística (o texto como fato da língua, a literatura como arte da linguagem) (p. 30). Muito mais que isso, a literatura precisa ser entendida como produçãoartística que está inserida na cultura e recebe diferentes influências: histórica, social,ideológica, política etc, e por meio dessas interfere na realidade. Notamos assim, acarência das metodologias que se direcionam ao ensino de literatura, principalmenteno Ensino Médio, e se faz necessário buscar alternativas didáticas que motivem osalunos a ler e estudar literatura por prazer. “Não cabe mais continuar privilegiandouma escolarização inadequada da literatura, encarando-se o texto literário comosimples pretexto para questões de análise gramatical” (MARTINS, 2006, p. 91). Precisamos compreender/ entender que o ensino de literatura além deresponsabilidade da escola é também uma prática social e, precisa ser vista não sócomo disciplina escolar, mas principalmente, veículo de conhecimento pessoal esocial. Cosson (2006) ressalta que: A questão a ser enfrentada não é se a escola deve ou não escolarizar a literatura, [...] mas sim como fazer essa escolarização sem descaracterizá-la, sem transformá-la em um simulacro de si mesma que mais nega do que confirma seu poder de humanização (p. 23). No entanto, no Ensino Médio a literatura resume-se, basicamente, ao ensinode características dos períodos literários, o nome dos autores e das obras. Porém,sabe-se que essa sequência poderia e pode ser trabalhada na disciplina de históriaou de forma intertextual a ela. Assim sendo, propõe-se que o professor tenha umcuidado especial não só com o tratamento do conteúdo adequado, mas tambémcom as estratégias metodológicas para abordá-los. Aos professores entrevistados foram feitas perguntas acerca do materialdidático, do acervo indicado e da metodologia utilizada. Diante da pergunta “Quematerial didático utiliza na realização das atividades literárias?”, obteve-se asseguintes respostas:
  49. 49. 48a) Professores da escola 1:Professor A: “Na realização das atividades literárias em sala de aula, utilizo umadiversidade de material didático: aparelho de som, músicas e textos diversos,cartazes, transparência, tarjetas, livros, revistas, etc”.Professor B: “Livro didático, TV pendrive, multimídia, mídias de CD e DVD,paradidáticos, textos impressos etc”.Professor C: “Sempre que possível alterno a forma de trabalhar; logo o materialdidático varia desde o livro didático, paradidático, transparência, retroprojetor,tarjetas, textos digitados, jornais, revistas, plaquetas, aparelho de som, TV, DVD,mídias (CDs e DVDs) a projetor de slides e pendrive. Sem esquecer, é obvio, doquadro branco e pincéis”.b) Professores da escola 2:Professor A: “Nas minhas aulas costumo trabalhar não apenas com o livro didático,mas com paradidáticos, jornais, revistas, textos e livros científicos e literários,Romances, observação de quadro, pintura etc”.Professor B: “Utilizo muitos texto (poemas) slides com imagens, pois também éimportante perceber o movimento literário em outras manifestações artísticas, utilizotambém o livro didático”. Com relação ao acervo de trabalhado, nota-se variados tipos e critériosadotados para a referida leitura, porém, critérios que privilegiam mais o currículo eas escolas literárias, que a necessidade do aluno. A pergunta “Que critério utiliza naseleção do acervo a ser indicado para leitura?” revela essa realidade.a) Professores da escola 1:
  50. 50. 49Professor A: “Sempre procuro indicar romances para serem lidos pelos alunos deacordo com os movimentos literários que estão sendo estudados”.Professor B: “A relação com o movimento literário em estudo e obras solicitadaspara vestibular”.Professor C: “As obras literárias indicadas para leitura seguem, primeiro, a relaçãodas mesmas com os movimentos literários em estudo; depois, o acesso até elas,atentando também às obras requisitadas nos vestibulares, isso maisespecificamente nas 3ªs séries. Mas no noturno a leitura extraclasse é uma luta”.b) Professores da escola 2:Professor A: “Não menosprezo a capacidade dos meus alunos, por isso prefiro queeles leiam os romances ao invés de resumos mesmo com os alunos do noturno. Eprimeiramente observo se a linguagem é acessível aos meus alunos, procuro livronão muito extenso (muitas páginas) e histórias envolventes. Instigam mais osalunos”.Professor B: “Gosto de selecionar, pelo menos, uma obra de cada movimento paraque os alunos se aproximem do que estudaram. Entretanto na 3ª série do ensinoMédio priorizo as obras indicadas para o vestibular”. Com relação à metodologia adotada pelos professores, através das respostasobtidas por meio da questão “Qual a metodologia que utiliza nas aulas deliteratura?”, vê-se que a descrição é muito mais rica do que de fato foi possível verem sala de aula. Vale ressaltar que não observei as aulas durante todo um ano, masapenas algum período e, nesse tempo, vi apenas utilização de sala multimídia paraexposição de slides.a) Professores da escola 1:
  51. 51. 50Professor A: “Exibição de slides e vídeos para explanação e discussão dosconteúdos selecionados; Aplicação de dinâmicas de textos não-verbais,comparando-os a textos de linguagem verbal; Leitura comentada de trechos deobras literárias (lidas extraclasse) em aula; ao término da leitura, avaliação dinâmicae construtiva por meio de exposições orais, de painéis, poesia, paródia,representação de cenas (teatro); Seminários”.Professor B: “Dinâmicas diversas, estudo dirigido, debates, Seminários e estudo emgrupo”.Professor C: “Aulas expositivas através de esquemas, estudo dirigido, seminários,debate, estudo em grupo, exercícios, áudio e análises de músicas, projeção deslides e filmes, gincana literária...”.b) Professores da escola 2:Professor A: “Procuro diversificar minhas aulas de literatura com atividades quetenham significado para meus alunos, costumo indicar leitura de romances, teatro,dramatização, filmes, pesquisas, vídeos etc”.Professor B: “Trabalho muito com slides tanto de poesias, textos como imagens.Muita análise de poemas e claro, o conhecimento da biografia do autor ecaracterísticas do movimento”. As descrições dos professores confirmam o que foi observado em sala. Oensino de literatura ocorre ainda de forma tradicional, atendendo às necessidadesdo currículo, ainda que muitos recursos didáticos sejam utilizados, o aluno não épreparado para a vida, não conhece a relação existente entre vida e Literatura. Sehouvesse uma proposta pedagógica que valorizasse também o conhecimento demundo do aluno juntamente com seus saberes, toda atividade de Literatura seriaantes de meras análises, atividades de produção de sentidos. Propõe-se que oprofessor adote uma diferente prática de leitura na escola, que, consequentemente,reflita na sociedade. Para isso, a leitura precisa ser antes de tudo consciente,valorizando o aluno e o seu contexto de vida. Mas, saindo do ideal e passando ao

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