PAUTA DE ENTREVISTA COM ANTONIO FERNANDO NAVARROP = Quem sofre mais com os riscos ambientais: as classes mais altas ou as ...
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P = Ainda em outra pesquisa citada no trabalho, os moradores do bairro Jardim Sofia, em Joinville(SC) afirmam não achar qu...
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R = Ainda são as indústrias químicas e petroquímicas os grandes vilões da poluição. Elas têminvestido bilhões na moderniza...
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Pauta de entrevista com antonio navarro e monica lopes gonçalves

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Pauta de entrevista com antonio navarro e monica lopes gonçalves

  1. 1. PAUTA DE ENTREVISTA COM ANTONIO FERNANDO NAVARROP = Quem sofre mais com os riscos ambientais: as classes mais altas ou as mais baixas? Porque?R = As classes menos favorecidas sofrem mais porque o impacto financeiro sobre elas éinegavelmente maior, quando atingidas por tragédias.Assistimos pela televisão, famílias que perdem tudo com o transbordamento de um rio ou canal,pois suas moradias estavam ao alcance das águas transbordadas. Quase sempre os atingidospertencem às classes sociais menos favorecidas.O porquê dessa questão deve ser remetido ao poder público, em primeiro lugar, que permite, pelaomissão da fiscalização, o assentamento urbano em áreas facilmente colapsáveis por algumfenômeno da natureza.Normalmente as pessoas têm conhecimento e percepção dos riscos quando edificam um barracoà beira de uma encosta ou posicionam suas casas na beira de um canal. Os relatos das tragédiaschegam aos seus ouvidos antes mesmo de que concluam a construção.Então, por quê fazem isso, ou seja, por quê gastam os seus minguados recursos nessasconstruções? Será um processo sadomasoquista?Cremos que não. Trata-se de ficar próximo aos seus, de ficar próximo a um local de onde possamtirar o sustento, de um local onde gastem menos com a condução. Será que para elas é bom ficarno alto de um morro e ter que subir quatrocentos degraus todos os dias para chegar em casa? Élógico que não. Mas naquele local, provavelmente nasceu a mãe, a avó e a bisavó, ou lá tiveramseus filhos. Há, nessas condições, o vínculo afetivo com o local.Mas ainda resta a questão do Por Quê? A resposta talvez esteja no fato de que acreditam quepossam sobreviver às tragédias e que juntos, conseguirão se soerguer.P = E qual dessas classes tem uma melhor percepção dos riscos?R = Em nossas pesquisas de campo verificamos que todos, de certa maneira, têm claramente apercepção dos riscos a que estão sujeitos.Costumamos dizer em nossas aulas que a percepção é um dos últimos estágios de um processoque se inicia com a visão da coisa em si. O segundo passo é o da observação. Do olharperscrutativo. A terceira etapa envolve a identificação. Essa capacidade só se tem quando seacumula conhecimentos. A última etapa desse processo é o da percepção, onde a intuição é umfator importante. A mídia jorra notícias ruins quase sempre, divulgadas nos telejornais ou nasbanca de revistas. Assim, a informação chega a todos igualitariamente.P = Perceber os riscos implica em trabalhar para mitigá-los, ou uma coisa não estánecessariamente ligada à outra? 1
  2. 2. R = Uma coisa não está necessariamente relacionada à outra. A mitigação faz parte de umprocesso de prevenção. Quando não se quer ter perdas pensa-se na prevenção. Em algunsmomentos percebem-se os riscos, mas imagina-se que eles não o afetarão. Talvez por isso aprevenção não seja adequada ou correta.Aquele que constrói uma belíssima casa na beira de uma represa e, num período de fortes chuvasperde tudo, e aquele que constrói um casebre na beira do canal e também o perde em uma chuvaforte, têm perdas da mesma maneira. O sentimento da perda é o mesmo, guardadas as devidasproporções.P = Em seu artigo, os senhores citam a crescente conscientização da população portuguesa emrelação à preservação do meio ambiente. Quais são as principais diferenças entre a percepçãodos riscos ambientais e as medidas de preservação adotadas lá e cá?R = A questão do cuidado com o Meio Ambiente está bem mais