Apresentação A Alma do Parto. Um novo paradigma para a humanização do parto

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O livro de Adriana Tanese Nogueira constitui um rico manancial de reflexões acerca da existência humana. Obstinada em compreender o parto na sua essência e riqueza, rigorosa em suas pesquisas, ela cuidou de nos tornar acessível e agradável este assunto denso, instigante e ainda pouco abordado, por assim dizer.

Apesar de sua grandiosidade, o parto tem sido banalizado, no mundo ocidental sobretudo. Não é sem motivo que seus gemidos têm sido abafados e oprimidos. Uma reflexão madura dos motivos destes descaminhos é discutida neste livro numa perspectiva histórica, culminando no desfecho da obra numa proposta, onde a humanização é posta como a via possível de resgate da condição humana. Tratando de uma dimensão mais profunda do evento parto, menosprezada pela civilização contemporânea, fala-nos, portanto, de um resgate da essência humana.

Desvelando-nos o parto com sua riqueza de sentimentos, emoções, sensações, este livro nos mostra as mulheres num estado privilegiado e modificado da consciência, possível de ser experimentado em pouquíssimas situações. Estes exemplos de ampliação da consciência vivida nos estados extáticos, transformadora da existência humana, por si bastariam para justificar esta preciosa obra.

Dr. Paulo Batistuta Novaes
Médico ginecologista e obstetra com mestrado em Medicina
Autor de “Sagrado: um vídeo educativo sobre a humanização do parto e nascimento segundo as recomendações da OMS” (2002) e do livro “Parto: uma dimensão do gozo feminino” (2006).

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Apresentação A Alma do Parto. Um novo paradigma para a humanização do parto

  1. 1. A ALMA DO PARTO Um novo paradigma para a humanização do parto Adriana Tanese Nogueira
  2. 2. O parto sem alma (medicalização do parto) Em busca da alma (movimento pela humanização) A alma do parto (humanização com consciência)
  3. 3. O livro de Adriana Tanese Nogueira constitui um rico manancial de reflexões acerca da existência humana. Obstinada em compreender o parto na sua essência e riqueza, rigorosa em suas pesquisas, ela cuidou de nos tornar acessível e agradável este assunto denso, instigante e ainda pouco abordado, por assim dizer. Desvelando-nos o parto com sua riqueza de sentimentos, emoções, sensações, este livro nos mostra as mulheres num estado privilegiado e modificado da consciência, possível de ser experimentado em pouquíssimas situações. Estes exemplos de ampliação da consciência vivida nos estados extáticos, transformadora da existência humana, por si bastariam para justificar esta preciosa obra. Dr. Paulo Batistuta
  4. 4. A ALMA A palavra alma não tem aqui conotações religiosas mas, em primeiro lugar, literais. Alma vem do latin anima. O que anima, dá vida, torna vivo é a alma. O atendimento ao parto, da forma como é praticado hoje, revela um parto desalmado, mecânico, enfadonho. Um parto industrializado bem em sintonia com a alienação moderna. O sentido de alma nesse livro é também metafórico. Alma é o que dá coração, sentimento e sensibilidade. Uma pessoa sem alma é uma pessoa vazia, fria e indiferente. Sentimento aqui não quer dizer sentimentalismo mas capacidade de sentir, de contectar-se com o outro, de fazer experiências profundas, de sair, enfim, do neo-córtex e re-ligar consigo próprio como totalidade e de lá com os outros e o todo.
  5. 5. Resgatar a alma do parto é portanto reencontrar nossa própria alma, redescobrir nossa humanidade, elevar o patamar de socialização e de produção de conhecimento, relações e trabalho para um lugar onde ciência e respeito sejam possíveis juntos. Essa utopia é tanto mais ousada e desafiadora porque subverte a ordem de valores que rege nossa sociedade. O discurso da segurança para o parto e nascimento abarca em si outros, menos nobres e transparentes, que vão desde insegurança pessoal e máscara profissional à falta de competência e mero e simples interesse econômico. Valores estes que a tenaz luta contra a humanização do parto, consciente ou inconscientemente, quer ocultar. Ninguém gosta de reconhecer que sua prática está baseada primeiramente em hábitos mentais e conta bancária e não em evidências científicas e respeito ao próximo.
