A enciclopédia barsa e o contexto dos anos 60 – algumas percepções do impresso

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A enciclopédia barsa e o contexto dos anos 60 – algumas percepções do impresso

  1. 1. 1 A ENCICLOPÉDIA BARSA E O CONTEXTO DOS ANOS 60 – ALGUMAS PERCEPÇÕES DO IMPRESSO Paloma Lourenço Bueno1 RESUMO: A Enciclopédia Barsa foi um produto da Encyclopaedia Britannica, criada a partir de 1964 no Brasil. Foi idealizada como uma enciclopédia pertencente à característica das enciclopédias “informativas” e não seguindo a linhagem de enciclopédias “persuasivas”, como tratam seus editores de configura-la. No corpo bibliográfico de uma edição verificada de 1966 constam consistentes nomes da historiografia brasileira do período. Caracterizando o termo enciclopédico, a obra de 16 volumes pretendeu ser abrangente quanto a assuntos diversos. Esse trabalho pretende abrir um panorama ao estudo deste tipo de impresso no Brasil, introduzindo um assunto que pode ser explorado através de outros ângulos. Abstract: The Enciclopédia Barsa was a product of Encyclopaedia Britannica, established since 1964 in Brazil. It was designed as an encyclopedia belonging to the characteristic of “informational” and not encyclopedias following the lineage of “persuasive” encyclopedias, as shown by theirs editors. In the body of the bibliography of a 1966 edition checked, many names of consistent brazilian historiography were part of it. Characterizing the encyclopedic term, the whole of 16 volumes intended to be broad and include various subjects. This paper proposes to open an overview of this type of study, which includes printed matter as an object of investigation in Brazil, introducing a subject that can be detailed through other angles. Palavras-chave: Enciclopédia Barsa; impressos no Brasil; década de 1960. Introdução O seguinte texto tem por objetivo apresentar aspectos da História do Impresso no Brasil, relacionando o objeto impresso e algumas percepções referentes a ele. No caso foi escolhida uma enciclopédia de grande circulação e com especificidades brasileiras: a Enciclopédia Barsa em seus primórdios. Analisamos nosso objeto sob a perspectiva de Roger Chartier, que trata de discutir esta temática. Dentre diferentes linhas de pesquisa do autor a história do livro e das práticas de escrita e de leitura vão ao encontro do estudo de impressos, campo já explorado por pesquisadores no Brasil e que joga luz nos estudos denominados de História Cultural. Buscando elucidar o conceito de enciclopédia, entende-se que são obras de síntese, tem o intuito de reunir diversos saberes, refletindo ideias e pensamentos de uma determinada época. São um produto resultante de uma equipe, tanto 1 Artigo apresentado como exigência da disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II, no curso de Licenciatura em História, da Universidade Nove de Julho, no ano de 2014, sob orientação do professor Me. Roberto Marcelo Caresia.
  2. 2. 2 de autores e editores. “(...) respondem a perguntas de informação imediata: quem, que, qual, como, quando. (...) são úteis como fonte orientadora inicial para pesquisas e como ponto de partida para a aprendizagem de um assunto.”2 Ao se estudar o uso da enciclopédia no passado e verificar sua abrangência, percebe-se a importância dada a este tipo de impresso ainda na década de 60 e o quanto esta realidade hoje é diferente, uma vez que a internet e novas ferramentas de busca são inseridas na realidade da pesquisa, seja escolar ou acadêmica: É fato que a modernidade permite o aumento da oferta de obras no mundo. Mas não podemos estabelecer uma equivalência direta entre o avanço da tecnologia digital e o crescimento de leitores. Sou pessimista: acredito que as pessoas que lerão os títulos eletrônicos serão as que já tem o hábito de ler os impressos (CHARTIER, 2013, p.30). Nesta entrevista publicada em 2013 pela revista Nova Escola, Chartier declara a importância de se ler livros clássicos e discute a modernidade e inserção de novas tecnologias que formam os leitores e escritores da atualidade. Um olhar no período proposto, década de 60, coloca algumas questões relevantes quanto ao desenvolvimento do país. Segundo Fernando Novais e João Manuel Cardoso de Mello o período foi caracterizado pela modificação e procura de uma sociedade majoritariamente rural para uma transição urbana e industrializada. Os brasileiros tinham a sensação de pertencer a uma nova civilização mais moderna: “os avanços produtivos acompanharam-se de mudanças significativas no sistema de comercialização” (MELLO, NOVAIS, 1998, p.566). Os autores oferecem um panorama do período, abordando aspectos da vida social dos brasileiros, entre eles, os novos padrões de consumo que se configuraram como grandes novidades. Nunca o consumo foi tão acelerado quanto neste período, as donas de casa, por exemplo, conheceram muitas utilidades domesticas, tanto para limpeza do lar quanto para manter sua beleza e higiene pessoal. Formou-se um novo padrão de consumo no Brasil, trazido pelos padrões de produção e de consumo próprios aos países 2 Descrição explicativa presente na apresentação do programa da disciplina de Enciclopédias, do curso de Graduação em Biblioteconomia da Universidade de São Paulo. NORONHA, Daisy Pires, PASSARELLI, Brasilina. Departamento de Biblioteconomia e Documentação. Disciplina: Enciclopédias. Disponível em: <http://www.eca.usp.br/departam/cbd/lina/recurso1/encic.htm#conceito>. Acesso em: maio, 2014.
