Tcc 2014 cybelle manvailler

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TCC´S bacharelado Artes

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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS DEPARTAMENTO DE ARTES VISUAIS GRADUAÇÃO CYBELLE MANVAILER GONÇALVES UNIVERSOS, IDENTIDADES E AUTOCONHECIMENTO Campo Grande - MS 2014
  2. 2. CYBELLE MANVAILER GONÇALVES UNIVERSOS, IDENTIDADES MÚLTIPLAS E AUTOCONHECIMENTO Relatório de Pesquisa, apresentado como exigência parcial para avaliação final na disciplina Trabalho de Conclusão de Curso II da graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, sob a orientação dos Prof.ª Eluiza Bortolotto Ghizzi. Campo Grande – MS 2014
  3. 3. Bem Vindo ao nosso Universo!
  4. 4. Expresso aqui, a minha gratidão, a meus familiares pelo apoio, pela colaboração e ajuda na compra de materiais e principalmente pelo imenso sacrifício e dedicação em respaldar minha vida para que eu pudesse concluir uma faculdade em tempo integral com tantas dificuldades emocionais e materiais nesse período, em especial a meus avós Neide Manvailer e Alcindo Manvailer, minha mãe Christina Manvailer, meu padrasto José Irany Fernandes e meu Tio Marcelo Adão, que se fizeram sempre presentes nos muitos momentos de dificuldades; Gratidão também a Andréia da vidraçaria Imperial que deu apoio e incentivo à obra com parte dos materiais, Obrigada aos professores pelo incentivo e compreensão quanto à forma como se desenvolve minha mente hiperativa e sem parada para descanso, Especialmente ao Prof. Dr. Paulo Paes e a minha orientadora Prof. Drª Eluiza Bortolotto Ghizzi, que me ajudou em meio a um processo pessoal turbulento e com sua compreensão e com seu largo conhecimento me possibilitou grande liberdade no desenvolvimento da pesquisa teórica fazendo desse trabalho um processo prazeroso e interessante. E especial gratidão a meu filho Gabriel Henrique, que com muita paciência e sacrifícios, exercitou o máximo de sua compreensão e companheirismo diante dos inúmeros trabalhos, projetos e pesquisas, que por necessidade do período, tomaram muito de nosso tempo juntos. A todos a minha imensa e sincera Gratidão!
  5. 5. RESUMO Neste trabalho de graduação é apresentada uma pesquisa teórica, que aborda a formação de identidade do indivíduo contemporâneo tendo como foco principal um convite ao autoconhecimento como forma de desvelar nossas deficiências e particularidades sofridas ao longo da vida e achar um caminho de leveza e equilíbrio internos que se façam força maior diante das pressões cotidianas. Foram abordadas algumas relações estabelecidas pela mente, quanto ao emocional, intelectual e experiências vividas pelo ser humano, explorando as possíveis bases de seleção de conceitos formando personalidades e refletindo sobre as ações como consequências das mesmas. Para abordar as questões de construção internas, e as exigências do mundo contemporâneo em inter- relações continuas entre os indivíduos, bem como os processos de seleção de informação pela mente e finalmente ao trabalho particular de fazer o caminho interno pelo autoconhecimento, recorremos a análises de área cientificas como, metapsicologia, semiótica, sociologia e neurociência e “filosofias” orientais consideradas não-cientificas. Para tal propósito, analisamos teóricos como Stuart Hall, Sigmund Freud, Rosa Cukier, Paulo Paes, Marilena Chauí, Chalhub et All, Nörth & Santaella, Osho, Chopra et All, Fred Travis e Tunner et All. Esses autores partem de perspectivas sociológicas, psicológicas, neurocientíficas, filosóficas e espiritualistas para abordar o surgimento das construções identitárias, das quais damos enfoque em especial às particularidades conflitantes, e o processo de equilíbrio e unificação das mesmas pelo autoconhecimento. E entendendo como funciona a apropriação de características individuais pela inter-relação entre as pessoas, uma obra de instalação apresentada ao público, fruto de pesquisa teórica sem referência direta de imagem, se propõe a uma reflexão sobre a responsabilidade do artista quanto ao uso de imagem, bem como, nossa visão de nós mesmos enquanto indivíduos, considerando nossa singularidade e, dos outros com os quais nos relacionamos, como vemos e somos vistos, em um convite ao se conhecer e se questionar, entendendo que antes da crítica alheia devemos fazer uma autocrítica e identificar onde estamos inseridos e, como nós relacionamos o meio externo, com esse espaço interno de nós mesmos.
  6. 6. Palavras-chaves: Identidade, Singularidade, Meditação, Autoconhecimento, Consciência.
  7. 7. ABSTRACT In this graduate work is presented a theoretical research which addresses the identity formation of the contemporary individual focusing mainly on an invitation to self-knowledge as a way of revealing our weaknesses and peculiarities suffered lifelong and find a way of lightness and inner balance to make greater strength in the face of daily pressures. They dealt with some links created by the mind, as the emotional, intellectual and experiences of the human being, exploring the potential of concepts selection of bases forming personalities and reflecting on the same actions as the consequences. To address internal construction issues, and the demands of the contemporary world in continuous inter-relationships between individuals and the information selection processes of the mind and finally to the particular job of making the internal path for self- knowledge, we turn to analysis of scientific area as metapsychology, semiotics, sociology and neuroscience and "philosophies" Eastern considered non- scientific. For this purpose, we analyze theorists such as Stuart Hall, Sigmund Freud, Rosa Cukier, Paulo Paes, Marilena Chauí, et Chalhub All, North & Santaella, Osho, Chopra et All, Fred Travis and Tunner et all. These authors start from sociological perspectives, psychological, neuroscientific, philosophical and spiritual for address the emergence of identity constructions, of which we focus in particular to conflicting characteristics, and the balancing process and unification of the same self-knowledge. And understanding how the appropriation of individual characteristics by the inter-relationship between people, a work of installation presented to the public in theoretical research result without direct reference image, it is proposed to reflect on the artist's responsibility for the use of image as well as our view of ourselves as individuals, considering our uniqueness and of others with whom we deal, as we see and are seen in an invitation to meet and questioning, understanding that before the others must make a critical self-criticism and identify where we operate and how we relate the external environment, with this inner space of ourselves. Keywords: Identity, Uniqueness, Meditation, Self-Knowledge, Consciousness.
  8. 8. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Crianças fantasiadas de super-heróis...............................................38 Figura 2: Menino e ídolo super-herói................................................................39 Figura 3: Menino de super man........................................................................42 Figura 4: Signo e representamem......................................................................61 Figura 5: Emoção. Esquema signos derivados da emoção que se relacionam diretamente com signos imagéticos que por sua vez, derivam de signos- objeto- matéria...............................................................................................................63 Figura 6: Modelo semiótico de relação humana, como exemplo, caso de abuso sexual.................................................................................................................67 Figura 7: Modelo semiótico de relação humana 2..............................................68 Figura 8: Semiose e possíveis interpretações originárias de outro signo...........69 Figura 9: Consciente e Inconsciente...................................................................77 Figura 10: Ciclo vicioso de ansiedade................................................................78 Figura 11: Subconsciente em conflito.................................................................85 Figura 12: Diminuição de atividade parte frontal cerebral durante sonho e outras áreas em atividade de reparação.......................................................................97 Figura 13: Estados da consciência relacionando conteúdo mental e senso de self. Aqui dois estados da consciência...............................................................98 Figura 14: Atividades cerebrais durante o sono.................................................98 Figura 15: Localização do sistema límbico.........................................................99 Figura 16: Áreas ativadas no cérebro para desenvolvimento de tarefas diferenciadas....................................................................................................100 Figura 17: Áreas cerebrais ativadas antes e depois do experimento................101 Figura 18: Tabela com quatro estados da consciência conforme pesquisa Dr. Travis...............................................................................................................104 Figura 19: Dimensão vertical da mente............................................................105 Figura 20: tabela do resultado de pesquisa por seleção do tipo de palavras, de respostas de questionários dos indivíduos, por software...........................................................................................................107 Figura 21: Meditação Shinsokan 1...................................................................114 Figura 22: Meditação Shinsokan 2...................................................................115
  9. 9. Figura 23: Livro de práticas da primeira infância da autora...............................121 Figura 24: Rosto coberto com atadura gessada e protótipos prontos..............130 Figura 25: Colocação de atadura no rosto........................................................131 Figura 26: Máscara de gesso e resina.............................................................132 Figura 27: Máscara de gesso lixada.................................................................132 Figura 28: Máscara com manta de argila e argila no silicone..........................133 Figura 29: Primeira fôrma para moldar.............................................................133 Figura 30: Modelo de gesso mergulhado em silicone.......................................134 Figura 31: Molde de silicone da máscara-fôrma-protótipo com gesso usado para produzi-lo.........................................................................................................134 Figura 32: Máscara-protótipo que não deu certo.............................................135 Figura 33: Máquinas para dar acabamento e, lixando máscara de massa plástica.............................................................................................................136 Figura 34: Protótipo para produzir fôrma-reprodutiva......................................136 Figura 35: Protótipo com vara para suporte na fôrma-reprodutiva...................137 Figura 36: Caixa fôrma 2º etapa.......................................................................137 Figura 37: Protótipo máscara dentro da fôrma para colocar silicone...............138 Figura 38: Vista de adequação do protótipo e, já com silicone na fôrma.........138 Figura 39: Silicone na fôrma final......................................................................139 Figura 40: Fôrma reprodutiva concluída...........................................................140 Figura 41: Correção de lateral com silicone bisnaga........................................141 Figura 42: Diluição de resina com thiner para P.U............................................143 Figura 43: Materiais de segurança para manipulação dos produtos................143 Figura 44: Máscaras super-heróis - gesso........................................................144 Figura 45: Preparo gesso.................................................................................145 Figura 46: Tiragem de máscara de gesso com fundo preenchido....................145 Figura 47: Rostos das crianças que formam caminho em frente ao meditante na obra..................................................................................................................146 Figura 48: Rostos de massa plástica (crianças), feitos a mão, sem fundo preenchido, nas fôrmas de atadura gessada....................................................147 Figura 49: Seixos brancos................................................................................148 Figura 50: Tenda branca..................................................................................148 Figura 51: Projeto virtual de instalação em perspectiva....................................151