  6. 6. É importante frisar que este livro não tem filiação alguma com qualquer religião. As questões em pauta são humanas, universais e culturais. A abordagem psicológica utilizada é a junguiana e pós-junguiana (Silvia Montefoschi). Minha bagagem filosófica permitiu-me uma proposta de fundamentação teórica da humanização não só como prática obstétrica mas como dimensão humana, em linha com o pensamento desenvolvido nesse trabalho. Minha visão é que o movimento pela humanização se insere num projeto maior de evolução humana. As consequências desse movimento na vida das mulheres e de muitos profissionais demonstra esta hipóstese porque a transformação pela qual passam não é externa, mas interior e profunda. Toca suas subjetividades e identidades antes de seus comportamentos e escolhas. Muda o modo de ser – de ser humanos, de ser mulheres, mães, homens, pais, profissionais. E, pelo que parece, muda para melhor.
  7. 7. PARTO SEM ALMA
  8. 8. O PARTO ANTES DA OBSTETRÍCIA Por serem essenciais à continuidade da espécie, e, de certa forma, além de seu entendimento racional, parto e nascimento desde cedo foram eventos vinculados aos deuses, ou melhor, às deusas. Ártemis
  9. 9. Ainda na Idade Média o parto continuava sendo prática feminina, apesar do avanço das escolas de medicina regidas por médicos homens. Trotula de Ruggiero Casada com um médico proveniente de uma antiga família de médicos, seguiu a profissão demonstrando talento, delicadeza e uma incomum objetividade profissional. No que diz respeito ao útero, visto pela medicina antiga como um ‘animal desejoso de fazer filhos’, (Trotula) o trata com [...] atitude privada de preconceitos. Ela, de fato, trata cada parte do corpo com objetividade, sem pudores, dando um raro exemplo ‘de equilíbrio científico’. Na antiguidade a falta deste elemento do juízo podia ser em alguns casos motivo de piora ou morte do paciente. (BORZACCHINI: acesso em: 2004. Trad. minha).
  10. 10. DAS MULHERES AO HOMEM As parteiras foram substituídas por homens médicos ou por médicas mulheres seguidoras da compreensão e abordagem masculina ao parto. Na civilização ocidental o ato de dar à luz é interpretado pelos valores do patriarcado e daquele pensamento racional que Bourdieu chamaria de história da construção social da dominação masculina (BOURDIEU: 2002), ou seja, a ideologia que dá suporte ao patriarcado. O atendimento ao parto atual é o resultado histórico de uma construção social, cultural e política que se prolongou por vários séculos.
  11. 11. O DESALMAMENTO DO PARTO OU O PARADIGMA OBSTÉTRICO MODERNO Mulheres para o matadouro Meu parto foi a experiência mais dolorosa (em todos os sentidos) e frustrante de minha vida. Foi desumano, muito triste. Quando me lembro, tenho vontade de chorar, só me consolo tentando esquecer e pensando na criança linda e saudável que tenho agora comigo, graças a Deus! Foi fórceps. Não conhecia ninguém na sala do pré-parto, não sabia como tinha que proceder. Tive a sensação horrível de que me deixaram sofrer porque eu não colaborava com o que esperavam de mim. Triste, triste. Eu sonhava com um parto normal... (Flávia) Quando acadêmica, eu não concordava e ainda não concordo com o modo com que as mulheres são tratadas no Bloco Obstétrico da minha cidade! Convivi com cuidadores extremamente duros! Aí... quando me formei quis trabalhar no Bloco Obstétrico para tentar aos poucos ir mudando aquele jeito estúpido de tratar a vivência do parir... quando as gestantes vão para o Bloco Obstétrico há muito deboche, estupidez no atendimento, total falta de autonomia. (Alaíde, enfermeira obstetra, Bagé, RS).
