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Que Deus, um sua infinita misericórdia tenha compaixão de todos e receba aqueles que se foramantes de nós.
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A tragédia da boate de Santa Maria, entrevista de 29 01-2013

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Entrevista concedida a Editora Roncarati com comentários sobre a ocorrência do incêndio ocorrido na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

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A tragédia da boate de Santa Maria, entrevista de 29 01-2013

  1. 1. A tragédia da discoteca de Santa Maria Entrevista concedida para a Revista da Editora Roncarati(https://www.editoraroncarati.com.br/v2/Table/HOME- Artigos/Artigos/) Antonio Fernando Navarro.1Repórter: A que o senhor, como professor de cursos de formação de engenheiros de segurança dotrabalhohá mais de 30 anos atribui o desastre que se abateu sobre a população Gaúcha de SantaMaria?Antonio Fernando Navarro: No momento informar o que causou a tragédia, que ceifou mais deduas centenas de jovens estudantes, que fariam parte do nosso futuro, pode ser prematuro.Não temos as informações técnicas suficientes e os especialistas estão coletando os dadosnecessários, principalmente aqueles relativos à polícia civil, que irá ser importante na apuraçãodas responsabilidades civis.Todavia, pelo que se lê nos jornais e se vê nos noticiários das televisões, pode se afirmar que essa,assim como todas as outras que ocorreram em ambientes semelhantes e em várias partes domundo, foi uma tragédia pré-anunciada.Repórter: Por que o senhor afirma ser uma tragédia pré-anunciada?Antonio Fernando Navarro: Em primeiro lugar, baseando-nos em declaração de um coronelbombeiro do Rio Grande do Sul, o local tinha menos do que 700 m 2 e, conforme algumas pessoasrelataram deveriam estar no local cerca de 1.500 pessoas. Para um ambiente com 700 m2, quepoderia comportar com segurança até 400 pessoas, uma porta com a largura da apresentada nosnoticiários (da ordem de 140 cm) poderia ser suficiente.O excesso de pessoas, a precariedade dos materiais empregados na decoração, alguns altamentecombustíveis, a falta de uma correta sinalização e outras questões mais de caráter normativo, jáseriam suficientes para se afirmar que o risco era iminente.Repórter: Qual deveria ser o procedimento de evacuação do local naquelas circunstâncias?Antonio Fernando Navarro: Uma discoteca é um local normalmente escuro, com iluminaçãodirecionada. Na hora do show, muitos estavam prestando atenção à banda que se apresentava,1 Antonio Fernando de Araújo Navarro Pereira, Físico, Matemático, Engenheiro Civil, Engenheiro de Segurança doTrabalho, Especialista em Gestão de Riscos, Mestre em Saúde e Meio Ambiente pela Universidade da Região deJoinville – UNIVILLE, professor da Universidade Federal Fluminense.
  2. 2. outros conversavam e o restante circulava pelo local. Na hora que um incêndio começa, atingindomateriais combustíveis que liberam fumaça tóxica, pega a todos de surpresa. A bebida deixa aspessoas com as reações mais lentas. A fumaça tira a visão plena do local. A iluminação que não égeral dificulta os deslocamentos.Associando-se a surpresa com a baixa visibilidade devido à fumaça e à iluminação local de umambiente com cores escuras nas paredes, a desocupação ideal seria aquela onde funcionários dadiscoteca, atuando como brigadistas e com lanternas nas mãos poderiam direcionar as pessoaspara a porta, que teria que estar plenamente aberta. O pânico que muitas pessoas passam a ternesses momentos faz com que suas reações sejam imprevisíveis. Os funcionários da discotecadeveriam estar preparados para isso.Repórter: O senhor acha que casos como esse podem se repetir?Antonio Fernando Navarro: Certamente, já que existem em nosso País centenas deestabelecimentos iguais ao de Santa Maria. Normalmente são locais de médio porte, praticamentesem janelas, pintados internamente com tintas de cores escuras, com o emprego de madeiracomo elementos decorativos e outros materiais facilmente afetados pelo fogo. Nesses