Doenças do quadril

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Doenças do quadril

  1. 1. 96 Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003Bruns et al.ARTIGO DE REVISÃOREVIEW ARTICLEDoenças do quadril: avaliação clínica e por imagem(*)Hip diseases: clinical evaluation and imaging examsAlessandra Bruns(1), Wanda ChiyokoTaguchi Iwakami(2), Rozana Mesquita Ciconelli(3)e Artur da Rocha C. Fernandes(4)* Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP). Recebido em 3/12/2001. Aprovado, após revisão, em 29/7/2002.1. Pós-graduanda da disciplina de Reumatologia do Departamento de Clínica Médica da EPM/UNIFESP.2. Pós-graduanda do Departamento de Diagnóstico por Imagem da EPM/UNIFESP.3. Professora visitante doutora da disciplina de Reumatologia do Departamento de Medicina da EPM/UNIFESP.4. Professor adjunto do Departamento de Diagnóstico por Imagem da EPM/UNIFESP.Endereço para correspondência: Alessandra Bruns. Rua Primeiro de Janeiro 450/35, Vila Clementino, São Paulo/SP, CEP: 04044-060, e-mail: alebruns@uol.com.brRESUMOEstabelecer o diagnóstico preciso das principais doenças que aco-metem o quadril representa um grande desafio, por tratar-se de umaarticulação de difícil manejo e de movimento simultâneo com ou-tras articulações. Daí, a importância dos diversos exames de imagem,que complementam e aprimoram a investigação diagnóstica.Palavras-chave: quadril, doenças do quadril, exames de imagem.ABSTRACTStablishing an accurate diagnosis of the main diseases that affectthe hip represents a great challenge because it is a joint ofdifficult access and also it works in conjunction with othersjoints. Therefore, the importance of doing various image examsthat complement and improve the diagnostic investigation.Keywords: hip, hip diseases, imaging exams.tadas ou tratadas de forma inadequada. Em outros casos,mesmo tendo sido tratadas corretamente, continuam pro-vocando dor e incapacidade para a vida adulta. A Tabela1(1)mostra as doenças que acometem o quadril e o momentode seu surgimento.INTRODUÇÃOA articulação do quadril é de extrema importância na mar-cha e sustentação do peso corporal. As doenças que com-prometem o quadril provocam distúrbio na marcha e dorespecialmente durante a locomoção. Várias dessas doençastêm início em fases precoces da vida, muitas não sendo tra-TABELA 1DOENÇAS DO QUADRIL(*)Nascimento Displasia; Luxação congênitaInfância Artrite séptica; Tuberculose; Coxa vara congênita; Sinovite transitória; Doença de Perthes;Artrite reumatóide juvenil sistêmica; Epifisiólise proximal do fêmur; Tumores benignos; Osteocondrite dissecanteAdulto jovem Espondilite; Artrose secundária à displasia; Tumores malignos; Osteonecrose; Osteoporose transitóriaMeia-idade Tumores malignos; Artrite reumatóide; Artrose secundária a outras doenças; OsteonecroseIdade avançada Tumores metastáticos; Doença de Paget; Artrose primária* Tabela modificada. Moreira C, Carvalho MAP. Reumatologia Diagnóstico e Tratamento. Segunda edição. Medsi. Quadril. 203-220, 2001.