  12. 12. Obstetras como mecânicos sofisticados Na obstetrícia moderna prevalece um conceito de saúde estritamente biológico e reducionista que se reflete na concepção do corpo grávido como incompetente. As formações acadêmicas implementam e reafirmam essa perspectiva treinando seus estudantes para a intervenção. Os médicos obstetras não recebem treinamento sobre como assistir ou melhor acompanhar o processo da parturição. Eles, simplesmente, não sabem como estar ao lado de uma parturiente sem tomar as rédeas do processo. Esses profissionais estão geralmente desconectados de sua intuição e sua ansiedade diante do desconhecido do parto só encontra vazão quando assumem o controle.
  13. 13. Desinformação, medo, incompetência Os médicos não estão dando informação? Ou as grávidas não se sentem à vontade para conversar abertamente com os profissionais que as atendem? As mulheres têm medo. Estariam os médicos intencionalmente querendo prejudicar as mulheres? Claro que não. Falta-lhe tão somente competência para atender um parto sem intervenção desnecessária.
  14. 14. Falsas justificativas para a cesárea • Cordão enrolado • Bacia estreita (desproporção céfalo- pélvica) • Falta de dilatação ? Estou na minha 37ª semana do meu segundo filho: tenho um menino de 7 anos e agora terei uma menina, sendo que o meu menino foi um cesárea sem necessidade, pois o médico não me deixou sentir o trabalho de parto e o retirou semanas antes (do término da gestação). Agora mudei de médico com quem, desde a primeira consulta, falei que desejava ter um parto normal. Estive com ele na semana passada, e ele já veio com a historinha da cesárea. Gostaria de saber o que significa estar em risco o bebê ou eu e até quando posso esperar para ter algum sinal do trabalho de parto, já que, praticamente, sou uma mãe de primeira viagem, pois eu não pari o meu filho, ele foi tirado de mim. (Mônica)
  15. 15. Solidão feminina
  16. 16. Iatrogenia, a bola de neve Iatrogenia é o nome dado à sequência de reações adversas e prejudiciais que, como uma bola de neve, se abate sobre o paciente e que é causada pelas intervenções médicas. A iatrogenia durante o trabalho de parto e parto é fenômeno bem conhecido e ela é a responsável por um grande número de cesáreas. decúbito dorsal (posição deitada de costas) ou a posição semi-reclinada anestesia Manobra de Kristeller enema tricotomia Infusão intravenosa de rotina Cateterização venosa profilática de rotina Administração de ocitócicos Toques vaginais freqüentes e por mais de um examinador. E etc. etc. etc....
  17. 17. Episiotomia, a violação A episiotomia continua a ser um procedimento frequentemente usado em obstetrícia a despeito do pouco suporte científico para seu uso rotineiro. Apesar da episiotomia de fato diminuir as ocorrências de lacerações anteriores, ela falha em alcançar a maioria dos objetivos usados como sua justificativa. A episiotomia não diminui o dano ao períneo mas ao contrário o aumenta. PubMed é falso que a episiotomia evita a sofrimento do períneo; é falso que a episiotomia preserva a integridade do assoalho pélvico, pelo contrário, como todo tecido, quanto mais ele é cortado e costurado, mais frágil se torna; é falso que a episiotomia atua na diminuição da morbidade fetal, é uma acusação absurda, pois o períneo da mulher é um tecido macio e elástico, não é feito de concreto; enfim, não foi comprovado que a episiotomia previna o prolapso uterino.
  18. 18. As mulheres realmente querem a cesárea? Muitos obstetras sustentam que são as mulheres que querem as cesáreas. Mas tal interpretação da realidade esquece que toda estrutura social está presente no curso da interação, sob a forma de esquemas de percepção e de apreciação inscritos no corpo dos agentes em interação (BOURDIEU: 2002, 79). Vivemos na “cultura da cesárea” (por ser uma cultura que idolatra a tecnologia) e certamente há muitas mulheres que vão ao pré-natal pensando em fazer uma cesárea. Mas sabem elas todos os riscos que correm? Se, mesmo sabendo, elas optam pela cesárea, é seu direito decidir o que acharem melhor para si e seu bebê. Entretanto a questão não é tão simples assim. Não estariam as mulheres atendendo a uma expectativa inconsciente e social? Não poderiam estar elas somatizando uma relação de dominação? (BOURDIEU: 2002, 71).
