Entrevista com n ilma lino

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Entrevista com n ilma lino

  1. 1. Editorial Ao poeta Elias José, É com saudades que nós, do Dimensão na Escola, lembramos e dedicamos esta edição ao escritor e professor Elias José. Há pouco mais de dois meses trocamos e-mails sobre um texto que ele iria fazer para o nosso jornal. “Como se toca se dança. Escreverei em prosa ou em verso – teórica ou literalmente, como você preferir” foi o que ele me escreveu, com a gentileza de sempre. No entanto, antes que o tão esperado texto pudesse chegar ao jornal, veio a notícia da despedida do escritor. Mas, como disse seu filho Érico, “as suas obras ficaram como mensagem de valorização da leitura, da literatura, dos livros e da poesia”. E isso jamais passará! Nesta edição reproduzimos um pequeno trecho do livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar criança, em que Elias José fala da importância da história contada e lida de maneira mágica. E por falar em encanto e poesia, nesta oitava edição do jornal, o maestro e compositor Tom Jobim também comparece. Tom se inspirava na natureza para criar muitas de suas belas canções. O projeto Tom da Mata, do Instituto Antônio Carlos Jobim, foi criado para despertar nos alunos a responsabilidade individual em relação às questões ambientais e mobilizar escolas e comunidades. Leia e aproveite as dicas de atividades do projeto para serem realizadas na escola. Não deixe de ler também a entrevista que traz à tona um tema muito importante: a implementação da Lei Federal 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e cultura africana e afro-brasileira nas escolas de ensino básico. A professora da Faculdade de Educação da UFMG Nilma Lino Gomes fala da importância de os professores se indagarem sobre qual tem sido a sua postura diante da questão racial na escola e na sociedade. Boa leitura! Renata Fabreti A falta que faz Uma professora muito maluquinha Sementinha na beira do rio Museu AfroBrasil é dez! Circuito de leitura Sons da vida Expediente/Espaço do professor E MAIS Os próprios alunos avaliam seu crescimento Isso que é bagagem Gustave Doré Ano II - n.8 - setembro/outubro 2008 - ISSN 1981-7037 Entrevista: Nilma Lino Gomes Foto de Priscila Borges
  2. 2. “N a sociedade e na escola brasileira – da Educação Básica ao Ensino S uperior – os docentes conseg uem, muitas ve zes, f icar indig nados diante do racismo, porém, cont inuam imóveis. Essa é uma das maneiras por meio das quais o mito da democracia racial opera em nossa sociedade”, diz a professora da Faculdade de Edu- cação da UFMG e coordenadora-geral do Prog rama Ações Af ir mat ivas na UFMG, Nilma Lino Gomes. Nesta ent re vista, ela fala da importância da Lei Federal que tor na obrigatório o ensino de História e cultura af ricana e af ro -brasileira na Educação Básica Entrevista Nilma Lino Gomes CONTINUA > Qual a importância da Lei Federal 10.639/03? A lei é importante em vários aspec- tos. O primeiro ponto é que se trata de uma alteração da LDB (Lei de Dire- trizes e Bases da Educação Nacional), que inclui artigos ligados à obrigato- riedade do ensino de História e cul- tura africana e afro-brasileira. Dessa forma, a Lei 10.639/03, que acaba de ser alterada para 11.645/08 (devido à inclusão da temática indígena), é uma lei nacional e por isso deve ser cumprida em todas as escolas públi- cas e privadas da Educação Básica do País. O segundo ponto é que essa Lei é uma medida de ação afirma- tiva. Ela é fruto da ação histórica do Movimento Negro e sua pressão em relação ao Estado. Antes mesmo de a Lei existir, várias ações nesse sen- tido já eram realizadas em diferentes partes do País, porém, como iniciati- vas isoladas do Movimento Negro ou de intelectuais interessados no tema. A Lei 10.639/03 é o reconhecimento do direito à diferença. A Lei tem conseguido abrir o debate sobre a questão racial na