  3. 3. 3 considerados desenvolvidos. Surgem as indústrias do aço, a petroquímica, fibra sintética, hidroelétricas, alumínio, a do cimento, vidro, e papel. Alimentos, indústria têxtil, confecções, calçados, bebidas, móveis. O sistema rodoviário cortava o Brasil de fora a fora. A indústria do automóvel e os eletrodomésticos tomavam conta do mercado. Até mesmo navios de carga e aviões o Brasil fabricava. Houve o predomínio do alimento industrializado e grandes redes de supermercados. A indústria farmacêutica estava no auge, pois de um lado existiam as “doenças do progresso” e de outro “as doenças do atraso”. “Em suma: todas essas variações do consumo apontavam para os movimentos da sociedade” (MELLO, NOVAIS, 1998, p.574). A vida do campo passou a ser indesejável, a repelir e expulsar o homem que migrou para os centros urbanos em busca do trabalho moderno. Com todas essas mudanças podemos entender que com a industrialização e as tecnologias que estavam chegando a todos os lares, ou em sua grande maioria, o mercado pretendeu ser abrangente. Os costumes e hábitos foram totalmente mudados e chegamos à modernidade. 1. Breve Histórico das enciclopédias no Brasil Segundo José Horta Nunes, a tentativa de se realizar uma Enciclopédia Brasileira partiu de Mário de Andrade, quando em 1939 encaminhou um anteprojeto ao então Ministro de Educação e Saúde, Gustavo Capanema. Desde o início, a proposta já se mostrava ser uma publicação “informativa”3 , no caso “uma geral objetividade realista, nada sentimental, que não dê opiniões nem palpites, nem tome partido” (NUNES, 2012, p.2). Neste sentido, a proposta da Enciclopédia Barsa mostrou-se semelhante quanto à intenção em ser informativa e esclarecedora. Como produto da Encyclopaedia Britannica, portanto seguindo a mesma linha de pensamento: Desde os seus primórdios, em 1768, a Encyclopaedia Britannica adotou o lema de informar e não persuadir: mas informar com tanta objetividade e amplitude que os temas adquirem, cada um, uma espécie de valor próprio. No seu majestoso conjunto sua mensagem é a de que o homem é um ser 3 Aspecto que foi identificado também na apresentação do texto de Introdução do Plano de Estudos da Enciclopédia Barsa, datada de 1966, ao apresentar um histórico das enciclopédias, foi composto por uma descrição de dois modelos que a edição disse existir de enciclopédias, ou seja, o modelo persuasivo e o modelo informativo. O texto de Introdução aponta a Enciclopédia Barsa como pertencente ao tipo informativo, porém, é pretenciosa em seu propósito: “Procura informar sem deformar e sem amesquinhar os temas”. Procura, também, informar com objetividade, mas sem roubar ao leitor o prazer da leitura. (BARSA, 1966 v.16 p.9)
  4. 4. 4 livre e que, portanto, deve ter acesso a todas as ideias. (BARSA, 1966 v.16 p.9) O projeto de Mário de Andrade não seguiu, mas abriu portas para outras propostas no mesmo sentido. Somente em 1959 caracteriza-se uma enciclopédia brasileira, no caso é a Enciclopédia Brasileira Mérito, pela editora Mérito. “Vemos aí não mais a memória colonialista mas a unidade nacional e a relação com outras tradições enciclopédicas acionadas para a constituição da enciclopédia brasileira” (NUNES, 2012, p.2), destaque feito pelo autor ao identificar preocupações em se caracterizar a unidade e o povo brasileiro, como já apontava a historiografia décadas antes, registrando crescimento de projetos editoriais, contando com nomes significativos do cenário nacional, como Gilberto Freyre, que dirigiu a Coleção Documentos Brasileiros da Livraria José Olympio Editora que entre os anos 30 e 50 viveu seus tempos áureos, como salienta o autor Fábio Franzini: A sua época áurea, contudo, concentra-se entre os anos 30 e 50, quando se constituiu no principal veículo de difusão das mais importantes reflexões então produzidas a respeito do passado e do presente do País. E isto não era pouca coisa, em especial porque ela não estava sozinha no cenário editorial da época; ao contrário, as coleções dedicadas à análise dos problemas, das possibilidades e, sobretudo, da especificidade da nossa formação histórico-social foram um produto característico daquele momento, pensadas por diferentes editores justamente para abrigar o crescente e diversificado número de intérpretes e interpretações dedicados ao “conhecimento do Brasil”, como então se dizia (PONTES, 2001; CARONE, 2004). (apud FRANZINI, 2013, p.3) Os anos 60 foram significativos quanto ao surgimento de diversos projetos de enciclopédia para o Brasil. Enciclopédias traduzidas e adaptadas europeias e norte- americanas ganharam espaço no Brasil. Um produto da Encyclopaedia Britannica, a Enciclopédia Barsa surgiu em 1964, sendo escrita por brasileiros ou pessoas especializadas no Brasil, contando com quase 200 colaboradores (NUNES, 2012, p.2) e possui supervisão dos editores da Encyclopaedia Britannica tendo William Benton como editor. No período, década de 1960, as enciclopédias possuíam grande mercado de vendas à prestação no Brasil, caracterizadas por ser vendidas de porta em porta, era objeto de desejo de grande parte das pessoas que enxergavam a oportunidade de comprar livros que trouxessem conhecimento geral. O público para esses impressos eram famílias, estudantes, público no geral, nada específico em áreas acadêmicas, porém, a Enciclopédia Barsa contava com