  19. 19. Mortalidade materna A morte materna é definida como a morte de uma mulher durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após o término da gestação, independente da duração ou da localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas tomadas em relação a ela, porém não devida a causas acidentais ou incidentais. Secretaria de Estado da Saúde SP Relatório do Comitê de Mortalidade Materna do Município de São Paulo indica que, em 1998, 96,85% das mortes maternas ocorreram em ambiente hospitalar. 50,39% delas ocorreram após a cesárea, 19,6% ocorreram com o feto intraútero, e 18,9% após parto normal. 46,46% destes óbitos ocorreram em Administrações Regionais diversas da residência, o que indica a necessidade de se aprimorar o atendimento regionalizado. No Ceará, 85% das mortes maternas ocorreram em hospitais. Cerca de 15% ocorreram no domicílio ou no trajeto para o serviço de saúde. Isto pode significar demora na busca dos serviços ou dificuldade de acolhimento. Qualidade da assistência no ciclo gravídico-puerperal.
  20. 20. EM BUSCA DA ALMA
  21. 21. REAÇÕES À VERSÃO HIGH TECH DA OBSTETRÍCIA The Farm Ina May Gaskin Movimento pelo Parto Ativo Janet Balaskas Frédérick Leboyer “Nascer sorrindo” Michel Odent Marsden Wagner OMS Robbie Davis- Floyd “Birth as an American Rite of Passage”
  22. 22. ALGUMAS BASES TEÓRICAS, PRÁTICAS E CIENTÍFICAS DA HUMANIZAÇÃO DO PARTO Humanização é um processo de comunicação e cuidados entre pessoas que lidam com a auto-transformação e a compreensão do espírito fundamental da vida e do sentido da compaixão pelo e em união com: o Universo, o espírito e a natureza; outras pessoas, a família, a comunidade, o país e a sociedade global; e outras pessoas do futuro, assim como as do passado (“Declaração Ceará”, UMENAI et alii: 2001, 3). Os signatários da Declaração entendem a humanização como um processo a longo prazo que se concretiza em inúmeros passos e múltiplas abordagens, dependendo do país, da cultura e das resistências encontradas em cada contexto. Humanizar é preciso.
  23. 23. Robbie Davis-Floyd A forma como a sociedade concebe o uso da tecnologia reflete e perpetua os valores e as crenças do sistema que a sustenta. Robbie Davis-Floyd O modelo tecnocrático em medicina (1)Separação mente-corpo e (2) corpo- máquina ; (3) paciente-objeto e (4) alienação do profissional; (5) Diagnóstico e tratamento de fora para dentro; (6) organização hierárquica e padronização dos cuidados; (7) autoridade e responsabilidade do profissional; (8) valorização excessiva da ciência e da tecnologia; (9) intervenções agressivas e (10) morte como fracasso; (11) sistema guiado pelo lucro; e (12) a intolerância para com outras modalidades. O modelo humanizado em medicina (1) Conexão mente-corpo; (2) corpo- organismo; (3) paciente-sujeito; 4) relação profissional-paciente; (5) diagnose e cura de fora para dentro e de dentro para fora; (6) equilíbrio necessidades indivíduo e instituição; (7) responsabilidade dividida; (8) ciência e tecnologia contrabalançadas pela humanização; (9) prevenção; (10) morte como uma possibilidade aceitável; (11) empatia; (12) Mentalidade aberta frente a outras modalidades. O O modelo holístico em medicina (1) Unicidade de corpo-mente-espírito; (2) corpo-sistema de energia; (3) curar a pessoa inteira; (4) unidade essencial profissional-cliente; (5) diagnoses e cura de dentro para fora; (6) individualização dos cuidados; (7) autoridade e responsabilidade inerente ao indivíduo; (8) ciência e tecnologia colocadas a serviço dos indivíduos; (9) visão a longo prazo; (10) morte como uma etapa do processo; (11) foco na cura; (12) convivência de múltiplas modalidades de cura.