educação? Aos poucos, os educadores e as edu- cadoras vão compreendendo que discutir a questão africana e afro- brasileira de maneira crítica, séria e pedagógica é um dever de todo e qualquer educador e não somente uma pauta de luta do Movimento Ne- gro. Ou seja, a questão racial atinge a todos nós, independentemente do nosso pertencimento étnico-racial. E se desejamos construir uma escola e umasociedademaisdemocráticaste- mosquenosposicionarnalutacontra o racismo e contribuir para a supera- ção de estereótipos e preconceitos raciais. É uma questão de cidadania, mas não de uma cidadania abstrata. Eu diria que é uma cidadania multi- cultural. Algo que no Brasil ainda tem sido muito pouco discutido. E como tem sido a experiên- cia na formação inicial e con- tinuada de professores? Achoquenaformaçãocontinuadate- mos mais experiências interessantes. Lamentavelmente, na formação ini- cial, nos cursos de Pedagogia e Licen- ciatura e também nos Bacharelados, encontramos inúmeras resistências à inclusão da discussão sobre a África (de maneira crítica) e a questão afro- brasileira. De modo geral, tais dis- cussões ainda ficam restritas às dis- ciplinas optativas, ministradas pelos docentes interessados no tema. A África e a questão racial brasileira continuam invisíveis na grande maio- ria das grades curriculares dos cursos de graduação e pós-graduação, so- bretudo na área da educação. Se so- marmos a isso a questão de gênero e geracional, teremos um quadro ainda mais grave. Por que as escolas de Edu- cação Básica têm dificuldades para aplicar a Lei? Os motivos são vários. Eu poderia destacar alguns. Acho que as esco- las, assim como a sociedade, vivem sob a égide do mito da democracia racial. Essa crença de que vivemos relações raciais harmoniosas, de que a miscigenação brasileira resolveu os problemas raciais no Brasil é algo Cultura Negra na escola 2
  3. 3. terrível! Ela desvia o nosso olhar das sérias conseqüências do racismo na nossa vida e embota o entendimen- to das pessoas. O currículo, os livros didáticos e a própria política educa- cional expressam de várias formas esse mito e ele ajuda a construir re- sistências ao debate, à discussão e à implementação de práticas pedagógi- cas voltadas para a diversidade étnico- racial. O que sabemos sobre a África? E sobre o negro brasileiro, suas histórias, suas lutas e conquistas? É forte ainda a presença de imagens estereotipadas e opiniões coladas no senso comum. As pessoas lêem pouco sobre o tema e repetem várias distorções do as- sunto realizadas pela mídia brasileira. Há também o desconhecimento do tema, o que acarreta dificuldades na implementação da Lei. Por isso, o in- vestimento na formação inicial e con- tinuada de professores é importante. Mas a diversidade cultural e étnico-racialbrasileiraaindanão se tornou um dos eixos orienta- dores das políticas, das práticas e dos currículos, não é? A Lei 10.639/03 é um passo impor- tante nesse sentido, mas para que ela realmente desencadeie uma políti- ca educacional efetiva há um longo caminho a percorrer. E para que o re- sultado desse percurso seja positivo é necessário que se criem condições concretas para tal. Penso que deveria haver maior preocupação pública e institucional do MEC, das secretarias estaduais e municipais de educação de todo o país em relação à superação de práticas preconceituosas, visões negativas do negro e de outros gru- pos étnico-raciais. E deveria haver maior inserção de uma discussão que privilegie a visão positiva e afirmativa sobre a história e cultura afro-brasilei- ra e africana. Para isso precisamos de financiamento, formação inicial e con- tinuada, material didático-pedagó- gico, pesquisas e monitoramento das ações. É preciso também criar espaços de formação em serviço, no interior da escola, para que os docentes discutam coletivamente e pensem ações, pro- jetos e estratégias pedagógicas con- juntas. O trabalho