Tcc 2014 vasco paez neto

522 visualizações

Publicada em

Título Ilustra
TCC´S bacharelado artes

Publicada em: Arte e fotografia
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
522
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
71
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Tcc 2014 vasco paez neto

  1. 1. VASCO MENDES PAEZ NETO ILUSTRA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE ARTES VISUAIS/BACHARELADO Campo Grande - MS 2014
  2. 2. VASCO MENDES PAEZ NETO ILUSTRA Campo Grande - MS 2014 Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul como requisito final para aprovação. Orientador: Prof. Elomar Bakonyi
  3. 3. VASCO MENDES PAEZ NETO ILUSTRA Campo Grande, MS, _____ de __________________ de 2014 COMISSÃO EXAMINADORA __________________________________________________ Prof. Elomar Bakonyi Universidade Federal de Mato Grosso do Sul __________________________________________________ Profª. Carla Maria Buffo de Cápua Universidade Federal de Mato Grosso do Sul __________________________________________________ Profª. Priscilla de Paula Pessoa Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul como requisito final para aprovação.
  4. 4. RESUMO Neste trabalho será apresentada a série Ilustra, que representa através de ilustrações feitas com a técnica do desenho a tinta nanquim e da pintura digital textos de poesia e músicas. Ainda será discutida a história da ilustração, e alguns conceitos das técnicas de desenho, tinta nanquim e ilustração digital. São também apresentados alguns nomes importantes para a área da arte e ilustração. São demonstrados a concepção e as etapas de execução das ilustrações, e apresentada uma breve reflexão sobre cada uma. Palavras-chave: Ilustração. Ilustração digital. Poesia. Música.
  5. 5. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 6 CAPITULO I - TEORIAS E BASES 8 1.1 Ilustração 8 1.1.2 Ilustração digital 11 1.1.3 Poesia, música e ilustração 12 1.2 Técnicas 14 1.2.1 O desenho 14 1.2.2 Tinta nanquim 15 1.3 Referências visuais 15 2. CAPITULO II - DA CONCEPÇÃO À ARTE FINAL. 18 2.1 Concepção da série. 18 2.1.2 Do esboço à arte final. 20 2.2 As Ilustrações. 24 CONSIDERAÇÔES FINAIS 43 REFERÊNCIAS 44
  6. 6. 6 INTRODUÇÃO O que você pensa quando escuta uma boa música? Ou quando lê um bom poema? Posso dizer que no meu pensamento formam-se imagens, que vão ganhando nitidez conforme aprecio e sinto o texto ou a música em questão. É fechar os olhos e imaginar. Captar essa imagem e passá-la para o papel, de modo a ilustrar sua fonte inspiradora, com tudo o que consigo absorver, é o desafio que proponho com a série Ilustra. O presente trabalho fará uso das técnicas de pintura e colagem digital e desenho à tinta para apresentar uma série de oito ilustrações inspiradas em textos literários de poesia e músicas selecionadas pelo próprio autor, utilizando-se como critério de escolha as possibilidades oferecidas por cada uma para a realização de uma ilustração que pudesse melhor explorar de forma criativa o texto ou a música apresentados. As ilustrações foram pensadas de modo a compor as páginas de um livro, junto aos textos e músicas selecionados. O objetivo é demonstrar que a poesia e a música são áreas fecundas e inspiradoras para o artista ilustrador explorar as possibilidades visuais que as palavras e as melodias fornecem para a criação de ilustrações. As obras deste trabalho propõem essa abordagem e interpretação da poesia e da música, de forma a abstrair o sentimento e o entendimento, e fazê-lo aparecer nas cores, estilos e expressão da imagem. Será apresentado no primeiro capítulo as teorias e bases que compõe este trabalho. Vão ser desenvolvidos neste capítulo os conceitos básicos da ilustração e sua história, e das técnicas importantes para a realização das ilustrações que estão aqui, como o desenho a grafite, desenho a tinta nanquim e a pintura digital. Nas pesquisas realizadas, alguns artistas e ilustradores serão comentados ou citados, como : Albert Dürer, Tom Eckersley, Roger Dean, Afonso Maria Mucha, Gustav Klint. recebendo uma maior atenção
  7. 7. 7 os artistas que possuem o trabalho mais próximo dos objetivos da minha série, a ilustradora Adara Sanchez, e o artista e ilustrador Apolo Torres. O segundo capítulo trata da concepção e execução das ilustrações que compõe a série Ilustra, descrevendo os objetivos e a estrutura gerais da proposta. Contém as etapas de execução e criação das obras, e as reflexões e análises específicas de cada uma. Encerrando, é apresentada uma conclusão sobre o trabalho, fazendo uma breve discussão sobre a experiência e os resultados obtidos com o projeto.
