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Zine Reboco Caído - 25

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  1. 1. Lembranças Por Fabio da Silva Barbosa lembro das luzes ao longe, iluminando o subir do morro e daquela casa que ficava depois da última luz onde a eletricidade ainda não tinha chegado do esgoto a céu aberto que o menino sempre pulava para jogar bola no campinho esburacado e do choro de Dona Berenice quando viu o filho tombar ao ser atingido por uma bala de não sei qual calibre e quando o sobrinho apanhou na delegacia falaram que confundiram com traficante das casas empilhadas umas sobre as outras barracos sobre barracos moradias sobre moradias morando pessoas espremidas, gente sofrida mordida por misérias, fomes e apatias lembro também dos barulhos de tiros ouvidos na hora da novela dos apartamentos que assistem de bem longe se convencendo que não tem nada com a vida dos mor- tos bra$il. Por Maite Santamarta - 192 - Por favor, enviem uma ambulância para a Rua Martins Ferreira, esquina com Voluntários da Pátria. - Senhora, qual é a ocorrência? - Há um senhor desmaiado na calçada. - É morador de rua? - Não sei lhe dizer. - Foi atropelado? - Não. - É morador de rua? - Não sei lhe dizer. - O que aconteceu? - Ele se sentou no canteiro passando mal e desabou no chão. - Ele respira? - Sim, lentamente. - É morador de rua. - Ele não responde a nenhuma pergunta. - Qual a sua aparência? - Aparenta 70 anos. - Certo, senhora, a ambulância está a caminho. A ambulância não chegou, mas eu aprendi. Da próxima vez a descrição que farei será a de um senhor de terno e gravata, loiro e falando inglês. Por Caio Castor sarinha, 5 anos, com a voz doce e preocupada: tio caio é verdade que tinha um homi lá passando…? (o - 1 - - 2 -
  2. 2. olhar dela já me revelava o que ela queria saber) - sim. - e vc chamou a ambulância pra ele? - sim. e a ambulância levou ele? - sim, ele está bem. um abraço e um sorriso triste mas aliviado. chegando na favela do moinho desço do busão e vejo um senhor negro deitado no chão com a mão no peito. indife- rentes, pessoas em volta apenas esperam sua condução. quantas vezes passamos reto? dessa vez não. sem pestane- jar coloco minha mão no seu ombro e pergunto se está tu- do bem. o senhor encosta a mão dele na minha e diz: acho que estou tendo um infarto meu filho. corro pra loja de carros e peço pra chamar uma ambulância. alguns minu- tos depois o homem sai da loja e conta que ligou mas o samu respondeu dizendo que não tinham ambulância dis- ponível. “é assim mesmo, quando é morador de rua eles não tão nem aí”, diz o cara da loja. não, não é assim não. continuo esperando. a aflição aumenta. penso na minha vida e nas oportunidades que tive. tenho vontade de sen- tar no chão e deixar o pranto rolar. me seguro. duas senho- ras moradoras do moinho veêm a cena e também se soli- darizam. olha uma gcm vindo lá! quase somos atropela- dos mas no final eles param e socorrem o homem. ao che- gar na favela várias crianças me perguntam o que aconte- ceu. a notícia já havia corrido. pra elas esse fato teve muita importância. pra mim também. nunca mais passo reto. Dia de visita Por Fabio da Silva Barbosa Mais um dia de visita na clínica. Me arrumo toda e fico esperando. Já faz tempo que ela não vem.Ao invés de dia de visita, tinha de se chamar dia de espera. Começa a chegar gente para ver Fulana e Beltrana, mas a minha não chega. Será que vai vir dessa vez? Fico esperando. O ne- gócio é esperar. Pior que aqui não dá nem para fumar cigarro. Se ainda pudesse matar o tempo enquanto me mato… Tique-taque, os ponteiros vão passando. Levanto e olho para a porta. Ninguém. O negócio é continuar es- perando. Agora vem alguém. É visita atrasada, mas não é para mim. Puta merda. E nem um cigarrinho. Percebo que começo a andar de um lado para outro. O enfermeiro olha. Já percebeu minha agitação. Melhor sentar. Tique-taque. Nada de chegar. Tique-taque. Puta que o pariu. Já passou mais da metade do tempo de visita e até agora nada. Os ponteiros demoram a andar e ao mesmo tempo não pa- ram de correr. Vai entender. Disseram que iam me