com a diversidade cultural e étnico-racial não se faz no isolamento. Na sua avaliação, estão sendo produzidos materiais que con- tribuem para o ensino da cultura negra e da história da África? Sim, aos poucos esses materiais vêm sendo produzidos tanto por parte do público quanto do privado. Digo isso porque, além do Ministério da Edu- cação e de ações de secretarias mu- nicipais e estaduais, a iniciativa pri- vada começa a investir também. Mas ainda é muito pouco, se comparado com a necessidade e com a demanda. E nem todo material é de boa quali- dade. É preciso avaliar com calma e criticidade. Há experiências bem-suce- didas nas escolas de Educação Básica? Não temos ainda um mapeamento sistemático dessas ações. Pela minha experiência, vejo que os trabalhos bem-sucedidos dizem respeito mais aos processos de formação continu- ada. Eles acabam sendo experiências individuais de docentes ou coletivos de educadores interessados no tema, ou articulações entre algumas secre- tarias de educação, a universidade, a gestão da escola e professores e pro- fessoras. Há projetos de trabalho que articulam ações com alunos, comuni- dade e movimentos sociais, mas são pouco conhecidos. Por isso, agora é o momento de começarmos a pesquisar mais e avaliar as ações pedagógicas em sala de aula, os projetos pedagó- gicos interdisciplinares que vêm sen- do desenvolvidos e o impacto desse processo na formação dos alunos. Embora a Lei seja recente, já é hora de começarmos a pensar nesse aspecto. Que sugestões você daria aos professores? Acho que os docentes deveriam en- tender o caráter da Lei 10.639/03 e aproveitar esse momento político e pedagógico que vivemos para se inda- garem sobre qual tem sido a sua pos- tura diante da questão racial na escola e na sociedade. A discussão crítica e pedagógica da questão racial e africa- na na escola é um direito. E, enquanto tal, deve ser garantida. Já é hora de os educadores superarem o discurso de que o negro é discriminado somente porque é pobre e de que as políticas universais atingem igualmente ne- gros e brancos. É preciso conhecer as pesquisas que nos ajudam a com- preender melhor essa situação. Se não tivermos ações afirmativas sérias no Brasil, as desigualdades raciais e o ra- cismo se arrastarão ainda por muitos anos. Outra sugestão é conhecer mais aslutas,osavanços,aresistêncianegra no Brasil. É importante também co- nhecer a História da África sob o pris- ma dos africanos e não somente dos colonizadores ou neocolonizadores. Há muita riqueza, sabedoria, beleza a descobrir. Não temos somente uma história de pobreza, racismo, coloni- zação e desigualdades quando fala- mos sobre o negro brasileiro e sobre a África. É preciso equilibrar a discussão com a denúncia do racismo (esse pon- to nunca deverá sair da nossa pauta!) e as vitórias e conquistas. O povo afri- cano e os negros brasileiros devem ser tratados, na educação, na sua di- mensão histórica, política, cultural e social. O conteúdo da Lei e suas dire- trizes curriculares nacionais devem ser entendidos como constituintes da nossa formação pedagógica e escolar, e não como uma questão à parte. A história do negro brasileiro faz parte da história do Brasil, e a história da África faz parte da história do mundo. Não podemos mais passar pela edu- cação básica e pela universidade sem compreender essas questões. Entrevista Nilma Lino GomesCONTINUAÇÃO: 3
  4. 4. Museu AfroBrasil é dez! N o Museu AfroBrasil, que fica no Portão 10 do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, há muito o que se ver e aprender. Há um acervo interessante que mostra a importância da matriz negro-africana na constituição da história e cultura brasileiras. As exposições são criativas, como Formas e Pulos: o Saci no imaginário e Benin está vivo ainda lá – ancestralidade e contemporaneidade. O museu tem a missão educativa de desconstruir e transformar o imaginário sobre a população negra, baseado na ótica da inferioridade. A equipe de profissionais do Núcleo de Educação promove oficinas, cursos, encontros, seminários e materiais destinados a educadores, crianças e jovens. Visite o site: www.museuafrobrasil.com.br Navegue Gravura de Frederico Guilherme Briggs. Rio de Janeiro, RJ, 1832-1836. CulturaNegra 4