  2. 2. Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003 97Doenças do quadril: avaliação clínica e por imagemANATOMIA FUNCIONAL DO QUADRILA articulação do quadril é do tipo esferoidal e formada pelacabeça redonda do fêmur e pela cavidade do acetábulo emforma de taça. Tal conformação oferece ampla mobilidadee grande estabilidade, que também é assegurada pela resis-tente cápsula fibrosa e pelos poderosos grupos muscularesque cruzam a articulação(2).A cabeça femoral é inteiramente coberta por cartilagemhialina, exceto na fóvea, onde se insere o ligamento redondo.O colo femoral, de 8 a 10 cm de comprimento, forma umângulo de 125° a 140° com o fêmur. A coxa vara ocorrequando este ângulo é menor que 125° e a coxa valga quandoé maior que 140°. Duas proeminências ósseas se projetam docolo femoral: o trocanter maior, situado lateralmente, ondese inserem muitos dos músculos glúteos e o trocanter menor,situado medialmente, onde se inserem os flexores do quadril.Os trocanteres são unidos anteriormente pela linha intertro-cantérica e posteriormente pela crista intertrocantérica(2).O acetábulo é formado pela união do ílio, ísquio e pube. Aocontrário da fossa glenóide da escápula, que é rasa, o acetábuloé mais profundo e portanto oferece alguma estabilidade intrín-seca à articulação. Além disso, sua margem é coberta por fi-brocartilagem, o lábio do acetábulo, que aumenta a profundi-dade da cavidade e a estabilidade articular. A margem inferiordo acetábulo ou incisura acetabular é coberta pelo ligamentoacetabular transverso e permite a passagem do ligamento re-dondo que contém um pequeno ramo da artéria obturatória,responsável pelo suprimento sangüíneo da fóvea(2).A superfície externa da cápsula articular fibrosa é cobertapor três fortes ligamentos: o iliofemoral, o isquiofemoral e opubofemoral. Desses, o iliofemoral é o mais forte e o maisimportante. Encontra-se relaxado na flexão e tenso na ex-tensão, prevenindo, dessa forma, a extensão excessiva doquadril, além de ajudar a manter a postura ereta(2).Muitas bursas são encontradas na região do quadril. Astrês mais importantes clinicamente são: a trocantérica, en-tre o glúteo máximo e a face posterolateral do trocantermaior; a iliopsoas, entre o tendão do psoas e a cápsula arti-cular, lateral aos vasos femorais; e a isquioglútea, entre oglúteo máximo e a tuberosidade isquiática. O acometimen-to das bursas dos músculos glúteo mínimo e médio tambémpode levar ao quadro de dor nos quadris(2).Na maioria dos indivíduos, a artéria circunflexa femoralmedial, que é ramo da artéria femoral comum, é responsá-vel pela irrigação da cabeça e colo femorais. A fratura docolo femoral pode interromper este suprimento sangüíneo,levando à osteonecrose(2).ANATOMIA POR IMAGEM DO QUADRILRadiografia simplesA radiografia simples da bacia pode fornecer sinais que au-xiliam no diagnóstico das doenças do quadril. Pode-se rea-lizar a incidência antero-posterior com leve rotação internado fêmur para não sobrepor a cabeça ao colo femoral (Figu-ra 1), a incidência em abdução e rotação externa (“perna desapo”) para observar o contorno da cabeça femoral e o colo.Há também a incidência específica para a articulação sa-cro-ilíaca (Ferguson), mantendo o paciente em decúbitodorsal e angulando o tubo de raios-x em torno de 25oa 30ono sentido cranial(3).Pode-se caracterizar algumas linhas ósseas para verificar aintegridade óssea da pelve. São as linhas ílio-púbica, ísquio-isquiática, as paredes acetabulares e a articulação sacro-ilíaca(Figura 2). Quanto aos tecidos de partes moles, são os com-ponentes gordurosos que delineiam as estruturas musculares,permitindo caracterizar as linhas do glúteo médio, do iliop-soas e do obturador (Figura 3). Na suspeita de um derramearticular, algumas linhas podem se tornar curvas ou mesmoobliteradas, porém a boa visibilização depende de uma radi-ografia feita com técnica e posicionamento adequados(4).Umaformasimplesdeavaliaraboacoberturadacabeçafemo-ral é obtida através do ângulo de Wiberg, formado pela intersec-çãoentreaperpendiculardaretaquepassapelospontoscentraisdacabeçafemoralcomaoutraretaquepassapelocentrodacabeçaetangenciaamargemsuperiordoacetábulo,mensuradasnumara-diografia simples do quadril. O ângulo normal varia em torno deFIGURA 1 – Radiografia da bacia em incidência ântero-posterior.