  8. 8. 8 CAPITULO 1 - TEORIAS E BASES Será abordado neste capítulo a história e os conceitos da ilustração, da poesia e da música, e as teorias que servem de base para as técnicas utilizadas na execução da série deste trabalho. Ainda serão apresentados as referências que serviram de base para este projeto. 1.1 Ilustração. Hall (2012, p. 6) em seu livro Fundamentos essenciais da ilustração diz que Ilustrar é fazer uma imagem pictórica que será utilizada para acompanhar um texto de forma a explicá-lo melhor, ainda coloca que o trabalho do ilustrador acontece a partir de uma idéia prévia que é encapsulada para que possa posteriormente criar e comunicá-la a um determinado público, fazendo isso de maneira articulada e inovadora. Oliveira (2008, p. 43) em seu livro Nos Jardins Boboli: Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens, afirma que uma imagem será considerada ilustração quando consegue transmitir uma idéia ou uma mensagem. Em uma ilustração podem estar escondidos inúmeros elementos que reforcem a mensagem a ser transmitida: estilo, técnica, cores, formas, expressões ou mesmo o conjunto do trabalho. Segundo Chinen (2011, p. 108), a ilustração quando bem empregada abre grandes possibilidades para se transmitir a informação, livrando-se de certas limitações impostas pela utilização de objetos do mundo real e permitindo a introdução de conotações conceituais, além da possibilidade de detalhar seletivamente aspectos relevantes à mensagem pretendida. A saturação das imagens fotográficas na mídia impressa fez com que a ilustração voltasse ao cenário. A ilustração pode ir além dos limites da fotografia imposto pelo objeto, permitindo transmitir emoções e nuances que o realismo fotográfico muitas vezes não consegue. "As ilustrações podem transmitir a sensação de que algo é bastante pessoal, principalmente devido ao
  9. 9. 9 tempo que o ilustrador dedica para criar a imagem e ao fato de que foi criada à mão, não por algum aparelho mecânico." ( Ambrose, 2009, p 36.) Castagini (2010, p. 08) afirma que é complicado estabelecer uma data de início na história para a ilustração, uma vez que o ser humano registra a sua própria história em desenhos desde o período pré-histórico. Mas se levarmos em consideração a definição dada a ilustração por Hall ( 2012, p.6) e por Oliveira (2008, p. 43), ou seja, pensando em ilustração como imagem que acompanha o texto tendo a intenção de facilitar o entendimento e agregar informação, podemos citar como primeiros ilustradores, os artistas plásticos do século XVI, Albert Dürer e Hans Holbein. A invenção da prensa por Gutemberg é apontada como um momento divisor no ramo da ilustração. Com a impressão de livros em série, criou-se a demanda por ilustradores que ilustrassem esses textos de forma que atendessem os padrões exigidos pelo processo gráfico da época, o que limitava as possibilidades da utilização de cores e materiais do artista. Antes da Segunda Guerra Mundial, de modo geral os ilustradores haviam se mantido dentro das técnicas tradicionais, imposta pelos artistas renascentistas e vitorianos. A partir dos anos vinte, a ilustração começa a experimentar um certo vanguardismo, explorando novas linguagens visuais oferecidas pelo modernismo. Segundo Lawrence Zeegen em seu livro, Fundamentos de Ilustração (2005, p.13), não é fácil determinar o momento específico em que começou a ilustração contemporânea. Em 1940, temos os clássicos cartazes ilustrados por Tom Eckersley para o esforço de guerra americano durante a Segunda Guerra mundial, e uma década mais a frente, os cartazes de Abram Games no metrô de Londres. A partir de 1960 com o estabelecimento dos movimentos artísticos surgidos até então, e o aumento sem precedentes do consumismo durante a expansão comercial pós guerra, houve a necessidade de uma linguagem gráfica com a qual os movimentos juvenis em expansão pudessem se identificar. "Foram provavelmente os Beatles que deram a cultura
  10. 10. 10 pop algumas de suas ilustrações mais memoráveis, a capa de Klaus Voormann para Revolver em 1965 e Peter Blake que misturou abordagens ilustrativas e fotográficas para criar a capa de Sgt. Pepper´s..." (Zeegen, 2005, p.13). Ainda segundo Zeegen (2005, p. 14) durante a década de 70, as Ilustrações assumiram a estética visual da ficção cientifica e da Fantasia, destacando nomes importantes como Roger Dean e Peter Jones. Com o movimento punk, o design adotou uma abordagem mais crua e violenta, fazendo uso de recortes e colagens, como fez para as bandas inglesa Sex Pistols e The Clash. Os artistas começaram a romper as tradições trabalhando de formas ainda mais expressivas e sintéticas, adotando para as artes gráficas e ilustração, novas práticas como por exemplo o uso de montagem e colagem - do cubismo e do surrealismo - e os experimentos cromáticos do fauvismo. Segundo Castagini (2010, p. 08), as décadas de 80 e 90 marcaram o fim de uma disciplina estritamente analógica e abriram portas para as possibilidades do mundo digital na Ilustração. A cultura popular, assim como a experimentação de diferentes técnicas de reprodução, também exerceu grande influência sobre as Fig.01- Poster. Tom Eckersley. 757 x 491 mm. 1942. Litografia sobre papel. Fig.02- Album cover para a banda Yes. Roger Dean. 43 x 31 cm. 1975.
  11. 11. 11 ilustrações. Houve uma fusão da tradição dos estilos clássicos com o experimentalismo técnico e artístico dos movimentos culturais da época, contribuindo para uma crescente gama de estilos de ilustração. (Zeegen, 2005, p.15). 1.1.2 Ilustração Digital Os profissionais da ilustração contemporânea utilizam o computador para a criação total ou parcial de uma imagem. Hall (2012, p.36) explica que empregando em conjunto um scanner e uma impressora, pode-se gerar qualquer imagem desenhada, impressa ou pintada, e em seguida desenvolvê-la e aperfeiçoá-la digitalmente através de programas, como o Adobe Photoshop, Adobe Illustrator, Corel Draw, Corel Painter e outros tantos mais. Zeegen (2005, p.74) afirma que os designers gráficos começaram por explorar os processos digitais que surgiram em meados de 1984 com o lançamento do Macintosh da Apple. Seria uma questão econômica que atrasaria em quase dez anos a participação dos ilustradores na revolução digital do design gráfico. Nenhuma ferramenta ou processo teve tanto impacto do que o computador sobre os métodos empregados pelo ilustrador, fato que foi notado pelo design gráfico, que viu na ilustração digital uma abordagem totalmente nova de criação e possibilidade pictórica graças a capacidade de explorar tanto a habilidade de desenho quanto a manipulação de imagens. Sem as limitações de uma técnica específica, o ambiente digital deu a liberdade de explorar e experimentar uma ampla gama de métodos a partir do que fosse conveniente, não sendo raro encontrar em uma ilustração uma mistura visual que contenha elementos digitais, analógicos, tradicionais, fotográficos combinados a um desenho feito a mão e com interferências de pinceladas na imagem. "Se é o lápis que exerce o poder, o computador é que explora o poder e permite que o
  12. 12. 12 ilustrador transforme um desenho a lápis em uma gama infinita de novos desenhos." (Zeegen, 2005, p.76.) 1.1.3 Poesia, Música e Ilustração. Poesia é um gênero literário composto por versos que tendem a seguir uma harmonia e expressar o sentimento do poeta através da beleza estética da linguagem. Alguns elementos formais identificam uma poesia, como o ritmo, os versos e as estrofes, elementos que compõem a métrica do poema. A poesia permite que a língua ultrapasse a sua função comunicativa e se torne matéria prima para a obra de arte, evidenciando as potencialidades do uso das palavras a partir do arranjo habilidoso do poeta.1 Segundo Moraes em seu artigo Historia e música: canção popular e conhecimento histórico (2000, p.204), a música é uma forma artística que trabalha os sons e os ritmos nos seus diversos modos e gêneros sem necessariamente exigir a atenção centrada do receptor, se integrando no nosso cotidiano de modo permanente. Ainda de acordo com Moraes (2000, p.204) a canção popular, que é composta por verso e música, nas suas diversas variantes, é a que mais faz parte das diferentes experiências humanas. A música popular, é mais acessível aos que são analfabetos dos códigos musicais, possibilitando uma criação e sonorização muito particular à trajetória e experiências do individuo, além de possuir por esse caráter um forte poder de comunicação com ampla dimensão da realidade social, especialmente no universo urbano. "O que denominamos de música, portanto, pressupõe condições históricas especiais que na realidade criam e instituem as relações entre som, criação musical, instrumentista e o consumidor/receptor." (Moraes, 2000, p.211) 1 Definição disponível em PUCRS. Como ler e escrever poesia . Disponível em: < http://www.pucrs.br/gpt/poesia.php>. Acesso em 06 de junho de 2014.
