Hipertensão arterial por coarctação de aorta em adultos

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Hipertensão arterial por coarctação de aorta em adultos

  1. 1. 192Hipertensão arterial porcoarctação de aorta em adultosSonia M. F. Mesquita, Antonio Augusto B. LopesPalavras-chave: Hipertensão arterial; Coarctação; Aorta; Cirurgia.Recebido: 12/02/02 – Aceito: 03/04/02 Rev Bras Hipertens 9: 192-198, 2002Correspondência:Sonia M. F. MesquitaUnidade Clínica de Cardiologia Pediátrica e Cardiopatias Congênitas do AdultoInstituto do CoraçãoAv. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44CEP 05403-000 – São Paulo, SPTel./Fax: (11) 3069-5347E-mail: consonia@incor.usp.brResumoA hipertensão arterial secundária à coarctação da aortatemaltaprevalência,mesmoentreospacientesoperadoscomsucesso. Estes pacientes estão expostos a riscos de mor-bidade e mortalidade cardiovascular decorrentes de com-plicaçõesdahipertensãoarterial.Nesteartigo,sãoabordadosMesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002os fatores relacionados à hipertensão arterial em portadoresde coarctação de aorta, com ênfase nos aspectos anatômicosda malformação, da história natural e da evolução pós-ope-ratóriatardia.Tambémsãodiscutidososresultadosdacirurgiasobre o comportamento da pressão arterial e sobre a morbi-dadeemortalidadecardiovascularempacientesadultos,easprincipais complicações da coarctação de aorta não tratada.IntroduçãoA hipertensão arterial secundária àcoarctação da aorta constitui-se emumasituaçãopreocupantepelasuaaltaprevalência, até mesmo entre ospacientesoperadoscomsucesso.Aindanãoexisteumconsensoqueestabeleçaa razão pela qual esse evento ocorre.Tanto os pacientes que seguem ahistória natural quanto aqueles querepresentam a evolução pós-operató-riatardiadamalformaçãoestãoexpos-tosariscosdemorbidadeemortalidadecardiovascular decorrentes das com-plicações da hipertensão arterial1.Vários fatores necessitam ser con-sideradosquandoseintencionaanalisara hipertensão arterial em pacientesportadores da coarctação da aorta.Entre esses é fundamental conhecer osubstrato anatômico da malformaçãoe suas modificações por ocasião deprocessos fisiológicos, patológicos epor procedimentos cirúrgicos.O impacto dessas variáveis sobreas condições anatômicas da malfor-mação pode muitas vezes ser respon-sável pelo desenvolvimento da hiper-tensão arterial e com conseqüênciasque podem comprometer a expecta-tiva de vida dos pacientes.Paralelamente aos fatores estru-turais acredita-se que haja também ainteração desses com os fatores fisio-patológicosquenãodependemdaépo-ca da correção cirúrgica e podemocorrer mesmo na ausência de lesõesresiduaissignificativas.ConsideraçõesanatômicasA coarctação da aorta típica con-sisteemumestreitamentoaolongodotrajeto dessa grande artéria. O localmais freqüentemente acometido é osegmento distal do arco aórtico. Alesão característica1 é uma deformi-
  2. 2. 193Mesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002dade da parede arterial apresentandona maior parte das vezes uma pregasalienteoudiafragmaqueestreitaaluz,além de ocasionar desorganização dascélulasmuscularesefibraselásticasdatúnica média. A proximidade da lesãocom a artéria subclávia esquerda ecomoligamentoarterioso,bemcomooaspectohistológicodotecidodaprega,levaram à hipótese de que tal tecidoseja originário do canal arterial.Oresultadodessacondiçãoéahiper-tensãoarterialnosmembrossuperiores.Menos freqüentemente, a coarctaçãoda aorta ocorre na porção proximal daartéria subclávia esquerda, sendo que,nesse caso, observa-se diferença depressão arterial entre os membros su-periores. Extensa circulação arterialcolateral para a porção distal do corpo,através das artérias torácica interna,intercostal, subclávia e escapular, fre-qüentemente,apresentam-sedesenvol-vidas especialmente em crianças maisvelhas, adolescentes e adultos.História naturalNo período neonatal, os bebês