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7                                          ABSTRACTThe present work, has proposed a sociocritic approach in 1984 by George...
8                                                   SUMÁRIO      INTRODUÇÃO: MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO:      PALIM...
9                                        INTRODUÇÃO:  MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO: PALIMPSESTOS INACABADOS          ...
10caricatura dos pactos realizados entre os países envolvidos na Segunda Grande Guerra. Entreeles, pode-se destacar o de m...
11Guerra. A tentativa de dominação pelos regimes totalitários de Hitler e Mussolini despertounos intelectuais ingleses e e...
12autores que, a exemplo de Cândido e Baccega, aqui citados, tratam do imbricamento entre otecido social e histórico e a L...
13literatura, no que diz respeito a estruturar um paralelo entre a utopia e a construção dasociedade através da luta de cl...
14Poeta, mas um aspecto da história social‖, como expressa Barbéris (1997, p. 160). Paraentendermos a natureza da ficção, ...
15escritor também desenvolve uma forte percepção do perfil psicológico de um opressor,figurado no Grande Irmão. O segundo ...
16políticas totalitaristas, principalmente de Stálin. Entre esses escritos, o mais veemente foi TheRevolution Betrayed. E ...
17                            Esses refúgios privados, as verdades subjetivas da literatura, conferem à verdade           ...
18histórica pelas inúmeras mazelas sociais que ainda perduram, as quais, resultantes da guerra,deixaram marcas indeléveis....
19       A consciência coletiva e alienada nunca buscaria uma resposta efetiva para oentendimento da ideia de coletividade...
20                          operações de guerra, ou a atitude em relação a ela se tenham tornado mais                     ...
21       Ou seja, a supressão dessas emoções exercida pela tirania era vista constantemente naclasse que domina toda a Oce...
22       Temos aí de forma sucinta o resumo de um dos principais pensamentos marxistassobre a história humana, a sempre ex...
23Da mesma forma, foi através das idéias dos mencheviques que se chegou à grande parte dasramificações partidárias que sur...
24       Deste modo, é possível perceber a grande semelhança do que Trotski afirma sobre aRevolução de Outubro, com o que ...
25        Assim, é possível perceber o quanto essa atmosfera de medo foi onipresente, tanto nanarrativa quanto no período ...
26pão racionado pelas incertezas do dia seguinte, com o desespero de quem junta a fome àvontade de comer‖.        Isso rat...
27                       Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo; as massas              ...
28de como, uma vez que já se encontravam com o poder estabelecido, o que era preciso fazerpara permanecerem. À medida que ...
293. O PODER VIRTUAL: A ANULAÇÃO DA MEMÓRIA        Conforme nossos estudos, foi possível notarmos que, entre as manifestaç...
30       Na narrativa, podemos compreender melhor essa informação quando o protagonistadecide escrever um diário para o fu...
31psicológicos, mais não são que os resultados de sistemas dinâmicos de organização e apenasexistem na medida em que a org...
32possuírem reminiscência alguma do passado. O escopo da busca de Winston, como apontanossa leitura, mostrava que, se algu...
33eles um dos que são usados deliberadamente em nossa distopia, ao qual ela dá a nomenclaturade ―culpa por associação‖, é ...
343.1 Manutenção da situação por subtração       Ao passo que nos aprofundamos na narrativa de George Orwell, podemos afir...
35        A outra arma que desempenha um papel importante nessa consolidação do poder é anovilíngua, que podemos entender ...
36ideologia se materializa. A linguagem se coloca para Althusser como uma via por meio daqual se pode depreender o funcion...
A ficção dentro da ficção de george orwell e suas nuances
A ficção dentro da ficção de george orwell e suas nuances
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A ficção dentro da ficção de george orwell e suas nuances

  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ JELTROM ANTONIO OLIVEIRA DE ARAUJOA FICÇÃO DENTRO DA FICÇÃO DE GEORGE ORWELL E SUAS NUANCES CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  2. 2. 1 JELTROM ANTONIO OLIVEIRA DE ARAUJOA FICÇÃO DENTRO DA FICÇÃO DE GEORGE ORWELL E SUAS NUANCES Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito final à conclusão do Curso de Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua Inglesa. Orientadora: Profª. Drª. Flávia Aninger de Barros Rocha. CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  3. 3. 2 JELTROM ANTONIO OLIVEIRA DE ARAUJO A FICÇÃO DENTRO DA FICÇÃO DE GEORGE ORWELL E SUAS NUANCES Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito final à conclusão do Curso de Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua Inglesa.Aprovada em: ___/___/___ Banca examinadora_______________________________Flávia Aninger de Barros Rocha – OrientadoraUniversidade Estadual de Feira de Santana_________________________________________Neila Maria Oliveira SantanaUniversidade do Estado da Bahia – Campus XIV_________________________________________Rita SacramentoUniversidade do Estado da Bahia – Campus XIV CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  4. 4. 3Dedico este trabalho aos meus familiares, colegas, e aos nossos professores pela contribuição na construção do conhecimento.
  5. 5. 4 AGRADECIMENTOS Para nós, seres humanos, viver deve ser entendido como encarar a ditadura da vida comanarquia. Isso significa que precisamos confrontar de todas as formas as adversidadessobrevindas, realizando inúmeras ações para atender às nossas necessidades, aspirações econveniências. Por conseguinte, devemos exercer sempre a nossa pluralidade que não sereduz à unidade de confusão, pois, como diria o pensador Blaise Pascal, unidade que nãodepende de pluralidade é tirania. Portanto, como não vivemos sozinhos, a produção daexistência é feita por um conjunto de ações coletivas e interligadas. Nesse ínterim, ao me dedicar neste trabalho científico, muitas pessoas contribuíram paraque se concretizasse esta monografia. Meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que, dealguma forma e mesmo que involuntariamente, doaram um pouco de si para que a conclusãodeste trabalho se tornasse possível: A minha orientadora professora doutora Flávia Aninger de Barros Rocha que me orientou,desde o Anteprojeto até a Monografia auxiliando na produção do texto, na organização dasideias, com a disponibilidade de tempo, materiais e referências que utilizei, com o apoio esimpatia com que me tratava. Aos meus pais, Antonio e Raimunda que me incentivaram sempre a estudar, a acreditarem mim mesmo, a nunca desistir; Agradeço a eles que me ensinaram a ser o que sou hoje eme educaram para tornar-me uma pessoa de bem e aguerrida, por todos os sentimentos bons eincondicionais a mim dados. A meu irmão mais velho Josué, que me deu grande input em todos os sentidos paraprosseguir nessa jornada e concluir, pois seria profícuo para o meu viver. A meus amigos, que compreenderam a minha ausência nos últimos momentos daprodução da monografia, pela atenção e paciência. Agradeço também por eles existirem emminha vida, por estarem presentes nos momentos bons, bem como nos momentos difíceis, poreles me aceitarem como sou. Aos colegas de Universidade, por eles, aos poucos, ocuparem um grande espaço em meuexistir, por conquistarem meu respeito, meu carinho e por representarem pessoas especiais eindeléveis pra mim.
  6. 6. 5CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDOProvisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,não cantaremos o ódio, porque este não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo dasigrejas,cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.Depois morreremos de medoe sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas emedrosas. Carlos Drummond de Andrade
  7. 7. 6 RESUMOO presente trabalho propôs-se a uma abordagem sociocrítica, em 1984, de George Orwell.Narrativa de grande densidade, na qual o autor focaliza as questões humanas, que vem à tonadiante de um quadro de grande opressão política. Vemos que é possível encontrar as marcas eos impactos produzidos pela experiência das Grandes Guerras Mundiais. Nessa investigação,pode-se visualizar as tentativas de dominação estabelecidas pelos regimes totalitários desseperíodo, que despertou nos intelectuais o sentido de alerta com relação aos direitos individuaiscivis. Essa abordagem sociocrítica serve-nos para estabelecer a compreensão tanto da obra1984 em si, quanto do livro que se encontra inserido nessa narrativa. Para tanto, procurou-seaqui mostrar como se configura esta ficção ou livro imaginário dentro da ficção, e odesdobramento do híbrido entre História e Literatura dentro da obra de Orwell no que dizrespeito aos paralelos com os sistemas sociais implantados no século XX. Possibilita-nosafirmar assim, que através dum entendimento sociocrítico é que a obra fala por si, enquantoespelho social de uma época.Palavras-Chave: Literatura. História. Sociocrítica. Política. Ficção. Memória.
  8. 8. 7 ABSTRACTThe present work, has proposed a sociocritic approach in 1984 by George Orwell. Narrativeof huge density, whose author focus on human questions that comes to the surface in front ofa picture with big politic oppression. We see that is possible to find so many wounds and theimpacts made by the experience of the Great World Wars. In these overlooking, we can see somany attempts to dominate established by totalitarians regime in these period, which woke upin the intellectuals the sense of alert in relation to the individual civil rights. This sociocriticapproach serves to establish the comprehension as 1984 itself, as the book inside this novel.Hence, we search here show how to configure its fiction or imaginary book inside this fiction,and the developments of the hybrid between History and Literature within Orwell‘s work, inrespect to the parallels with the social systems implanted in Twentieth century. Allow us tostate through these sociocritic understanding, the work tell by itself, while a social mirror ofan epoch.Keywords: Literature. History. Sociocriticism. Politic. Fiction. Memory.