  13. 13. 13 Segundo Oliveira (2008, p.44) a ilustração narrativa é aquela que é sempre associada a um texto, que pode ser literário ou musical, como é o caso de ilustrações para encartes de CDs. O que no entanto caracteriza esse gênero são o ato de narrar e descrever histórias através de imagens, o que não significa em hipótese alguma uma tradução visual do texto. A ilustração começa onde o alcance do texto termina, e vice-versa. Zeegen (2005, p.106) afirma que a ilustração não pode ser encarada como uma disciplina que visualiza apenas textos, pois isso é esquecer o poder de dar forma visual à música. Para cada ilustrador que é apresentado à área na infância por meio dos livros, há outro que conheceu a ilustração na adolescência por interesse à música. As imagens na música tem um papel definitivo em moldar a forma como nos identificamos com a música que ouvimos, criando uma identidade e uma personalidade em forma visual. Fig.03- Projeto para o CD Monkey- Journey to the West . Jamie Hewlett. 2008.
  14. 14. 14 1.2 Técnicas 1.2.1 O Desenho Segundo Jubran em seu livro Desenho a mão Livre (2001, p.08), o grafite é uma das técnicas secas mais acessíveis e com maiores possibilidades de expressão gráfica e artística. Pode ser utilizado de várias formas e é encontrado em distintos formatos, desde lápis, barras e em pó. O lápis grafite, segundo Mayer em seu livro Manual do artista de técnicas e materiais (1999, p.04), era utilizado em forma de lápis rudimentar desde o século XVII. O lápis como o conhecemos, em seu formato moderno com revestimento de madeira, data de aproximadamente o começo do século XIX, sendo feito de grafita misturada com quantidades variáveis de argila, dependendo do grau de dureza desejada. A grafita é um tipo de carbono que quando pressionado contra o papel força suas partículas para dentro de suas tramas, dando um leve toque lustroso sem criar relevo. Hall (2012, p.23) afirma que o desenho é a base das artes visuais, sendo que a ferramenta mais comumente usada nesse processo é o lápis, muito popular graças aos seu fácil acesso e versatilidade de manuseio. "O desenho pode tomar muitas formas visuais diferentes, desde as mais ingênuas, até as mais realistas, das mais simples e grosseiras, até as mais complexas." (Hall, 2012, p.24) Essa característica é comumente chamada de "vernacular" e é determinada pelas suas próprias intenções artísticas. Pode ser também dividido de maneira artificial em duas categorias principais: o rafe e o desenho finalizado. O rafe (esboço, estudo, sketch), dá a liberdade para o artista iniciar, desenvolver e aprimorar as idéias de maneira clara e flexível. Ele existe
  15. 15. 15 para ser alterado, discutido e melhorado, sem que se corra o risco de se perder muito tempo na implementação das mudanças necessárias. O desenho finalizado difere do rafe no sentido de que ele aparece completo, sem a necessidade de adições ou subtrações, e contém tanto precisão na observação, quanto autenticidade. 1.2.2 Tinta Nanquim O desenho com tinta nanquim é um dos meios mais antigos de expressão visual do homem, datado de aproximadamente 2500 anos a.C. Atualmente existem tintas nanquim permanentes ou solúveis em água, adequadas a diversas técnicas e estilos de desenho. Segundo Jubran (2001, p.17), Para aplicar a tinta no papel, pode-se utilizar diversos materiais, mas os mais tradicionais englobam penas de metal, pincéis de caligrafia, canetas descartáveis e canetas de bambu. Hoje temos a opção de escolher o tipo da ponta de pena para o tipo de traço desejado, obtendo um traço mais fino, ou um traço flexível, com variação de espessura. 1.3 Referências visuais Comecei a desenhar inspirado nas ilustrações que me tiravam do mundo real e me absorviam para dentro delas, feitas por mestres da arte e da ilustração como Afons Maria Mucha, Gustav Klint, Edmund Dulac, John Bauer e muitos outros. Após começar este projeto, vários nomes mediante as minhas pesquisas foram somados às minhas referências, como Norman Rocwell, Yoshitaka Amano, Beatrix Potter, Boris Vallejo e Rien Portvilliet.
  16. 16. 16 Falarei um pouco sobre os que considero que tem um trabalho mais próximo deste projeto: Apollo Torres e Adara Sanches . Nascida em Sevilha, Espanha, no ano de 1987, Adara Sanches cursou Belas Artes em Sevilha, fazendo posteriormente uma pós graduação em ilustração na cidade de Barcelona. Segundo a página online da ESPM: Escola de criação (2014), a artista é apaixonada por aquarela, pelo corpo humano e suas nuances, pele, mãos e ossos. Seu trabalho é forte mas de grande sutileza no uso das cores e linhas, o que cria um contraste interessante em suas obras. A artista se define como uma observadora que aprecia os pequenos detalhes, encontrando inspiração em objetos e lugares mundanos, e nas curvas do corpo humano e as poses que ele pode assumir. Seu trabalho utiliza-se do desenho, aquarela e da arte digital, muitas vezes unindo todas essas técnicas em uma obra só2 . 2 Informações retiradas de ESPM. Disponível em: <http://escoladecriacao.espm.br/2011/adara-sanchez- anatomia-aquarelada/>. Acesso em 02 de novembro de 2014 Fig.04- Imagem retirada do portfólio virtual da artista. Mixed Media. Sem dados disponíveis. Fig.05- Imagem retirada do portfólio virtual da artista. Mixed Media. Sem dados disponíveis.
  17. 17. 17 Segundo informa em seu próprio site3, Apolo Torres é artista e ilustrador, mora em São Paulo, cidade onde nasceu em 1986, formando-se bacharel em desenho industrial pela Mackenzie de São Paulo. O artista afirma em sua página pessoal que a sua arte age como um registro dos seus pensamentos e humor de um determinado momento. As experiências adquiridas misturadas a sua admiração pelos assuntos do cotidiano fazem com que a linguagem de suas obras se apresente de maneira poética, munida de metáforas e simbolismos para representar e transmitir as suas idéias e filosofias. A relação entre figura e plano de fundo é assunto recorrente nas suas séries. Conforme as informações retiradas da sua página, o artista afirma que o graffiti levou as ilustrações a lugares inesperados e criou novos universos sobre a parede. Ele dialoga com a arte urbana ao representar plasticamente as texturas naturais do ambiente urbano, e ao voltar a atenção para as possíveis variações de relação entre figura e fundo, sobrepondo dois recortes distintos da cidade. São fragmentos das cenas urbanas que repousam sobre um fragmento de muro, fazendo com que a superfície pictórica se integre ao restante da figura seja na forma de chão, céu, água, muro ou até mesmo a própria superfície da tela de pintura. "Meu trabalho é fundamentalmente urbano. Os pensamentos aparecem e desaparecem num fundo – cidade – que não é mais aquele que recorta a figura, mas se forma com ela, nasce dela, funde- se a ela. A cidade é a minha maior influência, e morando em São Paulo, vivo a experiência urbana de maneira muito intensa. A cidade promove encontros constantes. Vidas que se complementam, são codependentes e estão a todo tempo criando novas maneiras de coexistir." (Apolo Torres) 3 Disponível em: <http://apolotorres.com/site/>. Acessado em 02 de novembro de 2014.
