Ao Crepúsculo, a mulher ... Ao crepúsculo a mulher bela estava quieta, e me detive a examinar sua cabeça com a atenção e e...
Era tão linda assim, entardecendo, que me perguntei se já estávamos preparados, nós,  os rudes homens destes tempos,  para...
Depois os ombros são subitamente fortes, para suster os braços longos; mas os seios são pequenos, e o corpo esgalgo foge p...
Não teve filhos.  Talvez pense na filha que não teve, no filho que desejou ter... A forma do vaso sagrado não se repetirá ...
Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar suas figuras, porque o erro e a desí...
Mistérios existem para simular profundidades, que não se interessa nem pelo certo,  nem pelo belo,  mas só pelo humano. Ma...
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AO CREPUSCULO-A MULHER

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AO CREPUSCULO-A MULHER

  1. 1. Ao Crepúsculo, a mulher ... Ao crepúsculo a mulher bela estava quieta, e me detive a examinar sua cabeça com a atenção e extremado carinho de quem fixa uma flor. Capaz de dizer coisas densas e até perturbadoras de um jeito leve e despretensioso. Sobre a haste do colo fino estava apenas trêmula; talvez a leve brisa do mar; talvez o estremecimento de seu próprio crepúsculo.
  2. 2. Era tão linda assim, entardecendo, que me perguntei se já estávamos preparados, nós, os rudes homens destes tempos, para testemunhar a sua fugaz presença sobre a terra. Foram precisos milênios de luta contra a animalidade, milênios e milênios de sonhos para se obter esse desenho delicado e firme.
  3. 3. Depois os ombros são subitamente fortes, para suster os braços longos; mas os seios são pequenos, e o corpo esgalgo foge para a cintura breve; logo as ancas readquirem o direito de ser graves, e as coxas são longas, as pernas desse escorço de corça, os tornozelos de raça, os pés repetindo em outro ritmo a exata melodia das mãos. A imaginação desloca as lembranças e depois não mais as encontramos. Ela e o mar entardeciam, mas, a um leve movimento que fez, seus olhos tomaram o brilho doce da adolescência, sua voz era um pouco rouca.
  4. 4. Não teve filhos. Talvez pense na filha que não teve, no filho que desejou ter... A forma do vaso sagrado não se repetirá nestas gerações turbulentas e talvez desapareça para sempre no crepúsculo que avança. O cotidiano é um modo de acordar do sono profundo, pois toda perfeição se conclui, sempre, no nada e no tudo, num só tempo. Que fizemos desse sonho de deusa? De tudo o que lhe fizemos só lhe ficou o olhar triste, como diria o pobre Antônio, poeta português. O desejo de alguns a seguiu e a possuiu; outros ainda se erguerão como torvas chamas rubras, e virão crestá-la, eis ali um homem que avança na eterna marcha banal. Somos o que não temos, o que temos, já perdemos de ser.
  5. 5. Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar suas figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem sua mão: de geração em geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha. Sim, foi a própria mão divina em um momento difícil e feliz, depois Ele disse: anda... E ela começou a andar entre os humanos. Agora está aqui entardecendo; a brisa em seus cabelos pensa melancolias. As unhas são rubras; os cabelos também ela os pintou; é uma mulher de nosso tempo; mas neste momento, perto do mar, é menos uma pessoa que um sonho de onda, fantasia de luz entre nuvens, avideusa trêmula, evanescente e eterna.
  6. 6. Mistérios existem para simular profundidades, que não se interessa nem pelo certo, nem pelo belo, mas só pelo humano. Mas para que despetalar palavras tolas sobre sua cabeça? Na verdade não há o que dizer; apenas olhar, olhar como quem reza, e depois, antes que a noite desça de uma vez, partir... Rubem Braga Música : André Gagnon - Twilight time Montagem : [email_address] www.pranos.com.br

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