Temos que falar sobre kevin

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Muitas dúvidas e poucas certezas nos podem levar à reflexão acerca do relacionamento que deve existir no casal, em que só a verdade é salvadora, e o diálogo seja permitido, tentando resolver em primeiro lugar suas questões internas, dando conta de seus conflitos psíquicos, pedindo ajuda técnica se necessário, cuja finalidade será a realização de uma formação adequada de seus filhos.

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Temos que falar sobre kevin

  1. 1. Temos que falar sobre Kevin Este trabalho de análise tem por finalidade apresentar o outro lado da história, como sejam algumas causas que desencadeiam distúrbios graves, em que a evolução parte de características individuais e de conflitos psíquicos graves não resolvidos, e seu envolvimento no romance familiar, em que o casal parece não possuir a capacidade de os solucionar. A resultante será a incidência na formação dos filhos, que pode ser de diversa ordem, em que observamos a falta de regras como fator determinante, designada por limites, pelo que outras regras se impõem em seu lugar. A evidência de uma mãe adoecida, a meu ver, será apenas uma parte da história, em que muitos querem encontrar a vilã dos crimes cometidos pelo filho Kevin, esquecendo todo o processo anterior, desde a passividade do pai e sua falta de interesse em falar acerca do comportamento de Kevin com sua mulher, Eva, à substituição de regras de respeito e consideração pelo o outro. Kevin Não há nenhum objetivo. Esse é o objetivo. Lógico, que a questão da gravidez não desejada, que denota à partida um desprazer sentido deve ser evocado, mas não parece que seja algo decisivo no desenrolar de toda a vida familiar, em que a prática da relação, a meu ver, é que indicia um caminho a ser trilhado. Podemos observar uma mãe fria, distante, que não escuta, apenas ouve, e que apresenta alguma dificuldade em interpretar o que Kevin lhe pretende comunicar, associado a um pai ausente da regra, em que libera os desejos de Kevin através do lado material. A questão da medicalização Em duas cenas do filme nos é dado a observar um armário cheio de remédios. Em nenhum momento é referida a existência de análise terapêutica. Somos levados a considerar o alívio da tensão, e dos sintomas, mas permanecendo o conflito psíquico interior em Eva, que se traduz em seu comportamento. A questão do afeto, ou a sua ausência, não determina por si só o comportamento, dado que ele existe em Eva, apenas não sabe, ou não consegue exteriorizar, mas antes a forma inadequada do relacionamento entre os membros da família, pelo que nos é dado a distinguir esses dois processos, mental e social. Podemos inferir que se existisse exteriorização do afeto as consequências não seriam estas, mas não invalida, que não possam ser outras, pelo que a meu ver, a questão não deve ser medida entre distúrbios mais ou menos graves, mas antes entendida como os tentar dissolver, ou evitar, sejam quais forem. Este filme nos vem mostrar como a medicação pode contribuir, em termos de formação das crianças, para o surgimento de formações patológicas graves nos filhos, por aliviar os sintomas da mãe, deixando o núcleo dos conflitos intocável. Uma neurose obsessiva compulsiva em termos de destruição dos outros e de si mesmo, pode ser, tão, ou mais nociva que a psicopatia.
  2. 2. Porque afinal damos tanto ênfase à psicopatia ? A evidência do crime atormenta parte da humanidade, esquecendo que é o culminar de uma série de processos em cadeia, que necessita, a meu ver, de ser investigado, estudado e colocados em prática para que tal possa ser evitado tanto quanto possível. A relação com o afeto O que determina o afeto provém de uma energia dirigida causadora de satisfação, que funciona como princípio de auto satisfação. O que nos é dado a perceber no filme é a plena insatisfação de Eva. Na cena do filme, que nos dá a imagem do carrinho de bebê com seu choro repetido, e a britadeira, cujo som tende a abafar o que a irrita, nos é dado a perceber a irritabilidade contida, mas não exteriorizada. A rigidez que transparece das manifestações do corpo, estabelece a primeira imagem à criança, análoga a um fantasma, máscara demoníaca, com a absoluta ausência do sorriso, mais próprio de uma estátua de pedra, indicia a falta do aconchego e pressupõe uma vida sem emoções. A incapacidade de Eva em entender Kevin, e sobretudo de relacionar-se com ele, aponta para a probabilidade de o mesmo ter acontecido em sua infância, pelo que não sabe como fazer diferente, em virtude de suas experiências terem sido limitadas também. Neste aspecto falta-nos o histórico familiar de Eva. A sua perturbação facial indiciando claramente sua preocupação, como se o sangue fosse retirado de seu corpo repentinamente, não deve passar despercebida na análise, porquanto, a meu ver, tem muito mais a ver com uma impossibilidade interiorizada devido à sua repressão infantil, do que propriamente com algum tipo de transtorno. Nota-se a vergonha, e o incomodo que lhe causa a visualização de algumas pessoas que estavam no local onde o filho cometeu o