queforem sintomáticos apresentam altorisco de mortalidade e, em geral,falecem precocemente quando nãotratados, por quadro de insuficiênciacardíaca. Por outro lado, as criançasou adultos assintomáticos desenvol-vem complicações em fases mais tar-dias da vida, decorrentes de intercor-rências relacionadas com a hiperten-são arterial como dilatação aneuris-máticadaaortacom possibilidadesdedissecção e rotura, acidente vascularcerebral e coronariopatias.Em geral, as conseqüências dahipertensãoarterialocorremporvoltada2a e 3a décadasdavida,naformaderotura da aorta ou hemorragia intra-craniana, decorrente de aneurisma dopolígono de Willis2. Além da hiper-tensão arterial, podem associar-se àevolução clínica as manifestações decalcificaçãodavalvaaórticabicúspide,o que se constitui em fator agravanteao substrato anatômico preexistente.Ainsuficiênciadavalvaaórticaisoladaou associada à disfunção da mitralpredispõeaodesenvolvimentodeinsu-ficiência cardíaca e endocardite in-fecciosa. Complicações de dissecçãoaórtica, lesões ateroscleróticas eendoarterites no local da coarctaçãosão eventos que podem ocorrer apartir da 4adécada da vida2.Os dados de revisão da histórianaturalreportadosporCampbell3mos-traram que, dos pacientes que sobre-viveram ao primeiro e segundo ano devida,25%faleceramantesdos20anos,50% aos 32 anos, 75% aos 46 anos e90%aos58anosdeidade.Sãorarososrelatos na literatura de sobrevida alémda sétima década da vida. Um dospacientes mais idosos reportado apre-senta 79 anos de idade4, sendo que,além da coarctação da aorta, evoluiucom aneurisma da aorta, hipertensãoarterial severa e comprometimentorelevante da função ventricular.Evolução pós-operatóriaA primeira operação para a cor-reção da coarctação da aorta foi reali-zada por Clarence Crafoord em 1944,quando se efetuou a ressecção daáreacoarctadaeanastomosetérmino-terminal5.Desdeentão,váriastécnicascirúrgicas tornaram-se disponíveisvisando à correção da anomalia, nor-malização da pressão arterial sistê-mica, redução da prevalência dacoarctação residual e melhores resul-tados na sobrevida. No entanto, aincidência de recoarctação, hiperten-são arterial sistêmica ou ambas con-tinuam sendo um problema na evolu-ção dos pacientes operados.RecoarctaçãoEntre os fatores que contribuempara o aparecimento da recoarctaçãoda aorta estão incluídos a idade e opesodopaciente,porocasiãodotrata-mento operatório e a técnica cirúrgicaempregada.Tanto os dados de nossa observa-ção como os reportados na literaturamostram que, quanto mais jovem acriança, especialmente aquelas queapresentam idade inferior a 6 meses,maior é a possibilidade de apresen-taremcoarctaçãoresidualourecorren-te e menor a probabilidade de seremhipertensosnaevoluçãopós-operatóriatardia6-8.Poroutrolado,osucessodaopera-ção em pacientes com idades maisavançadas é prejudicado, com menorsobrevida em razão de complicaçõescardiovasculares e maior prevalênciadehipertensãoarterial(19,9%a68%)em relação à população geral9,10. Va-le ainda ressaltar que mesmo ospacientes operados no período neo-natal apresentam a probabilidade emtorno de 10% de serem hipertensosquandocomparadoscomapopulaçãogeral9.EmumaoutrapublicaçãoBrouweret al.10referem que, além da idade naépoca da operação, o baixo peso é umfator de prognóstico desfavorável naevolução pós-operatória tardia.Um outro aspecto que continuasendo amplamente discutido na lite-ratura refere-se ao tipo de técnicacirúrgica utilizada. A utilização daistmosubclavioplastia, nos primeirosmesesdevida,temsidorecomendada,pelos índices menos expressivos decoarctação recorrente (4% a 7%),quandocomparadaàtécnicatérmino-terminal (38% a 42%)11,12. Noentanto, na experiência de outrosautores6,13, não há vantagem emtermos de recoarctação e mortali-dade ao compararem as referidastécnicas, até porque consideram quea istmosubclavioplastia pode trazerseqüela no membro superior es-querdo por contratura tardia do tecidoístmico.