  9. 9. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO: MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO: PALIMPSESTOS INACABADOS ....................................................................... 091 MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO: UMA LEITURA SOCIOCRÍTICA ................................................................................................... 122 GOLDSTEIN, O PAROXISMO DA CONSCIÊNCIA........................................ 172.1 A construção da sociedade através da luta de classes............................................... 192.2 Os mencheviques de Goldstein................................................................................. 222.3 O Terror da razão humana em 1984......................................................................... 243 O PODER VIRTUAL: A ANULAÇÃO DA MEMÓRIA................................... 293.1 Manutenção da situação por subtração..................................................................... 343.2 Winston e Júlia: a revolução traída........................................................................... 373.3 Panis et circenses, pois somente ―os proles e os animais são livres‖..................... 41 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 43 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 45
  10. 10. 9 INTRODUÇÃO: MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO: PALIMPSESTOS INACABADOS Eric Arthur Blair (1903-1950), ou George Orwell, como é conhecido, é um dosrepresentantes mais marcantes da literatura distópica, ou seja, da escrita que descreve avivência de uma ―utopia negativa‖, marcada pelo total controle da sociedade através datecnologia. Podemos conceituar melhor o termo distopia, partindo da sua palavra radicalutopia, que é um conceito segundo o qual é possível idealizar de forma fantasiosa um lugarque é um não-lugar, pois situa-se tão somente no imaginário e não chega a realizar-se. Outopismo é um modo absurdamente otimista de ver as coisas do jeito que gostaríamos queelas fossem e desse modo, pode-se dizer que o conceito derivado de distopia seria o inverso,ou seja, a possibilidade de idealizar de forma negativa esse não-lugar. Desse modo, a obra de Orwell, 1984, escrita em 1947, retrata uma sociedadeoligárquica e totalitária, que reprime qualquer um que se opuser a ela. As ideias que a regempartem de um líder obscuro, ―O Grande Irmão‖ (The Big Brother), que, através de telõesinstalados em vários lugares, inclusive nas casas, controla a privacidade de todos os cidadãosdo país. Através desse controle da informação, ele se mantém e se consolida cada vez mais,pois, como se percebe na leitura do livro, o grupo dominante altera os fatos históricos parasituações mais convenientes. Associado a essa intervenção no passado, está o conceitochamado de ―duplipensar‖, conceito segundo o qual é possível ao indivíduo conviversimultaneamente com duas crenças diametralmente opostas e aceitar ambas, também criadopara consolidar a ditadura do Partido que determina tudo. Desiludido com sua existência miserável, Winston Smith, protagonista da narrativa efuncionário do governo totalitarista, começa a empreitada de se rebelar, juntamente com acompanheira Júlia, transgredindo a partir do momento em que vê nela também uma possíveldissidente e começam a se envolver amorosamente. Assim, no início, sem nem mesmoconhecer quase nada sobre sedição, ainda que silenciosamente, Winston tenta restituir suaesperança, acreditando que os proles, a camada mais baixa da população, considerada comomuito inferior, seriam os que restituiriam a ideia de liberdade na Oceania, esta, local dafiguração de Orwell, em constante guerra com mais duas potências rivais: a Eurásia e aLestásia. Para os fins a que nos propomos, se avaliarmos historicamente, veremos semelhançasgritantes com a época vivida pelo autor, pois o clima de guerra constante é possivelmente uma
  11. 11. 10caricatura dos pactos realizados entre os países envolvidos na Segunda Grande Guerra. Entreeles, pode-se destacar o de maior proximidade com a figuração de Orwell, o Pacto Molotov-Ribbentrop, que aliou a URSS com a Alemanha Nazista, e a ruptura inesperada com aOperação Barba Vermelha, que culminou com o insucesso da Alemanha Nazista. Dando prosseguimento à nossa análise, encontramos na outra face da moeda, emcontraste com o ―Grande Irmão‖, a sua polarização, o dissidente do Partido, EmmanuelGoldstein, inimigo público número um da sociedade da Oceania. Emmanuel Goldstein era umantigo membro do Partido que quebrara as regras vigentes ao supostamente conspirar contra oGrande Irmão. Desse modo, devido ao seu caráter subversivo, o personagem foi transformado emalvo de ataques, servindo para alimentar a vitalidade do Partido nas manifestações maisgritantes, como nos Dois Minutos de Ódio, momento diário em que as pessoas se reuniam emfrente a um telão enorme alocado em praça pública chamado de Teletela, diante do qual seatiravam insultos a esse suposto dissidente. A condição de ―suposto inimigo‖ nesses doispolos da narrativa, se deve ao fato de que, assim como o Grande Irmão, não se tinha a certezada real existência de Emmanuel Goldstein, e, ainda assim, essa sociedade era dominada pelainfluência dessas duas entidades: A grande maioria, que não ousava pensar sem as ordens doBig Brother e os mencheviques de Goldstein que conspiravam às escuras, nos quais seincluíam Winston e Júlia. Contido na ficção de Orwell, há um livro chamado Teoria e Prática do ColetivismoOligárquico, escrito pelo desertor Emmanuel Goldstein, o qual apresenta um pouco da gênesee das consequências de todas as formas de totalitarismos. É um livro de natureza sediciosaque, por haver poucos exemplares, vai sendo revezado entre os possíveis dissidentes, e que,minuciosamente, mostra as nuances desse sistema utópico, servindo de espelho para umacrítica às manifestações totalitárias do século XX. Emmanuel Goldstein, então, pode ter sido um dos ―revolucionários‖ que ajudou aconstruir o sistema social implantado naquela sociedade (IngSoc – sigla para SocialismoInglês). Este pregava a liberdade de pensamento, sendo o cérebro o único local em que o BigBrother não conseguia vigiar, isto se o pensamento não fosse expresso na face e captado pelateletela. Esta ideia se mostra contrária ao poder vigente, pois somente com o povo exprimindoas suas opiniões, sem serem obrigados a duplipensar, é que a ordem poderia mudar. Porém,por ter opiniões contrárias, Goldstein acabou sendo perseguido e banido da Oceania. É possível afirmarmos que, ao analisarmos as obras da Literatura européia pós 2ªGuerra Mundial, encontraremos as marcas e os impactos produzidos pela experiência da
  12. 12. 11Guerra. A tentativa de dominação pelos regimes totalitários de Hitler e Mussolini despertounos intelectuais ingleses e europeus de um modo geral, o sentido de alerta com relação aosdireitos individuais civis. Com sua obra, George Orwell se posiciona a favor de uma reflexão que vai além deum exame sobre o Stalinismo, como anteriormente propuseram vários estudiosos deste livro.Além deste propósito, o autor focaliza as questões humanas que vem à tona diante de umquadro de opressão política. O livro que se encontra dentro do livro, de autoria do personagem dissidenteEmmanuel Goldstein, representa um importante elemento do qual os personagens sãoprivados todo o tempo: a liberdade de pensamento ou a liberdade de experimentar umcaminho e ter o direito de também negá-lo, buscando um equilíbrio. A relação entre o contexto social e a produção literária pode ser vista conformeexplica Antônio Cândido em ensaio fundamental para os Estudos Literários: ―a função socialcomporta o papel que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, nasatisfação de necessidades espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de uma certaordem na sociedade‖ (CÂNDIDO, 2000, p. 53). Deste modo, acreditamos que Orwell aponta, com a presença do livro de Goldstein noenredo, para a Palavra que permanece, para o registro escrito da História, mostrando que olivro se revela passível de inúmeras abordagens, e que, quanto mais nos dispusermos a fazernossas análises sociocríticas, iremos ver que 1984 é um terreno muito fértil para as análisessociológicas e que, com essa visão, será possível perceber os recursos narrativos usados porOrwell para tratar dessa reflexão através da Literatura, bem como pelo estudo sistemático daconexão entre a literatura e a sociedade. Assim, o recurso narrativo do ―livro dentro do livro‖ reforça a questão das formaçõesdiscursivas como portadoras de ideologias, trazendo uma chave de compreensão para oenredo da obra, demonstrando como aquela sociedade se tornou opressora e fechada e, destemodo, convocando o leitor à reflexão fundamental de que um regime político que não seavalia tende a se tornar ditatorial, remetendo-nos a alguns regimes implantados num dosséculos mais conturbados por guerras como o século XX. A pesquisa se desenvolveu através de revisão bibliográfica, visando encontrarfundamentação teórica na leitura de material já publicado sobre o tema/problema de pesquisa,em que fossem discutidos os aspectos da tirania, os mecanismos de coerção, a constituiçãodas classes sociais, pela ótica do livro contido na ficção de George Orwell: ―Teoria e Práticado Coletivismo Oligárquico‖ do personagem Emanuel Goldstein, bem como a partir de
  13. 13. 12autores que, a exemplo de Cândido e Baccega, aqui citados, tratam do imbricamento entre otecido social e histórico e a Literatura. Encontramos, desse modo, um terreno bem fértil nessa literatura pós-guerra, a qualdá uma visão em detalhes desse período de grande importância histórica. Muito pelo fato deque, fornece-nos não somente uma visão unidimensional da história, mas descreve comprecisão de quem vivenciou esse período que deixou indeléveis marcas na nossa sociedade. No sentido de manter-nos atualizados sobre como se dá o funcionamento dasengrenagens sociais, fizemos algumas análises também por vieses outros, como opsicanalítico, o qual nos oferece pontos veementes para estabelecermos o entendimento doque essa leitura pode mostrar. Dos procedimentos instrumentais utilizados temos a seleção de textos teóricos que,desta forma, também entraram nessa seara sociológica e encontram seu norte do ponto devista da literatura. Assim, o trabalho se articulou através de pesquisas bibliográficas, nainternet e discussões na órbita do tema, os quais culminaram com o know-how necessário àsincursões discursivas realizadas aqui. 1. MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO: UMA LEITURA SOCIOCRÍTICA Um entendimento sociocrítico designará a leitura do histórico em que está inseridadeterminada literatura. Assim, para Madame de Stäel apud Barbéris (1997, p. 153), aliteratura muda com as sociedades e com os progressos da ―liberdade.‖ Ela se amolda àevolução da ciência, do pensamento, das forças sociais. A literatura é sempre crítica e aomesmo tempo convite a alguma coisa. É preciso investigar a fundo as matrizes discursivaspara definirmos as relações entre história e literatura presentes na obra. Sobre esse aspecto,Vargas Llosa (2007, p. 23) afirma que ―a diferença entre a verdade histórica e a verdadeliterária desaparece e se funde num híbrido que banha a história de realidade e esvazia ahistória de mistério, de iniciativa e de inconformidade diante do estabelecido‖. Logo, como afirma Baccega (1995, p. 89), ―a leitura nada mais é que o discurso daexistência humana, das suas várias possibilidades. E a história é o desdobramento no tempodessas várias possibilidades‖. Faz-se preciso, portanto, que saibamos como situar essa