  24. 24. Marsden Wagner Humanizar o parto significa compreender que a mulher dando à luz é um ser humano, não uma máquina e não simplesmente um continente para fazer bebês. Marsden Wagner Parto humanizado significa colocar a mulher que está dando à luz no centro e no controle de forma que ela, e não os médicos ou qualquer outra pessoa, tome todas as decisões a respeito do que está acontecendo. Parto humanizado significa compreender que o foco do atendimento materno são as necessidades básicas e primárias da comunidade, e não os cuidados terceirizados do hospital; e que enfermeiras e médicos devem trabalhar juntos em harmonia como iguais. Parto humanizado significa cuidados maternos baseados na boa ciência, incluindo o uso de drogas e tecnologia com base nas evidências científicas. (WAGNER: 2001, 25) (Trad. minha).
  25. 25. Michel Odent A era da cesárea sob pedido, da epidural e das gotas de ocitocina, constitui um ponto de virada na história do nascimento. Até recentemente as mulheres não podiam dar à luz sem a produção de um complexo coquetel de ‘hormônios do amor’. Hoje, em muitos países, a maioria das mulheres tem bebês sem produzir esses específicos hormônios. A questão deve ser levantada em termos de civilização. Michel Odent O que uma mulher precisa, em primeiro lugar, durante o parto é ser protegida contra todo tipo de estimulação neo-cortical. Alguns dos fatores que podem estimular o neo-córtex são a linguagem, luzes fortes e a sensação de estar sendo observada.
  26. 26. HUMANIZAÇÃO NO BRASIL Humanizar o parto é respeitar e criar condições para que todas as dimensões do ser humano sejam atendidas: espirituais, psicológicas, biológicas e sociais. Marília LarguraCarta de Campinas 1993 Carta de Fortaleza 2000 ReHuNa Rede pela Humanização do Nascimento Amigas do Parto Rede Parto do Princípio ONG Amigas do Parto
  27. 27. HUMANIZAÇÃO BRASILEIRA À LUZ DOS MODELOS PARADIGMÁTICOS PROPOSTOS POR ROBBIE DAVIS-FLOYD (1) Problemática mente-corpo Contraposição viva e atual. (2) Corpo máquina, organismo, ou sistema de energia? Abstrações com poucas raízes na prática cotidiana e pessoal. (3) O paciente-objeto, sujeito ou sistema holístico? Informar ou evangelizar? Tendência para a afirmação de uma nova ideologia dominante. (4) Relação profissional-paciente. Subjetividade de ambos nem sempre incluída na relação. (5) Diagnóstico e tratamento. Falta de instrumentos para um diagnóstico verdadeiramente alternativo ao tradicional. (6) Indivíduo-instituição. Dificuldade de romper a padronização dos cuidados. (7) Autoridade e a responsabilidade. Partilha da responsabilidade avançando. (8) Ciência e tecnologia x indivíduo. Equilíbrio avançando. (9) Intervenções agressivas e imediatistas. Mais foco na prevenção e no longo prazo. (10) Morte. Relação difícil. (11) Lucro, empatia e cura. Busca pelo lucro mesclado à empatia e vice-versa, numa relação nem sempre clara. (12) Múltiplas modalidades de cura. Aceitáveis.
  28. 28. REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE HUMANIZAÇÃO Os pressupostos desses pontos centrais são:  promoção do conceito de cidadania e de ativismo cidadão;  valorização da subjetividade e da intuição, entre profissionais e entre usuárias;  libertação das mulheres da opressão de gênero, social e política;  autonomização dos indivíduos ante as instituições e órgãos coletivos;  introdução de valores voltados para o bem- estar coletivo e a saúde concebidos de forma holística (mente-corpo-espírito). Conceitos-chave:  superação da dicotomia cartesiana mente- corpo;  crítica ao sistema massificado de saúde e à indústria farmacêutica;  crítica ao mercantilismo em obstetrícia;  resgate da mulher como sujeito social ativo;  reequilíbrio das relações de poder entre usuários e profissionais e das relações de gênero entre mulheres e profissionais;  crítica das relações hierárquicas e de poder entre profissionais e corporações ou instituições;  concepção do corpo feminino como organismo inteligente.