locais umdos quesitos menos importantes para os frequentadores e mesmo para os proprietários é paracom as questões de segurança. Por exemplo, cita-se a ausência de hidrantes no local. Como esseequipamento seria operado em um momento como aquele, no qual não havia nem espaço físicopara se desenrolar as mangueiras e nem conectá-las? Fala-se que não havia sprinklers. Odispositivo é eficaz quando a sensibilidade do elemento sensor, o bulbo de vidro, absorve o calorvindo de baixo. Se o incêndio se propaga pelo forro ou entre forro o sistema não é eficaz. Fala-setambém da falta de extintores. Daquelas quase 1.500 pessoas quantas teriam algum tipo detreinamento para apagar os princípios de incêndio usando os extintores? Como esses heróis iriamse deslocar com o ambiente lotado, com mais de 4 pessoas por m 2?Repórter: Então, em sua opinião nada então seria adequado?Antonio Fernando Navarro: Não disse isso. Todo o dispositivo de combate a incêndios ou aprincípios de incêndios não é adequado se não for empregado por pessoas que não tenham acapacitação necessária. Para que sejam adequados os proprietários deveriam ter funcionários queseriam os brigadistas nessas ocasiões. O item mais importante seria o emprego de sensores defumaça, conectados a portas automáticas, onde, com o incremento da fumaça as portas seriamabertas imediatamente e também entrariam em ação exaustores de fumaça.
  3. 3. Repórter: Como o senhor avalia essa tragédia em um momento em que o País se prepara parareceber delegações de todas as partes do mundo para eventos esportivos?Antonio Fernando Navarro: Vejo-a com uma enorme preocupação. Não podemos afirmar hojeque tenhamos local onde poderão ficar centenas ou milhares de pessoas 100% seguros. Quandodigo isso acrescento os hotéis e pousadas, centros de eventos, teatros, escolas, igrejas, ambientesuniversitários, estádios de futebol, ginásios desportivos, entre tantos outros locais.As normas de segurança em vigor apresentam sempre as exigências mínimas. Se as larguras doscorredores devem ser de no mínimo 120 centímetros por que não podemos estabelecer largurasmaiores? Por que as fileiras de poltronas dos cinemas e teatros têm que ser longas com vinte outrinta cadeiras? Por que não podem ser menores, com oito cadeiras, e com corredores entre essasfilas. Por que não pode ser obrigatório que existam pelo menos duas saídas, com no mínimo 120cm de largura para todo e qualquer local que abrigue 300 ou mais pessoas? Por que não seobrigam os locais a terem luzes de emergência com faroletes que direcionem a população para asrotas de saída?Já tive a oportunidade de ver em hoteis de luxo caixa de hidrantes sem mangueiras, rede desprinklers (chuveiros automáticos contra incêndio) sem água, ou seja, sem pressurização,detectores de calor ou de fumaça com os painéis de alarme desligados. Também já tive aoportunidade de ver extintores com danos provocados pelos próprios usuários do local, como porexemplo, inserindo palitos nas saídas das mangueiras de extintores de água-gás.Quando fomos inspecionar o local onde seria montado o primeiro Rock in Rio, na década de 80,nossa preocupação ia além, incluindo a substituição dos espelhos dos banheiros, de vidros porfinas lâminas plásticas coladas nas paredes, de modo que os expectadores, em brigas nãoquebrassem os vidros e cortassem pessoas, da mesma maneira que nos preocupávamos com oestado geral das instalações elétricas, não somente as que ficavam nas torres de andaimes com ascaixas de som e os projetores de luz. Naquele local foram instalados três chafarizes, com bacias aoredor. Nossa preocupação se voltou também para a altura que as muretas de contenção de águadeveriam ter de modo que uma pessoa bêbada que caísse em seu interior não se afogasse.Repórter: Quais as propostas que o senhor apresentaria aos governantes nesse momento, paraevitar as novas tragédias?Antonio Fernando Navarro: Complementarmente ao que dissemos a essa Revista, urge que osnossos dirigentes tomem algumas medidas técnico-políticas que podem minorar a situação defragilidade a que nos encontramos expostos, assim como sejam implementadas medidas desegurança simples mais necessárias, como a seguir:
  4. 4. 1. O País deve ter uma única norma de segurança contra incêndios de deva ser obrigatória para os mais de 5.600 municípios brasileiros, ou seja, os corpos de bombeiros militares de todos os estados devem consensar um só padrão de segurança, que seja eficiente. De norte a sul do País, daqui para a frente, quem quiser ter uma casa de shows deverá obedecer às mesmas regras. Há normas muito boas que podem ser aprimoradas. Assim, não se deve ignorar todo o conhecimento já adquirido. O Governo deve associar a essas comissões que irão compilar e unificar as normas representantes dos Corpos de Bombeiros, CREAS e Clubes de Engenharia, e convidar representantes de Universidades. Assim, poder-se-á associar o saber, à técnica e ao conhecimento das ações.2. Enquanto as normas de segurança não são implantadas e implementadas, os corpos de bombeiros e as prefeituras devem intensificar a fiscalização desses ambientes, não com uma fiscalização protocolar, mas sim com uma fiscalização técnica, com visitas in loco, e com o poder de interditar os estabelecimentos se houver o descumprimento das normas.3. Os estabelecimentos, começando com aqueles com capacidade de receber mais de 1.500 pessoas deverão se adequar às normas de segurança de imediato. Os requisitos das normas serão repassados pelos Corpos de Bombeiros que serão e são os co-responsáveis, caso as normas e procedimentos não sejam eficazes.4. Deve-se entender que eventos como o que ocorreu na Boate Kiss podem perfeitamente bem ocorrer em locais cujos projetos não levaram em consideração questões de proteção das pessoas em casos de catástrofes, como incêndios, alagamentos, desabamentos, vendavais, entre outros eventos, e que seja necessária a desocupação imediata dos locais para se evitar que a quantidade de pessoas atingidas seja grande. Assim, incluímos nesta relação os estádios de futebol, os ginásios de esportes, os templos e igrejas, as boates, discotecas, casas de shows, cinemas, teatros, colégios, salas de aula com maior capacidade de público, prédios públicos, edifícios edilícios, e todos as demais edificações e atividades assemelhadas.5. De imediato, essas edificações devem ter no mínimo duas saídas, em lados opostos, e com áreas de refúgio externas que tenham capacidade de abrigar as pessoas que irão desocupar os locais. Essas edificações não poderão ter elementos decorativos ou obstáculos em suas fachadas que dificulte o acesso das escadas de incêndio dos bombeiros.6. Além de uma segunda porta de emergência, as boates devem prever a possibilidade de ter, como alternativa, uma terceira saída, bastando para isso que no local a parede seja menos
  5. 5. espessa e existam ferramentas para abrir passagens para a desocupação (marretas e picaretas).7. Os vigilantes e seguranças dessas casas de shows devem ser capacitados no combate a incêndios e na desocupação dos locais.8. As casas de shows devem instalar baterias de emergência com holofotes que estejam direcionados para as saídas de emergência. As rotas de fuga devem ser demarcadas no chão, preferencialmente com dispositivos de sinalização no piso do tipo “olhos de gato”, reflexivos. Nessas faixas não podem ser depositados materiais e posicionadas mesas e cadeiras. Devem ser faixas livres que as pessoas devam empregar para se dirigir às portas de saída.9. Todas as casas de shows devem ter brigadas de incêndio, que serão responsáveis pelo combate aos princípios de incêndio, e pela orientação aos frequentadores para a desocupação dos locais para áreas seguras.Creio que todas essas medidas sejam possíveis de serem postas em prática e, algumas, já deimediato, com as ações políticas necessárias. Nós, o Brasil, temos experiência mais do quenecessária para controlar situações como essas. O que nos falta é encarar com seriedade dassituações e fazer o que deve ser feito. P.Ex.: se um empresário não cumpre a lei oestabelecimento é interditado até que ele consiga provar que cumpriu o determinado. CHEGADE JEITINHOS, TÃO AO GOSTO DOS BRASILEIROS, e de acordos que envolvem