  5. 5. 5 nomes significativos na área de História do Brasil mostrando-se atualizada à produção editorial do momento. 2. O objeto de estudo: a Enciclopédia Barsa A Enciclopédia Barsa é um produto da Encyclopaedia Britannica do Brasil, lançada na Inglaterra há mais de 245 anos, quando chegou ao Brasil já pertencia a uma editora americana. Em 1951 era vendida na língua inglesa, importada. Segundo Laurence Hallewell, em sua obra O Livro no Brasil: “De fato, os brasileiros são ávidos devoradores de enciclopédias, mesmo em inglês” (HALLEWELL, 2012 p.581) logo, o sucesso de vendas foi alcançado, motivando a criação da Barsa, que visava publicar uma versão em português. Seu lançamento foi no ano de 1964, fundada por Dorita Barret e seu marido Alfredo de Almeida Sá, sendo idealizada desde 1961. Barsa provém da junção de nomes dos dois. Antônio Callado4 , importante intelectual do período, foi contratado para ser o redator-chefe do impresso. A Enciclopédia Barsa, corroborando com aspectos políticos do período (Ditadura civil – militar de 1964), em 1965, também na conjuntura da Guerra Fria, publicou uma edição especial da ‘Aliança para o Progresso’, colaborando com o programa norte- americano anticomunista e com o Ministério da Educação do Brasil. Segundo Kazumi Munakata, o período foi marcado por acordos entre o MEC e o USAID (Agency for International Development) demonstrando, assim, influencias norte-americanas no contexto educacional e editorial no Brasil5 : (...) é inegável que a presença norte-americana em várias esferas da economia e da sociedade brasileira aumentou consideravelmente depois do golpe militar. Na Educação, firmou-se o famoso acordo MEC-USAID. 4 Antonio Callado, intelectual brasileiro, nascido em 1917 e falecido em 1997. Foi jornalista, romancista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). A autora Maria da Conceição Santos Silva atenta ao fato de Antonio Callado ter sido engajado em seu tempo, tanto em sua vida pessoal quanto em suas obras literárias. SILVA, Maria da Conceição Santos. Quando o escritor toma partido: o caso de Antonio Callado. Miscelânea. Revista de Pós-Graduação em Letras, Assis, vol.9, jan./jun.2011. Disponível em: <http://www.assis.unesp.br/Home/PosGraduacao/Letras/RevistaMiscelanea/Artigo10- MariadaConceicaoSantosSilva.pdf>. Acesso em maio, 2014. 5 De acordo com Hilsdorf, foram assinados 12 acordos MEC-USAID entre 1964 e 1968, objetivando identificar problemas na educação brasileira e resolve-los nos ideais do “capital humano”, que caracterizava medidas de mentalidade empresarial, com ênfase em aspectos como: desenvolvimentismo, produtividade, eficiência, controle e repressão. HILSDORF, Maria Lúcia Spedo. História da educação brasileira: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. p. 124.
  6. 6. 6 Tratava-se de um acordo entre o Ministério da Educação e Cultura (MEC), do governo federal do Brasil e a United States Agency for International Development (USAID), um órgão do governo norte-americano para coordenar as ações da Aliança para o Progresso, programa de assistência aos países, particularmente aos do chamado Terceiro Mundo, criado em 1961, em pleno auge da Guerra Fria. Na verdade não teve apenas um acordo entre os órgãos e, sim vários, todos buscando reformas no sistema educacional brasileiro, desde o ensino primário, o secundário e os de ensino superior, até o ensino rural.” (MUNAKATA, 2012, p.136-7) 6 A Enciclopédia Barsa, em seus primeiros anos, foi impressa no parque industrial do conglomerado da Companhia Melhoramentos de São Paulo, empresa que chegou a ficar na posição 145º, em 1971, no ranking das 500 maiores empresas do país7 . A venda em prestações da Enciclopédia Barsa pode ter contribuído para sua longa vida, uma vez que temos uma ultima edição impressa no ano de 2012, utilizando-se do mesmo nome, Barsa, mas atualmente vendida à outra editora, Planeta8 . Outro exemplo de uma enciclopédia do período foi o caso da Editora Delta, que no ano de 1966 possuía grande contingente de vendedores domiciliares, caracterizando as vendas de porta em porta. O autor Laurence Hallewell chama atenção aos anos 60 como sendo período de destaque e crescimento do mercado de prestações de maneira geral, atraindo diversas empresas, porém, mesmo essa atividade sendo lucrativa, saturou-se e, já nos anos 70: Durante muitos anos, as vendas de porta em porta foram extremamente lucrativas. Numa venda típica, em onze prestações, o editor pagaria a 6 Tradução da autora. “(...) es innegable que la presencia norteamericana em varias esferas de la economía y de la sociedade brasileña aumento considerablemente después del golpe militar. (...) En la Educacíon, se firmo el famoso Acuerdo MEC-USAID. Se trataba de um acuerdo entre el Ministério da Educação e Cultura (MEC), del gobierno federal de Brasil y la United States Agency for International Development (USAID), um órgano del gobierno norteamericano para coordenar las acciones de la Alianza para el Progreso, programa de asistencia a los países, particularmente los dell llamado Tercer Mundo, creado em 1961, em pleno auge de la Guerra Fria. Em verdade no hubo apenas um acuerdo entre los órganos, sino vários, todos ellos buscando reformas em el sistema educacional brasileño, desde la enseñanza primaria, la secundaria y los estudios de nível superior, hasta la enseñanza rural.” MUNAKATA, Kazumi. Brasil: financiación, ideología y resistencia. De la dictadura a la renovación editorial. In: KAUFMANN, Carolina (coord.). Textos escolares, dictaduras y después. Miradas desde Argentina. Alemania, Brasil, España e Italia. Buenos Aires: Prometeo, 2012. p. 136-7. 7 Dados observados na obra de Laurence Hallewell. HALLEWELL, Laurence. O Livro no Brasil: Sua História. 2 ª ed. São Paulo: Edusp, 2005. p. 332. 8 No que se refere ao papel da editoração, Nuno Medeiros classifica o dicionário ou a enciclopédia como livros para consulta, cabendo ao bem simbólico, fazendo parte de um consumo de desejo enquanto objeto. MEDEIROS, Nuno. Acções prescritivas e estratégicas: a edição como espaço social. Revista Crítica de Ciências Sociais. Coimbra, 85, junho 2009, p. 137-8.