  10. 10. Figura 52: Projeto virtual de instalação em vista superior.................................152 Figura 53: Teste de Montagem – 1..................................................................154 Figura 54: Teste Montagem – 2.......................................................................155 Figura 55: Máscaras Super Heróis...................................................................155 Figura 56: Chakras e as cores.........................................................................157 Figura 57: Efeito do equilíbrio e desequilíbrio dos chakras..............................157 Figura 58: Máscaras.........................................................................................159 Figura 59: Caminho crianças (detalhe) ............................................................162 Figura 60: Montando Instalação Memorial da Cultura, com modificações.......164 Figura 61: Instalação - Montagem final – Vários ângulos.................................173
  11. 11. 11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...................................................................................................12 CAPÍTULO 1 – ARTE E TRANSFORMAÇÃO.................................................. 15 1.1 - A arte e construção humana .................................................................... 15 1.2 – Primeira infância e criança interior no adulto........................................... 21 1.3 - Os Super-heróis, identidades das aspirações humanas subconscientes e a influência na independência emocional da primeira infância ........................... 38 1.4 - Relações de identidade do indivíduo, sociedade e cultura ...................... 52 1.5 – Semiótica, ciência cognitiva e psicologia................................................. 60 1.6 Pesquisa: detalhes e observações sobre escolhas e desenvolvimento do projeto. ............................................................................................................. 82 CAPÍTULO 2 – MENTE, CONSCIÊNCIA E EXPERIÊNCIAS PESSOAIS: COMEÇANDO A INTEGRAR OS FRAGMENTOS DO INDIVÍDUO................. 84 2.1 – Mecanismos de atenção da mente e experimentação de processos de autoconstrução................................................................................................. 84 2.2 – Consciência pura, funcionamento cerebral e benefícios pela Meditação como sugestão de prática para o autoconhecimento. ...................................... 95 CAPÍTULO 3 – PROJETO E OBRA – IDÉIA INICIAL E SUAS MODIFICAÇÕES.............................................................................................116 3.1 - Pesquisas: detalhes e observações sobre escolhas de conteúdo teórico, desenvolvimento do projeto e minha relação particular com a obra na experimentação dos processos envolvidos na pesquisa................................ 116 3.2 - Produção, acabamento e montagem ..................................................... 129 3.3 - O convite: a filosofia do “EU” revelando a essência individual divina da totalidade essencial da criação - A Obra e os reflexos do “Eu”...................... 152 3.4 Mudanças de última hora e Obra conclusa .............................................. 164 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 165 REFERÊNCIAS...............................................................................................170 APÊNDICE A - Portfólio ................................................................................. 173
  12. 12. 12 INTRODUÇÃO É comum a todo ser humano a busca pela sua individualidade, sua vontade de ser único, reconhecido, amado e especial. A individualidade remete-nos muitas vezes à unicidade, mas como estar integrado em si mesmo com tantos detalhes internos ainda ou sempre em fase de construção? A vida é um aprendizado contínuo na busca da perfeição, da satisfação e da felicidade. E a arte nesse processo é um excelente professor. É o palco onde podemos nos ver de fora e visualizar melhor, entre outras coisas, tudo que faz parte de nossa formação e, assim, realizar a autocrítica e melhorar e aperfeiçoar nossa programação interna. Para tratar da necessidade da arte nesse processo recorremos a Ernest Fischer e a sua concepção da arte como meio de comunicação de informações que interferem diretamente no subconsciente do interlocutor, não podendo estar alheia às necessidades de construção e progresso humano individual e coletivo. A identidade é um conceito que genericamente refere-se a um conjunto de características que definem as particularidades de um sujeito. Essas particularidades começam na primeira infância e vão se desenvolvendo e se refazendo ao longo da vida, com as relações de troca (afeto, conceitos, experiências...) entre os indivíduos. Delimitamos aqui o foco nas relações familiares e sociais enfatizando a descoberta de cada detalhe do mundo em si e de si no mundo por parte do público. Entendemos o papel do artista como intermediário dessas descobertas, capaz de provocar o interesse por essa busca que ele próprio realiza em si mesmo. Com a Globalização como carro chefe das enormes mudanças no modo de se relacionar, as trocas culturais são tão rápidas e intensas que não nos damos conta do que absorvemos e refletimos em nosso dia a dia; estamos sempre distraídos de onde e como vem a informação, portadora de conceitos e valores dos quais nos apropriamos e as quais dividimos todos os dias. Trabalhamos aqui com as pertinentes considerações de Stuart Hall, que define o sujeito pós-moderno como um sujeito de identidades fragmentadas e muitas vezes contraditórias ou não resolvidas assumindo identidades diferentes em momentos diferentes. Cabe acrescentar que o assunto é demasiadamente discutível e discutido, dividindo opiniões dentro da comunidade sociológica pela complexidade
  13. 13. 13 do conceito “identidade”. O autor também esclarece, construindo a história desse sujeito, quanto ao desenvolvimento desse processo, definindo mais duas concepções de sujeito que antecedem na história o sujeito pós-moderno: o sujeito do Iluminismo e o sujeito sociológico. O sujeito do iluminismo se baseia numa concepção da pessoa centrada e unificada, baseada num núcleo interior e imutável. Já o sujeito sociológico considerava esse centro dependente e insuficiente e formado na relação com as outras pessoas. Tais caracterizações indenitárias, a formação de padrões, conceitos e escolhas no meio social por parte dos indivíduos nele inseridos e em relação com informações propagadas na contemporaneidade, são também objeto de estudo tal como abordado por Lúcia Santaella. Hall identifica as características que formam o sujeito contemporâneo e Santaella esclarece sua construção atemporal, por meio do contínuo processo de semiose, com as considerações de Marilena Chauí sobre a interferência cultural e social na formação individual e seus reflexos coletivos. Todas essas inter-relações familiares, sociais e culturais, de desenvolvem juntamente com fatores emocionais advindos de experiências ao longo da vida e principalmente durante a primeira infância, como esclarecemos com Sigmund Freud e Rosa Cukier. E após esse mergulho nos caminhos de nossa formação individual, sugerimos possível caminho de solução para problemáticas individuais, originárias de fragmentos danosos absorvidos durante nosso processo de desenvolvimento, com aprofundamento maior na eficiência de processos de autoconhecimento e meditação, através de experiências pessoais e, as considerações de Chopra et All e Osho, respaldadas pelas pesquisas do Dr. Frederic Travis, neurocientista que pesquisa os benefícios da meditação e esclarece sobre os estágios de expansão da consciência para unificação e reestruturação de nossa fragmentação interna. Com base nesses estudos sobre interferência social na construção da identidade e entendendo como funciona a apropriação de características individuais pela inter-relação entre os indivíduos, em consonância com seu passado histórico, consideramos o potencial das artes para a educação moral, intelectual e emocional do ser humano. Propusemos, associado a essas reflexões, uma obra que estimula a uma reflexão sobre nossa visão de nós mesmos e dos outros; sobre como nos vemos e somos vistos. O objetivo final desse processo é a descoberta do que de fato somos em nosso universo interno, uma reflexão principalmente nosso conceito de mundo e sobre a relação com nosso mundo. A obra de instalação, idealizada a partir desse
  14. 14. 14 caminho de se autoconstruir e principalmente solucionar conflitos internos, é nosso convite às práticas aqui sugeridas e desenvolvidas, para a abertura de consciência e compreensão de seus estágios. O nosso universo particular é o centro da atenção, bem como as consequências das nossas ações, que são a materialização dessa realidade existencial intangível sempre individual, única e intransferível que somos, mesmo que com muitas semelhanças com outras individualidades.
  15. 15. 15 CAPÍTULO 1 – ARTE E TRANSFORMAÇÃO Começamos este primeiro capítulo entendendo os mecanismos de absorção e administração de informações por parte da mente, do ponto de vista sociológico, semiótico e metapsicológico, principalmente no que se refere a condutas nocivas, tanto ao próprio indivíduo quanto ao outro, e sua relação com a arte. Temos como referência neste primeiro capítulo autores e pesquisadores como Ernest Fisher (1997) com a noção de finalidades da arte como veículo de informação e aprendizado; Nörth et all (2005) com sua visão da semiótica, Marilena Chauí (2008) com sua filosofia sociológica; e Sigmund Freud (1920) com foco nos processos de seleção de prazer e desprazer se relacionando com o consciente e o subconsciente e determinando as ações e aspirações de um indivíduo. 1.1 - A arte e construção humana Pensando a arte como forma de desvelar os segredos mais íntimos do ser humano para si, colocando-o em condições, através de muitas reflexões, de melhorar a si mesmo, moral, emocional e intelectualmente, motivar e exercitar sua capacidade criativa, de se fazer feliz, dissertamos sobre o desenvolvimento das interferências indenitárias pelas relações sociais, convidando a uma reflexão individual do leitor e observador da obra proposta, que poderá levá-lo a buscar a si mesmo dentro desse contexto, em conjunta compreensão da força da arte nesse processo reflexivo e da sua necessidade, para a junção de cada fragmento que constitui uma pessoa. À medida que a vida do homem se tornou mais complexa e mecanizada, mais dividida em interesses e classes, mais “independente” da vida dos outros homens e portanto esquecida do espírito coletivo que completa uns homens nos outros, a função da arte é refundir esse homem, torná-lo de novo são e incitá-lo à permanente escalada de si mesmo. [FISCHER, 1997, p.8]. Pensemos em uma relação mais profunda entre o homem e o mundo, uma relação consciente na construção coletiva, entendendo primeiro sua singularidade e tudo que a compõe e não somente visando a compensação por um equilíbrio
  16. 16. 16 ineficiente da realidade. Essa ineficiência está na acomodação diante das auto negações em nome da aceitação alheia, na falta de posicionamento, na não aceitação de alguns detalhes e sonhos de si mesmos, no substituir a realidade pela imaginação ao invés de aproveitá-la para gerar a realidade que a própria intimidade busca; enfim, é quando confundimos equilíbrio, que vemos aqui como aceitação de todas as nossas particularidade (sabendo como funciona cada uma delas para construções positivas), com acomodação e reprodução do fazer alheio e do desejo alheio. A mente costuma passar mais tempo no “stand by” do que na consciência do aqui e agora. Sofrimentos variados como traumas, ideias intoleráveis, sentimentos insuportáveis, conduta reprimida por padrões comportamentais delimitados (culturas familiares: preconceitos, regra de conduta considerada aceitável pelo meio próximo e que, por vezes, não dialoga com a sua construção de identidade), angústia ou vergonha e medos de aceitação, criam mecanismos de defesa emocional para ocultar segredos de nós mesmos para nós mesmos o que vai ser ou não notado. Nesses mecanismos de defesa e de repressão1, segundo Freud (1920) em seu ensaio Além do Princípio do Prazer de 1920, está a dor mental atenuando a percepção consciente. Sentimentos combatidos dessa forma deformam a personalidade e deturpam a atenção. Criam uma lacuna, como um mecanismo de atenção que gera um espaço defensivo na percepção consciente. Os medos e sentimentos nocivos, transpiram poluindo pensamentos e emoções. Para Freud (1920) a penalidade da repressão é a repetição. É o mais primitivo de todos os mecanismos de defesa. É o bloqueio das pulsões do ID no nível do inconsciente. Uma repetição mascarada para a consciência, já que a mente mantém não perceptível a ela os itens que causam sofrimento. É auto ilusão fantasiada de realidade. Observamos que por esses mecanismos se reproduzem também conceitos e valores em padrões de comportamento, que partindo da unidade (individuo) se estende ao conjunto (sociedade) Quando pensamos na necessidade e no papel da arte para a sociedade, pensamos antes na sua função e, a partir daí, observando-a desde suas origens, visualizamos como ela é adaptável e como sua função se modificou ao longo dos tempos. Fischer (1997) nos diz que a sua funcionalidade está sempre em diálogo 1 Mecanismos de defesa – São processos psíquicos inconscientes, que se manifestam para aliviar a tensão psíquica. Ex: Recalque, Projeção, compensação, racionalização, .... São recursos adotados pelo Ego (princípio de realidade), contra os impulsos provenientes do ID (Princípio de prazer).