  18. 18. 18 2. CAPITULO II - DA CONCEPÇÃO À ARTE FINAL. Este capítulo tem a finalidade de apresentar todo o trajeto criativo que envolveu a criação da série, desde a Idéia inicial concebida pelo autor, passando pelo esboço, e posteriormente finalização. Serão apresentados ao leitor através de imagens as etapas envolvidas na execução de cada ilustração e os materiais empregados, e será feita uma breve reflexão a respeito das ilustrações que compõe a série. 2.1 Concepção da série. Sempre ao ouvir uma música, ou ler um poema, eu pensava em imagens. Conforme as palavras iam entrando na minha cabeça, quando as lia em versos, ou as ouvia em uma melodia, iniciava-se um processo em que Fig. 06- Emergir. Apolo Torres. 80x 120 cm. 2011. Acrílica e spray sobre tela. Fig. 07- O Ciclo. Apolo Torres. Grafite sobre papel e pintura digital.
  19. 19. 19 figuras surgiam espontaneamente no pensamento. Esse processo sempre foi muito prazeroso para mim, sendo difícil não associar uma música, ou uma poesia a uma imagem formada mentalmente. A partir desse prazer, me veio a idéia de tentar ilustrar aquilo que eu via e sentia ao ouvir determinada música ou lia certo poema, e compor as páginas de um livro com esses resultados. Originalmente, tentei associar texto e imagem como se fossem um só, influenciado pelo design gráfico. Cheguei a produzir duas ilustrações assim, mas enfrentei relações conflituosas entre o tipo e a imagem. Comecei a notar que o tipo estava competindo com a figura e que talvez a solução ideal fosse uma maior limpeza visual. A imagem me parecia suja, amarrada, estática. Foi aí que, ouvindo a opinião de professores e refletindo sobre o tipo e a imagem, e a relação entre eles que comecei a experimentar a imagem desassociada do tipo. O papel do texto era a inspiração e a obra a imagem gerada por ele. Consegui com isso ampliar as possibilidades na criação, e dar uma maior expressão à ilustração, já que as informações do desenho e as cores utilizadas na pintura não iriam concorrer com o tipo sobre a imagem. O computador foi um grande avanço para a ilustração, permitiu que explorássemos novas possibilidade em apenas alguns clics, fato que exigiria muito tempo e dedicação caso fosse feito da maneira tradicional. Apesar desse avanço, simular a expressão e o gestual da linha no desenho como é feito no papel, ainda é muito complicado de se fazer no computador. Para manter a expressão do traço, e deixar a ilustração mais orgânica, optei por fazer os desenhos de maneira tradicional, utilizando tinta nanquim aplicada com bico de pena, pincel e caneta. A pintura, decidi fazer no ambiente digital pela gama de possibilidades que são oferecidas, ficando mais fácil e rápido experimentar novas abordagens. Neste ambiente posso colorir uma área de azul, e se não gostar, com um só clic do mouse mudar para qualquer outra cor.
  20. 20. 20 2.1.2 Do esboço a arte final. Após definida a técnica, selecionado o tema, a poesia e a música de cada ilustração, inicia-se o processo de criação e execução de cada obra. Esse processo será apresentado a seguir na forma de um passo a passo ilustrado, indo da fase do esboço visual das idéias, até a finalização digital da ilustração. Foi escolhida a ilustração Clandestino para demonstrar as etapas de criação. A fig. 08, trata dos materiais empregados durante as etapas do processo de criação das ilustrações desta série. Foram utilizados papel sulfite, papel vegetal, lápis HB e 2B para o esboço, caneta nanquim, pincel e tinta nanquim para as etapas de finalização do desenho. Na etapa digital de manipulação e colorização, foi utilizado um computador, um scanner, uma mesa digitalizadora, e softwares como o Adobe Photoshop CS6, Adobe Ilustrator CS6 e o Corel Painter X34 . 4 Segundo Caplin (2012, p. 32) em seu livro O essencial da ilustração, o Adobe Photoshop CS6, Adobe Ilustrator CS6 e o Corel Painter X3 4 são aplicativos de computador utilizados para a ilustração digital. Fig.08 - Materiais utilizados (Acervo do Artista).
  21. 21. 21 Na fig. 09, podemos observar o esboço feito com grafite (1) em papel sulfite, que foi digitalizado posteriormente. Nessa etapa, é importante o uso de referências visuais para ajudar a compor a idéia do que se pretende ilustrar. Com o desenho aberto no Photoshop, comecei a esboçar o resto, explorando as possibilidades de composição da cena (passos 2, 3 e 4). Fig. 09 - Do rascunho à digitalização (Acervo do Artista).
  22. 22. 22 Após esta fase, o esboço da composição que foi feita no Photoshop é impresso (5), para servir de base para a line art5 , fig. 10, feita com tinta nanquim. A line art é feita colocando-se uma folha de papel vegetal sobre a impressão, e depois traçando-se de maneira convicta as linhas feitas com pincel, caneta e tinta nanquim (passos 5, 6 e 7). Após essa etapa, a line art que está feita sobre o papel vegetal é novamente digitalizada através do scanner para receber a pintura digital (8). 5 Castagini (2010, p. 16) afirma que a line art é normalmente a passagem do traço do desenho ou esboço inicial para o traço definitivo. Fig. 10 - Da line art a finalização (Acervo do Artista).
  23. 23. 23 A pintura digital é realizada no Photoshop, fig. 11, utilizando-se os princípios de sobreposição de camadas. A primeira parte a receber a cor é o penhasco (9). O fundo é uma mistura que resulta da colagem de uma fotografia manipulada de um céu estrelado com camadas de tinta aplicadas sobre ele (10). A última etapa foi definir e aplicar as cores que fazem parte dos personagens em primeiro plano, e os detalhes de iluminação e sombreamento da imagem (11). Fig. 11 - Pintura digital (Acervo do Artista).