viva na Europa do que no Brasil.O fato das fronteiras lá estarem mais próximas umas das outras e da população ser maior,associado à questão de ocorrência de acidentes ambientais maiores, provocou um repensar maisrápido voltado à preservação.No Brasil os crimes ambientais, quando detectados, ainda levam certo tempo para seremdivulgados. Aqui os acidentes ambientais não trazem consigo grande número de vítimas. Asindenizações não são vultosas, quando ocorrem.Talvez a questão dissonante esteja apoiada à transgressão da lei impunemente.Na Europa, em 1972 a preocupação com a questão ambiental já era tanta que ocorreu aConferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente para discipliná-la. A Conferência ocorreu naSuécia para discutir questões relacionadas com o meio ambiente no mundo. Contou com aparticipação de mais de 100 países e 400 ONGs. Passando a ser um marco da modernaformulação da questão do meio ambiente global, como objeto de políticas públicas, resultando daía criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA.P = Em terras portuguesas, a questão do meio ambiente se tornou mais visível devido àprogressiva degradação das condições ambientais? A situação em Portugal é pior que no Brasil?R = A Europa já tinha perdido metade de sua cobertura vegetal na época da descoberta do Brasil.O Brasil perdeu mais de 2 milhões de quilômetros quadrados de mata primária nos últimos 50anos. Isso corresponde a quase a metade da Europa.A questão ambiental na Europa está muito forte hoje, basta ver o quanto se tem investido nadespoluição de rios tidos como mortos, como o Tâmisa ou o Sena.Portugal tem uma área de um pouco mais do dobro da área do estado do Rio de Janeiro. Apopulação é de aproximadamente 70% da população do Rio. Tem o turismo como uma fonte derenda muito expressiva e, para isso, precisa ter, na questão ambiental e na preservação do meioambiente alicerces bons. 2
  3. 3. P = Ainda em outra pesquisa citada no trabalho, os moradores do bairro Jardim Sofia, em Joinville(SC) afirmam não achar que os órgãos públicos preocupam-se com sua segurança. Ajudar apopulação a prevenir-se contra os riscos não seria uma forma de demonstrar preocupação com asua segurança?R = Naquele contexto da pesquisa, a preocupação referida pelos moradores não era uma simplesajuda material momentânea, mas sim ações efetivas que pudessem evitar novas tragédias, já quemuitos tiveram suas casas sob uma lâmina de água de pelo menos 2 metros várias vezes. E nadafoi feito para evitar a repetição daquelas tragédias.A preocupação dos órgãos públicos deve ser bem mais do que uma ajuda eventual. Se apopulação mora na beira de um rio ou canal, e não há possibilidade de realocá-las para pontosmais seguros, devem ser postas em prática ações que envolvam a proteção da calha do rio,ações de saneamento, de rebaixamento do leito do rio, e outras mais. Dizer que o pobre joga osofá velho no rio para livrar-se dele é fácil. Disponibilizar meios de recolhimento dos sofás ougeladeiras velhas das ruas é bem mais difícil. Em Curitiba há o caminhão do “lixo que não é lixo”,recolhendo essas coisas e as reaproveitando. Em Joinville há cooperativas que utilizam navarrição das ruas vassouras feitas com os filetes de garrafas PET. As garrafas, nesses casos, sãocoletadas e aproveitadas antes que caiam em algum bueiro. Se não se quer que a populaçãojogue nada nos rios deve-se disponibilizar coletores e cobrar, das associações de moradores, odepósito no local, comprometendo-se com o recolhimento deles todas as vezes em que estiveremcheios.P = Além de ter noção dos riscos que correm, essas pessoas tinham conhecimento sobre como oseguro poderia ajudá-las a se recuperar dos prejuízos ligados ao meio ambiente?R = Quando você tem uma população de baixa renda, com pelo menos 6 pessoas em casa, ondequem contribui mais recebe dois salários por mês, fica difícil falar-se em seguro que acoberte osdanos da natureza, já que a prioridade deles é o pagamento da luz e do gás e da comida paratodos.Já houve cidades no Rio Grande do Sul onde a Prefeitura disponibilizou uma cobertura deseguros junto ao pagamento do IPTU, dando garantia contra vendavais, evento mais comumnaquela região. Sob essas circunstâncias, a do mutualismo, a condições securitárias passam aser mais interessantes a todos e não há uma seleção específica de riscos.P = Ultimamente vemos muitas seguradoras empreendendo ações de cunho sócio-ambiental. Oque acham do desenvolvimento de projetos como esses voltados também à população de baixarenda? 3