  29. 29. Proposta de uma antropologia da humanização Reflexão crítica sobre a vida humana Hegel Espírito hegeliano Dialética MarxFreud Montefoschi Jung Análise sociológica marxiana Liberdade Neo-córtex O Espírito se humaniza Feminismo Movimento pela humanização Subjetividade Feminino Masculino Humanizar é mudar um modo de ser, de encarar a profissão, de interagir com colegas e corporações, de ler pesquisas científicas e de lidar com a própria subjetividade. Corpo Cristianismo Obejtividade Sujeitos críticos, pensantes e dialéticos Inconsciente Consciência
  30. 30. A humanização das mulheres Uma mulher se humaniza quando cumpre a maior das violações de sua vida: respeitar o que vem de dentro dela. Levar-se a sério é deixar de ser obediente ao sistema e dialetizar o que sente, ou seja, perguntar-se, refletir, tornar o que sente conhecimento crítico e ativo. Este processo requer uma transformação psicológica de grandes proporções e tem repercussões em todos os outros setores de sua vida. O discurso que desse ato nasce corresponde à carne que se faz verbo, é a “vida ao vivo” que toma a palavra e pode, então, ser ouvida.
  31. 31. A ALMA DO PARTO
  32. 32. O PARTO COMO SIMULACRO O simulacro não oculta a verdade– é a verdade que ele supostamente quer expressar que não existe. Jean Baudrillard Bibelôs e enxovais de neném, preparações ao parto que não tocam o assunto principal, dietas e corpo malhado, exames e controles, maternidades cinco estrelas, ritual de internação, máquinas e botões, ultrassons e gente de avental branco indo e vindo, enfermeiras servindo puérperas em quartos privativos, videocâmeras em salas de parto, unhas feitas, batom, cabelo arrumado, mamadeiras e chupetas... A overdose de simulacros que a modernidade de consumo oferece como sua marca característica produz uma reação psicológica difusa e facilmente observável que Baudrillard descreve como uma histeria característica de nosso tempo: histeria da produção e reprodução do real. [...] O que toda uma sociedade procura, ao continuar a produzir e a reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa (1991, 33-34).
  33. 33. O PARTO COMO SÍMBOLO Quando um objeto ou um evento não se esgota em sua manifestação concreta, quando o significante não expressa exaustivamente o significado, então, estamos diante do símbolo. Parto é mais do que a expulsão de um feto do corpo de uma mulher. Parto também não equivale simplesmente ao nascimento de uma criança, à formação de uma família e ao surgimento de uma mãe e de um pai. Em outras palavras, o parto não se resume nem num evento fisiológico nem naquele social e familiar, que entretanto ele também é. A experiência humana não pode ser encontrada numa abordagem somente natural ou tecnológica. Por isso, uma campanha da humanização que enfoque o parto fisiológico no intuito de libertar o parto das garras do intervencionismo médico acrítico está destinada a repetir os mesmos erros da obstetrícia que quer substituir. Falar da fisiologia do parto é meio e não fim, caminho para resgatar o parto como experiência existencial profundamente humana e transformadora.
  34. 34. O PARTO COMO SAGRADO A experiência do sagrado constitui o pilar sobre o qual se estrutura a visão de vida e a vida concreta de um povo e de cada pessoa individualmente. O contato com o sagrado proporciona as condições para fundar e dar ordem à existência, afastando-se, assim, do caos originário. O sagrado estabelece o centro em volta do qual nasce o cosmos humano. (Mircea Eliade) Quando o acesso à experiência do sagrado falha, desconexão e confusão constituem um desfecho comum, o que demonstra o quanto essa experiência é importante. Sem ela é como se a psique precisasse de um tempo extra para se re-organizar internamente, re- centralizar e se re-encontrar. Conscientizar-se da dimensão sagrada do parto implícita no imaginário da humanização permite alcançar aquela abordagem holística e verdadeiramente humana que seus militantes proclamam. Os aspectos espirituais e misteriosos do parto e nascimento precisam ser incluídos abertamente como elementos fundantes à experiência de profissionais e mulheres. Somente assim o parto pode recuperar sua alma e ser aquele rito de iniciação que as mulheres buscam e precisam.