  24. 24. 24 2.2 As Ilustrações. A primeira ilustração da série é O mundo não se fez para pensarmos nele (fig. 12), que foi baseada no poema de mesmo nome de Alberto Caeiros, pseudônimo de Fernando Pessoa, importante poeta português. Procurou-se absorver o sentimento de liberdade e o olhar de novidade sobre as coisas do mundo, como se percorrêssemos os nossos caminhos pela a primeira vez, e dessa forma, estivéssemos escancarados à surpresa que rondam o nosso caminho. A imagem ilustra como seria esse caminho que percorremos diariamente seja qual for o destino, se ele fosse percorrido com um "espírito" de primeira vez. A alusão à fábula da "Chapeuzinho Vermelho" ajuda o espectador a povoar e tornar-se íntimo desse mundo. Vivemos em um mundo onde sair de casa é um risco. As tentações, os perigos ocultos, as mazelas, as pressões, tudo pode acontecer ao abrir a porta de casa e colocar o pé na rua. Saímos para o mundo (fora de casa) com um manual de comportamento, com experiências compradas de forma barata, que nos diz como devemonos portar mediante as situações que se apresentam a nossa frente. Mas aí vem a pergunta: o que acontece se sairmos do caminho? Onde está o lobo mau da nossa história? Não sei se vale a pena continuar na estrada segura só para chegar à casa da vovózinha. As linhas em preto procuram definir bem a forma dos objetos e da própria garota na imagem. Optei por deixar que as cores atuassem de forma livre e não tivessem nenhuma correspondência com as cores dos objetos da nossa realidade, tornando o conjunto semelhante a um pensar, a um sonho que terá fim ao acordarmos após uma noite de sono. Mundo não se Fez para Pensarmos Nele O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas
  25. 25. 25 Olhando para a direita e para a esquerda, E de, vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender ... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar... Alberto Caeiros
  26. 26. 26 Fig. 12 - O mundo não se fez para pensarmos nele. Técnica mista nanquim/pintura digital. 28 x 20 cm (Acervo do artista) A segunda ilustração, Mulher da vida (Fig. 13), é baseada no poema de mesmo nome escrito pela poetisa e escritora Cora Coralina. O tema abordado é a prostituição e o respeito dado às mulheres que atuam nessa profissão, que existe há muito tempo na história da humanidade. Passamos por essas mulheres sem nos importarmos com elas, como se fossem ornamentos urbanos, ficam a margem social, junto aos
  27. 27. 27 indigentes, junto as pessoas que não olhamos o rosto. Esse é o objetivo que a ilustração busca alcançar, denunciar o comportamento da sociedade com as mulheres que por suas escolhas, ou não, se entregam à profissão do prazer. Buscou-se concentrar o peso das linhas, o sombreado, nas duas mulheres sem rosto, que parecem estar em segundo plano, com todo o peso moral e social colocado sobre elas. Em primeiro plano, as pessoas que passam, desenhadas com linhas mais soltas e sem sombreamento, buscando uma impressão que causa a idéia de algo passageiro, as pessoas que passam por ali sem se dar conta do submundo a sua volta. As cores foram escolhidas e aplicadas com o intuito de deixar a imagem com a impressão de "suja", transmitir uma sensação quente e vulgar de um mundo misterioso que não gostamos de lembrar, mas acabamos por nos esbarrar. Fig. 13 - Mulher da Vida. Técnica mista nanquim/pintura digital. 20 x 28 cm (Acervo do artista).
  28. 28. 28 Mulher da vida Mulher da vida, Minha irmã. De todos os tempos. De todos os povos. De todas as latitudes. Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada dos mais torpes sinônimos, apelidos e ápodos: Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher à toa. Mulher da vida, Minha irmã.’ Cora Coralina, in "Poemas de Goiás e Estórias Mais." A canção A cor do desejo na voz de Ney Matogrosso, é extremamente sensual e carregada de um erotismo velado. Acompanhado de um violino, instrumento que por excelência representa muito bem quando tocado os desejos dos amantes que não procuram outro fim, a não ser consumir-se até a satisfação. A terceira ilustração da série, São teus beijos que me acertam e revelam a ti o meu coração (fig. 14), é inspirada nessa canção. As linhas que desenham os dois amantes, são grossas e buscam a expressividade, que só consegui alcançar ao substituir o bico de pena e a caneta nanquim pelo pincel. O pincel permitiu um traçado mais espontâneo, menos calculado e mais orgânico, ajudando a passar uma sensação maior de intimidade e sentimento entre o casal, que busca apenas em consolidar o amor naquele momento,
  29. 29. 29 naquele ato, desapegado a qualquer pudor e preocupando-se apenas com a união dos corpos. As cores seguiram a sugestão da música, e foram aplicadas de forma a compartilhar o interior dos dois amantes, nuances vermelhas, laranjas, amarelas, verdes e azuis que expressão os sentimentos, muitas vezes confusos que são compartilhados durante o ato sexual, que muitas vezes nos são revelados pelos pequenos gestos no leito do amor. O fundo foi escolhido apenas para amparar o primeiro plano da imagem, e evitar que houvesse concorrência ou desvio de foco dos amantes, e complementasse com as cores e formas a sensação e comunicação pretendida pela ilustração. Fig. 14 - São teus beijos que me acertam e revelam a ti o meu coração. Técnica mista nanquim/pintura digital. 30,5 x 40 cm. (Acervo do artista).
  30. 30. 30 A Cor do Desejo A tua boca anda oca Da minha língua Da minha língua A minha língua anda à míngua Sem tua boca Sem tua boca Exatos são os teus olhos que invadem E me revelam teu coração Exata é a cor do teu deserto A dor do teu deserto Exatos são teus beijos que me acertam E a ti revelam meu coração Exata é a cor do teu desejo A dor do teu desejo Ney Matogrosso Composição : Junior Almeida / Ricardo Guima Uma menina tão desgarrada (Fig. 15) é o nome da quarta ilustração da série que foi baseada na música do Zé Ramalho Mistérios da meio noite. A música basicamente conta a história de uma menina que ao descobri-se mulher, entrega-se ao seu professor, um homem com a astúcia e experiência da idade que parece se aproveitar da inocência da menina frente ao amor. Nessa Ilustração usei a sobreposição de vários desenhos para formar a imagem da menina que desabrocha na boca de um lobo. O desenho foi todo feito usando o pincel com tinta nanquim de modo a criar uma sensação orgânica, de fusão e movimento entre o lobo, a flor e a garota. Optei por inserir uma imagem fotográfica manipulada de uma lua cheia para compor o fundo e agregar informação.