  17. 17. 17 direto com as necessidades e aspirações de seu tempo, sofrendo modificações e se reiniciando a partir das necessidades do ser humano. Quando as pessoas vão ao teatro, ao cinema, ao museu ou leem um livro, procuram se distrair, relaxar e se divertir; não, porém somente pela fuga das dificuldades do seu dia mas, também pela identificação com as histórias contidas nos diálogos com os quais entram em contato e a partir dos quais conseguem sua união com o “todo”, como define Fischer a relação do indivíduo com o meio externo a si, com o outro. Sendo isso, sua expressão construtiva ou destrutiva diante do contato com qualquer informação externa, seja pessoa, sentimento, referência de conduta etc., em concordância com sua expressão subjetiva interna, pode colocar em evidência seus defeitos a serem eliminados e qualidades a serem reconhecidas e aprimoradas, ampliando as possibilidades de criação de sua realidade, como mostraremos adiante inter-relacionando os conhecimentos necessários para essa nossa observação. E estar com o “todo”, como descreve o autor, é conseguir a concentração de atenção real na cena ou tema, ou ambos, de forma que este observador se sinta realmente inserido no mundo e saiba em que posição se encontra nele, se algo em sua conduta precisa de modificação, a partir do momento que entende as consequências, ou de aprimoramento do que já funciona mas necessita de avanço, ou do que não está funcionando em sua conduta e sua vida. É aceitar todas as suas particularidades, mesmo que controversas ou, por vezes, incompletas ou deformadas, para que possam ser reconstituídas ou reconstruídas. É saber o que é seu mundo interno, o mundo coletivo e o mundo do outro; enfim, é saber como funcionam seus mecanismos de percepção e aprimorá-los, trazer esses mecanismos à consciência em cada conduta boa ou má, compreendendo sua origem. Vamos leva- lo agora leitor, pelo caminho onde cada detalhe que lhe identifica foi construído ao longo de sua vida, pois entendendo estes detalhes e seus mecanismos de expressão, você leitor, perceberá como a arte pensada ciente destes detalhes pode influenciar e se inter-relacionar com você. Observando a arte como meio de ligação entre o individual e o coletivo, num sentimento de pertencimento, que inicialmente, só alcança satisfação na relação conjunta equilibrada com a sua singularidade, bem como um meio influenciador de ligação entre o “eu” egóico e o “eu” essencial do sujeito2, percebemos que os detalhes 2 O eu egóico – Manifestações dos mecanismos de defesa.
  18. 18. 18 que nos diferenciam entre nós, são determinantes nas escolhas acertadas de construção interna e externa, mas não sendo possível conhecer todos os fragmentos que compões a singularidade do outro, com o qual nos relacionamos, entendemos que se conhecermos o processo de construção e expressão dessas particularidades teremos uma possibilidades maior de prever, modificar e melhorar nossa relação conosco e com o outro, seja no contato direto ou através da arte. “A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e ideias. ” [FISCHER, 1997, pg. 13]. Mais ainda que isso, nas linguagens artísticas o indivíduo é capaz de se libertar das pressões cotidianas e de se observar no diálogo proposto, com o distanciamento e alegria necessários para que consiga identificar e sugestionar um caminho de solução para problemáticas individuais e talvez até as coletivas, a partir de uma reflexão equilibrada e sem as distorções de compreensão que confundam a razão e a emoção, prejudicando assim, a atenção da realidade presente. Refiro-me aqui aos mecanismos de defesa emocional do subconsciente que, por vezes, nos levam a condutas nem sempre justas e honestas, mas convenientes dentro de uma série de justificações de um centro de justiça distorcido nesse mecanismo de autodefesa, sobre isso nos aprofundaremos mais adiante à teoria Freudiana no subcapítulo 1.3 – Semiótica, ciência cognitiva e psicologia. Quando vemos, então, uma peça de teatro que trata de desigualdades sociais mostrando um lado doloroso e angustiado, esse exagero, seja na expressão do ator ou na comicidade, na seleção de focos em cena ou outro mecanismo técnico adequado a tal propósito, além evidenciar a problemática, favorece o espectador a pensar em si mesmo nesse contexto, a pensar no outro e, talvez, a visualizar soluções que lhe seja pertinente tomar, só que de forma leve e natural, sem a angústia e a ansiedade da vivência real do problema, já que nessa situação de espectador, este está se observando de longe como se passasse a ser o narrador da história, observando o personagem (que em certo sentido ele também é). Metaforicamente falando, fica mais fácil reescrever sua própria história observando o sistema O eu essencial - sujeito em estágio de consciência onde não há dualidade, ou seja, não há julgamentos e comparações, somente escolha e consequência.
  19. 19. 19 operacional numa planta baixa, vendo-o de cima e identificando detalhes importantes desse processo. Na relação de observador com obras plásticas dependendo do grau de abstração da obra o processo é mais delicado e subjetivo. A percepção do observador se dá conforme as informações em conhecimentos que este possua para refletir e concluir idéias, pensamentos e opinião sobre a obra sendo necessária maior carga de informações / conhecimento e experiência, pois nas artes plásticas algumas obras não têm o mesmo caráter narrativo do teatro e, por vezes, podem ser bastante abstratas, como no caso da conceitual e expressionista. Por outro lado, sabemos que, as escolhas do ser humano no geral, também como espectador, antes de tudo, determinam esse caminho que pode ou não ser aceito e experimentado e/ou de que forma, e até que ponto, será vivido e percebido, para então ser modificado. E sabendo que cada ser vive sua unicidade em sua formação e, assim sendo, pode ter reações diferentes a situações semelhantes, temos, portanto, que considerar que antes da troca entre os indivíduos para sua construção e aprimoramento há de haver uma autoconsciência. Um caminho de autoconhecimento é então a relação com o outro, com a obra ou qualquer tipo de informação com a qual se tenha contato. É um caminho na busca de si próprio. Esses outros poderão estimular um mecanismo de identificação das problemáticas do Ser, e não a sua solução, que só será possível com muito trabalho de percepção do EU comigo, isso é, se observando, identificando, compreendendo e aprendendo. O interesse e o caminho que buscamos é o de compreender a natureza do Ser: as emoções que permitirão acessar imagens mentais relacionadas a conceitos e opiniões que o sujeito possua em seu sistema interno que, quando em contato com as obras de arte ou outras informações, poderão leva-lo de volta à sua mais primitiva e pura manifestação mental, livre de condicionamentos, crenças e estereótipos. Marx [apud Fischer,1997, pg.146] reconheceu que a arte tem o incrível poder de se sobrepor ao momento histórico, incitando permanente fascínio sobre o ser humano e colocando-o em contato com a sua mais pura humanidade. É então importantíssimo estimular e instruir o ser humano a essa forma de sensibilidade, como defendeu Marx apud Fisher. Fisher (1997), afirma que a arte é natural e inevitavelmente didática, mas nos caminhos que busquei, de autoconhecimento, me inserindo em todos os processos
  20. 20. 20 aos quais tive acesso (citarei experiências adiante), compreendi os processos de formação de nossa personalidade e das escolhas que fazemos, foi inevitável a observação de que a arte pode sim ter na maior parte das vezes caráter instrutivo e reflexivo, não sendo entretanto, a meu ver diretamente proporcional ao aprendizado e sim relativamente proporcional ao mesmo. Pois, se observarmos a arte, como veículo de conhecimento e informação, teremos que considerar que a seleção e absorção das informações só são possíveis através da escolha, a escolha de interagir com a obra, bem como a escolha feita pelo nosso aparelho cerebral e seus recursos de seleção originários das experiências vividas durante a vida. Sendo assim, não aprendemos diretamente ao contato com a obra, mas sim relativo a observação necessária para tanto, que façamos da obra. Podemos parar diante dela e só olhar cores e formas, etc, ou fita-la com mais aprofundamento de nossos diálogos mentais, que possam surgir, enquanto pensamos nela e não somente olhamos para ela. Ao passo que, se nos relacionarmos com imagens opressivas, elas se relacionarão com nossas experiências opressivas pretéritas e se nos relacionarmos com imagens construtivas, acessaremos em nosso eu interior imagens, lembranças, conceitos e experiências igualmente semelhantes. E quando tratamos de aprendizado tendemos a pensar em coisas positivas, mas a má conduta, também vem de um aprendizado, mas de experiências negativas. Os mecanismos de defesa aos quais me referi anteriormente e nos aprofundaremos adiante, através de vários autores, tendem a manter a mente, no passado, no futuro ou relacionar a outros indivíduos que representam uma experiência negativa vivida, fazendo com que estejamos constantemente desatentos do momento presente ocultando sofrimento que pudesse se apresentar como pendência a ser solucionada e assim sendo nos distanciemos de nosso EU mais puro pelo medo de reviver situações traumáticas. Sendo assim, o único caminho possível para essa transformação positiva é perceber, aceitar e ter a coragem de fazer modificações do nosso universo interno, digo aqui coragem, porque o enfrentamento interno desencadeia a exposição de todas as negativas protegidas pelo subconsciente, podendo ser um processo inicialmente doloroso. Entrando em contato com essa percepção em mim, passei durante a pesquisa a sentir um forte peso com relação à responsabilidade na criação do uso da imagem. Entendendo como imagem aqui algo que permeia tudo o que pode ser
  21. 21. 21 produzido pelo artista, desde a tela até à escultura que, apesar de ser objeto tridimensional, é percebida pela retina como imagem, tal qual outro objeto. Além da percepção fisiológica de imagens, temos também a mente, gerando imagens e fazendo constantemente relações delas entre si. Todas essas imagens percebidas, armazenadas ou geradas pela mente, mantém relação com emoções e conceitos, sendo portanto, informações que se inter-relacionam com a subjetividade individual do sujeito, seja ela de caráter emocional, imagético, sonoro ou linguístico. Tratarei portanto, a partir deste momento, todo objeto de arte como imagem e a imagem como informação para melhor entendimento da reflexão proposta. 1.2 – Primeira infância e criança interior no adulto Observemos, antes de tudo, nossas casas, pois é lá que se dão os primeiros contatos de apropriação de conduta e moralidade em nossas vidas. Ora, se o indivíduo se constrói dentro de relações interdependentes, de práticas, interesses e obrigações, seu primeiro foco se dá a parir do seu nascimento, na relação mãe e filho, já citada por Winnicott (apud PAES et al.,2012). Ao longo desse desenvolvimento e de seu crescimento psicossomático, físico e cultural, outras relações e situações vão interferindo na construção de identidade desse indivíduo, porém, a família não perde seu papel, antes serve de base de sustentação nesse processo, que pode ser positivo ou negativo, dependendo da forma como se dá. Descrevendo sobre essa construção condicionada por vários fatores no desenvolvimento dos adolescentes, Paes (et al., 2010), afirma que: “A maneira como ele lida com rápidas mudanças e novas experiências varia de acordo com sua história de vida”. Esclarece ainda, referindo-se a Osório, que: [...] não há um conceito unívoco de família e que podem ser encontrados conceitos advindos da sociologia, antropologia, psicologia e todos eles devem ser compreendidos sobre uma perspectiva histórica. Há uma multiplicidade de dimensões contidas nesse grupo social e a compreensão do conceito pode variar conforme a dimensão enfocada. Assinala ainda [Osório], que a família é a unidade básica de interação social; não basta situá-la como agrupamento humano no contexto histórico-evolutivo do processo civilizatório. (PAES et al., 2010, p.22,). E cita: Família é uma unidade grupal onde se desenvolvem três tipos de relações pessoais - aliança (casal), filiação (pais/filhos) e consanguinidade (irmãos) – e que a partir dos objetivos genéricos de preservar a espécie, nutrir e proteger a descendência e fornecer-lhe