crime, optando pela fuga, em que o sentimento de culpa é evidenciado. Eva, a seu modo, tentou várias vezes resolver a situação que a afligia, levando Kevin ao médico devido á ausência da fala, assim como a tentativa de falar com o marido acerca do filho, em que se nota a total ausência da figura paterna e seu alheamento na formação de Kevin. Ela tem afeto para dar, contudo não sabe como fazê-lo, fica sempre á espera que alguém o faça por si, em que o contacto físico parece ser coisa desconhecida para ela, ou até mesmo entendido como algo pecaminoso, demonstrado com a guerra dos tomates das primeiras cenas, onde o seu imobilismo é bem patente, apesar de sua cara de satisfação. Identificação Se por um lado, o filme nos chama a atenção do seio bom, ou suficiente, julgo oportuno salientar a problemática da identificação com o objeto de amor, como fator determinante, ganhando algumas características, que se notam fundamentais. Identificação, não será mais que a incorporação mediante um processo de imitação das características do objeto de desejo, em que a relação com a figura paterna só parece ser determinante nos aspectos materiais. Kevin Não há nenhum objetivo. Esse é o objetivo.
  3. 3. Surge a pergunta: - Qual o objetivo a ser perseguido, que neste caso faltou ? Podemos deduzir, que para existir um sentido de vida deverá existir um objetivo, que sem ele a emergência de um sentido de morte, auto-destruidor, tende a provocar a destruição dos outros e de si mesmo. Mesmo que sejamos apressados em considerar o afeto como objetivo, o amor, que a maioria apresenta conceitos generalistas, percebemos como fator preponderante a relação inadequada desta mãe com o filho, que ignora como agir perante um quadro de frieza, e de ausência de emoções. Pretende o amor de Kevin, a sua atenção, que parece corresponder, em primeiro lugar a uma falta sua, que não sabe como preencher, retirando-lhe a possibilidade da dádiva, sendo apenas um mero corpo passivo á espera de receber. Segundo o ponto de vista filosófico haverá muita coisa a dizer, mas segundo os princípios da psicanálise, observamos que o processo primário tende a sobrepor-se ao secundário, nomeadamente na fixação de uma identificação com a figura materna, que transparece no decorrer do filme. Filosoficamente podemos dizer, que Kevin poupou a vida da mãe, sendo um sadismo intenso sentido para a ver sofrer, resultando da falta de afeto, mas na realidade nada nos diz como a própria disposição funcional chegou até aí, nem quais os fatores que estão subjacentes, e a possam suportar. Kevin, em suas atitudes não é o sujeito que pensa, mas antes o corpo que se manifesta e reage, que parecia saber porque tinha determinada atuação, que na prisão disse nada saber, ou pelo menos não ter tanta certeza do seu saber. Afinal, vem a saber que sabia, que nada sabia. A vingança é consciente, os motivos que a provocam não. Significa que suas conexões cerebrais pararam num tempo referido à sua tenra infância, em que a problemática do afeto e afetação do corpo, da frustração e seus limites, foi distorcida, ou não se deram, sendo notório a ausência de regras e um diálogo pobre. Não pareces feliz ? Alguma vez fui ? Assegurando que em outras circunstâncias o poderia ser. Quais seriam ? Kevin mente ao pai sobre as causas que levaram à fratura do seu braço, protegendo dessa forma a mãe, como se fosse um assunto somente entre os dois, e o pai não fizesse parte do agregado familiar, em que a mãe por sua vez, oculta esse fato, e mais uma vez as cenas nos conduzem para a relação familiar, tentando entender como devem ser conduzidas. A mãe é sempre do filho, a que deve seguir-se a frustração. Levanto um problema, que vejo ignorado em quase todas as análises, que é a seguinte: - Podemos observar uma autonomia bastante precoce em Kevin desde tenra idade, em que a maturidade se faz apenas através de suas experiências, em que o outro, mãe e pai, são ignorados, entendidos como instrumentos de frustração e incorporação de regras.
  4. 4. Até onde nos pode conduzir esta análise ? Kevin Porque não conheceria o contexto ? Eu sou o contexto. O processo de erotização e auto-satisfação revelados através da cena da masturbação, sem nenhum sinal de evitação perante o olhar da mãe, tal como o CD com imagens eróticas, nos garante uma longa discussão sobre o assunto, no que se refere à forma como o ser humano pode ser levado a exercer sua sexualidade. O simbolismo da flecha atirada na janela onde a mãe estava a observar Kevin e o pai no treinamento, nos leva à seguinte afirmação: - Mãe eu desejo tua morte. Porque a poupou fisicamente ? Muitas dúvidas e poucas certezas nos podem levar à reflexão acerca do relacionamento que deve existir no casal, em que só a verdade é salvadora, e o diálogo seja permitido, tentando resolver em primeiro lugar suas questões internas, dando conta de seus conflitos psíquicos, pedindo ajuda técnica se necessário, cuja finalidade será a realização de uma formação adequada de seus filhos. João António Fernandes Psicanalista Freudiano Analizzare – Centro de Estudo e Pesquisa em Psicologia e Psicanálise

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