  31. 31. 31 As cores são frias, com o intuito de representar a noite e o mundo em que a personagem está inserida. O azul, na parte inferior lembra o mar, simbolizando a agitação sentimental vivida pela garota. Os tons de cor mais quentes estão aplicados na personagem; no rosto, no lobo e na rosa, representando a paixão que ela vive na música, e sua opção por se entregar aos sentimentos ao invés de viver uma vida a abdicá-los. Essa ilustração permite uma outra interpretação da história, podemos considerar a menina que se descobre dona de seus sentimentos e sabe muito bem vivê-los. Uma garota que cresceu e age na paixão como uma predadora, uma loba. Mistérios da Meia-Noite Mistérios da Meia-Noite Que voam longe Que você nunca Não sabe nunca Se vão se ficam Quem vai quem foi... Impérios de um lobisomem Que fosse um homem De uma menina tão desgarrada Desamparada se apaixonou... Naquele mesmo tempo No mesmo povoado se entregou Ao seu amor porque? Não quis ficar como os beatos Nem mesmo entre Deus Ou o capeta Que viveu na feira... Zé Ramalho composição : Zé Ramalho
  32. 32. 32 A forma como condicionamos a nossa vida em algo que damos o nome de tempo, e suas medidas que regem as nossas vidas, sonhos e planos, sejam elas horas, dias, anos, o hoje, o amanha ou o ontem. Isso tudo serve como tema para a quinta ilustração que recebe o nome de Gaiola (fig. 16) e que foi inspirada no poema Duração de Carlos Drummond de Andrade. Tento mostrar com a ilustração de forma subjetiva e utilizando alguns símbolos de como somos presos e explorados pelo tempo, e como em nossa sociedade moderna somos levados a negligenciar aspectos básicos da nossa existência em função do tempo. Sacrificamos muito por ele, ele nos engole com a fome de um gigante insaciável. Fig. 15 - Uma menina tão desgarrada. Técnica mista nanquim/pintura digital/colagem digital. 42 x 30,5 cm. (Acervo do artista).
  33. 33. 33 O desenho foi feito utilizando caneta nanquim, com a intenção de conseguir uma linha mais precisa. A precisão é algo importante na medida do tempo, e tentei explorar isso nos desenhos que compõe a imagem. A sobreposição do ponteiro sobre a figura feminina expressa o rigor com que o tempo rege e mede as nossas vidas, algo que é complementado pelos dois relógios sobrepostos ao fundo da personagem. Os dois pássaros surpresos que ensaiam o vôo para fora da gaiola, gaiola esta que é formada pelos ossos do tórax, representam a qualidade inerente de liberdade dos sonhos e pensamentos humanos, que como pássaros presos em uma gaiola, anseiam pela liberdade, uma vida sem amarras e caminhos definidos. As cores foram definidas de acordo a se integrarem e a contrastarem ao desenho. Elas são aplicadas de modo a simular o acaso e a liberdade, fatores que fogem do nosso controle. Isso tudo procura ajudar a imagem a transmitir as sensações e idéias sobre o tema abordado. Duração O tempo era bom? Não era O tempo é, para sempre. A hera da antiga era roreja incansavelmente. Aconteceu há mil anos? Continua acontecendo. Nos mais desbotados panos, estou me lendo e relendo. Tudo morto, na distância que vai de alguém a si mesmo? Vive tudo, mas sem ânsia de estar amando e estar preso. Pois tudo enfim se liberta
  34. 34. 34 de ferros forjados no ar. A alma sorri, já bem perto, da raiz mesma do ser. Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco' A sexta ilustração (fig. 17) recebe o nome de Tudo mudou, sendo baseada a partir da música Meu erro da banda Paralamas do Sucesso. A música fala dos encontros e desencontros de um casal, que por não saber lidar com as diferenças existentes entre eles, acabam por seguir caminhos distintos. Muitos casais tem dificuldade em um relacionamento em compreender o jeito, e respeitar o espaço individual do outro. No espaço urbano estamos sob forte estresse, causado pelas responsabilidades que Fig. 16 - Gaiola. Técnica mista nanquim/pintura digital/colagem digital. 45 x 30,5 cm (Acervo do artista).
  35. 35. 35 temos com a família, trabalho e as cobranças que nós sofremos por parte da sociedade, e muitas vezes acabamos por nos frustrar por não conseguir corresponder o que se espera de nós. Com isso, muitas vezes o nosso relacionamento acaba sendo uma válvula de escape, e exercemos a mesma cobrança que sofremos em cima do parceiro. É esse, o estado que a ilustração procura captar e transmitir para o observador, de modo a trazê-lo para um ambiente em que ele possa ter afinidade. Os dois animais, a girafa e o rinoceronte, representam a diferença no modo de ser e pensar no mundo das pessoas do cotidiano, e que mesmo assim com tantas diferenças, conseguem estar em um relacionamento. Relacionamento esse que pode superar suas diferenças em detrimento de algo maior que os une, ou vai se desfazendo aos poucos conforme esses contrastes se tornam mais evidentes ao ponto de o convívio ficar insuportável. As cores representam o calor do mundo urbano, que apesar de todos os problemas, nos enche de esperança e aconchego. As cores que compõem o casal, em vários momentos se mesclam por meio de manchas, representando as coisas que carregamos do convívio com outras pessoas. No mundo urbano, acaba sendo difícil dissociar o que é seu, e o que foi incorporado. Os desenhos foram sobrepostos e traçados com caneta nanquim e pincel, obtendo uma composição próxima a de uma pirâmide, que ajuda a evidenciar a hierarquia que olhamos desse ambiente. Meu Erro Eu quis dizer Você não quis escutar Agora não peça Não me faça promessas
  36. 36. 36 Eu não quero te ver Nem quero acreditar Que vai ser diferente Que tudo mudou Você diz não saber O que houve de errado E o meu erro foi crer Que estar ao seu lado Bastaria Ah! Meu Deus Era tudo o que eu queria Eu dizia o seu nome Não me abandone Mesmo querendo Eu não vou me enganar Eu conheço os seus passos Eu vejo os seus erros Não há nada de novo Ainda somos iguais Então não me chame Não olhe pra trás Não me abandone jamais Não me abandone jamais Não me abandone jamais Os Paralamas do Sucesso Composição: Herbert Vianna
  37. 37. 37 A sétima ilustração da série, Clandestino (fig. 18), é inspirado na música de mesmo nome cantada pela Adriana Calcanhoto e composta por Manu Chao. O tema abordado é o preconceito sofrido pelos imigrantes vindos de países subdesenvolvidos. A xenofobia é um problema cada vez maior nos países que recebem muitos imigrantes. Esses imigrantes saem de sua pátria em busca de oportunidades melhores de vida, já que vem muitas vezes de países pobres, de baixo desenvolvimento humano ou nações que estejam passando por conflitos armados.Essas pessoas se sujeitam muitas vezes a qualquer tipo de emprego, e acabam sofrendo uma marginalização social, pois são empregados muitas vezes em organizações que possuem atividades ilícitas. Fig. 17 - Tudo mudou. Técnica mista nanquim/pintura digital. 37,5 x 30,5 cm. (Acervo do artista).