  3. 3. 98 Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003Bruns et al.20° a 40°, com uma média de 36°(5). Há sinais de displasia ouluxação da cabeça femoral quando o ângulo for menor que 20°(Figura4).Podemostambémdeterminaraprotrusãoacetabular,que é caracterizada como o deslocamento medial da parede doacetábulo,ultrapassandoalinhailioisquiáticaacimade3mmnoshomenseacimade6mmnasmulheresadultas(4).Opadrãoderadiolucênciaheterogêneaexistentenoacetábu-lo e na cabeça femoral não deve ser confundido com alteraçõespatológicas. Na região superior acetabular é comum observar-mos uma área triangular de maior radiolucência e também naregião metafisária do fêmur, em forma de arco(4)(Figura 5).Ultra-sonografiaOexamedeultra-sonografiaapresentavantagensemcomparaçãocomaressonânciamagnética,porsermaisbarato,defácilmanuseioe rápido na realização do exame, porém depende de operador eaparelho. Na articulação do quadril, o ultra-som pode caracterizarderrame articular, espessamento da membrana sinovial, irregulari-dade da cortical óssea, da bursa trocantérica e do psoas, quandoacometidos.Coleçõesoumassasdosgrupamentosmuscularesglúte-osedacoxatambémsãofacilmentevisibilizados(5).Tomografia computadorizadaO estudo da articulação do quadril na tomografia é realizado noplanotransversal.Comoavançotecnológicoeosurgimentodatomografia helicoidal tornou-se possível obter imagens nos pla-nossagitalecoronal,graçasàstécnicasdereconstruçãomultipla-nar. O exame permite avaliar o arcabouço ósseo e também aspartes moles, como grupamentos musculares, bursas e o espaçoarticular. Porém, para as artropatias inflamatórias e infecciosasoumesmonasuspeitadeosteonecrose,aressonânciamagnéticaéapontadaatualmentecomoumdosmétodosmaissensíveisparatais alterações, oferecendo a vantagem de não utilizar radiaçãoionizante e melhor reproduzir as estruturas anatômicas(6-8).FIGURA 2A – Linhas ósseas: ílio-púbica (seta única); ílio-isquiática (setasgrossas); paredes acetabulares (setas longas).FIGURA 2B – Articulaçãosacro-ilíaca (setas).FIGURA 3 – Linhas de gordura:obturador (seta tracejada); iliopsoas (setascontínuas); glútea (cabeça de setas).FIGURA 4 – Ângulo central (normal quando maior que 25 graus).FIGURA 5 – Radiografia simples.Padrão de radiolucêncianormal: colo femoral (setaslongas); acetábulo (setas curtas).
  4. 4. Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003 99Doenças do quadril: avaliação clínica e por imagemacometidoéomasculino.Ospacientesapresentamdornoqua-dril,semfatordesencadeante,movimentoslimitadoseclaudica-ção. Geralmente há recuperação espontânea em 6 meses a 2anos.É,portanto,umdiagnósticodeexclusão,sendoimportan-te afastar os diagnósticos diferenciais como osteonecrose, fratu-ras, infecção ou até tumor através dos métodos de imagem(4).A radiografia pode apresentar-se normal ou com uma redu-ção difusa da textura óssea do fêmur proximal. Entretanto, aressonância magnética mostra alterações mais precoces à oste-openia, como o padrão de “edema medular” caracterizadopor baixo sinal na seqüência ponderada em T1 e com alto sinalquando ponderada em T2. O acometimento unilateral e ex-clusivo do fêmur poupando o acetábulo é achado positivo sig-nificativo para definir o padrão de “edema transitório” doquadril. Derrame articular pode estar associado ao quadro(4,6).2. OsteonecroseAosteonecroseéfreqüentementeobservadaemassociaçãocomdiferentes