  14. 14. 13literatura, no que diz respeito a estruturar um paralelo entre a utopia e a construção dasociedade através da luta de classes. Há ocasiões em que o texto pode ser uma excepcional síntese de tensões e vibrações, inquietações e perspectivas, aflições e horizontes de indivíduos e coletividades, em dada situação, conjuntura ou emergência. Nesse sentido é que algumas obras de literatura, assim como de sociologia, podem ser e têm sido tomadas como sínteses de visões do mundo prevalecentes na época. (SEGATTO; BALDAN, 1999, p. 41) Segundo Cândido, deve-se analisar o vínculo entre a obra e o ambiente, sempreobservando a estética da literatura. O que interessa é uma abordagem que exponha a obraliterária como uma união de fatores sociais que exerçam influência na composição da mesma,que consiste no escopo da nossa busca. A literatura deve ser vista como um todoindissociável, formado por características sociais diferentes que se completam. Cândidoafirma que: a arte é social ‗quando‘ depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais. Isto decorre da própria natureza da obra e independe do grau de consciência que possam ter a respeito os artistas e os receptores de arte. (CÂNDIDO, 2000, p. 29) Ainda segundo este autor, tratando dos fatores socioculturais, podemos afirmar que osmais importantes estão ligados à estrutura social, no que diz respeito à posição social doartista, os valores e ideologias que se manifestam no conteúdo e na obra e as técnicas decomunicação que podem ser observadas na transmissão da obra. Sociologicamente, a obra sófinaliza quando repercute e atua, pois ela é um sistema de comunicação inter-humana, serecorrermos à época de lançamento de 1984, iremos nos certificar desse momento derepercussão e atuação e que refrata por todos esses anos e reverbera na contemporaneidade. Analisando ―1984‖ por esse critério da indissociabilidade da literatura e da históriaveremos que estas: Além dos seus enigmas filosóficos, religiosos, políticos ou outros, elas contribuem decisivamente para a revelação do desenho da prisão de ferro, literal ou metaforicamente. São um mergulho audacioso, surpreendente, aflitivo e fascinante no sistema labiríntico produzido pela racionalização das organizações, instituições, atividades e mentalidades. (SEGATTO; BALDAN, 1999, p. 24-25) Tais características estão presentes em alguns sistemas políticos do período em que1984 está mergulhado. Podemos considerar que, ―a literatura não é mais Apolo inspirando o
  15. 15. 14Poeta, mas um aspecto da história social‖, como expressa Barbéris (1997, p. 160). Paraentendermos a natureza da ficção, Vargas Llosa (2007, p. 12) diz que ―no embrião de todoromance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito‖, ou seja, pode-se dizer queOrwell transmitia suas ideias inconformistas através da sua pintura literária. Na esteira desse pensamento, Eric Arthur Blair, ou George Orwell, dedicou parte desua vida ao combate de ideologias totalitárias, sobretudo as de cunho nazifascistas.Primeiramente, lutando na Guerra Civil Espanhola em 1936 contra a ditadura de FranciscoFranco e depois, quando desiludido com o sistema socialista, passa a voltar sua obra literáriapara a crítica a este tipo de modelo. Assim, no discurso literário, podemos encontrar inúmeras marcas de relaçõessocioeconômicas, políticas e culturais, como quando percebemos na leitura, o momento queWinston resolve ler o livro proibido escrito por Goldstein. Os conceitos apresentados no livroficcional de Emmanuel Goldstein sobre como se dá a construção da história através da luta declasses apresenta claramente a defesa dos pontos de vistas de Orwell, identificadas no trechoabaixo e que, ao final, mostram a estruturação daquela sociedade distópica: O objetivo da Alta é ficar onde está. O da Média é trocar de lugar com a Alta. E o objetivo da Baixa, quando tem objetivo – pois é característica constante da Baixa viver tão esmagada pela monotonia do trabalho cotidiano que só intermitentemente tem consciência de que existe fora de sua vida – é abolir todas as distinções e criar uma sociedade em que todos sejam iguais. Assim, por toda a história, trava-se repetidamente uma luta que é a mesma em seus traços gerais. Por longos períodos a Alta parece firme no poder, porém mais cedo ou mais tarde chega um momento em que, ou perde a fé em si própria ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas. É então derrubada pela Média, que atrai a Baixa ao seu lado fingindo lutar pela liberdade e a justiça. (ORWELL, 1986, p. 147). Essa crítica parece representar um pouco da desilusão de Orwell com relação aocomunismo, sistema que, por sua vez, primava pela pureza de sua sociedade, tambémdefendida pelo nazismo, e que praticava o mesmo cerceamento das liberdades individuais, portrás da falsa ideia de ―reorganização social‖. Desse modo, 1984 remete-nos também às frustrações particulares do autor. ParaTimothy Garton Ash (2001), professor de Estudos Europeus na Universidade de Oxford, nosEstados Unidos, três fatores pessoais levaram Orwell a descrever o sistema totalitário demaneira tão realista, embora todo o seu conhecimento sobre o sistema comunista russoprovenha de suas leituras. O primeiro deles foi o processo de formação de Orwell comopolicial imperial britânico na Birmânia, onde ele foi funcionário de um regime opressor porcinco anos. Ao criar ódio pelo imperialismo e fortalecer sua relutância a este sistema, o
  16. 16. 15escritor também desenvolve uma forte percepção do perfil psicológico de um opressor,figurado no Grande Irmão. O segundo proviria da vivência do escritor com os pobres daInglaterra e da França com os quais conheceu a humilhante falta de liberdade que a pobrezaproporciona. Por último, viria sua vivência direta no conflito ocorrido na Espanha, onde foi feridopor um tiro na garganta. Porém, o que mais o impressionou e revoltou foi a difamação e aperseguição sofridas pelo Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) por parte decomunistas, que deveriam ser aliados no combate à ditadura franquista. O agente russo naEspanha acusava os membros do POUM de traidores trotskistas franquistas. Este fato levouGeorge Orwell a compreender que a manutenção da supremacia pessoal pode se sobrepor aideologias e vidas. De fato, o que é mais emblemático ao mergulharmos na narrativa de 1984, maisprecisamente, na narrativa da suposta existência de Emmanuel Goldstein e na estruturação de―Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico‖, é vermos que este assemelha-se muito ao quefoi vivenciado por Leon Trotski, líder comunista que teve papel decisivo na RevoluçãoBolchevique. Bem como, se nos referimos ao contexto do livro, veremos que a guerra para amanutenção da paz foi recurso muito utilizado na Europa da época, principalmente na Rússia,Alemanha, entre outros. Também, como no comportamento do Big Brother, podemos comprovar com aspalavras dos biógrafos de Stálin, Dorothy e Thomas Hoobler, que este gostava de estimularrivalidades entre os que compunham o seu círculo mais íntimo de relações, de modo a mantertodos sob eterna tensão. ―Havia o temor generalizado de que, de repente, o líder decidisse quealguém já não merecia sua integral confiança‖ (HOOBLER, 1987, p. 95). Tal afirmação ésuscetível de incontáveis reflexões e desse modo, podemos nos questionar: se num círculo deamizades há esse temor, o que se poderia dizer do cenário político como um todo? Podemos perceber que 1984 nos dá todo o panorama histórico do período da SegundaGrande Guerra, tanto o nazismo de Hitler quanto o Franquismo na Espanha, o Stalinismorusso, entre outros. Além de outras similaridades menos relevantes, sabemos que ―Trotski eraconstantemente acusado pelo regime stalinista de liderar uma conspiração antissoviética. Naverdade, seu nome serviu de pretexto para a violência e o terror implantados por Stálin‖(HOOBLER, 1987, p. 63). Ademais, a título de informação, Trotski se tornou crítico ferrenho depois que acortina de ferro se abriu pra ele. Como intelectual e tendo participado ativamente naRevolução, produziu incontáveis escritos em que condenava os mandos e desmandos das
  17. 17. 16políticas totalitaristas, principalmente de Stálin. Entre esses escritos, o mais veemente foi TheRevolution Betrayed. E é com este sentido que muitos correlacionam a obra de Trotski (TheRevolution Betrayed) com ―Teoria e prática do Coletivismo Oligárquico‖ de Goldstein,contido em 1984. Este estrutura de forma detalhada o conhecimento sobre a constituição dassociedades desde a sua gênese. Assim, à luz das reflexões sobre história e literatura, Bacegga (1995, p. 54) afirmaque: ―a palavra é a arena privilegiada onde se desenvolve a luta de classes‖. Portanto, oquadro evidenciado na obra de Orwell demonstra as condições sociais que aindaincomodavam e que de certa forma ainda atemorizavam as pessoas nos primeiros anos após aGuerra. Em sua obra O mal-estar da pós-modernidade (1998) o sociólogo Zygmunt Baumanfaz um resgate das agressões e da negação da vida pessoal do indivíduo e, para estabeleceresta conexão, se utiliza de George Orwell e de 1984: O mais opressivo dos pesadelos que assombraram o nosso século, notório por seus horrores e terrores, por seus feitos sangrentos e tristes premonições, foi bem captado na memorável imagem de George Orwell da bota de cano alto pisando uma face humana. Nenhuma face estava segura – como cada uma estava sujeita a ser culpada do crime de violar ou transgredir. E uma vez que a humanidade tolera mal todo tempo de reclusão, os seres humanos que transgridem os limites se convertem em estranhos – cada um teve motivos para temer a bota de cano alto feita para pisar no pó a face do estranho, para espremer o estranho do humano e manter aqueles ainda não pisados, mas prestes a vir a sê-lo, longe do dano ilegal de cruzar as fronteiras. (BAUMAN, 1998, p. 27-28). Para concluir, vemos que, neste momento da História, cada autor recomporá estesocial de uma forma particular. Como já afirmamos, sabemos que Orwell estava a representaralgo através de sua escrita, trazendo sua análise para os leitores e que consegue transmitir-nostodo o terror que esse período do século XX promoveu para a humanidade. Assim, mais doque uma profecia, George Orwell com sua magnus opus faz um alerta lúcido e generoso,sobre o que sucederia se os totalitarismos conseguissem seu real anseio, a negação do privado,do particular. Ao nos transpormos para a realidade do livro, veremos que essa desvalorizaçãoinsidiosa do passado e do privado promoveu as condições para que todos vivessemalienadamente. Se nos voltarmos para nossa realidade concreta, identificamos que este é ummundo onde o silêncio é condição sine qua non para que o indivíduo não se veja a si mesmo,bem como não entenda o mistério que constitui a vida (Jahanbegloo, 2000, p. 28). Logo, essaliteratura desempenha papel preponderante, pois:
  18. 18. 17 Esses refúgios privados, as verdades subjetivas da literatura, conferem à verdade histórica, que é seu complemento, uma existência possível e uma função própria: resgatar uma parte importante – porém somente uma parte – da nossa memória: aquelas grandezas e misérias que compartilhamos com os demais, em nossa condição de entes gregários. Essa verdade histórica é indispensável e insubstituível para saber o que fomos e, talvez o que seremos como coletividade humana. O que somos como indivíduos e o que quisemos ser e não pudemos sê-lo de verdade, e devemos sê-lo, portanto, fantasiando e inventando – nossa história secreta -, somente a literatura sabe contá-lo. (VARGAS LLOSA, 2007, p. 26) Concomitantemente, nesse terrível universo a que George Orwell dá corpo através desua distopia, Orwell foi verdadeiro, oferecendo ao mundo uma narrativa mais abrangente eprofunda, mais humana do que qualquer esquema ideológico – de sinal positivo ou negativo –possa conceber. Essa obra representa a comprovação do quanto a literatura e a história sedesdobram juntas e de como esse quadro histórico foi visto pelos artistas do período, postoque, sabemos que a arte é o espelho social de uma época e que somente ela consegue mostrara representação de períodos que muitas vezes nem chegamos a presenciar. Melhor dizendo,dentro dessas verdades subjetivas como as que encontramos em 1984, estão incrustadas asverdades históricas necessárias às nossas reflexões. Por conseguinte, um dos primeiros tópicos que iremos abordar será com relação àtirania desempenhada pela razão a serviço do Partido, que é mostrada em 1984. Essa mesmarazão impõe o terror e todo o medo dentro dessa sociedade, fazendo com que as pessoas sejammeros joguetes a serviço do Partido, e estes, imersos na ideologia imposta através dessamesma razão, não conseguem tirar a venda dos olhos, condição que os cega.2. GOLDSTEIN, O PAROXISMO DA CONSCIÊNCIA A pior coisa que nós podemos dizer sobre uma obra de arte é sua insinceridade...A literatura moderna...é senão a verdadeira expressão do que o homem pensa e sente, ou não é nada. (ORWELL, 1970, apud BOUNDS, 2009, p. 87) 1 [tradução nossa]. Ao escolher a citação acima como epígrafe desse capítulo, desejamos enfatizar esustentar as inúmeras incursões discursivas que são utilizadas na literatura Orwelliana de ummodo geral e na obra 1984, em específico. Ao estabelecer essas inúmeras reflexões atravésdas alegorias ora utilizadas no livro, Orwell retrata aquele período de grande importância1 The worst thing we can say about a work of art is that it is insincere…Modern literature…is either the truthfulexpression of what one man thinks and feels, or it is nothing.