  3. 3. 194Mesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002Os resultados da técnica deaortoplastia com retalho apresentouna casuística reportada por Messmeret al.14 elevados índices de recoarcta-ção.Essefatofoiatribuídoasituaçõesmais graves da anomalia e que, por-tanto, justificaram durante o proce-dimentocirúrgicoousoderetalhosnacorreção15-17.Pelos dados mencionados con-cluíram que o maior determinante daevolução pós-operatória está rela-cionado com o aspecto anatômico damalformação e não diretamente coma técnica cirúrgica empregada. Essefatopodeexplicaraamplavariabilidadedosíndicesdeprevalênciadecoarcta-ção recorrente (5% a 60%) reportadasna literatura7,10,11,18,19.Do ponto de vista clínico existemmuitasdificuldadesparaseestabelecerodiagnósticoderecoarctação.Aobten-çãodogradientesistólicopordiferentesmétodoscomomedidassimultâneasdapressãoarterialnosmembrossuperiorese inferiores com esfigmomanômetro,gradientedepicopeloecocardiogramabidimensionalcomDoppleroumedidadireta pelo cateterismo cardíaco nemsempre resultam em parâmetrofidedigno para o diagnóstico derecoarctação20. Situações como, porexemplo, o desenvolvimento dacirculaçãocolateralque,mesmoapósacirurgia permanece, pode reduzir avalidade do gradiente sistólico. Umoutro exemplo está relacionado com apresençadegrauvariáveldehipoplasiadoarcoaórtico21 que,emgeral,superes-timaosvaloresdogradienteobtidopeloestudo ecocardiográfico.Assim,osmétodosdiagnósticosnãodevemseranalisadosisoladamente,poisestão sujeitos a limitações. A utilizaçãoda ressonância magnética pela boaresolução e nitidez das imagens tempermitidoumaanálisemaiscriteriosadoarcoaórtico,localizaçãoemagnitudedosestreitamentosnativosouresiduais22,23eograudedilataçãodaaortadescendente.A figura 1 ilustra esses aspectos.Hipertensão arterialOtratamentocirúrgicodacoarcta-ção da aorta reduz a prevalência dahipertensãoarterialemváriosestudosreportados na literatura. No entanto,esse dado apresenta ampla variabili-dade nas séries estudadas. Esse fatopode ser justificado pela dificuldadedeseestabeleceremcomparaçõesdosgrupos estudados quanto à idade porocasião do procedimento cirúrgico,quanto ao tempo de evolução pós-operatória e pelos critérios utilizadospara definir a hipertensão arterial24,25.As observações de Perloff26 mos-traram que, entre os pacientes ope-rados durante a infância, 90% apre-sentaram-se normotensos cinco anosapós a cirurgia, 50% eram normo-tensos na evolução pós-operatória de20 anos e apenas 25% permaneceramnormotensos25anosapósacorreção.A maior freqüência da hipertensãoarterialempacientesquerepresentamopós-operatóriosuperiora20anosfoiconfirmada por outros autores e temsidoobjetodeestudodeváriasséries24.Em recente estudo, Amaral et al.27constataramnaevoluçãopós-operatóriade 11 anos que a prevalência dehipertensão arterial é de 19% empacientesoperadoscommenosde1anodevidaede28%entreosoperadoscomidade superior a 11 anos. Em contraste,Lerberg et al.25encontraram percen-tuaisentreosoperadoscomidadeinferiora 1 ano e superior a 10 anos de 23,52%e 21,15%, respectivamente.A casuística reportada porKaemmerer et al.8 mostrou que, entreos 44 pacientes operados na idadeadulta,72% apresentaram comporta-mentopatológicodapressãoarterialemrepouso ou durante o exercício. Essesdados justificam o controle pós-operatório tardio e o uso de terapêuticaanti-hipertensivasemprequenecessária.Além dos aspectos da prevalênciada hipertensão arterial, um outrobastante controverso e ainda não bemesclarecidoestárelacionadoàetiologiadahipertensãoarterialapósacorreçãoda coarctação da aorta. Várias espe-culações intencionam explicar essaocorrência. A correção tardia da mal-formação28, a técnica operatória29, arecoarctação2, a hipoplasia do arcoaórtico21,aconcomitânciadahiperten-são essencial, alterações do sistemarenina-angiotensina30 e aumento dotônus simpático30 são fatores que têmsidoapontadoscomoresponsáveispelodesenvolvimentodahipertensãoarte-rialnaevoluçãopós-operatóriatardia.No entanto, um fato que tem sidopreocupanteeobjetodeváriosestudosestá relacionado com os pacientes queapresentamtratamentocirúrgicobem-sucedido, normotensos em repouso eFigura 1 – Angiorressonância nuclear magnética em paciente de 30 anos de idadeportador de coarctação da aorta. Observam-se com nitidez a área de coarctação eacentuada dilatação pós-estenótica.