  38. 38. 38 A ilustração procura dialogar com o receptor estes aspectos retratados pela música. O garoto que corre à frente representa os indigentes, decidi vestir um saco sobre a cabeça dele para simbolizar este fato, que é perseguido por uma massa social que enxerga nesses indigentes uma válvula para a sua própria ignorância, atacando e evitando aquilo que não compreende. Usei como inspiração para compor a imagem, cenas de alguns filmes que trazem a perseguição ao monstro, como por exemplo a perseguição ao monstro Frankstein. O fundo foi montado a partir de uma fotografia que mostra um céu estrelado, que foi manipulado e recebeu manchas de cores para se integrar melhor ao desenho e as cores aplicadas sobre ele. O céu estrelado serve para nos lembrar que viemos e vamos para o mesmo lugar em algum momento, somos todos igualmente insignificantes individualmente e importantes quando coletivamente para uma ordem maior. Alguns símbolos estão espalhados pela imagem e servem como recurso narrativo, que procuram traçar uma ordem dos acontecimentos. O garoto com o saco na cabeça corre com um coração na mão após atravessar uma porta sobre uma amarelinha. Usei crianças para fazer uma associação à crença da criança interior de cada adulto. O coração roubado, representa uma identidade roubada, um desespero para se sentir incluído em uma sociedade. A porta representa um caminho escolhido, e todas as suas possibilidades e conseqüências. A amarelinha é uma brincadeira infantil, onde o objetivo é pular as casas para se chegar ao "céu". Ao interromper a amarelinha com o fim do caminho que dá em um penhasco antes da última casa, o "céu", tento criar uma expectativa sobre o futuro da ação que se desenrola na ilustração. Clandestino (tradução) Sozinho vou com minha dor Sozinha vai minha condenação Correr é meu destino
  39. 39. 39 Para burlar a lei Perdido no coração Da grande babilônia Me chamam clandestino Por não levar papel Para uma cidade do norte Eu fui trabalhar Minha vida deixei Entre Celta e Gilbraltar Sou uma arraia no mar Fantasma na cidade Minha vida vai proibida Diz a autoridade Sozinho vou com minha dor Sozinha vai minha condenação Correr é meu destino Por não levar papel Perdido no coração Da grande babilônia Me chamam clandestino Eu sou o quebra-lei Mano negra clandestina Peruano clandestino Africano clandestino Marijuana ilegal Sozinho eu vou com minha dor Sozinha vai minha condenação Correr é meu destino Para burlar a lei Perdido no coração Da grande babilônia Me chamam clandestino Por não levar papel
  40. 40. 40 Argelino clandestino Nigeriano clandestino Boliviano clandestino Mano negra ilegal6 Adriana Calcanhotto Composição: Manu Chao A última ilustração (fig. 19) celebra a diversidade cultural em que vivemos. Independente de onde viemos, de qual o nosso status social, temos o direito de sonhar, direito de abraçar o mundo e suas idéias. Quando 6 Tradução obtida através do site letras.mus.br. Disponível em : < http://letras.mus.br/manu- chao/7356/traducao.html>. acesso em : 15 out. 2014. Fig. 18 - Clandestino. Técnica mista nanquim/pintura digital/colagem digital. 45 x 30,5 cm. (Acervo do artista).
  41. 41. 41 criança, não perdemos tempo com os detalhes, fazemos do sonho realidade com o que está ao nosso alcance. Um graveto vira uma espada pronta a defender um castelo, uma toalha amarrada no pescoço nos faz ser capaz de voar sobre os prédios mais altos. O mundo é das crianças! As crianças de diferentes culturas vivem uma realidade diferente umas das outras, mas todas são iguais quando se trata de imaginar, de sonhar. Essa ilustração recebe o nome de O mundo é meu, e foi baseada no poema Versos de Orgulho escrito pela poetisa portuguesa Florbela Espanca. O desenho é formado por um menino de cabelo crespo que representa as etnias africanas, montado em um tigre, que é um símbolo de força e dominação para a cultura asiática, que se equilibra em uma tampa de Coca-Cola, um símbolo do capitalismo norte americano. Juntando esses aspectos, procuro transmitir a idéia de globalização do mundo em que vivemos, onde não existem mais fronteiras culturais, e sim um absorção de culturas pelo indivíduo. As cores são aplicadas com a intenção de reforçar essa idéia de miscigenação cultural. Versos de Orgulho O mundo quer-me mal porque ninguém Tem asas como eu tenho! Porque Deus Me fez nascer Princesa entre plebeus Numa torre de orgulho e de desdém! Porque o meu Reino fica para Além! Porque trago no olhar os vastos céus, E os oiros e os clarões são todos meus! Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!
  42. 42. 42 O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?! O jardim dos meus versos todo em flor, A seara dos teus beijos, pão bendito, Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... São os teus braços dentro dos meus braços: Via Láctea fechando o Infinito!... Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" Fig. 19 - O mundo é meu. Técnica mista nanquim/pintura digital/ colagem digital.45 x 30,5 cm. (Acervo do artista).
  43. 43. 43 CONSIDERAÇÔES FINAIS Foi altamente gratificante e desafiador ilustrar ao mesmo tempo as músicas e poesias selecionadas para este projeto. Selecionar as músicas e as poesias, equilibrando o gosto pessoal junto as possibilidades que poderia explorar de cada ilustração demandou tempo e esforço, pois tive que me desfazer de várias imagens pré-concebidas que já havia formado em minha cabeça, para olhá-las de maneira nova, e buscar dar uma nova interpretação ao texto e à melodia. Há alguns aspectos que infelizmente são sacrificados quando se trata de ilustrar uma música, entre esses aspectos o que mais sinto não poder compartilhar por sua natureza é o som. Apesar de a ilustração representar bem o "espírito" da música, creio que uma apreciação completa só acontece com a visualização da imagem junto ao ouvir a música. O processo de ilustrar foi desafiador por si só, conseguir reunir as informações necessárias para que a imagem representasse as nuances e o conteúdo do texto poético ou da música e ainda assim ter uma liberdade artística e expressiva na abordagem foi um desafio. Desde o momento de pesquisar as referências, em que procurei formar um arcabouço de imagens para que pudessem alimentar a minha composição e chegar a soluções criativas, até as etapas de definição do estilo de traço a ser utilizado nos desenhos e como seriam aplicados as cores para que as ilustrações mantivessem um aspecto onírico. Foram expostos uma breve história da ilustração que nos apresentou alguns nomes importantes para esta área, e as técnicas e meios utilizados para chegar aos resultados. Para ilustrar, o profissional tem que ter conhecimentos de várias outras áreas, dominar os aspectos técnicos que ainda estão em evolução e não ter medo de juntar o "velho" com o "novo". A ordem é experimentar.