  5. 5. Alfabeto negro Autora: Rosa M. Carvalho Rocha Editora: Mazza Edições Ano: 2001 Número de páginas: 56 Ana e Ana Autora: Célia Cristina Godoy Ilustrações: Fê Editora: DCL Difusão Cultura Ano: 2003 Número de páginas: 24 Aquilo que a mãe não quer Autora: Geni Guimarães Editora: Mazza Edições Ano: 2004 Número de páginas: 32 Coleção Bichos da África (4 volumes) Autor: Rogério A. Barbosa Ilustrações: Ciça Fittipaldi Editora: Melhoramentos Ano: 2008 Número de páginas: 16 Contando a história do samba Autores: Marcos Cardoso, Elzelina Dóris e Edinéia Ferreira Editora: Mazza Edições Ano: 2008 Número de páginas: 80 Dito, o negrinho da flauta Autor: Pedro Bloch Editora: Moderna Ano: 2004 Número de páginas: 64 Felicidade não tem cor Autor: Júlio Emílio Braz Editora: Moderna Ano: 1994 Número de páginas: 64 Histórias da Preta Autora: Heloísa Pires Lima Ilustrações: Laurabeatriz Editora: Companhia das Letras Ano: 1998 Número de páginas: 64 Luana – a menina que viu o Brasil neném Autores: Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino Editora: FTD Ano: 2000 Número de páginas: 48 O Congado para Crianças (Coleção OLERÊ) Autor: Edimilson A. Pereira Ilustrações: Rubem Filho Editora: Mazza Edições Ano: 2006 Número de páginas: 20 O filho do vento Autor: Rogério Andrade Barbosa Ilustrações: Graça Lima Editora: DCL Ano: 2001 Número de páginas: 40 O presente de Ossanha Autor: Joel Rufino dos Santos Ilustrações: Mauricio Veneza Editora: Global Ano: 2000 Número de páginas: 16 Os comedores de palavras Autores: Edimilson A. Pereira e Rosa Margarida Rocha Ilustrações: Rubem Filho Editora: Mazza Edições Ano: 2003 Número de páginas: 32 Pretinho, meu boneco querido Autora: Maria Cristina Furtado Ilustrações: Carlos Brito Editora: Editora do Brasil Ano: 1991 Número de páginas: 56 Tanto, Tanto Autora: Trish Cooke Ilustrações: Helen Oxenbury Editora: Ática Ano: 1997 Número de páginas: 48 CONTINUA > O ensino de História e cultura africana e afro-brasileira é o tema da vez do circuito de leitura. Confira os livros de literatura infantil e de formação de professores que podem auxiliar a discussão do tema em sala de aula. 5 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Circuito de Leitura Cultura Negra Desenho aquarelado atribuído a Maria Callcott, Bahia, c. 1810.
  6. 6. LIVROS PARA PROFESSORES Alfabeto Negro – Manual Autora: Rosa M. Carvalho Rocha Editora: Mazza Edições Ano: 2000 Número de páginas: 20 A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro Autor: Carlos Moore Editora: Nandyala Ano: 2008 Número de páginas: 217 A cor ausente Autora: Wilma Baía Coelho Editora: Mazza Edições Ano: 2006 Número de páginas: 280 A mulher negra que vi de perto Autora: Nilma Lino Gomes Editora: Mazza Edições Ano: 2003 Número de páginas: 128 Igualdade das relações étnico-raciais na escola: possibilidades e desafios para a im- plementação da Lei 10.639/03 Autoras: Ana Lucia S. de Souza e Camila Croso (Orgs.) Editoras: Pierópolis, Ação Educativa, Ceafro, Ceert Ano: 2007 Número de páginas: 96 Literaturas africanas e afro-brasileiras na prática pedagógica Autoras: Íris Amâncio, Nilma Lino Gomes e Miriam Lúcia dos Santos Jorge Editora: Autêntica Ano: 2008 Número de páginas: 166 Negritude, cinema e educação Organização: Edileuza Penha de Souza Editora: Mazza Edições Ano: 2006 Número de páginas: 182 Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra Autora: Nilma Lino Gomes Editora: Autêntica Ano: 2008 Número de páginas: 416 CONTINUAÇÃO: 6 Circuito de Leitura Cultura Negra Desenho aquarelado atribuído a Maria Callcott, Bahia, c. 1810.