  4. 4. 195Mesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002respostahipertensivaaosesforços31-35.Para explicar essa situação tem sidosugerida a presença de reatividadeanormaldosvasosposicionadosacimada região da coarctação da aorta36.Mais recentemente, Ross et al.30demonstraram elevada concentraçãoplasmáticadaatividadedanorepinefrinaedareninanopicodeesforçotantonospacientes que se apresentavamhipertensosemrepousocomonaquelesqueeramnormotensos.Noentanto,osvalores observados foram maisexpressivos entre os hipertensos emrepouso. A resposta hipertensiva aoesforço poderia ser relacionada àvasoconstrição periférica, secundáriaaoaumentodaatividadesimpáticaedarenina plasmática.Para outros autores, a constataçãode maior quantidade de colágeno doquedemúsculolisonosegmentoaórticoacima da coarctação sugere que aparede da aorta nessa região é maisrígida do que na região pós-coarcta-ção37. Essa alteração anatômica po-deriainfluenciarosbarorreceptoresdoleito vascular superior de forma quecontribua na manutenção de pressõesmais elevadas. Medidas do índicerigidez na área da coarctação e regiãoproximal através da ultra-sonografiaintravascularconfirmaramarigidezdaaorta proximal à região da coarctação.Umoutroestudointeressantereali-zadopelaimuno-histoquímica38 mostraquesegmentoshipoplásicosdaaortaeaorta ascendente apresentam maiorquantidade de colágeno quandocomparados com espécimes normais.Esses achados mostram que fatoresestruturaispodemestarenvolvidosnagênese da hipertensão arterial.Na opinião de Roegel et al.39 ainteração de componentes neuroen-dócrinos e vasculares merecem umaconotaçãoespecialpelapossibilidadedeestarem também envolvidos nos me-canismos de regulação da pressãoarterial em pacientes operados decoarctação da aorta. Observaram quedos 45 pacientes estudados, 40% delesapresentavamcomportamentoanormalda pressão arterial tanto em repousocomo no teste ortostático. Desses, pu-deramconstatarqueoníveisplasmáticosda adrenalina e da aldosterona estavamelevados em 50% dos pacientes.O objetivo do trabalho de Ross etal.40 foi de estabelecer o comporta-mentodaspressõessistólicaediastólicado fator natriurético nas condições derepouso,nopicomáximodoexercícioe na fase de recuperação em pacientesqueseencontravamnopós-operatóriotardio da coarctação da aorta. Osresultadosforamanalisadoscombaseem um grupo-controle e encontram-se disponíveis nas figuras 2 e 3.Como podemos observar nos grá-ficos os autores constataram que apressão diastólica, nos primeirosminutosdarecuperaçãodospacientesoperados,foisignificativamentemaiorque no grupo-controle. Esse achadodenota o aumento do tônus vascular eda pós-carga que pode secunda-riamentecomprometertambémapós-carga atrial. Quanto ao fator natriu-rético, observaram diferença estatís-tica significativa no pico do exercícioFigura 2 – Pressão sistólica e diastólica de 31 pacientes operados (linhas contínuas)na condição basal, no pico do exercício e 5 e 15 minutos após exercício.*Constatou-se diferença estatística significativa dos valores da pressão diastólicanos primeiros 5 minutos após o pico do exercício (p < 0,05)40.Figura 3 – Concentração do fator natriurético (FN) no grupo de pacientes operadose controle. Observou-se diferença estatística significativa nas condições ilustradas*p < 0,05; ** p < 0,0540.FN pg/mlBasal Pico RecuperaçãoPacientes Controles1200****10080604020