  7. 7. 7 comissão do vendedor com o pagamento da entrada e recuperaria os custos da produção com a quitação da terceira prestação, isto é, depois de dois meses. Como os empréstimos obtidos para o financiamento inicial venciam no prazo de seis meses, a editora começaria a receber o lucro quatro meses antes de fazer qualquer desembolso. Infelizmente, um dinheiro assim tão fácil atraiu muitíssimas firmas, muitas das quais ofereciam mercadoria de qualidade inferior. Em 1973, o mercado estava saturado e, como relatamos, até mesmo muitas das mais reputadas editoras que trabalhavam com vendas em prestações viram-se em grandes dificuldades. (HALLEWELL, 2005, p. 530-1). Darnton observa que esta tarefa da distribuição e vendas se fez presente desde o século XVIII, na França, relatando que todo editor de maior peso utilizava-se desse serviço. Esses responsáveis contribuíam com informações para que medidas fossem tomadas. Sem cometer anacronismos, apenas a titulo de comparação, esta atividade não deveria ser subestimada, pois, em alguns casos, pode muito contribuir ao sucesso ou ao fracasso do impresso9 . Dentro da temática proposta há um viés que direciona observar o público que consumiria as enciclopédias nos anos 60. MELLO e NOVAIS descrevem alguns aspectos de consumo dos quais se pode deduzir o padrão socioeconômico das famílias do período: “Pela casa podemos reconhecer, imediatamente, de que classe social faz parte a família. Entremos numa casa. (...) Há livros de Monteiro Lobato ou não? (...) Ou a Enciclopédia britânica?” (MELLO, NOVAIS, 1998, p.603). Fica subentendido que o acesso a esses livros não se deu para grande parcela da população, uma vez que as enciclopédias eram coleções caras. Em relação às políticas públicas, os autores atentam para áreas que receberam benefícios, ou seja, a educação, a saúde e a previdência. O ensino público (primário e secundário) mostrava sinais de crescimento quantitativo, atendendo mais alunos já nos anos 60. Em 1966, o Estado de São Paulo publicou no Diário Oficial de 22 de março o “roteiro definitivo de programa para a Cadeira de História Geral e do Brasil para o curso secundário 1º e 2º ciclo e curso de formação de professores primários”, elaborado por comissão designada pelo D.O. de 13/11/64”. No início do documento, percebe-se que foram solicitadas algumas alterações ao programa. Dentre os argumentos dos solicitantes, observa-se que à História do Brasil ficaram dedicadas as 1ª e 2ª séries ginasiais, excluindo o ensino de História a 3ª série ginasial e deixando para a 4ª série ginasial o ensino de História Geral. As críticas a essa divisão se dão em torno dos seguintes argumentos: 9 DARNTON, Robert. “O que é a história dos livros?” revisitado. ArtCultura. Uberlândia, v.10, n. 16, jan.-jun. 2008, p. 160-1.
  8. 8. 8 Tal seriação apresenta, a nosso ver, alguns aspectos muito discutíveis: a) retirando a História da 3ª série ginasial, corta em dois a programação de ensino de uma disciplina que tem, como marcante característica de sua natureza, a continuidade e o encadeamento b) reservando para a História do Brasil as duas séries iniciais, impede um programa que aborde os problemas brasileiros no contexto da História Geral do Ocidente, o que seria, em nossa opinião, o único tipo de colocação a permitir uma real e tão necessária visão da formação histórica nacional c) colocando numa só série, a 4ª, o estudo da História Geral, criar (sic) um sério problema de seleção de informações e conceitos básicos. Por melhor que se selecionem (porque a História não se resume) os temas vitais da evolução das civilizações – indispensáveis à formação integral do homem e do cidadão, torna-se dificílimo organizá-los para o curso de um ano. (DIÁRIO OFICIAL. Ensino secundário e normal. São Paulo: Ano LXXVI, n. 53, 22 de março de 1966, p.27). Como resposta, o D.O. publica o programa, alegando ter resolvido essas indagações da melhor forma possível. Discorre sobre a problemática colocando sugestões a respeito de unidades introdutórias nas 1ª e 2ª séries “para a localização do Brasil nas linhas da Historia Ocidental”. A observação mais curiosa se dá por conta de julgar que temas políticos sejam de difícil abstração e compreensão à faixa etária que compreendem as séries, justificando, dessa maneira, um ensino de História mais centrado na linearidade. Não se pode deixar passar que se estava no começo da implantação do regime civil-militar, iniciado em 1964: Ao programar a História do Brasil para as séries iniciais, procuramos faze-lo numa formulação que atendesse, a um tempo, as exigências de uma concepção histórica ampla e moderna e às de uma Didática fundamentada na Psicologia da Inteligência. Assim julgamos imperativo o estudo dos quadros vivos e concretos da ocupação da terra brasileira pelo homem, para sobre eles montar as unidades de síntese, sobre a formação e evolução política do Brasil, problemas bem mais abstratos, para crianças de onze a treze anos. Introduzimos igualmente, como parte integrante da programação, a localização gráfico-cronológica dos períodos e fatos históricos em linhas ou frisas do tempo, modo simples e excelente de fazer visualizar as dimensões temporais geralmente confusas e abstratas nessa idade. (DIÁRIO OFICIAL. Ensino secundário e normal. São Paulo: Ano LXXVI, n. 53, 22 de março de 1966, p. 27.). De certa forma, contrariando o espectro delineado pelas escolhas do programa para a Cadeira de História Geral e do Brasil, a Enciclopédia Barsa parece contar uma História do Brasil até que detalhada, contando com nomes da historiografia atualizados, envolvendo