  22. 22. 22 condições para a aquisição de suas identidades pessoais desenvolveu através dos tempos funções diversificadas de transmissão de valores éticos, estéticos, religiosos e culturais. (OSORIO, apud PAES et al, 2010, p.22). Sendo assim, o autor, prioriza a dimensão que compreende as funções de proteção e cuidado formando a estrutura da personalidade do sujeito, devendo esta ser compreendida como produto de uma longa história de relações, que acontecem nesse cenário familiar (PAES et al., 2010, p.22). Em relação a isso lembro que é onde o artista, como qualquer outro indivíduo, também se encontra. O artista torna-se, além de fruto de seu cenário, um potencial influenciador de grande número de outros indivíduos pelo seu trabalho, que expõe e divide com outros, sua construção pessoal através de imagem, sendo esta acessível a todos, embora dependa da capacidade de percepção, do grau de conhecimento e das vivências de cada um. Winnicott, em seu livro Privação e Delinquência (2005), fala da relação mãe e família com esse indivíduo, e dos sentimentos de rejeição da infância. A força da confiança, se bem construída nesse processo, se torna porto seguro da jornada do indivíduo e, é fator primordial para o desenvolvimento de sua maturidade. Devemos entender, pois, a construção dos valores no indivíduo para que a interferência social e/ou externa em sua conduta seja positiva ao seu crescimento. Tomando como base os estudos de Paes (et al., 2012) sobre Winnicott, entendemos como se dá esse desenvolvimento individual e como ele se relaciona com seu meio, dependendo de sua construção ética, que se inicia no seu desenvolvimento emocional. Estudando minuciosamente as relações mãe-filho e as influências ambientais familiares como facilitadoras para o desenvolvimento humano, em sua Teoria do Desenvolvimento Emocional, Winnicott (segundo PAES et al., 2012, p.26), explica que a criança, ao nascer, é um ser indefeso, ainda desintegrado psiquicamente e necessitando de suporte adequado da mãe (ambiente – seu primeiro mundo é a própria mãe e sua relação com ela) para a construção de seu self, “consciência de si mesmo”, verdadeiro. Caso esse ambiente fracasse em sua responsabilidade de proteção ao bebê, ele, ao longo
  23. 23. 23 da vida, vai “fabricando” essa substituição; o chamado falso self, resultado de uma tentativa de proteger o self verdadeiro como um sistema de defesa. Chopra (et al., 2010), trabalha de forma aprofundada, do psicológico à relação religiosa, a questão do falso e verdadeiro self, em seu livro Efeito Sombra (2010). O verdadeiro self se relaciona com a essência do ser. Indivíduo com seu sistema intelectual e emocional ainda livre de deficiências culturais (preconceitos, ganância, egoísmo, condicionamentos de conduta...) e/ou traumas por experiências negativas (desde agressões físicas, estupro até agressões psicológicas que geram nesse indivíduo sensação de incompetência e incapacidade, entre outras). Ou seja, esse jovem indivíduo, ainda está aberto às relações puras de amor, esperança e cooperativismo. O falso self (fruto das experiências negativas, defesa no ego), é um veículo da psique para sobreviver aos traumas que ficaram no sistema da memória, criando a ilusão de que com o reflexo de nova conduta pode-se evitar nova experiência dolorosa, o que inclui também grande culpa por parte do indivíduo traumatizado, mesmo que, na maioria das vezes este não tivesse meios para se defender (já que teve o amor próprio agredido por outrem que deveria ser responsável por este, que ainda se encontrava em processo de construção de valores e condutas). Isso seria o caso de alguém que, ao longo da vida e desde suas referências familiares até suas experiências posteriores, conheceu as relações homem-mulher em conflitos graves e não consegue assumir relacionamentos com seriedade ou escolhe nunca se casar (evita a dor numa autosabotagem). Ainda segundo Hartmann (apud CUKIER, 2008), self seria o ser total, incluindo o corpo; e ego apenas nomearia uma estrutura psíquica. Referimo-nos aqui, inicialmente, a crianças e adolescentes, porém o ser humano passa por esse processo ao longo de toda a vida, sendo mais difícil para o adulto lidar com problemáticas dessa ordem se na infância não teve base equilibrada, e não as trabalhou posteriormente, pois não terá referências de superação com respeito e ética. Resumindo, são conceitos e condutas relacionadas ao ego, como forma de sobrevivência emocional diante dessas experiências dolorosas. São como
  24. 24. 24 máscaras, personagens criados para a sobrevivência emocional diante de privações em ambientes agressivos, desequilibrados e hostis. Voltando à pesquisa de Paes (et al., 2012), sob essa perspectiva, os processos de base do desenvolvimento emocional são: integração, personalização e realização. A integração compreende a relação inicial da mãe com o bebê ainda no princípio da vida, suas urgências instintivas ou sua expressão agressiva; e o que vem da mãe, que Winnicott denominou holding e que está relacionada à ação de pegar nos braços, de demonstração de amor, ao vínculo físico e emocional entre os dois, fundamentará os primeiros pilares da construção de um desenvolvimento saudável. Na Personalização a criança começa a se perceber como algo além de uma extensão da mãe. Ainda com a mãe ela começa a entender seu próprio corpo na manipulação do corpo do bebê durante os cuidados de higiene, de vestir e nos jogos que a mãe estabelece com seu bebe. A possibilidade de adaptação à realidade é fundamentalmente possível através da apresentação de objetos pela mãe, que acompanha todos os momentos da evolução, começando pelo seio na amamentação, na apresentação do rosto, no olhar e assim por diante, iniciando o exercício mútuo de desenvolvimento de ação e reação (troca e cumplicidade) emocional. (Paes et al., 2012, p.27). Winnicott (apud Paes et al., 2012), ressalta ainda como capacidades para o desenvolvimento emocional normal da criança: a) “Capacidade de estar só” – “Se desenvolve a partir dos primeiros meses de vida e está intimamente relacionada com a relação entre a mãe e o filho”, à forma como o bebê absorve as funções maternas diante de sua ansiedade. O ápice da maturidade do desenvolvimento emocional, segundo o autor. b) “Capacidade de brincar” – é um modo de conter sua destrutividade e construir sua localização no mundo exterior e interior. Seu mundo de proteção, onde consegue manter o controle diferente do mundo real, novo e assustador. “O verdadeiro brincar, na idade adulta, é a expressão da espontaneidade, da liberdade e de criatividade”. [Paes et all, 2012, p.28] c) “Capacidades de envolvimento” – Se importar e se preocupar com o outro, de sentir e aceitar responsabilidades. “Essa capacidade é produto de todo
  25. 25. 25 um processo de adequado desenvolvimento emocional anterior e pressupõe uma completa organização do ego, consequência dos cuidados oferecidos ao bebê”. d) “Capacidade de desenvolver sentimento de culpa” – Conforme a criança vai interagindo os dois aspectos da mãe-objeto e mãe-ambiente, ela é envolvida por uma espécie particular de angustia chamada de “sentimento de culpa. Para Winnicott (1966), a ausência de sentimento de culpa é consequência da falta de confiança na figura materna, anulando o esforço de construção da criança em suas experiências iniciais e impossibilitando o processo de integração, não existindo unidade de personalidade ou senso de responsabilidade total por nada. Segundo Winnicott (apud Paes et al., 2012), a figura do pai também tem papel importante na construção do self da criança, com a função de mediador de equilíbrio da mãe para que ela possa exercer seu papel de cuidadora. Cabe ressaltar aqui que esse papel de pai e mãe não se refere exclusivamente a ligações consanguíneas, mas à ligação de cuidado, proteção, educação e amor dos responsáveis pela criança que, dependendo da forma como se dá, pode ser construtiva ou destrutiva. Na adolescência é dada continuidade à linha de vida já vivida pelo indivíduo antes. Sendo assim, na falta de exemplos de identificação estáveis, os adolescentes convivem com uma angústia e confusão, em meio a sentimentos avassaladores de vazio, comprometidos no seu desenvolvimento, que se reflete em ações violentas e destrutivas como forma de autoproteção e pedido de socorro. Winnicott acrescenta ainda que “a criança saudável chega à adolescência já equipada com um método pessoal para atender novos sentimentos, tolerar situações de apuro e rechaçar situações que envolvam ansiedade intolerável” (apud PAES et al., 2012 p.29). 3 - A Gravidade da Privação emocional para construção individual Tendo como base de estudo os processos de privação emocional, para melhor entendimento de indivíduos emocionalmente e moralmente deficientes, Paes (et al., 2012) cita Winnicott e Bowlby, dizendo que a privação é a vivência desde o início do desenvolvimento da criança que, sofrendo rupturas na relação
  26. 26. 26 com a família, em geral com os responsáveis mais próximos, “[...] é acometida de feridas psíquicas que podem perdurar até a vida adulta”. (PAES et al.,, 2012, p.38). Esses podem vir a ser os traumas e medos que desenvolve e com os quais passa a conviver para se proteger, ocultando o self verdadeiro. Tornam-se a sombra que impede o desenvolvimento pleno e cria prisões internas, deformando os conceitos de felicidade, amor e consciência do progresso coletivo. As privações emocionais dificultam a capacidade de abstração, elaboração e planejamento, sendo essas habilidades necessárias para a convivência social saudável do jovem. Há também outros determinantes externos (ou, mesmo, intraindividuais), como os sociais, para manifestações delinquentes, que podem ser agressões diretas à sociedade, quando esse quadro se encontra mais agravado pelas frustrações que esse jovem já carrega. Ou podem ocorrer agressividades e ataques ainda no seio familiar, que podem se agravar caso esse núcleo de proteção não perceba as necessidades desse indivíduo e reaja com a mesma agressividade ou indiferença diante da situação. A indiferença é uma forma de privação emocional, excluindo esse indivíduo do exercício de amor, troca e diálogo que o ajudam a formar opinião, respeitando as diferenças e sabendo se portar diante delas. A agressividade também priva ambas as partes da oportunidade de se colocarem um no lugar do outro, ouvindo e entendendo as angústias pretensões, necessidades e pontos de vista (como cada qual construiu o pensamento que defende), para que achem o equilíbrio de ideias e conduta nessa relação, com respeito e amor. Paulo Paes (2012, p.39) disserta que Bowlby (1995), seguindo o raciocínio de Winnicott (2005), demonstra a existência de privações diferentes, que têm diferentes resultados de atitude na vida adulta. Por exemplo, se a privação da criança foi contínua durante a infância, mais isolada e apática ela se tornará; perdendo a capacidade criativa e de interação social e, dificilmente, tendo atitudes de delinquência. Já a criança que experimentou uma relação amorosa com envolvimento de afeto com sua mãe ou parente nos primeiros anos de vida e, depois, perdeu esse envolvimento, tentará reestabelecer de forma inconsciente essa relação de amor que foi perdida, através de atitudes delinquentes não pensadas, mas,
  27. 27. 27 sentidas. Isso equivale a projetar aquele mundo da mãe (ambiente – objeto) sobre as outras pessoas da família ou sobre a sociedade, que é o mundo percebido além do mundo da mãe (que deveria ser sua base de sustentação de confiança e proteção). Na relação com essas novas pessoas que vão se apresentar e interagir com ele durante sua vida, ele vê e projeta a principal relação que exercitou em seu desenvolvimento, que é a relação com a mãe, sendo a mãe-objeto esse indivíduo novo com o qual está criando nova relação e/ou vínculo, e a mãe-ambiente a sociedade. Então, diante do sentimento de perda e/ou rejeição esse indivíduo terá maiores dificuldades em administrar e resolver dentro de si essa confusão emocional, pois não a conheceu anteriormente e não teve oportunidades de exercitar seu autocontrole e, assim, a agressividade se apresenta a ele como única solução, quase numa lei de ação e reação. No caso de apatia dá-se da mesma maneira; ele sente e reage, se isolando como forma de proteção. Enquanto criança ainda há uma leve consciência dessas deficiências, as quais ele reivindica e se apresentam mais fortemente na adolescência, quando o conflito mãe se choca com o conflito social, se agravando portanto. E, já na idade adulta, ele passa a ser envolvido pela capa da frustração, um sentimento de fracasso e quase uma autoculpa, que dificulta a identificação da raiz do problema. Criando uma parábola, seria como se esses sentimentos de rejeição e indiferença fossem trancados num quarto escuro dentro desse indivíduo e, ao longo dos anos e experiências vão sendo soterrado por caminhões de areia de frustração e negação, quanto mais o tempo passa mais difícil e doloroso será descobri-lo, porque nesse caminho de regressão emocional, necessário para esse encontro consigo mesmo, há toda essa areia, esse escuro e a chave desse quarto, que se encontrará lá nas lembranças com a mãe e a família. Quando a criança recebe suficiente e adequado cuidado materno e familiar, sua personalidade desenvolve-se de forma integrada durante os primeiros anos de vida, o que impede “... uma irrupção maciça de agressividade vazia de sentido.” (PAES, 2012, p.40), ou seja, ela entende o que desencadeou esse sentimento de raiva e aprende como lidar com ele através de diálogo e compreensão, controlando-o para resolver o que para ela é um problema.