  19. 19. 18histórica pelas inúmeras mazelas sociais que ainda perduram, as quais, resultantes da guerra,deixaram marcas indeléveis. Por conseguinte, mesmo se estabelecermos uma visão de forma menos detalhada dolivro, se pode perceber essa sinceridade requerida e defendida na citação acima, como amostrados sentimentos verdadeiros com relação àquelas sociedades caricaturadas. Desse modo, destacamos aqui esse ponto, de grande importância que pode serobservado também dentro de uma personagem fundamental para a compreensão dessa obra.Goldstein, em seu guia teórico sobre como foram os processos que levaram aquela sociedadeaté o ponto em que estava, fornece muitas explicações às incontáveis conjeturas feitas porWinston. Esses dados, por assim dizer, alimentam a sede de transformação desejada pelopersonagem. É a partir das ideias de Goldstein, associado àquele desejo inconsciente deWinston de saber como se configurava a sociedade no passado, que a revolução (no campodas ideias) contra o Grande Irmão começa a tomar forma. Logo, pode-se dizer que a figura messiânica de Goldstein se apresenta através dospontos ideológicos que são defendidos na obra. O personagem aponta para o zênite danarrativa, onde mais uma vez ficção e realidade se abraçam e mostra o que os bolcheviques doGrande Irmão fizeram para que a revolução deles nunca fosse traída, e se consolidasse cadavez mais. Muito embora Winston saiba que a revolução não tem condições de se concretizarpelo fato de que a lavagem cerebral realizada se deu de forma muito intensa e profunda, pode-se perceber que Goldstein, existindo ou não, representa os ideais que são defendidos na obra.O livro proibido havia sido engendrado pelas mãos dos que sabiam realmente como fora oprocesso de construção daquele sistema e dos processos históricos que o levaram até aqueleponto. Podemos até ir mais além e afirmar que, em caso de Goldstein ser somente umainvencionice de afirmação da doutrina do Grande Irmão, possivelmente este ou quem oinventou, teria realmente feito parte daqueles que determinavam a estrutura ideológica doPartido. Assim, podemos, a grosso modo, caracterizar as imagens dos dois pólos da obra, nasfiguras de Goldstein e do Big Brother, aproximando-as do conceito convencional emaniqueísta de bem e mal existente nas nossas sociedades. Esses são construídos com essaimagem polarizada, a negação de um é a negação dos dois, a afirmação de um é afirmar ooutro. Logo, podemos concluir que, muito mais onipotente que o Grande Irmão, o Partidodesempenha o maior papel, ao determinar a construção de dois pólos nos quais sem aexistência de um, o outro não se afirma, podendo causar a ruína do sistema.
  20. 20. 19 A consciência coletiva e alienada nunca buscaria uma resposta efetiva para oentendimento da ideia de coletividade oligárquica. Portanto, Emmanuel Goldstein éfundamental para que o Partido continue sempre em voga, mesmo sabendo que é um granderisco deixar seu livro, suas ideias subversivas, fluírem de certo modo, mesmo que às escuras.2.1 A construção da sociedade através da luta de classes Ao nos debruçarmos sobre o livro de Goldstein, ―Teoria e Prática do ColetivismoOligárquico”, podemos ver que este faz uma análise minuciosa dos processos que levaram osistema político até chegar ao estado de controle tirano. Essa obra se revela como umverdadeiro tratado de ciência política, no qual se estabelecem detalhes minuciosos de comodesde os idos do final do período Neolítico, as três classes: a baixa, e principalmente a médiae a alta digladiaram-se pela ascensão ao topo da pirâmide. Em detalhes sucintos, porém nãomenos incisivos, mostra-se o que fora preciso observar para que se encontrasse a forma idealde eterna dominação de um determinado grupo, sem que de forma alguma, nada viesse acomprometer a ideologia vigente, congelando a história em um determinado período. Tem havido três classes no mundo, Alta, Média e Baixa. Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade. Mesmo depois de enormes comoções e transformações aparentemente irrevogáveis, o mesmo diagrama sempre se restabeleceu, da mesma forma que um giroscópio em movimento sempre volta ao equilíbrio, por mais que seja empurrado desse ou daquele lado. Os objetivos desses três grupos são inteiramente irreconciliáveis... (ORWELL, 1986, p. 133,134) Goldstein em sua teoria dá-nos a metáfora ideal de como as posições das castas sociaissempre volta para as mesmas posições. É justamente a diferença que discrimina uma classe daoutra e que é o combustível para que troquem continuamente suas posições. Essa mesma atmosfera é criada também em meio as potências mundiais dessanarrativa. Mantêm-se a atmosfera de constante ebulição entre uma e outra, como se estivessesempre por um triz, de se digladiarem. No entanto é essa linha tênue que dá o equilíbrio exatoàs potências. A ideia de guerra constante é que estabelece o equilíbrio na cabeça das pessoas. Conforme vemos nas palavras do teórico subversivo Goldstein: A guerra, contudo, não é mais a luta desesperada e aniquiladora que costumava ser nas primeiras décadas do século vinte. É uma luta de objetivos limitados entre combatentes incapazes de destruir um ao outro, sem causa material para guerrear e sem mesmo qualquer genuína divergência ideológica. Isto não significa que as
  21. 21. 20 operações de guerra, ou a atitude em relação a ela se tenham tornado mais cavalheiriscas ou menos sanguinárias. Ao contrário, a histeria guerreira é contínua e universal em todos os países, e atos tais como estupros, pilhagens, matança de crianças, e escravização de povoações inteiras, e represálias contra prisioneiros que chega a incluir a morte pela água fervente e o enterramento de seres vivos, são considerados normais e até meritórios, quando são cometidos pelos amigos, e não pelos inimigos. (ORWELL, 1986, p. 134,135) É esse clima belicoso que, releva os atos cometidos por este sistema. Constrói-se esseenredo de constante guerra, para que as mentes das pessoas estejam povoadas de fantasiasnacionalistas e assim, até os atos internos não terão resposta de indignação da sociedade.Tudo se justifica em prol da estabilidade do sistema como um todo. Por conseguinte, podemos estabelecer inúmeros paralelos pelo viés sociológico.Sabemos que, mesmo que aquele regime fosse intitulado de socialismo, tinha somente aroupagem de tal, pois no socialismo há a luta de classes e percebemos tão somente, duasclasses na Oceania: os bolcheviques do Grande Irmão e os proles, aqueles que, como iremosver na nossa caracterização sobre os mesmos, não eram submetidos às armas utilizadas pelopartido para coação completa, pois não era necessário. Podemos assim concluir que os proles, a esfera social que compunha a base, emnenhum momento tenta coibir ou sobrepujar a outra e vice e versa, como normalmenteacontece na existência de duas ou mais classes, ou que pelo menos isso não se dava de formaostensiva e voluntária. Dando continuidade, ao pensarmos essa sociedade da Oceania, podemos tomar oconceito de superestrutura e seu antagônico infraestrutura, e veremos essa sociedade bempróxima daquela a qual Althusser (2003, apud MUSSALIM, 2006, p. 123), contemporâneo deOrwell, mostra numa de suas obras, ao referir-se aos mecanismos de controle angariados pelasuperestrutura, que a ideologia se perpetua, produzindo condições materiais, ideológicas epolíticas de exploração e dentre esses mecanismos estão os de suma importância, que são osaparelhos ideológicos do Estado usados para controlar a infraestrutura, base da pirâmide,portanto, maior parte da população. Podemos ver nas palavras de Bounds, um dos estudiosos da obra Orwelliana, quedesde que os valores da sociedade são invariavelmente baseados nos valores do sistemaeconômico dominante, segue-se que a característica da vida cotidiana (...) será uma supressãobrutal das emoções. (BOUNDS, 2009, p. 87) 2 [tradução nossa].2 since a society‘s values are invariably based on those of the dominant economic system, it follows that themain characteristic of everyday life… will be a brutal suppression of emotion