  9. 9. 9 textos de análise, atentando ao que julgava cumprir sua característica “informativa”, pretendendo proporcionar aos leitores, estudantes inclusive, textos acessíveis. 3. Observações teóricas e metodológicas Apenas para colocar uma discussão a respeito da História e de seus usos, de sua trama e confecção, será citada uma reflexão de Paul Veyne, historiador francês, que defende a História como um campo amplo, sendo avesso a determinismos evolucionistas. Em sua obra Como se escreve a história, o autor coloca a problemática de forma a ser algo subjetivo, não que isto equivalha a um caráter historiográfico meramente ilustrativo, mas os interesses históricos são férteis: Então, se tão vasto problema não interessa ao historiador, o que lhe interessa? Ouve-se, frequentemente, essa pergunta, e a resposta não é, de modo algum, simples: o interesse do historiador dependerá do estado da documentação, de suas preferencias pessoais, de uma ideia que veio à mente, do pedido de um editor, de quanta coisa mais? Mas, se com essa pergunta se pretende saber pelo que deve um historiador interessar-se, então qualquer resposta é impossível: concordaríamos em reservar o nobre nome da história a um incidente diplomático e em recusa-lo à história dos jogos e dos esportes? É impossível fixar uma escala de importância que não seja subjetiva. (...) Ora, basta admitir que tudo é histórico para que esse problema se torne, ao mesmo tempo, evidente e inofensivo; sim, a história não é senão respostas a nossas indagações, porque não se pode, materialmente, fazer todas as perguntas, descrever todo o porvir, e porque o progresso do questionário histórico se coloca no tempo e é tão lento quanto o progresso de qualquer ciência; sim, a história é subjetiva, pois não se pode negar que a escolha de um assunto para um livro de história seja livre. (VEYNE, 2008 pp. 36,37). Como exposto por Paul Veyne, a organização e reunião de assuntos a respeito da História é composta de forma diversa. Observando a configuração realizada no Plano de Estudos da Enciclopédia Barsa, pode-se observar as escolhas que foram feitas por seus criadores, no caso, editores. O Volume 16 da Enciclopédia Barsa surge com a descrição logo em sua folha de rosto: “Elaborada sob a supervisão dos editores da Encyclopaedia Britannica William Benton, editor” (BARSA, 1966 v.16). Não se pode ignorar o fato da apresentação material da Enciclopédia Barsa possuir encadernação cuidadosa, capa dura vermelha com letras douradas na parte externa dos volumes.
  10. 10. 10 O autor Roger Chartier diz sobre uma tendência hegemônica da Historia atual em prestar atenção às representações no campo da cultura. A História Cultural seria importante para identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma realidade social é construída, feita, dada e ler. “(...) esquemas intelectuais, que criam as figuras graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível e o espaço ser decifrado”. (CHARTIER, 1990, p.17). Esta percepção pode dar a Historia Cultural a tentativa de estabelecer nexo entre a história dos escritos (livros, leitura, produções) e seu discurso para tal época. De forma simplificada, o contexto do autor e de seu escrito só será entendido partindo da sua época e de suas problemáticas. O discurso proposto em escritos não estaria isento de intencionalidades, de representações do mundo social. Na construção da História, o historiador teria um papel de fidelidade com o escrito, tem a responsabilidade de se utilizar de técnicas, de analises, de consultas... e, ainda sim, seu escrito ser uma narrativa. De forma enfática, Chartier coloca a necessidade de se observar certos limites ao se estudar a história do livro, como situa numa passagem: “ É necessário, para tanto, prevenir-se de que todo livro possuído não quer dizer forçosamente lido e que, inversamente, a leitura não implica a compra porque o acesso ao livro pode-se fazer tanto através do comércio, como também através da biblioteca pública”10 . Outro aspecto da discussão do autor é o modo como este leitor vê o texto e o compreende que envolvem percepções de mundo distintas. “Cabe precisamente aos historiadores da cultura examinar tais relações ideológicas, a fim de não caírem em uma História da Cultura meramente descritiva.” (BARROS, 2011, p.55) Chartier nota preocupar-se com a forma com que os indivíduos utilizam-se de conceitos, considerando as mentalidades coletivas. A historiografia é um campo denso e de extrema importância para estudantes de História. 4. Dialogando sobre alguns pontos da organização da Enciclopédia Barsa e da temática da “Revolução de 31 de março de 1964 O Índice Geral do Plano de Estudos da Enciclopédia Barsa engloba diversos assuntos sugeridos ao leitor, alguns temas agrupados num assunto comum, como: Filosofia, Religião e Mitologia (ou) Literatura Portuguesa e Brasileira – Linguística e Filologia. No caso específico de História, há duas subdivisões sugeridas: Arqueologia e História e História do Brasil. A Enciclopédia Barsa não foge de um traço comum às enciclopédias, no caso o uso 10 CHARTIER, Roger e ROCHE, Daniel. O livro. Uma mudança de perspectiva. In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (dir.). História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 105.