  28. 28. 28 A criança que vive uma privação emocional não tem a possibilidade de desenvolver seu autocontrole a partir do seu próprio comportamento agressivo e destrutivo, o que vai acontecer mais tarde de uma forma não aceita socialmente, gerando sérios problemas de convivência social. Enquanto a criança mantinha uma relação saudável com a mãe e/ou familiares, era valorizada na sua capacidade construtiva e percebia que sua agressividade era suportada e contida sem a perda do afeto familiar. A ausência da capacidade de controle e dos limites da agressividade tem sua gênese na privação emocional causada por omissão, abandono, negligência ou violência propriamente dita. (PAES, 2012, p.40). Segundo Winnicott (apud PAES, 2012), toda criança, em algum momento de sua formação, apresenta alto grau de destrutividade, mesmo as familiarmente integradas e felizes. Essa necessidade de manifestação agressiva é uma forma de aprender a lidar com sua agressividade desenvolvendo uma capacidade de socialização saudável. Os adolescentes apresentam essa agressividade mais tarde, não havendo mais ambiente social que a suporte. Como é criança normal? Ela simplesmente come cresce e sorri docemente? Não, não é assim. Uma criança normal, se tem a confiança do pai e da mãe, usa de todos os meios possíveis para se impor. Com o passar do tempo, põe à prova o poder de desintegrar, destruir, assustar, cansar, manobrar, consumir e apropriar-se. Tudo o que leva as pessoas aos tribunais (ou aos manicômios, pouco importa o caso) tem seu equivalente normal na infância, na relação da criança com seu próprio lar. Se o lar consegue suportar tudo o que a criança consegue fazer para desorganizá-lo, ela sossega e vai brincar. (...) Antes de tudo a criança precisa estar consciente de um quadro de referência se quiser sentir-se livre e quiser ser capaz de brincar, de fazer seus próprios desenhos, ser uma criança responsável (WINNICOTT apud PAES, 2012, p. 40). Sendo assim, a criança, quando diante de situação que exige o controle externo, da família, tendo limite com rigor e entendendo que nem por isso perderá o amor dos pais, passa por um processo de tentativa de construção de seus impulsos, desconstruindo-os pelo limite e reconstruindo-os com consciência de virtudes como respeito, trabalho, perseverança, perdão e cooperação. E tendo aprendido isso no seio familiar, suas lutas e seu desenvolvimento tendem a ser menos dolorosos, já que aprendeu na terna infância a lidar com perdas e ganhos, emocionais e materiais. O mundo fora desse contexto tende a ser bem mais duro e menos amoroso, intensificando ainda mais, nesse sentido, a sensação de abandono, da incapacidade de ser amado e de ser independente. Não tendo satisfação no convívio consigo mesmo e orgulho de seu papel no contexto social. “[...] O limite
  29. 29. 29 é bem aceito pela criança quando essa se sente segura do amor dos pais” (PAES, 2012, p. 42). A criança antissocial ou agressiva está pedindo socorro às suas necessidades de estabilidade e de crescimento emocionais à sociedade, ao invés da família. A apropriação (da criança) de elementos do mundo à sua volta se dá pela invenção e pela imaginação, que têm sua raiz na realidade cotidiana. Ela cria e inventa para si um mundo particular a partir de sua mãe, de suas coisas, de seu quarto, numa construção mágica que faz a ponte entre o mundo família, que é sua base (mãe objeto-ambiente), e o seu próprio mundo que acontece fora desse, com novos personagens e elementos que vêm aparecendo ao longo de sua vida. Pensamos, neste ponto, que quando ela se identifica com um personagem de desenho ela está buscando a si mesma, seja no que se identifica com ela, ou no que ela espera de si mesma, capacidades que ela sinta que possui e que tem grande necessidade de extrair e exercitar. Da mesma forma pode relacionar personagens de seu contexto familiar a outros desse mundo de fantasia e buscar soluções através deles para seus problemas e conflitos. Vemos aqui, pois, a grande responsabilidade na criação de elementos visuais interferindo na construção individual do ser. As escolhas dos personagens para solução de suas problemáticas passam a ser referência de conduta para ela. Segundo Paes (2012), essa reflexão de controle do impulso levou Winnicott à outra, que é a necessidade de uma criança de dar mais do que receber. Tendo uma participação ativa no meio familiar, com permanente relação de condução e controle pela família, a criança sente gratificação por contribuir na construção de felicidade para o conjunto através da troca e cumplicidade, para construir a sua própria, identificando seu caráter destrutivo através da culpa e buscando a satisfação de ser amado através da construção de seu papel dentro do contexto em que se insere. Uma criança participa fazendo de conta que cuida do bebê, arruma a cama, usa a máquina de lavar ou faz doces; e uma condição para que essa participação seja satisfatória é que esse faz de conta seja levado a sério por alguém. Se alguém zomba, tudo se converte em pura mímica e a criança experimenta uma sensação de impotência e inutilidade físicas. Então facilmente poderá ocorrer uma explosão de destrutividade e agressão. (WINNICOT apud PAES, 2012, p.43).
  30. 30. 30 Tratamos até agora dessa construção da individualidade direto da raiz: sua terna infância (infelizmente nem sempre tão terna assim). Mas, quando a fase adulta se aproxima ou chega efetivamente, o que acontece com essa criança? Isto é, se esse indivíduo não amadureceu seu emocional de forma saudável, então a idade chega e a criança permanece? Segundo Rosa Cukier, em Sobrevivência Emocional: as dores da infância revividas no drama adulto (1998), emocionalmente guardamos “eus infantis”, que tiveram origem em situações indutoras de vergonha ou desconfirmadoras da essência da criança, que acompanham de forma imutável a experiência e posição iniciais junto com o adulto que se desenvolve; então, o adulto cresce com essa criança assustada dentro de si, ainda vinculada aos traumas e medos de seu passado, como se ainda os revivesse no seu presente, fazendo muitas vezes com que reaja negativamente ou fuja de situações que se pareçam com essas lembranças com cara de ação presente. Na mitologia de muitas culturas, essa ‘parte infantil no adulto’ representa a necessidade humana de recapturar a originalidade e a emoção da criança frente ao estresse e à extrema racionalidade do cotidiano”. (JUNG apud ABRAMS, 1990, p. 47). Cukier descreveu a criança interna como símbolo da totalidade da psique [...] (2008, p. 17). A atenção constante de problemas de adultos sobreviventes emocionais de famílias disfuncionais gerou uma consciência crescente de que o desenvolvimento emocional do indivíduo não necessariamente acompanha seu desenvolvimento fisiológico. Esses traumas podem ser fruto de incesto, agressão física, psíquica ou emocional. Cukier (2008) divide conosco diversos caso em graus diferentes que podem ter nefasto poder de destruição interna. Palavras mal colocadas pelo adulto, desconsiderando a ingenuidade e beleza interna dessa criança que ainda não se contaminou com as condutas vazias e egoístas da sociedade, podem chegar como um tornado no seu emocional. Cukier (2008) cita o exemplo de uma mulher que, quando criança, ouvia da mãe que ela (a criança) havia sido achada no lixo. Era uma brincadeira, o timbre de voz, as atitudes, não tinham peso nem agressividade, mas as palavras identificadas por essa criança vieram com tamanha força que, até a idade adulta,
  31. 31. 31 essa carregou certo sentimento de rejeição, inicialmente sem propósito pesando em seu desenvolvimento relacional. A preocupação com o desenvolvimento emocional já vem de muito tempo, mas ganha popularidade no trabalho dos Alcoólicos Anônimos, com filhos adultos de ex-alcoolatras, livros, workshops, e o seriado na TV de John Bradshaw (1988, 1990, 1992), um entrevistador americano que discutia e orientava problemas relacionais ao vivo em seu programa. O objetivo de trabalhar a criança interna nos adultos é fazer com que tomem a responsabilidade por seu comportamento atual, resultado de como vivenciaram suas experiências infantis, através da compreensão do forte impacto das experiências distorcidas precocemente em sua vida, entendendo assim o que fazem consigo mesmos. “Situações traumáticas, estressantes e desconfirmadoras limitam a percepção das escolhas na vida adulta. ” (CUKIER, 2008, p. 18). Quando, no desenvolver desse processo de se autoconhecer, começa a identificar a realidade emocional do adulto do presente e da criança do passado, ele vai aos poucos tomando a responsabilidade por essa criança, como se dialogasse com ela durante a revivescência desse sofrimento traumático, e dissesse a ela que não há mais o que temer, porque tudo aquilo já passou e agora ele (adulto) cuidará dela (criança – lembranças emocionais desse adulto). Então o Eu mais maduro fica responsável por providenciar proteção e cuidados para sua parte infantil. Esse adulto passa, assim, a descobrir novas formas de resolver problemas a partir de novos sentimentos, pensamentos e comportamentos que passa a expressar, permitindo também evoluções nos processos de entendimento moral, ético e prático no seu cotidiano. Inevitavelmente, aprende a se colocar no lugar do outro, percebendo a realidade interna e de construção de vida também dos outros personagens, nessa trama em que ele começa inicialmente sendo protagonista, aprende sobre os coadjuvantes, protagonizando e refletindo internamente sobre a vivência de cada um, e volta para o papel dele mesmo com os vários pontos de vista que virão a gerar nova ótica sobre o problema, cortando as amarras do sofrimento interno. A intenção não é culpar e perdoar, mas sim se responsabilizar por essa criança que ele
  32. 32. 32 carrega dentro de si, já que só ele pode saber realmente o que ela precisa para ser feliz. Nós observamos que o teatro é uma ferramenta interessantíssima, refletindo sobre essa ótica, por ser o lugar onde se deve vivenciar várias realidades internas para refletir o personagem e, por não necessariamente estarem vinculadas a traumas internos, acrescentam novas óticas. Pelo processo direto de amor, sem necessariamente passar pela dor e vice versa, as experiências podem acrescentar nesse processo de construção da personagem. O mesmo reflexo interno-externo (artista) ou externo-interno (interlocutor) está nas outras áreas da arte, plásticas, dança, música. Tudo o que é produzido pelo artista vem do mundo (sociedade), passa pelo filtro que é ele, onde se encontram os traumas, medos, sonhos, esperanças, para depois se materializar, traduzindo o que ele é diante daquilo. Nos detalhes da obra ou da reação do público estão as verdades dessa pessoa, misturadas com a personalidade (o que a cultura e sociedade inseriram) e com o ego ou falso self (recursos de proteção psíquica e emocional que evita conflitos com a parte mal construída do indivíduo e os esconde atrás da personalidade). Exemplo: Personalidade – nome, vestuário, gosto por comida, objetos, locais, tribos...; Ego – conduta que esconde problemas internos: indivíduo que por convivência dolorosa com a imagem de casal, evita relacionamentos ou mantém vários ao mesmo tempo na tentativa de não se apegar e não sofrer. Pessoa que julga mal a outros por não a bajularem ou cumprimentar às vezes, refletindo indignação, dizendo que o outro é “metido”, onde na verdade é esse julgador que tenta se sentir tão importante que não pode deixar de ser visto e paparicado, escondendo na verdade uma imensa falta de amor próprio ou sentimento de rejeição. Caso, de fato, esse “metido” seja mesmo indiferente, o indivíduo bem construído, diante dessa situação, não se incomoda, não comenta nem se abala, e pode até igualmente não notar o outro dessa forma e ter como primeiros pensamentos que o tal “metido” deve estar num dia difícil, preocupado ou simplesmente distraído. Dessa mesma forma, pensamos que se dará a influência e reação no relacionamento entre público e artista. As primeiras identificações com a imagem se associam com outras imagens e/ou sentimentos já vivenciados. A pessoa