  22. 22. 21 Ou seja, a supressão dessas emoções exercida pela tirania era vista constantemente naclasse que domina toda a Oceania em nossa narrativa. Logo, se pode afirmar que o Partidoseria a superestrutura, quem determinaria como as coisas funcionariam, e a infraestruturaseria composta por aqueles que ficavam aquém da sociedade dominante, à margem, os proles. Para os fins de nossas análises, não incluímos aqui os desertores, aqueles que, assimcomo Winston, pretendiam uma grande subversão, exclusivamente pelo fato de que essesmesmos pertenciam à superestrutura do Partido, àqueles que compunham a parte quedeterminava a ideologia, nos quais se enquadram: Winston, Jones, Aaronson, Rutherford,Goldstein, entre outros. Goldstein afirmava em sua narrativa teórica que ―a desigualdade é o preço dacivilização‖. Mas constatamos que, se nessa sociedade não havia a luta de classes, as coisasestavam em equilíbrio para os mesmos. Logo, supomos que algo de muito importante teriaque ser extinto. E que nesse caso fora escolhido a consciência das pessoas. O mecanismo queconsegue olhar para as coisas de forma crítica, capaz de reconhecer como invasivas asselvagerias, as incivilidades do sistema. Pode-se dizer assim, que não há a existência de classes propriamente ditas dentrodessa distopia, pelo fato de o Partido trabalhar de forma tão sistematizada associada aosmecanismos de coação, que as pessoas não sentiam o peso da hierarquia, presente emqualquer agrupamento humano. Não havia a questão de o status ser determinado pela suafunção, logo, os mesmos não se viam diferentes, impossibilitando assim qualquer possívelsubversão. Pode-se dizer, que mesmo tendo a fachada de socialismo, ao analisarmos de modomais teórico vemos que a luta de classes, que é divisor de águas no entendimento da noção doque vem a ser o socialismo, é praticamente inexistente. Sobre esse aspecto, encontramos nas palavras de teóricos do assunto, pontos de vistacientíficos muito veementes sobre a temática. No Manifesto do Partido Comunista Marx eEngels (1848, apud ARON, 2005, p. 50) têm a visão essencial para o entendimento do queestamos aqui tratando: A história de todas as sociedades, até hoje, tem sido a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, membro especializado das corporações e aprendiz, em suma: opressores e oprimidos estiveram em permanente oposição; travaram uma luta sem trégua, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre com a transformação revolucionária da sociedade inteira ou com o declínio conjunto das classes em conflito. (MARX, ENGELS, 1848, apud ARON, 2005, p. 50)
  23. 23. 22 Temos aí de forma sucinta o resumo de um dos principais pensamentos marxistassobre a história humana, a sempre existente polarização em dois grupos. Winston, através desuas tentativas trôpegas tenta não permitir o declínio por completo da maior parte dapopulação, a parte coadjuvante e subjugada, os proles. Muito pelo contrário, ele tenta acordá-los para que enxerguem que a ideologia não erainexpugnável, e que era necessário perceber essa oposição entre opressores e oprimidos,necessária à transformação revolucionária ou ao declínio das partes envolvidas. Ora, através do pensamento marxista pode-se compreender os processos que levaramaté chegar a esse lugar irreal negativo, o qual nos possibilita refletir sobre o que acontecequando esse conflito inexiste e uma classe é submetida perenemente à outra. As dissidênciasse dão sempre entre dois grupos, como no pensamento de Heráclito de Éfeso (535 a.C. - 475a.C.), o qual dizia que é da guerra que nasce a paz, como síntese dos contrários. Daremos pertinência maior a esse assunto a posteriori, porém, de forma superficial, sevê que o aforismo acima citado nos faz entender o porquê de eles incutirem na cabeçadaquelas pessoas a ideia da constante guerra. Só com essa atmosfera de guerra com outraspotências o equilíbrio seria onipresente, e assim subversões internas seriam quaseimpossíveis.2.2 Os mencheviques de Goldstein Em uma das faces antagônicas do sistema, encontra-se o personagem que serve decombustível para os momentos de exaltação das paixões populares: Emmanuel Goldstein,aquele que é tido como o inimigo número um do partido e que, assim como o Grande Irmão,não se sabe ao exato se realmente trata-se de uma pessoa física. No entanto, na alegoria que éretratada em nossa narrativa, podemos ver o quão real para os circunstantes da distopia afigura de Goldstein se apresentava. Por conseguinte, ao intitularmos esse tópico como ―os mencheviques de Goldstein‖,aludimos diretamente ao grupo de menor número que ajudou na construção da Revolução deOutubro de 1917, àqueles que compunham a camada mais baixa da população. Dentro danossa figuração, os proles, o cerne da transformação social almejada por Winston Smith.Enquadramos o próprio nesse grupo, bem como a Irmandade, que seria a suposta conspiraçãoexistente e encabeçada por Goldstein e mais alguns antigos membros do Partido. Foi através dessa mesma Irmandade que o nosso protagonista teve acesso às ideias domaior teórico contra o partido, através do livro ―Teoria e prática do coletivismo Oligárquico‖.
  24. 24. 23Da mesma forma, foi através das idéias dos mencheviques que se chegou à grande parte dasramificações partidárias que surgiu desde esse período até então. Sabemos que na Revolução Russa de 1917, os mencheviques eram tidos comoreacionários à maioria bolchevique e dominante, e ao sistema social implantado pelosmesmos. Consequentemente, isso culminava nas inúmeras perseguições de todos os tipos aosprimeiros e, mesmo sabendo que esses dissidentes estavam em minoria, o PartidoBolchevique tinha bastante medo de seu poder de coação e de uma possível deserção emmassa dos ideais bolcheviques. Ainda assim, vemos que, com relação ao equilíbrio desses dois sistemas, tanto dofictício quanto da realidade russa, há um contra-senso que é determinante no controle doscidadãos pois, como já dissemos, o partido dominante deixava que o grupo dissidenteexistisse para que houvesse o álibi para as torturas, o álibi para as perseguições, em outraspalavras, o medo era a fonte do equilíbrio daquela pseudo-felicidade. Vemos também na nossa distopia as inúmeras incursões da Polícia do Pensamento,que era o aparelho repressivo criado pela superestrutura daquele sistema e como, por algumtempo, o Partido precisava, mesmo não existindo, de alguém para ser o leitmotiv dasperseguições, por ele engendradas. Assim, inventava-se a culpabilidade, logo após, o encalço, e por fim, através do poderde coação, dava-se a aceitação do grande Irmão, como se pode ver claramente na nossanarrativa, com o que sucede com Winston, ao entrar no quarto de tortura, em um dosministérios responsáveis pelas funções do Partido, o tão temido Quarto 101. Para este localeram levados cativos todos aqueles que desacatavam o poderio de punho cerrado do GrandeIrmão, e lá era realizada a lavagem cerebral através dos medos das pessoas. Mais uma vez partindo do viés histórico em que a obra está mergulhada, corroborandoo que já afirmamos sobre as políticas do Grande Irmão, dentre estas o forjar, a alteração dosfatos acontecidos, recorremos às palavras do próprio Trotski, líder mencheviqueextremamente perseguido durante os anos em que, em nome da Revolução se instaurou umregime de terror e de mentira sem igual, numa de suas obras mais contundentes: Estes mitos e mentiras fazem parte integrante de um fenômeno – o stalinismo – que recebe o nome do homem que foi protagonista da viragem que se produziu no seio da Revolução Russa depois de 1923. Foi também Stálin quem fez dar – e por várias vezes – uma nova redação à história da Revolução, do Partido bolchevique e da Internacional Comunista. (TROTSKI, 1977, p. 9)
  25. 25. 24 Deste modo, é possível perceber a grande semelhança do que Trotski afirma sobre aRevolução de Outubro, com o que é visto em nossa narrativa no ofício do próprioprotagonista, Winston, o qual trabalha alterando o que fora a história, para darsustentabilidade ao que é pregado pelo Partido. Vemos assim que a história é o registro da condição humana nas suas váriaspossibilidades e que, sua alteração é um recurso fundamental para que se consolide o sistemasocial vigente. Podemos supor que um dos primeiros insights de consciência do nossorevolucionário possa ter se dado no momento em que ele vê a si mesmo imerso nesseprocesso fraudulento, alterando esses fatos históricos para situações cômodas ao partido.2.3 O Terror da razão humana em 1984 O pensador francês Michael Foucault, em obras como Vigiar e Punir e Microfísica doPoder, faz observações veementes sobre o controle do indivíduo através da tirania do poder.Assim, é possível enquadrar o contexto da obra em estudo nessa abordagem. Podemos ver ao longo da narrativa que há inúmeras técnicas de sujeição utilizadas poresse sistema. São elas que fazem com que se restrinja a liberdade individual humana e depoisconforme todos num padrão estético de comportamento fazendo com que conforme asindividualidades numa enorme eugenia. Sobre essa sujeição que os governos impõem ao serhumano através da tirania, Foucault afirma que: um novo objeto vai-se compondo e lentamente substituindo o corpo mecânico - o corpo composto de sólidos e comandado por movimentos, cuja imagem tanto povoara os sonhos dos que buscavam a perfeição disciplinar. Esse novo objeto e o corpo natural, portador de forcas e sede de algo durável; e o corpo suscetível de operações especificadas, que tem sua ordem, seu tempo, suas condições internas, seus elementos constituintes. O corpo, tornando-se alvo dos novos mecanismos do poder, oferece-se a novas formas de saber. Corpo do exercício mais que da física especulativa; corpo manipulado pela autoridade mais que atravessado pelos espíritos animais; corpo do treinamento útil e não da mecânica racional, mas no qual por essa mesma razão se anunciara um certo número de exigências de natureza e de limitações funcionais (FOUCAULT, 1999, p. 131) Os mecanismos de poder utilizados para essa moldagem são incontáveis e todosincidem primariamente na mente humana. E vê-se ao longo da análise que a aceitação daideologia do controle por parte desse povo da Oceania, é uma coisa tão presente e tão normalque eles confundem com um posicionamento racional. Desse modo, enquadra-se o indivíduo,nega-se a multiplicidade. Aceita-se o Grande Irmão.