condições (Tabela 2)(2). Na vida adulta, a cabeça fe-moral é a osteonecrose mais freqüente e importante, estandorelacionada com fratura subcapital, deslocamento posterior dacabeça femoral, uso de corticosteróides, alcoolismo, gota e vas-culites; no entanto, a maioria é idiopática. Ocorre em ambosos sexos, entre a 3° e 6° décadas de vida, porém predomina emhomens na 5° década. O início das manifestações pode seragudo ou insidioso, sendo que os sintomas geralmente prece-demasalteraçõesradiológicasporváriosmeses.Adoréaqueixaprincipal, habitualmente de caráter mecânico, intermitente, lo-calizada na nádega, prega inguinal, região trocantérica, po-dendo irradiar para o joelho. Durante a evolução ocorre piorada dor com marcha claudicante(2).O principal papel dos diversos métodos por imagem está emalcançarmaiorsensibilidadenadetecçãoinicialdaosteonecrose.Aradiografia e a tomografia computadorizada não são métodos in-dicados para a fase precoce da doença, porém evidenciam altera-çõesevolutivascomoirregularidadeeesclerosedacabeçafemoralcomousemfraturasubcondral.Acintilografiaósseaéumexamesensível,porémosachadosnãosãoespecíficosparaaosteonecro-se(6). A ressonância magnética é a modalidade de imagem commaioracuráciaparaestediagnóstico(6).Oexameconsegueidenti-ficarfocosiniciaisdeisquemiaósseanacabeçafemoralantesmes-modosurgimentodealteraçõesdetectáveispelaradiografiacon-vencional. É, portanto, um método superior e sensível paracaracterizar lesões necróticas(10). Muitos trabalhos têm mostradoqueaextensãoeolocaldaslesõesestãorelacionadoscomoprog-nóstico da osteonecrose, cuja classificação pode ser determinadapelasimagensdacabeçafemoralemmúltiplosplanosobtidospelaRessonância magnéticaApesar de ser um método de estudo bastante oneroso quandocomparado a outras modalidades diagnósticas, a ressonânciamagnética permite estudar as estruturas de partes moles fre-qüentementeacometidasnasdiversasdoençasdoquadril,comomembrana sinovial, cápsula articular, bursa, grupamentos mus-culares e a medular óssea. Há também possibilidade de caracte-rizar alterações inflamatórias agudas e tentar diferenciar mo-léstias infecciosas das neoplásicas com o auxílio do meio decontraste paramagnético (gadolínio) tanto pela via endovenosaquanto intra-articular(4,6,8). Esta última permite especificamenteabordar melhor o espaço articular na procura de corpos livresou mesmo lesões da cartilagem(8).Cintilografia ósseaA cintilografia óssea, uma das modalidades da medicina nu-clear, é bastante útil nos casos em que pacientes com sinto-matologia dolorosa persistente no quadril apresentam radio-grafiaconvencionalnormal.Éummétodosensívelquepermitedetectar alterações ósseas iniciais como osteonecrose, fraturasde estresse por carga excessiva ou por insuficiência e diferenciarpatologiasdepartesmolesdasalteraçõesósseas,porém,nãoéummétodoespecíficocomoaressonânciamagnética(7,10).Variações anatômicasNa radiografia simples pode-se encontrar imagem ovalada radi-olucentecomhalodeesclerosequerepresentaochamado“her-niationpit”nocórtexdacabeçaoudocolofemoral,sendoumainvaginação da própria sinóvia e da cartilagem, que não deveser confundida com uma lesão. Esporadicamente, com o passardotempo,podehaveraumentodasdimensões,levandoàdúvi-dadiagnóstica,porém,apresençadelíquidonoseuinteriorvistana ressonância magnética determina sua natureza