  5. 5. 196Mesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002atéosprimeiros15minutosdafasederecuperação, sendo que maioresvalores foram também observadosentre os pacientes operados.Constataram ainda ampla variaçãodapressãodiastólica,nopicodoexercí-cio entre os operados, o que foi justifi-cadopelascondiçõeshistológicasdoarcoaórtico proximal à coarctação (maiorquantidade de colágeno e redução daelasticidade),quandocomparadocomaparede distal da aorta. Em razão dessasalterações, puderam inferir que a com-plascência da aorta está comprometidae poderia em situações de estressefísico elevar tanto a pós-carga ventri-cularcomoaatrialesquerda.Oaumentoda produção do fator natriurético podeseroresultadodoacréscimodapressãoarterialduranteoexercícioouatémes-mo ser responsável pela produçãoadicional do peptídeo, como tem sidodemonstrado em pacientes adultos,portadores de hipertensão arterialessencial não tratados.ComplicaçõesUmadasprincipaiscomplicaçõesdotratamento cirúrgico da coarctação daaorta é o aneurisma da aorta. Em geral,odesenvolvimentodesteestárelacionadocom os pacientes que se submeteram àartoplastiacomretalho.Algunsfatores,comoatensãoexercidanaparedeaórticacontralateral à do retalho, a respostainflamatórianolocaldoretalho,apersis-tênciadotecidoductalnosítiodaanasto-mose, favorecem a formação de aneu-rismas41.A hipertrofia concêntrica do ven-trículo esquerdo é uma outra compli-cação que decorre da manutenção, alongo prazo, da hipertensão arterial.Constitui-se em uma forma típica deadaptação do coração ao aumentopersistentedahipertensãoarterial42,43.Assim,asconseqüênciasdahipertrofiaventricularesquerdanospacientesqueforam submetidos à correção dacoarctação da aorta podem resultarem isquemia miocárdica44, desenvol-vimentodearritmias,insuficiênciacar-díacaeaceleraçãodoprocessoateros-clerótico.Osaspectosfisiopatológicosdessa entidade encontram-se bemdefinidos na literatura. Hoje, nãoexistem dúvidas de que as alteraçõesdosmiócitosporsubstânciasadrenér-gicas,pormodificaçõesintracelularesdometabolismodocálcioesódioeatémesmoasubstituiçãodosmiócitosportecidoconectivo,podemocorrerquan-doomiocárdioventricularestáexpostoà sobrecarga de pressão.Em razão desses aspectos, ospacientes que se encontram no pós-operatório tardio da coarctação daaortaeapresentamhipertensãoarterialpersistente ou desenvolvem compor-tamento anormal desta durante oesforço físico estão expostos a grauvariável de hipertrofia ventricular.Esses dados encontram suporte noestudo de Kimball et al.34, uma vezqueconstataram,nafaixaetáriapediá-trica,queamassaventricularesquerdafoimaisexpressivaempacientesope-rados do que no grupo-controle. Asobservações de outros autores45 tam-bém demonstraram que os pacientesoperadosmaistardiamenteevoluíramcom aumento da massa ventricular ealterações da função sistólica e dias-tólica do ventrículo esquerdo. No en-tanto, para outros ainda46, a funçãosistólica do ventrículo esquerdo apre-sentou-se normal nos pós-operatóriotardio, tanto em pacientes operadosaté o primeiro ano de vida comonaqueles operados mais tardiamente.Orientação para otratamento dahipertensão arterialde pacientes empós-operatório