  26. 26. 25 Assim, é possível perceber o quanto essa atmosfera de medo foi onipresente, tanto nanarrativa quanto no período em que ela está inserida e ainda, observar em nossos dias ecosdesse terror imposto pela razão humana, o poder pelo poder, o veto da liberdade. Conforme se vê na nossa estória, há organismos específicos, feitos para desenvolveresses mecanismos de controle, para que mesmo sem perceber o medo de sofrer as represáliasdos Ministérios, faça com que você lembre que todas as paredes têm olhos e ouvidos, e que oseu comportamento seja policiado por si próprio. Vemos nas palavras de Foucault ao falar sobre as instituições engendradas pelo tododa pirâmide social, a ratificação do que afirmamos: As instituições disciplinares produziram uma maquinaria de controle que funcionou como um microscópio do comportamento; as divisões tênues e analíticas por elas realizadas formaram, em torno dos homens, um aparelho de observação, de registro e de treinamento. Nessas maquinas de observar, como subdividir os olhares, como estabelecer entre eles escalas, comunicações? Como fazer para que, de sua multiplicidade calculada, resulte um poder homogêneo e contínuo? O aparelho disciplinar perfeito capacitaria um único olhar tudo ver permanentemente. Um ponto central seria ao mesmo tempo fonte de luz que iluminasse todas as coisas, e lugar de convergência para tudo o que deve ser sabido: olho perfeito a que nada escapa e centro em direção ao qual todos os olhares convergem. (FOUCAULT, 1999, p. 145) Isso faz com que mais uma vez pensemos como grande parte das instituições sociais seperpetuaram durante séculos através da política do medo. Lotando as cabeças incipientes como que poderia sobrevir se algum indivíduo se arriscasse a pisar fora da linha tênue quedemarca até onde vai o comportamento adequado. Ainda podemos fazer um gancho com um trecho da obra, onde mostra que Syme umdos funcionários mais dedicados do Partido Interno, órgão de grande veemência dentro dessesistema, fora apagado até das baixas dadas mensalmente, por passar dos limites com seufanatismo ideológico. Preso na falsa ideia de que tinha liberdade e que poderia sim, cada vezmais, dar demonstrações ostentosas de que estava fazendo sua parte ante o Grande Irmão, setornara uma impessoa. Pode-se ver que um fanático era um possível desertor. A sociedadetinha que ser expurgada também nesses casos. Tinha que ter um tipo de controle latente entreessas pessoas. Num de seus ensaios, o escritor brasileiro, Guido Guerra (2003, p. 215), ao explanarsobre como viria a ser o estado autoritário ao desestabilizar-se, faz grandes observações sobreas condições essenciais para exercer as humanidades sem o veto da idéia de tempo, e nosmostra que: ―A restauração da idéia do ir e vir reserva ao ser social a possibilidade de trocar o
  27. 27. 26pão racionado pelas incertezas do dia seguinte, com o desespero de quem junta a fome àvontade de comer‖. Isso ratifica o que o pensamento foucaultiano, em suas teorias a respeito da pós-modernidade, nos mostra. Vemos que o pleno poder só pode ser exercido através dasconcessões, da falsa liberdade, claramente visto na nossa distopia, pois, liberdade éescravidão, lema que é salmodiado a todo o momento em nossa figuração. Esse controle podeser feito de terríveis formas, através da banalização da violência, banalização da morte, entreoutras maneiras. Pode-se ter uma noção dessa banalização da morte, que é a culminância da tirania, nosdiálogos tecidos entre os personagens sobre o que vem a ser o conceito de ser uma impessoa eque, por mais paradoxal que o termo ―ser uma impessoa‖ possa parecer, o conceito eraassimilado por aquelas pessoas de forma natural. Analisando o conceito de cultura como recurso para entendermos a distopiaorwelliana, vemos que esta é criada a partir do exercício da repetição de algo e que, é esseexercício que faz com que as pessoas vejam algo repetitivo como algo normal. Dentro da nossa narrativa, vemos inúmeros exercícios de repetição sendo usados. Amorte, por exemplo, de tão presente na vida daqueles, chega a um nível banal. Ou seja, o medo é concebido de maneira extremamente natural por eles. Assim, aspessoas ficam enclausuradas no medo, pela estética que padroniza o "normal"; e por váriasoutras formas e teias que se articulam para aprisionar o homem dentro de sua própriaexistência. Na esteira desse pensamento, Foucault (1977, p. 321) afirma que: "Fabricam-seindivíduos submissos, e se constitui sobre eles um sabor em que se pode confiar". Empalavras sucintas, através desse exercício da repetição esses indivíduos são submetidos cadavez mais ao jugo do Partido. Aliás, vê-se que ao longo da história essa tirania desempenhada pelo medo é umrecurso que foi de muita valia tanto em sistemas sociais quanto religiosos. O medo é portapara que haja a aceitação e quem sabe, a posteriori, a assimilação do pretendido, em outraspalavras, sem esse recurso crucial a consolidação de qualquer sistema se daria de forma maisdificultosa, ou então nem se realizaria. A socióloga Hannah Arendt detalha cronologicamente os tantos aparatos de controlede que se valem os totalitarismos, dentre eles, nos mostra como é trabalhado o terror comomeio de coerção, e como estes agem dentro de uma sociedade vassala de um sistematotalitário:
  28. 28. 27 Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo; as massas têm de ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião, os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto e, como qualquer outro partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação. Nos países totalitários, a propaganda e o terror parecem ser duas faces da mesma moeda. Isso, porém, só é verdadeiro em parte. Quando o totalitarismo detém o controle absoluto, substitui a propaganda pela doutrinação e emprega a violência não mais para assustar o povo (o que só é feito nos estágios iniciais, quando ainda existe a oposição política), mas para dar realidade às suas doutrinas ideológicas e às suas mentiras utilitárias. (ARENDT, 1979, p. 390) Também é possível partir de um ponto de vista psicanalítico ao analisar 1984. Sobre aconvenção social de civilização, que se adapta às realidades individuais de cada sociedade,Freud (1996, p. 127) ratifica o acima citado e coloca que, a civilização, portanto, conseguedominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o eestabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidadeconquistada. Por conseguinte, vemos que a consolidação desse Socialismo Inglês por meio dessesorganismos de coerção, se dava de forma tão forte, que acabava resultando num processomecânico e arriscaria a afirmar que, quase consciente. Isso ratifica o que já fora supracitado, de que toda civilização tem um preço. O preçodo equilíbrio é sempre desempenhado por um mecanismo de controle. O preço que se pagapara sair da barbárie e entrar na civilidade exige que você se enquadre e de forma conscienteou inconsciente, aceite os dogmas éticos e morais, determinados por uma ideologia qualquer. Dando continuidade, engendradas ferramentas para mostrar que estava sendoobservado em qualquer lugar, o cidadão se autopoliciava, censurando seu própriocomportamento. Por fim, a idéia do exercício da repetição, para se perpetuar dogmas é bemsustentada por Althusser (1970, apud MUSSALIM, 2006, p. 110) que diz: A ideologia é bem um sistema de representações: mas estas representações não têm, na maior parte do tempo, nada a ver com a ―consciência‖: elas são na maior parte das vezes imagens, às vezes conceitos, mas é antes de tudo como estruturas que elas se impõem à maioria dos homens, sem passar por suas consciências. Assim, o clímax da cegueira mental por parte das pessoas da Oceania, se dava em duascerimônias: os Dois Minutos de Ódio, e mais ainda na Semana de Ódio, em que a imagempolarizada de Emmanuel Goldstein com sua voz balida era atacada com insultos e palavrões. No que diz respeito às políticas de controle desenvolvidas e desempenhadas por essesistema, podemos ver uma descrição quase ideal de como eram conduzidas tais cerimônias, e
  29. 29. 28de como, uma vez que já se encontravam com o poder estabelecido, o que era preciso fazerpara permanecerem. À medida que a sociedade se encontra socialmente sonhada, o sonho setorna necessário. O espetáculo é o sonho mau da sociedade moderna aprisionada, que sóexpressa afinal o seu desejo de dormir. O espetáculo é o guarda desse sono. (DEBORD, 1997,p. 19). O trecho serve-nos para comprovar de forma sistematizada o que se travava nessesespetáculos promovidos concomitantemente, uma vez que serviam tão somente para ajudartodos os lá inseridos a acreditar piamente no Grande Irmão e sua ideologia. Também nosremete à segunda parte do pão e circo romano. Desse modo, podemos visualizar o transe emque essas pessoas mergulhavam, mostrando a eficácia desses utensílios, trabalhando emconjunto com o propósito da razão do Partido. A razão exerce tirania, subtraindo aspossibilidades de dissidência. Cruzando mais uma vez a relação da ficção com a realidade, haja vista que a obraaqui dissecada promove por hora esses entrelaçamentos dentro da narrativa, podemos situaroutro ponto em nossa análise que é a semelhança dessa situação na distopia de Orwell, com aAlemanha nazista de Hitler. Este também se utilizava, além de artifícios retóricos, daexaltação das paixões populares, pela via de um lema que, assim como em nossa narrativa, erasalmodiado a todo o momento. Tratava-se do: “Deutschland Über Alles”, que era a primeiralinha da primeira estrofe da canção alemã Das Lied der Deutschen, que fora utilizada comohino de exortação à unidade alemã. Dessa maneira, esse trecho constituía o slogan da verdadeira propaganda nazista deexaltação à supremacia da raça ariana sobre o mundo, pregada por Hitler em seu regime.Destaca-se também a respeito das incursões retóricas de Hitler, que este entrava em umsuposto estágio de transe em que os ouvintes também mergulhavam, como se houvesse aindapor trás dele um ente superior, regente de todo aquele cerimonial. O ponto chave da nossa comparação aqui são os aparatos de coerção eprincipalmente a propaganda desempenhada por estes regimes totalitários. Tanto o sistema emquestão dentro de nossa narrativa como o regime de Hitler, se utilizavam praticamente dosmesmos recursos repressivos para perpetuar sua ideologia e cercear as liberdades, primeiro noplano individual, que era o medo sendo trabalhado na cabeça de cada uma daquelas pessoas edepois esse trabalho refletia num público maior, que seria o coletivo, através principalmenteda propaganda ovacionista. Uma mentira que era dita inúmeras vezes se tornava verdade e aassimilação do medo como uma coisa típica de um governo era grandemente tragável porparte dos governados.
