Os gêneros e a ciência dialógica do texto ii

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Os gêneros e a ciência dialógica do texto ii

  1. 1. Gêneros como unidade estético-cultural do enunciado e do texto<br />Dentre os vários aspectos das abordagens de Bakhtin, aquele que propõe uma implicação direta para a teoria do texto são as reflexões que entendem a composição textual como uma combinação de uma diversidade de formas.<br />
  2. 2. Barthes via o texto como “um tecido de citações saídas dos mil focos da cultura”, cabendo ao escritor “imitar um gesto sempre anterior, jamais original [...] (p.234)<br />
  3. 3.
  4. 4. Metáfora têxtil<br />A metáfora do texto com o ato de tecer há muito é utilizada pela teoria da literatura para explicar a arte de produção de textos e de sentidos.<br />Mito de Aracne<br />Três Parcas<br />Penélope<br />Ariadne<br />Moça Tecelã (Marina Colassanti)<br />Alice e Ulisses (Ana Maria Machado)<br />
  5. 5. Bakhtin nos permite compreender a questão textual a partir de outro campo de visão. Os gêneros discursivos [...] são a mais autêntica representação do texto-tecido concebido por Barthes. <br />
  6. 6. Se etimologicamente, o termo texto reporta-se à antiga técnica de tecer, o que justifica a propriedade da metáfora têxtil aplicada ao signo textual está longe de ser a hierarquia dos fios; o ponto de analogia é antes a ação de combinar, de enredear, de construir redes de relações cuja somatória resulta no tecido, que é também sentido. (p. 235)<br />
  7. 7. Para Bakhtin texto é todo o sistema de signo cuja coerência e unidade se deve à capacidade de compreensão do homem na sua vida comunicativa e expressiva. O texto não é uma coisa sem voz; é, sobretudo, ato humano, “diz respeito a toda a produção cultural fundada na linguagem”. (p. 235)<br />
  8. 8. TEXTOS TEXTOSTEXTOS<br />malditas placas fenícias<br />cobertas de riscos rabiscos<br />como me deixastes os olhos piscos<br />a mente torta de malícias<br />ciscos<br /> (Paulo Leminski)<br />
  9. 9. Todo texto é articulado de discurso-língua que se manifestam nas enunciações concretas cujas formas são determinadas pelos gêneros discursivos. Vale dizer que texto está para a língua assim como o enunciado está para os gêneros discursivos. (p. 237)<br />
  10. 10. Seria muito ingênuo acreditar que os textos se limitam às palavras. Como nos adverte Púchkin: <br />“Todas as palavras estão no léxico, mas os livros que surgem a cada momento não são repetição do léxico” (p.237).<br />
  11. 11. Pela ótica de Bakhtin, a textualidade se define pelo enunciado e pelos gêneros discursivos que o constitui. O enunciado é a unidade concreta do texto; uma unidade resultante das combinações dos gêneros discursivos – formas específicas de usos das variedades virtuais de uma língua. <br />
  12. 12. Assim, a noção de textualidade na teoria bakhtiniana do enunciado não se desvincula da noção de gêneros discursivos: <br />
  13. 13. “O texto como enunciação. O problema das funções dos textos e dos gêneros textuais. Dois aspectos definem o texto como uma enunciação: seu projeto (a intenção) e a realização desse projeto. A interrelação dinâmica desses aspectos, a luta entre eles, é o que determina a natureza dos textos.” (BAKHTIN, apud Machado, p.238).<br />
  14. 14. Durante o processo de sua formação, os gêneros secundário absorvem e assimilam os gêneros primários (simples) que se constituíram na comunicação discursiva imediata. Os gênero primários, ao integrarem os gêneros secundários, transformam-se e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade dos enunciados alheios. (BAKHTIN, apud MACHADO, p. 239).<br />
  15. 15. vozes a mais<br />vozes a menos<br />a máquina em nós que gera provérbios<br />é a mesma que faz poemas,<br />somas com vida própria<br />que podem mais que podemos<br />(Paulo Leminski)<br />