  7. 7. P erto das 16 horas, a reportagem do Di- mensão na Escola se esconde debaixo de uma rara sombra na rua de paralelepípe- dos em Arcos, cidade mineira a 210 km de Belo Horizonte. Calor há de sobra naquela sexta- feira, mas vale a pena esperar. É que dali a pouco chegarão alguns agentes de leitura do Projeto Bagagem: a leitura salta os muros da Universidade. A Universidade, diga-se de uma vez, é a PUC Minas em Arcos, e o Bagagem é um projeto de extensão, iniciado em 2003, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento do municí- pio e despertar nos estudantes postura ativa diante da realidade em que estão inseridos. Os agentes de leitura do Bagagem são crianças e adolescentes que, sob orientação de moni- tores da Universidade, se dispõem a espa- lhar livros e histórias junto às pessoas de seu convívio. Eles combinaram de se reunir mais uma vez na sede da Associação Comunitária do Bairro Novo Cruzeiro, onde vão discutir o desempenho de cada um desde o último en- contro. Não demora aponta lá embaixo a turma, e vêm animados à contraluz, nem aí para o sol. Na mão, cada qual traz sua maleta marrom: dez livros de bagagem. Humberto Lima, 14 anos, é quem tem a chave da As- sociação. Após um lance de escada, bem ao lado da quadra onde uma turma joga bola, o cômodo. Dentro, alguns bancos compridos e um painel com a imagem de São Fran- cisco de Assis. Todos assentados, o monitor Rodrigo Gui- marães observa: “Eles são muito indepen- dentes”. De fato os agentes logo tomam a iniciativa e resolvem entre si as pendências relativas à função que exercem. No interior de Minas, crianças e adolescentes atendidos por extensão universitária descobrem prazer na leitura e difundem a literatura na comunidade Isso que é bagagem FotodeGuilhermeAmorim Agentes de leitura do projeto Bagagem CONTINUA > 7 Guilherme Amorim Reportagem Leitura
  8. 8. Literatura em trânsito Mas, afinal, que faz um agente de leitura? Em resumo: lê, escreve e difunde a lite- ratura. “Cada agente tem um grupo de leitura, com o qual se reúne para empres- tar livros e recolher resenhas produzidas por essas pessoas, além de sugestões de histórias que elas gostariam de ler”, ex- plica Humberto. Pode ser criança, adulto, idoso – o importante é despertar e incen- tivar o gosto pelas letras. “Em casa tem a minha tia”, conta Mariana Castro, 13 anos, sobre a participação de adultos em seu grupo. E o que leva esses meninos a perambular pelas ruas com maletas em punho? Alguns se tornam agentes por simpatizar com a idéia, como Victor Valadão, também de 13 anos: “Já gostava de ler e escrever, e achei legal o projeto”. Outros desco- brem prazer na leitura a partir do envolvi- mento com o Bagagem, caso de Amilton Junior de Almeida, 12 anos, ao revelar que não gostava, mas pouco a pouco passou a se interessar por livros. Se, apesar de todos os argumentos fa- voráveis ao sucesso da proposta, ainda restar dúvida quanto aos resultados práti- cos, a turma trata de mostrar que sim, funciona. Isis Fernanda, 16 anos, relata que a professora de português notou sig- nificativa melhora na produção de textos depois que ela entrou no Bagagem. Desempenho não por acaso: nos encon- tros quinzenais, quando recebem as- sistência dos monitores da Universidade, os agentes trocam livros e participam de ditados, dinâmicas e outras atividades que são, ao mesmo tempo, educativas e recreativas. Expansão No início, o Bagagem atendia a apenas um bairro de Arcos, o Calcita, um dos mais pobres da cidade e que abriga também um campus da PUC. As reuniões ocorriam so- mente nas dependências da Universidade, e por isso não era, nem é, difícil ver a ga- rotada à vontade em meio aos estudantes de graduação. Concebida no curso de Comunicação So- cial, a idéia era desenvolver um projeto voltado para a comunidade, mas, por ou- tro lado, familiarizar os universitários com os livros. “Percebi a carência de hábito de leitura entre os estudantes”, conta a pro- fessora Júlia