tratar, mas a única coisa que fazem é administrar o maior núme- ro de remédios que podem sem correr o risco de me ma- tar. É a prisão química, o paraíso da indústria farmacêuti- ca. Não é a primeira vez que paro nesse buraco e quando sair estarei do mesmo jeito, só que impregnada de remé- dios, mais drogada do que nunca. Tique-taque e não che- ga ninguém. Devem estar muito ocupados trabalhando, fazendo compras ou sabe lá mais… Passou um mosquito voando. Pelo menos acho que era um mosquito. Pode ser Gente de bem Por VANESSA BARBARA Quinta-feira passada, em Santa Cecília, um rapaz de cer- ca de 30 anos, descalço e de bermuda, subiu no teto de um ônibus da linha Lapa 875T. O veículo parou, e outro ônibus colou atrás. O rapaz prontamente fez uso do enga- vetamento, saltando para o teto do coletivo seguinte, um Aclimação 508L. Lá do alto, passou a gritar e a interagir com as pessoas na rua, num provável surto psiquiátrico. Transeuntes berraram para que ele pagasse a passagem em vez de ficar pegando carona, e o chamaram de folga- do e vagabundo. Rapidamente formou-se uma aglomera- ção de pessoas filmando com os celulares. A certa altura, ele tirou a roupa e correu pelado, depois tornou a se ves- tir. Deitou no teto do ônibus e ficou falando coisas alea- tórias. As pessoas ao redor continuaram a xingá-lo. Formaram uma rodinha e pediram que descesse pois assim poderi- am enchê-lo de porrada. Uns caras prometeram trazer uns paus e uma mulher tentou dar uma vassourada no rapaz. Um senhor quase conseguiu puxá-lo pelo pé com violên- cia. Agalera do linchamento aumentou; defendiam os di- reitos de circulação dos trabalhadores de bem e prometi- am surrá-lo.(O trânsito já liberado e os passageiros do ônibus passaram para o de trás, se é que isso importa) Uma moça disse que não deixaria ninguém machucar o rapaz. A turba passou a gritar com ela, dizendo que de- fendia “coisas erradas”, ao que ela respondeu que nin- guém tinha o direito de bater em ninguém, que a polícia já havia sido acionada e que o rapaz devia estar doente. Foi quando um jovem apareceu e disse que conhecia o sujeito. “Mora no meu prédio, é pai de família e advoga- do. Ele vai trabalhar todo dia de manhã, de terno. Tentei falar com ele, mas olhou e não me reconheceu.” A turba recuou. Tentaram imaginar o rapaz surtado de terno, gente de bem, trabalhador, pai de família. A polícia chegou quando o episódio se arrastava havia vinte minutos. A multidão aplaudiu, e alguns sugeriram que era para “descer o cacete”. Enquanto os policiais es- tudavam o que fazer, o rapaz fez menção de pular de ca- beça. Ouvi gritos de: “Pula! Pula!”. A polícia arrumou uma escada e encostou na parte traseira do ônibus. Numa demonstração de calma e sangue-frio, o comandante su- biu de mansinho, sem que o rapaz percebesse. Enquanto gritava e ameaçava pular, o policial o agarrou por trás e o imobilizou. Foram necessários mais dois soldados para contê-lo. Eles o algemaram, desceram-no até a rua e o colocaram na viatura. Foi quando reparei num senhor que havia chegado há pouco. Era o pai do rapaz - paralisado e confuso. Disse que nunca tinha visto o filho naquele esta- do, que ele não tinha histórico psiquiátrico. Uma vizinha, gentil, telefonou para a mãe do rapaz e informou que es- tavam todos indo para a Santa Casa. (Atrás de nós, um sujeito falou que esperava que o rapaz apanhasse muito na viatura.) Um feliz Natal* para toda a gente de bem. *Sei que já passou o Natal e até já entramos em 2015, mas a mensagem continua e valeu publicá-la inteira (FSB). - 3 - - 4 - - 5 - - 6 -