benigna(4,6).Opadrãoheterogêneodotrabeculadoósseonaimagemàradi-ografiapodeserconfundidocomumaalteraçãodamedularóssea,principalmente na região metafisária do colo femoral, adjacenteaotrocantermenor.Aradiografiaemabduçãodoquadrilmostraopadrãoespessadonormaldotrabeculadodaregião(4).DOENÇAS DO QUADRIL – ASPECTOSCLÍNICOS E DE IMAGEM1. Osteoporose/edema transitório do quadrilA osteoporose/edema transitório do quadril não é uma doençabemconhecidaeporissofreqüentementepassadespercebida.Aidade dos pacientes situa-se entre os 30 e 40 anos e o sexo mais
  5. 5. 100 Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003Bruns et al.3. Artrites infecciosasAs artrites infecciosas são infecções intra-articulares causadaspor um agente infeccioso conhecido, que atingem a articula-ção por via hematogênica ou mais raramente, por traumatis-moseporcontigüidade.Constituemumaocorrênciadegrandeimportância em razão das graves seqüelas articulares e mes-mo risco de vida quando não diagnosticadas e tratadas ade-quadamente. Podem ser classificadas de acordo com o agenteetiológico em bacterianas, fúngicas, parasitárias e virais(2).As artrites bacterianas constituem as principais causas deinternação em reumatologia. A gravidade que as lesões ar-ticulares podem assumir, levando inclusive à destruição ar-ticular, justifica a necessidade de diagnóstico precoce einstituição imediata de tratamento. Apresentam distribui-ções universais, independentes de raça, sexo ou faixa etá-ria, embora sejam mais freqüentes na criança e no idoso.Os sintomas dependem não somente das condições do hos-pedeiro como também da virulência da bactéria. O com-prometimento geral é variável com febre, adinamia e ca-lafrios. Nos casos mais avançados podemos observar anemia,emagrecimento e toxemia. O comprometimento articularna maioria dos casos é monoarticular, contudo, pode seroligo ou poliarticular. A articulação do quadril é a segun-da mais freqüentemente acometida tanto em crianças quan-to em adultos(2).Os achados de imagem pela radiografia são inespecíficosou até normais, principalmente nos quadros iniciais. Borra-mento ou apagamento das linhas de gordura podem inferirpresença de derrame articular. A má definição do contornoressonânciamagnética(10).Osachadosclássicosnaressonânciasãoimagens serpiginosas ou anelares que correspondem ao foco deosteonecrose na cabeça femoral, com edema medular difuso,derramearticularoufraturasubcondralassociados(6-8)(Figura6).TABELA 2FATORES ETIOLÓGICOS NA OSTEONECROSE(*)OSTEONECROSE TRAUMÁTICAFratura do colo femoralLuxação ou fratura-luxação do quadrilOSTEONECROSE NÃO TRAUMÁTICAIdiopáticaAlcoolismoHipercortisonismo: síndrome de Cushing e uso de corticoesteróidesDoenças reumáticas: lúpus eritematoso sistêmico, vasculite sistêmica,artrite reumatóide e gotaHemoglobinopatias: anemia falciforme e policitemiaPancreatiteHepatopatiaDistúrbios vasculares: trombose, insuficiência vascular periférica esíndrome de LericheDistúrbios metabólicos: diabetes mellitus, hiperuricemia, dislipidemia,doença de Gaucher, doença de Fabry e hipotireoidismoGravidez e uso de contraceptivos oraisIrradiaçãoArtropatia neuropáticaSíndrome do mal dos caixões* Klippel JH, Dieppe PA: Rheumatology. Second edition. Mosby. The hip. 4 10.1-10.8, 1998.FIGURA 6 – Ressonância magnética do quadril no plano coronal mostrando: áreas serpiginosas de osteonecrose (a); edema medular e derrame articular (b).