tardioCombasenapossibilidadedecom-plicações tardias dessa malformaçãotorna-se importante o acompanha-mento clínico do paciente com orien-taçãodemedidasperiódicasdapressãoarterialeavaliaçãodocomportamentodestaduranteotestedeesforço.Esseselementos fornecem subsídios para ouso ou não de terapêutica medi-camentosa.Noentanto,peloamploespectrodefatoresquepossamestarenvolvidosnagênese da hipertensão arterial empacientes que resultam do pós-ope-ratório dessa malformação, existemdificuldades para se estabelecer umaterapêutica adequada e eficaz notratamento. O uso de betabloquea-dores cardiosseletivos47 tem mostradoefeitos benéficos, especialmente entreos pacientes que apresentam hiper-tensãoarterialaoesforçofísico.Nossaexperiênciatemsidosimilaraosresul-tados reportados na literatura, pois obloqueio dos estímulos beta-adrenér-gicos reduz de forma efetiva a pressãoarterialdospacientesqueseapresentamhipertensos em repouso ou no exercí-cio,mesmoapósacorreçãodamalfor-mação.Uma outra opção de tratamentosão as drogas inibidoras da enzimaconversora da angiotensina. O efeitobenéfico da terapêutica está relacio-nadocomareduçãotantodapré-cargacomo da pós-carga e ela deve serutilizada sempre que houver sinais dedisfunção sistólica do ventrículoesquerdo. Além disso, a medicaçãocolabora na melhora da funçãodiastólica e no processo de remode-lação do ventrículo esquerdo.A associação dos betabloquea-dores cardiosseletivos com as drogasinibidoras da angiotensina deve serreservada para os casos de difícilcontrole da pressão arterial. Situaçãoessa que, em geral, está relacionadaà disfunção sistólica e diastólica doventrículo esquerdo que pode ocorrertanto no primeiro ano de vida comoem fases mais tardias, em razão dodesenvolvimento do processo ateros-clerótico.
  6. 6. 197Mesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002Referências1. Brickner ME, Hillis D, Lange RA.Congenital heart disease in adults. N EngJ Med 2000; 342: 256-63.2. Schlant RC, Alexander RW (eds.).Hursts the heart: arteries and veins. 8thed. Sonnenblick: McGraw-Hill Inc.,1990; vol. II, pp. 1787-90.3. Campbell M. Natural history ofcoarctation of the aorta. Br Heart J 1970;32: 633-40.4. Patel Y, Jilani MI, Cho K. Coarctation ofthe aorta presenting in a 79-year-old male.ThoracCardiovascSurg1998; 46: 158-60.5. CrafoordC,NylinG.Congenitalcoarctationof the aorta and its surgical treatment. JThorac Surg1945; 14: 347-61.6. Van Son JAM, Daniëls O, Vicent JG,Van Lier HJJ, Lacquet LK. Appraisal ofresection and end-to-end anastomosis forrepair of coarctation of the aorta ininfancy: preference for resection. AnnThorac Surg 1989; 48: 496-502.7. Kappetein AP, Zwinderman AH, BorgersAJJC, Rohmer J, Huysmans HA. Morethan thrirty-five years of coarctation repairan unexpected high relapse rate. J ThoracCardiovasc Surg1994; 107: 87-95.8. Kaemmerer H, Oelert F, Bahlmann J,Blucher S, Meyer GP, Mugge A. Arterialhypertension in adults after surgicaltreatment of aortic coarctation. ThoracCardiovasc Surg 1998; 46: 121-5.9. Brouwer MHJ, Erasmus ME, Ebels T,EijgelaarA.Influenceofageonlatesurvival,late hypertension, and recoarctation inelective aortic coarctation repair. J ThoracCardiovasc Surg 1994; 108: 525-31.10. Brouwer MHJ, Kuntze EE, Ebels T,Talsma MD, Eijgelaar