  35. 35. O PARTO COMO INICIAÇÃO A iniciação é o processo mediante o qual abandonamos nossa inclinação natural a permanecer inconscientes e decidimos buscar, mesmo se tivermos que lutar e sofrer, uma união consciente com nossa mente mais profunda, o Eu selvagem. Clarissa Pinkola-Estés Os ritos de iniciação são eventos críticos na vida de uma pessoa. Sua função é propiciar determinada experiência que fica como marco entre etapas, produzindo efeitos a longo prazo. Nenhuma outra experiência na vida feminina reúne numa única vez alegria e dor, medo e felicidade, perigo e confiança, intuição e conhecimento. Nenhuma outra une tanto corpo e mente, matéria e espírito, fisiologia e emoção. Em nenhuma outra as coisas podem estar tão mescladas e confusas: a dor física confundindo-se com o sofrimento, o medo desafiando a confiança, a autoestima ameaçada pelo desconhecido.
  36. 36. Individuação A individuação é o processo de diferenciação do indivíduo da cultura na qual está inserido e dos condicionamentos internos que o influenciam inconscientemente. Este movimento visa à realização da plenitude individual, da manifestação plena daqueles atributos que tornam cada indivíduo único e insubstituível. Na acepção de maternidade que está surgindo graças ao movimento pela humanização, a individuação das mulheres é, assim, potencializada como condição para que ocorra o processo humanizatório em si. Que nem sempre os resultados do parto realizem os sonhos esperados ganha nova explicação se vistos como etapas de um processo de individuação muito maior do que o momento do parto. Mesmo a cesárea indesejada que toma o lugar do parto domiciliar sonhado pode ser significativa no percurso psicológico daquela mulher e instrumento de sua individuação.
  37. 37. Cidadania Para individuar-se uma pessoa precisa estar no mundo e ativamente relacionar-se com ele; da mesma forma, ele continua, o mundo só é transformado por quem se individuou. (Jung) A questão do parto é um âmbito no qual a dinâmica entre indivíduo e coletividade se mostra com clareza. Para o desenvolvimento do espírito cidadão, é importante saber abordar a complexidade dos problemas sem cair na tentação imediatista de buscar soluções rápidas e agressivas. Na ausência de senso crítico as posições chamadas de “radicais” são, de fato, “sectárias”, e, por isso, contraproducentes. Nesse caso, o uso da palavra “radical” é impróprio. O sectarismo leva à repetição de slogans prontos, cheios de palavras bonitas, mas vagas e de curto prazo. Ao reduzir a problemática a um de seus aspectos, o sectarismo promove parcialidade.
  38. 38. Espiritualidade A entrega a Deus é a entrega ao processo vital do corpo, aos sentimentos e à sexualidade. O fluxo de excitação no corpo cria sensações sexuais quando é descendente e sentimentos espirituais quando é ascendente. Alexander Lowen Parir é abrir uma porta. Uma mulher que se atreve por esse caminho pode fazer, com muitas testemunham, a experiência surpreendente que o temido se revela como uma experiência cognitivamente iluminadora, sentimentalmente abençoada e espiritualmente renovadora. Essa espiritualidade encarnada é muito mais viril do que aquela efeminada e rígida da racionalidade desencarnada. É, também, mais amorosa e doce comparada ao espírito frio que conhece a crueldade. Não é um acaso que há tantos relatos de parto associados a experiências espirituais.
  39. 39. Um livro sobre o coração da experiência chamada parto e seu significado na sociedade de hoje. Um livro para médicos obstetras, enfermeiras obstetras, obstetrizes e profissionais de saúde da área de obstetrícia para entender o outro ponto de vista sobre parto, aquele que não é ensinado nas faculdades. Um livro para doulas, educadoras perinatais e militantes para dar raízes ao seu engajamento no movimento pela humanização do parto. Porque parto não é só fisiologia. O parto tem alma.
  40. 40. Autora: Tanese Nogueira, Adriana Editora: Biblioteca 24 Horas, São Paulo, 2013 ISBN: 9788541603188 Páginas 232 352 gramas Preço do livro impresso: R$ 48,28

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