Freitas, idealizadora e co- ordenadora do Bagagem. Para ela, um trabalho assim pode levar o aluno a contribuir para a sociedade en- quanto ele próprio adquire conhecimento. Como? Por meio de resenhas que os es- tudantes escrevem depois de ler as histó- rias, por exemplo. Os textos são aprimora- dos e, em seguida, colocados nas maletas junto com as obras. Cinco anos depois de sua criação, o pro- jeto se estendeu para outros sete bairros de Arcos, além de contar com um núcleo em Japaraíba, município vizinho. Os en- contros não mais se realizam apenas no campus, o que, na opinião de Júlia, tem de positivo deixar os participantes mais à vontade. Atualmente são em torno de cinqüenta agentes de leitura e quatro monitores re- munerados, além dos estudantes que se oferecem para participar sem receber por isso – cerca de cinco. O acervo é quase todo formado por doações e já ultrapas- sa mil livros. Mesmo com a boa vontade de pessoas e instituições interessadas em colaborar, o desafio não é dos menores. Há, por exemplo, agentes que deixam de participar porque arranjam trabalho, ain- da que sequer tenham saído da infância. “Às vezes bate um desânimo, mas vou indo, faço minha parte”, diz Júlia, com a persistência de quem assiste de perto aos meninos e meninas com suas maletas pelas ruas, convidando outras pessoas para com eles viajar. CONTINUAÇÃO: 8 Reportagem Leitura
  9. 9. “[...] O jornal, a revista e o livro contam histórias. O rádio, a TV e a internet con- tam histórias. As letras de música con- tam histórias, quase sempre de amor. Num quadro de pintura sem se perceber uma narrativa, com pessoas, tempo e es- paço, há uma história feita de imagens, sem palavras. Os discos, filmes e peças de teatro contam histórias. Os quadri- nhos e as propagandas contam histórias. Há belos livros, feitos só de narrativas através de imagens. O que nos falta, que parece estar voltan- do nas melhores escolas, mas que ainda está desaparecida da vida familiar, é a história contada e lida de maneira mágica, feita para encantar as crianças. Histórias que não querem vender nada, como nas narrativas da publicidade. Histórias sem vontade de passar lições religiosas e mo- rais, sem vontade de ensinar nada, mas lidas ou contadas pelo simples prazer de envolver nas tramas das narrativas. Pelo afeto e pelas palavras e gestos, criam-se e recriam-se mundos e seus habitantes fantásticos. Histórias contadas pelo que tem o homem de inventar, de ficcionar poética e teatralmente. [...]” A falta que faz IlustraçãodeAndréaVilela,dolivroÉferiado,SylviaManzano,Ed.Dimensão. Texto de Elias José em seu livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar crianças. Porto Alegre: Editora Mediação, 2007. 9 Palavra de professorLeitura
  10. 10. M anhã de segunda-feira na comu- nidade Fazenda Velha, zona rural de Araçuaí, em Minas Gerais. Participantes do projeto Sementinha, desenvolvido pela ONG Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), se encontram diariamente na pequena capela do lugar. Ali, uma turma de 15 crianças na faixa de 4 a 6 anos ajuda a professora Maristane Oliveira Carvalho a afastar os bancos usados pelos fiéis no domingo e colocam no lugar pequenas cadeiras de plástico colorido, formando uma grande roda. Nesse espaço, elas cantam canções populares que aprenderam com pessoas da comunidade, formada por 30 famílias de lavradores. A cantoria atrai alguns moradores. Adolescentes, mães com bebês no colo e avós deixam seus afa- zeres e sentam-se também na roda para acompanhar as atividades do Semen- tinha. Uma mãe da comunidade ajuda a improvisar uma mesa para que meninos e meninas tomem a sopa de legumes. Eles mergulham a concha na panela e se servem com autonomia. Depois, recolhem pratos e talheres e pegam as escovas de dente, que ficam guardadas num porta-escova criativo feito com uma garrafa descartável. Lobos banguelas A atividade seguinte acontece nas mar- gens do rio Piauí. Durante o caminho, são