  16. 16. Grande sertão: veredas<br />E vim vindo, para a beira da vereda. Consegui com o frio, esperei a escuridão se afastar. Mas, quando o dia clareou de todo, eu estava diante do buritizal. Um buriti – tetéia enorme. Aí sendo que eu completei outros versos, para ajuntar com os antigos, porque num homem que eu nem conheci – aquele Siruiz – eu estava pensando. Versos ditos que foram estes, conforme na memória ainda guardo, descontente de que sejam sem razoável valor:<br />
  17. 17. Trouxe tanto este dinheiroo quanto, no meu surrão,p’ra comprar o fim do mundono meio do Chapadão.Urucuia – rio bravocantando à minha feição:é o dizer das claras águasque turvam na perdição.Vida é sorte perigosapassada na obrigação:toda noite é rio-abaixo,todo dia é escuridão..<br />
  18. 18. Mas estes versos não cantei para ninguém ouvir, não valesse a pena. Nem eles me deram refrigério. Acho que porque eu mesmo tinha inventado o inteiro deles (ROSA, apud MACHADO, p. 239)<br />
  19. 19. Grande sertão: veredas<br />http://www.youtube.com/watch?v=-D3Ec1HDGws&feature=related<br />Trecho da obra na voz de Maria Bethania<br />
  20. 20. A partir do texto de Rosa, Machado mostra que o movimento entre gêneros primários e secundários se fundem, transformam-se e “perdem sua relação imediata com a realidade” (BAKHTIN, apud MACHADO, 239).<br />
  21. 21. A enunciação, o texto e os gêneros discursivos não se constituem na marginalidade dos códigos culturais. Na literatura brasileira são muitos os textos que procuram fazer da entonação expressiva a representação tátil, em que os gêneros discursivos imprimem uma marca extra-verbal que leva o enunciado a interagir com fenômenos amplos e complexos dos códigos culturais. (p.244)<br />
  22. 22. Quincas berro d’água.<br />Quincas reanimou-se mesmo foi com um bom trago. Continuava a beber daquela maneira esquisita: cuspindo parte da cachaça, num desperdício. Não fosse dia de seu aniversário e Cabo Martim chamar-lhe-ia a atenção delicadamente. Dirigiram-se ao cais. Mestre Manuel já não os esperava àquela hora. Estava no fim da peixada, comida ali mesmo na rampa, não iria sair barra afora quando apenas marítimos rodeavam o caldeirão de barro. No fundo, ele não chegara em nenhum momento a acreditar na notícia da morte de Quincas e, assim, não podia falecer em terra, num leito qualquer. (capítulo XI, p. 99)<br />
  23. 23. Quincas berro d’água.<br />
  24. 24. Na narrativa encontram-se duas focalizações: a morte oficial séria e a morte alegre grotesca. Uma legal e enunciada pela família. Outra é falação que corre pela boca do povo, ou seja, é prosa.[...] É ela que se encarrega de oferecer o romance como matéria verbal falante, cujas vozes ecoam até mesmo numa leitura silenciosa. (p. 246)<br /> Jorge Amado mostra não só como a língua é falada, mas como ela pode ser escrita graças à combinação de gêneros primários e secundários. (p.246)<br />
  25. 25. Aquele que usa a língua não é o primeiro falante que rompeu pela primeira vez o eterno silêncio de um mundo mudo. Ele pode contar não apenas com o sistema da língua que utiliza, mas também a existência de enunciados anteriores [...] cada enunciado é um elo na cadeia complexa e organiza outros enunciados. (BAKHTIN, apud MACHADO, p. 247)<br />
  26. 26. O que podemos dizer do objeto – texto - a partir do ponto de vista das ideias Bakhtinianas? (p. 232)<br /> Como se comportam os seus conceitos quando ambientados no conjunto da cultura em que texto impresso convive com o texto eletrônico? (p.232)<br /> É a ideia de gênero como rede discursiva o grande saldo das formulações para as teorias da textualidade contemporâneas (p. 248)<br />

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