  6. 6. Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003 101Doenças do quadril: avaliação clínica e por imagemgrau de contratura em flexão do quadril é comum na maioriados pacientes com PEA nos estágios mais tardios da doença(2).Na AR e na PEA os achados pela imagem evidenciam oquadro evolutivo e crônico dessas doenças. Na presença dealterações degenerativas como osteófitos marginais e cistossubcorticais associados à redução do espaço articular uni oubilateral e acometimento da articulação sacro-ilíaca em pa-cientes jovens, deve ser aventada a hipótese de PEA. Umachado freqüente é a protrusão acetabular principalmenteno sentido axial, o que diferencia da osteoartrose do qua-dril. Na radiografia da pelve com protrusão acetabular, acabeça femoral aproxima-se ou até ultrapassa a linha ilio-isquiática medialmente. Não há, porém, sinais específicosque possam diferenciar a PEA da artrite psoriásica ou mes-mo da síndrome de Reiter(2,3).Na AR, a radiografia simples evidencia osteopenia, redu-ção do espaço articular de forma simétrica, erosões ósseas, eeventualmente distensão capsular por derrame articular. Noscasos mais avançados é também freqüente a protrusão aceta-bular bilateral. A ressonância magnética tem como principalobjetivo avaliar o comprometimento da membrana sinovialevidenciando a sinovite, caracterizado pelo espessamento erealce intenso da sinóvia após a injeção endovenosa do meiode contraste paramagnético (Figura 7). Comprometimentosextra-articulares como bursites (trocantérica, psoas e dos glú-teos médio ou mínimo), roturas tendíneas e alterações mus-culares secundárias também são bem caracterizadas pela res-sonância (Figura 8)(6).da cortical acetabular e do fêmur ou osteopenia tambémpodem ser indicativos de processo inflamatório intra-arti-cular(4). A ressonância magnética evidencia comprometimen-to extra-articular como abscessos no caso de tuberculose oucoleções mal definidas nas artrites bacterianas, além da ex-tensão para os grupamentos musculares. A ultra-sonografia,por sua vez, permite uma avaliação rápida e simples na de-tecção de derrame articular e sinovite, servindo como guiapara eventuais punções articulares(5).4. Artropatias inflamatóriasNa artrite reumatóide (AR) os sintomas iniciais de acome-timento do quadril podem ser uma marcha anormal ou dorna fossa ilíaca. Mesmo com a progressão da doença, o qua-dril é freqüentemente poupado. Além disso, o início da do-ença no quadril em pacientes com AR é sutil, já que ospacientes mantêm movimento sem dor até que a sinovitecause progressiva perda do espaço articular. Quando o pro-cesso erosivo simétrico se estabelece, ocorre protrusão bila-teral do acetábulo(2,3).O quadril pode ser acometido em qualquer momento dapelve-espondilite anquilosante (PEA) em 1/3 dos pacientes,mas é relativamente mais comum entre aqueles com a formade início juvenil. Se o quadril não foi afetado nos dez pri-meiros anos de duração da doença, é muito improvável que oseja mais tarde. A doença acometendo o quadril é geralmentebilateral, insidiosa e mais incapacitante do que quando en-volve qualquer outra articulação das extremidades. AlgumFIGURA 7 – Ressonância magnética do quadril no plano axial ponderadas em T1 e após o contraste (a, b): paciente com artrite reumatóide evidenciandosinovite (setas).