  33. 33. 33 diante da obra dará mais atenção ao que reconhece emocionalmente, começará a pensar e, a partir dos conflitos gerados com o que não reconheceu inicialmente, vai formular teses e relações entre o que identificou (que remetem a lembranças e experiências) e o que vem de “novo”, na proposta do artista. Esse pensamento, dependendo da construção, pode não se concluir, mas desencadear reações que se estenderão aos próximos dias, até que ele possa visualizar uma solução ou conclusão da problemática que se iniciou internamente, bem como uma solução imediata para desequilíbrios antigos onde só faltava uma nova pergunta. Para pessoas diferentes ocorrem processos diferentes na relação com o mesmo objeto e todos esses processos sempre vão além das intenções do autor produtor. Nesse imenso ciclo de construção interdependente está a sustentação da responsabilidade, através dos intelectualmente e emocionalmente mais favorecidos ou esforçados em conduzir, dentro de seu contexto, essa relação da melhor forma possível para o todo. Como esse produzir com responsabilidade passa por um complexo que abrange muitas outras áreas do conhecimento, sentimos a necessidade de nos aprofundar nas questões psicológicas, culturais e históricas, como uma responsabilidade que deve vir antes de nos relacionarmos e de exemplificarmos essas questões aos outros dentro do contexto artístico. Com isso evitamos dúvidas internas e podemos dividir o enorme caminho de trabalho, estudo e experiência, inevitáveis para que nós mesmos pudéssemos nos construir, não só nos pensamentos, mas, no nosso eu interno. Sempre penso em Moreno-criança, quebrando o braço ao brincar de ser Deus. Pior do que ter quebrado o braço um dia é ter decidido definitivamente parar de brincar de ser Deus, com medo de se machucar de novo. Resgatar a criança interna dos adultos é convidá-los a jogar o papel de crianças de novo, olhar seus braços e pernas esfolados e doídos, perceber os curativos de outrora e deixar algumas dessas feridas cicatrizarem de vez. [...] É, enfim, resgatar a espontaneidade e o assombro, para que o adulto torne a brincar e criar em sua vida.” (CUKIER, 2012, pg19). É a sobrevivência emocional contra o atentado à espontaneidade e essência humana. Quem é essa criança? Já sabemos que o próprio adulto refletindo seu passado. Mas em que momentos ela pode trazer problemas? Segundo Cukier (2012), a criança ferida está vinculada a cenas motrizes que estruturaram
  34. 34. 34 inicialmente uma situação de defesa e, com o passar dos anos, acabam fazendo parte da identidade e do caráter do sujeito. Isto é, cenas marcantes, fortemente opressoras ao amor dessa criança, criam fortes raízes em seu intelecto a fim de identificar futuras situações semelhantes e permiti-la se autoproteger. Apesar de citarmos, mais adiante dessa pesquisa, relatos de pacientes de Cukier, esse é um problema pertinente à grande maioria da população, nesse mundo apressado e socialmente mal distribuído, no qual os problemas sofridos são transferidos para os filhos, que impensadamente transferirão aos seus filhos, num contínuo ciclo vicioso, que já tomou uma cara de normalidade pela frequência com que ocorre. A única forma de identificação e questionamento para essas questões, entendemos, deve ser o caminho do autoconhecimento. Só olhando para dentro, conhecendo nossos pontos positivos e negativos e entendendo as leis morais que regem o crescimento mútuo seremos capazes de questionar e, aí sim, decidir com consciência as nossas ações, já sabendo quais suas reações e saindo da escuridão na qual a maioria ainda vive. Particularmente, na maioria dos casos em que perguntei a alguém enraivecido o porquê de sua conduta ou agressividade ao lidar com uma criança que o desagradou, ou com um adulto com o qual se desentendeu, o sujeito se sentiu na obrigação de revidar, e a resposta foi: “Meu pai sempre me criou assim, e eu to aqui, ele também vai aprender! ”; ou: ”O mundo é assim! ”. Quantas vezes já ouvimos isso por ai ou em nossas próprias casas? Esse sujeito só reproduziu o pai, não raciocinou em único momento sobre o bem estar de seu filho e do seu mundo, visto como um mundo muito cômodo, onde a vida decide por ele para que ele não se dê ao trabalho de pensar. Concordamos que precisamos entender a diferença entre criar, educar e amar, como se completam e em que momento são adequadas. Comecemos pelo “criar”. No dicionário, a primeira definição de criar, entre outras, é ”dar existência a; tirar do nada; dar princípio a, imaginar, suscitar, fundar, instituir, educar, promover a procriação de (gado) ” [1975, p. 400]. Podemos perceber que essa palavra está mais perto do animal primitivo, tal qual a criação de animais domésticos com alimento, comida e moradia. Quero esclarecer que com esta colocação não questiono o uso do termo na língua, mas apenas convido à reflexão pelos caminhos que vamos descobrir aqui. Na definição de Educação
  35. 35. 35 encontramos, entre outros, a seguinte definição para criar: “Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral visando a sua melhor integração individual e social” [1975, p. 499]. Esta colocação é, com certeza, bem mais abrangente e reflexiva, o que não significa que todos reflitam sobre isso quando fazem uso dela. Convido a refletir. E, por fim, “Amor’. Essa é a palavra mais difícil de todas para definir; acredito que sua essência está além da definição que pode abranger o dicionário; está nas religiões, na filosofia e nas leis morais universais da psique humana (consciência). No dicionário encontrei definição de Amor, entre outras: “Sentimento que dispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa” [1975, p. 87]. Refletindo sobre cada conceito podemos ver qual é a visão de educação que tem o sujeito do exemplo citado anteriormente; e qual é a visão de si mesmo, não só pelo uso do verbo “criar”, mas pela forma como a colocou “... meu pai me criou assim e to aqui...”. Dá para perceber descontentamento e aceitação, ou melhor, aceitação de um descontentamento. “E nesse ”[...] to aqui [...]” não nos remete a uma questão de sobrevivência? De alguém que apesar dos pesares ainda está aqui, ou seja, vivendo, levando a vida? E quando o sujeito finaliza dizendo “ele vai aprender”, caberia antes refletir sobre o quê. Todo mundo se pergunta, cedo ou tarde, por que vive; e busca sua razão e motivação para viver e ser feliz; se esse sujeito teve sua criatividade, sua natureza de criança e sua espontaneidade podadas, feridas, oprimidas pelo pai, acaba, sem o auxílio do conhecimento e da reflexão, reproduzindo isso para seu filho, como um disco furado. No processo de se autoconhecer o caminho é esse que acabamos de fazer, refletir! Não só com as palavras, mas com as ações. Observei que para cada grito ou tapa que leva a criança, por perturbar a paz do adulto, enquanto ela corre com seu foguete rumo às estrelas pela sala, ou derruba um copo no chão por tentar se superar e fazer algo sozinha, para cada ensinamento duro que recebeu de seus pais, e os quais ela não os vê exercitando no dia a dia, para cada humilhação que ela passa porque o adulto está mais preocupado com o que os outros vão pensar ou falar do que com a sua necessidade de
  36. 36. 36 esclarecimento, com equilíbrio de disciplina e amor e respeito ao seu tempo de aprendizado, uma parte dela sangra, com seus sonhos assassinados pelos responsáveis pela sua proteção. Numa descrição breve Rosa Cukier (2012) deu quatro exemplos de quadros clínico que buscaram ajuda para sua criança interior: Paciente 1 – Empresário, bem sucedido, deprimido por problemas no casamento. Queixa-se de falta de atenção da esposa desde o nascimento de seu primeiro filho. Não consegue conter acessos de violência física contra a esposa ou objetos da casa. Cenas de infância: tem cinco anos, é madrugada, o pai bate na mãe. Tem quatro anos, quer colo, a mãe está cozinhando e os irmãos riem dele e o chamam de “maricas”. Paciente 2 – Mulher de 25 anos muito bonita que vive em isolamento social está sempre mudando de emprego, pois sente uma compulsão por namorar os chefes e pouco depois é mandada embora. Queixa-se de depressão e de ser perseguida pelos colegas de trabalho. Dentre várias cenas marcantes, duas se destacam: Tem seis anos, filha de empregada mãe solteira, que vem visitá-la aos domingos na casa dos avós. A mãe lhe cobra bons modos à mesa como vê na casa dos patrões. A menina sente-se inferiorizada perante as pessoas que admira. Em outra cena tem seis anos e pede a benção do avô mesmo sabendo que ele não a daria, pois sempre dizia que não abençoaria a filha bastarda de uma mãe que não prestava. São duas cenas que carregam humilhação, maus tratos e preconceito. Paciente 3 – Um homem de 27 anos com graves dificuldades no contato social, restringindo a vida da casa ao trabalho. Poucos amigos. Já se apaixonou e sente atração pelo sexo feminino, mas nunca namorou. Admira o poder que Adolf Hitler tinha para se vingar de quem não gostava e é acometido de muita raiva quando alguém o desconfirma. Na primeira cena, ele tem entre 4 e 5 anos, a mãe briga com ele e ele corre para o banheiro e morde a cortina de plástico para exprimir a raiva. A mãe o alcança e bate violentamente com uma vara de marmelo até que ele se curve e peça desculpas. Em outra lembrança ele está com 5 ou 6 anos e ganha um brinquedo de um porteiro de obra em frente à sua casa e é manipulado
  37. 37. 37 sexualmente. Mais tarde quando compreende o fato sente medo e inferioridade como homem. Paciente 4 – Executiva de uma multinacional, 35 anos, bonita e se queixa de problemas de interação social e vazio existencial. Acha que os homens não prestam e não consegue manter um relacionamento estável, bem como identificar o que gera a situação. Diz que sempre ajuda a todos e é tida pela família e no trabalho, como encrenqueira, estúpida e sente-se injustiçada. Lembra-se da despedida dos pais que imigraram da Europa. Conteve o choro, pois a mãe estava muito sensibilizada, então, comportando-se como uma “adulta equilibrada” para que a mãe não desabasse. Em outro momento, viu-se com 7 ou 8 anos, e a avó, que tem um mau casamento, confidencia suas intimidades (abuso psicológico) e diz que todo homem não presta. Então vamos refletir sobre essas quatro construções de vida: O paciente A via o pai bater na mãe, hoje bate na esposa. O paciente B ouviu por toda a infância que ela e a mãe não prestavam e assumiu o papel da “mulher que não presta”. O paciente C sofreu abuso sexual e se dobrava de humilhação de tanto apanhar, e busca em seus delírios de sustentação um Hitler que pode manipular as pessoas de acordo com sua conveniência. O paciente D ouvia sua avó expor a intimidade afetiva e sexual e, sem compreender, passou a viver a realidade de homens que não prestam. Cada uma a seu modo repetem o drama infantil, mas há também a possibilidade de construção no extremo oposto do que vivenciaram. A criança, ao perceber que o adulto está sendo injusto ou abusivo, sente raiva, mas fica passiva, pois não tem força física para se defender. Tal submissão forçada por sua fragilidade gera sentimentos de vergonha, humilhação e inferioridade que não são esquecidos, por maior esforço que o indivíduo faça para mascará-lo. Nesses momentos de tensão a criança, em sua psique, faz uma espécie de pacto de vingança, de modo que quando crescer não permitirá que façam aquilo com ela novamente ou com as pessoas que ama. Em suma, por trás desses adultos tem uma criança tentando manter seus projetos de vingança atrás de uma dignidade perdida, sem perceber que se tornou aquilo que mais odiava, pois não tinha referências diferentes daquelas condutas.