  4. 4. R = Vemos com bons olhos todas as ações que tragam para essa classe benefícios anteriormenterestritos a poucos. A dita população de baixa renda tem um dos menores índices de inadimplênciae já fazem parte de um mercado comprador expressivo.As seguradoras, enquanto empresas, também devem ter a obrigação de engajar-se nas políticasambientais.P = A pesquisa revela ainda que as mulheres têm uma percepção de risco um pouco maior que oshomens, talvez pelo instinto de proteção da família. O seguro deveria se voltar um pouco mais aopúblico feminino?R = Com certeza. No início da década de 80% algumas seguradoras desenvolveram apólices deseguro de automóveis com condições mais vantajosas para as mulheres. Hoje, pelas estatísticassabe-se que as mulheres se envolvem menos nos acidentes.As mulheres já ultrapassam os homens, em algumas regiões na questão da empregabilidade.Assim, deve ser natural que as empresas de seguros percebam essa mudança e aproveitem aocasião.P = Além de enchentes e secas, quais são os outros riscos ambientais mais comuns aos quais apopulação está sujeita?R = Pela extensão geográfica de nosso país são muitos os eventos da natureza que podem atingira população. Alguns fenômenos até bem pouco tempo eram inimagináveis, pela maioria dapopulação, como por exemplo, os terremotos. Há os ciclones e trombas d”água, vendavais,alagamentos e inundações, e outros.P = Com relação às indústrias, elas já possuem uma percepção dos riscos ambientais maisaprofundada que a população em geral? A quais riscos elas estão mais propensas?R = Até mesmo em função das exigências dos organismos certificadores e dos clientes asindústrias estão bem mais estruturadas para a percepção dos riscos e a aplicação de medidasmitigadoras. Os investimentos na modernização dos parques industriais são bem grandes.Em meados da década de oitenta, portanto, há quase 25 anos atrás o mercado seguradortrabalhava com a questão da poluição súbita através de apólices de responsabilidade civil. Hojeem dia a questão da poluição já é vista de modo holístico.No final da década de oitenta uma grande mineradora teve problemas com os seus sóciosestrangeiros porque assoreou uma grande área com os rejeitos da lavagem do minério. A pressãocausada provocou mudanças no processo operacional e um “termo de ajuste de conduta” para odesassoreamento do lago.P = Atualmente, quais são as indústrias responsáveis pelos maiores danos ao meio ambiente e oque elas têm feito para reduzi-los? 4
  5. 5. R = Ainda são as indústrias químicas e petroquímicas os grandes vilões da poluição. Elas têminvestido bilhões na modernização de seus parques industriais e na alteração da configuração deseus processos e equipamentos.P = E o mercado de seguros? Está no caminho certo, ou seja, tem agido nas frentes em que omeio ambiente mais necessita de investimentos, ou deveria ampliar mais suas ações?R = Com certeza o Mercado Segurador precisa voltar-se mais para a área de Meio Ambiente, comprodutos diferentes e saiba reconhecer os esforços das empresas nessas questões, através deum tratamento tarifário diferente. Houve um tempo em que um adequado projeto de sprinklerspropiciava descontos nas taxas de seguros, que chegavam a 60%. Se uma indústria tem ummelhor sistema de prevenção contra os danos causados ao meio ambiente, deve ser reconhecidapor isso. As empresas que possuem certificação e Sistema de Gestão Integrada com as normasNBR ISO 9001, NBR ISO 14001 e OHSAS 18001 estão mais bem preparadas do que aquelas quenão possuem nenhum tipo de certificação. Talvez a questão esteja em reconhecer àquelas melhorpreparadas, beneficiando-as através da redução das taxas de seguros, ou, ao contrário,penalizando aquelas em piores situações. 5

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