relembrados os passeios feitos na comunidade e também ao centro da cidade, que muitas crianças até então não conheciam. “A gente foi no aeroporto, na praça...”, diz Milena Dias Rosa, 5 anos. Numa pedra à beira do rio fazem uma roda para ouvir um conto da tradição regional. “É a história da menina que esqueceu os brincos de ouro na pedra do rio”, explica Maristane. Todos adoram ouvir histórias. A professora reinventa os contos de fadas e estimula a meninada a criar o final. A imaginação voa, e é assim que surgem lobos banguelas e vovozinhas espertas nas histórias dessa turma. A professora conta que as crianças descobriram as letras brincando. Um dia, Taís Amorim de Oliveira, 5 anos, disse, na roda, que achou a letra “T” numa caixa de sabão em pó. Depois disso, todos queriam encontrar a inicial do próprio nome. Maristane teve, então, a idéia de fazer um jogo, com letras recortadas das embalagens. A brincadeira não parou aí: as crianças passaram a modelar as letras do alfabeto na argila retirada das margens do rio. Sementinha na beira do rio 10 Rosangela Guerra Jornalista Relato de experiência Leitura Foto de Rosangela Guerra
  11. 11. M eados da década de 40, a guerra acabando e o mundo girando nas ondas do rádio. Enquanto isso, numa pequena cidade do interior de Minas, Ziraldo e seus colegas do Grupo Escolar andavam perdidos de amores por Uma professora muito maluquinha. Ziraldo é o autor do texto, mas escreveu na primeira pessoa do plural como se estivesse contando a história junto com os colegas de turma. Sim, ela era maluquinha. Numa época em que alfabetizar era seguir a cartilha, a professora escandalizava. Criava jogos e brincadeiras para sala de aula e demonstrava seu amor pelo que existia muito além da escola: música, rádio, cinema, quadrinhos, poesias e viagens pelo mundo. Nenhum aluno queria saber de perder aquelas aulas movimentadas e alegres. Um dia, a diretora abriu a porta de repente e disse: “Vamos parar com essa felicidade aí?”. Os pais também andaram reclamando: as lições de casa eram poucas. A professora começou então a inventar lições bem maluquinhas que envolviam a família toda numa grande brincadeira de aprender. A professora inesquecível deixou de ensinar muitos conteúdos escolares daquele tempo. O autor fez uma lista enorme com alguns deles: os afluentes da margem esquerda do rio São Francisco, o dia de nascimento e morte do Duque de Caxias, o nome completo do Conde D’Eu, marido da princesa Isabel, os países independen- tes da África e muitos outros que a vida mostrou depois que não tinham mesmo a menor importância. E o que foi feito da professora maluqui- nha? Bem, o final da história não pode ser contado aqui para não tirar a surpresa deste livro divertido que nos faz refletir sobre educação de crianças e jovens. Informações: Uma professora muito maluquinha Autor: Ziraldo Editora: Melhoramentos Número de páginas: 120 Uma professora muito maluquinha 11 Resenha Rosangela Guerra Jornalista Leitura
  12. 12. 12 A seleção e organização de trabalhos dos alunos realizados num período determinado de tempo, estratégia utilizada por várias escolas, é uma forma adequada para que as crianças visualizem seu processo particular de aprender. Com a ajuda do professor e refletindo sobre sua própria produção, a criança pode perceber seus pontos fortes, suas dificuldades, tornando-se mais consciente de seu processo de aprendizagem. No cotidiano da sala de aula, é importante que os alunos sejam estimulados e ajudados a refletir sobre a maneira como estão realizando cada tarefa e como podem melhorar suas competências num determinado tipo de aprendizagem. A auto-avaliação coloca o aluno na condição de olhar criticamente não só o resultado de seu trabalho, mas também o que aconteceu no caminho percorrido. Um roteiro pode ajudar a pensar sobre: • As condições em que a tarefa foi feita: quando? Onde? Em que tempo? • O material utilizado: anotações, documentos, livros. • Como foi feito