  38. 38. 38 1.3 - Os Super-heróis, identidades das aspirações humanas subconscientes e a influência na independência emocional da primeira infância Figura nº 1: Crianças fantasiadas de super heróis. Fonte: http://www.nossauniao.com.br/blog/casamento-real-com-super-criancas/ A escolha dos super-heróis partiu do tema da criança interior como base de construção do indivíduo. Observamos aqui a força de referência filosófica pela qual pode ser observado os personagens dos quadrinhos bem com a influência destes pela indústria midiática na diferenciação do self em crianças. De acordo com Weschenfelder (2012),Toda infância tem seus super- heróis de referência, e mesmo os mais antigos, vem se reinventando ao longo dos tempos pelas novas tecnologias e hoje movimenta bilhões na indústria cinematográfica. Essas novas adaptações da cultura POP dos quadrinhos para a linguagem da atualidade, não só tem força econômica e de entretenimento mas também trazem grandes discussões filosóficas proveitosas para o universo infanto-juvenil. Trazendo questões de enfrentamento diário comum a todos nós, seres humanos como a ética e a moral, Responsabilidade pessoal e social, à justiça, ao crime e ao castigo, à mente e as emoções humanas, à identidade pessoal, à alma, à noção de destino, ao sentido de nossa vida e ao que pensamos da ciência e da natureza, ao papel da fé na aspereza deste mundo, a importância da amizade, ao significado do amor, à natureza da família, às virtudes clássicas como coragem. [Weschenfelder, 2012, p. 2]. Entre outros é o que fazem destas personagens tão encantadoras e atraentes aos nossos olhos nos despertando quase que instantaneamente uma identificação com nossa conquistas, faltas e aspirações.
  39. 39. 39 Figura 2: Menino e ídolo super herói. Fonte: http://vambebe.wordpress.com/2013/05/29/o-espetacular-homem-aranha- andrew-garfield-faz-a-alegria-das-criancas-vestido-como-o-heroi/ O autor do artigo os Super-heróis e essa tal filosofia (2012) esmiúça essas questões dentro do universo de alguns personagens. O Homem-Aranha por exemplo, é um adolescente em guerra interna como qualquer outro adolescente, tentando vencer as tentações cotidianas e as confusões de seus processos de maturidade. Peter Parker perde os pais muito cedo em um acidente de trânsito, é adotado pelos equilibrados e adoráveis tios May e Ben Parker. Logo adiante perde tragicamente o tio Bem assassinado. É um adolescente esquisito, tímido, de auto estima muito baixa, nerd e pouco sociável. Depois de ser picado por uma aranha geneticamente modificada adquire superpoderes semelhantes aos do animal e passa a escalar paredes, soltar teias, dar pulos altos, super sentidos e uma força além do normal. O que lhe confere o status de super herói? Não são os poderes, mas sim as escolhas que ele faz. Isso difere o super-herói do vilão. Ainda enquanto Peter ele já se encontra em posição de escolha e consequência, mas a partir do momento que adquire super poderes essa responsabilidade se amplia drasticamente conferindo ao personagem seu caráter tão atraente e referencial ao universo do observador. E o que orienta as escolhas deste personagem? As referências positivas de seus tios. Apesar das privações e dificuldades que viveu e vivência ao longo das histórias, Peter tem não só uma base instrutiva eficiente por parte de sua família quanto à responsabilidades e compreensão de direito e deveres e escolha e
  40. 40. 40 consequência como também tem bom exemplo por parte dos mesmos. O autor atenta para o esquisito coragem dentro das escolhas da personagem, principalmente no que se refere ao fato de ser o Homem-Aranha. Não são só os super poderes que fazem dele o que é e o que representa, mas o fato de escolher combater o crime e ajudar as pessoas indefesas, das personalidades mau construídas dos vilões. Ele tem a escolha de não ter esse envolvimento, poderia somente ter a cautela de não usar seus super poderes para prejudicar outrem e continuar sendo integralmente Peter Parker, poderia também usar seus superpoderes exclusivamente para proveito próprio, mas não a personagem vai além e com coragem além de lutar pela melhora de si luta pelo bem estar dos outros. De acordo com Aristóteles, referência do autor, para que o julgamento se apresente de forma construtiva é imperativo que ele tenha instrução no assunto juntamente com experiência e exemplo. Acrescento aqui novamente a reflexão de que o aprendizado não é diretamente proporcional ao tempo mas sim relativamente proporcional. Esse personagem com certeza apresenta maturidade e entendimentos de vida maior que colegas que tenha que não passaram seus enfrentamentos pessoais, bem como pode estar ainda além de pessoas com o dobro de sua idade que pouco conhecem sobre provação emocional. A Inteligência emocional é fator de suma importância para o desenvolvimento de aprendizado com sabedoria, conforme foi dissertado anteriormente Em boa parte das histórias há momentos em que ele é perseguido e culpado pelos jornais, pela população e até pela polícia pelos males feitos dos vilões, por essas pessoas terem tido acesso somente ao momento em que ele se encontrava presente na sena caótica, não tendo visto sua chegada e sua luta. Quanto a tal fato vemos a tendência pré-julgadora do ser humano, que pode se estender a grande fofoca de forma a prejudica-lo, entretanto, o personagem continua sua luta pela justiça, nesses momentos tendo o enfrentamento estendido para além dos vilões, pois a partir de sua base ética interna se mantém a ajudar mesmo sendo criticado e perseguido por quem está ajudando, tentando compreender essas pessoas e dominar as próprias paixões para continuar seu propósito sem se deixar agredir pela situação a ponto de revidar. Essa situação
  41. 41. 41 é de altos e baixos, hora é aclamado, horas é criticado negativamente, como o é em nosso cotidiano ao contato com outras pessoas de natureza julgadora e ainda sem domínio das paixões e longe do equilíbrio reflexivo. A coragem está no enfrentamento do medo e não na falta dele. E quando se permite o enfrentamento, o efeito sombra é desfeito. Isso não impede que mal seja feito por outrem mas neutraliza seu acesso ao nosso emocional, à nossa psique e dessa forma temos o equilíbrio necessário para tomar a atitude necessária e /ou desenvolver o que foi interrompido em hora adequada para tal, podendo ainda, ao longo do processo passar a criar as oportunidades necessárias sem ter esperar que se apresentem ao acaso. A coragem é a mediania tocante ao medo a autoconfiança. (...) de modo que o medo é, às vezes, definido como a antecipação do mal. (...) não se pensa que a coragem esteja relacionada com todas essas coisas, uma vez que há alguns males que é certo e nobre temer e vil não temer, do é exemplo a desonra e a ignomínia. Aquele que teme a desonra é um homem honrado, detentor de um devido senso de pudor. [Aristóteles apud Weschenfelder. Pag. 4, 2012.] O personagem tem em sua família, então um exemplo de educação virtuosa que possibilita sua percepção de escolha e consequência de coragem e medo, temperada conforme a situação se apresenta. “Seja qual for a situação seja qual for o conflito que tivermos dentro de nós sempre temos uma escolha, pois são as nossas escolhas que fazem de nós o que somos e sempre podemos escolher aquilo que é certo”. (Fala do personagem em Homem-Aranha 3, 2007). Figura 3: menino de super-homem
  42. 42. 42 Fonte: http://www.pinterest.com/pin/250583166742118968/ Quanto ao super-homem, encontramos sua atitude heroica na necessidade de pertencimento, fazer parte de um conjunto com nossas particularidades em evidência, a qual todos buscamos. Ele é um extra terrestre, sendo assim está só e longe de casa, sua raiz, mas foi muito bem educado e amado por humanos, então sua necessidade de pertencer é inteira quando se fragmenta, por um lado ele é Clark Kent, jornalista, um homem comum, repórter com seus conflitos tal qual qualquer ser humano, por outro ele é um super poderoso protetor dos fracos e oprimidos, e quando usa seus poderes e atua com suas particularidades extraterrestres, dessa forma ele abraça dois fragmentos singulares que fazem dele quem ele é e que resolvem sua sensação de pertencimento aceitando tudo que o compõe, então os fragmentos aceitos juntos podem formar o todo que o compõe, a unidade que o faz um ser inteiro. Quando ele é kriptoniano consegue participar integralmente do mundo a sua volta. Vemos aqui que o problema da fragmentação que observamos fazer parte do mundo humano, principalmente na contemporaneidade como vimos no capítulo 1, não está em desenhar uma linha reta de unificação interna mas sim aceitar e integrar sua sinuosidade. Essa integração deve para tanto, penso eu, ser estudada, é o autoconhecimento, para que possa ser identificado o que são
  43. 43. 43 nossas sinuosidades e o que são fragmentos sinuosos apropriados de terceiros que muitas vezes não dialogam com o que buscamos, sendo só um reflexo do ego reprimido. Voltando ao personagem, quando ele participa do mundo a sua volta é que se sente realizado. O autor cita que quando Aristóteles quis descobrir a felicidade explorou o que é viver com excelência, conforme descoberta do super- homem. “Mas se a felicidade consiste na atividade de acordo com a virtude, é razoável que seja atividade de acordo com a virtude maior (excelência), e esta será a virtude da melhor parte de nós. ” [ Aristóteles apud Weschenfelder]. Essa virtuosidade em ajudar ao próximo vem de seus instintos naturais em consonância com sua formação, mas esse altruísmo se estende a “uma quantidade saudável de interesse próprio” e a grande qualidade ao equilibrar as necessidades alheias com a suas individuais observando o benefício mútuo e geral. Ao ajudar o outo o personagem ajuda a si mesmo exercendo seus poderes singulares e desenhando seu destino. É seu equilíbrio interno que o faz não estar escravo do medo e tão pouco enfrentar a tudo sem considera-lo. “ Assim a temperança e a coragem são destruídas pelo excesso e pela deficiência e preservadas pela observância da mediana”. (Weschenfelder, 2012). No caso dos X-Man, encontramos em constância uma das particularidades das experiências do Homem-Aranha. São também adolescentes, sendo assim em constante conflito interno e tem a base moralmente virtuosa em seu tutor Charles Xavier. Entretanto, esses adolescentes passam quase que todos os episódios tendo que se defender internamente das pressões vidas das pessoas a quem ajudam. São mutantes vistos como mal exemplo e perigo por parte das pessoas comuns fruto do medo do desconhecido, e acrescentaria aqui de uma certa inveja das competências desenvolvidas pelos mutantes às quais as pessoas comuns não possuem. O Batman, personagem com mais 70 anos de existência tem sua máxima no fato de ser um humano comum e a captação de recursos financeiros para executar continuamente seu propósito. É um órfão que dedicou anos ao treinamento físico e mental, para vingar a o assassinato dos pais e ao longo dos episódios estende essa visão à proteção de outras pessoas contra o crime e a corrupção e às vítimas de crimes em Gotan City. Bruce Wayne tinha na figura do