  3. 3. presente Por Fabio da Silva Barbosa Enfim reencontrando gente Por Fabio da Silva Barbosa e Lisiane Da Silva Caparroz Agradecimentos ao grande Caio DiSouza e a Comunida- de da Cruzeiro Muito bem esse lugar tem gente humana gente sofrida gente viva gente feliz Sim GENTE no sentido da palavra gente sem dente gente com dente gente sambando gente que acredita gente que se importa gente que não tá nem aí gente caindo gente levantando GENTE. todo tipo de gente mas todos do tipo que sofre e que é feliz não essa felicidade superficial e eterna que não existe gente oprimida roubada surrupiada nos seus direitos mais básicos enganada explorada gente que não desiste da caminhada mesmo com os caminhos trancados com o futuro furtado dias negados existência assombrada e assombrando os que fingem dia de cão Por Anak Albuquerque o que lateja o que é latente o que late fora e dentro da gente Por Igor Vitorino da Silva Bala Fala Cala Vala Fenix Por Thina Curtis De repente Me vi novamente De repente Luz em meus olhos Faiscaram… De repente EU FENIX Ressurgi das cinzas… Contatos com o zine Reboco Caído:fsb1975@yahoo.com. br-www.twitter.com/RebocoCaido-www.rebococaidozine. blogspot.com.br-ww.rebococaido.tumblr.com-Cx postal: 21819,Porto Alegre,RS,cep.:90050-970 Editor: Fabio da Silva Barbosa - Capa: Gazy Andraus mais uma daquelas bolinhas luminosas que aparecem na frente da vista. Não! Era um mosquito! O tique-taque não para de tiquetaquear. Parede branca, parede branca, por- ta, parede branca, grade, chão, teto, mesa, balcão, chão, teto. Sujeirinha esquecida no canto. Chão, teto, parede, porta, grade, porta, grade. Ó o enfermeiro passando. Até que não é dos piores, mas o trabalho dele que é o proble- ma. Tique-taque. Olho de um lado para outro. Sacudo a perna cada vez mais forte. Nem percebi que estava sacu- dindo a perna até então. Tique-taque! Pronto, deu a hora. Tenho de me recolher e esperar até o próximo dia de vista quando novamente não virão. seres mutilados futuros passados vidas roubadas sabedoria retardada evolução depravada liberdade cercada humanidade atrofiada matança declarada maldade ilimitada hipocrisias endeusadas mortos esquecidos vivos excluídos - 9 - - 7 - - 8 -
  4. 4. “Protestar é um direito reprimir é um delito.” “Os ‘civilizados’ escreveram leis e não as respeitam. Usam o poder para oprimir as pessoas que julgam ter menos conhecimentos.” - Jairo Saw Munduruku - “a vida é muito curta para ser pequena.” "Os palácios caem” Prisioneira do vazio Por Cacau Cruz Solidão carcereira das minhas horas, Entra e sai quando bem quer. Faz-me refém de teus perturbadores silêncios. Faz- me refém das horas vazias de meus dias vagarosos. Contas minhas lágrimas em seu ábaco, Segue a gargalhar de meus dolorosos suspiros. “Quiseram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes” Duas horas Por J.Rocha (“na avenida vendida, vende-se de tudo, de sonhos a dinheiro'') Me lembro das ruas, pés que andam nas ruas cheias, ruas cheias de pessoas, e eu cheio das pessoas que enchem as ruas Que a noite voltarão pra casa e saírão das ruas desanimadas, por viverem vidas que não são suas Eu fico, pra fazer companhia a solidão das ruas vazias do vinho, mais uma dose Agora dormem os bebês chorões enquanto eu admiro mais uma vez as luas aproveito a noite enquanto as ruas são minhas porque eu sinto e sei, que amanhã de manhã já serão todas suas. mais valia do gozo nenhum Por Marcos Alves Lopes de segunda a sexta trabalho-trabalho e gozo nenhum trabalho-trabalho e gozo nenhum trabalho-trabalho e gozo nenhum trabalho-trabalho e gozo nenhum sábado: compras pela manhã dentes, cabelos e unhas - pronto? à noite: ereção já uma gotícula de esperma e o sono (nem sempre há gozo e sonhos) aos domingos - murmúrio, penumbra e provas fim do mês - todos se lembram do salário minguado INVENTEI OS DIAS Por Kaio Bruno Mesmo triste fui assim paisagem gotejando alegria. Se meu sapato falasse Por: Alexandre Mendes Fitzgerald HommerSimpson CaetanoBuarqueVeloChic JoaquimJosédaSilvaXavierJúnior AdãoJoséJesusBarnabéSauloPauloNoé EçaBarretoLimaBaruckCésarSomozaFranco GhandiSandyXandeMarroneBradJeromeJimiCliff EuAquiVocêAquiTodosAquiSóQueEstamosIlegíveis de quem é a sua vida? COLETIVO ZINE 2 A versão impressa do Co- letivo Zine 2ª edição está esgotada. Quem quiser, pode confe- rir a versão PDFpelos mei- os abaixo: - Por email é só encaminhar pedido para coletivozine@ outlook.com - SlideShare - http://pt.slide share.net/ColetivoZine/co- letivo-zine2-online- 43781916 - MediaFire - http://www.mediafire.com/view/7a41yxcil5 o2gpm/coletivo+zine2+online.pdf - http://coletivozine.blogspot.com.br/

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