  7. 7. 102 Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003Bruns et al.5. Artropatias degenerativasA osteoartrose pode ser primária ou secundária às artropati-as infecciosas ou inflamatórias e luxações do quadril. A queixaprincipal de dor geralmente localiza-se na região inguinalcom irradiação freqüente para o joelho, particularmente pelamanhã. Pode estar associada à limitação da amplitude demovimento do quadril. No início, a dor manifesta-se aosgrandes esforços, mas em fases mais avançadas está presenteao repouso e à noite(2).As principais alterações detectáveis pelo método de ima-gem são a redução do espaço articular do compartimentosuperior e lateral, presença de osteófitos marginais, alteraçõessubcondrais como esclerose, irregularidades e cistos, podendoevoluir para protrusão acetabular e anquilose (Figura 9). Pro-trusões acetabulares na ausência de uma causa definida sãodenominadas de protrusões primárias ou “Otto pelvis”. Aco-metem jovens ou mulheres de faixa etária média com históriade dor, limitação na abdução e rotação desde a puberdade,com envolvimento de ambos os quadris associados a altera-ções degenerativas sem a perda do espaço articular(12).Concluindo, esta abordagem do quadril e das doenças,tanto sob o aspecto clínico quanto sob o de imagem, tevecomo principal intuito avaliar a anatomia e as principaismoléstias que podem acometer esta articulação, que muitasvezes não permite ao clínico definir um diagnóstico preci-so. Atualmente, muitas modalidades de imagens estão dis-poníveis para a avaliação das afecções no quadril. Apesardos avanços tecnológicos neste campo, como a ressonânciamagnética, a radiografia simples continua tendo papel dedestaque por ser um método simples e barato. Assim, a ava-liação inicial do quadril através da radiografia fornece mui-tas informações úteis inerentes ao quadro clínico dos paci-entes. Caso a radiografia seja normal, a cintilografia ósseapode ser útil na detecção de alterações ósseas incipientes ouacometimentos de partes moles. A ultra-sonografia, por suavez, pode detectar alterações intra-articulares como derra-me articular ou coleções e dirigir punções para fins diag-nósticos. A ressonância magnética, no entanto, é o métodode escolha para diagnósticos mais específicos, avaliandomelhor o espaço articular, a cartilagem, alterações da me-dular óssea e comprometimento de partes moles.FIGURA 9C – osteófitos marginais, irregularidade da cabeça femoral eredução do espaço articular (setas).FIGURA 8 – Ressonância magnética do quadril no plano coronalponderadas em T1 e após o contraste (a, b): bursite trocantérica (setas).FIGURA 9 – Ressonância magnética do quadril nos planos coronal (a, b) e axial(c): a – redução do espaço articular e áreas de esclerose subcondral (setas pretas);b – cisto acetabular e irregularidade cortical da cabeça femoral (setas brancas).
  8. 8. Rev Bras Reumatol, v. 43, n. 2, p. 96-103, mar./abr., 2003 103Doenças do quadril: avaliação clínica e por imagemREFERÊNCIAS1. Moreira C, Carvalho MAP: Reumatologia diagnóstico e tratamento,2ª ed, Medsi, Quadril, 203-220, 2001.2. Klippel JH, Dieppe PA: Rheumatology, 2ª ed, Mosby, The hip 410.1-10.8, 1998.3. Resnick D: Bone and Joint Imaging, Section IV: 195-290,W.B.Saunders Company, 1996.4. Manaster BJ: Adult chronic hip pain: radiographic evaluation.Radiographics: 20: S3-S25, 2000.5. Fornage BD: Musculoskeletal Ultrasond. Synovial diseases: 44-49.Churchill Livingstone, 1995.6. Resnick D, Kang SK: Internal derangements of joints. W.B.SaundersCompany, 1997.7. Grimm ES, Blend MJ, Anderson TM: Suggestions for diagnosingavascular necrosis of the hip in the 1990s. J Am Osteopath Assoc: 92:766-70, 775-6, 1992.8. Miller IL, Savory CG, Polly Jr DW, Graham GD, McCabe JM,Callaghan JJ: Femoral head osteonecrosis. Detection by magneticresonance imaging versussingle-photon emission computedtomography. Clin Orthop 247:152-62, 1989.9. Fernández UM, Klostermeier TT, Lancaster KT: Orthopaedic nuclearmedicine: the pélvis and hip. Semin Nucl Med 28: 24-40, 1998.10. Ryan PJ, Fogelman I: The role of nuclear medicin in orthopaedics.Nucl Med Commun 15: 774-5, 1998.11. Ito HI, Matsuno T, Kaneda K: Prognosis of early stage avascular necrosisof the femoral head. Clinical Orthop Rel Res 358: 149-157, 1999.12. Kindynis P, Garcia J: Protrusio acetabuli. An update on the primaryand secondary acetabular protrusion. J Radiol 71: 415-24, 1990.

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