  44. 44. 44 pai um exemplo a seguir. E entendia o propósito do exemplo e principalmente do exemplo como ícone, como um homem comum poderia ser destruído mas como símbolo poderia ser incorruptível e eterno. Então dá continuidade aos propósitos do pai com visão ampliada do contexto, possível pela experiência perda e privação junto com base e referência. O pai de Bruce foi à falência combatendo à pobreza acreditando que seu exemplo motivaria outros ricos de Gotan, mas o assassinato do pai interrompeu esse propósito ao qual Bruce deu continuidade assumindo a identidade de Batman, como símbolo de mudança, perseverança, virtuosidade, moralmente incorruptível e ético é exemplo para os outros e por sua vez, desta maneira, encontra sua satisfação e motivação pessoais. Estendo minha observação a figura feminina que também mostra sua força e sua luta pelas ações da mulher maravilha. O lado feminista da personagem, a força que está além dos condicionamentos sociais. O isolamento das amazonas mostrando ao mesmo tempo a exclusão pelo machismo e a exclusão escolhida pelas personagens pela batalha que tem de travar pelo respeito, aceitação e livre escolha. E até em alguns vilões a maldade pela escolha ou pela falta de base de referência como o amigo de Peter Parker, Harry Osborn, que movido cegamente pelos sentimentos de ódio e vingança, pelo assassinato do pai, sem compreender a real figura do pai, um homem ganancioso que sucumbiu ao mal, começa a se apresentar como vilão mostrando as consequências de uma base mal construída juntamente com sentimentos e experiências auto destrutivas que acabam por conduzi-lo à escolha danosa a si e aos outros, pois falta base sólida para escolhas acertadas com equilíbrio. Então vemos aqui também, particularidades que movem as escolhas. Em todas as personagens dos quadrinhos podemos encontrar um fragmento ou referências filosóficas interessantes na construção de crianças, adolescentes e até nas reflexões adultas. Anderson Chalhub e Dionis Soares se aprofundam no que se refere especificamente as crianças na sua construção individual em seu artigo sobre a diferenciação do self em crianças. Em acordo com os autores, a criança começa a vida em fusão completa com a mãe em situação de dependência física e principalmente emocional.
  45. 45. 45 Emocionalmente são interdependentes e ao longo dos anos o objetivo de seu desenvolvimento é torna a criança independente tendo os pais tarefa de conduzi- la a tal propósito com um comportamento que permita alcançá-lo. A referência de self aqui exposta parte da teoria apresentada por Bowen. Então aqui será observada como a “ capacidade de se auto referenciar como indivíduo, de se distinguir como sujeito perante o objeto”. (Soares &Chalhub, 2010, Pg. 4). Faço aqui um adendo sobre o fato de utilizarmos conceitos diferentes sobre mesmo assunto e ou palavra, sem concordar necessariamente entre si. Estamos falando sobre autoconhecimento, e esse processo inclui principalmente a visão singular que temos de um fato bem como o aperfeiçoamento em qualidade e quantidade de conhecimento. Então o presente texto é construído de forma a possibilitar a liberdade de pensamento e assimilação por parte do leitor de todos os conhecimentos aqui presentes bem como seu fundamento e conceitos, compreendendo que um não exclui o outro e se acaso tem definições diferentes, não nos dificulta compreensão se estivermos trabalhando com consciência aberta, mas pelo contrário, possibilita maior número de inter- relações pela mente e consequentemente maior possibilidades conclusivas em formação de opinião. Por exemplo, o fato do autor, observando pela ótica de Bowen definir o self infantil como o momento que o mesmo se observa independente emocional e psicologicamente da família, ainda assim dialoga com o conceito de self das filosofias budista e tântrica que o observam como o a nossa essência mais pura de ser divino, pois a criança está no processo de descoberta de si, assim como o adulto pelo autoconhecimento na busca de se compreender e exercitar o melhor de si. Como descrevem os autores anteriormente citados, a criança começa a desenvolver esse self, por volta dos dois anos de idade apresentando características físicas e de gênero mais concretas nesse período e a partir de então suas percepções de mundo se ampliam e sua diferenciação da família de origem começa a se apresentar e conduzi-lo à individualização, com suas próprias vontades, anseios, aspirações e forma de ver atuar no mundo. Na primeira infância, principalmente, o exemplo vivenciado cotidianamente é referência de conduta como já vimos anteriormente com Freud e Jung e neste período os efeitos e cores fortes e explosões das linguagens cinematográficas
  46. 46. 46 dos super-heróis criam na criança um apelo à imitação, tendência já natural que se manifesta com relação aos pais. As personagens supersônicas e imbatíveis ao passo que, criam identificação nas crianças, suas particularidades vão sendo internalizadas como traço de identidade na primeira infância. Como as experiências vividas pelos super-heróis, a criança experimenta tanto o pertencimento quanto a diferenciação, onde o pertencimento está em participar, dividir crenças, valores, sentir-se membro (família, amigos) e a diferenciação em sua singularidade no direito de se expressar e pensar em valores independentes dos de sua família. Há uma energia que o impulsiona ao processo de individualização, para alcançar sua autonomia, como esclarecem os autores, porém o vínculo inicial nunca é totalmente quebrado, havendo uma diferença entre o vínculo individual mantido e massa indiferenciada do Eu familiar. Não há uma individualização completa. Seria a extensão de Eu no outro na relação de Jung, vista anteriormente. Essa massa indiferenciada do eu familiar se refere à aglomeração e fusão desse selfes, onde existe o sentimento de pertencimento, que se apresenta com extrema renúncia de autonomia em uma fase de transição. De acordo com Chalhub & Soares (2010), Bowen baseia sua teoria em duas energias fundamentais a serem observadas, onde uma é a que impulsiona o indivíduo no caminho da diferenciação e, a outra, leva a pessoa à união com a família de origem e, embasada por essas duas, cria a escala de diferenciação de self. A escala classifica o grau de independência emocional do indivíduo diante de sua família de conforme descrevem os autores. Nos números mais baixos a dependência e necessidade de aprovação são maiores. Como mencionam Medeiros, Pedreira e Nunes (2008), a escala de diferenciação do Self de Bowen apresenta os seguintes níveis: de 0- 25, 25-50, 50-75 e 75-100. Nos níveis mais baixos de diferenciação, as pessoas estão imersas em seu mundo sentimental e procuram aprovação dos outros, tornando-se assim incapazes de aumentar seus níveis básicos de indiferenciação. Nos níveis mais altos há uma maior consciência entre sentimentos e pensamentos. Como a individualidade já é mais desenvolvida, as pessoas nesses níveis têm uma maior flexibilidade nos relacionamentos íntimos, sabendo que podem se libertar dos mesmos a qualquer momento, descartando velhas crenças a favor de novas. [CHALHUB, Anderson & SOARES, Dionis, 2010, Pg. 5] O autor nos diz que quem vive nessas camadas mais baixas do inconsciente, que é quando a individualização não foi eficiente para sua
  47. 47. 47 independência emocional, o indivíduo acaba por se manter imerso em sentimentos que não são seus tendo como resultado a projeção da culpa por seus insucessos e/ou sentimentos de insucessos, em seus responsáveis ou pessoas emocionalmente ligadas a ele, pois não consegue discernir o sistema afetivo do intelectivo. Então aqui compreendemos como a base familiar é de suma importância nas possibilidades de sucesso de indivíduo ao longo de sua vida, tendo forma maior em sua primeira infância. Nós podemos observar, desde Freud, Jung e outros autores nos capítulos anteriores até aqui, que todo indivíduo carrega em si inúmeras referências internas como fantasias inconscientes e conscientes, infantis e projetadas, condicionamentos adquiridos, experiências que são armazenadas em forma de emoções, enfim um vasto mundo onde todos seus fragmentos se relacionam entre si e onde a individualidade do indivíduo está na relação de desse vasto mundo interno com o mundo externo. O autor Chalhub & Soares (2010), também cita Winnicott para falar do processo, que defende que o self, que não é ego, é a pessoa que o indivíduo realmente é e que sua totalidade está na forma como se opera seu processo de maturidade. E que todas essas partes do self, descritas anteriormente, se aglutinam dando ao indivíduo seu sentido interior-exterior no processo de maturidade e forma suas possibilidades e forma de ver o mundo conforme o ambiente que cuida dele, que se faz referência pra ele e como este lhe permite expressar sua liberdade de escolha e compreensão conforme ela se apresenta. Assim como vimos no capítulo 2, o “ego”, como chama OSHO, se apresenta como sistema de defesa da psique, ou segundo Freud no sub capítulo 1.3 o “ego reprimido” se defende de uma nova experiência negativa, que aqui vemos se construir diante de negativas constantes recebidas por parte do ambiente de referência (família) durante seu processo de maturação impedindo e/ou dificultando a individualização e a diferenciação do indivíduo. Independente da diferenciação do nome para conceito o processo é o mesmo, lembrando aqui novamente que é o processo individual que deve ser observado e que a necessidade de apresentar conceitos diferente para o mesmo processo, entendemos se fazer necessária pela proposta de indução ao pensar por parte do leitor e não somente armazenamento de nosso ponto de vista,

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