A. Repair of aorticcoarctation in infants. Thorac CardiovascSurg 1991; 101: 1093-8.11. Sciolaro C, Copeland J, Cork R,Barkenbush M, Donnertein R, GoldbergS. Long-term follow-up comparingsubclavian flap angioplasty to resectionwith modified oblique end-to-endanastomosis. Thorac Cardiovasc Surg1991; 101: 1-13.12. Merrill WH, Hoff SJ, Stewart JR, ElkinsCC, Graham TP, Bender HW. Operativerisk factors and durability of repair ofcoarctation of the aorta in neonates. AnnThorac Surg 1994; 58: 399-403.13. Cobanoglu A, Teply JF, GrunkemeierGL, Sunderland CO, Starr A. Coarctationof the aorta in patients younger thanthree months. A critique of subclavianflap operation. J Thorac CardiovascSurg 1985; 89: 128-35.14. Messmer BJ, Minale C, Mühler E,Bernuth G. Surgical correction ofcoarctation in early infancy: does surgicaltechnique influence the result? AnnThorac Surg 1991; 52: 594-603.15. Knott-Craig CJ, Elkins RC, Ward Ke etal. Neonatal coarctation repair. Influenceof technique on late results. Circulation1993; 88: 198-204.16. Malan JE, Benatar A, Levin SE. Long-term of coarctation of the aorta repairedby patch angioplasty. Int J Cardiol 1991;30: 23-32.17. Quaegebeuer JM, Jonas RA, WeinbergAD,BlackstoneEH,KirklinJW. Outcomesin seriously ill neonates with coarctationof the aorta. A multiinstitutional study.J Thorac Cardiovasc Surg 1994; 108:841-54.18. Korbmacher B, Krogmann ON, SchmittHH, Heusch A, Bourgeoius M. Long-term outcome of 110 neonates withcritical coarctation. Cardiol Young 1996;6(suppl): S-39.19. Pfammatter JP, Ziemer G, Kallfelz HC.End-to-end resection for isolatedcoarctation – comparison of results inneonates and infants. Cardiol Young1996; 6(suppl): S-36.20. Hanley FL. The various therapeuticapproaches to aortic coarctation: is it fairto compare? J Am Coll Cardiol 1996; 27:471-2.21. Zannini L, Gargiulo G, Albanese SB etal. Aortic coarctation with hypoplasticarch in neonates: a spectrum of anatomiclesions requiring different surgicaloptions. Ann Thorax Surg 1993; 56:288-94.22. Parga Filho J, Ávila L, Kajita L et al.Coarctação da aorta: estudo anátomo-funcional pela ressonância magnética. RevSoc Cardiol ESP 1997; 7(suppl): 29.23. Mendelsohn AM, Banerjee A, DonnellyLF, Schawartz DC. Is echocardiographyor magnetic resonance imaging superiorfor precoarctation angioplasty evaluation?Cathet Cardiovasc Diagn 1997; 42:26-30.24. Presbitero P, Demarie D, Villani M et al.Long-term results (15-30 years) ofAbstractArterial hypertension due to coarctation of theaorta in adultsArterial hypertension due to coarctation of the aortahas a high prevalence, even in those succesfully treated bysurgery. These patients remain at a higher cardiovascularrisk related to the complications of arterial hypertension.Keywords: Arterial hypertension; Coarctation; Aorta; Surgery.Rev Bras Hipertens 9: 192-198, 2002We describe the factors related to arterial hypertension inpatients with coarctation of the aorta, emphasizing theanatomic aspects of the malformation, the natural historyand the long-term follow-up of the surgery. We alsodiscusstheresultsofthesurgiclatreatmentonthebehaviorof the blood pressure and on the cardiovascular morbidityandmortalityinadults,andthemajorcomplicationsofthenon-treated coarctation of the aorta.