  30. 30. 293. O PODER VIRTUAL: A ANULAÇÃO DA MEMÓRIA Conforme nossos estudos, foi possível notarmos que, entre as manifestaçõestotalitárias, a pluralidade de pensamento é um misto de passado e presente, tradição emodernidade e esta pluralidade é vetada, dando lugar ao pensamento individual compostosomente de tempo presente, indispensável na consolidação destes sistemas. Logo, podemosdizer que o passado é a matéria viva do presente e que, para entendermos esse poder virtualcomo anulação da memória devemos sempre considerar o fator tempo. Thomas Mann, (2006, p, 67-68) romancista contundente que também abordou sobre osanos que se sucederam após uma grande guerra, a de 1914, pra ser exato, coloca que, quandoum dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a maislonga vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábitorepresenta a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo. O que se vê em nossa narrativa que tem uma ligação grande com o que elucidamosacima, é que se procurava matar esse tempo através do exercício da repetição. Transformava-se toda atividade em coisas habituais, que até mesmo a mente fazia suas abstrações de formamaquinal. Como não se tinha consciência da passagem desse elemento tempo de grandeimportância para possíveis mudanças no futuro, todo cidadão nada mais era que uma organelaentrelaçada a outras, compondo o todo indivisível. Nessa temporalidade se remonta à memória de um povo como em camadas. Umasociedade sem história torna-se trôpega. As possíveis tentativas de recuperação de sua estima,para uma possível revolta, se dá principalmente através do conhecimento das suas memóriasguerreiras, que conseqüentemente servirão de paradigmas a serem seguidos. Acerca da tradição e temporalidade, T. S. Elliot (1975, p. 37) lido e apreciado porOrwell, afirma que a sua compreensão ―envolve um senso histórico, e o senso históricoenvolve uma percepção, não somente da passagem do passado, mas sua presença 3‖ [traduçãonossa]. Presença essa que, no texto, o Partido procura o tempo todo apagar por completo. Assim, sabemos que, na memória, faculdade de reter impressões e conhecimentosadquiridos, e de recuperá-los pela ação da vontade, está contida a existência humana em todasas suas várias possibilidades e que, devido a ela, nós seres humanos nos tornamos mesmo semsermos eternos, seres indeléveis, melhor dizendo, é na memória que se inscreve nossa história,é nela que nossas ações humanas inscrevem-se na atemporalidade.3 It involves (…) the historical sense (…) and the historical sense involves a perception, not only of the pastnessof the past, but of its presence.
  31. 31. 30 Na narrativa, podemos compreender melhor essa informação quando o protagonistadecide escrever um diário para o futuro. Daí, do ato de registrar seu presente para que alguémpossa entender o que se passa em seu tempo, parte seu propósito de se rebelar contra esseregime. Nesse ínterim, enquanto escreve seu diário, uma das importantes chaves decompreensão dessa narrativa são as armas utilizadas como tentativa de supressão da memória. Ao nos defrontarmos inicialmente com a obra 1984, a primeira coisa que nos saltaaos olhos é a temporalidade, não só pelo título datado, 1984, mas pelo fato de encontrarmosalguém que busca vestígios de sua memória coletiva. Sabemos que esse poder, figurado noGrande Irmão, busca incontestavelmente a anulação da memória de um tempo em que havialiberdade, âncora da consciência de Winston Smith. Conforme Borges (2007, p. 55-56),vemos que: A memória, por sua vez, está ligada ao afeto. Talvez possamos dizer que memorizamos apenas o que nos afeta, em maior ou menor grau. Talvez possamos ir mais longe e afirmar que memorizamos mais nitidamente quanto mais intenso for o afeto. Se isto for correto, para que as pessoas percam a faculdade de produzir uma memória e assim fiquem mais facilmente à mercê dos mecanismos de submissão, torna-se necessário impedir que elas se toquem ou pelo menos que não se afaguem, mesmo que este afago seja um aperto de mão... Em outras palavras: é preciso formar soldados e não cidadãos, pois a função do soldado é negar o outro, eliminá-lo; ―matar ou morrer‖. Ou então que uma intensidade limite produza a necessidade de esquecer. Ser forçado a agir contra a sua própria natureza. É preciso que a tortura, a dor e a humilhação venham junto a palavras de ordem. (BORGES, p. 55-56) Assim, a raiz etimológica da palavra latina memória significa ―preservação deexperiência passada‖, um processo consciente que, de forma deliberada, convoca os fatos aserem registrados. Em outras palavras, processo consciente que remete à liberdade. Essamesma liberdade, de forma intensa, o Partido tentava subverter através de mais algumasoutras armas que, somadas, dão grande parte do aparato desse sistema opressor. Analisando o conceito de memória, por esse viés etimológico, o qual, por sua vez,está presente em vários campos do saber e ações do homem, percebemos que esta seria acapacidade de o ser humano retomar o passado através de divagações sobre impressões evivências passadas. Também confirma esse pensamento Le Goff (2003, apud OLIVEIRA,2008, p. 10): ―A memória é um comportamento narrativo que tem em seu cerne a funçãosocial de comunicar a outras pessoas informações e impressões ocorridas no passado as quaisnão estão no presente na sua forma original.‖ Logo, percebemos quando exploramos com mais afinco os recursos utilizados pelopartido para anulação dessa memória, que provavelmente havia uma consciência por parte doslíderes de que ―os fenômenos da memória nos seus aspectos biológicos como nos
  32. 32. 31psicológicos, mais não são que os resultados de sistemas dinâmicos de organização e apenasexistem na medida em que a organização os mantém ou os reconstitui‖. (LE GOFF, 2003,apud OLIVEIRA, 2008, p. 10). Desse modo, podemos afirmar que é nesse ponto que atacam as tiranias: se essaorganização que constitui a memória for ameaçada, a memória ancestral, as camadas quecompõe o tecido histórico, nunca poderá ser reconstituída. Winston busca sua memóriaquando, por exemplo, vaga pelos subúrbios, onde existem as vivendas dos proles, faz comprasde resquícios do passado no antiquário, ou em sua quase certeza de que as coisas um dia nãotinham sido daquela forma, certeza essa que latente, o deixava absorto em seus pensamentos. Assim, se conjecturarmos que Winston chegasse a ter comprovação dessa realidadepassada que o visitava de quando em vez, seria o input perfeito para que ele realizasse arevolução no campo das ideias pretendidas, pois sua memória não conseguia sistematizar deforma organizada essas divagações, que seriam a pedra fundamental da preservação damemória, e que, como sabemos, é justamente nela que o Partido incidia com o intuito desubvertê-las quando levava seus cativos revoltosos para o quarto 101. Essa supressão era requerida pelo fato de que de alguma forma essa lembranças quepor ora Winston buscava, ainda que vagas, como imagens da mãe e da irmã, as cançõesinfantis, souvenires comprados no antiquário, entre outras coisas, podiam levar ao processo derecuperação dessa consciência do que fora o passado buscado pelo protagonista. Esseprocesso era visto por Winston de forma intensa na figura dos proles, os mesmos que eramalimentados de panis et circenses, com músicas vazias de sentido, loterias de prêmiosutópicos, pornografia barata, entre outras coisas. E ainda que Winston visse as colunas dessa revolução nas figuras dos proles, issopassava despercebido por eles próprios. Os futuros protagonistas da pretendida revolução, emnenhum momento sentiam a necessidade de alteração da situação, eles possuíam poucainstrução, e sabemos que quanto menor a informação, menor o questionamento. Estratégiaessa que sabemos ser muito utilizada pelos mantenedores do poder da atualidade. Instruindoas camadas da base da pirâmide social estariam fornecendo um paiol de armamentos contraaqueles, colocando em risco a situação do poderio. Isso faz-nos perceber que a ficção não ficaaquém da nossa realidade, que está bem mais próxima do que possamos pensar, ou seja,ficção e realidade são um híbrido essencial para o entendimento da nossa condição humana. Com o fio na mesma meada, podemos nos questionar também do porquê de os prolesnão oferecerem risco de revelia quase alguma ao Partido. Winston deixa bem claro em suasbuscas, em visitas frequentes ao local onde os proles residiam, entender o porquê de eles não
  33. 33. 32possuírem reminiscência alguma do passado. O escopo da busca de Winston, como apontanossa leitura, mostrava que, se alguma esperança havia, tinha que residir nos proles, pois sódeles, desse imenso e desprezado formigueiro, 85% da população de Oceania, podia algumavez brotar a força para destruir o Partido (ORWELL, 1986, p. 161). Desse modo, a manutenção da situação era instaurada pela subtração daquilo queWinston começou a buscar nesses desprezados pardieiros, mesmo sabendo que, no fundo, arevolução que ele poderia instigar a acontecer seria tão somente no campo das ideias, e queteria que trabalhar a consciência da população quase que por inteiro. Ora, essa seria umatarefa quase que impossível. Mesmo o Partido, com todas as suas estratagemas bemelaborados para controlar a população, não conseguiria esse feito com cem por cento de êxito. Dando prosseguimento, podemos mais uma vez fazer analogia ao período ditatorialem que essa narrativa está inserida, mesclando realidade e ficção. Pois, à medida que nosaprofundamos na literatura, enxergamos cada vez mais que todo escritor de ficção é ummemoralista. Às vezes, memória e ficção se entrelaçam fazendo com que se dificulte saberdefinir o que é ficção do que é memória. Em incursões discursivas ficcionais sempre ficamresquícios de algum fato vivenciado pelo autor da obra, haja vista que a literatura dá liberdadede construir essas costuras, de forma consciente ou inconsciente. Ainda, identificamos que realidade e ficção são siamesas na eterna busca dedescortinar a vida, ambas são um amálgama inegável na construção da memória dahumanidade. No que diz respeito à manutenção do poder através da tirania da razão sobre a mentehumana, invólucro dessa memória, podemos ponderar que: a coisa que mais claramente distinguiu a Rússia de Stalin ou a Alemanha de Hitler de regimes autoritários anteriores foi a habilidade deles de invadir a vida interior das pessoas que eles governavam. Ao invés de compelir obediência através do uso da força (embora isto fora obviamente importante) eles exerceram um tipo de controle mental que fez isso quase literalmente impossível para qualquer pessoa questionar a ideologia oficial. (BOUNDS, 2009, p. 35). 4 [tradução nossa] Hannah Arendt, ao analisar os totalitarismos e seus estratagemas de controle, fazobservações contundentes, os quais nortearão nosso rumo de investigação, estabelecendoassim, paralelos entre o período em que 1984 está imersa e a obra propriamente dita. Dentre4 The thing which most obviously distinguished Stalin‘s Russia or Hitler‘s Germany from earlier authoritarianregimes was their ability to invade the inner lives of the people they governed. Instead of compelling obediencethrough the threat of force (though this was obviously important) they exercised the sort of mind control whichmade it almost literally impossible for anyone to question the official ideology.