subornos, natentativa de fingir-se que se cumpriu o estabelecido em Lei. Somente agindo com seriedadeconseguiremos demonstrar que somos competentes.Cabe aqui um exemplo: em 1982 trabalhávamos no grupo do Banco Nacional, como gerentede risco para as quatro seguradoras do Grupo. As seguradoras haviam sido transferidas paraum só prédio, com 22 pavimentos, no centro da cidade do Rio de Janeiro, na esquina daAvenida Passos com a Avenida Presidente Vargas. Nas duas laterais haviam outros prédios.Estabelecemos um plano de desocupação do prédio, estabelecendo acordos com os prédiosvizinhos. Do lado do prédio comercial afinamos as paredes de cinco andares, assinalamos ovão com faixa vermelha e colocamos no piso demarcações. Havendo uma situaçãoemergencial o funcionário poderia pegar a marreta que se encontrava em um abrigo e rompera parede. Com o outro prédio vizinho, ocupado na época pala Embratel, abrimos cinco portas,em andares específicos e instalamos portas corta fogo. As chaves das portas ficavam em caixascom vidro na tampa. Quando essa era rompida para a retirada da chave soava o alarme naportaria e a vigilância patrimonial saberia dizer qual a porta estava sendo aberta. Para o
  6. 6. dimensionamento das saídas laterais, através dos prédios vizinhos, levamos em consideração a quantidade de pessoas que ocupava os andares. Tínhamos macas a cada três andares e uma profissional de saúde de prontidão. Tudo isso foi elaborado e posto em prática em 1982, portanto, há 31 anos. Não esperamos que as normas mudassem. Nós mesmos mudamos nossos procedimentos. As normas estabelecem as condições mínimas necessárias. O que for feito, além disso, não é contrário à norma e sim favorável à preservação da vida, quando o assunto é segurança do trabalho.Repórter: O senhor gostaria de acrescentar algo a mais?Antonio Fernando Navarro: Sim. Inicialmente lamentar as perdas e as dores daqueles queficaram. Depois de dizer que nosso País, assim como todos os demais do mundo, possui fartalegislação, que não foi redigida por neófitos e sim por especialistas. Se há normas, porque essasnão são cumpridas? Porque temos sempre a visão míope de cumprir o mínimo exigido? Nessesmomentos, onde a preocupação passa do individual para o coletivo é que se percebe que oinvestimento em segurança é nada diante das centenas de pessoas mortas ou mutiladas. O quepoderíamos dizer às centenas de famílias que perderam seus filhos na tragédia? Que um Alvaráestava vencido? Talvez não seja a frase correta. O correto seria dizer que efetivamente eventosque isoladamente não significam muita coisa quando associados redundam em centenas devítimas. Ocorreu o despreparo da Nação, do Estado e do Município, para a tragédia, a ponto deenvolver a Nação como um todo para se obter as doações de sangue, de peles, de água e gelo,enfim, do que era necessário para o atendimento às vítimas. Ocorreu o inesperado para a cidade epara aqueles que têm por dever fiscalizar o cumprimento da Lei: houve um acidente. Podemosdizer também que temos que olhar para nós mesmos e avaliar o quanto se tem de problemas aonosso redor, seja em nossos lares, com os descuidos na rede elétrica e no gás, em nossos prédios,com problemas os mais diversos, em nossos trabalhos, enfim, terminamos por ver coisas que sãoerradas como se fossem naturais, já que existem na lanchonete onde comemos e na sala ondetrabalhamos. Temos o dever de encarar os problemas e resolvê-los, e não deixa-los para trás demodo que gerações futuras saiam mais cedo de junto de nós. Não podemos, em hipótesenenhuma, ver algo errado e não denunciar. Não podemos deixar que fiscais deixem de fiscalizar eque os donos das discotecas deixem de investir em segurança dos usuários, para não perderemseus lucros.Se temos que conseguir os espaços para que os frequentadores possam se deslocar edesocupar o ambiente estaremos tirando os espaços das mesas e cadeiras, já que nos projetosoriginais isso não foi considerado.
  7. 7. Que Deus, um sua infinita misericórdia tenha compaixão de todos e receba aqueles que se foramantes de nós.

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