  11. 11. 11 de verbetes para caracterizar os assuntos em ordem alfabética, ao longo de seus quatorze volumes, excetuando o Índice Geral (volume 15) e o Plano de Estudos (volume 16). Outra característica da Enciclopédia Barsa são os volumes denominados Livro do Ano, edições que reúnem os acontecimentos mundiais e brasileiros mais consideráveis do ano, incluindo ilustrações, gráficos e fotografias, sendo realizada a partir de 1965, uma vez que a primeira edição da Enciclopédia Barsa foi de 1964. Quanto à divisão feita para a História do Brasil, os subtítulos são: História Política; História Econômica; História Social; História Militar; História dos Estados; Biografias e, por fim Bibliografia. São distribuídos ao longo dos demais volumes da Enciclopédia Barsa, indicando o verbete dividindo os assuntos e os respectivos volumes que se encontram. A enciclopédia Barsa fornece uma grande gama de assuntos a serem pesquisados. O momento que ela foi produzida no Brasil foi de mudança política significativa, pois se tratava do regime civil-militar, descrito na própria Barsa como “Revolução de 31 de março de 1964” (BARSA, 1966 v.3 p.322-A). Numa primeira análise, é bastante contraditório o modo como se compõe a enciclopédia, uma vez que sob o regime civil-militar nomes de escritores sob orientação política de “esquerda” como Oscar Niemeyer, Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes compuseram a bibliografia de verbetes presentes na edição brasileira comandada por Antonio Callado. Sandra Reimão, num capítulo chamado “Ditadura militar e censura a livros: Brasil (1964-1985)” escrito para a obra “Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros”, afirma que este período (64-68) foi caracterizado pela contradição em existir publicações tanto politicamente de “direita” quanto publicações enquadradas como de “esquerda”. Os anos de 1964 até a decretação do AI-5 (1968) “(...) a censura a livros no Brasil foi marcada por uma atuação confusa e multifacetada (...)” (REIMÃO, 2010, p.271). Nas Palavras Preliminares que antecedem o Livro do Ano de 1965, os editores assinam um texto apresentando a obra. Demonstram a originalidade em oferecer ao leitor brasileiro uma publicação parecida a uma revista, contendo gráficos, ilustrações e condensando os acontecimentos principais do ano de 1964. Diziam, também, o Livro do Ano ser direcionado não somente às escolas e aos estudantes, mas caberia ao entretenimento e informação para toda a família. Durante a apresentação, os editores destacam alguns assuntos tratados ao longo do impresso. Logo como primeiro ponto: “destacam-se a primeira vitória eleitoral da democracia cristã na América Latina, quando Eduardo Frei foi levado à Presidência do Chile, vencendo com grande margem de votos uma forte coalisão de esquerda” (BARSA, Livro do Ano, 1965). Em se tratando de um período truculento na política brasileira, onde diversos políticos e intelectuais foram perseguidos, torturados e
  12. 12. 12 exilados, não é de todo espanto a posição dos editores, afinal existiu o medo da “ameaça comunista” que sondava o Brasil e a América Latina. Mencionam, também, existir uma resenha a respeito dos acontecimentos ocorridos no Brasil, principalmente nos assuntos que cercam o “Movimento Revolucionário de 31 de março, que depôs o presidente João Goulart e instituiu o governo Castelo Branco”. Voltando às colocações da Enciclopédia Barsa, o volume 3, de 1966, nomeado de: “Balanço a Camarão”11 possui um grande verbete intitulado “Brasil, uma nação-continente”, constituindo-se um longo apanhado, com bibliografia extensa, abordando diversos aspectos do país como geografia, formação, economia, expansão urbana, gráficos, fotografias, mapas, regionalidades, que ocupam desde a página 228 até 354. Entre os subitens está: “Revolução de 31 de março”, sucedendo outro subitem chamado “Campanha Reformista”, do qual se refere às medidas do governo de João Goulart. Nas palavras da Enciclopédia Barsa pode ser notada uma articulação da qual transparece no texto responsabilizar as atitudes do presidente quanto às reformas que pretendia, no caso eram “reforma agrária e nacionalização de refinarias de petróleo particulares” (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-A), e, sendo assim, estaria agindo de forma arbitrária. Alertada pelas manobras continuístas de João Goulart, cuja mensagem parecia preparar o terreno para a derrogação do capítulo constitucional das inelegibilidades, a oposição passou a acusar o governo de atentar contra o sistema federativo, de permitir infiltração comunista nos quadros da administração pública, de omitir-se ante o processo inflacionário e de adotar uma política de crescente estatização. (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-A). O texto escrito quase que contemporaneamente ao golpe civil-militar12 enfatiza acusações ao presidente João Goulart: “(...) chegando a denunciar a conivência do Presidente com um processo de guerra revolucionária” (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-B). Diante do texto, outro aspecto referenciado trata-se dos antecedentes por parte do plano civil e da área militar representados, respectivamente, por: Carlos Lacerda, Ademar de Barros, Magalhães Pinto e os generais Cordeiro de Farias, Nélson de Melo, Costa e Silva, Odylio Dennis, Olímpio Mourão Filho, Carlos Luís Guedes. A narrativa da Enciclopédia 11 ENCICLOPÉDIA BARSA. Rio de Janeiro, São Paulo: Encyclopaedia Britannica, 1966. 3 v. 12 Tendo sido o golpe no ano de 1964, a edição que se analisa é datada de 1966, então foi em menos de dois anos que se consta a analise que a Enciclopédia Barsa produz.