  44. 44. 44 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Junior; GUIMA, Ricardo. A cor do desejo. in: MATOGROSSO, Ney. Beijo Bandido. 2009. EMI. CD. Faixa 4. ANDRADE, Carlos Drummond de. Duração. Disponível em: <http://www.citador.pt/poemas/duracao-carlos-drummond-de-andrade>. Acesso em: 14 jun. 2014. AMBROSE, Gavin; HARRIS, Paul. Designe básico imagem. Bookman, Porto Alegre, 2009. AVELLAR, Maria Joana. Adara Sanchez: anatomia aquarelada. Disponível em: <http://escoladecriacao.espm.br/2011/adara-sanchez-anatomia- aquarelada/>. Acesso em: 02 nov. 2014. CAEIRO, Alberto. O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele. Disponível em: < http://www.citador.pt/poemas/o-mundo-nao-se-fez-para-pensarmos-nele- alberto-caeirobrheteronimo-de-fernando-pessoa>. Acesso em: 14 jun. 2014. CAPLIN, Steve. O essencial da ilustração. Editora Senac, São Paulo, 2012. CASTAGINI, Andrea. A força da ilustração. In: Secretaria de Estado. Superintendência da Educação. Diretoria de Tecnologias Educacionais. Ilustração Digital e Animação. SEED, Curitiba, 2010 CHINEN, Nobu (org.). Curso Básico - Design Gráfico. Editora Escala ltda, São Paulo, 2011. CHAO, Manu. Clandestino. in: CALCANHOTTO, Adriana. Público. 2000. BMG. CD. Faixa 3. DEAN, Roger. Album cover para o Yes. Disponível em :< http://www.rogerdean.com/roger-dean-posters/yesterdays-big-o-poster/>. Acesso em: 02 nov. 2014. ECKERSLEY, Tom. Poster. Disponível em : <http://www.iwm.org.uk/collections/search?query=eckersley&items_per_page= 50&f%5b0%5d=webCategory%3Aposters >. Acesso em: 02 nov. 2014. FLORBELA, Espanca. Versos de Orgulho. Disponível em: <http://www.citador.pt/poemas/versos-de-orgulho-florbela-de-alma-conceicao- espanca>. Acesso em: 14 jun. 2014 HALL, Andrew. Fundamentos essenciais da ilustração. Rosari, São Paulo, 2012.
  45. 45. 45 HEWLETT, Jamie. Monkey - Journey to the West. Disponível em : <http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/art/features/monkey- business-artist-jamie-hewlett-reveals-how-he-created-his-antihero- 997071.html?action=gallery&ino=10>. Acesso em: 02 nov. 2014. JUBRAN, Alexandre. Desenho a Mão Livre. Editora Criativo, 2011. letras.mus.br. Manu Chao: Clandestino(tradução). Disponível em: <http://letras.mus.br/manu-chao/7356/traducao.html>. Acesso em 15 out. 2014 MAYER, Ralph. Manual do Artista. Martins Fontes, São Paulo, 2002. MORAES, José Geraldo Vinci de. História e música: canção popular e conhecimento histórico.Revista Brasileira de história. São Paulo, v.20, n.39, p. 203-221. 2000. RAMALHO, Zé. Mistérios da meia noite. in: RAMALHO, Zé. Zé Ramalho ao vivo. 2005. Sony/BMG. CD. Faixa 14. OLIVEIRA, Rui de. Pelos Jardins Boboli – reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2008. PUCRS. Como ler e escrever poesia . Disponível em: < http://www.pucrs.br/gpt/poesia.php>. Acesso em 06 jun. 2014. RODRIGUES, Olympia Salete. Cora Coralina: Biografia e Poemas. Disponível em :< http://www.paralerepensar.com.br/coracoralina.htm>. Acesso em: 14 jun. 2014. SANCHEZ, Adara. Disponível em : < http://cargocollective.com/adara/Mixed-media>. Acesso em: 02 nov. 2014. TORRES, Apolo. Disponível em : < http://apolotorres.com/site/>. Acesso em: 02 nov. 2014. VIANNA, Herbert. Meu Erro. in: VIANNA, Herbert. Os Paralamas do Sucesso / Uns dias. 2004. EMI. CD. Faixa 9. ZEEGEN, Lawrence. The Fundamentals of Illustration. AVA, 2005
  46. 46. Vasco Paez Neto - O mundo não se fez para pensarmos nele. - Técnica mista nanquim/pintura digital. Dimensões 30x 20 cm.
  47. 47. Vasco Paez Neto - Mulher da vida.- Técnica mista nanquim/pintura digital. Dimensões 24 x 30 cm.
  48. 48. Vasco Paez Neto - São teus beijos que me acertam e revelam a ti o meu coração.- Técnica mista nanquim/pintura digital. Dimensões 30,5 x 40 cm.
  49. 49. Vasco Paez Neto - Uma menina tão desgarrada.- Técnica mista nanquim/pintura digital/colagem digital. Dimensões 42 x 30,5 cm.
  50. 50. Vasco Paez Neto - Gaiola.- Técnica mista nanquim/pintura digital/colagem digital. Dimensões 35 x 25 cm.
  51. 51. Vasco Paez Neto - Tudo mudou.- Técnica mista nanquim/pintura digital. Dimensões 37,5 x 30,5 cm.
  52. 52. Vasco Paez Neto - Clandestino. - Técnica mista nanquim/pintura digital. Dimensões 45 x 30,5 cm.
  53. 53. Vasco Paez Neto - O mundo é meu.- Técnica mista nanquim/pintura digital/colagem digital. Dimensões 45 x 30,5 cm.
  54. 54. CURRÍCULO Vasco Mendes Paez Neto Rua Alfenas, 135. São Francisco. vascopaezneto@gmail.com Exposições: A impressão que fica -Galeria Wega Nery - 05/2012 FAT 4.0 - Corredores da Unidade VIII UFMS - 09/2012 FAT 4.0 - Obra coletiva- Corredores da Unidade VIII UFMS - 09/2012 Exposição coletiva de escultura assemblage - Unid. VIII UFMS -10/2012 Coletivo Aurora - SESC Horto Florestal - 06/2013 Tintas e Afins - Morada dos Baís - 10/2014 Intro - Memorial da Cultura Apolônio de Carvalho - 11/2014

×