  34. 34. 33eles um dos que são usados deliberadamente em nossa distopia, ao qual ela dá a nomenclaturade ―culpa por associação‖, é conceituado da seguinte forma: A "culpa por associação" é uma invenção engenhosa e simples; Jogo que um homem é acusado e os seus antigos amigos se transformam nos mais amargos inimigos: para salvar a própria pele, prestam informações e acorrem com denúncias que "corroboram" provas inexistentes, a única maneira que encontram de demonstrarem a sua própria fidelidade. Em seguida, tentam provar que a sua amizade com o acusado nada mais era que um meio de espioná-lo e delatá-lo como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou "fascista‖. Uma vez que o mérito é "julgado pelo número de denúncias apresentadas contra os camaradas", é óbvio que a mais elementar cautela exige que se evitem, se possível, todos os contatos íntimos — não para evitar que outros descubram os pensamentos secretos, mas para eliminar, em caso quase certo de problemas futuros, a presença daqueles que sejam obrigados, pelo perigo da própria vida, à necessidade de arruinar a de outrem. Em última análise, foi através do desenvolvimento desse artifício, até os seus máximos e mais fantásticos extremos, que os governantes bolchevistas conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada como nunca se viu antes, e a qual nenhum evento ou catástrofe poderiam por si só ter suscitado. (ARENDT, 1979, p. 356). Essa culpa por associação é identificada por ora na nossa distopia, como por exemplo,as crianças que delatam os pais ao Partido. Os quais, mesmo sujeitos à represália pela delação,se orgulham das crianças estarem desempenhando seu papel para com o Partido. Colocandomais uma vez o Partido acima de qualquer forma de relação humana. Outro exemplo é o da companheira de Winston. A impressão que se tem é que Juliafora criada para delatar Winston. Pode-se perceber que essa culpa por associação foraengendrada justamente para apagar a humanidade daqueles cidadãos da Oceania, paradesfazer os laços tanto familiares quanto de amizade existentes, haja vista que não seriapossível um delatar o outro, caso existissem quaisquer vínculos. Assim, podemos ver que, vetando toda e qualquer atividade autônoma, o totalitarismo,toma corpo cada vez mais. Essa culpa por associação culmina com a coisificação das pessoas,o que Arendt chama de atomização, ação que, além de ser percebida em nossa narrativa deforma contundente, se deu em um grau muito acentuado também na Rússia de Stálin, entreoutros sistemas totalitários. Essa atomização seria, a grosso modo, como se cada indivíduodependesse do outro para existir, como se eles não passassem de células ou átomos isolados àmercê de outras células. Sua funcionalidade só existiria enquanto existisse o coletivo, o todo,do contrário, seria inconcebível outro comportamento dentro desses sistemas.
  35. 35. 343.1 Manutenção da situação por subtração Ao passo que nos aprofundamos na narrativa de George Orwell, podemos afirmar quea revolução realizada pelo partido, até se instaurar o poder do Grande Irmão, se deu de formasistemática, ou melhor, a razão desempenhou um papel tirânico na consolidação do poder. Ahistória parou, nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre razão(ORWELL, 1986, p. 113). Vê-se assim que o propósito principal desse sistema é colocar namente humana a concepção das coisas sem a ideia de início, meio e fim, o que, diga-se depassagem, fora conseguido. A idéia do durante, do enquanto, do agora, é a que prevalecesobre todas as coisas. Acrescenta-se a isso o duplipensar, a que Orwell dá a seguintedefinição: Duplipensar significa a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas(…) O processo tem de ser consciente, ou não seria realizado com a precisão suficiente, mas também deve ser inconsciente, ou provocaria uma sensação de falsidade e, portanto, de culpa. (ORWELL, 1986, p. 157) À medida que o entendimento nos chega de forma sutil na leitura de 1984,identificamos que a narrativa extrapola a realidade por ser pejada de duplipensares. Como porexemplo, o próprio entendimento do duplipensar que também é uma forma de conviver comcrenças diametralmente opostas, que, trocando em miúdos, é um duplipensar, e ele continua: O duplipensar é a pedra basilar do Ingsoc, já que a ação do Partido é usar a fraude consciente ao mesmo tempo em que conserva a firmeza do propósito que acompanha a honestidade completa. Dizer mentiras deliberadas e nelas acreditar piamente, esquecer qualquer fato que se haja tornado inconveniente, e depois, quando de novo se tornar preciso, arrancá-lo do olvido o tempo suficiente à sua utilidade, negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo perceber a realidade que se nega – tudo isso é indispensável. (...) Pois o segredo do mando consiste em combinar a crença na nossa própria infalibilidade com a capacidade de aprender com os erros anteriores. (ORWELL, 1986, p. 157-158). Devemos também observar o fato de que, além de toda essa nostalgia que Winstonnem tem comprovação ser onipresente, associa-se o fato de ele trabalhar nesse próprioprocesso fraudulento. Desse modo, podemos dizer que, o duplipensar é a subtração doconceito convencional das palavras possuírem um só sentido ou quando não, possuindo maisde um, tocarem-se sem divergirem. Em outras palavras, seria aceitar dois sentidos numamesma palavra, mesmo sendo sentidos antagônicos, e acreditar em ambos de formaconsciente.
  36. 36. 35 A outra arma que desempenha um papel importante nessa consolidação do poder é anovilíngua, que podemos entender nas palavras claras de Syme, um dos vassalos do Partido: - Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama de pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. (ORWELL, 1986, p. 38) Agindo assim, todos os conceitos suscetíveis a questionamentos são vetados pelopartido e a Novilíngua se revela como mais uma das incontáveis armas de limitação daspossibilidades da condição humana. Identificamos, então, que o processo de subtração toma corpo mais uma vez, a partirdo momento em que são vetadas inúmeras palavras, ou seja, se não há definição paradeterminada coisa, não há nela sentido, bem como a construção duma imagem negativa deEmmanuel Goldstein, que, assim, acaba por ser esfacelada, fazendo desaparecer apossibilidade de uma imagem positiva. Trazendo a ação de vetar palavras da língua como realizado pelo Partido na Oceania,Orwell em Política e a Língua Inglesa traz-nos algo interessante: O grande inimigo da linguagem é a insinceridade. Quando há um hiato entre os nossos verdadeiros objetivos e os objetivos declarados, voltamo-nos como que instintivamente para as palavras longas e para as expressões gastas, como um choco a largar tinta. (...) Se simplificarmos a língua, libertamo-nos das piores tolices da ortodoxia. Não seremos capazes de falar dialetos necessários, e quando fizermos um comentário estúpido a sua estupidez será óbvia, até para nós próprios. A linguagem política – e com algumas variações isto aplica-se a todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas – foi concebida para fazer as mentiras parecer verdades e o assassino respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento. (ORWELL, 2009, p. 1). Desta maneira, em mais uma das razões fundamentais para manutenção da situaçãoque era a Novilíngua, vemos o quanto a palavra representa o direito de ter um caminho etambém negá-lo, o que nos diz como o IngSoc agiu nos pontos fundamentais para realizaçãodesse controle. Podemos afirmar também que o paroxismo da negação do indivíduo se dá a partir domomento que o ser humano, na condição de oprimido, não tem como se afirmar, contra essaideologia em evidência. Sobre o conceito de ideologia e linguagem podemos ver pelo viés daanálise do discurso, que ―a linguagem se apresenta como o lugar privilegiado em que a
  37. 37. 36ideologia se materializa. A linguagem se coloca para Althusser como uma via por meio daqual se pode depreender o funcionamento da ideologia.‖ (MUSSALIM, 2006, p. 104) Portanto, a afirmação do eu é um processo que se realiza através da enunciação, dalinguagem. Desse modo, o processo de abstração para a compreensão do funcionamento daideologia ficava enormemente impossibilitado pela limitação da língua, manipulada pelopoder político vigente. Assim, podemos ver que em toda essa atmosfera de subtração reside nessemecanismo de controle do Partido. Ao estabelecermos um paralelo com algo mais próximo danossa realidade, observamos: É óbvio que isso nos remete ao caráter revolucionário do patoá, da gíria, dos dialetos, que exprimem as condições materiais reais dos grupos nos quais são produzidos, mesmo sob condições de repressão, expondo os problemas, os movimentos e as práticas, pela incessante renovação dos termos, respondendo diretamente ao devir criativo das ações concretas que se efetuam no grupo. Além do mais, o caráter codificado da linguagem mantém o sigilo, o ocultamento necessário a qualquer forma de resistência, restringindo a eficácia da mensagem àqueles que detêm o sentido das palavras. Isto mantém o opressor sempre um passo atrás, vendo-se obrigado a forjar meios que levem à descoberta dos segredos daquele linguajar (problema da manutenção do segredo e da necessidade de renovação constante dos termos e do seu sentido e cuidado com o risco da traição ou da infiltração do inimigo, para a minoria em posição de resistência). (BORGES, 2007, p. 55) Por fim, não existindo essas reduções na Novilíngua, seria quase impossível que,aqueles que estavam imersos nessa situação por tanto tempo, cometessem algum tipo desubversão contra o partido. Então, o partido, ao invés de forjar meios para descobrir o que sepassava na cabeça das massas, possuía pessoas específicas para destruírem algumas palavrasque, no ponto de vista de um dos teóricos mais importantes do partido, Syme, eram tidascomo desnecessárias. Podemos depreender da nossa parábola, que exercer a linguagem seja em qualquersentido e de qualquer forma, é uma atividade subversiva, por ser uma atividade baseada naautonomia do indivíduo. A eficácia da mensagem se restringe a pouca variedade de palavraspara expressar alguma coisa. Na Oceania, com frequência aconteciam às reformasortográficas e cada vez mais, a dificuldade de definição das palavras se tornava maior, emoutras palavras, dificultando-se a definição, os sentidos, dificultava-se o pensamento. Logo, o risco de traição era praticamente nulo, pelo fato de essa tática ser usada commais outras de mesmo tipo, como o duplipensar, o trabalho do medo na consciência daspessoas entre outras coisas. Os quais mostram a mão de ferro a que eram submetidos os

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