  13. 13. 13 Barsa coloca a gênese da revolta como uma resposta às medidas de João Goulart, considerando que o Presidente tinha desistido de táticas conciliatórias, mencionado não ter punido os responsáveis por uma revolta de marinheiros e também pelo discurso feito em 30 de março de 1964 aos membros da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia de Guanabara13 . Com isso, feria o Governo o princípio da hierarquia militar, iniciando um processo de desagregação das Forças Armadas. Quase em resposta o Governador Magalhães Pinto acendeu o estopim da revolta, dirigindo à nação, também a 30 de março, um manifesto onde dizia que as forças sediadas em Minas Gerais consideravam seu dever “entrar em ação, a fim de assegurar a legalidade ameaçada pelo próprio Presidente da República” (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-B). Por ser um escrito de 1966, a Enciclopédia Barsa, por outro lado, não omite as medidas antidemocráticas do governo instaurado, colocando no subitem a seguir chamado “A Repressão” nomes e ações repressivas, incluindo nomes de autores que compuseram a própria Enciclopédia Barsa, como é o caso de Nelson Werneck Sodré. A menção ao Ato Institucional de 9 de abril de 1964 alega: Com base em dispositivos do Ato Institucional, o Alto Comando Revolucionário, integrado pelos ministros Artur da Costa e Silva (Guerra), Francisco de Assis Correia de Mello (Aeronáutica) e Augusto Hamann Rademaker Grunewald (Marinha) efetuou o expurgo na vida pública do país, cassando mandatos de senadores, deputados federais e estaduais, vereadores, e suspendendo, por dez anos, os direitos políticos de dezenas de cidadãos, entre os quais, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart; governadores Miguel Arraes (Pernambuco), Badger da Silveira (Estado do Rio), Plínio Coelho (Amazonas) e Aurélio do Carmo (Pará); líder comunista Luís Carlos Prestes; economista Celso Furtado; escritores Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré e Antônio Houaiss, além de vários ministros do governo deposto. Na área militar, quase duas centenas de oficiais foram compulsoriamente transferidos para a reserva ou sumariamente excluídos das forças armadas. Paralelamente, desenvolveu-se ampla repressão policial em todo o país, registrando-se numerosas prisões de políticos, militares, funcionários públicos, jornalistas, intelectuais, líderes estudantis e sindicais. (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-B-C). 13 ENCICLOPÉDIA BARSA. Rio de Janeiro, São Paulo: Encyclopaedia Britannica, 1966. 3 v. p. 322-B.
  14. 14. 14 Entende-se que as colocações são justificadas nas palavras a seguir: “para apurar a prática de atividades subversivas e de corrupção administrativa no governo deposto” (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-B), porém, não subestima a descrição feita num momento como esse, podendo ter tido como consequência o veto do texto. Hoje se sabe que o termo “revolução” não cabe ao que foi o regime civil-militar. Para Carlos Fico, as medidas governamentais de João Goulart foram um indício do que viria a seguir, em suas palavras: O interregno confuso de João Goulart seria apenas o prenúncio do golpe, que viria em 1964, pois a tentativa ultra-otimista do Plano Trienal (combinação de combate à inflação, crescimento econômico e reformas sociais) fracassou, tanto quanto seu governo agravou muitíssimo o terror das elites a quaisquer melhorias no campo social (reforma agrária, educação), propagandeadas como “ameaças comunistas” ou, como se alegou na época, como risco de uma “República sindicalista”, pois Jango apelo bastante para o viés “populista” ( FICO, Carlos. O Brasil no contexto da Guerra Fria: democracia, subdesenvolvimento e ideologia do planejamento (1946-1964). In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.) Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000): a grande transação. São Paulo: Editora Senac, 2000, p. 180). Edições posteriores a 1966 da Enciclopédia Barsa não foram consultadas, pois se sabe que após o AI-5, de 1968, a censura a diversos autores acirrou-se. Reimão lista, entre os anos 1968 e 1978, livros não ficcionais censurados, entre eles; “A Revolução Brasileira, de Caio Prado Junior e História Militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré” (REIMÃO, 2010, p.283). Finaliza-se o assunto com o subitem “Governo Castelo Branco”. O modo como se compõe o texto é, no mínimo, curioso. A Enciclopédia Barsa discorre a respeito das medidas tomadas até então, entre elas: reformulação da cúpula administrativa, incentivo às exportações, consolidação da dívida externa, restauração do crédito no exterior, estimulo à entrada de capitais estrangeiros, reformulação da política salarial a fim de proteger a poupança, nova política habitacional (BNH), reforma agrária com aprovação do Estatuto da Terra, reforma bancária com a criação do Banco Central da República. Na sequencia, faz uma análise depreciativa em relação a algumas estratégias: A política desinflacionaria, conjugada com severas medidas de contenção salarial, provocou o recesso industrial, que teve como consequência o
  15. 15. 15 aumento moderado do desemprego e o número de falências e concordatas. (...) Apesar das críticas à política econômico-financeira não foram abandonadas as diretrizes do Programa de Ação Econômica. (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-C) 14 . Em outro parágrafo, coloca-se a execução do Ato Institucional nº 2, descrevendo os pontos que seriam abordados e, utilizando-se de termos como “resistência” e “poderes excepcionais” sendo assim se arrisca, ao menos, entender que a opinião da Enciclopédia Barsa apontou às características autoritárias do, então, novo regime, tratado ainda como “Revolução”. Face à resistência do Congresso em aprovar tais medidas, o Presidente outorgou, a 27 de outubro, o Ato Institucional nº 2, o qual com vigência até 15 de março de 1967 e enfeixando nas mãos do Executivo uma soma de poderes excepcionais, alterou o quadro institucional do país (...) No âmbito das relações internacionais, o Governo Castelo Branco retomou as tradições da política externa de estreita colaboração com os E.U.A. (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1966, 3v. p.322-D). Considerações Finais A colocação de uma enciclopédia como fonte a ser estudada trouxe muitos aspectos a ser considerados. Pretendeu-se colocar o objeto como possibilidade de um olhar acerca do período proposto, que inclui a década de 60. Período que trouxe diversas coleções e enciclopédias que buscaram caracterizar o Brasil, pensando a História do Brasil e suas identidades. Quanto a busca de mercados, observou-se um período atento aos diferentes nichos, no caso atrair leitores como os estudantes, pois o período também delineou-se pela maior abertura para o ensino básico e público. Como observado por Chartier, debruçar-se na História dos Livros e Impressos requer muita prudência. Fica mais evidente que nenhum escrito pode ser tido como despretensioso, uma vez que, como documento de sua época, é carregado de significados e intencionalidades. 14 Idem, 1966, p. 322-C. Grifos realizados pela autora.