o trabalho: o que se fez primeiro, o que facilitou, o que dificultou. Outro procedimento capaz de enriquecer a percepção de si próprio é levar o aluno a “ver” seu trabalho pelo olhar do outro. As crianças de uma classe não são iguais e essa diversidade é fundamental para a interação e para a melhoria do desempenho individual. Ao final das atividades, cada uma pode fazer apreciações sobre os trabalhos dos colegas: A parte que mais gostei do trabalho é... O que não ficou claro para mim é... Acho que o jeito como apresentou foi... Você poderia melhorar seu trabalho se... Os próprios alunos avaliam seu crescimento Avaliação Arquivo Rosangela Guerra Texto retirado de Raízes e Asas, publicação do Cenpec (Centro de Pesquisas para Educação e Cultura)
  13. 13. 13 O maestro e compositor Tom Jobim era um observador atento da natureza. Amava e defendia a Mata Atlântica, fazia músicas inspiradas no canto dos pássaros e dizia que a gente deve sentir “a perna do vento”. O projeto Tom da Mata*, do Instituto Antônio Carlos Jobim, foi criado para despertar nos alunos a responsabilidade individual em relação às questões ambientais e mobilizar escolas e comunidades. Leia abaixo algumas atividades do projeto para serem realizadas na escola. Ouvir a natureza A turma aproveita um dos passeios na floresta, campo, plantação, rio, praia etc. Em alguns momentos, o professor pode sugerir que os alunos se coloquem abertos e receptivos para ouvir os sons da natureza. Depois de um tempo, devem escolher um dos sons e procurar imitá-lo e/ ou interagir com ele. Se quiserem, podem levar lápis para escrever ou desenhar. Peça aos alunos que registrem que emoções o som provocou. Ouvir a própria voz Sentados em suas carteiras, os alunos podem falar para si mesmos e pensar no que ouvem quando falam. Também podem emitir sons, como o balbuciar de bebês, sons graves, agudos, longos e curtos. Esse exercício resgata um pouco a caminhada da criança até a fala completa. É também importante que as crianças gravem e ouçam a própria voz. Ouvir os sons do ambiente Propor à turma que exercite essa atividade fora da escola, individualmente. Em silêncio, prestar atenção aos sons do ambiente no ônibus, na sala de aula, no recreio, em casa (de manhã, à tarde, à noite, depois de deitar-se), na rua, numa festa, durante um jogo. Por um minuto, o aluno deve colocar-se nesta atitude: postura de entrega para recebimento de sons. Na escola, as crianças escrevem no caderno a resposta para esta questão: quais os sons que lhe fazem bem? Quais os que lhe provocam tensão? Ouvir e pesquisar músicas Depois desses exercícios, a música deve ser incluída nas atividades. O professor escolhe cinco tipos de música (pode ser um rock, um samba, uma música orquestral etc.). A cada dia de aula, a turma escuta uma dessas músicas e registra no caderno as suas sensações. O professor pode propor aos alunos que desenvolvam um projeto de coleta e registro de músicas que falam da natureza. Podem ser músicas folclóricas ou da MPB. Pedir sugestões aos pais e avós sobre músicas antigas. Depois de realizar esse projeto, escreva para o jornal: jornal@editoradimensao.com.br Sons da vida EducaçãoAmbiental Arquivo Rosangela Guerra * O projeto Tom da Mata é fruto da parceria do Instituto Antônio Carlos Jobim, Fundação Roberto Marinho e Furnas Centrais Elétricas.
  14. 14. Temos recebido o jornal Dimensão na Escola no Colégio Logosófico e gostado demais! É muito bom podermos conhecer o trabalho que nossos queridos professores realizam com os alunos. Ao ler o jornal, fica claro que há muitos profissionais empenhados em fazer educação de verdade em nosso país. Parabéns pelo trabalho! Marise Alencar - Coordenadora da Educação Infantil do Colégio Logosófico/BH. Gostei muito do jornal. A linguagem é simples, sem ser simplista, e o jornal tem um formato muito interessante para a web. Parabéns. Priscila Borges - Arcos/MG 14

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