  7. 7. 198Mesquita SMF, Lopes AAB Rev Bras Hipertens vol 9(2): abril/junho de 2002surgical repair of aortic coarctation. BrHeart J 1987; 57: 462-7.25. Lerberg DB, Hardestry RL, Siewers ED,Zuberbuhler JR, Bahnson HT.Coarctation of the aorta in infants andchildren: 25 years of experience. AnnThorac Surg 1982: 33: 159-70.26. Perloff JK. Survival patterns withoutcardiac surgery or interventionalcatheterization: a narrowing base. In:Perfloff JK, Childs JS (eds.). Congenitalheartdiseaseinadults.2nded.Philadelphia:W.B. Saunders, 1998; pp. 15-53.27. Amaral FTV, Granzotti JA, Nunes MA,Somerville J. Qualidade de vida apóscorreção cirúrgica de coarctação da aorta:análise retrospectiva de um grupo depacientes seguidos a longo prazo. ArqBras Cardiol 1997; 68: 421-7.28. Bergdahl L, Björk VO, Jonasson R.Surgical correction of coarctation of theaorta. Influence of age on late results. JThorac Cardiovasc Surg 1983; 85: 532-6.29. Nanton MA, Olly PM. Residualhypertension after coarctectomy inchildren. Am J Cardiol 1976; 37: 769-72.30. Ross RD, Clapp SK, Gunther S et al.Augmented norepinephrine and renninoutput in response to maximal exercise inhypertensive coarctectomy patients. AmHeart J 1992; 123: 1293-9.31. Guenthard J, Wyler F. Exercise-inducedhypertension in the arms due to impairedarterial reactivity after successfulcoarctation resection. Am J Cardiol 1995;75: 814-7.32. Sigurdardottir LY, Helgason H. Exercise-induced hypertension after correctivesurgery for coarctation of the aorta.Pediatr Cardiol 1996; 17: 301-7.33. Engvall J, Sonnhag C, Nylander E,Stenport G, Karlsson E, Wranne B. Arm-Ankle systolic blood pressure differenceat rest and after exercise in the assessmentof aortic coarctation. Br Heart J 1995;73: 270-6.34. Kimball TR, Reynolds JM, Mays WA,Khoury P, Claytor RP, Daniels SR.Persistent hypertynamic cardiovascularstate at rest and during exercise inchildren after successful repair ofcoarctation of the aorta. JACC 1994; 24:194-200.35. Salzer-Muhar U, Kaliman J, WimmerM, Salzer HR, Sheibelhofer W. Exercisetesting after surgical repair ofcoarctation of the aorta. Pediatr Cardiol1987; 8: 17-22.36. Gidding SS, Rocchini AP, Moorehead C,Shork MA, Rosenthal A. Increasedforearm vascular reactivity in patientswith hypertension after repair ofcoarctation. Circulation 1985; 71: 495-9.37. Sehested J, Baandrup U, Mikkelsen E.Different reactivity and structure of theprestenotic and postestenotic aorta inhuman coarctation. Implication forbaroreceptor function. Circulation 1982;65: 1060-5.38. Machii M, Becker AE. Hypoplasticaortic arch morphology pertinent togrowth after surgical correction of aorticcoarctation. Ann Thorac Surg 1997; 64:516-20.39. Roegel JC, Heinrich E, De Jong W,Stephan D, Charpentier A, Eisenmann B,Imbs JL. Vascular and neuroendocrinecomponents in altered blood pressureregulation after surgical repair ofcoarctation of the aorta. J Hum Hypertens1998; 12: 517-25.40. Ross RD, Clapp SK, Gunther S et al.Increased atrial natriuretic factorresponse to exercise after coarctationrepair. Am J Cardiol1992; 69: 1370-2.41. Bromberg BI, Beekman RH, RocchiniAP, et al. Aortic aneurysm after patchaortoplasty repair of coarctation: aprospective analysis of prevalence,screening tests and risks. J Am CollCardiol 1989; 14: 734-41.42. Messerli FH, Saria F. Hypertension, leftventricular hypertrophy, ventricularectopy and sudden death. Am J Med1992; 93: 215-65.43. Frohlich ED. The first Irvine H. Lagelecture: The mosaic of hypertension:past, present and future. J HypertensSuppl 1988; 6(suppl. 4): 2-11.44. Dunn FG, Pringle SD. Left ventricularhypertrophy and myocardial ischemia insystemic hypertension. Am J Cardiol1987; 60:191-21.45. Ong CM, Canter CE, Gutierrez FR,Sekarski DR, Goldring DR. Increasedstiffness and persistent narrowing of theaorta after successful repair ofcoarctation of the aorta: relationship ofleft ventricular mass and blood pressureat rest and with exercise. Am Heart J1992; 123: 1594-600.46. Moskowitx WB, Schieken RM,Mosteller M, Bossano R. Alteredsystolic and diastolic function inchildren after “successful” repair ofcoarctation of the aorta. Am Heart J1990; 120: 103-9.47. Kavey REW, Cotton JL, Blackman MS.Atenolol therapy for exercise-inducedhypertension after aortic coarctationrepair. Am J Cardiol1990; 66: 1233-6.

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