  16. 16. 16 Nas análises acerca do verbete da “Revolução de 31 de março”, pode-se constar vocábulos que tanto certificavam o regime quanto sutilezas que já entoavam medidas que cerceariam a liberdade política e civil, como já sabido atualmente. O fato da Enciclopédia Barsa ter sido editada recentemente em sua versão impressa (ano 2012) pode nos colocar que, de uma forma ou de outra, a sobrevivência da enciclopédia deu-se por satisfazer seus consumidores e por sua propaganda e/ou distribuição ser eficaz. O Brasil, sendo um país com desigualdade social acentuada, ainda se faz mercado para esse tipo de aquisição. Talvez, hoje, ostentar grandes exemplares de enciclopédias na estante da sala não signifique muita coisa, mas para pais semianalfabetos, que prezavam por terem conseguido a duras penas comprar seus exemplares, ter um acervo como esse em casa era, ao menos, a esperança de garantir o que não puderam ter aos seus filhos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. CHARTIER, Roger e ROCHE, Daniel. O livro. Uma mudança de perspectiva. In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (dir.). História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. DUTRA, Eliana de Freitas. A Nação nos Livros. A Biblioteca Ideal na Coleção Brasiliana. In: Eliana de Freitas Dutra; Jean-Yves Mollier. (Org.). Política, Nação e Edição. O Lugar dos Impressos na Construção da Vida Política. Brasil, Europa e Américas. Séculos XVII-XX. São Paulo: Annablume, 2006. FICO, Carlos. O Brasil no contexto da Guerra Fria: democracia, subdesenvolvimento e ideologia do planejamento (1946-1964). In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.) Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000): a grande transação. São Paulo: Editora Senac, 2000. HALLEWELL, Laurence. O Livro no Brasil: Sua História. 3 ª ed. São Paulo: Edusp, 2012. HILSDORF, Maria Lúcia Spedo. História da educação brasileira: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. MELLO, João Manuel Cardoso de e NOVAIS, Fernando. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: NOVAIS, Fernando; SCHWARCZ, Lilia Moritz. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  17. 17. 17 MUNAKATA, Kazumi. Brasil: financiación, ideología y resistencia. De la dictadura a la renovación editorial. In: KAUFMANN, Carolina (coord.). Textos escolares, dictaduras y después. Miradas desde Argentina. Alemania, Brasil, España e Italia. Buenos Aires: Prometeo, 2012. REIMÃO, Sandra. Ditadura militar e censura a livros: Brasil (1964-1985) In: ABREU, Márcia; BRAGANÇA, Aníbal. Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Unesp, 2010. VEYNE, Paul. Como se escreve a história. 4ª ed. Brasília: UNB, 2008. Artigos em revistas DARNTON, Robert. “O que é a história dos livros?” revisitado. ArtCultura. Uberlândia, v.10, n. 16, jan.-jun. 2008, p. 155-169. FERNANDES, Elisângela. Fala, mestre! Roger Chartier. Revista Nova Escola. São Paulo: Abril, n.262, p. 30-31, maio, 2013. FRANZINI, Fábio. Escrever textos, editar livros, fazer história: a Coleção Documentos Brasileiros e as transformações da historiografia nacional (1936-1960). Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 5, n. 9, jan./jun. 2013, p. 24-45. MEDEIROS, Nuno. Acções prescritivas e estratégicas: a edição como espaço social. Revista Crítica de Ciências Sociais. Coimbra, 85, junho 2009, p. 131-146. Endereços eletrônicos BARROS, José D’Assunção. A Nova História Cultural – considerações sobre o seu universo conceitual e seus diálogos com outros campos históricos. Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 12, n. 16, p. 38-63, nov. 2011. Disponível em: <http://periodicos.pucminas.br/index.php/cadernoshistoria/article/view/987>. Acesso em junho, 2013. NUNES, José Horta. Para uma História do Discurso Enciclopédico no Brasil. Resumo Expandido apresentado na XXVII ENANPOLL. Niterói: Instituto de Letras/UFF, 2012. Disponível em: <http://www.labeurb.unicamp.br/anpoll/resumos/josehorta.pdf>. Acesso em maio, 2014. KNAPP, Inácio. Enciclopédias, livros, cartas e gentilezas. Revista Digital. Disponível em: <http://www.revistadigital.com.br/2012/03/livrarias-enciclopedias-cartas-gentilezas/>. Acesso em junho, 2013. NORONHA, Daisy Pires, PASSARELLI, Brasilina. Departamento de Biblioteconomia e Documentação. Disciplina: Enciclopédias. Disponível em: <http://www.eca.usp.br/departam/cbd/lina/recurso1/encic.htm#conceito>. Acesso em: maio, 2014. SILVA, Maria da Conceição S. Quando o escritor toma partido: o caso de Antonio Callado. Miscelânea. Revista de Pós-Graduação em Letras, Assis, vol.9, jan./jun.2011. Disponível
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